quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Por que não valorizamos as boas notícias?

"Seja como for o que penses, creio que é melhor dizê-lo com boas palavras." - William Shakespeare

Vivemos na era da informação. Ninguém quer ficar desinformado. Chegamos ao ponto de ter canais de TV especializados em jornalismo 24 horas. Sites na internet constantemente atualizados com as notícias mais recentes. Mas poucas vezes se para e pensa no teor das notícias e no impacto que podem ter sobre nós.

Os sociólogos Peter Berger e Thomas Luckmann, em seu livro A Construção Social da Realidade, afirmam que construímos a realidade em que vivemos (e a nós mesmos) através da linguagem. Interiorizamos um discurso, seja ele vindo de pessoas (em especial aquelas que os autores chamam de "outros significativos", por exemplo, nossa família, amigos, companheiros, enfim, pessoas que têm uma importância maior em nossas vidas e cujas palavras também terão grande importância para nós), ou o discurso vindo de instituições, como a escola, a ciência, as religiões, a mídia... Após interiorizado (ou seja, quando lemos ou ouvimos o que foi dito ou escrito - ou ainda quando percebemos o que nos foi transmitido por linguagem não verbal: comportamentos, ações, imagens, expressões faciais...), o discurso é "digerido", passando por um processo em que refletimos sobre ele, fazendo correlações com outras informações que temos, sejam elas técnicas, pessoais, histórias que ouvimos de amigos, lembranças... Por fim, exteriorizamos o discurso, agora marcado pelos nossos próprios conteúdos. E, enquanto fazemos isso, o interiorizamos outra vez, por exemplo, quando ouvimos o que dizemos. Logo, existe uma grande quantidade de discursos e informações disponíveis para serem interiorizadas e passarem pelo processo descrito. Consensos são criados nesse diálogo que nunca para e nunca termina ou, usando as palavras dos autores, são criadas referências. Formamos assim, um conjunto de referências: ideias e símbolos compartilhados entre nós todos, também conhecido como cultura.

Faça uma experiência: passe um dia inteiro vendo e
valorizando o que há de bom na vida, em você, nos
outros,  na realidade...
Comecei toda essa conversa acadêmica para mostrar como aquilo que vemos, ouvimos ou percebemos marca o nosso mundo interno e a nossa identidade, refletindo também na nossa realidade externa. Claro que não somos uma esponja, temos crítica, ao longo da vida aprendemos a separar o joio do trigo. Mas, uma vez que conhecemos uma ideia, ainda que não nos agrade, já não somos mais os mesmos. Por que, então, não valorizar mais as boas notícias?

Entendo que, na era da informação, precisamos estar bem informados sobre o que acontece ao nosso redor. E nem sempre são coisas boas. Agora, sei também que tudo tem limite. Não basta saber que houve um terrível acidente aéreo  com X vítimas? Muitos gostam de acompanhar as investigações das causas de um acidente. Mas será que é mesmo necessário, em nome da informação, ver por dias a fio, às vezes por semanas, o choro daqueles que perderam alguém importante ou as imagens dos destroços? Qual é o limite entre a informação e a exploração da dor do outro? Na era da informação, esse limite, se existe, não é claro.

Por que, então, compactuar com isso? Veja bem, não estou defendendo a alienação, só estou questionando com que tipo de discurso temos alimentado nossas mentes. Que tipo de discurso você permite que se torne parte de você e ajude a construir sua realidade? Quais são as suas referências?

Uma curiosidade interessante é que têm aparecido mais e mais sites apenas sobre boas notícias. Pode parecer estranho, mas se existem jornais apenas sobre crimes e perseguições policiais (com grande audiência, devo acrescentar), por que não um sobre boas notícias? Um desses sites que gosto de acompanhar é o Só Notícia Boa (conheça clicando aqui), onde podemos ler desde novidades sobre músicas, filmes e livros, notícias sobre tecnologia e ciência, saúde, economia, educação e mesmo sobre acontecimentos de solidariedade entre pessoas. Por que paramos tudo para saber sobre um crime horrendo e cruel, mas não prestamos atenção a algo bom?

Uma atitude sensata seria valorizar mais as boas notícias. Já notou como o tempo dedicado a elas na TV, por exemplo, é muito menor que o tempo dedicado às tragédias, crimes ou problemas do tipo que for? Ninguém voltou a entrevistar os medalhistas olímpicos alguns meses após os jogos, como fazem com familiares de vítimas de acidentes de grande repercussão ou com acusados de crimes bizarros. O telejornal de horário nobre não reprisou aquela notícia boa sobre o vizinho que ajudou outros moradores durante uma enchente. Ou sobre o garoto simples e humilde que passou no vestibular. Ninguém foi lá acompanhar como é o dia a dia dele, como foi a rotina de estudos e o que mudou na vida dessa pessoa com o acontecimento. E, se alguma emissora reprisou a matéria sobre um novo medicamento ou vacina descoberto por cientistas brasileiros, na certa cortou a maior parte da reportagem. Por que? Por que negar a esperança?

As boas notícias (sejam da mídia, dos amigos ou dos grupos dos quais fazemos parte) são importantes porque nos trazem esperança. Nos fazem acreditar que algo melhor é possível e viável. E é a esperança o que nos faz continuar. Certa vez quando eu era estudante de psicologia, durante uma orientação para minha iniciação científica, meu orientador, Prof. Dr. Ricardo Franklin Ferreira, me disse o seguinte: "você acorda cedo e vem para a universidade todos os dias não porque gosta de aprender, mas porque tem esperança em algo melhor. Você sabe que, a cada manhã que você vem para cá, está um dia mais perto de ser a psicóloga que vai se tornar no futuro." Essa fala me marcou e me inspira até hoje. Sim, somos seres movidos pela esperança. E só há esperança quando alimentamos nossa mente, nosso ser, com bons discursos. Claro, com consciência de que coisas ruins também podem acontecer. Mas sem negar a felicidade, pois ser feliz não é um crime. Talvez por isso não dê audiência.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O que é ter foco?

"Tente mover o mundo - o primeiro passo será mover a si mesmo." - Platão (pensador grego do século V a.C.)

Hoje em dia, com a valorização cada vez maior da vida profissional, ouvimos muito sobre a necessidade de ter foco. Ter foco nos estudos para passar no vestibular. Ter foco na carreira para ser um profissional melhor e receber as regalias que isso envolve (benefícios, promoções, prestígio social...). Mas, afinal, o que é ter foco? E como saber se o temos na medida "certa" (usarei aqui o termo saudável, me nego a pensar o ser humano em termos de certo ou errado).

Todos precisamos de metas. Elas nos ajudam não apenas a direcionar nossos esforços e recursos para algo que nos faria sentir realizados e felizes, mas também fazem com que nossas ações ganhem um sentido. Seja qual for a sua meta, é muito importante que você tenha consciência dela, para que haja com clareza. Aliás, é muito bom que se tenha mais de uma meta, em diversos setores da vida. Alguém pode manter o foco em começar um novo projeto profissional, passar a fazer exercícios físicos, melhorar a vida afetiva e planejar uma viagem para as férias, por exemplo, sem que uma meta prejudique a outra. Além disso, com mais de uma meta, a chance de atingir um objetivo aumenta... no popular, é pouco provável que tudo, em todas as áreas da vida, dê errado de uma só vez!

É, eu sei, algumas pessoas com astigmatismo sentem tontura
ao olhar para esta foto. Sentiu? Visite seu oftalmo!
A primeira coisa que deveríamos perceber é se todas as nossas metas são compatíveis. Já se diz na física, dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, assim como um corpo não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. O que quero dizer? Não dá para planejar passar as festas de final de ano em casa com a família e também planejar uma viagem nessa época. Uma das metas será frustrada. É bem difícil planejar arrumar mais um emprego e também passar mais tempo com as crianças... Mas, é claro, tudo pode ser reajustado. Posso ter dois empregos e reservar os domingos como dias de brincadeiras e passeios com os pequenos. Posso planejar uma viagem com a família na época das festas. Tudo pode ser ajustado e planejado para que fique o mais fiel possível ao nosso ideal.

Mas até que ponto o foco é saudável? Costumo dizer que o foco não pode ser tão fraco que faça a pessoa se sentir perdida na vida, nem excessivo a ponto de fazer da pessoa uma bitolada que, em prol de conseguir o que quer, atropela tudo e todos que estiverem na frente, até a própria saúde. Nesse caso, muito frequente em pessoas viciadas em trabalho, os famosos workaholics, é importante parar e repensar, ir abrindo pequenas brechas aos poucos no corre corre da vida. É preciso ver que outras esferas da nossa vida são tão importantes quanto aquele super negócio com os empresários americanos... Ajuda especializada com um profissional de psicologia pode ser muito útil se este for o seu caso.

No outro polo temos o contrário. Aquela pessoa "sem foco". O primeiro ponto a ser pensado nesse tipo de caso é se a pessoa realmente não tem foco. Porque em boa parte dos casos, o que acontece é que a pessoa tem focos diferentes daqueles que a sociedade valoriza. Talvez esteja empenhada em ser uma pessoa muito presente na educação dos filhos enquanto eles ainda são pequenos. Ou em conhecer o maior número de lugares e culturas diferentes. Ou em buscar algum tipo de espiritualidade que preencha a vida com um sentido especial. Ou em tratar algum problema de saúde. Ou em algum projeto profissional extra oficial. Enfim, muitas vezes as pessoas apontadas como alguém sem foco (muitas chegam a acreditar nisso!) na verdade têm apenas um foco pouco valorizado pela sociedade, focada em produzir e acumular. Talvez ela viva bem assim. Talvez até dê risada quando lhe perguntam se não gostaria de ter um foco como a maioria.  Em alguns casos, no entanto, pode ser necessário ajustar o foco para que englobe também os setores da vida que, supostamente, vêm sendo negligenciados, pois tal como o hiperfoco em trabalho, existe a pessoa muito focada em festas, por exemplo, numa medida em que isso atrapalha o bom andamento das outras esferas da vida, como os estudos, trabalho, relacionamentos... Será que não se pode ter algum outro tipo de atividade (profissional, um curso, um hobbie...) no período do dia em que as crianças estão na escola? Ou reservar as viagens apenas para as férias, feriados e finais de semana, mantendo uma rotina mais regular nos demais períodos?

Claro, em alguns casos a pessoa realmente não tem um foco. Pode ser o caso de quem apenas se sente meio "perdido", incerto sobre qual caminho escolher. E aí será preciso repensar sobre as escolhas que faz - e, principalmente, sobre as que gostaria de fazer. Pode ser também que a pessoa tenha uma grande dificuldade em manter a atenção em um estímulo. É o caso de pacientes com déficit de atenção, associado ou não à hiperatividade. Pessoas com esses transtornos, quando começam a fazer algo (assistir um filme na TV, por exemplo), são desviadas da tarefa por inúmeros estímulos, algo que vê pela janela, o comentário de alguém, uma ideia que vem de repente... Se for o seu caso, busque ajuda com um psicólogo, pessoas com déficit de atenção e/ou hiperatividade podem sim levar uma vida normal. Ah, mas observe bem! É bem frequente que pais tragam seus filhos com suspeita de déficit de atenção só porque não faz as lições ou não vai bem na escola. Pergunto: e numa atividade que ele gosta (um jogo, um programa de TV, uma brincadeira, o video game...), ele mantém a atenção? Quase sempre a resposta é sim. Damos então a boa notícia: isso não é transtorno de déficit de atenção/hiperatividade! Pode ser um desestímulo com relação aos estudos (ou à vida profissional, no caso de adultos). Pode ser um desencorajamento com relação à escola (por fatores que vão da criança precisar de óculos, insegurança, baixa autoestima ou mesmo casos de bullying ou assédio). Pode ser que apenas não seja incentivado a estudar em casa (tem um horário e um local adequado para os estudos e tarefas?). Pode ser, ainda, que o problema não seja a aprendizagem, e sim a "ensinagem" como diz Rubem Alves. Cada caso é um caso e precisa ser avaliado com cuidado.

Há casos, porém, em que mesmo sem transtorno algum, a pessoa não consegue manter o foco. Sabe aquela velha história do grupo de estudantes que se reúne para fazer aquele trabalho super importante ou para estudar para os testes finais mas, no processo, acabam comentando sobre o jogo da seleção que transmitiram ontem, ou combinando alguma coisa para fazer no final de semana e, no fim, acabam por deixar de lado a meta - o trabalho a ser feito. Quem nunca? Pode acontecer fora do grupo também, em qualquer área da vida. O livro que você ia ler mas abandonou. O passeio que planeja mas nunca faz. A conversa importante cujo assunto é desviado para uma infinidade de outros tópicos, irrelevantes.

O que fazer para melhorar o foco? Primeiro é preciso saber com clareza qual é a meta. Algumas vezes, escolhemos a meta de acordo com nossos desejos e valores pessoais: planejar um passeio, por exemplo. Outras vezes, não fomos nós que, diretamente escolhemos a meta (estudar para uma prova, por exemplo). Segundo: não tenha dó de si mesmo! Nem sempre fazemos o que queremos quando crescemos, muitas vezes fazemos o que precisa ser feito. Não é agradável, por exemplo, para um paciente com sequelas de um AVC ter que vir à reabilitação sabendo que dificilmente voltará a ser como antes. Dói. É chato. Mas precisa ser feito. Tendo clareza da meta, essas são algumas alternativas que podem ajudar a manter o foco:
- Ter um lugar e estrutura adequada. Por exemplo, se você estudar ou trabalhar sentado à mesa, a oxigenação do cérebro (e a atenção) melhoram muito.
- Ter um período para se dedicar à atividade. Se quer passar a praticar exercícios, reserve um horário certo para sua caminhada, por exemplo. Isso dará disciplina, fará com que você crie um compromisso consigo mesmo. O mesmo vale para a hora da lição, da leitura, do planejamento do novo projeto...
- Tenha uma agenda ou listas de atividades. E risque cada tarefa conforme for cumprida. Isso não só ajuda na organização e planejamento, como também faz o cérebro visualizar o quanto já caminhamos, nos estimulando a continuar.
- Ter metas estimulantes e que você realmente queira atingir ajuda (muito!) a manter o foco.
- Pense estrategicamente. Nem sempre o caminho óbvio é o mais indicado, nem o mais estimulante, nem o mais eficaz. Ou, em alguns casos, o óbvio pode ser a solução. Avalie.

Acima de tudo, tenha metas. Metas que valem a pena e que façam sentido para você. Por mais óbvio que pareça, muita gente não se dá conta de que, se não tem meta, também não tem foco. Afinal, como focar algo que não existe? Algumas metas são mais difíceis e trabalhosas, mas, se é o que queremos para nossa vida, valem a pena. Como disse Viktor Frankl, um psicanalista austríaco que sobreviveu ao campo de concentração na II Guerra, "quem tem um porquê enfrenta qualquer como."


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Você já planejou a sua velhice?

"O importante não é por quanto tempo viverás, mas que qualidade de vida terás." - Sêneca (jurista e escritor do Império Romano, 04 a.C. - 65 d.C.)

No último final de semana estive presente no V Seminário de Psicogerontologia da UNIP, em São Paulo. Foram discutidos diversos temas ligado ao envelhecimento e aos idosos, como qualidade de vida, relação com as famílias, estratégias usadas pelo psicólogo no trabalho com pacientes idosos, doença de Alzheimer, depressão e outros transtornos que podem surgir com o envelhecimento. Mas também se discutiu muito sobre o envelhecimento saudável, que é sobre o que eu gostaria de comentar com vocês. Afinal, tanto faz se você tem 15 anos, 35, 55 ou 85, estamos todos envelhecendo!

O convívio entre diferentes gerações faz bem para todos nós,
mais jovens ou mais velhos.
Vamos começar com alguns números. Segundo o psicólogo americano Donald Schultz, que apresentou uma videoconferência no evento, em 2065, haverá mais de 5 milhões de centenários apenas nos Estados Unidos. Isso me chamou muito a atenção. Em 2010 estive presente em outro evento de gerontologia na PUC-SP, onde falou-se muito na 4a idade (idosos a partir dos 80 anos) e sobre como havia tanta gente na 4a idade em São Paulo. E agora, apenas dois anos depois, fala-se em centenários e em super centenários (120 anos). Pessoas nessas faixas etárias serão cada vez mais presentes e precisamos conhecer suas características e necessidades, para lidar com elas da melhor maneira possível. A  expectativa de vida vem aumentando de forma alarmante. Assim, se pensamos numa vida de 120 anos, seremos idosos durante metade desse tempo (dos 60 aos 120 anos). É preciso pensar não apenas em estratégias para que o processo de envelhecimento ocorra com saúde, mas também é necessário rever a visão que temos das gerações mais velhas.

Maria Luisa T. Bestetti, no ótimo texto "Falando de arquitetura em moradias para idosos", aponta que ter 80 ou 90 anos hoje em dia é muito diferente de ter essa faixa etária antigamente. Cada vez mais as pessoas têm acesso aos serviços de saúde. Cada vez mais os tratamentos são preventivos ao invés de curativos. E cada vez mais a tecnologia se desenvolve, possibilitando detectar problemas de saúde antes que se instalem no corpo. Mas não é apenas isso. Hoje a visão que temos do idoso vem mudando a passos largos. Se antes o "velhinho" estava apenas esperando pelo fim da vida, o idoso de hoje pode ser uma pessoa ativa, que faz ginástica, viaja com amigos, passeia com os netos, trabalha, cuida da família, namora, tem passatempos...

Por que então o medo de envelhecer? Por um lado, percebo com frequência os sentimentos de tédio e de vazio. Num mundo como o nosso, em que só tem valor quem produz e gera renda (financeira!), o idoso fica esquecido, é percebido por muitas famílias como um entrave na vida dos mais novos. Isso porque perdemos o sentido do envelhecer.

Imagine uma tribo ou povoado num tempo em que não havia escrita. Ou em que a escrita era reservada a uns poucos privilegiados. Os mais velhos do grupo eram quem mantinha o povo unido, pois eram eles quem sabiam e ensinavam as histórias e tradições, mantendo a identidade cultural do grupo. Nosso presente não tem sentido se não conhecermos esse contexto em que vivemos. E, se não sabemos de onde viemos, como saber para onde vamos?

Como você planeja sua velhice?
Além disso, percebo com pesar que perdemos o contato com os ciclos da nossa vida. Quase não temos ritos de passagem. Ah, tem as festas de 15 anos que voltaram a moda!, alguém pode sugerir. Bem, mas se você observar friamente, apesar de divertidas e bonitas, essas festas são só  isso mesmo: apenas festas. Não é como se a vida da garota fosse mudar dali para frente: antes dos 15 ela já usava salto alto, roupas "de mocinha", já namorava... Muitas culturas têm ritos de passagem para a velhice. No Japão, por exemplo, a entrada na velhice é tradicionalmente celebrada no aniversário de 60 anos, o kanreki. Outros povos, sobretudo povos antigos, que contavam o tempo com base nos ciclos da natureza, costumavam celebrar a menopausa, num bonito rito de passagem que dá à mulher madura a permissão de gerar frutos não mais em seu ventre, mas em sua alma, mantendo vivas as histórias e tradições. Com o rito de passagem para a velhice a pessoa meio que recebe "permissão" para voltar-se para si. Enquanto o jovem é voltado para o mundo (trabalho, festas, amigos, filhos...), o idoso pode se permitir voltar-se para si com mais cuidado e com maior liberdade, já não tem mais as obrigações de antes.

Quando Bestetti fala sobre arquitetura, diz algo semelhante. Para a autora, temos hoje a "tecnologia da praticidade". Graças aos equipamentos que temos, podemos forjar o clima que quisermos dentro de casa. Ninguém precisa mais se preparar para o inverno nem fazer grandes planos para o verão. Podemos congelar praticamente qualquer tipo de alimento. Ninguém mais precisa aguardar aquela festa de família para saborear um assado ou um prato especial. Ninguém mais precisa esperar com ânimo os primeiros frutos amadurecerem. Abra o congelador e pegue o que gostar, em qualquer época do ano ou momento do dia. Até mesmo os jardins podem estar sempre floridos e as árvores frutíferas podem ser plantadas já carregadas de frutos, pois todo tipo de planta é cultivada em estufas durante todo o ano. No meu entender, isso nos isola dos ciclos de plantar, cuidar, acompanhar o germinar e o crescimento, colher... É um mundo em que não se valoriza o apego a nada (nem o apego aos que amamos!), pois fomos educados a ter tudo ao alcance das mãos o tempo todo. E tudo, até mesmo pessoas, podem ser descartáveis nessa lógica.

E o envelhecer? Quando a gente se aliena dos ciclos, isto é, quando a gente ignora essas diferentes fases (do ano, das plantas, das estações, das marés, da lua, da vida), ignoramos a nossa própria condição como um ser vivo. Todo ser vivo se transforma. O bebê se torna criança, que se torna jovem, que vai amadurecendo mais e mais até encontrar seu próprio fim. Esse é o sentido, é nessa direção que andamos pela vida. Nosso mundo não nos permite esse desenvolvimento. Olhe para as roupas, para um exemplo bem claro. Todos se vestem como adolescentes, tanto faz se ainda é criança ou se já saiu da adolescência faz tempo. Porque é legal. Porque é prático. Porque minha turma anda assim. Porque quero me sentir mais jovem, no máximo com uns 30, mesmo que eu já tenha passado dos 50 há tempos! Quem vai saber, não é? Isso demonstra como, apesar das mudanças que já vêm ocorrendo na nossa sociedade, por exemplo o Estatuto do Idoso, que existe no Brasil desde 2003 (e que você pode conhecer clicando aqui), ainda é preciso mudar mais. Por que envelhecer deixou de ser algo natural para ser ruim?

Para compreender isso, é preciso compreender nossos medos e angústias com relação ao envelhecimento. Medo de perder o corpo jovem (será que um corpo mais maduro não tem sua própria beleza? Não pode ser atraente ao seu modo?). Medo da proximidade inevitável da morte (jovem ou velho, ninguém escapa dela). Medo de adoecer (o que, é sempre bom lembrar, pode acontecer em qualquer fase da vida). Medo de depender dos outros (como se até então não dependêssemos de ninguém para nada!). Parece-me que boa parte dos medos ligados ao envelhecimento são, mais profundamente, um certo pudor em mostrar as próprias fragilidades. Todos somos frágeis em algum aspecto, mesmo que você seja jovem e forte fisicamente. Todos precisamos do outro em algum momento. Além de compreender o que tememos no envelhecer, é preciso conhecer os idosos. O convívio entre diferentes gerações não apenas é saudável para todas elas, como também nos acalma. Acalma os jovens, que aprendem que envelhecer é algo natural e pode sim trazer muitos benefícios. Acalma ainda os mais velhos, que podem redescobrir com os jovens certa leveza na vida. E acima de tudo, é fundamental que, independente da sua idade, você faça planos. Por que não ter planos para a velhice? O que gostaria de fazer quando se aposentar? Ou quando tiver 80, 100 anos? Somos encorajados a planejar as próximas férias, a planejar o que fazer quanto terminar o colégio ou a planejar nossa vida profissional. Mas nunca ninguém te fala sobre planejar a velhice, como se estar vivo naquela fase já fosse um "bônus". Tenha planos. Planos dos bons, daqueles que nos fazem esquecer da hora. Quem tem planos vive mais e com mais qualidade, pois há algo de bom a ser buscado. Busque o que te faz feliz. Tanto faz a sua idade.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Ouvir a voz interior

"Somos feitos de carne, mas temos que viver como se fossemos feitos de ferro." - Sigmund Freud (criador da psicanálise, 1856-1939)

Hoje vamos falar sobre ouvir a voz interior. Ou sobre ouvir a voz do coração, em palavras mais poéticas. Para muita gente isso é besteira. Para muitos outros, "é claro que me escuto, o que você pensa que faço o tempo todo? Não sou um alienado!" Mas será que ouve mesmo? Pergunto porque, com muita frequência, pessoas desses dois grupos me procuram com a queixa que revela o principal sinal de que a pessoa não se ouve: "parece que a minha vida não caminha exatamente para onde eu gostaria que ela fosse". E aí vem o primeiro baque, porque quem caminha não é a vida, é o próprio sujeito! É a pessoa quem não está indo para onde gostaria, e não a vida! E é claro que aí nada mais na vida faz sentido, pois o sentido (perdão pelo trocadilho!) em que a pessoa avança não é aquele que ela gostaria.


Quando isso acontece na vida de alguém, as consequências podem ser as mais variadas, de sintomas físicos  (corriqueiros ou mais graves, incluindo alergias, dores misteriosas sem causa concreta, pequenos e grandes acidentes) a depressão, síndrome do pânico ou compulsões (por compras, por comida, por sexo, etc.), passando pelos sentimentos de insatisfação, tédio e vazio. Observe bem se você não se sente assim. Talvez não o tempo inteiro, mas em alguns momentos da vida (se você observar com cuidado perceberá que são os momentos em que "a vida" não foi para onde você esperava que fosse).

Muito bom, identificamos a raiz da questão! Quem gosta de jardinagem sabe bem que não basta cortar as ervas daninhas de um vaso de flores ou de um canteiro de legumes, é preciso remover as raízes, caso contrário ela voltará a crescer e provavelmente vai prejudicar a plantinha que estamos cultivando. O que quero dizer? Oras, não basta tentar preencher o vazio que você sente comprando tudo o que vê pela frente ou se entupindo de comida ou de remédios para dor. Nem adianta justificar a falta de esperança alegando que tem depressão/alergias/enxaqueca/etc. Vamos olhar para o problema sem medo!

O tratamento mais funcional e menos invasivo? Ouvir a voz interior. Ela pode falar com você através de sonhos (aliás, eu super recomendo a todos que anotem seus sonhos, mesmo que se lembrem apenas de uma pessoa ou uma cor ou uma sensação...). Pode falar de forma mais concreta nos planos que temos ou que gostaríamos de ter. Se você pudesse fazer qualquer coisa de sua vida, o que faria? Não precisa se jogar de uma vez num a grande mudança, comece devagar e respeite o seu ritmo. O que você gostaria de fazer num final de semana livre, por exemplo? Ir a festas? Sair com amigos? Visitar aqueles parentes que você não encontra há muito tempo? Passar o dia num parque ou na praia? Ou se permitir ficar em casa assando pão e lendo amenidades? Mas pense bem! É o que você gostaria que conta aqui, e não que que você pensa que os outros acham que você deveria gostar! Pode parecer banal pensar nas próprias preferências, mas, se eu sugerir os leitor que faça uma pequena lista com dez atividades que realmente goste de fazer, muitos terão dificuldade. Ah, e quando resolvemos ignorar nossa voz interior (porque não paramos para ouvir ou apenas porque é mais "prático" assim), ela continua falando mais e mais alto, na forma de sintomas físicos, mentais, emocionais...

Vamos lá, aqui vai uma pequena atividade para ajudar no processo de ouvir a si mesmo. Pegue uma folha de papel e dobre duas vezes, formando assim quatro espaços. No primeiro espaço, coloque o título "gosto e faço". No segundo, "gosto e não faço". No terceiro, "não gosto e faço". E no último, escreva "não gosto e não faço". Agora respire fundo e limpe a mente. Diga a si mesmo que você está protegido dos olhares e julgamentos dos outros, pode apenas ser você mesmo e ser sincero com você. Agora, preencha os espaços com pelo menos cinco atividades em cada um. Vale qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Desde que elas se refiram a você e a sua realidade, e não a forma como você acha que deveria ser. Terminou? Agora vamos ver... qual dos espaços foi mais fácil de preencher e qual foi o mais difícil? Qual dos espaços tem a maior lista? E a menor? Mais do que isso, em quais estratégias você pode pensar (e colocar em prática!) para mudar esse panorama, se for o caso? Procure se ouvir, se conhecer. Procure no seu dia a dia prestar atenção em como os ambientes, as diferentes relações, as atividades, etc. te fazem sentir. Será que precisa mesmo continuar com o que não te faz bem? Se precisar, será que não tem um jeito de tornar a coisa melhor? Percebo que a questão não é fazer o que não se gosta, afinal ninguém gosta de tudo o tempo todo. O problema é nunca fazer o que se gosta. É aí que chegam os sintomas e a sensação de vazio. E aquela impressão de que "a vida" não anda (ou pelo menos não para a direção que queremos).

É importante ouvir a voz interior e caminhar para onde gostaríamos que a nossa vida fosse. Porque no fim, a vida é nossa, e a única pessoa que você tem o compromisso de fazer feliz é você mesmo. Não quero dizer que precise atropelar os outros, mas sim que apenas nós podemos dizer as palavras que saem dos nossos lábios e apenas nós podemos caminhar com os nossos pés. Ninguém pode fazer isso por nós, ao mesmo tempo em que não podemos fazer isso por ninguém. Não basta apenas agir na vida. As nossas ações precisam fazer sentido para a gente, em palavras mais psicológicas, as escolhas precisam ser autônomas, fruto da nossa decisão pessoal e sincera. Ouça sua voz interior. E faça por você o que mais ninguém pode fazer: busque o que faz a sua vida ter sentido, faça valer a pena!