quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O novo só vem quando surge um novo Eu

"Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos." - Eduardo Galeano (jornalista e escritor uruguaio contemporâneo)

Daqui para frente tudo vai ser diferente. A partir de agora minha vida vai mudar. Sinto que tudo vai melhorar. Provavelmente você já ouviu pelo menos uma destas frases, ou alguma parecida. Quem sabe não foi você mesmo quem disse uma delas! Afinal, quem nunca? É claro que de tempos em tempos nossa vida passa por mudanças, transformações e renovações. Muitas vezes queremos isso. Outras vezes nem queremos tanto, mas sabemos que precisamos das mudanças para que nossa história avance no tempo.

Mas hoje vou falar daquelas situações da vida em que precisamos tanto da mudança e ela não acontece. Você sabe do que estou falando. Aqueles momentos em que olhamos para a nossa vida e não parece que ela é nossa. Quando a vida que vivemos parece ir na direção oposta da vida que sonhamos, é muito saudável desejar que boas mudanças aconteçam.

O que exatamente você gostaria que mudasse? Muita gente
sente dificuldade em perceber isso.
 Antes de tudo, me parece sensato identificar o momento pelo qual estamos passando. O primeiro caso é a  pessoa que sente com frequência sintomas como ansiedade, nervosismo, irritação maior do que o comum para o contratempo em questão, tristeza, medos, inseguranças, desânimo e até sintomas psicossomáticos (de alergias e resfriados constantes a problemas como hipertensão, infecção urinária, gastrite, problemas no ciclo menstrual e até mesmo doenças mais sérias). Essa pessoa está sendo avisada por seus sintomas de que algo não vai bem. Alguma coisa (ou várias coisas) precisam de mudanças em sua vida. E, se a pessoa já notou que esse tipo de sintoma ou sentimento surge em determinados momentos chave, fica bem mais fácil de perceber isso. Converse com seus sintomas (físicos ou emocionais). Vá para um lugar tranquilo, sente-se confortavelmente, respire fundo e pergunte ao sintoma por que ele está aqui. Procure observar em que tipo de situação ele aparece ou se intensifica. Pergunte o que o sintoma gostaria de te mostrar e até do que ele está te protegendo. E acredite, o sintoma responde mesmo! Conte ao sintoma como você se sente frente à sua vida ou à situação problemática (você pode inclusive perguntar ao sintoma quais seriam as situações problemáticas na sua vida que ele está tentando apontar, caso você não tenha clareza disso). Enfim, pode dizer ou perguntar o que quiser ao seu sintoma. E não se esqueça de agradecer no final da conversa, ele está aí para te ajudar! De um jeito torto e dolorido, mas está.

Outro caso, são as pessoas que não têm consciência de que a vida precisa de mudanças. Geralmente essa é a condição em que estamos antes de surgirem sintomas (principalmente os sintomas físicos). Algumas vezes essa pessoa até sente um certo desconforto, uma certa angústia que não sabe explicar o motivo. Talvez se lembre de sonhos atribulados demais ou causadores de desconforto, por exemplo, sonhos frequentes com quedas, ou quando se é perseguido por alguém no sonho cuja face nem sempre podemos ver, ou com perigos que a pessoa que sonha não consegue evitar. Se ela não perceber os recados, logo ela será avisada de um jeito mais convincente...

Quase todas as vezes que uma pessoa marca uma consulta com um psicólogo, a ideia é ter mudanças na vida. Daquelas mudanças bem caprichadas. Ah, e que seja bem rapidinho. E que não ocupe o tempo fora das sessões com leituras e perguntinhas dolorosas para pensar ou com diários de sonhos e toda essa coisa. Ah, e se não for pedir demais, que a psicóloga seja sempre uma fofa que diz tudo aquilo que gostaríamos de ouvir mas que ultimamente nem a nossa mãe diz! Então, a coisa não é bem por aí. Aliás, a coisa não é nada por aí. Acho super saudável a pessoa fazer psicoterapia e querer mudanças na vida. Mesmo quando não existe um sintoma, acho que todos merecem se conhecer melhor e viver com mais qualidade. Principalmente quem é estudante de psicologia, deve fazer terapia mesmo que não tenha sintoma algum, para se conhecer e lidar bem com seus conflitos antes de mexer no dos outros. Mas voltando ao tema do texto. É bem comum as pessoas procurarem a psicoterapia com aquela ideia de resolver todos os problemas da noite para o dia, quase que por um passe de mágica. A primeira coisa que precisa ficar clara para o paciente (e para nós todos) é que nossa vida só muda quando a gente muda. Cada um só pode agir na própria vida, por mais que outras pessoas possam apoiar e ajudar, a mudança cabe apenas a cada um. Só você é sujeito da sua vida, você é a personagem principal, os outros são apenas coadjuvantes. Podem incentivar, facilitar, apontar quando você sai do caminho que se propôs... mas o caminho é seu e você é o único a caminhar por ele.

O primeiro passo para essas grandes transformações acontecerem é perceber a necessidade da mudança. Agora vem uma parte bem mais agradável, sem dores ou sintomas: vamos descobrir qual é a vida sonhada! Não tenha medo, nesta parte, liberte-se de todas as amarras! Qual é o seu ideal de vida? E a sua forma de ser ideal? alguém que fala o que pensa sem receio? Alguém que se arrisca mais? Ou alguém que age com mais cautela e planejamento? Um ótimo profissional? Mudar de emprego ou até de ramo profissional? Ser alguém sociável, com muitos amigos e com uma vida social mais intensa? Quem sabe não é ser alguém com uma vida mais calma, com tempo para almoços tranquilos, para cuidar do jardim, praticar esportes e meditar? Crie o seu ideal. Ou melhor, tenha consciência de como é o seu ideal. Conheça o seu sonho. Se você quiser, pode escrever, desenhar ou até fazer colagens. É bom se expressar com esse tipo de recurso artístico, pois permitimos que as partes mais profundas de nós se expressem. Apenas palavras unidas numa fala racional não são o bastante para deixar as emoções mais profundas saírem.

Quem disse que o melhor caminho para você
é aquele que "todo mundo" segue?
Descubra novas rotas! Não achou? Crie a sua!
O próximo passo é tomar consciência de como é a nossa realidade. Sabemos que precisamos mudar e que a vida sonhada talvez esteja bem longe. Então, o que temos nas mãos? Como estamos e como está nossa vida? Sei que em muitos casos olhar para essa vida pode ser bem difícil. Mas vale o esforço. Onde estão os problemas? O que te desagrada? Porque você mantém na sua vida esses elementos? Neste ponto, é importante buscar as causas em si mesmo, não nos outros. Claro que algumas coisas não dependem tanto assim da nossa escolha, como as sequelas de um acidente ou doença, por exemplo... Mas, na maioria dos casos, fomos nós que em algum momento escolhemos essa vida real, essa que temos em mãos. Outra vez, se possível, enquanto pensar nas questões que sugeri, faça anotações. Elas vão te ajudar a trazer as coisas que você gostaria de mudar para a consciência.

O último passo é olhar para o buraco que ficou entre a vida sonhada e a vida real. Sim, sinto muito mas vai doer. E sim, nós vamos fazer isso assim mesmo. Qual o tamanho do buraco? Talvez você se surpreenda de ver que ele nem é tão grande e que, com boa vontade e disposição, várias coisas da vida sonhada podem ser trazidas para a vida real. Talvez as duas vidas sejam bem parecidas, e tudo o que precisamos é aumentar um pouquinho a nossa tolerância à frustração, planejar e agir, sem ter pena de si mesmo. Dos males, o menor! Mas em alguns casos, o buraco é fundo. Muito mais do que pensávamos. Tão fundo que a vida sonhada mal consegue ser vista, está enterrada lá embaixo em meio aos trapos dos sonhos antigos e da vida que poderia ter sido mas não foi. E agora? Em casos assim costumo dizer aos meus pacientes que, entre o real e o ideal, precisamos ter maturidade e força para encontrar o possível. Talvez a vida sonhada esteja muito longe da vida real... mas ainda dá para mudar. Qual seria a vida possível? Muito dificilmente a vida sonhada pode ser colocada em prática por completo, porque sonhos são feitos de ideais. Alguns pontos podem ser realizados, outros não. Por isso, ajuda muito quando olhamos a realidade buscando torná-la o mais parecida possível com o que sonhamos. Dentro do possível e do viável.

A partir daí, o básico já está feito. No mínimo, já sabemos o que não vai bem, para que lado queremos ir na vida e o que é possível e viável. Daqui para frente, é tempo de agir. O novo só vem quando surge um novo Eu. Ou melhor, quando nós fazemos surgir um novo Eu. É fácil se queixar de ter poucos amigos e sonhar com muitos deles. Mas, para trazer isso para a realidade, é preciso ação! No caso do exemplo, a pessoa que quer expandir o círculo de amizades pode se propor a conversar com uma nova pessoa no horário de almoço todos os dias. É preciso montar estratégias que tragam elementos da vida sonhada para o campo do possível. E então, concretizar. Parece difícil? E é mesmo. Mas a única pessoa que pode agir na sua vida é você. Se quer que a vida mude, suas atitudes precisam ser diferentes, sejam elas pensamentos, comportamentos, formas de olhar para a vida... Resultados diferentes só serão conquistados fazendo as coisas de forma diferente. Talvez nunca se alcance o sonho. Mas com certeza se alcança o possível, basta planejar e agir. Minha terapeuta costumava dizer: "mire na lua, se você errar, com certeza pegará uma estrela."

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Mythos - Amaterasu: descobrir o próprio brilho

Como alguns já sabem, temos novidades no blog. Além da nossa nova página noFacebook (clique aqui para acessar), esta semana começamos a nova coluna Mythos, onde teremos histórias da mitologia de diferentes povos. Mitos são importantes porque contam muito sobre a condição humana e as diferentes situações pelas quais passamos em diversos setores da nossa vida: do profissional mais burocrático ao relacionamento amoroso ou com os filhos pequenos. Ouvir ou ler um mito, lenda ou conto folclórico é algo que transmite uma mensagem direta às partes mais profundas da nossa mente. Ou seja, o mito é um discurso que fala diretamente com as nossas emoções, medos e desejos mais intensos. Justamente por isso, nesta coluna teremos após o mito da vez uma reflexão mais breve do que costumamos ter nos artigos regulares, assim deixaremos a história "cozinhar" na mente... Ah, quase me esqueci de dizer! Sempre que ler mitos ou histórias folclóricas (como os contos de fadas), preste muita atenção aos seus sonhos. Você fala com o inconsciente lendo o mito, ele te responde com o sonho. Minha proposta com esta nova coluna é incentivar essa conversa com o lado mais profundo de nós mesmos. Começaremos com um mito de origem japonesa.


De 8 mil a 4 mil anos a.C., as sociedades se organizavam em torno da mulher. O ser humano havia aprendido a cultivar a terra e a criar animais, não precisava mais viver só da caça e coleta. Assim, a fertilidade (da terra, dos animais e da própria mulher) estava em evidência. O mundo se organizava não num tempo linear, mas em ciclos (lua, estações do ano, plantio e colheita, marés, ciclo menstrual...). Nessa época, as deusas eram o centro das mitologias dos povos. Apenas a partir de 4 mil antes de Cristo foi que o patriarcado passou a predominar, o foco passou a ser uma vida cada vez mais desprendida da natureza, focada em leis, mandamentos... Mas, mantendo o foco no matriarcado, havia deusas da terra (que persistiram mesmo no patriarcado) e deusas do sol. Com o patriarcado, o sol passou a ser visto como masculino. Hoje em dia, o Japão é o único povo que ainda honra o sol como feminino. Amaterasu, “magnífico céu brilhante”, é a maior deusa do xintoísmo, religião japonesa. Aliás, Amaterasu está presente até hoje na bandeira do Japão, a "terra do sol nascente".

Certo dia, Susano-o, deus da tempestade e da inexatidão, foi visitar sua irmã Amaterasu, deusa do sol, da ordem e da retidão. Ele costumava perturbá-la, mas disse que dessa vez não a trataria mal. Como ela estava desconfiada, ele se propôs a passar por um ritual: Susano-o daria à luz e, se tivesse boas intenções, todas as crianças nasceriam meninos. Para isso, ele pediu a deusa algumas de suas joias, as partiu e fez nascer delas diversos deuses, todos masculinos. Amaterasu estava quase acreditando no irmão. Mas ele ficou tão espantado consigo mesmo que começou a promover a desordem no mundo, destruindo tudo de bom que havia sido criado. A afronta final foi quando Susano-o lançou o cadáver de um cavalo esfolado no saguão celestial, assustando e causando a morte de uma das companheiras de Amaterasu. Isso foi demais. Ofendida, a deusa sol que oferecia sua luz ao mundo com generosidade, retirou-se e ficou reclusa numa gruta de pedra. Sem sol, o mundo caiu nas trevas. Nada poderia viver sem a presença da deusa sol e de sua luz radiante. Preocupados com a situação, 8 milhões de deusas e deuses imploraram a Amaterasu que ela retornasse, mas a deusa sol permanecia em sua gruta. Então, a deusa da alegria, Uzume, começou a dançar e cantar. A alegria dela contaminava os outros deuses, que logo entraram na festa! Espantada por estarem festejando algo em sua ausência, Amaterasu perguntou o que se passava. “Encontramos uma deusa melhor que o sol!”, respondeu uma das deusas. Curiosa, Amaterasu saiu da gruta, pois queria conhecer a deusa mais resplendorosa que o sol... Mas os outros deuses colocaram astutamente um espelho próximo à gruta. Amaterasu, que nunca antes havia visto sua imagem, ficou fascinada com seu brilho e beleza. Assim, a deusa sol retomou seu lugar como rainha dos céus e de toda a vida, com consciência de sua importância, brilho e poder, onde permanece até hoje.

Este mito fala sobre encontrar o próprio brilho e sobre confiar em si mesmo, apesar do que outras pessoas possam achar. Amaterasu abandonou seu reinado e retirou-se para a gruta apenas porque deixou-se levar pela insegurança. Acreditou que seus atos "bons" (talvez a palavra "criativos" se aplique melhor) seriam incapazes de manter a ordem no mundo (e isso vale para o nosso próprio mundo, externo e interno). Apenas quando ela olhou para si mesma como se fosse outra pessoa, isto é, quando ela se viu de fora com a ajuda de um espelho, foi que Amaterasu tomou consciência de seu potencial e passou a ocupar o lugar que era dela.

Vamos terminar com algumas questões para pensar:
1- Já te aconteceu algo que te fez acreditar que nada daria certo, independente dos seus esforços? Como você reagiu?
2- Alguém já tentou te convencer que você não conseguiria fazer algo, que não tinha capacidade, que era "menos brilhante" do que realmente é?
3- Olhe para si mesmo! Pode usar um espelho, uma foto... Olhe para o seu corpo, mas também olhe para suas qualidades internas. Você realmente se vê como é? Ou será que se convenceu de que não tem brilho?

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Agora estamos no Facebook!

Olá amigos!

Clique aqui e conheça nossa nova página no Facebook!
Sei que hoje não é dia de artigo. Escrevo para fazer um convite a todos. A Rosa dos Ventos chegou ao Facebook, e todos são bem vindos para curtir nossa página e participar por lá. Para entrar, basta clicar aqui. Uma janela se abrirá para a nossa página do Facebook e aí basta clicar em "curtir", no canto superior direito da tela. Pronto! Você passará a receber nossas mensagens e novidades diretamente no seu Facebook!

O que vamos ter por lá? Além das novidades no blog (estamos com novos projetos, aguardem novidades!), a página do Facebook foi criada com a ideia de termos um espaço de troca, assim podemos nos aproximar uns dos outros. Todos são muito bem vindos para participar, a ideia é podermos ter um espaço aberto e livre, como uma roda de conversa entre amigos. Sejam todos muito bem vindos!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Entre igualdades e diferenças

"Tenho o direito de ser igual quando a diferença me inferioriza. Tenho o direito de ser diferente quando a igualdade me descaracteriza." - Boaventura de Sousa Santos (sociólogo português contemporâneo)

Muito se fala sobre respeitar as diferenças e sobre todos sermos iguais. Fica a questão: O que nos torna iguais e o que nos faz diferentes? Esta semana pensei um pouco sobre esta ideia tão dita e tão pouco sentida em tantos contextos diferentes.

Lembrei do livro "A conquista da América: a questão do outro", do filósofo e linguista búlgaro contemporâneo Tzvetan Todorov. Ele discute como os espanhóis puderam conquistar a América com base na visão que tinham do outro (no caso, os outros eram os povos indígenas americanos). Para o autor, a visão que temos de eu e do outro influenciam a forma como nos relacionaremos com ele. Se os conquistadores espanhóis tinham uma visão dos nativos como povos inferiores, e viam o "inferior" como algo a ser dominado ou destruído, isso marcou a forma como entraram em contato com eles, de forma violenta e cruel. Mas não vamos falar sobre história da América, mesmo porque o tema do blog não é este! Comecei contando sobre o livro de Todorov para fazer uma breve reflexão sobre alteridade. Alteridade significa reconhecer o outro como um "eu". Ou seja, o outro, por mais diferente que seja em aparência, no modo de agir, pensar acreditar ou sentir (ou o que for), também é um sujeito tal como nós.

Quando vemos as diferenças com respeito, percebemos que
já não somos mais os mesmos, pois abrimos nossa mente
para novas ideias.
Isso não é uma coisa que ficou para trás no tempo, nem que envolve diferenças culturais tão claras quanto as que existiam entre os europeus e os americanos. Ver o outro como um eu pode ser praticado todos os dias no nosso próprio bairro, escola, local de trabalho, nas ruas, no transporte público e até mesmo em casa. No meu ponto de vista, o primeiro passo para ver o outro de verdade, seja no tipo de relacionamento que for, é percebê-lo da forma como ele se mostra, e não como gostaríamos que ele fosse ou se mostrasse. Porque ele é como é, e na certa não é o nosso desejo de que ele fosse diferente que irá mudá-lo. Simplesmente porque, desde que a forma de existir do outro não prejudique a ele mesmo ou aos outros, ele tem todo o direito de ser como é. Dito isso, cabe pensar sobre como se dá o encontro com o outro. Como fazemos para perceber de fato o outro? Através das diferenças? Ou através da igualdade? Somos iguais enquanto seres humanos. Somos iguais enquanto sujeitos de direitos (ou deveríamos ser...). Mas não podemos ignorar nossas diferenças. Não ter preconceitos, ou melhor, não discriminar, é bem diferente de fechar os olhos para as diferenças. Afinal, são elas que tornam cada um de nós únicos e especiais.

Igualdade e diferença são assuntos interessantes de serem abordados pelo olhar da identidade. Imagine todos os grupos e "rótulos" que o ser humano cria para si e para os outros numa tentativa de dizer quem somos e quem não somos: gênero, faixa etária, nacionalidade e origem geográfica, etnias, orientação sexual, crença religiosa, preferência política, ter ou não determinada doença ou deficiência... e logo que começamos a pensar, as "categorias" ficam muito mais específicas, algumas delas banais e mesmo, para alguns, irrelevantes: time para o qual a pessoa torce, tipo de música que gosta, como prefere se vestir, tipos de atividades que gosta, lugares que frequenta, tipo de alimentação, padrões de beleza... Então nós entramos e olhamos para a pessoa. E, mesmo sem perceber, começamos a categorizar, supomos coisas sobre ela. Digamos uma mulher brasileira de origem oriental, portadora de miopia, alérgica a amendoim e que goste de artes. Criamos o estereótipo na nossa mente, não criamos? Você provavelmente imaginou a pessoa enquanto lia, talvez até tenha imaginado se gostaria de ser amigo dela. Lembra do que eu disse lá no comecinho, sobre o livro do Todorov? Nossa relação com o outro é influenciada pela forma como o percebemos. E dizer isso significa dizer também que as relações nunca são neutras. Se supomos algo sobre o outro e o tratamos de acordo com nossas próprias suposições (que podem estar bem longe da realidade!), o outro reagirá conforme nossos atos e palavras encontrarem ou não um eco nele (na forma como ele mesmo se percebe). E o outro agirá conforme as suposições que fez sobre nós. Aí está o preconceito, dentro da mente de cada um de nós, sempre que supomos algo sobre outra pessoa ou grupo. É normal que isso ocorra, pois são os nossos valores, a nossa visão da realidade, que nos guia na forma como agiremos no mundo. E como posso viver neste mundo sem supor nada? São essas suposições que nos orientam na vida e são (ou deveriam ser) reajustadas e repensadas o tempo todo conforme vivemos e convivemos. O que não pode acontecer é a discriminação, ou seja, a diferença não pode ser vista como inferioridade ou usada para excluir ou inferiorizar. Porque quando o assunto é o ser humano, característica nenhuma é superior ou inferior a outra. 

Entre igualdades e diferenças encontramos a possibilidade de dialogar com o outro, de conhecer o diferente e de construir a nós mesmos e a realidade. Mais do que isso, é no equilíbrio discreto das igualdades e das diferenças que descobrimos quem somos e quem podemos ser. Descobrimos a beleza de poder olhar para algum outro, completamente diferente de nós e, diante do espanto que o diferente causa, encontrar no mínimo uma igualdade entre eu e o outro: a de sermos ambos seres humanos.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Os maiores tesouros estão na Sombra

"Se fiz descobertas valiosas, foi mais por ter paciência do que qualquer outro talento." - Isaac Newton (físico inglês considerado o pai da física moderna, 1643-1727)

Percebo que nem sempre as pessoas dão a devida importância à sombra. Neste texto, entenderemos por "sombra" aquele lado da nossa psique que está mais longe do self ou, completando a analogia, a sombra contém os aspectos que não estão na "luz" da consciência. Para o psicólogo suíço Carl Jung (1875-1961), que foi quem cunhou este termo, na sombra estão todos os nossos conteúdos (afetos, habilidades, ideias, etc.) que, por algum motivo, não podem estar na consciência. Se quiser ler mais um texto sobre sombra, clique aqui.

De um jeito ou de outro, a sombra se manifesta. Em sonhos, sintomas, projeções (isto é, quando vemos no outro uma característica que, na verdade, é nossa). A sombra é aquele eu misterioso que se manifesta nos nossos sonhos. Aquele que nos causa mal estar, que pode até mesmo assustar ou desencadear certa angústia, aquele sentimento estranho que não sabemos dizer ao certo de onde vem ou por que está aqui. E se é assim, o leitor talvez esteja se perguntando qual o sentido do texto de hoje. Por que os maiores tesouros estão na sombra se acabei de dizer que lá ficam os conteúdos que não queremos na consciência?
A sombra pode ser assustadora à primeira vista.
Os "fantasmas" tão temidos não são outros senão a sombra.
Penso que para responder a essa questão, precisamos antes perguntar outra coisa: por que não queremos ver os conteúdos da sombra? Óbvio, alguém poderá dizer, porque causam mal estar! Mas existe um detalhe. Há uma fronteira muito tênue entre o "não querer" e o "não poder". Pode ser que eu diga que não quero olhar para minha sombra, para os meus conteúdos mais profundos e distantes da luz da minha consciência. Mas e se eu quisesse olhar para eles, será que eu realmente poderia? Afinal, na certa existe um bom motivo para tais conteúdos estarem na sombra, quem sabe até mesmo existem vários bons motivos... Vamos a eles!

O motivo mais óbvio é o mal estar que alguns destes conteúdos podem causar. E isso pode vir na forma de angústia ou tristeza cuja causa não sabemos qual é (porque os conteúdos são inconscientes, isto é, não temos consciência deles), pesadelos ou sonhos causadores de mal estar, e até mesmo sintomas físicos (indo de resfriados e alergias até problemas de saúde mais sérios). Outro bom motivo para a aparente falta de interesse pelos conteúdos sombrios, ou para a impossibilidade de olhar para eles, seria proteger-se da entropia. No campo da física, entropia é a medida de desorganização de um sistema. Se nenhuma força for aplicada, se atitude nenhuma for tomada, um sistema tende a se desorganizar. E, podemos acrescentar, um sistema desorganizado tende a entrar em colapso e se extinguir. O que quero dizer com isso é que o inconsciente só permite que conteúdos com os quais poderemos lidar cheguem à nossa consciência. Sim, mesmo assim muitos desses conteúdos ainda causam certo mal estar. Mesmo com esse bloqueio do inconsciente (a "censura", tão falada pelos psicanalistas), ainda pode ser difícil lidar com alguns dos conteúdos que chegam à luz da nossa consciência. Mas, ainda que difícil e doloroso, ainda que seja impactante, ainda podemos lidar com o conteúdo que chegou até a luz. Pode ser que ele nos estremeça mas, se conseguiu ultrapassar a barreira entre o inconsciente e o consciente, não nos destruirá. Precisamos estar prontos para olhar para o inconsciente e para a sombra.

A sombra não é necessariamente ruim,
é apenas desconhecida pela nossa consciência.
Observe os mitos que falam sobre heróis ou os contos de fadas. Tanto faz se você pensou em Hercules, em Jasão e os argonautas, nos cavaleiros da távola redonda, em João e Maria ou na menina Vasalisa e em sua bonequinha sábia. No início nenhum deles eram heróis ainda. Aliás, no início eles eram pessoas de quem a maioria duvidava da inteligência ou da capacidade de algum feito maior. Mas, sem exceção, todos eles eram pessoas que acreditavam em si mesmos e tinham um propósito! E todos eles escolheram viver a aventura ao invés de continuar na mesmice de seus dias... E é a escolha por viver a própria história, que faz com que eles se aventurem pelo inconsciente e se tornem heróis. Nos mitos e histórias a entrada no inconsciente é representada pelo embarque na aventura propriamente dita: entrar na floresta, abrir a porta misteriosa, navegar mares desconhecidos, lançar-se em águas profundas, entrar em cavernas escuras...

Quando nós escolhemos viver a aventura de explorar nosso próprio inconsciente é que as coisas acontecem e as sombras se revelam, e isso pode ser feito bem aqui, no nosso dia a dia, percebendo os simbolismos e as sincronicidades na nossa vida. O ato da escolha pela aventura, ou da escolha por viver a nossa história,  nos prepara para vivê-la. Mesmo que você não sinta assim (e, geralmente, a pessoa não sente), tendo feito a escolha de maneira sincera, você estará pronto.

O contato com a sombra sempre nos traz muitas surpresas. O que poucos sabem, é que muitas vezes a surpresa pode ser maravilhosa. Falamos do mal estar, das formas assustadoras e angustiantes que a sombra pode assumir quando se mostra para nós, em especial quando a sombra vem sem ser convidada. Agora cabe falar dos tesouros. Não apenas porque aprendemos com as dificuldades e crescemos conforme as superamos. Mas porque muitos tesouros podem estar lá, adormecidos, escondidinhos na sombra, bem no fundo... Talvez exista um grande músico dentro de você e você nem desconfie! Ou um artista, um contador de histórias, um grande empresário, um médico, um religioso... Muitas vezes qualidades e habilidades nossas, daquelas que nunca imaginamos que temos, ficam escondidas na sombra, simplesmente porque nunca antes tivemos a oportunidade de desenvolvê-la, seja por falta de tempo, de recursos, por falta da necessidade dessa característica em nossas vidas até então ou apenas porque vivemos num meio onde ela não seja valorizada ou encorajada a ser desenvolvida. Talvez a pessoa autoconfiante ou a mais relaxada ou a mais sociável ou a mais atenta e focada ou seja lá a característica que tanto perseguimos, esteja lá na sombra, apenas esperando que você a ilumine e a traga para a sua consciência.

Uma mesma característica ou habilidade que encontramos na sombra
pode ser boa ou ruim, dependendo de como escolhemos
olhar para ela e do papel que atribuímos a ela em nossa vida consciente.
Os conteúdos sombrios (no sentido de virem da nossa sombra) podem ser horríveis ou libertadores. Depende apenas da forma como escolhemos olhar para eles. Claro que, a princípio pode haver certo mal estar, certo estranhamento, isso é bastante comum. Mas, uma vez que o conteúdo chegue à consciência (por meio de sintomas, sonhos, insights, atos falhos, etc.), é preciso integrá-los à parte consciente da nossa psique. E fazemos isso através de muita reflexão e também de muita experimentação. Como é saber de algo que até então desconhecíamos? Como eu me saio e como me sinto quando uso minha habilidade ou minha característica recém descoberta? Como o outro reage? Mais do que isso, como me sinto e reajo frente à reação do outro? Não é uma tarefa fácil, muito menos algo que se faz da noite para o dia. Hércules passou muitos anos realizando seus doze trabalhos. Vasalisa ficou tanto tempo na floresta e na cabana da bruxa que todos pensavam que a menina havia sido morta por alguma fera selvagem. Sir Lancelot passou boa parte da vida buscando o graal. Essas coisas levam tempo e exigem de nós muito envolvimento e muita dedicação. Mas a recompensa, o tesouro que existe dentro de você (dentro de cada um de nós), vale a pena ser buscado. A aventura de ir ao encontro da própria sombra, a busca pelo tesouro que existe dentro de você, é o que faz com que nossa história se desenrole. E apenas quando a história se desenrola é que ela ganha algum sentido.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O outro: este desconhecido

"Não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio e não se pode tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado; por causa da impetuosidade e da velocidade da mutação, esta se dispersa e se recolhe, vai e vem." - Heráclito de Éfeso (filósofo grego, 535 a.C. - 475 a.C.)

Esta semana vamos conversar um pouco sobre relacionamentos, tema sugerido pela leitora Maria Inês, de Lisboa, Portugal. Este é um tema interessante, porque viver com o outro é se relacionar, não importa de qual tipo de relação estamos falando, desde que haja pelo menos duas pessoas no mesmo contexto (ambiente, situação, tarefa...), os envolvidos terão, necessariamente, que arrumar uma forma de se relacionar. Podemos, então, começar dizendo que se relacionar é o mesmo que conviver. Podemos ampliar um pouco mais o conceito pensando que conviver é coexistir.

Entretanto, antes de falar sobre conviver ou coexistir, é fundamental falar sobre viver e também sobre existir. Se observarmos o desenvolvimento psíquico-emocional de uma criança, veremos que muito antes de formar uma ideia clara de que existem outros e que esses outros são todos diferentes em aparência, preferências, sonhos e histórias, é preciso formar a ideia de EU. Isso começa cedo, e pode começar a ser observado, por exemplo, naquela fase em que o bebê reconhece sua imagem no espelho. Continua quando a criança pequena deixa claro o que gosta ou o que não gosta, o que quer e o que não quer, geralmente de maneira bastante enfática. E um grande salto na percepção de si mesmo ocorre quando a criança deixa de se referir a si em terceira pessoa, pelo nome, e passa a usar a palavra "eu". Quero deixar claro que essa visão que temos de nós mesmos (identidade) nunca termina de se formar, é transformada durante nossa vida toda, enquanto nos relacionamos, ou seja, enquanto convivemos. É o contato com o outro que nos constrói e que constrói a realidade ao nosso redor, as situações que vivenciamos. Repare que existem relacionamentos fáceis e difíceis, agradáveis e desagradáveis, íntimos e formais, próximos e distantes, ou seja qual for a característica que você queira atribuir. O que não existe é ausência de relacionamentos. Porque existimos. E porque o outro existe. Porque coexistimos e temos que lidar com este fato de alguma forma. Não importa como a pessoa lide com isso, estará se relacionando. Escolher se fechar, escolher não olhar para o outro, também é uma forma de vivenciar os relacionamentos. 

Já falamos em outro texto sobre a importância de perceber o outro tal como ele se mostra e não da forma como queremos que ele seja (clique aqui para reler). Sem isso, o relacionamento será vazio, pautado em ilusões. O leitor atento perceberá que a forma como nos relacionamos com o outro é bem parecida com a forma como nos relacionamos com nós mesmos. Claro, com algumas influências da situação e do outro com quem estamos em relação. Mas quem é o outro?

Da mesma forma como nunca conheceremos totalmente a nós mesmos, como eu disse antes, também é impossível conhecer completamente o outro. Mesmo que você ame muito esse outro. Mesmo se esse outro seja seu filho ou um companheiro de muitos anos, ou que seja tão próximo e parecido quanto seu irmão gêmeo. Não dá para conhecê-lo totalmente, nunca. Porque, tal como nós, o outro também é um EU, que está sempre mudando e se transformando, se construindo e reconstruindo... 

"Os amantes" (1928) ,obra de Magritte. Fica a questão: quem é o outro?

Pensando em tudo o que dissemos até agora, dá para ter uma boa noção sobre o porquê dos relacionamentos serem tão difíceis, uns mais difíceis que outros, dependendo dos "eus" envolvidos, de suas histórias, de seus planos e das formas como estão acostumados a se relacionar. A convivência é aquele momento em que, além de dar conta de quem somos, precisamos dar conta de quem o outro é, precisamos apreender e interpretar o outro. E, como se não bastasse, almejamos ainda dar conta de algo mais, daquele campo nebuloso que se forma entre os dois "eus", aquele campo que nós psicólogos chamamos de intersubjetividade e que nada mais é que o espaço psíquico onde as relações acontecem. O que temos em comum e de diferente? Como eu tendo a me colocar para o outro e como o outro tende a se colocar para mim? Como eu reajo quando o outro me frustra? Como eu me sinto quando frustro o outro? E quando nos alegramos? E por aí vai. Isso parece complexo? Não se engane, é complexo sim!

Repare que, do mesmo jeito que a ideia que temos de nós mesmos passa por vários crivos (clique aqui para ver mais sobre isso), a ideia que temos de cada um dos outros com quem convivemos também passa por crivos semelhantes. Somos preconceituosos, no sentido de fazermos suposições sobre o outro o tempo inteiro. Antes mesmo de conhecer o outro já supomos alguma coisa, não necessariamente algo ruim como o termo "preconceito" dá a entender. Depois disso, ouvimos o outro, procuramos conhecê-lo, comprovando ou não nossas ideias iniciais. E o outro, enquanto isso, procurará nos perceber e se mostrar (ou não). E aí começa uma troca: de histórias e de sonhos, de ideias e de sentimentos. E é neste processo que a gente se constrói e se reinventa. E é justamente por essas transformações que nunca poderemos saber totalmente quem nós somos, e nem quem o outro é. 

O filósofo grego Heráclito disse que não nos banhamos duas vezes no mesmo rio, porque na segunda vez, nem nós nem o rio seremos os mesmos. Como, então, confiar no outro, se ele muda a cada instante? É claro que ninguém muda totalmente da noite para o dia... Mudanças profundas acontecem lentamente, como a panela que cozinha em fogo baixo mas constante, mudando o estado daquilo que se está preparando. As pessoas mudam, mas tendem a se manter firmes em seus valores pessoais. Mudar um valor bem enraizado é algo que leva tempo e, em boa parte dos casos, requer a ajuda de um psicólogo. Mas numa relação, mudanças acontecem, algumas vezes, mudanças profundas. Temos que lembrar que o próprio processo terapêutico é pautado na relação entre o paciente e o psicólogo, que segue certas regras de conduta específicas e que facilitam o processo da pessoa se conhecer, se compreender e se reconstruir. No meu ponto de vista, a relação terapêutica é uma das principais chaves para uma psicoterapia bem feita. Percebo que a confiança é encontrada através da empatia, isto é, no saber se colocar no lugar do outro a tal ponto que podemos, por alguns momentos, ver as coisas pelo ponto de vista da outra pessoa, com sua história, suas angústias e alegrias. E, ao mesmo tempo, a confiança está em permitir ao outro que veja o mundo pelo nosso ponto de vista, que compreenda e que sinta como nós. E, ao nos permitimos essa troca tão intensa, não há como não sair transformado pelo outro, e não há como não transformá-lo. Relacionar-se é conviver e coexistir, é viver e existir junto com o outro. Não como duas pedras colocadas na mesma bancada, mas como dois seres ativos, que sentem e pensam, e que, mesmo nunca se conhecendo totalmente (a si mesmos e ao outro), escolhem deixar para a pessoa um pouquinho de si.