quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Perdoar o passado e seguir em frente

"O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós." - Jean Paul Sartre (escritor e filósofo existencialista francês - 1905-1980)


A vida nem sempre é um caminho plano e florido. Algumas vezes podemos nos deparar com pedras, com buracos profundos ou com subidas tão íngremes que nos fazem duvidar da nossa capacidade de continuar. Algumas vezes, percebemos o obstáculo e habilmente o contornamos. Outras vezes, porém, só percebemos o buraco quando já estamos lá dentro. Ou só vemos a pedra quando já temos os joelhos esfolados pelo tombo. Acidentes acontecem no caminho de todos...

O que fazer? No dia 1º de novembro de 1755, a cidade de Lisboa foi devastada por um terremoto de quase 9 graus de intensidade. Não bastando isso, houve em seguida um tsunami e um grande incêndio que durou por volta de 5 dias. A maior parte das construções foi totalmente destruída ou seriamente danificada. Não se sabe o número de mortos, mas estima-se entre 10 mil e 100 mil. Desastre? Imagine só, em meio a tudo isso, uma grande onda de saques! Na ocasião, com o caos sob controle, o rei Dom José, vendo a dimensão dos estragos, perguntou ao general Pedro D'Almeida o que se poderia fazer. E a resposta foi simples, mas muito sábia: "sepultar os mortos e cuidar dos vivos".

Porque não usar as pedras do caminho para
construir algo que nos leve mais longe?
Sempre me lembro dessa pequena história. Porque algumas vezes é o que nos resta fazer, deixar ir o passado e cuidar do que ainda tem jeito. Ao contrário do que muita gente pensa na hora do problema (seja uma doença, problemas de relacionamentos, perder o emprego, acidentes ou o que for), os contratempos, maiores ou menores, não são exclusividade de ninguém, em algum momento acontecem com qualquer pessoa. Claro que muitas coisas podem ser previstas e prevenidas. Outras, no entanto, fogem ao nosso controle. Para quem gosta de escrever, se a sua vida fosse um livro, estou falando daquele momento mágico em que a história parece ganhar vida na imaginação do escritor e se desenrolar por si só. O fato é: a coisa aconteceu. E não foi agradável.

Outra vez, o que fazer? "Sepultar os mortos e cuidar dos vivos." O que aconteceu, por mais terrível que tenha sido, agora é parte de você porque ajuda a contar a sua história. E nesse sentido, o acontecimento sempre vai estar lá e sempre vai te marcar, de uma forma ou de outra. Eu sei bem como muitas vezes é mais fácil culpar outras pessoas, só porque dói tanto admitir que uma coisa realmente ruim aconteceu com a gente, mesmo que há muito tempo atrás. E sei também que em muitos casos, a culpa é mesmo do outro (por exemplo, casos de estupro, agressões ou outras formas de violência gratuita).

O primeiro passo depois da queda é avaliar os danos, admitindo assim o que aconteceu, mesmo que apenas para si mesmo. Sim, determinado fato aconteceu, faz parte da minha história e me faz sentir ... (insegurança, medo, raiva, culpa, solidão, tristeza, etc.). Avalie os danos. Desde que passou por isso, o que mudou? Quais dificuldades surgiram? De locomoção (em caso de acidentes físicos), dores, medos, insegurança, dificuldades de relacionamento... É importante, depois que algo grave acontece na nossa vida, deixar que esses sentimentos saiam. Não tenha vergonha de chorar a sua perda, seja ela a perda da saúde, da paz interior, do emprego, de um relacionamento... É como se você dissesse para si mesmo algo como "sim, aconteceu e me afetou desse jeito". Porque ignorar só vai tornar tudo mais difícil. Afinal, como superar um problema que eu não admito que existe? É como lutar contra moinhos de vento!

O segundo passo, já disse Pedro D'Almeida, é cuidar dos vivos. Admitiu o que houve, viveu o seu luto pelo tempo que precisou, percebeu as reações que o acontecimento desencadeou em você e/ou na sua vida. Agora vamos ver o que restou. O que ainda está inteiro aí? Ou o que pode ser consertado, reconstruído? Existem problemas que trazem uma solução criativa e inovadora bem escondidinha, só é preciso olhar bem. Você deve conhecer histórias assim. O grande executivo que após ser demitido ou após um período de doença ou de estresse intenso resolveu mudar tudo e abrir um restaurante porque gostava mesmo é de cozinhar e de ver as pessoas juntas e felizes. Ou a pessoa que sofreu algum tipo de violência e, ao se recuperar, tornou-se uma militante ativa pela paz ou pelos direitos das minorias. Ou o garoto desengonçado que sofreu bullying e hoje busca conscientizar outros jovens de que as diferenças são o maior tesouro que temos. Ou a pessoa que nunca teve um bom relacionamento com os pais e decidiu fazer diferente com os filhos. Existem muitas histórias como essas. Algumas vezes os diamantes mais valiosos estão escondidos sob as pedras mais brutas.

Depois do tombo, só poderemos seguir em frente se nos levantarmos. Do contrário a pessoa poderá, no máximo, se arrastar pela estrada. E, acredite, isso causará mais estragos do que tomar coragem para levantar! Essa coragem vem quando olhamos para o que houve e pensamos sobre isso e sobre o que nos causou, dando um sentido ao acontecimento, o que faz com que ele se encaixe na nossa história e ganhe coerência. A partir daí poderemos realmente perdoar. Não apenas os outros envolvidos na situação, mas perdoar principalmente a si mesmo e ao fato em si, através da compreensão e da aceitação dos nossos sentimentos. E aí sim podemos levantar e seguir em frente, ainda mais fortes do que costumávamos ser.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Necessidades e Excessos

"O consumo é a única finalidade e o único propósito de toda produção." - Adam Smith (filósofo escocês do século XVIII)

Durante minha graduação em psicologia fiz, com algumas colegas de sala, um trabalho junto a mulheres que se prostituem nas ruas de São Paulo. Durante as entrevistas, invariavelmente surgia o tema "por que essa profissão", quando nós não perguntávamos, a própria mulher começava a explicar. Nosso grupo entrevistou desde mulheres que cobravam R$5,00 (isso, cinco reais) por um programa até as que cobravam valores altos, beirando os mil reais. E todas elas sempre davam a mesma resposta, independente da pergunta ser feita ou não: faço isso por necessidade. Entrevistas feitas, começamos a questionar... quais as necessidades de cada uma? Algumas falavam de pobreza e miséria. Outras falavam sobre roupas de grife e artigos de luxo. E aí, quando eu comentava sobre o andamento da pesquisa com amigos e familiares, sempre tinha alguém que dizia "poxa, mas tanta gente também passa necessidade! Por que não foi fazer faxina? Ou trabalhar numa loja? Ou de telemarketing?" Bem, o fato é, não foram. Seja lá qual tenha sido a razão da escolha delas, ou o motivo pelo qual a vida se desenrolou dessa maneira.

 Mas o que quero discutir aqui hoje não são os motivos que levariam alguém a se prostituir, seja por escolha ou não. Quero discutir as necessidades do ser humano. Se em parte existem algumas necessidades que qualquer ser humano tem, seja lá na cultura, lugar, época ou classe social em que viva (como as necessidades fisiológicas - alimentação, água, sono...), também existem as necessidades que variam de acordo com o lugar e o contexto em que vivemos (e por contexto, pensamos desde o tempo e a cultura, até o gênero, faixa etária, ocupação...). O que para alguns é apenas um luxo desnecessário, para outros é um item de primeira necessidade. Para alguns, aqueles minutinhos a mais na cama de manhã são uma grande necessidade, sem eles o dia não começa! Já outros não abrem mão de começar o dia com caminhada e exercícios físicos, ou com um bom café da manhã, ou meditando, ou anotando os sonhos da noite anterior... É importante conhecer e respeitar as próprias necessidades, pois assim vivemos com mais qualidade.

Mas a questão começa quando as necessidades passam a ser moldadas não pelo próprio sujeito, mas impostas pelos discursos da mídia (e reforçadas pelas pessoas e instituições com quem convivemos). Uma tarde por semana atendo pessoas carentes como voluntária num ambulatório de saúde no bairro do Rio Pequeno, São Paulo. Lá, uma coisa que me chocou bastante foi a frequência com a qual adolescentes me procuravam com a queixa de que são odiados pelos pais. Não sofriam maus tratos, nem negligência, nem violência.  Quando questionados a razão do suposto ódio, vinha a resposta: "porque minha mãe disse que não pode me dar o video game / o celular novo que lançaram. Se me amasse faria um sacrifício, né?" Não, não é. Entendo a pressão social imposta por muitas campanhas publicitárias. Algumas delas são cruéis ao ponto de fazer a pessoa pensar que só será amada e feliz se tiver os artigos anunciados. Será que ter você em casa, nutrir, dar carinho, estudo e até trazer na terapia, conversar, passar bons momentos juntos, já não são mais provas de amor suficientes?

Para os povos antigos, a coisa mais importante era garantir segurança e fertilidade. Fertilidade das mulheres, mas também dos animais e da terra. Assim, com essa combinação, a vida se manteria, pois haveria a sonhada abundância. Abundância e prosperidade com as quais (em outros contextos) sonhamos até hoje. Porém, se antes a abundância significava ter todas as necessidades supridas, hoje se busca o excesso. E o problema do excesso, diz o sociólogo Zygmunt Bauman, é que ele nunca é o bastante. Nada nunca se torna excessivo porque a pessoa é incentivada a querer mais e mais, numa competição sem fim com a própria sombra.

O resultado disso? Para Bauman hoje em dia as pessoas são reduzidas a consumidores. Comprar (seja um produto, um serviço ou um afeto) é o que lhes mostra quem são, e não mais a relação com os outros. Nesse contexto que o autor propõe, quando a pessoa é vista apenas como consumidora (e é assim que boa parte da mídia nos percebe!), nossa única função no mundo é essa, consumir. Não é amar ou se divertir, ou fazer um bom trabalho, ou procurar ser um ser humano melhor. Tudo isso passa a ser, nessa linha de pensamento, algo sem sentido, que não leva a nada. Triste. E mais triste ainda é quando o produto a ser consumido passa a ser outra pessoa. Não só os usuários de redes sociais que colecionam amigos (com os quais nunca conversaram ou interagiram, são apenas mais produtos na sacola de compras!), mas também aqueles que reduzem o outro. O filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas menciona que hoje em dia as pessoas tendem a reduzir o outro a apenas uma faceta de sua personalidade. Ou melhor, a um papel ou função. E aí dá nisso: para a empresa, o funcionário não tem vida fora do horário de expediente. Para o estudante, o professor está 24 horas por dia nessa função, como não corrigiu as provas de ontem? Como que o mecânico deixou a oficina e foi almoçar? Que descaso com o consumidor!  Para Habermas, essa redução das outras pessoas a apenas uma face nos faz entrar num individualismo isolacionista. Quando não existem sujeitos, e sim papéis ambulantes, o indivíduo se sente solitário, por achar que suas dores e alegrias, seu modo de vida e suas escolhas são um fenômeno único no mundo, não consegue perceber que isso acontece na vida de todos os outros. Aliás, muitos nem se dão conta que todos os outros também têm uma vida com necessidades, planos, sucessos e fracassos... Se apenas ele é um sujeito, não existem pares com quem se relacionar!

Como contornar isso? Procurando ver a si mesmo e ver o outro como sujeitos inteiros. Mantendo o que Habermas chama de "mundo da vida", o mundo das relações pessoais e dos afetos. Sabe aquele grupinho entre amigos ou familiares tão queridos que você sente que pode ser apenas quem é, sem máscaras, sem competições desnecessárias?  Aqueles que não ligam se as suas notas nem sempre são tão boas ou se você foi ou não o funcionário do mês. Aqueles pra quem você pode telefonar de madrugada. Aqueles com quem pode apenas ficar descalça e brincar na chuva, sem pressões e sem medo de ser feliz, pois sabe que eles te amam assim como você é. Provavelmente são eles, o seu "mundo da vida", que suprem suas necessidades mais básicas: a de poder ser a pessoa que você é.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Linguagem, expressões e palavras mágicas

"O verdadeiro significado das coisas é encontrado ao se dizer as mesmas coisas com outras palavras." - Charles Chaplin

Já notou a importância que as palavras têm na nossa vida? São elas que nos permitem sair do nosso mundinho e entrar em contato com outras pessoas, criando laços e relacionamentos. As palavras nos permitem expressar aquilo que acontece no nosso interior, nossas ideias, alegrias e dores. Permitem ainda que a gente organize nosso mundo interno, quem nunca sentiu algo estranho e se acalmou ao se dar conta de  que está chateado com algo ou apenas angustiado? Elas nos permitem ainda sentir um grande alívio (por incrível que pareça, existem estudos que mostram que, quando nos machucamos, a dor diminui com o grito de "aaai!!" ou apenas com um palavrão bem empregado!). O fato é que as palavras nos permitem nomear as coisas, descrevê-las. E aí essas coisas/emoções/ideias passam a ser parte do nosso mundo interno.

Do ponto de vista da psicologia e neuropsicologia, adquirir a linguagem é algo compreendido como um dos mais importantes passos no desenvolvimento do ser humano. De tempos em tempos pais me procuram horrorizados porque o filhinho pequeno, que até então era um doce, passou a xingar. Chama os amiguinhos de bobos, a professora da escolinha de feia e até a mãe de chata. E se é repreendido faz birra! Que horror, doutora! Costumo reagir dando os parabéns. Porque isso quer dizer que a criança começou a perceber seus desejos e necessidades, notando que é alguém autônomo e separado das outras pessoas. Começou também a superar aquela fase em que dá um tapa ou uma mordida quando é contrariada, agora ela começa a expressar suas frustrações com palavras (nem sempre palavras muito bonitas). Ah, sim, claro que a partir daqui ela precisa aprender a se expressar com outras palavrinhas...

Acredito que, em algum momento da vida, todos nós já ouvimos uma daquelas historinhas cheias de magia e acontecimentos fantásticos. E muitos já devem ter percebido como as palavras são importantes nas histórias de imaginação. Era uma vez... e as palavras ditas pelo outro ou lidas num livrinho fazem a história passar a existir e também fazem uma série de imagens vivas e coloridas se desenrolarem como um filme na nossa mente. E lembre-se da palavra mágica que resolve todos os problemas. Ou então da senha secreta super poderosa que faz com que a caverna cheia de tesouros se abra. Por que quando crescemos um pouco teimamos em achar que estamos velhos demais para essa "magia" das palavras?

Vamos lá! Quais são as palavras mágicas que transformam a sua história em algo vivo e brilhante? Costumo pedir aos meus pacientes que prestem atenção às palavras que usam. Como você se descreveria (seu corpo, seu jeito de ser, etc.)? Agora, como você se descreveria sem utilizar palavras pejorativas? Isso muda muito a forma como nos vemos, a nossa identidade. Há uma grande diferença entre dizer "sou a pessoa mais distraída do mundo, nem sei como fui terminar o colégio!" e dizer "sou super criativa, consigo perceber o que poucos notam porque sei desviar meu olhar do foco principal dos acontecimentos!" Enquanto a primeira pessoa tem um problema, a segunda tem uma solução! Já falamos sobre o perigo que pode ser transformar nossas qualidades em problemas. Para recordar essa conversa, clique aqui. E quando brincar com palavras mágicas, permita-se ser livre e sair do seu mundinho por alguns momentos. Por exemplo, como descreveria seu companheiro/a, sua família, seus superiores ou subordinados, seu vizinho...? O garotinho que é "uma peste, a cruz que por azar temos que carregar" vai agir como tal. Mas se for descrito como "uma criança vivaz que está apenas vivendo sua infância", a coisa certamente muda de figura, pois nossa postura frente a ele será outra. Indo além: como você descreveria sua casa? E a casa dos seus sonhos? Como seria o trabalho dos seus sonhos ou as melhores férias da sua vida? Mais um pouquinho: como você descreveria sua vida, como contaria a sua história? E quais "palavras mágicas" poderiam ser usadas para deixar a sua história mais com o seu jeito? Por que não arriscar contá-la sob outro olhar e viver a vida que você gostaria de viver?

Certa vez um adolescente me contou o quanto ficava triste com as brigas que aconteciam na casa dele. Porque palavras são ditas no momento da raiva, no calor da discussão. E, continuou ele, algumas palavras mesmo depois de ditas e ouvidas, podem continuar machucando por anos e anos. Sócrates, o pensador grego do século V a.C., costumava dizer que palavras podem agir como o mais milagroso dos remédios ou o mais cruel dos venenos, dependendo de como são ditas. Eu sei que em muitas situações da vida precisamos dizer (ou ouvir!) coisas desagradáveis. Mas também sei que existem muitos jeitos de dizer algo, por mais desagradável que seja. Por que não optar pelo jeito harmonioso? Ele sempre existe e geralmente é mais eficaz que o jeito agressivo e faz menos estragos (em quem ouve e em quem diz).

O nosso discurso, as palavras que usamos no nosso dia a dia, são pontos fundamentais do nosso ser, contam muito sobre o olhar que damos à nossa realidade e a nós mesmos. Por que não ousar perceber a vida por um olhar que nos faça bem? O sentido que damos para a nossa existência está escrito, como que por mágica, nas palavras que usamos para contar nossa história. E escrevemos conforme vivemos e contamos (mesmo que para nós mesmos) aquilo que vivenciamos, sentimos, pensamos, percebemos... As palavras são realmente mágicas. Use-as com sabedoria.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Os muitos Eus que habitam em nós

"Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou o que? Um quase tudo." - Clarice Lispector

Existem muitos Eus dentro de nós. Cada um tem seus próprios valores, seus próprios modos de agir, suas próprias metas e intenções. Todos estão lá dentro, como personagens esperando por um sinal para entrar no palco e se mostrar ao mundo. O Eu que trabalha duro e honra todos os compromissos. Mas também o Eu que não quer nem saber. O Eu que ama festas, amigos, multidões e bagunça. Mas também o Eu que não vê a hora de chegar em casa, tomar um banho quente, vestir o pijama e ficar por algum tempo sozinho com seus pensamentos. O Eu que gosta de cuidar e o que gosta de ser cuidado. O Eu que quer a liberdade de um pássaro, vivendo bem ao lado do Eu que quer apenas a segurança de um abraço.

Não, (ainda) não fiquei louca! O que quero dizer é que existem muitos Eus, muitas personagens dentro de cada um de nós. É como uma orquestra em que a confiante talvez toque piano, a ousada toque bateria, a que valoriza tradições toque sanfona, a que gosta de contar histórias toque flauta, a que tem medo toque pequenos guizos muito baixinho, a que quer ser aceita toque um sambinha no pandeiro... cada Eu no seu ritmo, cada Eu tocando sua própria música. Bagunça? Na verdade não. Porque entre todos esses Eus que habitam em nós, existe o maestro, ou o ego, falando em termos psicológicos. Esse é o Eu que organiza os demais, mostrando quando é a vez de cada um deles se destacar, quando dois ou mais Eus precisam tocar suas músicas juntos para superar alguma dificuldade. "Ah, mas eu não! Eu sou eu mesmo, sou verdadeiro!" Não estou falando de falsidade. Porque todas as personagens são você, são parte de quem você é. E por isso, tem o potencial para agir de maneira autêntica. Complicado? Não. Olhe para a sua vida: provavelmente você não trata seus superiores no trabalho ou os seus professores da mesma maneira como trata sua avó. Nem trata os seus alunos ou pacientes da mesma maneira como trata um filho, por mais carinhosa e maternal que você seja. Também não trata um desconhecido na fila do banco como trata um amigo querido. Porque em cada um desses momentos estamos em um papel diferente. Em cada um deles o maestro nos orienta dizendo que um certo personagem é quem deve se destacar naquele momento. Além disso, é importante lembrar que existem tantas personagens quanto existem situações na vida (e formas de agir em cada situação).

Procure prestar atenção em você. Quem são as personagens que têm mais liberdade para "sair" e se mostrar ao mundo tal como são?  Alguma personagem gera conflitos (internos, com você mesmo; ou externos, com as outras pessoas)? Por exemplo, procure imaginar de que outras maneiras essa personagem conflitante poderia mudar a performance para que as coisas fiquem mais harmoniosas? A confiante não precisa atropelar todo mundo nem bater de frente com agressividade, pode dizer para que veio com calma e com respeito. Afinal, é "a confiante", não "o rolo compressor"!

Procure perceber também quais são as personagens que quase nunca (ou nunca) aparecem. Será que existem áreas da sua vida onde essas personagens "secundárias" poderiam trazer mais vivacidade e harmonia? Algumas pessoas já me disseram que gostariam de ser mais otimistas, ou mais tranquilas, ou mais extrovertidas, mas "acho que não tenho essa personagem em mim". Como não? Somos um kit completo! Estão todas aí. Talvez algumas estejam mais enferrujadas do que outras por falta de atuação ou mesmo por falta de prática. Talvez estejam tão no fundo que quase não podemos ouvir sua música. Mas estão todas aí. Convide-a para sair e tocar sua música, dançar sua dança ou apenas dizer o que gostaria de dizer.

Outra atividade interessante para conhecer suas personagens é imaginar como cada personagem reagiria a determinada situação. O que cada uma delas faria num dia de folga na praia? Como cada personagem reagiria a uma crítica? Certamente a prudente não reage a uma discussão com o companheiro/a da mesma forma que a agressiva. Nem a tímida reage a uma cena engraçada da mesma maneira que a criança interna.

Outra coisa interessante. Você vai reparar depois de alguns dias prestando atenção a isso que apesar de todos termos as mesmas personagens, elas são diferentes em cada pessoa, vão vestindo roupagens e fantasias de acordo com a forma como escrevemos sua (nossa!) história. A confiante talvez tenha se tornado "aquela que aprendeu a ser ela mesma superando dificuldades". A medrosa talvez se apresente como "aquela que, por sofrer violências, decidiu que era melhor se retrair". A personagem agressiva talvez seja "a pessoa que ataca por medo de ser atacada" ou apenas "a pessoa que precisa de afeto mas não sabe como conseguir". Cada personagem tem sua própria história. Ou melhor, cada personagem conta a nossa história de um jeito. Converse com as suas personagens. As que estão sempre aí e as que estão lá no fundo, quase caladas. Pergunte-lhes como poderiam se expressar mais harmoniosamente, em que tipo de situação cada uma delas poderia ajudar. Peça-lhes que contem suas histórias de vida, seus medos e desejos. E, acredite, elas contam mesmo! Lembre-se que para que o maestro escolha com sabedoria e eficiência qual personagem irá atuar numa situação, ele precisa conhecer muito bem a todas elas. O contato mais estreito com as personagens que habitam em nós nos dá dicas valiosas de como viver com mais harmonia e de como ser quem realmente somos.

sábado, 6 de outubro de 2012

1000 Visitas!!!


Hoje não é um texto como os outros. Hoje é um agradecimento e também um compartilhar de sentimentos. O que eu gostaria de compartilhar com vocês é a alegria de ligar o computador num belo dia e ver que já recebemos mais de 1000 visitas! Quero aproveitar para agradecer, pois sem vocês isso não seria possível.



Quando criei este blog, em meados de junho, eu não imaginava tamanha repercussão. Sinceramente. E é claro que isso me deixa muito feliz.
Nestes poucos meses de blog recebi várias mensagens de amigos antigos e dos novos, que acabei conhecendo por aqui, e que contavam como os textos os tem feito repensar a própria postura no caminhar da vida. E isso é fantástico, a ideia é bem essa! Afinal, buscar se conhecer para ter uma vida mais saudável e equilibrada nunca é demais. E por que não usar a internet, uma ferramenta que chega a tanta gente e a tantos lugares, a favor de algo que leve as pessoas a buscarem ser elas mesmas e assim terem maior autonomia, vivendo uma vida que faça sentido para elas? Talvez vocês me achem sonhadora demais, mas... por que não??
Por que contei isso? Porque vocês são parte dessa conquista!! MUITO OBRIGADA!!!

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Ser o melhor X Ser Feliz

"Nunca imites ninguém. Que a tua produção seja como um novo fenômeno da natureza." (Leonardo da Vinci - século XV)

Vivemos num mundo altamente competitivo. Isto não é uma novidade, basta olhar em volta: o funcionário do mês tem sua foto exibida em local de destaque na empresa. Um motorista fica irritado de um jeito fora do normal quando outro o ultrapassa num engarrafamento (ficando à frente incríveis dois metros!). Muitos colégios organizam as turmas de acordo com as notas dos alunos. E, em muitos deles, as turmas são rearranjadas segundo o mesmo critério após cada prova ou atividade. Boa parte dos jogos e brincadeiras são baseados em competição, um ganha e os demais perdem, mas o importante, tentam consolar, é se divertir. Até mesmo a conversa com os amigos e familiares deixa de ser uma troca afetiva para ser reduzida a contar vantagens e mostrar como somos "bons", ou pior, a falar mal de alguém (que geralmente não está lá) numa tentativa de convencer a si mesmos de que são melhores que a pessoa sobre quem se fala. E assim passamos boa parte da vida tentando mostrar para todos (ou para nós mesmos?) como somos "melhores".

Mas para que competir? A competição saudável move o nosso mundo, alguém pode responder. Isso até pode ser verdade no mundo empresarial, se bem que hoje em dia boa parte das empresas vem repensando essa postura. A competição, seja no mundo do trabalho ou no dia a dia, geralmente surge das comparações. Vejo muito isso nas famílias quando os pais comparam seus filhos/as: "Joaninha é mais esperta que o Bruninho, veja só como lê bem e é mais nova que ele!" Esquecem de comentar que o Bruninho tem outras qualidades ou outros interesses ou talvez não leia tão bem porque precise de óculos. Quando as comparações são frequentes, a pessoa que é diminuída acaba por acreditar que não deve mesmo ser muito "boa" e que precisa se esforçar ao máximo para alcançar os demais, muitas vezes sem questionar se é isso o que ela realmente gostaria. Talvez, se os próprios pais ou pessoas queridas fazem esse tipo de comentário, a pessoa comece a sentir que vive num meio muito exigente e que lhe oferece poucos apoios, não lhe permite ser como é. E temos aí os ingredientes perfeitos para uma competição desenfreada, acompanhada de sentimentos de baixa autoestima, estresse e, com o tempo, depressão ou mesmo doenças psicossomáticas. Precisamos mesmo disso? "Ah, mas competindo aprendemos a ganhar e perder, a lidar com sucessos e frustrações!", alguém pode comentar. Sim, de fato aprendemos, desde que essa competitividade se mantenha em níveis saudáveis e em contextos apropriados. O valor da pessoa não pode ser reduzido ao desempenho dela no trabalho, num jogo, num esporte, nos estudos ou no que for. Um desempenho "bom" ou "ruim" é apenas uma informação sobre uma tarefa ou atividade. É algo que aconteceu e passou, nunca algo que determina o valor de uma pessoa ou quem ela é. 

Costumo dizer na clínica que a vida não é uma corrida, é um caminho a ser percorrido com prazer, apreciando a paisagem e os bons encontros. Para pensar nesta semana: quais competições são saudáveis e quais não têm sentido na sua vida? Procure identificar com quem você compete (colegas, familiares, amigos, desconhecidos ou com você mesmo?) e se a outra pessoa realmente está competindo com você ou está apenas vivendo a vida dela, muitas vezes sem perceber suas intenções competitivas. Como disse certa vez um professor meu, procure perceber se você não estaria competindo com pessoas que cooperam com você. Mais uma: analise em quais áreas da sua vida você tende a competir mais e em quais áreas você se permite viver com maior tranquilidade. Quando competimos procuramos corresponder ao que esperam de nós, ao que "deveríamos ser" ao invés de ser a gente mesmo. Quando aceitamos entrar numa competição sem sentido, trocamos a oportunidade de escolher como gostaríamos que a nossa vida fosse, escolher o que nos deixa feliz, para apenas corresponder a um padrão. É "o melhor" em algo que não faz sentido algum medir como melhor ou pior? Meus pêsames, acabou de trocar a sua originalidade para entrar num modelinho pronto!

Que alternativas nos restam? A cooperação! Como chegar a ela? Em primeiro lugar tendo essa intenção, tendo consciência de que as outras pessoas não estão aqui para te dar rasteiras. Rubem Alves certa vez escreveu um texto muito bonito sobre relacionamentos, no qual ele diz que um relacionamento (de qualquer tipo) para ser saudável deve ser como um jogo de frescobol, em que o objetivo é não deixar a bola cair, e não como um jogo de tênis, em que os jogadores jogam bolas quase impossíveis de pegar. Aliás, jogos cooperativos são ótimas opções para exercitar a nossa cooperatividade, o frescobol é um deles, e você pode encontrar vários na internet ou livros próprios sobre este assunto, com variado número de participantes. Se você tiver crianças, elas costumam gostar bastante desse tipo de jogo, que ensina o valor da amizade, a confiança e a conviver bem com as diferenças de cada um. E por que não jogar entre adultos também? Certa vez uma paciente me ensinou algo lindo quando disse que queria jogar um jogo em que ninguém perde ou ganha, a gente apenas joga juntas e se diverte porque é gostoso ter companhia e poder contar com alguém. Experimente. A cooperação nos ajuda a nos sentirmos amados e valorizados, parte de um todo que vai muito além do nosso próprio umbigo.