quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Crescer é fazer escolhas!

"Em geral, chamamos de destino as asneiras que cometemos." - Arthur Schopenhauer (filósofo alemão do século XIX)

Quero começar o texto desta semana contando um mito grego do qual gosto muito, da deusa Perséfone. Ela é a deusa da primavera e vivia com sua mãe, era a eterna menina (pois é, não é de hoje que associamos primavera-juventude!). Certo dia, Hades, deus dos mortos e do submundo, apaixonado por Perséfone, raptou a linda jovem (parece horrível, eu sei, mas na Grécia Antiga era tradição que o noivo raptasse a noiva da casa dos pais como prova de seu amor, capacidade ou seja lá do que!). A mãe dela, Deméter (a deusa que garantia a fertilidade da terra) chorou e procurou pela filha por muito tempo, e quase perdeu as esperanças. Em sua tristeza, um rigoroso inverno caiu sobre a terra e alimento nenhum, nem grãos, nem frutas ou verduras podiam crescer debaixo de tanta neve. A humanidade começava a sofrer as consequências disso, muitas pessoas morriam de fome e de frio. Zeus, o pai da jovem, havia consentido o rapto e, vendo o sofrimento da mãe e o inverno que ameaçava a vida na terra (e os próprios deuses, pois sem a humanidade, quem iria cultuá-los?), ordenou a Hades que devolvesse a jovem. Enquanto isso, no submundo, Perséfone num primeiro momento ficou assustada com aquele lugar escuro e tão diferente dos bosques de primavera. Mas aos poucos foi se ambientando e conhecendo Hades melhor... Comeu sementes de romã, o alimento dos mortos, selando assim sua escolha de permanecer lá com Hades. Quando voltou ao Olimpo por ordem de Zeus, a mãe notou que a filha estava... diferente. Mais madura, era uma mulher agora, esposa de Hades e rainha do submundo. Zeus, o líder dos deuses, decidiu então que Perséfone passaria metade do ano na terra com a mãe (primavera e verão) e na outra metade (simbolizada pelas 6 sementes de romã que ela comeu) Perséfone reinaria no submundo ao lado do marido Hades durante o outono e o inverno. Lá ela atuava também como guia para os heróis que iam para lá em suas aventuras, pois é ela quem conhece os caminhos entre os mundos.

Por que comecei contando isso? Vivemos numa sociedade que tem poucos ritos de passagem. Quando deixamos de ser crianças para sermos adolescentes? Quando o corpo começa a mudar com a puberdade, alguém pode dizer. Muita gente aponta a menarca como marco de amadurecimento das meninas. Também já vi pessoas que consideram que uma criança passou a ser adolescente depois dos 12 anos. Ou quando deixa o Ensino Fundamental I e passa para o II. Complicado definir? Pense então em quando deixamos de ser adolescentes para nos tornarmos adultos! Aos 18 anos? Ao sair da casa dos pais? Quando passamos a ganhar nosso próprio dinheiro?  Ao terminar o colégio? Ao buscar/manter relacionamentos afetivos estáveis? Ao aprender a dirigir? Mas parece que nada disso é o bastante. Minha avó que tem mais de 80 anos não aprendeu a dirigir. Muitos adultos não terminaram o colégio. Outros optam por não manter relacionamentos afetivos estáveis e muita gente com idade indiscutivelmente adulta e atitudes maduras prefere não sair da casa dos pais, seja pelo motivo que for. Complicado né? Principalmente num mundo que idealiza e alonga a adolescência até não poder mais.

O mito de Perséfone é, entre muitos outros fatores, sobre crescer e fazer as próprias escolhas. Talvez Hades a tenha raptado, mas a decisão de comer, engolir, digerir as sementes de romã foi dela. Quanto mais escolhas somos capazes de fazer (e de sustentar, lidando com as consequências boas e ruins que nossas escolhas nos trazem!), mais maduros, mais adultos seremos. É importante ter consciência de que aquilo que acontece em nossa vida (salvo raras exceções) de uma maneira ou de outra foi nossa escolha (ou consequência da nossa escolha).

É natural que isso cause angústias, inseguranças e até um pouco de medo. Nem toda escolha é fácil e, mais do que isso, escolher algo sempre implica em rejeitar outras alternativas, seguir um caminho quer dizer não seguir os demais (se escolhi ser psicóloga, também escolhi não ser física nuclear, antropóloga, engenheira, historiadora, economista...). E às vezes isso dói. Não gosto do termo "escolha certa", porque afinal, o que é certo e o que é errado em termos de preferências e opções de vida?

Como então fazer escolhas harmoniosas? Que nos deixem felizes e que tragam consequências com as quais saberemos/gostaríamos de lidar? Conhecendo-se! Tendo plena consciência de quem é você, de qual a sua história e do que você espera do futuro. Uma escolha funcional não é fruto do acaso, do destino ou uma simples coincidência. É fruto de planejamento e trabalho. As emoções são importantes? Sim, muito! Mas pensar friamente na viabilidade e na aplicabilidade de uma escolha também é (seja a escolha profissional, a escolha de ter mais um bebê, a escolha de mudar de emprego ou mesmo a escolha do passeio do próximo fim de semana).

Quando estamos certos de quem somos, agimos e escolhemos de maneira mais segura o nosso caminho pela vida. Talvez até aqui o caminho não tenha sido muito bom. Mas você pode escolher mudar, seguir por um caminho diferente ou apenas dar um olhar diferente ao mesmo caminho, reparar nas flores e na beleza da paisagem, o que já muda bastante a sua realidade. Conhecer seus valores, como já dissemos em outros textos, também ajuda, pois se a pessoa sabe direitinho o que valoriza, saberá com mais clareza o que buscar e que direção gostaria de seguir. E, muito importante, sonhe. E escolha transformar seus sonhos em realidade.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Para que as rotinas?

"Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão." - Fernando Pessoa

Muita gente acredita que deve fugir delas. Temê-las. Evitá-las ao máximo. As rotinas muitas vezes são apontadas como causa do tédio na vida das pessoas, da falta de tempo para se fazer o que gosta e até do fim de relacionamentos aparentemente sólidos. E aí passam a vida tentando se livrar da rotina!

Na clínica, costumo dizer aos meus pacientes que tudo que a gente coloca na nossa vida está aqui por um motivo, seja um plano, um comportamento e até mesmo um sintoma. E inclusive as rotinas! Nós as criamos (ou pelo menos concordamos em segui-las) por algum motivo misterioso. Seja por facilitarem o dia a dia, seja por organizarem determinadas tarefas, ou apenas porque " é mais fácil assim".

No entanto, ao invés de pensar se gosta ou não de rotina, seria mais produtivo pensar de qual tipo de rotina estamos falando.

Da rotina imposta a nós por outra pessoa, que faz a vida perder a cor e cair num marasmo e, quando percebemos, temos um monte de tarefas para cumprir e nem sabemos como as tais foram se tornar parte da nossa vida? Não, muito obrigada!

Mas e a rotina que faz bem? Nosso corpo tende a se manter mais saudável com horários fixos para dormir, acordar, fazer as refeições... E a rotina escolhida por cada um de nós porque nos faz sentir bem, como a caminhada de manhãzinha ou o encontro com os amigos e familiares no final de semana? Não faz sentido fugir daquilo que nos faz bem, certo?

Algum tempo atrás, uma amiga comentou que o filho de 4 anos estava ansioso e impaciente. Perguntei se ele tem uma rotina. A criança se acalma (e nós adultos também!) quando sabe o que vai acontecer, ou melhor, quando sabe o que esperar do futuro. É importante dizer para a criança coisas como "é hora do almoço, depois será hora de brincar!" Assim a pessoa tem a chance de aprender a se planejar e também de se preparar para o que está por vir, para o futuro. Para os pequenos, recursos como musiquinhas ajudam a perceber e a marcar a passagem do tempo, a rotina e a mudança de uma atividade para a seguinte (não é a toa que escolas de educação infantil são cheias de musiquinhas!). Para o pessoal mais velho, uma agenda ou apenas uma lista de tarefas pode ajudar muito!

A rotina é boa quando nos ajuda a ter organização e a cumprir nossas tarefas (sejam elas profissionais ou pessoais). Isso nos acalma, pois nosso cérebro entende a ordem dos acontecimentos e aprende a se planejar. Por exemplo, se temos um horário para dormir e levantar, perto desses horários o corpo já começa a secretar hormônios e substâncias ligadas ao sono e ao despertar, o que facilita bastante os dois momentos. Fora das atividades biológicas, a rotina também ajuda na compreensão de atividades sociais. É importante ter horários para estudar, trabalhar, fazer as tarefas do dia a dia e também para a diversão. Não apenas por funções do corpo como sono e hormônios, mas porque assim nos tranquilizamos quanto ao futuro, diminuindo muito o estresse e a ansiedade do dia a dia.

Entretanto, a rotina não faz bem quando nos aprisiona. Quando nos tira a liberdade (e isso acontece sempre que não escolhemos aquilo que diz respeito a nós e a nossa vida!). Quando não escolhemos, a rotina imposta nos aprisionando em meio a tarefas e atividades que "temos que" cumprir apesar de não fazerem sentido algum para nós. Nunca deixe isso acontecer! Esteja muito atento ao seu dia a dia, especialmente naquelas pequenas coisinhas que tentamos dar pouca importância. Para que acordar e sair correndo, já começando o dia de mal humor se você pode se organizar, talvez levantar um pouquinho antes e ter tempo de anotar seus sonhos, meditar, tomar um café da manhã com calma, enfim, começar o dia de forma tranquila e assim ter mais vitalidade para os próximos compromissos e atividades? Pode parecer simples, mas se ganha muita qualidade de vida com pequenas mudanças na rotina.

Mas, é claro, antes de mudar alguma coisa é preciso conhecê-la! Pegue papel e lápis. Desenhe um círculo. Como é a sua órbita? Como é o ciclo do seu dia? Anote as atividades de um dia típico no círculo. Todas elas são prazerosas? Alguma delas você gostaria de modificar? Que horários "sobram" para você? Como você poderia organizar sua rotina de maneira mais harmoniosa e eficiente? Tudo aquilo que está no seu círculo foi uma escolha sua? Quanto mais escolhas a gente faz, mais autonomia a gente tem. E para isso acontecer, é fundamental conhecer sua rotina para então identificar os pontos que estão bem e os (potencialmente) geradores de conflitos.

Crie para si mesmo e/ou para sua família uma rotina funcional, que permita desempenhar as diferentes atividades e tarefas de maneira harmoniosa e saudável. E não se esqueça de deixar brechas, espacinhos de respiro. Lembre-se que até a rotina da natureza tem uma estação dedicada às flores!



quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Seu corpo conta a sua história

"Amar a si mesmo é o começo de um romance que vai durar a vida inteira." - Oscar Wilde (escritor irlandês do século XIX)

Já notou a importância que damos ao corpo no mundo em que vivemos? Pipocam salões de beleza, clínicas de tratamentos estéticos e academias, aumentam o número de cirurgias plásticas, todos querem ficar mais bonitos e parecer mais jovens. Chegamos a um ponto em que é valorizado apenas o corpo bonito (seja lá o que isso for!), jovem e saudável. Mas por quanto tempo podemos manter nosso corpo nos padrões que o mundo de hoje exige? E a que custo (financeiro, para a saúde, para a autoestima)? É aí que entram  absurdos como meninas que fazem cirurgias de aumento dos seios aos 15 anos (quando ainda nem sequer terminaram de se desenvolver!) e também transtornos como a anorexia e a bulimia, por exemplo, compulsão por exercícios, por medicamentos "milagrosos" e por aí vai. Então o corpo de hoje não "tem que" ser apenas jovem e bonito. É um corpo medicalizado, pois usa e abusa de recursos da área médica para moldá-lo aos padrões que nos fazem acreditar serem belos e saudáveis.

Um corpo saudável é um corpo integrado e amado
(por si mesmo principalmente)
Mas e as diferenças individuais?? Sim, aquelas mesmas que te fazem ser uma pessoa única e original... Até porque cada um tem a sua própria opinião sobre o que é ou não é bonito. O corpo é um símbolo de quem somos, pois ele conta a nossa história. Por trás de cada marca, postura, jeito de se movimentar, brinco, cicatriz, tatuagem, sintoma, dor, marcas de expressão, corte de cabelo, intervenção cirúrgica, entre tantos outros elementos, há uma história para contar. A sua própria história. Ela pode envolver acidentes e doenças... mas o corpo também fala sobre sua alimentação, sobre hábitos do seu dia a dia como a prática esportiva (ou a falta dela), o tipo de lazer e de trabalho, o tempo que se expõe ao sol, expressões faciais frequentes (e as emoções que as acompanham), entre muitos outros.

Aliás, o corpo não conta "apenas" a nossa história individual, conta também sobre o povo em que vivemos. O antropólogo e sociólogo francês Marcel Mauss escreveu um texto chamado As técnicas corporais (que, aliás, é um lindo texto, recomendo que quem não leu leia!). Ele afirma que cada cultura tem sua maneira particular de lidar com o corpo e de representá-lo. Indo além, mesmo dentro de uma cultura, a relação com o corpo (como o percebemos e somos percebidos, como nos arrumamos e como esperam que nos arrumemos, como nos movimentamos...) é bem diferente para cada gênero e faixa etária. O autor comenta como a divulgação de filmes americanos na França (o que, na época de Mauss, era uma grande novidade) vinha mudando as formas como os franceses caminhavam e se moviam, que aos poucos ficavam cada vez mais parecidas com os atores americanos. Isso é interessante, pois nos permite pensar que a maneira como lidamos com nosso corpo, e como nos colocamos no mundo a partir dele, é aprendida. E pode ser mudada!

É claro que, o mais importante é cada pessoa estar bem com ela mesma. E aí faz mudanças no corpo, conscientemente ou sem nem se dar conta de que caminha com a cabeça mais erguida após aquele acontecimento super esperado, por exemplo. Mas quando a mudança é feita só para estar no modelinho imposto pela sociedade, a coisa complica. Porque os modismos mudam, os discursos da mídia deixam de ser transmitidos quando param de gerar lucro. Por que apagar a sua história? A pessoa passa a vida correndo atrás de um ideal que nunca poderá ser atingido. E não apenas pela mudança constante do discurso da mídia sobre o que é belo ou feio, mas porque cada um é cada um. Quer emagrecer e ser mais saudável? Legal. Mas saiba que magreza nem sempre é sinônimo de saúde, do mesmo jeito que o sobrepeso nem sempre é sinônimo de doença. E que, se você já tem mais de 16 ou 17 anos, dificilmente voltará a ter o corpo que tinha na puberdade, lá pelos 13 anos. Quer tingir os cabelos brancos? Muito bem, eu também faço isso. Mas não se iluda, ninguém realmente pensará que a cor é natural, por melhor que fique em você e por mais parecida que seja com a original.

Mas as mudanças nem sempre são "por querer". E aí a coisa é muito mais delicada. Por exemplo, no caso de amputações, cirurgias cardíacas, de retirada de tumores, do apêndice ou o que for. Pessoas que passam por isso muito provavelmente precisarão de um tempo de adaptação maior ao novo corpo do que alguém que escolheu fazer uma nova tatuagem, por exemplo. E vale a pena consultar um profissional de psicologia para ajudar a passar pela mudança. Em crises, estar bem com você mesmo faz toda a diferença.

Outras mudanças são naturais, como o processo de amadurecimento do corpo, seja na puberdade, seja o envelhecimento. Ou as mudanças que o corpo passa durante a gravidez. Todas essas transformações, mesmo que naturais, podem ser vividas de maneira tranquila ou como um conflito, depende apenas do olhar que a pessoa der a elas.

Para terminar o texto desta semana, proponho uma reflexão. Olhe-se no espelho. O que você vê? Não pense em padrões, você não precisa ser mais/menos alto ou mais/menos magro, ou quem sabe se bronzear... Não, neste momento você apenas é como é. Sem preconceitos, procure perceber o que o seu corpo conta sobre a sua história. E sobre os seus hábitos? Se puder, tenha papel e lápis com você e anote as impressões, ideias e emoções que aparecerem. Depois leia e reflita: essa é a vida que você gostaria de ter? Claro que não mudamos o passado, ele faz parte de nós e  sempre nos marcará. Mas daqui para frente, podemos optar por seguir como vínhamos seguindo se isso nos faz bem ou mudar o que quisermos na nossa vida. Por exemplo, que hábitos poderiam ser deixados de lado e quais novos hábitos podem ser adotados? Que posturas você gostaria de mudar para viver uma vida com mais qualidade? Talvez sorrir mais? O sorriso ajuda nosso corpo a liberar uma série de substâncias relacionadas à saúde e ao bem estar, como a serotonina. 

Olhe-se com olhos críticos, pois só assim saberá se a sua vida segue no sentido que você gostaria que seguisse. Mas acima de tudo, olhe-se com os olhos do amor. Porque apenas você é você. Seja no corpo, seja na história de vida, no jeito de ser, nos planos para o futuro... Permita-se ser essa pessoa aí do espelho, faça dela a pessoa que você gostaria de ser. Ouça o seu corpo com amor, para que ele não precise falar com você através de dores e sintomas. 

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Quem tem medo do sucesso?

"O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário." - Albert Einstein

Muita gente fala sobre como ter sucesso. Passos para ser mais feliz, para ganhar melhor, para ter uma família legal... Hoje vamos falar sobre o medo de conseguir.

Você tem um sonho. É assim que tudo começa. Em algum tempo (para alguns mais, para outros menos), a cabeça sai das nuvens e os pés tocam o chão. Começamos a questionar e avaliar: o sonho é viável? Queremos mesmo fazer isso ou foi apenas uma ideia? Alguns ajustes são feitos e o sonho se torna um projeto. É aí o primeiro ponto em que muita gente se perde. Primeiro porque nem todo mundo imagina que tem uma (grande!) participação na realização do próprio sonho. O que quero dizer com isso? Como li hoje cedo, os sonhos não tem pernas, mas você tem! Ser feliz dá trabalho. Querer ter sucesso no seu plano (seja o plano ir tomar sorvete na pracinha ou algo maior como ter uma família legal ou aquela super promoção na empresa) pode exigir de nós muito mais do que imaginamos que poderíamos corresponder.

Quando você tem um projeto e quer que ele dê certo, precisa se esforçar. Planejar com cuidado, avaliar os riscos (sempre tem algum risco, mesmo que mínimo), avaliar se  quer correr esse(s) risco(s) neste momento da sua vida. Às vezes precisamos abrir mão de algumas coisas para poder ganhar outras, como me disse sabiamente uma das peregrinas que entrevistei no meu mestrado. Muita gente arruma desculpas para desistir do próprio sonho, tentando se poupar da frustração que pode vir caso não consiga ou do trabalho que dá construir um sonho. No popular, estou falando de pessoas mimadas que não sabem ouvir um "não". Ou tão inseguras a ponto do entusiasmo típico do início dos projetos não mexer com ela, pois o medo ainda é mais forte que a animação.

O sucesso não vem por sorte. Sonhos não se realizam sozinhos. Coisas boas não caem do céu no colo dos "merecedores". É tudo fruto do trabalho e das nossas intenções. Lembro sempre do conselho que uma professora me deu quando eu tinha 16 anos e buscava publicar meu primeiro livro. Aliás, consegui, ele se chama O tempo não espera. Mas voltando ao conselho da minha professora, ela me disse assim: "Quer dar certo na vida, Bia? Faça o contrário do comercial de sandálias. Não dê férias para os seus pés!" Claro que o lazer e os bons momentos são importantes, pois dão colorido à nossa vida. Mas ao mesmo tempo, as coisas só acontecem se nós fizermos com que aconteçam. É preciso saber equilibrar as coisas.

Muito bem. Você sonhou, transformou o sonho em projeto, colocou a mão na massa, se esforçou, contornou os contratempos, ajustou as falhas, está a um passo de conseguir... e aí você se sabota! Fica ansioso e se atrapalha. Ou esquece de algo fundamental. Ou esquece de colocar o despertador e se atrasa bem naquele dia do compromisso super importante. Ou somatiza uma doença que te obriga a parar (de síndrome do pânico a gastrite nervosa, passando por pequenos acidentes e quedas). Tanto faz, o fato é: no último momento você estraga tudo! Quem tem medo do sucesso? Sabotar a si mesmo também é uma das caras do medo de conseguir. Claro que não é consciente, tudo parece obra do acaso, do azar, de um acidente...

Vamos comparar a busca de um sonho com uma aventura. O herói ou a heroína recebe o chamado e, depois de questionarem a si mesmo, embarca na aventura! Haverá muitos desafios. Nem sempre será fácil, muito pelo contrário, quanto mais se avança em direção ao sonho, mais desafiadora a coisa é! Mas com determinação e força de vontade, ele chega cada vez mais perto. Enfrenta monstros e dragões, contratempos e colegas desleais, desvenda mistérios e combate opressores... Até que chega o desafio final, que é sempre o maior de todos. Às vezes é muito maior do que imaginamos que poderiam ser. É claro que os desafios dão medo, até mesmo os super heróis têm seus pontos fracos. Nunca negue isso, pois o medo é real, está mesmo lá. Viva seu medo, ele está aí para te proteger... do jeito dele, mas está! Depois respire fundo e apenas faça! Se já foi tão longe, por que desistir na última hora, tão perto do sonho? Afinal, no máximo as coisas continuam como eram. Com a diferença que pelo menos você sabe que tentou. E as batalhas, independente dos resultados, sempre nos fortalecem.

Você conseguiu! Parabéns! Permita-se viver o seu sucesso. Algumas vezes o medo do sucesso se manifesta bem agora. Se consegui o que lutei tanto para ter/fazer, porque não me sinto realizado? De onde vem essa sensação de aperto no peito? Muitos dos pacientes com síndrome do pânico manifestam os sintomas ao conseguir algo importante, como um cargo de destaque, ou montar a própria empresa, ou mudar-se para a casa maior... Por que? Quem tem medo do sucesso? Muito provavelmente a maioria das pessoas têm medo de conseguir aquilo que não é bem o que elas queriam para suas vidas. Será que não realizamos o sonho de outra pessoa, buscando o que "deveríamos" querer e não o que realmente sonhamos? Às vezes os padrões e pressões do mundo podem ser quase desumanos, e é compreensível ter medo de enfrentá-los... mas se não o fizermos, a frustração com certeza será muito maior que qualquer medo. Ou quem sabe está apenas com medo de perder o que lutou tanto para ter... E aí eu sugiro mudar as palavras: não lute, apenas conquiste.

O sucesso não é só a conquista final, é todo o caminho, não a coisa em si, mas o processo. Seja esforçado, não dê férias para os seus pés. Mas saiba apreciar as flores do caminho ao invés de pisá-las. Tenha coragem, mas respeite o medo que está aí para te proteger e avalie bem os riscos, ser corajoso é bem diferente de ser descuidado! E acima de tudo, permita-se ser a pessoa que você é, sem tentar viver o sonho dos outros.