quinta-feira, 28 de março de 2013

Pessoas que acham que sempre têm razão

"A maturidade começa a manifestar-se quando sentimos que nossa preocupação é maior pelos demais que por nós mesmos." - Albert Einstein, físico alemão (1979-1955)

Esta semana uma amiga muito querida me contou sobre uma situação desagradável que aconteceu com ela quando foi pedir de volta o cartão da vaga de garagem que aluga a um vizinho. O sujeito, que não pagava o aluguel pela vaga há 5 meses, reagiu com pouco caso e, em seguida, com raiva, intimidando minha amiga e dizendo que, ao pedir para devolver o cartão, ela o constrangeu. Quando o namorado dela tentou argumentar com calma e educação, o homem explodiu, dizendo que ele (o namorado) não tinha nada a ver com isso e que estava se intrometendo na situação. Minha amiga disse ter sentido medo na hora e aproveitou para me sugerir o tema: pessoas que acham que sempre têm razão. Depois de conversar com ela, pensei e cheguei à conclusão de que duas coisas são interessantes nessa situação: a óbvia, como lidar com gente assim no dia a dia, mas também pensar um pouco sobre o que leva um ser humano a agir assim (acredito que os colegas psicólogos e estudantes de psicologia se interessarão por essa parte, e foi por isso que decidi inclui-la).

Algumas pessoas reagem com mágoa ou agressividade
muito maiores do que a situação exige. 
Vamos começar pensando sobre o que leva alguém a agir assim, pois geralmente as causas de um problema nos dão boas pistas de sua solução (no caso, como lidar com gente assim). Já disse outras vezes, vivemos num mundo muito competitivo. E, mesmo que a competição tenha um lado bom (por exemplo, nos ajuda a melhorar em algo ou incentiva a melhora na prestação de serviços), percebo que em muitos casos a competição é super incentivada, quase sempre em contextos nos quais ela não cabe (na família, entre crianças muito pequenas, dentro de uma equipe que precisaria cooperar - uma junta médica, uma equipe dentro de uma empresa, um grupo de estudos, ou de oração ou de trabalho voluntário...). Essa competição exacerbada gera uma grande onda de insegurança, em todos os sentidos da palavra. Insegurança de andar por aí, pois muita gente compete de forma violenta e sem noção por motivos simples. Por exemplo, o trânsito. Quantos de nós já presenciamos situações em que motoristas habilitados simplesmente jogaram o carro em cima de outros veículos e até de pedestres ou ciclistas, gerando ainda mais competição e insegurança e, mais vezes do que seria aceitável, acidentes feios?

A competitividade em demasia gera insegurança interior, também. Primeiro, porque nunca sabemos quem está do nosso lado e quem está contra nós. O colega que até parecia tranquilo e que explode quando pegamos uma caneta emprestada. A pessoa que se magoa quando questionada por uma atitude profissional, levando o conflito para o lado pessoal. Segundo, porque muitas pessoas foram incentivadas a competir desde tão pequenas que não tiveram tempo nem mesmo de diferenciar claramente a visão de si e do outro, que continua confusa para ela mesmo depois de crescer. E com o passar dos anos essa pessoa cresce se achando exclusiva. Só ela pode ter vantagens. Ela nunca aceita abrir mão de nada. Ela não precisa cumprir as regras combinadas ou os deveres dela, porque não gosta. Talvez até mesmo zombe de algum coleguinha, mas se revolta de forma exagerada quando o colega responde. Não aceita que algumas vezes se ganha, outras se perde, ou apenas que agora é a vez do amigo brincar no balanço. Mais alguns anos passam e, o que era apenas uma criança mimada se torna algo mais grave, pelas próprias situações normais da vida, que se torna mais complexa conforme crescemos. Surge aí uma pessoa que não sabe ouvir "não". Algumas dessas pessoas apenas ficam muito magoadas ao ouvir um não, choram por motivos banais, têm dores e sintomas físicos quando contrariadas ou frustradas. Outras, tentam compensar o "não" exagerando na comida, no uso de drogas e álcool, e em tantas outras compulsões. Outras dessas pessoas, no entanto, explodem. E a explosão pode ir de acessos de birra dignos de uma criança de três anos, até situações de violência extrema, nos quais a pessoa buscará expor sua revolta por não ser único no mundo e/ou impor seu desejo à força.

Perceba que, independente do motivo concreto que levou alguém a agir dessa forma (e os motivos são tantos quantos as possíveis histórias de vida), por trás dele existe uma grande dificuldade em perceber o outro. Claro que, do ponto de vista racional, a pessoa sabe que o outro também é um ser humano. Entretanto, emocionalmente, essa pessoa tem muita dificuldade em sentir o outro, percebendo assim que o outro também pode ter falhas, pontos fortes, problemas na vida, preferências, opiniões... Em especial, há uma grande dificuldade em aceitar que a pessoa pode ter preferências e opiniões bem diferentes das que se está acostumado a lidar. Resumindo, são pessoas muito imaturas, que têm problemas em aceitar que o outro não só está neste mundo como também tem todo o direito de levar a própria vida de acordo com os próprios ideais, tendo deveres e também direitos, assim como elas. Como ousa me cobrar pelo cartão da vaga de garagem só porque não paguei míseros cinco meses? Se é solteira, como teve a ousadia de não aceitar sair comigo? Se ele tem dinheiro, porque não compra o que quero vender, mesmo que ele não precise tanto? Por que as pessoas me constrangem quando me frustram? Claro que pensamentos assim não são conscientes, eles se refletem nas emoções de se sentir injustiçado mesmo quando a situação não implica em injustiça. Mágoa e raiva são dois caminhos possíveis para essa emoção se manifestar com maior clareza no dia a dia.

Fica a questão: como lidar com gente assim? É comum que as explosões gerem medo, como no caso da minha amiga. O outro pode agir com violência num momento de raiva. Também é frequente que isso gere revolta, afinal, se o "mimado" chegou aos 40 anos sem haver superado as questões do início da infância, a culpa não é nossa! Mas tanto faz o que a situação nos causará, o fato é que muitas vezes na vida teremos de lidar com pessoas assim. Acredito que conhecer as possíveis causas desse comportamento, sobre as quais conversamos anteriormente, seja interessante. Não resolve a nossa situação, mas nos acalma saber que, na realidade, o valentão não passa de um mimado inseguro que não conhece outra forma de argumentar senão se fazendo de vítima. Muitas vezes, a pessoa é tão insegura que ataca temendo a possibilidade de vir a ser atacado antes! Outro ponto importante, ao lidar com alguém assim, mantenha a calma. Ele é imaturo, mas você não. Respire fundo, use seu tom de voz normal e seja educado. Não perca a razão, são frequentes situações em que o problema começa porque um reage com raiva e o outro acaba entrando na dança. Ao mesmo tempo, acho importante ser firme. Em terapia, quando tenho pacientes assim, tenham a idade que tiverem, o procedimento é o mesmo: regras, direitos e deveres não existem por nada, mas para serem seguidas. E serão. É preciso aprender a lidar com acordos e combinados. Não abrir mão dos seus direitos é importante, a pessoa precisa saber que você percebe o que se passa. Senão a situação cresce mais e, acredite, ficará muito pior de resolver depois. Por fim, seja precavido: tenha bons argumentos e exponha a realidade com clareza e da forma mais neutra possível. Dependendo da gravidade da situação, é bom ter testemunhas. Não só porque isso diminui a chance de reações violentas, mas também porque muitas dessas pessoas têm o hábito de mudar as palavras que usamos conforme lhes convenha.

Digo sempre a quem me procura: mais vale prevenir do que remediar! Como mencionei antes, a forma como nossa sociedade funciona hoje parece encorajar a criação de pessoas mimadas e imaturas. Uma boa forma de prevenção é a educação. Ah, não estou falando apenas da escola, mas também daquela educação que vem de casa! Mães, pais, avós, tios, babás, cuidadores: não é não! Ter regras em casa, impor limites e exigir respeito não irá traumatizar a sua criança. A criança precisa de limites claros para se sentir segura, ela precisa saber o que pode e o que não pode, quando pode e como pode. Criança sem limite cresce insegura, achando que ninguém cuida dela e que ninguém a ama. Dizer "não" nos momentos apropriados, ensinando limites, também é uma forma de mostrar à sua criança que você a ama e que se importa com ela.  Mesmo porque o "não" dito pela vida nunca vem com o mesmo amor que o "não" dito pela família costuma vir, é muito mais duro e difícil. Até onde eu vou e onde eu acabo? Ter limites é algo que nos acalma quanto a essa angústia, frequente na psique infantil. Aliás, apenas sabendo que eu termino em algum lugar e que além de mim há outros, é que terei a curiosidade e o interesse sobre esses outros, me envolvendo em relacionamentos saudáveis e equilibrados. Quem não tem limites não tem contorno. É como se a pessoa boiasse no nada. é como se ela não existisse. Ela, no mínimo, crescerá insegura.

Ah, mais uma coisa! Você se identificou com essa pessoa que descrevemos? Sem limites, que acha que sempre tem razão, reagindo com mágoa e/ou agressividade exagerados e incompatíveis com a situação? Sugiro procurar a ajuda de um psicólogo. Não importa qual a sua idade ou pelo que você passou. Sei que por trás de pessoas assim costumam estar histórias de vida nada fáceis de levar. Mas para todo caso existe jeito, todos nós temos a possibilidade de viver com mais harmonia e satisfação, e o psicólogo é o profissional que pode te acompanhar nessa caminhada.

terça-feira, 26 de março de 2013

Mythos - O Labirinto - Parte 1: Dédalo

Antes de começar, gostaria de avisar que o mito com o qual vamos trabalhar será dividido em duas etapas, uma hoje e a outra semana que vem, pois além de ser longo, cada uma das partes trabalhará aspectos diferentes de nós mesmos. 

Temos aqui um mito grego. Acho que muitos aqui já devem ter ouvido falar do labirinto do minotauro. É um mito bastante explorado pela mídia em filmes e livros. Mas poucos conhecem Dédalo, o homem que projetou o labirinto. É sobre a história dele que conversaremos hoje, com algumas pinceladas de outras personagens.

Dédalo era um grande arquiteto ateniense. Ele realizava grandes obras e era muito reconhecido pelo seu dom. Um dos sobrinhos de Dédalo também era seu aprendiz. O rapaz era bastante prestativo, esforçado e inteligente, aprendia muito depressa e Dédalo sabia que logo o sobrinho se tornaria um arquiteto muito melhor do que ele jamais seria. Então, num ímpeto de insegurança e raiva, Dédalo matou o sobrinho. Julgado pelo crime, Dédalo foi expulso de Atenas, exilando-se em Creta, onde continuou sendo um grande arquiteto.

Na ocasião, Posídon, deus grego dos mares, queria ser o deus da ilha de Creta, ao mesmo tempo em que, na terra, três irmãos disputavam o trono do local. Um dos irmãos, chamado Minos, percebendo a situação, fez um acordo com Posídon: o deus lhe emprestaria um touro sagrado, provando aos irmãos que ele, por ter uma aliança divina, seria mais indicado para ser rei e, em troca do favor, Minos faria de Posídon o deus de Creta. O acordo foi aceito e logo os irmãos e toda a população de Creta viram, com imenso espanto, o touro sagrado de Posídon sair dos mares. No mesmo instante, Minos tornou-se rei de Creta. O problema começou quando Minos não cumpriu sua parte do acordo, nem fez de Posídon o deus de Creta e nem devolveu o touro. Na mitologia, tudo é muito simbólico. Portanto se Posídon era o deus dos mares, podemos compreender que sua personalidade era agitada como  as ondas e, quando nervoso, Posídon podia ser tão perigoso quanto uma tempestade em alto mar. O deus, furioso e ávido por se vingar de Minos, fez com que a esposa dele se apaixonasse perdidamente pelo touro sagrado. Desesperada, a rainha buscou a ajuda de Dédalo e contou-lhe o que se passava em seu coração. Sem perder tempo, o arquiteto, que também era um habilidoso inventor, construiu uma magnífica vaca de madeira. Assim, a esposa de Minos e rainha de Creta entrou dentro da vaca de madeira e pode, finalmente, relacionar-se com o touro.

Para o deleite de Posídon, após a união com o touro sagrado, a rainha engravidou. Quando a criança nasceu, para a imensa surpresa do rei Minos, o bebê tinha corpo de gente e cabeça de touro! Os gregos acreditavam que a inteligência morava na cabeça. Por isso, sempre que na mitologia grega nos deparamos com seres com cabeça animal, monstruosa ou muito menor que o usual, podemos compreender que se trata de um ser com inteligência reduzida, que se deixa guiar pelos impulsos mais básicos. E assim era o Minotauro (nome que significa "touro de Minos"). O bebê cresceu depressa e se tornou um monstro impossível de ser contido, que corria pela ilha destruindo o quer que encontrasse pela frente e assustando e  devorando os habitantes. Enquanto suposto pai (pois o rei não desconfiou até então da traição da esposa), Minos não poderia matar o Minotauro. Porém, enquanto rei, ele precisava proteger o seu povo e conter o monstro. Então, Minos recorreu ao grande arquiteto Dédalo, pedindo que construísse um local onde o Minotauro pudesse viver, com muito espaço para ele correr e que, ao mesmo tempo, deixasse a população de Creta segura. Dédalo, então, pensou muito e criou um labirinto, uma grande área cheia de corredores tortuosos que levavam a outros corredores igualmente tortuosos e tão longos que pareciam nunca ter fim.

O Minotauro foi trancado no labirinto e, uma vez por ano, Minos mandava que raptassem jovens atenienses para, com eles, alimentar o Minotauro (atenienses, porque Atenas tinha uma dívida com Creta). O labirinto tinha guardas nas portas para que quem entrasse jamais saísse. Quando a pessoa chegava ao centro do labirinto, o Minotauro a devorava. Teseu foi um desses jovens. Cansado de ver outros jovens atenienses morrendo, ele decidiu oferecer-se como vítima, decidido a matar o minotauro. Porem, quando o jovem Teseu desembarcou em Creta, a princesa Ariadne apaixonou-se por ele e alertou-o dos perigos. Sabendo dos planos de Teseu e também revoltada com a morte dos jovens, ela pediu ajuda a Dédalo e o arquiteto deu à princesa um fio especial, que se alongava e se entortava tanto quanto fosse necessário, que mostraria o caminho de volta. Teseu e Ariadne pretendiam se casar e voltar para Atenas, onde o pai de Teseu era rei. Assim foi feito. Teseu entrou no labirinto, matou o Minotauro e fugiu com Ariadne. Minos, é claro, ficou possesso de raiva! Soube, então, que o Minotauro era, na verdade, filho do touro sagrado e que Dédalo não apenas havia ajudado a rainha a trai-lo como também ajudou o ateniense Teseu a derrotar o Minotauro e fugir com Ariadne. Minos condenou Dédalo e o filho dele a ficarem presos no labirinto para sempre.

Muitas vezes o labirinto é comparado a uma mandala, que algumas vezes, também apresenta aspectos de labirinto. Entre os gregos, os labirintos, tal como grutas e cavernas, eram vistos como um local sagrado de iniciação. Uma curiosidade: de acordo com o renomado estudioso de mitos Junito de Souza Brandão, historiadores afirmam haver realmente existido um grande labirinto subterrâneo em Creta, usado  para rituais. No labirinto, real ou simbólico, provas iniciáticas acontecem durante a caminhada do herói ou heroína até o seu centro, uma jornada rumo ao desconhecido. Lá acontecem as batalhas luz x sombra, consciente x inconsciente, depois das quais nunca mais seremos os mesmos.

Questões para refletir:
1- Assim como Dédalo matou o sobrinho porque o rapaz seria um arquiteto melhor do que ele, você teme ser superado (na vida profissional ou em outras áreas da vida)? Como você lida com essa competição?
2- Teseu foi considerado pelos atenienses como um herói, teve coragem e ousadia para entrar no labirinto, chegar a seu centro e enfrentar o monstro. Quais são os labirintos do seu dia a dia? Quais são os caminhos mais incertos que você já percorreu, daqueles que nem imaginamos o que encontraremos no centro? E quais são seus labirintos internos e quais os "monstros" que existem lá dentro, ou seja, quais são seus principais conflitos? Como você lida com eles, trancafiando-os lá no fundo como Minos ou enfrentando-os como Teseu?
3- Dédalo foi condenado a ficar preso no labirinto que ele mesmo havia projetado. Alguma vez você já foi ou se sentiu vítima de suas próprias obras ou ações?
4- Vamos projetar um labirinto! A ideia é desenhar um labirinto que leve a um centro. Basta fazer retas tortuosas, com cruzamentos. Se conseguir encher a folha, melhor. Depois, com alguns lápis de cor ou o material da sua preferência, pinte os caminhos. É bem interessante olhar o labirinto antes e depois. Quase sempre, quando proponho esta atividade, ouço comentários sobre como antes de pintar os caminhos pareciam mais confusos do que na verdade são. Essa atividade nos ajuda a clarear a visão dos caminhos da vida e/ou dos caminhos interiores, nos levando a olhar para eles com clareza, como o fio de Ariadne que guiou Teseu pelo labirinto do Minotauro.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Gratidão

"Quem acolhe um benefício com gratidão, paga a primeira prestação da sua dívida" - Sêneca (filósofo romano, 04 a.C. - 65 d.C.)

Por que falar sobre a gratidão num blog sobre autoconhecimento, psicologia, relacionamentos...? Ontem, organizando algumas coisas pessoais parei para pensar sobre o blog. E acho que a pergunta é bem outra: como que em 9 meses de blog nunca parei para conversar com o pessoal sobre gratidão?! Confesso uma coisa: até já pensei em falar sobre este tema em outras ocasiões, mas sempre tive um certo receio. Não. Receio não. Tive medo, mesmo! Medo que a conversa fuja dos temas sobre os quais estamos acostumados a conversar. Medo que a conversa fique estranha e, principalmente, medo que a coisa toda pareça meio religiosa... Apesar da minha família ser de origem católica, não tenho religião, além disso, o tema central do blog nem mesmo é este, portanto creio que não correremos este risco. Então, pensei: mas se tenho essa conversa sobre gratidão com meus pacientes, em algum momento do processo de cada um, por que não tê-la com o pessoal que frequenta o blog? Desabafo feito, coração aberto, podemos começar!

Agradecer está nas mãos de todos nós!
Gratidão vem do latim gratus, que significa "dar boas vindas". É interessante pensar sobre a origem das palavras, acredito que só assim sabemos de fato o que dizemos. Geralmente este tema surge na terapia primeiro de forma bem concreta: sou grata aos meus pais por terem me educado bem. Sou grata ao Fulano pela ajuda naquela hora difícil. Aos poucos, porém, costumo expandir um pouco a ideia. E a gratidão que podemos sentir sem ser por algo da vida prática? E a gratidão que sentimos pela "sorte" que temos, como por ter boa saúde, por ter evitado um acidente, por estar cercada de pessoas especiais? Mas gratidão a quem? Essa é uma pergunta que sempre aparece, e que sempre respondo da mesma forma: não me importa! Pode ser gratidão a si mesmo, à vida, a Deus, Deusa, Orixá, santo, ao universo... O importante aqui é o sentimento de gratidão, é com ele que trabalharemos, e não com o sujeito a quem se é grato.

Vamos fazer um exercício. Papel e lápis na mão, faça uma lista de tudo pelo que você é grato. Vale de tudo. Desde coisas mais concretas: ter uma casa para morar, ter o que comer e água limpa, bens materiais importantes para você... Coisas menos palpáveis: ter tido a oportunidade de estudar, ter começado a fazer caminhadas, ter tempo para estar com quem amamos... E também coisas bem abstratas: ser uma pessoa saudável, estar cercada de familiares e amigos queridos, saber ver o lado divertido das coisas... Não importa o que, cada um terá a sua lista com os pontos que fazem sentido para si. Nunca é demais repetir, não tem certo nem errado, apenas o jeito de ser de cada um. Quanto maior a sua lista, mais interessante será o trabalho a ser feito com ela, mas é importante que exista um sentimento de gratidão sincero sobre cada coisinha escrita na lista. Não se apresse, leve o tempo que quiser. É difícil? Pense no significado da palavra: a que eu dou as boas vindas? Das coisas que estão presentes na minha vida, quais delas são bem vindas para permanecer? Quando terminar, recorte cada tópico da sua lista e cole-os em outro lugar, rearranjando por categorias. As categorias são pessoais, cada pessoa cria as suas de acordo com sua escolha (o que reflete os valores de cada um de nós).

Coloque esta lista de lado e vá fazer alguma coisa. Dê um tempinho antes de continuar nosso exercício: vá dar uma volta no quarteirão, lavar a louça, assistir um pouco de TV, telefonar para aquele amigo que você não vê há tempos, qualquer coisa que não tenha nada a ver com a lista! Ah, Bia, mas vou esquecer o que escrevi! Minha ideia é exatamente essa!

Muito bem. Depois desse tempinho, pegue um novo papel e lápis. Vamos fazer outra lista, desta vez com coisas, situações ou o que for, que não estão em nossas vidas mas que seriam bem vindas, pelas quais seríamos gratos se viessem. Outra vez, vale de tudo e quanto mais tópicos, melhor. Como da outra vez, agrupe os tópicos em diferentes categorias, que não precisam ser as mesmas que você usou para a primeira lista.

Mais uma lista, desta vez sobre coisas pelas quais somos gratos por que não temos. Algumas vezes o "não" é uma sorte maior que um "sim". Você pode colocar o que quiser nesta lista desde que seja sincero consigo mesmo. Podemos ser gratos por não ter nenhum problema sério de saúde, por não ter repetido o ano naquela vez que nossas notas não estavam das melhores, por não ter conseguido fazer algo que queríamos muito, pois se tivéssemos conseguido, nossa vida na certa seria diferente, teria tomado outro caminho, sem as pessoas especiais que estão nela hoje. Tenho um conhecido que é grato por não ter passado no vestibular para engenharia quatro vezes seguidas, que sempre prestava por pressão do pai, pois só com o "não" a família aceitou sua verdadeira paixão, a fotografia. Em alguns casos, o "não" pode ser muito mais libertador do que imaginamos! Pronto? Faça como nas outras duas listas e agrupe os tópicos em diversas categorias. Esse exercício de classificar os tópicos é importante, pois nos ajuda a perceber em quais "áreas" da vida temos mais conflitos e quais são mais importantes para nós.

Último passo (sim, prometo que por hoje as listas acabaram!). Pegue as três listas e coloque-as lado a lado. Temos aqui: gratidão pelo que temos, pelo que gostaríamos de ter e pelo que não temos. Examine com atenção cada uma delas. Se tiver lápis ou canetas coloridas, pode usar neste momento, vai facilitar bastante. Eu gostaria que você percebesse como as três listas podem ter alguns elementos bem parecidos. Marque-os com lápis de cor ou com algum desenho simples, se você não tem lápis de cor. Por exemplo, nas minhas listas apareceu assim: ter saúde - continuar saudável quando eu chegar à idade dos meus avós - nunca ter tido nenhuma doença mais grave. Em seguida, dê um título ao conjunto. Para o meu, escolhi "boa saúde". Marquei com lápis verde esses três tópicos. Este foi um exemplo meio óbvio, mas dá para tentar com coisas mais complexas e pessoais sem problema algum.  Dá até para juntar coisas que parecem não ter relação, mas que para nós, colocá-las juntas faz sentido, como "ter onde morar", "abrir meu próprio negócio" e "nunca ter passado fome", conjunto que poderia se chamar "segurança", por exemplo. Ah, é comum sobrarem tópicos soltos em uma ou mais listas, não tem problema. Mas vale a pena ver quais são estes tópicos e qual o significado deles em nossas vidas, isso dirá muito sobre nós mesmos. Lembre-se de dar um título para cada conjunto! Os títulos mostram alguns dos seus valores pessoais.

Nossa mente inconsciente funciona sobretudo com base em sentimentos, emoções e sensações (físicas e mentais). O inconsciente exerce grande influência no nosso dia a dia, pois lá estão nossas memórias mais antigas, nossos desejos mais intensos, grande parte dos nossos conflitos e os nossos medos mais primitivos. Estes são elementos que nos dão as lentes pelas quais olhamos nossa realidade, os outros e a nós mesmos. A influência do inconsciente será favorável ou desfavorável dependendo de como o alimentamos. Alimentamos nosso inconsciente com emoções e também com palavras. Sentir e expressar gratidão deveria ser um exercício diário, pois é assim que dizemos a nós mesmos que tudo está bem e que situações boas são bem vindas em nossa vida. Isso nos ajudará a ver a realidade a nós mesmos de maneira mais favorável e harmoniosa. Quando mantemos nosso foco na gratidão, mandamos a nós mesmos a mensagem de que merecemos e nos permitimos ser amados, felizes e viver uma vida que faça sentido para nós. 

terça-feira, 19 de março de 2013

Mythos - Kali: o fluir da vida

Hoje vamos pensar um pouco sobre o fluir da vida, e para isso trabalharemos com o mito de Kali. Esta é a principal deusa do hinduísmo, muito cultuada na Índia. Kali é uma figura bastante complexa, pois tem diversos aspectos e muitas formas de ser representada. Uma delas é a face "benfeitora", que permite que as mulheres, os animais e mesmo a terra sejam férteis, fazendo com que a vida cresça e se mantenha. Outra, é a face "terrível", sob a qual muitas vezes Kali é chamada "mãe negra senhora da morte". Negra porque ao representar a dança entre vida e morte, Kali também representa o tempo que, na mitologia indiana, não tem cor, é escuro (ou obscuro?). De todo modo, note que usei as palavras "benfeitora" e "terrível" entre aspas, pois para os hindus, estes conceitos são relativos, sem a divisão rígida que temos aqui no ocidente, tanto é que são representados pela mesma deusa.

Kali pisoteando Shiva. Pintura do artista
indianoRaja Ravi Varma (1848-1906)
Kali chega a ser tão importante que em muitas imagens ela é mostrada pisoteando Shiva, seu marido e um dos maiores deuses do hinduísmo. Geralmente ela é representada com a pele azulada, usando um colar de cabeças/crânios humanos e um cinto de  braços humanos. Além disso, esta deusa é mostrada portando espadas, adagas, lanças e uma série de armas, não enquanto símbolos de guerra, mas sim de proteção. Outra característica de Kali é sua expressão facial: os olhos arregalados e a língua, de um vermelho muito vivo, projetada para fora da boca. Esta é a postura do leão no yôga  associada à emanação do próprio poder e que demonstra o quão poderosa esta deusa é para seus adeptos. Sua risada é tão terrível que é capaz de destruir um exército de demônios e todas as suas armas. Note como, apesar de seus feitos terríveis, Kali é uma deusa protetora, tornando o mundo um lugar seguro.

Um dos mitos sobre Kali conta que certa vez ela desafiou Shiva, senhor da dança e deus representante da energia masculina, para uma competição de dança. Eles dançaram e dançaram e, com o passar do tempo, a dança se tornou cada vez mais rápida e competitiva, com acrobacias incríveis. A dança era tão veloz que os movimentos ameaçavam destruir o mundo e, de acordo com o mito, um dia isso acontecerá, pois a dança continua até os dias de hoje!

Kali também está associada à liberdade, é indomável como o tempo. Isso acontece porque quem não tem consciência da morte e da destruição, também não tem consciência da vida. Inserir nossa vida na dimensão do tempo, faz com que ela ganhe um sentido: para o futuro, pois o tempo apenas avança, de forma contínua e frenética como os passos de dança de Kali. Dizem os hindus que quem não ama Kali nunca é livre de verdade. Porque a liberdade também é saber lidar com o fato de que o tempo flui, a vida flui, e isso quer dizer que um dia nossa vida encontrará um fim. Um limite na nossa liberdade. Assim, o sentido da vida é a morte, pois é para lá que todos nós caminhamos, queiramos ou não. O tempo destrói tudo. Porém, sem o tempo, não há vida, nada acontece... Kali representa a liberdade quando nos faz compreender que a morte é necessária à vida. Sem a morte, a vida não teria sentido, apenas o tempo presente não nos daria uma dimensão, mas um único ponto que nos aprisiona. Sem história e sem esperanças, tudo seria apenas um agora aleatório e sem sentido.  A morte, ou os finais de forma geral, permitem que algo novo surja, cresça e dê frutos a partir do antigo. Talvez a liberdade seja o próprio fluir da vida.

Questões para reflexão:
1- Pense nos problemas que você enfrenta hoje e imagine qual a importância deles diante da fluidez do tempo. Que importância terão no ano que vem? E daqui a 20 anos? E daqui a 3 mil anos?
2- Como você dança? Ah, não estou falando de passos de balé ou de samba! O ritmo de Kali tornou-se cada vez mais agitado e acrobático ao longo de sua dança. Nossas rotinas e modos de vida também são uma "dança", são movimentos harmoniosos que temos ao longo dos dias. Como é o seu ritmo em sua dança pela vida? Este ritmo te agrada? Por que?
3- Tal como Kali, o que em sua vida você gostaria de destruir ou eliminar?
4- Imagine que 5 mil anos se passaram de repente. Arqueólogos encontram seu bairro e decidem explorar sua casa. Eles a encontram tal como ela está agora. O que eles poderiam dizer sobre a forma como você vive? O que pareceria ser mais importante para você e/ou para o seu estilo de vida?

quinta-feira, 14 de março de 2013

Os papéis sociais tiram a nossa liberdade?

"O Homem é livre, mas encontra a lei na sua própria liberdade." - Simone de Beauvoir, filósofa existencialista, escritora e feminista francesa (1908 - 1986)

O assunto para o artigo desta semana surgiu há algumas semanas, de uma conversa com um amigo estudante de psicologia. A questão era se os papéis sociais tiram ou não a nossa liberdade de ser como quisermos. Antes de tudo, penso que cabe começar dizendo o que entendemos aqui por papel social. 

De acordo com a psicologia social, um papel é um conjunto de funções e comportamentos popularmente relacionados a determinada situação da vida. Por exemplo, o papel do professor é o de ensinar e orientar seus alunos, o dos pais é cuidar e zelar pelo bem estar dos filhos, o da vendedora é atender aos clientes, o da criança é brincar e se desenvolver, e por aí vai. É claro que nem tudo é tão simples assim. Conforme a sociedade se desenvolve, os papéis ficam mais e mais complexos, novas funções são agregadas e releituras são feitas a cada momento. O professor do exemplo já não tem mais (apenas) o papel de passar conhecimento, deve contribuir para formar cidadãos críticos e autônomos e para isso passou a se vale de métodos que vão muito além de aulas tradicionais, como excursões a campo, debates, encenações teatrais, entre tantos outros métodos possíveis e bem vindos nos nossos tempos.

Além disso, essas funções sociais se tornam burocráticas, isto é, tendem a ser organizadas formalmente em instituições. Certa vez quando eu era estudante de psicologia, pensei em montar um grupo de estudos e contei isso a alguns dos meus colegas. A maior parte deles me perguntava "mas quem iria nos orientar? qual professor?" Ora, eu respondia, mas será que não podemos apenas ter um grupo com a nossa cara, onde cada um possa aprender e ensinar com os colegas de maneira mais informal e descontraída e, em caso de dúvidas, claro, recorremos a algum professor? Ah, até podemos, mas não é melhor ter alguém que assine nossa ficha de horas complementares? Se você ficou curioso sobre como a coisa terminou, o grupo de estudos falhou miseravelmente. Porque no mundo de hoje não basta boa vontade e uma dose de crítica, as próprias pessoas que criticam a forma como as coisas são feitas são aquelas que mantém o sistema funcionando. E com isso os papéis vão se tornando mais complexos. Nesta minha experiência, não bastava um grupo de colegas dispostos a aprender e discutir o material estudado, era preciso um formulário que comprovasse a quem quer que tivesse interesse em saber que realmente nos reuníamos para ler e falar sobre isso, quem sabe devessem incluir no formulário se tomamos café ou chá! A burocratização dos papéis é isso, algo simples como amigos reunidos para estudos e discussões se torna algo complexo a ponto de ser quase inviável. O mundo de hoje nos encoraja a tornar tudo complexo e burocratizado, passando-nos a ideia de que assim tudo será mais fácil. Por mais absurda que a ideia soe.

Por fim, outro ponto que tornam os papéis complexos é o fato de variarem de época para época, de cultura para cultura e de pessoa para pessoa. O que se esperava de uma avó em 1900 é bem diferente do que se espera de uma avó de hoje. Alguns pontos continuam, outros são transformados. Ser mulher no Brasil é diferente de ser mulher na Europa ou no Oriente Médio. Ser psicóloga para mim é diferente de ser psicóloga para minha mãe, que se formou na mesma universidade que eu. Porque cada pessoa tem a sua forma pessoal, única, de perceber e interpretar os papéis sociais e, portanto, as diversas situações da vida.

Brincadeiras a parte, o mesmo papel social pode ser desempenhado de formas bem diferentes, e é aí que resgatamos a liberdade de ser quem somos, dando o nosso "toque" aos papéis e funções do dia a dia.
Conheço pessoas que criticam essa ideia de papeis sociais, dizem ser uma noção antiquada e que precisamos ter a liberdade de decidir como queremos agir. Eu pessoalmente discordo dessa forma de pensar. Acredito e encorajo muito a busca pela autonomia e pela liberdade de ser quem somos, este foi um dos maiores motivos que me levaram a começar este blog. Mas acredito também que uma coisa não impede a outra. Primeiro porque não existe essa ideia de liberdade completa e total. Queiramos ou não, estamos inseridos numa sociedade (a partir do momento em que há linguagem coerente e dotada de significados, há sociedade), vivemos e convivemos com muitas outras pessoas, várias delas bem diferentes de nós. Isso quer dizer, no mínimo, que precisamos ter respeito pelos modos de vida e pela visão de mundo das outras pessoas. Só por aí já dá para perceber que existem leis e regras a serem seguidas para que essa vida em sociedade seja pelo menos suportável. Mais do que isso, se fomos criados em sociedade (porque, afinal, ninguém se cria sozinho!), muitas dessas "regras" de conduta estão tão enraizadas em nós, que as seguimos sem perceber.

Na esfera individual, também não me parece que os papéis tirem a nossa liberdade de ser. Ao menos não completamente. Enquanto psicóloga, por exemplo, não posso me envolver de forma pessoal com meus pacientes. Não apenas porque é o que se espera de uma psicóloga, ou meramente para cercear minha liberdade de ser, mas porque existem instituições, os Conselhos de Psicologia, que nos dão um código de ética a ser seguido, o que assegura aos pacientes que nos procuram que o serviço prestado pelo psicólogo será realizado com ética e com qualidade. Mas, em meio às burocracias e regras que delimitam os papéis, restam espaços vazios. E, na minha opinião, a liberdade está em fazer bom uso desses espaços para dar a nossa cara ao papel social, transformando-o numa personagem. Por exemplo, espera-se se um professor basicamente que ele ensine. Mas como cada um faz isso? De forma Rígida e autoritária? Amorosa e criativa? Incentivando a crítica com debates sobre atualidades? Encorajando a competição ou a cooperação, ou cada uma em seu momento? Com entusiasmo ou com desesperança? Não tem jeito, o "modo de fazer", isto é, a forma de desempenhar um papel, sempre vai passar pela identidade de cada um, pelos valores, pela história de vida, pelos nossos ideais... por tudo aquilo que nos permite dizer, livremente, quem somos e quem desejamos ser. É esta a nossa liberdade.

Agora vou propor uma reflexão. Gostaria que você listasse os papéis sociais que desempenha nas diversas áreas da vida. Vale tudo, sem certo e errado, escreva com suas palavras. Quanto mais papéis, melhor. Agora escolha um dos papéis para o nosso exercício. Se quiser fazer isso com cada um dos papéis que você listou, melhor ainda, mas trabalhe com um papel por vez. Vamos às questões:
- Para você, o que os outros esperam de alguém que desempenha este papel (ou cada um destes papéis)? Você concorda com essas funções que se atribuem ao papel? Quais funções deste papel você eliminaria e quais acrescentaria, se for o caso?
- Como é para você vivenciar e ser reconhecido neste papel? Gratificante, terrível ou algo entre os dois extremos?
- Por fim, quais os espaços vazios que este papel deixa para que você se expresse? Como você poderia usar esses espaços a fim de tornar sua experiência mais agradável?

Na fase seguinte deste exercício, após ter trabalhado com pelo menos os principais papéis que você representa em sua vida, procure refletir sobre estas questões. Se puder fazer anotações, melhor ainda!
- Sobre os papéis que você não queria ter mas tem: é realmente necessário tê-los? Se for, de que formas é possível deixar este papel mais com a sua cara? Se não for necessário desempenhar este papel, que tipo de situação te leva a continuar representando-o? O que aconteceria se você o deixasse de lado?
- E sobre os papéis que você não tem, mas gostaria de ter (vale tudo: profissional, praticante de esportes, dançarina, mãe/pai...): que caminho é preciso percorrer para que se chegue a esse objetivo? Este papel é compatível com os outros papéis que você vivencia (principalmente com aqueles que você não pode ou não quer deixar de lado)? Você está realmente disposto a percorrer o caminho necessário e os diversos papéis anteriores a este? Ninguém é psicólogo antes de ser estudante e estagiário por uns bons anos... E nem sempre isso é agradável!

Acima de tudo é preciso ter em mente que os papéis que desempenhamos só nos permitem ter liberdade (ou, melhor dizendo, só nos permitem desempenhá-los com autonomia), se fizerem sentido para nós. Esse sentido pode ser devido a algo da nossa história, do nosso passado, por exemplo, a mulher que sofreu algum tipo de violência e hoje luta para que outras não passem pelo mesmo, ou a pessoa que resolveu seguir a profissão dos pais porque foi encorajado a isso desde muito jovem e sempre viveu num ambiente favorável a isso. Algumas vezes, no entanto, encontramos o sentido no futuro. Por exemplo, o jovem que atura uma rotina de estudos puxada e faz sacrifícios pensando em ir para a universidade no ano que vem. O sacrifício nesse tipo de caso não é visto pela pessoa de forma ruim, pois tem sentido para ela. O sacrifício penoso é aquele que não faz sentido para nós. Não existe ser humano sem papel social, pois de uma forma ou de outra, todos estamos inseridos em algum tipo de comunidade. Ter liberdade é ter autonomia, é poder agir, pensar e sentir de formas que façam sentido para nós e que sejam funcionais em nossas vidas, independente dos papéis sociais que desempenhemos. E nada tem o poder de nos tirar essa capacidade. Nossa liberdade está muito mais dentro de nós do que no mundo externo, pois pode ser que não queiramos todos os nossos papeis, mas a forma como os desempenharemos e o que sentiremos e pensaremos sobre eles, é totalmente nossa. E isso nada nem ninguém nos tira.

terça-feira, 12 de março de 2013

Mythos - Morrighan: confiar no futuro

Atendendo ao pedido de alguns leitores, hoje falaremos um pouco de mitologia celta. Os celtas foram um povo que vivia em tribos, ocupando boa parte do território europeu, em especial nos territórios hoje pertencentes a Portugal, Espanha, Irlanda, Grã-Bretanha, Partes da França e da Itália, entre outros países. A maior parte do que se sabe sobre este povo vem de escritos gregos e romanos, pois os druidas, que eram os sacerdotes celtas, não escreviam sobre suas crenças e práticas já que acreditavam que assim poderiam profaná-las.

Mas vamos ao mito! Hoje vamos falar sobre uma deusa chamada Morrighan. Algumas das variantes de seu nome são Morrígan (que significa "rainha fantasma") e Mórrígan (que significa "a grande rainha"). Morrighan era a deusa celta das guerras e batalhas, regendo também os partos e a morte nos campos de batalhas. Sua aparência é incerta. Em algumas ocasiões, aparece como uma linda jovem, em outras, como uma mulher muito idosa e/ou feia. Ou, ainda, como uma mulher de cabelos negros envolta num manto também negro, que caminhava pelos campos no fim das batalhas, recolhendo as almas dos guerreiros mortos. Aos guerreiros celtas, Morrighan podia mostrar-se na forma de uma gralha ou corvo, pássaros comedores de carniça que sobrevoavam os campos de batalha, bicando os corpos. Mas, na maioria das vezes, ela se mostra como uma mulher de idade incerta, com cabelos negros e pele muito branca, que tem a habilidade de transformar sua própria aparência de acordo com a necessidade. Outra habilidade que tinha era a de criar névoa no campo de batalha, dificultando as coisas para os inimigos. Seu grito de guerra era tão alto e forte quanto o de 10 mil guerreiros. Parece ser uma personagem bastante ambígua, essa tal deusa dos partos e da guerra. E é mesmo. Mas algo em comum nessas várias versões é a questão da entrega. Uma mulher prestes a dar à luz, assim como um guerreiro indo para uma batalha têm muito em comum. Ambos sabem que a experiência que se aproxima mudará suas vidas completamente. E nenhum deles tem certeza se sairá vivo da experiência. Assim como em boa parte das situações da nossa vida, só passaremos por elas se nos entregarmos e confiarmos no futuro. Se seu nome significa "grande rainha", Morrighan também  inspirava os celtas a confiarem no futuro, pois a rainha era aquela que cuidava da vida e da terra, permitindo o desenvolvimento, era tida como sábia. Talvez daí Morrighan ser pensada como regente dos partos. 

Gregos e romanos tinham os celtas como um povo pouco usual, pois festejavam as batalhas e as mortes com entusiasmo e alegria. Também gostavam muito de músicas, porém todas elas eram tristes. É claro que a visão de outros povos sempre é preconceituosa, pois eles sempre compreendem tradições e costumes pelo próprio ponto de vista, portanto, de maneira diferente de um nativo. Assim, os gregos erraram ao dizer que Morrighan era uma deusa semelhante às Fúrias (trio de entidades gregas ligadas à vingança e ao sentimento de remorso e "consciência pesada"). Nenhum deus, entidade ou ser mitológico é igual a outro, porque coisas parecidas podem ter significados muito diferentes para povos diferentes. Assim, quando um guerreiro celta ou uma mulher grávida invocava Morrighan, o intuito não era o de que ela poupasse suas vidas, como muitas vezes se diz, mas sim pedir que, caso viessem a falecer, Morrighan lhes recebesse em seus braços e conduzisse bem as suas almas, como uma mãe amorosa que abraça o filho pequeno após uma queda. Para os celtas, a morte não era o fim, a vida após a morte era apenas a continuação da nossa história e a preparação para um novo ciclo de vida. Assim, a "terrível" Morrighan, para os povos celtas, não era necessariamente uma figura amedrontadora, e sim aquela que receberia e orientaria essas almas ao invés de deixá-las desamparadas. Mas, para isso, era preciso que houvesse a entrega. Quando não nos entregamos a nós mesmos, nossa vida não flui. Fica aquele vai não vai, aquela sensação estranha de que falta algo. Talvez comprometimento.

Questões para reflexão:
1- Em que situações da vida você se entrega e se envolve? Em quais você sente que resiste a se envolver?
2- Morrighan tem a habilidade de se transformar de acordo com a situação. E você, que "formas" (de ser) assume em cada tipo de situação da sua vida? Há alguma "forma" que você não gosta de assumir? E alguma que você gostaria de assumir mas tem dificuldade?
3- Quando um celta se entregava à Morrighan, assumia o que estava prestes a fazer, com as mudanças e os riscos que viriam, e isso provavelmente diminuía-lhes a ansiedade típica da situação. Sentimos ansiedade, aquele nervosismo, sempre que vivenciamos algo cujos riscos fogem ao nosso controle. Quais situações desse tipo existem em sua vida?
4- O que você entende por "confiar no futuro"? Como você lida com a forma de pensar segundo a qual independente do desfecho, tudo acontece da forma mais harmoniosa, mesmo não sendo a que gostaríamos? Como você vivencia a entrega?

quinta-feira, 7 de março de 2013

Conhecer a própria história

"A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para frente." - Soren Kierkegaard (filósofo dinamarquês, 1813-1855)

Nossa história não é lixo nem uma coisa qualquer, é um
dos nossos tesouros mais preciosos.
Sei que já comentei isso muitas outras vezes. Mas nunca antes dediquei um artigo a isso. Estou falando da importância de conhecer a própria história. Sim, a história de vida. Uma das primeiras atividades que proponho para boa parte dos meus pacientes é simples assim: "gostaria de conhecer a sua história." Acho muito interessante, antes da história em si, a forma como as pessoas fazem isso. Primeiro, como a atividade é encarada. Enquanto uns se entusiasmam, outros não entendem a razão do meu pedido. O que a minha história tem a ver com as minhas alergias, ou com a minha depressão, ou com a dependência do álcool, ou até com a dificuldade em me adaptar ao novo trabalho? Muito mais do que se pode imaginar. Depois, como a tarefa é desempenhada. Alguns dizem que não há nada o que contar e passam diversas sessões em silêncio. Outros contam em alguns poucos minutos a história de toda uma vida. Outros levam meses e meses nessa tarefa, me trazem fotos, correspondências, carteira de trabalho, título de eleitor, os dentes de leite do filho que faleceu ainda menino lá no interiorzão, e uma série de objetos pessoais carregados de preciosas lembranças.

Independente do que acontece e de como a história é contada, este sempre é um trabalho muito rico. Porque a nossa história conta quem somos, quem fomos e quem desejamos ser. E isso é o que de mais precioso temos. Hoje gostaria de convidar o leitor a fazer o mesmo que proponho aos meus pacientes. Conte a sua história. Conte para si mesmo. Se quiser, pode escrever ou usar uma câmera de video ou um gravador de voz. Pode usar o apoio de fotografias, desenhos, objetos... Pode construir uma linha do tempo ou usar os recursos com os quais você se sinta mais confortável. O mais importante de tudo é tomar consciência da própria história. Dê a si mesmo o tempo que precisar. Não tenha pressa, pois esta é uma atividade que só dá resultados quando não temos medo de nos envolvermos com ela.

Logo que começamos a contar a nossa história, percebemos que ela começa muito antes do nosso nascimento. Quais são nossas origens? De onde vieram meus pais? Meus avós? Para os leitores de outros países entenderem, o Brasil é um país muito rico culturalmente, pois nosso povo foi formado pela convivência de diversos povos (indígenas, africanos, europeus, asiáticos...), com línguas, costumes e ideais muito diferentes. E tivemos de conviver e formar um novo povo, com novos costumes e com a nossa própria cultura. Mas, independente do lugar onde vivemos, é interessante pensar sobre as origens. Quais são as origens geográficas da sua família? E as origens socioeconômicas? A origem étnica? A origem religiosa? Tudo isso marca a história da nossa família e, assim, marca a nossa história. Quando conhecemos essas origens, muito dos nossos sintomas, costumes e mesmo a nossa forma de pensar se explicam e se revelam como que por magia.

Fotos são recursos interessantes e que ajudam
muito a contar a própria história.
Agora passemos à história de vida propriamente dita. Como foi a gravidez da sua mãe? Foi planejada? Houve algum tipo de acidente ou problema de saúde? Como era a relação do casal e da família? Como foi o seu primeiro ano de vida? Como foi o início da sua infância? Como cuidavam de você? Quem cuidava? Como era o local onde você vivia? Mudou de casa? De cidade ou até de país? Quando entrou na escola? Como foi sua vida escolar? Como era a vida social, seu relacionamento com sua família, amigos, colegas, professores...? Como era sua personalidade? E a sua saúde? E a adolescência e juventude! Como foram seus primeiros trabalhos e a escolha profissional? As primeiras experiências sexuais? O casamento, se for o caso? Teve filhos? Quem são eles e qual o papel deles em sua vida? Perdeu pessoas importantes? Em que momento? Em algum momento da vida, sofreu algum tipo de acidente, violência ou assédio? Não tenha medo de se perguntar mais e mais. Eu sei que muitos dessas informações não são conhecidas por você. Algumas podem ser perguntadas aos pais, avós, tios, irmãos ou primos mais velhos... Outras estão para sempre perdidas na poeira dos tempos... Bom, a gente trabalha com o que tem! Não tenha receio em juntar essas informações. Mais do que isso, não estamos fazendo um catálogo, e sim uma história de vida! Da sua vida, para ser mais clara. Então, não tenha medo de se envolver... reviva emoções ou no mínimo lembre-se de como foi para você viver cada uma dessas coisas. Que sentido elas tiveram para você na época e que sentido têm hoje, quando a história já avançou um pouco mais?

A parte seguinte é o conto. Você reuniu material, informações, talvez até algumas fotos. Talvez tenha construído uma linha do tempo ou até uma árvore genealógica para visualizar melhor a história. Agora é hora de contá-la verbalmente. Pode ser falando ou escrevendo, como preferir. Mas é apenas no momento em que transformamos as informações e imagens num discurso coeso que a história ganha sentido. É muito comum a pessoa contar apenas histórias isoladas, fragmentos de sua vida. Isso é interessante num primeiro momento, mas para que haja um sentido, é preciso um esforço maior, é necessário unir os fragmentos numa única grande história: a história da sua vida. Por isso, como eu disse antes, envolva-se neste projeto e não tenha pressa. Em terapia, meus pacientes e eu gastamos diversas sessões trabalhando com a história de vida.

A vida não é feita apenas de momentos alegres. E é justamente nos momentos difíceis que as pessoas costumam ter vontade de desistir da história de vida. Nessas horas é preciso lembrar que a vida de todos nós tem momentos mais difíceis e mais tristes. Ah, doutora, mas essas partes eu prefiro esquecer! Eu também. Quem não prefere? O problema é que quando a gente "esquece" falta um pedaço da história. Porque mesmo que a gente ignore aquele acontecimento na hora de contar a história, lá no fundo nós sabemos que ele continua lá e que ainda nos incomoda. O que costumo propor é olhar para esses fatos complicados da vida com muita atenção. O que exatamente aconteceu no seu ponto de vista? E no ponto de vista de cada um dos demais envolvidos? E olhando por um ponto de vista neutro? Depois de repensar por todos esses pontos de vista, muitas injustiças se tornam "sortes" e até benefícios. Muitos conflitos se tornam apenas mais um fato da vida. O pai rígido demais, visto pelos olhos da pessoa já adulta, talvez se torne apenas um homem com dificuldades na vida tentando fazer o que ele pensa ser o melhor para os filhos. E alguns dos acontecimentos continuam a doer. Esquecer não é uma opção válida. O ideal é mudar o sentido que damos ao fato, mudar o olhar que temos sobre o que aconteceu. Talvez a ajuda de um psicólogo seja bem vinda neste momento. O que não podemos é deixar esse tipo de lacuna na história. Nenhum vazio vai encobrir a dor pelo que aconteceu. Porque o que está aí nunca deixa de ser contado, de ser dito. E o que é mal dito (maldito?) pode continuar machucando e deixando marcas muito tempo depois, como uma "maldição".

Depois das informações terem sido coletadas e da história ter sido contada, o trabalho continua. Procuramos as personagens que representamos no decorrer da nossa história, situações que se repetem, padrões de pensamento, emoção ou comportamento e por aí vai... Mas, de maneira geral, neste ponto da tarefa, com a história contada e ainda não completamente trabalhada, muitas mudanças já podem ser notadas. As mudanças acontecem porque no decorrer do processo, contando e recontando a nossa história, nos apropriamos dela e modificamos o sentido que ela tem para nós, tornando possível uma vida com maior autonomia. É preciso olhar para o passado para que nossos passos em direção ao futuro sejam dados com sabedoria.

terça-feira, 5 de março de 2013

Mythos - Fenix: a arte de ressurgir das cinzas

Hoje continuaremos o trabalho com os mitos a partir do mito grego de Fênix, a ave que renasce das próprias cinzas. Fênix era uma ave bastante diferente das aves comuns. Primeiro porque enquanto a maioria dos pássaros vive apenas alguns anos, a Fênix podia viver por 500 anos em cada um de seus ciclos de vida. Ao contrário de boa parte das aves conhecidas, Fênix não se alimentava de grãos, nem de frutinhas silvestres e menos ainda de bichinhos e insetos. Não... Fênix era especial, comia apenas incensos e raízes perfumadas. E apesar de ser pouco maior que uma águia, Fênix era muito forte. Contam os escritos deixados por poetas gregos como Ovídio, que Fênix tinha força suficiente para carregar elefantes em suas asas! Entretanto, a maior diferença entre a Fênix e os outros pássaros era a forma como nascia ou morria. A cada ciclo de vida, quando a Fênix estava próxima dos 500 anos, a ave juntava muitos ramos perfumados e construía um ninho no alto de um carvalho, árvore considerada sagrada entre muitos povos. No momento da morte, a Fênix simplesmente queimava! Ardendo em chamas espontaneamente, até que tudo o que restasse de seu corpo e de suas lindas penas douradas não passasse de cinzas. Muita coisa se falava sobre as cinzas da Fênix. De acordo com os povos antigos, elas seriam tão poderosas que poderiam até mesmo fazer um morto voltar a vida. Então, após certo tempo da ave se reduzir a cinzas, uma nova ave nascia a partir das cinzas deixadas pela antiga. Uma ave jovem e forte, com 500 anos de vida pela frente, com as penas douradas mais brilhantes e viçosas. Ela se alimentava dos restos de cinzas e dos ramos perfumados do ninho e, quando estava crescida o suficiente, partia e alçava novos vôos.

Imagem extraída do Bestiário de Aberdeen, catálogo de seres reais
e imaginários manuscrito na Inglaterra por volta de 1200.
Uma coisa interessante: mitos sobre aves que ressurgem das cinzas existem entre diversos povos, como os antigos gregos, os assírios, os persas, os egípcios e os chineses. E, em todos esses casos, o mito tem significado de renascimento, esperança, continuidade e eternidade. Quando estudamos a mitologia de diversos povos, logo encontramos mitos semelhantes. Ou temas bem parecidos. Isso acontece porque o mito é uma forma de explicar a realidade, seja o mundo em que vivemos seja nossa própria realidade interna: angústias e emoções tipicamente humanas.

O mito da Fênix aborda a questão da nossa necessidade (ou do desejo?) de imortalidade. Ou melhor, de continuidade. A nova Fênix, ressurgida das cinzas da ave anterior, seria a mesma de antes? E, se for, como poderia um ser dar a vida a si mesmo? Independente das respostas para essas questões, se é que há alguma, o ser humano costuma se acalmar e sentir certo bem estar ao olhar para o futuro e ver algum tipo de continuidade. Porque nos dá esperança. Porque nos faz sentir que nossos feitos não serão esquecidos e nos dá a certeza de que nossos esforços não foram em vão. Porque mostra que a vida não termina, uma vez que ela está inserida num todo.

Finalizando por hoje, deixo algumas questões para reflexão:
1- O leito de morte da velha Fênix e o ninho da nova ave são a mesma coisa. Quando tudo parece perdido, sempre resta uma esperança. Há algo quase morto em sua vida que poderia renascer de uma forma mais jovial e mais forte?
2- E se tudo der errado? Tal como a Fênix que arde em chamas até a morte, qual a pior coisa que poderia te acontecer? E aí, o que restaria, como seriam as coisas? Se isso acontecesse, haveria alguma esperança?
3- Não há novo começo enquanto existir os antigos modos. Quais antigas formas de pensar, de agir ou de perceber (o mundo e a si mesmo) poderiam ser sacrificadas para abrir espaço para formas mais leves e harmoniosas? Você sente que tem algum tipo de resistência em deixar o antigo ciclo terminar para que um novo se inicie? Por que?