quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Situações que se repetem

"A liberdade não tem qualquer valor se não inclui a liberdade de errar." - Mahatma Gandhi (Nacionalista indiano, defensor do protesto sem violência. 1869-1948)

Pode ser que você já tenha reparado que existem situações que se repetem na vida da gente. A repetição pode acontecer na mesma área da vida: nos relacionamentos, a jovem que termina um namoro abusivo só para encontrar um novo namorado igualmente controlador, o homem que sempre é traído, o casal que não consegue conviver em harmonia por muito tempo pois sempre ocorre algum contratempo causado por outras pessoas; no trabalho: a pessoa que nunca se adapta ao ambiente corporativo, a que sempre tem problemas com os colegas e/ou superiores, a que sempre é demitida injustamente, entre tantos outros. Algumas situações podem se repetir em áreas diferentes da vida. Quando isso acontece, nós psicólogos dizemos que a pessoa generalizou. Por exemplo, a pessoa que tinha dificuldade em lidar com pais autoritários demais e repete a mesma dificuldade com os professores, chefes, policiais e outras figuras "de poder". É claro que meus exemplos são muito gerais, não há limites para as situações em que os seres humanos podem se envolver quando estão em relação com o outro.

O maior problema das situações que se repetem é que,
em geral, são como um trabalho inútil.
Por que certo tipo de situação se repete na vida de alguns de nós? Em que momento da nossa vida aprendemos e enraizamos certo comportamento, certas ideias e emoções tão profundamente a ponto de repeti-las pela vida por anos a fio? E, em alguns casos a repetição é tão sutil, tão inconsciente, que a pessoa custa a percebê-la e a aceitá-la. Mas, se não aceitá-la, como quebrar o ciclo?

Gostaria de contar a vocês o mito grego de Sísifo, e gostaria que, enquanto o ler, você procure imaginá-lo em imagens, como se fosse um filme. Vamos precisar dessas imagens em breve. Sísifo era filho do vento Éolo. Sendo filho do vento, podemos saber que ele era bastante criativo e tinha mente ágil, características atribuídas ao ar e aos ventos nos mitos, alguém esperto, que flui como o vento. Pois bem. Certo dia Sísifo precisava de favores do humano Ásopo que, por acaso, era pai de uma das amantes de Zeus. Para conseguir o que queria, Sísifo contou a ele sobre o caso da filha com o líder dos deuses. O homem ficou atônito! Que história era aquela? Ásopo foi, então, conversar com Egina, sua filha. A jovem, muito surpresa do pai saber sobre sua aventura amorosa, confirmou e, não vendo outra saída, contou toda a história a Zeus, pois não queria terminar o romance. Zeus, por sua vez, ficou furioso! E, sendo o líder dos deuses, pediu que Tânatos, a morte, levasse Sísifo para o mundo dos mortos, pois ele sabia de informações que poderiam abalar o mundo dos deuses e claramente, como bom filho do vento, não conseguia guardar certos segredos! Entretanto, como já dissemos, Sísifo era muito esperto e conseguiu aprisionar a morte! 
Ele elogiou a beleza de Tânatos e deu-lhe um colar que realçaria ainda mais sua beleza. No entanto, o colar era, na realidade, uma coleira, com a qual Sísifo manteve a morte aprisionada por alguns anos, evitando seu terrível destino. Por certo tempo, ninguém mais morria! E assim Sísifo encontrou novos problemas, desta vez com Hades, rei do mundo dos mortos. Nos mitos, ninguém escapa do destino, ninguém pode deixar de viver sua história! Zeus libertou Tânatos e Sísifo foi, finalmente, levado para o mundo dos mortos. Porém, ao se despedir da esposa, o astuto Sísifo pediu a ela que não sepultasse seu corpo. Chegando no submundo, ele implorou a Hades para ser liberto por apenas um dia, argumentando que a esposa não havia feito os ritos funerários. Na Grécia Antiga, os mortos que não recebiam os ritos não iam para o submundo, vagavam pela terra por tempo indefinido, como almas perdidas. Ele disse para Hades que queria apenas pedir para que a esposa fizesse o funeral, e então voltaria. Assim, Hades foi obrigado a libertá-lo e, mais uma vez, Sísifo driblou a morte. Obviamente, no fim do dia ele não voltou ao mundo dos mortos e Hades enviou Tânatos ao seu encalço pela segunda vez. Chegando novamente no mundo dos mortos, Sísifo finalmente pagou a pena exigida pelo enfurecido Zeus: todas as manhãs ele empurra uma pedra arredondada até o topo de uma montanha mas, quando estava quase no topo, a pedra rolava e rolava, obrigando Sísifo a reiniciar seu trabalho a cada dia, nunca o concluindo e nunca libertando-se do castigo.

Por que algumas situações se repetem na vida da gente? Vamos trabalhar com as imagens que você criou enquanto lia o mito. Gostaria que você respondesse com sinceridade a algumas perguntas para si mesmo.
- De que tamanho você imaginou a pedra que Sísifo empurrava? Alguns a imaginam pequena. Outros as imaginam do tamanho de uma pessoa. Outros, ainda, muito maiores que um ser humano! De que tamanho são os problemas e as supostas responsabilidades da sua vida no seu ponto de vista? São pesados ou são "empurrados" facilmente? A pedra é arredondada demais, difícil de ser empurrada montanha a cima? É escorregadia? Como são e quais são seus problemas? Será que são mesmo seus? E, se não forem, por que seriam sua responsabilidade?
- Como era a montanha? Pequena? Grande? Tão alta que não se enxerga o topo? De que tamanho você enxerga os obstáculos? Mesmo que seja alta, a subida é suave? Ou é tão íngreme que mais parece uma muralha de pedra? Lembre-se que esta é a sua visão dos obstáculos e dificuldades, não quer dizer que sejam assim na realidade, mas sim que este é o olhar que você tende a dar a eles.
- Como você imaginou Zeus e Hades? Como um homem comum? Muito maior ou muito mais forte que um ser humano poderia ser? Com poderes terríveis? Bonitos? Grotescos? O que eles te inspiram? Medo? Coragem? Revolta? Como você vê e como lida com figuras de autoridade (pais, superiores no trabalho, professores, Governo...)?
- Como era Tânatos, a morte? Belo tal como Sísifo disse? Horrendo? Uma massa sem face e sem forma?  Implacável ou fácil de ser tapeado? Como seria o pior problema (ou a pior consequência) que você poderia enfrentar?
- Tal como Sísifo que segue dia após dia empurrando a pedra montanha a cima, nunca obtendo um bom resultado, que tipo de situação se repete em sua vida? Permita-se aqui uma reflexão mais cuidadosa. Como eu disse antes, muitas vezes essas situações estão tão camufladas e enraizadas, que não a notamos.
Apenas cada um pode libertar a si mesmo.
Outros podem ajudar, mas  cada um  só pode viver a própria história.

Como quebrar um padrão de repetições que parecem impedir que caminhemos em direção a algo melhor? Talvez seja necessário buscar a ajuda de um profissional de psicologia. Mas um bom início é ter consciência do que exatamente ocorre: em que cenários e situações acontecem as repetições? Procure ter clareza do que acontece. Até que ponto a coisa flui como o vento e a partir de que momento (ou com quais tipos de pessoa/situação) a repetição faz todo o trabalho rolar montanha abaixo? Tendo clareza do que exatamente acontece, você estará atento para a situação, e então ela deixa de ser apenas inconsciente. Assim, quando a situação que se repete começar a se desenrolar, você tem a escolha de fazer uma breve pausa e respirar bem fundo. Olhe a sua volta e busque caminhos alternativos. Imagine outras formas como a situação poderia se desenrolar, recursos que poderiam ser usados, trilhas alternativas. E então, consciente do que se passa, escolha com sabedoria o seu caminho. Apenas da reflexão, da escolha e das atitudes pode surgir a autonomia. E só quando há autonomia há mudança.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Equilíbrio é movimento

"Viver é como andar de bicicleta: é preciso estar em constante movimento para manter o equilíbrio." - Albert Einstein (físico alemão, 1879 - 1955)

Hoje vamos começar com um breve experimento prático que costumo sugerir com frequência aos meus pacientes. Pegue um lápis ou caneta. Não, hoje não precisa de papel, só do lápis mesmo. Agora equilibre a ponta do lápis na ponta do seu dedo. Difícil? Geralmente acham que sim. Mas não pense no equilíbrio por enquanto. Perceba o que você fez quase automaticamente para manter o lápis na ponta do seu dedo: você se movimentou!

Equilíbrio é movimento,
é arriscar-se a fazer dar certo!
Muitas das pessoas que me procuram vêm em busca de uma vida equilibrada. E quando isso acontece, a conversa precisa começar com definições: o que é uma vida equilibrada para cada um de nós? Porque a minha noção de equilíbrio não é igual a de mais ninguém, assim como a da pessoa que me procurou ou a da pessoa que lê este texto. Em todos os casos, no entanto, me parece que aquilo que cada um chamaria de "vida equilibrada" está diretamente ligado ao ideal de si mesmo, à "identidade mito" sobre a qual conversamos em outro texto (para rever, clique aqui!). A identidade mito é como um ideal que temos de nós mesmos. E, sempre é bom dizer, os ideais nunca são atingidos. Ainda assim, é importante tê-los e conhecê-los, pois são os ideais que nos guiam na busca do possível e do viável, os ideais estão muito relacionados aos valores de cada um, ao que cada pessoa valoriza em sua vida.

Qual mito você vive? Ou, perguntando de modo mais usual, quem você gostaria de ser? Procure responder a pergunta para si mesmo. Se quiser aproveitar o lápis do exercício que fizemos no começo e escrever a resposta, melhor ainda! Muitas pessoas reagem com espanto quando pergunto isso. "Quero ser eu mesmo, não queria ser mais ninguém!" E a ideia nem é essa! Mas, você talvez já tenha percebido, existem vários de você aí dentro, e todos eles são legítimos e verdadeiros. Procure descrevê-los e perceber em que tipo de situação cada um deles aparece. E procure perceber de quais você gosta mais. Procure descrever o ideal, se você só pudesse escolher um. Quanto mais detalhes você usar em sua resposta, melhor. Outra vez, o ideal nunca é atingido! Então, é claro, parte deste exercício envolve usar a imaginação. Talvez outra pergunta te ajude a definir seu eu ideal / identidade mito: se um dia, daqui a muitos anos, alguém perguntar sobre sua vida, que história você gostaria de contar?

Identidade mito definida, vamos em busca do equilíbrio! Volte lá em cima e leia a frase de Einstein com a qual abrimos a conversa desta semana. Agora, lembre-se do primeiro exercício. Parece que uma das chaves para manter uma vida equilibrada é o movimento constante. O que quero dizer? Na física clássica existe o conceito de "equilíbrio estático", segundo o qual as forças que atuam sobre um corpo em repouso manterão o objeto imóvel desde que o módulo resultante seja igual a zero. Acontece que, voltando para o campo da psicologia,  nós, seres humanos, não somos corpos em repouso. Estamos em constante movimento externo e interno. E precisamos disso para manter nosso equilíbrio. Assim, uma vida equilibrada nunca pode incluir uma coisa só. Se fosse assim, o que haveria para equilibrar? Não, para ter equilíbrio precisamos encher os dois pratos da balança!

Em termos de buscar uma vida equilibrada,
equilíbrio estático  só funciona se você for uma pedra!

Talvez alguém tenha definido como ideal de eu ser um profissional de destaque em sua área de atuação. Cabe, então, falar um pouquinho sobre papeis. O que se espera de um profissional que é visto como referência em sua área? A resposta óbvia seria "que trabalhe muito bem". Mas o que se precisa para trabalhar bem? Passar por constantes atualizações, cumprir prazos e horários, desempenhar suas tarefas com dedicação, tratar os clientes com respeito e consideração... Mas será que é apenas isso? Claro que não! Reparem que não saímos da esfera do trabalho e, para haver equilíbrio, como já dissemos, precisamos atingir mais esferas. Talvez um bom profissional, para tornar-se referência, precise cuidar da saúde, da alimentação... Quando não estamos bem o trabalho (ou os relacionamentos, os estudos, a diversão, o que for) não rendem da mesma maneira. Talvez o excelente profissional precise se permitir conviver mais com a família e os amigos, socializar... Talvez precise se divertir mais, não imagino um bom profissional como uma pessoa ranzinza e bitolada! Só há equilíbrio quando a diversidade (seja a nossa própria diversidade interna ou a diversidade social) é valorizada e respeitada. Diferentes lados de nós mesmos ou diferentes esferas da nossa vida precisam coexistir em harmonia, cada um precisa de um tempo e espaço adequados para ser.

Enfim, cada pessoa, de acordo com o ideal que estabelece para si, pode pensar nos papeis que estão incluídos naquela personagem e, conforme os próprios valores, pode ter clareza do que exatamente está tentando equilibrar. Como equilibrar algo se não sabemos de quais coisas estamos falando? Neste processo, provavelmente será necessário estabelecer prioridades, tomar atitudes e fazer mudanças, um verdadeiro plano de ação. E ação significa agir. Equilíbrio é movimento. Independente da meta ou do estilo de vida almejado, uma coisa é certa: para manter o equilíbrio e a coisa funcionar, alguma atitude terá de ser tomada!

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Todos eles estão errados!

"Eu não estou só quando me contemplo no espelho, estou possuído por uma alma alheia." - Mikhail Bakhtin (linguista e crítico literário russo, 1895-1975)

A nossa conversa desta semana, como alguns de vocês já sabem, é sobre autoestima. Antes de começar, quero pedir ao leitor que lembre de situações em que alguém tentou convencê-lo de que você era inadequado. De que você nuca seria ninguém e de que você não valia o ar que respirava. Agora respire fundo e ouça com atenção: todos eles estão errados!

Agora sim, vamos começar com o mito de Narciso, que fala sobre beleza e sobre gostar de si mesmo (notem como dizemos que alguém é narcisista quando a pessoa olha para si em demasia e acaba por atropelar todos os outros). Narciso era um jovem grego, filho da ninfa Leríope e do rio Cefiso. Ele tinha uma beleza muito acima da média, o que chamava a atenção de todos para o rapaz. Na mitologia (e na vida!) sempre que alguém está fora da média, se torna um alvo, mesmo quando a característica é "boa", como alguém muito inteligente, muito sociável ou muito bonito, como era o caso de Narciso. Quando o menino nasceu, sua mãe o levou ao Oráculo, como era costume entre os gregos, e lá lhe disseram que Narciso ficaria bem desde que nunca contemplasse a própria imagem. O tempo passou e conforme o bebê crescia, sua beleza só aumentava. Ele chamava a atenção de todos por onde quer que passasse, sempre era muito admirado. Entretanto, apesar de tantas e tantos se interessarem por ele, Narciso nunca se interessava por ninguém! 
"Narciso" (1594-1596), obra de Caravaggio.
Enquanto isso, no Olimpo, Zeus se preparava para ir encontrar-se com uma de suas (muitas) amantes, e pediu à ninfa Eco que fizesse companhia a sua esposa, Hera. Enfurecida pela situação, Hera amaldiçoa a ninfa, fazendo-a perder a voz. Dali em diante, Eco só poderia repetir o que outras pessoas falassem. Acontecia que Eco, como tantas outras jovens, era muito apaixonada por Narciso. Certo dia ela foi até ele, que a rejeitou. Desolada, Eco perdeu toda a alegria de viver, transformando-se em pedra (note que lugares com muitas pedras sempre fazem Eco!). Quando Narciso, sedento, foi a um lago para beber água, viu sua imagem e encantado, pergunta: "quem está aí?" Eco responde "aí!" Narciso, intrigado com a bela imagem, insiste: "quem é você?" E Eco apenas responde: "você!" Intrigado e muito apaixonado pela linda e misteriosa imagem que via, Narciso tentou beijá-la e caiu no lago, morrendo afogado. No lugar em que morreu, nasceu a flor que chamamos de Narciso.

Você já deve ter percebido como, quase sempre que se fala em autoestima, se fala sobre estética, sobre o corpo e ideais de beleza. Ou melhor, sobre como deveríamos amar e aceitar nosso corpo com as características que ele tem. Para o linguista e crítico literário russo Mikhail Bakhtin, o corpo é um conjunto de sensações, necessidades e desejos. Assim, nosso corpo não é um objeto, mas sim um instrumento que nos permite viver e interagir e, nessa interação, construir o mundo e a nós mesmos de maneira estética. A estética, para o autor, não é a beleza em si, mas os atos ativos e criativos que somos capazes de ter. Repare como o sujeito é frio consigo mesmo. Veja, por exemplo, uma mãe com seu bebê: ela se refere ao corpo do pequeno de maneira afetuosa, as mãozinhas, o pezinho... Sobre si mesmo, o sujeito não se refere com afeto: suas mãos (e não suas mãozinhas) são instrumentos que lhe permitem agir no mundo, seus pés (e não seus pezinhos) lhe permitem trilhar seus próprios caminhos. São instrumentos que me permitem agir na realidade e ser quem sou, não objetos do meu afeto! Para Bakhtin, apenas o outro pode ser objeto do nosso amor ou dos nossos afetos (bons e ruins). Lembre-se que ele era um linguista! Se EU sou o sujeito, o OBJETO precisa estar fora de mim! Assim, o mito de Narciso é a exceção que nos explica a regra: ao se apaixonar por si mesmo (ou por sua imagem?), Narciso encontra seu fim. Mesmo sobre os narcisistas de plantão, Bakhtin afirma "o egoísta age como se amasse a si mesmo". 

"Porque só o outro podemos abraçar, envolver de todos os lados, apalpar todos os seus limites: a frágil finitude, o acabamento do outro, sua existência aqui e agora são apreendidos por mim e parecem enformar-se com um abraço."  (Mikhail Bakhtin - Estética da criação verbal, p. 38)

Assim, começamos a formar nossa identidade quando ouvimos o discurso do outro, que nos conta que somos algo no mundo, separados do mundo e separados do outro que nos fala. O corpo precisa do reconhecimento do outro para saber quem é. Nesse sentido, apenas o discurso é real, pois é o discurso (em grego, o mythos) que permite que algum sentido nos preencha, dando forma ao nosso corpo e ao nosso ser. E é aí que passamos a pensar a autoestima não apenas como algo do corpo, mas como algo do ser enquanto um todo. Apenas ao todo podemos atribuir algum sentido (através do discurso/mythos). Bakhtin, enquanto crítico literário, nos mostra algumas formas de relação entre a personagem e o autor de uma obra literária, pensamento que, insisto, pode ir além da literatura e expandir-se para nossa vida diária. A primeira forma seria a personagem que domina o autor. Fora dessa personagem não há um ponto de sentido em que o autor possa se apoiar, a obra perde seu fio condutor. A segunda maneira é quando a personagem é obediente demais ao autor, fiel demais ao seu planejamento inicial, aquela personagem sem vida, que não desenvolve. Outra forma seria quando o autor domina a personagem, realizando-se através dela. Por fim, existe a personagem que é autora de si mesma, que surgiu com o planejamento do autor, mas que, no diálogo com ele ao longo da trama, constrói a si mesma. Penso que este último modelo de relação seria o ideal para a "vida real", pois é o que nos permite sermos ao mesmo tempo autores e heróis da nossa história.

Mas e a autoestima, como fica? Discordo desse termo, "autoestima". Porque, como disse Bakhtin, os únicos a quem podemos amar e estimar são aqueles que estão fora de nós, os outros. Entretanto, acho muito importante o respeito por si mesmo. Seja o respeito através de cuidados e hábitos saudáveis, seja o respeito de se permitir ser quem se é. Além disso, um ponto fundamental para uma vida saudável (e a autoestima é sim algo fundamental para se viver com saúde), é acreditar em si mesmo. Todos eles que um dia tentaram te fazer desistir estão errados. Porque seu corpo é o seu instrumento, só você pode caminhar com os seus pés ou dizer as palavras pelos seus lábios. Só você pode saber até onde gostaria de ir e para onde vai. Eles, os outros, só podem gostar ou desgostar. Mas esta é uma escolha deles. E nós não temos nada com isso.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A dor da frustração

"A recordação da felicidade já não é felicidade; a recordação da dor ainda é dor." - Lord Byron (poeta britânico, 1788 - 1824)

Vamos começar a conversa de hoje com o mito egípcio de Ísis. Ela era a deusa da cultura e dos mares. Era também a deusa mãe dos mistérios da vida, podia adiar a morte, curar e interferir nos destinos dos seres humanos. Ísis era casada com seu irmão Osíris, que fora assassinado por outro irmão deles, Set. Inconsolável, Ísis cortou os cabelos e rasgou suas vestes, lamentando a morte do amado enquanto perambulava pela terra como uma mulher de carne e osso. Chegando na Fenícia, a rainha Astarte se sensibilizou com a situação da pobre mulher e a acolheu como ama de seu filho pequeno. Ísis afeiçoou-se ao menino e resolveu fazer um ritual para imortalizá-lo. Entretanto, Astarte chegou durante o processo e, horrorizada, retirou o filho do fogo, interrompendo a magia de Ísis que, por conta disso, revelou à rainha que era uma deusa e explicou-lhe sua real situação. Astarte contou à deusa que sabia onde estava o corpo de seu amado Osíris, na árvore que ficava no centro do palácio. Ísis levou o corpo do marido para que fosse sepultado. Entretanto, Set descobriu e, furioso, partiu o corpo de Osíris em inúmeras partes e jogou os pedaços no Nilo. A busca de Ísis se tornara ainda mais difícil, pois precisava encontrar e montar todos os pedaços. Quando o corpo de Osíris estava completo, Ísis inventou o processo de embalsamamento e seu amado voltou a viver, tão vivo quanto fora antes de ter sido assassinado! Inclusive, depois disso tiveram um filho, Hórus, que após derrotar Set, se tornaria o primeiro rei dos vivos no Egito.

Por que é difícil lidar com as perdas?
Comecei com o mito de Ísis porque ele ilustra bem o processo pelo qual nós todos passamos quando sofremos alguma dor muito grande: lamentamos a perda, buscamos por uma totalidade e superamos obstáculos para que então nos percebamos inteiros outra vez. Isso é interessante porque mostra algo sobre o que raramente se reflete hoje: formas para superar a dor. Não se pensa nisso porque a dor já não é mais parte da nossa vida. Seja a dor da perda de alguém que amamos ou uma simples dor de cabeça. Não toleramos a dor. Um jeito muito simples e concreto de verificar isso é perguntar a alguns colegas quais medicamentos eles trazem na bolsa. Talvez você se surpreenda com a quantidade de remédios que algumas pessoas carregam mesmo sem estarem doentes. Porque pode aparecer aquela dorzinha de cabeça chata... Porque pode ser que a menstruação venha e traga cólicas... Porque pode ser que a comida enlatada do almoço me faça mal... Porque talvez eu não saiba outra forma de mostrar o quanto me importo comigo mesma. Ninguém tolera a dor!

Mas e quando a dor não é no corpo? Imagine a frustração de se sentir dilacerada por dentro ao receber uma notícia triste ou quando algo importante para nós não saiu como o planejado e não poder tomar um analgésico sequer! O que resta? Lamentar, juntar os pedaços e reconstruir, tal como fez Ísis. E, quem sabe, de tudo isso ainda haverá algum fruto?

Vejo a baixa tolerância à dor como uma das muitas faces da baixa tolerância à frustração (outras faces podem ser o medo exagerado de se envolver - com uma atividade, com um relacionamento ou com a gente mesmo; a resistência às mudanças; diversos tipos de compulsões; medo de se expor ou de assumir o que quer, entre tantas outras faces). Vivemos numa sociedade que prega que precisamos ter muito, mas que nunca se lembra de nos contar o quanto teremos de trabalhar para estarmos onde queremos chegar. É um mundo que tenta nos dizer que devemos ser, sempre, pessoas de muito sucesso em todas as áreas da vida. Mas qualquer pessoa sabe que nem sempre é assim. Nem sempre as coisas saem como planejamos. O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) certa vez disse que "nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram." Frustração! Por que não sabemos lidar com ela?

Pequenas frustrações do dia a dia: como as vemos
mostra como lidaríamos com frustrações maiores. 
Percebo na clínica, ao lidar com meus pacientes, que normalmente as pessoas que mais têm dificuldade para lidar com as frustrações da vida são aquelas que têm menos recursos para lidar com as perdas e as dores (naturais da vida), seja por perceberem o meio em que vivem como exigente demais, seja por colocarem para si mesmas metas muito além do seu alcance. É claro que sonhar e ter metas é importante! E que bom se elas forem grandiosas! Mas é preciso ter consciência do tamanho dos nossos passos. Se um estudante quer, digamos, entrar na faculdade, precisa passar por todas as séries escolares que vêm antes do vestibular, precisa estudar, ter períodos de respiro para aliviar o estresse... Enfim, nossas metas exigem envolvimento e dedicação. Cair de vez em quando faz parte. Mas, com certeza, as quedas serão menores e machucarão menos se forem calculadas. Quem já andou de skate ou de patins provavelmente lembra da primeira lição: aprender a cair de um jeito que machuque menos. Isso é fundamental. Como fazemos isso na vida? Calculando nossas metas! Voltando ao exemplo, se quero entrar na faculdade mas ainda estou no primeiro ano do Ensino Médio, vou me frustrar em dezembro. Porque nenhuma faculdade me aceitará antes que eu termine a escola, por mais bonito que o meu sonho seja e por mais que eu tenha me esforçado. Vamos, então, separar a nossa meta maior em uma série de metas menores e mais "alcançáveis": frequentar as aulas, fazer as tarefas, fazer um resumo das matérias, escolher uma boa universidade, um curso interessante... Isso nos aproxima da meta maior e nos acalma, pois saberemos que a conquista veio do nosso esforço, não de uma "sorte" que depende sabe lá de que. E se a conquista depende de nós, podemos nos esforçar para chegar até lá!

Mas e as frustrações? Claro que também podem acontecer com metas menores. Mas provavelmente, perder uma batalha dói menos que perder a guerra. E, por um lado, as pequenas frustrações têm seu lado bom, pois mostram que o caminho que seguíamos não estava dando certo. Ou melhor, mostra que é hora de recalcular a rota! Para o estudante do nosso exemplo, ávido por ir para a universidade, certamente será frustrante tirar uma nota baixa em matemática. O sonho fica mais distante... Mas agora ele sabe que precisa se dedicar mais a esse ponto, ou talvez mudar seus métodos de estudo, esclarecer suas dúvidas...

A frustração pode ser uma grande força que nos empurra para as nossas metas, desde que saibamos vê-la além da dor. A dor tem o seu momento de existir, o mito de Ísis nos mostra isso. Dói ver que aquilo que foi sonhado não se concretizou. Estranho seria não sentir nada! Mas a frustração também nos mostra que é preciso reconstruir. A dor precisa se tornar potencial de ação, talvez aquela revolta/indignação que nos leva a tomar uma nova atitude. É preciso saber caminhar em meio aos obstáculos do caminho, percebendo-os e desviando, talvez tropeçando, mas sabendo cair e tendo forças para levantar e continuar.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O que os seus sonhos dizem sobre você?

"Sonhar é acordar-se para dentro." Mário Quintana (escritor brasileiro, 1906-1994)

No mundo corrido em que vivemos, pouca gente dá a devida importância aos sonhos. Ou, quando tocamos nesse assunto, logo interpretam a palavra "sonho" no sentido de um plano, algo que queremos muito realizar. Isso também é importante. Mas hoje a nossa conversa é sobre outro tipo de sonho, aqueles sonhos sonhados à noite, enquanto dormimos. Ah, comigo não porque eu não sonho! Sonha sim. Todo mundo sonha diversas vezes por noite, especialmente quando o nosso ciclo de sono entra no estágio REM, fase em que nossos olhos fazem movimentos rápidos e o cérebro funciona numa frequência semelhante à da vida desperta. Em uma noite de sono, um adulto passa por 4 ou 5 períodos de sono REM, quando com certeza sonha e quando tem sonhos mais vívidos.

Os sonhos sempre intrigaram e chamaram a atenção da humanidade. Um dado interessante é que a visão que temos sobre os sonhos se transformou no ano de 1900, quando Sigmund Freud publicou A Interpretação dos Sonhos (na minha opinião uma de suas melhores obras, que vale muito a pena ler!). Até então, pouco se sabia sobre sonhos, que geralmente eram atribuídos a agentes sobrenaturais: deuses, demônios, fadas, anjos, espíritos... Para algumas tribos do Pacífico, o sonho é tão real quanto a vida desperta. Assim, se uma jovem sonha que se casou com um dos rapazes da tribo, por exemplo, eles já são considerados casados. Na Grécia Antiga, os sonhos eram vistos como remédios. Era bem comum que o doente levasse sua klinikos (leito, aquilo sobre o que se deita) para o templo de Esculápio, o filho médico do deus Apolo. No templo, após certos rituais, os doentes passariam a noite dormindo e sonhariam com a cura. Como curiosidade, daí vem o termo "clínica". Mais tarde, na Idade Média, os sonhos bons eram considerados inspirados por Deus e os ruins pelo demônio. Desse período histórico datam inúmeros casos de "bruxas" que se reuniam entre si e/ou com demônios em sonhos. Depois disso, os sonhos continuaram a ser vistos de maneira supersticiosa e, ainda hoje, muita gente olha para eles desse ponto de vista. Se entrarmos numa livraria qualquer, encontraremos inúmeros livretos que trazem os significados dos sonhos de forma supersticiosa, com significados prontos e até números para apostas!

Sonhos que retratam o desejo de voltar ao útero
materno, sentir-se protegido, aceito e amado
são muito comuns em crianças e adultos.
Freud foi um dos primeiros a olhar para os sonhos do ponto de vista científico moderno, apontando que eles não tinham relação alguma com seres sobrenaturais, mas contavam muito sobre a pessoa que sonha. Assim, para Freud, os sonhos são realizações de desejos. Ele cita o exemplo de sua filhinha pequena que queria muito comer os morangos que seus pais dariam de presente a uma pessoa que iriam visitar. Como a menina não podia comê-los, sonhou que realizava este desejo. É claro que nem sempre (aliás, quase nunca) os sonhos são tão literais. Conforme crescemos, desejos muito mais complexos são arquitetados pela nossa psique que, para não causar desconforto, disfarça essas ideias inconscientes através de simbolismos. E aí temos aqueles sonhos confusos em que uma pessoa pode ser representada por outra, ou ainda por objetos, lugares... Carl Jung, contemporâneo de Freud, ampliou o conhecimento sobre sonhos ao explicar que o papel deles não seria apenas o de realizar desejos que sequer desconfiávamos ter, mas especialmente o de reequilibrar a psique, pois o ambiente do sonho permite a livre expressão dos nossos diferentes arquétipos, das "personagens" que moram dentro de nós (para rever uma conversa sobre arquétipos, clique aqui). De qualquer modo, hoje sabemos que os sonhos são uma importante carga emocional que muito conta sobre nós mesmos e sobre as situações pelas quais passamos. É claro que muito dificilmente esse processo é literal (arrisco dizer que quase nunca) e os símbolos contidos no sonho podem variar muito de acordo com a cultura em que fomos criados, com o momento em que vivemos e com a nossa própria história de vida. Por exemplo, sonhar que abraçamos nossos pais pode ser visto de formas distintas por alguém que acabou de sair da casa dos pais, por alguém que não tem uma boa relação com eles ou por alguém que nunca chegou a conhecê-los.

Mas para que lembrar dos nossos sonhos? Além de ser uma ótima oportunidade de nos conhecermos melhor, como Jung apontou, trabalhar com os nossos sonhos nos permite equilibrar nossa psique e acompanhar este processo. Nosso mundo interno anseia por se mostrar a nós. Se não damos atenção à sua forma de comunicação mais "amigável", os sonhos por exemplo, mas também as fantasias, atos falhos... logo ele precisará gritar para passarmos a ouvi-lo. E aí podem surgir sintomas, pesadelos, emoções desagradáveis, acidentes... 

Algumas estratégias para recordar dos sonhos:
- Ao deitar na cama, logo antes de adormecer dê a si mesmo a instrução de que você se lembrará dos sonhos que tiver naquela noite. Parece simples, mas costuma dar resultados em poucas tentativas.
- Escrever um diário de sonhos costuma ser uma experiência muito agradável. Muitos pacientes relatam que apenas o fato de dormirem com papel e lápis perto da cama já ajuda a lembrar dos sonhos. 
- Anote os seus sonhos, de preferência, logo pela manhã, antes que a correria do dia a dia diminua essas memórias. Aliás, anote mesmo quando não lembrar. Quem sabe você se lembra de uma cor, ou de uma emoção, de uma sensação... isso também são dados importantes e, com o tempo, memórias mais claras começarão a vir.
- Não troque de posição logo ao despertar! Muito da nossa memória é corporal e manter-se na postura em que despertamos por uns poucos momentos pode ajudar as memórias a virem com maior facilidade.
- De maneira geral, quanto mais atenção você der aos seus sonhos, mais se lembrará deles e mais claros eles serão.

Como disse o mitólogo norte americano Joseph Campbell, "Os mitos são sonhos públicos, os sonhos são mitos privados." É interessante prestar atenção a isso. Quais temas são frequentes nos seus sonhos? Quais pessoas, personagens ou arquétipos aparecem mais e quais aparecem menos? Muitas pessoas que gostam de mitologia costumam dizer que os mitos romanos são iguais aos gregos, apenas foram traduzidos. E isso é um grande erro! Porque, apesar de existirem mitos muito semelhantes em que os romanos fizeram uma releitura dos mitos gregos, mesclando-os a outros elementos, se olharmos o ponto de vista através do qual cada um dos povos conta seus mitos, o leitor mais atento logo notará que os gregos contam pelo ponto de vista da razão e do equilíbrio, já os romanos focam na conquista (amorosa, de um povo, de territórios...). E isso muda totalmente as histórias, porque o fio condutor é outro! E você, ao olhar para sua "mitologia pessoal" (folhear a esmo o seu diário de sonhos será muito útil agora), qual é seu fio condutor? Quais são seus valores?

Pessoalmente, gosto muito de trabalhar com sonhos. Tenho o costume de anotá-los desde adolescente e oriento meus pacientes a fazerem o mesmo. Não apenas porque, enquanto terapeuta, os sonhos dos meus pacientes podem facilitar o meu trabalho e enriquecer as consultas. Mas porque, para a própria pessoa, ter uma visão clara dos seus sonhos (e, portanto, de seu mundo interno) pode ser um excelente mapa de como andam as coisas no mundo externo. E, independente de qual seja o seu caminho, sempre convém ter por perto um bom mapa!