sexta-feira, 31 de maio de 2013

Ágora - Contornando o ciúme do irmãozinho

Bia,
Minha questão é sobre filhos. Tenho uma filhinha de 2 anos, ela é uma criança muito doce e apegada a mim e ao meu marido. Mas engravidei pela segunda vez e tenho medo que ela sinta ciúme do bebê, tenho medo de ela sofrer com isso. Ela já começou a querer saber por que minha barriga cresceu e não sei o que responder, ela mostra minha barriga apontando com o dedinho e pergunta porque. Como eu faço para ela passar tranquila por essa fase?
Desde já obrigada. beijo
Denise - Florianópolis

Oi Denise!
O primeiro passo é conversar com a sua filha, contando para ela que vai ganhar um irmãozinho e que a barriga da mamãe cresceu porque por enquanto o bebê vive lá, mas quando estiver pronto vai nascer e ela poderá conhecê-lo. Tudo com muita calma e de um jeito bem simples, que a criança entenda. É interessante contar para sua filha a história dela. Como era quando ela que estava na barriga da mamãe? Como foi o dia que ela nasceu? Como era o dia a dia de vocês quando ela era uma bebezinha? Crianças são muito visuais, por isso se você tiver fotos e videos de quando ela era bebê, ela vai gostar de ver. Se tiver roupinhas e outras coisinhas de quando ela era mais nova, também é legal mostrar para ela. Sempre falando como ela era pequenininha, como cresceu, o quanto é amada... Traga o papel principal para a sua filha, e não para o bebê, deixe que ela se sinta especial.

É muito comum que a criança queira participar do dia a dia do novo bebê. E principalmente para crianças pequenas como sua filha, participar não significa ajudar a mamãe, e sim fazer o mesmo que o irmãozinho faz. Lembre-se que a idade dela é mais próxima da idade do bebê do que da idade dos pais! Pode ser que ela queira experimentar um pouquinho como é mamar no peito. Pode ser que chore mais do que de costume ou que queira ver como é tomar banho na banheirinha do bebê ou brincar com os brinquedinhos dele. E é legal deixar que ela experimente. Sempre dizendo que quando ela era pequenininha ela também fazia essas coisas de neném, e agora que é uma menina maiorzinha, já sabe fazer coisas novas, sabe comer comidas diferentes, fazer outras brincadeiras, enfim, agora ela já sabe fazer escolhas. Com calma e paciência, sem repreender. Nunca é demais dizer, muitos abraços, beijos e colo continuam sendo fundamentais e sempre serão!

Ah, e não esqueça de dizer que o irmãozinho vai crescer! Para nós adultos pode parecer bobagem, mas a criança pequena nem sempre sabe que o bebê vai crescer e ficar independente também. E saber disso acalma muito a criança. Ele vai crescer e vocês vão poder brincar juntos, ir para a escolinha juntos... É normal existir certa competição ou ciúme, mas a interação saudável e cooperativa deve ser incentivada. E uma última orientação: não compare suas crianças. Nunca. Cada uma delas é única e especial do jeitinho que é.

Muitas felicidades para sua família!
beijos
Bia

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quinta-feira, 30 de maio de 2013

Como meditar e os benefícios da meditação

Vou contar um segredo. Até segunda feira passada, a pergunta do Anônimo ia sair na coluna Ágora de amanhã. Mas aí chegaram as perguntas da Julia K. Cardoso e do Carlos Alexandre S., sobre o mesmo assunto, mas pensando em outros ângulos do tema. Enfim, juntei tudo e o que era para ser um texto curtinho virou o artigo da semana! Para que os leitores acompanhem, coloquei aqui as perguntas dos três:

Em muitos dos seus artigos você sugere meditar como uma forma de se acalmar e de se conhecer melhor. Mas como meditar? Obrigado.
Anônimo

Bia, tudo bem?
Queria saber mais sobre meditação. Você podia escrever um artigo sobre isso, ou então responder na Ágora. Apesar da minha família ser oriental, nunca aprendi a meditar e gostaria de saber como fazer. Tenho que me sentar com as pernas cruzadas daquele jeito? De olhos fechados ou abertos? Com música? Preciso acender velas ou incensos? Por favor, me responda, queria muito aprender.
um beijo
Julia K. Cardoso - São Paulo

Bom dia, doutora! Não sei se é uma pergunta boba porque não tenho bem um problema. Mas queria saber mais sobre os benefícios da meditação para a saúde. Quero estudar psicologia e acho esse tema interessante. abraço
Carlos Alexandre S. - Belo Horizonte

Pois é. E vendo essa coincidência não resisti e juntei as três perguntas, assim fica um texto mais completinho.  Ficou uma coisa meio passo a passo e a ideia era mesmo essa, fazer um artigo simples e bem didático para que todos possam começar a desfrutar dos benefícios da meditação o quanto antes. Mas vamos ao que interessa: afinal, como meditar?

Em latim, meditare significa "voltar-se para o centro", no sentido de olhar para dentro de si (lembram das mandalas? O objetivo é chegar ao centro, ao "núcleo"). A meditação não é uma técnica única. Isso quer dizer que existem muitos jeitos de meditar, sem que um seja mais certo ou melhor para os outros. Para começar diferenciando dois tipos, existe a meditação passiva (em que a pessoa medita sentada, deitada, em pé...) e a meditação ativa, concentrando-se em alguma atividade (meditação em movimento, por exemplo durante caminhadas, danças circulares, etc. ou mesmo durante atividades um pouco mais tranquilas, como pinturas, trabalhos manuais, jardinagem, cozinha...). Existem ainda as meditações dirigidas, em que a pessoa segue um "roteiro", como um "filme interior". Pode ser feita de forma solitária ou com a voz do terapeuta guiando e dizendo o que acontece, descrevendo situações. Essas meditações dirigidas podem ter o objetivo de relaxamento, autoconhecimento e até mesmo romper bloqueios emocionais e superar traumas, o que é feito através de imagens e situações bem simbólicas e específicas para cada situação.

Posição de lótus. Você pode meditar na posição que ficar mais
confortável, principalmente se for iniciante.
Foto de minha autoria.
Existem muitos objetivos que a prática de qualquer tipo de meditação pode atender, que vão desde o simples relaxamento, lidar melhor com as próprias emoções, conflitos e situações da vida, até atingir níveis mais elevados de espiritualidade. Independente do objetivo que a pessoa tenha em mente, a meditação traz alguns "efeitos colaterais" muito positivos, como a melhora da concentração, da autoconsciência e consciência da realidade, melhora do equilíbrio psíquico, melhoras no sistema imunológico, respiratório e circulatório, além de aliviar sintomas como dores crônicas, depressão, distúrbios de sono, hipertensão arterial, TPM e transtornos de ansiedade/estresse. Isso acontece porque o estado meditativo age no nosso sistema nervoso central aumentando a endorfina (substância relacionada à felicidade, superação da dor, e bem estar), também aumenta GABA (substância que estabiliza o humor, contornando a ansiedade e o estresse),  favorece a atuação do hormônio do crescimento em crianças (HGH), aumenta os níveis de melatonina (substância antioxidante ligada ao sono reparador e à diminuição do estresse), aumenta os níveis de serotonina (neurotransmissor conhecido por contornar estados de depressão e ansiedade, atuando sobre o humor e o comportamento. Sua falta pode desencadear quadros de depressão, obesidade, insônia e problemas de sono, enxaquecas, fibromialgia e TPM). Além disso, o estado meditativo diminui o cortisol, popularmente conhecido como "hormônio do estresse" (quando está alto pode desencadear quadros de doenças cardíacas, vasculares, perda da massa óssea e muscular, disfunções da glândula tireoide, desequilíbrio da taxa de açúcar no sangue, estresse, problemas no desempenho cognitivo, entre outros sintomas) . Lembrando que a meditação sozinha não cura esses problemas, mas sim age como um tratamento auxiliar que, apesar de ajudar muito, não dispensa os tratamentos tradicionais, consultas médicas e com outros profissionais de saúde que a pessoa precise consultar, nem substitui o uso de  medicamentos, exames, procedimentos, etc. Além desses benefícios, vários dos meus pacientes orientados a meditar relatam que passaram a se lembrar mais de seus sonhos, especialmente os que meditam antes de dormir.

Mas o que fazer com a nossa mente enquanto meditamos? Essas são algumas formas mais comuns de meditação:
- Esvaziar a mente, deixando que os pensamentos cheguem e passem, sem se prender a eles.
- Manter o foco em um único elemento, mas sem pensar sobre ele. Esse elemento pode ser uma imagem (mandalas são muito usadas), a chama de uma vela, uma palavra ou conceito (amor, finitude e continuidade, medo, solidão, solidariedade, sucesso, abundância, etc.) Pode ser ainda o som se um mantra ou palavra que a pessoa repita ou escute durante a meditação, uma música de fundo (daquelas bem tranquilas!), uma pergunta, a própria respiração, etc.
- Em algumas tradições espirituais, a meditação é usada com a proposta de receber orientação e/ou abrir a mente para uma realidade que vai além de nós mesmos. Isso é interessante, pois quando nos voltamos para o centro, para dentro de nós mesmos, podemos acessar todos os conhecimentos e símbolos do inconsciente. Basta concentrar-se e ter a intenção de acessar esses conteúdos. Eles são seus, estão aí para você conhecê-los e aplicá-los em sua vida.

Antes de passar uma técnica simples de meditação, gostaria de dar algumas explicações, dicas e instruções sobre como meditar:
- Costumo sugerir a meus pacientes que meditem sentados. Prefiro que meditem sentados apenas para evitar problemas de desequilíbrio e quedas que pessoas em algumas condições podem ter ao terem que permanecer de pé com os olhos fechados por diversos minutos. Também dificulta que a pessoa caia no sono. Lembrando que cair no sono durante meditações, mentalizações ou relaxamentos NÃO oferece riscos. Você NÃO fica preso em lugar algum, você apenas dorme e acorda normalmente. Só é chato para algumas pessoas acordar e ver que dormiu no meio do processo... Mas quando o objetivo é puramente terapêutico, mesmo que a pessoa durma durante a técnica, os efeitos podem ser sentidos. O sono e o sonho pertencem ao reino do inconsciente.
- Mantenha a coluna ereta, pois assim o cérebro recebe mais oxigênio e trabalha melhor. Aliás, mesmo ao estudar ou trabalhar, o rendimento com a coluna ereta sempre é maior, pois a maior oxigenação ativa o tronco cerebral, e isso é fundamental para que as diferentes áreas cerebrais funcionem bem e em harmonia, como numa orquestra.
- As pernas podem ficar na posição de lótus (cruzadas como a da foto) ou com os pés apoiados no chão.
- Os braços podem ficar apoiados sobre as coxas . Pessoas que têm dificuldade para deixá-los assim (como ocorre em casos sérios de obesidade ou pacientes com grande dificuldade de mobilidade) podem apenas deixar os braços ao lado do corpo.
- Inspire o ar pelo nariz e expire pela boca. Faça respirações profundas e pausadas, respire lentamente. A pressa é inimiga do relaxamento!
- Deixe o ambiente na penumbra. Apague as luzes e deixe apenas a luminosidade natural entrar. Se for noite ou um dia mais escuro, pode deixar uma luz fraquinha acesa, como uma lanterna ou abajur.
- Se quiser, pode colocar uma música suave. Respondendo à questão da Júlia, as velas e incensos não são obrigatórios, e na meditação terapêutica, não são necessários. Esses elementos ficam por conta da preferência de cada um. É possível meditar sem nada disso, apenas respirando e aquietando a mente num local silencioso e tranquilo. A participação de outros elementos (música, velas, incensos, etc.) são apenas um colorido, um cenário. Para algumas pessoas, isso ajuda a relaxar e entrar no clima da meditação. Já para outras, pode distrair e tirar o foco e a concentração. Cada um encontrará o jeito melhor para si. Alguns caminhos espirituais pedem a meditação com elementos específicos para se atingir certo fim, de acordo com as intenções da pessoa. Mas terapeuticamente nosso foco é a paz interior e os benefícios que meditar traz à saúde física e mental.

Agora vou ensinar uma técnica de meditação. É bem simples e, justamente por isso, essa é a técnica que costumo ensinar para crianças e pessoas que nunca meditaram antes. Entretanto, pode ser feita por qualquer pessoa, independente da faixa etária ou de ter ou não o costume de meditar (eu mesma sou fã desta técnica!). Sente-se confortavelmente. Respire fundo pelo nariz e expire pela boca três vezes (para oxigenar o cérebro e relaxar). Imagine o mar, mar aberto, distante da praia. Agora imagine que você é um pequeno barco no meio desse oceano. Sinta o mar te levar para cima e para baixo, sinta seu corpo relaxar com o movimento do mar. Sinta sua respiração (profunda e lenta) te levar para cima e para baixo, junto com o mar... Concentre-se na respiração/movimento do mar. Se surgirem outros pensamentos, apenas os deixe ir embora e volte a se concentrar no movimento do mar/respiração: para cima e para baixo...

Quanto tempo deve durar a meditação? Isso varia para cada pessoa. Comece devagar. Três minutos, depois cinco, dez, quinze... aumentando aos poucos, de acordo com o seu ritmo. Crianças podem começar com um minuto e, aos poucos, respeitando o ritmo da sua criança, chegar até os cinco minutos. Lembre-se que é melhor meditar por menos tempo todos os dias do que fazer uma meditação longa demais e se desestimular a continuar. O mais importante é a frequência, não o tempo de duração. Se possível, é bom meditar todos os dias, mesmo que apenas por poucos minutinhos antes de ir para a cama ou no horário de almoço.

Quem pode meditar? Quase todas as pessoas. Adultos, crianças, idosos, pessoas com problemas de saúde, mulheres grávidas (façam isso, é ótimo! Um jeito interessante é manter o foco no bebê e em sentimentos de amor, felicidade, boas vindas...). A meditação apenas não é recomendável à pacientes com transtornos mentais muito graves que estejam em crise (como esquizofrênicos, psicóticos...). Crianças podem meditar por até 5 minutos, sem forçar muito. Pessoas que foram diagnosticadas com depressão grave também devem meditar por no máximo 5 minutos. No mais, a meditação é muito indicada como forma de contornar sintomas, melhorar o equilíbrio psíquico e a qualidade de vida.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Mythos - Héstia: o fogo sagrado que nos anima

Héstia, na Grécia Antiga, é a deusa do lar e da lareira. Apesar de aparecer em poucos mitos, esta era uma deusa muito respeitada e sempre cultuada em todas as cidades da Grécia e, mais tarde, de Roma (onde se chamava Vesta). Lembrem-se que apesar de parecidas, Héstia e Vesta não são a mesma deusa! Gregos e romanos tinham valores e ideais bem diferentes uns dos outros. Assim, a ideia de "lar" e de "sentir-se em casa" era diferente para cada povo. Em Roma, Vesta era a personificação do fogo doméstico, que jamais podia se apagar, pois esse fogo era sagrado, simbolizava os lare, os ancestrais. Repare que foi dessa palavra que surgiram outras como "lar" e "lareira" (e reparem também nas tradicionais fotos de família colocadas perto das lareiras!). Já na Grécia, Héstia era a deusa do fogo sagrado, do lar, protegia as famílias e as cidades. Mas o conceito grego de lar era mais amplo, as cidades eram lares também. As cidades eram fundadas e colonizadas para serem "casas", ao contrário do romano que deixa a casa para trás e se aventura em terras estrangeiras... Todas as cidades gregas tinham um templo dedicado a Héstia, onde o fogo nunca poderia se apagar. Esse fogo era trazido de outro templo de Héstia, ou era aceso diretamente do calor do sol, pois o fogo sagrado de Héstia simbolizava a continuidade. Mesmo nas casas, o fogo das lareiras nunca devia ser apagado, a não ser em sinal de luto.

Héstia é filha de Cronos, o tempo, e Réia, a energia da terra. Ela foi a primeira filha do casal, portanto, a primeira deusa a nascer (pois Cronos e Réia não eram deuses, mas sim titãs). Mas o pai de Héstia tinha um costume pouco comum. Ele engolia seus filhos assim que nasciam. Claro que, como os costumes de todos nós, o de Cronos não era obra do acaso. Quando mais jovem, ele castrou o pai, Urano, que tinha ciúme dos filhos e tentava lhes fazer mal. Assim, Cronos destronou o pai. Porém, o Oráculo havia previsto que também Cronos seria destronado por um de seus filhos e era para evitar essa situação desagradável que ele os engolia assim que nasciam. Engoliu Héstia, depois Deméter, Hera, Hades e Posídon. Até que Zeus nasceu e, farta de ver seus filhos sendo devorados pelo companheiro, Réia escondeu o menino. Quando cresceu, Zeus foi até Cronos e o forçou a "vomitar" os irmãos, que saíram do estômago do pai na ordem inversa em que foram engolidos. Depois, unido aos irmãos, Zeus e os deuses se engajam em batalhas e prendem os titãs no Tártaro (a região mais profunda do reino dos mortos, para onde iam apenas os piores criminosos). Assim, os deuses assumiram o controle do mundo. Mas esta é outra história. Hoje vamos nos ater a Héstia. Dei essa volta no mito para explicar que Héstia foi a primeira a nascer e a última a sair do estômago de Cronos, que podemos interpretar como um "segundo útero", um segundo período de gestação. Foi a que ficou mais tempo reclusa. Se repararmos na personalidade de cada um desses deuses, o tempo passado no estômago de Cronos influenciou muito suas personalidades, em especial a abertura para o mundo e para o outro. Zeus, o arquétipo do líder, é o único que não foi engolido. O agitado Posídon, deus dos mares, de emoções incertas que podiam ser revoltas como o oceano em noite de tempestade, foi o primeiro a sair. Hades foi o segundo e é um bom governante, mas do mundo dos mortos (inconsciente). Hera foi a próxima, é voltada para o outro, mas seu foco é o casamento, a união estável com uma só pessoa (para o desespero dela, Zeus). Deméter, a penúltima a sair, é ainda mais introvertida nesse sentido, voltada para a maternidade. E, por fim, saiu Héstia.

Héstia, tendo sido a que mais permaneceu no estômago de Cronos, é uma deusa pacífica, que nunca se envolveu numa guerra. Também é uma deusa virgem. Na mitologia grega existem três deusas virgens: Héstia, Atena e Ártemis. Em todos os casos, foram elas mesmas quem decidiram se manter virgens. Isso simboliza que são mulheres autossuficientes, confiantes, invulneráveis e que se sentem livres para viver como escolherem. Mesmo assim, Héstia teve alguns pretendentes, entre eles Posídon e Apolo (deus que leva o carro do sol). Apesar de Posídon complementá-la bem (pois Héstia é a deusa mais centrada e Posídon um dos mais expansivos em todos os sentidos); e do racional Apolo ver na deusa exatamente o que buscava (maturidade emocional, uma mulher tranquila e sábia), Héstia recusou os dois. Não apenas por ser muito fechada em si (tanto que ela até mesmo abriu mão de sua cadeira no Olimpo em favor de Dionísio!) ou por não querer ser parte desse mundo caótico (que melhor lugar para escapar do caos e da confusão do dia a dia que o lar?). Mas sim porque Héstia escolhe a si mesma ao invés do outro. Ao ser centrada, ela reconhece a si mesma como o centro de sua vida (curiosidade: nas casas típicas da Grécia Antiga, a lareira ocupava o centro da construção).

Muitas vezes essa deusa é vista como passiva, quase "apagada" (perdão pelo trocadilho!). Mas não é bem isso. O fogo é o elemento que significa a transformação, ou melhor, a transmutação, pois faz com que aspectos desfavoráveis se tornem favoráveis (o exemplo mais clássico é o processo de cozinhar os alimentos, extraindo deles o melhor sabor e textura; ou o fogo dos alquimistas, capaz de transmutações incríveis). Além disso, o mitólogo Junito de Souza Brandão aponta que uma crença comum na Europa antiga e medieval era que o fogo teria surgido da vagina das bruxas. E esse simbolismo é lindo, pois entrega à mulher o poder de criar e transformar, o poder de transmutar. Héstia, quando vista sob esta luz, não é passiva, ao contrário, cria e recria, transmuta o lar, as famílias e cidades... e, com eles, transmuta costumes e ideias, de forma tão sábia e discreta que a ação pouco é percebida, mas os efeitos são duradouros: o fogo sagrado nunca se apaga!

Questões para reflexão:
1- Onde você se sente em casa? Como é o seu sentimento de estar em casa? 
2- Quem é você quando está num lugar completamente protegido, onde pode se permitir viver sem ter de lidar com pressões e expectativas de outras pessoas?
3- Pensando na casa não como a nossa morada, mas sim como o nosso corpo (a casa da psique!), você se sente "em casa" nesse corpo? Por que? O que precisaria ser modificado (pensando em hábitos, alimentação, cuidados, a forma como você se percebe...)?
4- Como é a sua morada interior? Escreva sobre ela e sobre como é estar nesse lar, ou faça um desenho ou colagem representando-o.
5- O fogo sagrado de Héstia é a alma da casa. Qual é seu fogo sagrado? O que te anima? O que te traz o sentimento de continuidade, o que te faz continuar seu caminho?

sexta-feira, 24 de maio de 2013

5000 Visitas!

Chegamos aos 5 mil acessos! Quero deixar registrado aqui o meu muito obrigada. Pensando em algo diferente para fazer quando as 5 mil entradas chegassem, achei que seria interessante compartilhar com vocês algumas curiosidades, estatísticas e dados do blog. Veja abaixo o nosso top 5!


Os 5 países que mais acessaram o blog:
Brasil
Estados Unidos
Reino Unido
Portugal
Alemanha 

Os 5 textos mais lidos: (clique nos títulos para relembrar)

Os 5 mais comentados:

5 dos termos procurados no Google que trouxeram até o blog:
Rosa dos ventos
Mandalas e espiritualidade
Sonhos / interpretar sonhos
Criatividade
Problemas em casa

É isso! Mais uma vez agradeço a todos pelo apoio, seja com comentários e críticas, conversas inspiradoras, sugestões ou leituras. Nessa interação construímos isso. Caminhamos juntos. E sempre estaremos conectados.

Ágora - Conflitos entre adolescentes e pais

Oi Bia! Não deixa aparecer meu nome tá? Pode me chamar só de Cah. Sou garota e tenho 13 anos. Tenho um problema e não sei pra quem mais eu pergunto, sou tímida e tenho poucos amigos e eles não sabem me responder. É que minha mãe só briga comigo. Sério, tudo o que eu faço ou não faço ela fica arrumando um jeito de implicar. Ela me trata feito criança e isso me deixa com muita raiva!!!!!!! Gosto dela e quando eu era mais nova a gente não discutia tanto. Quando a gente discute eu fico muito triste mesmo. Não sei se porque eu não conheci meu pai e não tenho irmãos que ela briga tanto, sempre moramos só nós duas lá em casa e acho que sobrou tudo pra mim a atenção e tambem as brigas. Eu tento não ficar em casa pra ela não me ver tanto e aí não brigar, tipo eu vou pra casa da minha amiga e a gente passa a tarde la depois da escola. Mas quando volto ela briga mesmo assim. Ela não vê que já cresci e quero fazer as coisas do meu jeito. Sabe, não uso drogas nem bebo nem nada dessas coisas, gosto da escola e tudo, não é esse tipo de coisa ta? Mas é que eu queria que ela me visse como uma mulher nao uma menininha pequena. Como eu faço pra minha mãe parar de brigar comigo e me ver do tamanho que sou? Não põe meu nome que minha mãe tambem le teu blog, põe Cah! bjks

Oi Cah!
Sei bem como é difícil ter 13 anos. Começo da adolescência, época de tantas mudanças... Crescer é difícil. Não só para quem está crescendo, mas também para os adultos que precisam acompanhar essas mudanças e nem sempre sabem como fazer isso. Muitos adolescentes ficam inseguros com as novas situações. E muitos adultos também ficam quando percebem que o jeito como sempre trataram os filhos não dá certo mais. Pelo que você diz, você ama sua mãe e quer resolver as coisas entre vocês duas. Uma boa conversa, com sinceridade e respeito, pode ajudar muito, ou pelo menos ser um bom começo. Também é interessante fazer coisas junto com a sua mãe, assim vocês se aproximam e descobrem novos jeitos de chegar a um acordo que não seja brigando. Pode ser qualquer coisa que as duas gostem, cozinhar juntas, pintar as unhas, caminhar... O importante é colocar para sua mãe esses sentimentos. Se ela briga, é porque de alguma forma se preocupa com você, porque te ama e talvez não conheça outro jeito de te dizer que se preocupa. Sei que quando a gente fica adolescente sente que já está pronta para a vida e para um monte de coisas. E em algumas coisas está pronta mesmo. Mas fica aquele espaço vazio entre o nosso sentimento de ser uma mulher quase adulta que está pronta para tudo e o reconhecimento dos adultos. Infelizmente o mundo só nos reconhece como mulheres adultas dos 18 anos para frente. Até lá nossas famílias é quem tomam as decisões importantes que a gente gostaria tanto de tomar. E isso é muito chato! Dói ver a nossa vida nas mãos de outras pessoas que fazem escolhas por nós, algumas vezes tão diferentes das que a gente faria. Você não é uma menininha pequena e sabe disso, ponto para você. Mas, sinto muito mas preciso dizer, você não é uma mulher ainda, mesmo que talvez já tenha corpo de mulher. Porque crescer não é só mudar de tamanho, usar salto alto e maquiagem, é mudar de pensamento e de emoções, mudar de atitude. E isso acontece aos pouquinhos. A solução? Mudar de comportamento. Procurar sempre tomar as atitudes de um jeito responsável, isto é, pensando nas consequências que eles podem ter e em como você e as pessoas envolvidas lidariam com essas possíveis consequências (eu sei, nem sempre é fácil). A ideia é mostrar aos adultos que você sabe pensar na lógica deles. Tipo seguindo os combinados (veja que um combinado não é uma ordem por parte da sua mãe, mas algo que foi discutido com maturidade até que se chegasse a um acordo entre vocês). Experimente. Coloque suas ideias com calma e clareza e siga o que vocês decidirem juntas. Com certeza sua mãe vai passar a te perceber de outro jeito. Se o combinado entre você e sua mãe era, por exemplo, voltar da casa da amiga às 6 horas da tarde, esteja em casa nesse horário. E aí os adultos começam, aos poucos, a ser menos rígidos. Ela sempre volta às 6, passaram só 10 minutos, ela deve estar chegando, não preciso brigar com ela porque algumas vezes todo mundo se atrasa, sei que isso não é rotina. Isso não quer dizer que uma vez conquistada a confiança você pode deitar e rolar, não é nada disso! Confiança é assim, do mesmo jeito que se conquista, se perde. Quero dizer que conforme nos mostramos responsáveis por nós mesmos, os adultos começam a entender que somos capazes de tomar conta de nós e que eles não precisam nos tratar como criancinhas, ficam menos rígidos e mais abertos à conhecer nossa forma de fazer as coisas porque se sentem tranquilos quanto à nossa capacidade de fazer escolhas acertadas e lidar com as consequências. O único jeito de ter liberdade é assumindo as responsabilidades pelas nossas escolhas e pela nossa vida, dentro do possível e do coerente com a sua idade. Ah, achei linda a sua pergunta!
beijo,
Bia

PS - Sua mãe te ama, mesmo que seja dura com você. Na próxima discussão, lembre isso a ela com um abraço gostoso, daqueles bem apertados. No mínimo a conversa vai ficar mais tranquila.


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quinta-feira, 23 de maio de 2013

Ritos de passagem, ciclos e celebrações

"Mera mudança não é crescimento. Crescimento é a síntese de mudança e continuidade, e onde não há continuidade não há crescimento." - C.S. Lewis, teólogo e escritor britânico (1898-1963)

Vivemos num mundo pobre em rituais. Ou melhor, pobre em rituais que façam sentido para as pessoas desta época. A maioria dos ritos de passagem que temos são laicos e/ou são reduzidos a "apenas uma festa". E aí o verdadeiro sentido dessas celebrações se perde. Veja as formaturas, as festas de 15 anos das meninas, os casamentos, os funerais... Ou são só festas ou são apenas coisas que chegam e passam. Não nos remetem a um ciclo, e aí perdemos a oportunidade crescer com esses eventos. A cultura ocidental de hoje, ao reduzir os rituais de passagem dessa forma, faz com que as pessoas tenham dificuldades em perceber os ciclos que compões a vida. E distanciando-se desses ciclos, ficamos alienados, no sentido de que o tempo passa a ser uma grande reta, e não uma espiral. Quando o tempo é uma espiral, a vida ganha ciclos, ganha movimento e dinamismo. Um ciclo pode ser comparado aos que vieram antes, e isso nos dá referências, nos tranquiliza frente ao futuro. Ficamos mais confiantes e amadurecemos, pois os ciclos anteriores nos ensinam a lidar com situações semelhantes, mesmo que a semelhança seja bem genérica, como "a parte triste do ciclo", como uma paciente definiu brilhantemente certa vez. Se o tempo é uma reta, o passado não é trazido à consciência, ao contrário, fica cada vez mais para trás, e mais distante de nós. Cada acontecimento precisa ser um espetáculo para que a vida vivida num tempo linear ganhe algum colorido. E aí temos pessoas mais preocupadas em passar uma imagem do que em aproveitar os momentos da vida (seja desfrutando os agradáveis ou refletindo com os desagradáveis). Como consequência, temos algumas aberrações, como "adolescentes" com mais de 40 anos (aquelas pessoas que resistem a amadurecer, no sentido de se responsabilizarem por si mesmas, por suas necessidades e desejos), casais em que um não consegue perceber o companheiro/a com clareza, profissionais com grande dificuldade em assumir um papel ético e coerente com sua ocupação, pais que não se percebem com a função de dar limites às suas crianças, pessoas que se sentem inúteis, feias ou ultrapassadas com a chegada da maturidade, e por aí vai.

Ritos de passagem encenam o ciclo de vida - morte
 - vida, momento em que temos a oportunidade de
renascer, de recriar a nossa vida de um jeito
que faça sentido para nós.
Gosto de comparar a situação da nossa civilização às mais antigas. Qualquer povo antigo que você pensar (gregos, romanos, egípcios, mesopotâmios, celtas, nativos das Américas, chineses, japoneses, indianos, africanos...) tem ritos de passagem. E mais: esses povos não se limitam a ritos de passagens individuais, dos ciclos de vida de cada pessoa, mas têm ritos de passagem coletivos em que se celebram as passagens da natureza (como as estações do ano, fases da lua, o ciclo menstrual das mulheres, etc.), do dia a dia do povo (festivais de plantio e colheita, de caça, de preparação para batalhas...) e ainda festivais que honram uma história, seja ela uma história humana (dia da independência, da desocupação nazista em alguns países, da libertação dos escravos, etc.) ou da história que remete a um passado mítico, às origens de um povo ou à uma grande transformação que tenha passado (o Natal dos cristãos, a Páscoa dos judeus, as celebrações dos Mistérios de Elêusis dos gregos...). Essas celebrações, sejam pessoais, do grupo ou de ciclos da natureza, são uma forma de firmar nossa identidade (pessoal ou coletiva), honrando nossas origens e dando as boas vindas ao futuro. Celebrar as passagens e os ciclos nos permite ainda viver de maneira mais consciente da nossa história e das nossas escolhas e metas.

Além disso, essas celebrações das passagens e ciclos permitem que a pessoa assuma seus novos papéis e deixe os antigos com mais tranquilidade. O antropólogo francês Arnold Van Gennep (1873-1957) estudou ritos de passagem em diversos povos. Ele descreve ritos de gravidez e parto, infância, iniciação, casamento, funerais, entre muitos outros tipos de ritos. Após analisar esse material, Van Gennep concluiu que os ritos de passagem mexem profundamente com o ser humano, uma vez que encenam o processo de vida - morte - renascimento, ou seja, o rito de passagem nos dá a confiança necessária para assumir um novo papel (de adulto, de idoso/sábio, de pessoa casada, de mãe/pai, de guerreiro ou de profissional, etc.). Mais do que isso. Os ritos de passagem fazem com que o grupo nos reconheça no novo papel, facilitando as transições para todos. Já as celebrações de passagens da natureza ou de aspectos culturais, históricos ou religiosos do povo, fazem com que a pessoa se perceba enquanto parte de um todo, de algo maior que ela mesma, que vai além dela e a abraça. Sou parte deste povo e parte da natureza que me cerca. Isso traz o sentimento de pertença, de ser aceito como parte de algo maior que nós mesmos.

Para quais novos modos de vida as passagens que você
vivencia te conduzem?
Algumas sugestões para retomar esse contato com os ritos de passagem:
- Antes de tudo, tenha um olhar atento. Quais ciclos você percebe em si? Como lida com eles? E preste atenção também aos ciclos da natureza e como eles se mostram na região em que você vive. Você tem o costume de marcar essas passagens, ainda que de maneira simples?
- Quais são suas origens étnicas e/ou culturais? De que povo ou de quais povos você descende? Procure pesquisar sobre tradições e costumes desses povos. Que ritos de passagem (pessoais, culturais e ligados à natureza) esses povos tinham? Como é, por exemplo, uma cerimônia de casamento ou um funeral nesses povos? Quais as datas importantes e como as pessoas celebram? Sua família mantém essas tradições? Por que? Se não mantém, você gostaria de retomá-las, ainda que de forma adaptada ao seu modo de vida atual, como que numa releitura? Como poderia fazer isso?
- Não seja tímido, vamos celebrar! Quais momentos (pessoais, históricos, da natureza, culturais, mítico-religiosos, etc.) você gostaria de celebrar? E por que não começar agora? Planeje celebrações! Não deixe momentos especiais passarem em branco, dê cor à sua vida, reinvente-se! A celebração não precisa ser aquela super festa digna de povos antigos, com música típica, fogueira e tudo (mas se quiser e tiver condições, por que não?). Pode ser, por exemplo, uma refeição especial com pessoas queridas em que você menciona a intenção da celebração e conta aos presentes como se sente, o que espera, o que essa passagem significa para você...

Em nome da falta de tempo e da cultura de consumo (não só o consumo de produtos, mas de experiência, relacionamentos, etc.), fazemos com que momentos importantes se tornem "nada demais". Perdemos chances e mais chances de celebrar, de dar sentido à passagens fundamentais. Conforme retomamos essas celebrações e o contato com os ciclos (ou a visão da vida e do mundo como um conjunto de ciclos), a realidade ganha um colorido especial. Com as nossas próprias cores. E aí tudo vira motivo de celebração, pois colocamos nosso foco nas coisas "boas", no que faz sentido para nós. Ah, não precisamos nos limitar às celebrações de passagens mais óbvias. Por que não celebrar o primeiro dia de escola da sua criança, a mudança de emprego, a adoção de novas atitudes e hábitos, o fim de um tratamento, a chegada das férias o o retorno à rotina, etc.? Celebrar é uma forma de dizer a nós mesmos e aos outros que o fato que se passou é especial, pois faz parte da nossa história e de quem somos. A palavra "rito" significa a encenação de um mito. Pode ser coletivo ou pessoal. Honre quem você é, sua história e seu futuro. Celebre o seu próprio mito.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Mythos - Ísis: Recuperar as esperanças

Perder as esperanças é uma das piores coisas que pode acontecer a uma pessoa. A vida perde a cor e o calor. E os dias, em lugar de ser a jornada de um herói ou heroína em busca de algo melhor, de algo que faça sentido, se torna apenas um fardo, algo que a pessoa tolera ao invés de desfrutar. Precisamos das esperanças, pois elas são o que nos fazem caminhar para além deste tempo/espaço. Não uma esperança completamente fora de propósito, como alguns entendem, mas uma meta, algo que nos leve a uma busca, à nossa própria realização. Pensando um pouco sobre isso, vamos trabalhar com o mito egípcio de Ísis.

Ísis é uma das principais deusas do Antigo Egito. Representa o princípio feminino, a fertilidade e todo o poder de criar. Ísis era tão poderosa que seus poderes se estendiam pela terra, mar e submundo. Geralmente ela é representada com vestes pregueadas muito elaboradas e os cabelos penteados e adornados com o disco do sol e chifres de vaca (símbolo de fertilidade). Nas mãos, ela traz uma cruz chamada ankh, a chave da vida e da morte. De fato, Ísis era capaz de curar, adiar a morte e interferir nos destinos dos seres humanos.

De acordo com os mitos, Ísis era casada com seu irmão Osíris. Eles vieram viver na terra para ensinar aos seres humanos novas formas de viver (são deuses civilizadores). Ensinaram a linguagem escrita, a tecelagem, a agricultura e instituíram o casamento. Tudo isso pode parecer simples, mas perceba que, com esses ensinamentos, o ser humano foi capaz de viver fixo numa região ao invés de sair às cegas em busca de alimento, tecer roupas e construir objetos com o uso de tecidos, e ainda registrar sua história, seus conhecimentos, seu dia a dia, enfim, aculturar-se. Após algum tempo, Osíris partiu para outras terras, com o objetivo de ensinar outros povos, cabendo a Ísis a regência do reino. Acontece que Set, irmão do casal, ficou com inveja de tudo o que eles vinham construindo e, sobretudo, do que esperavam construir (note aqui a presença da esperança mesmo entre os deuses!). E foi por inveja que Set e sua esposa-irmã, Neftis, mataram Osíris.

Há duas versões para a forma como se deu a morte de Osíris. Na primeira, Neftis, deusa das regiões úmidas, assumiu a forma de Ísis e seduziu Osíris. Quando ele estava em sua cama, matou-o. Na segunda versão, Set encomendou uma caixa mágica a Neftis e convidou todos os deuses para uma festa, quando anunciou que a caixa seria um presente a quem coubesse nela perfeitamente. Muitos tentaram, mas apenas Osíris se encaixava com perfeição. Tão logo ele se deitou, quando estava sozinho com o irmão, Set fechou a caixa e a lançou ao Rio Nilo.

O fato é: Osíris foi morto devido à inveja que suas conquistas e metas causavam em Set. Ísis, por sua vez, ficou muito triste e desesperada com a perda do amado. Ele era muito mais que um marido, era um companheiro de sonhos. Ísis perdeu a esperança. Os desertos de Set avançavam sobre os campos férteis de Ísis e o povo egípcio experimentou situações difíceis como a fome e, com ela, a violência, pois o povo começou a brigar pela comida que restava, roubando e matando. O desespero e a desesperança eram tamanhos que o povo invejava os mortos. 

Ainda em desespero, Ísis perambulava pela terra até que chegou à Fenícia. Lá a rainha Astarte teve pena da mulher e a acolheu. Ísis passou a ser ama do filho bebê da rainha. Com o tempo, afeiçoou-se ao garotinho,  decidindo fazer um ritual para torná-lo imortal. Mas Astarte chegou durante o processo, que envolvia colocar o bebê no fogo sagrado (em muitas culturas o fogo é símbolo de intensa transformação). Horrorizada, a mãe retirou o filho do fogo antes que o ritual terminasse, interrompendo a magia de Ísis. A deusa, então, contou à rainha quem ela realmente era e sua situação. Astarte disse a Ísis que sabia onde estava o corpo de Osíris: abaixo da árvore que ficava no centro do palácio. Mas Set descobriu e, antes que Ísis pudesse revivê-lo, cortou o corpo em pedaços e os espalhou pelo Nilo novamente. Ísis não podia acreditar! Como ter esperança num momento desses? Depois de muito chorar, Ísis percebeu que a única maneira de superar aquela situação era começar sua busca outra vez. Seria mais difícil, mas não impossível. Ela percorreu o Nilo e juntou os pedaços do corpo de Osíris. Ela reuniu 13 pedaços mas, para que ficasse completo, faltava o pênis. Ela procurou por todo o Nilo, pelas águas e pelas margens, mas não o encontrou. Para solucionar o problema, Ísis moldou um novo pênis em ouro e colou no corpo do marido. Quando Osíris estava outra vez completo, Ísis criou o processo de embalsamamento e, com isso, seu amado voltou a viver.

Ísis e Osíris puderam retomar suas vidas, tiveram um filho, Hórus. Isso atiçou novamente a inveja de Set, que por diversas vezes tentou matar o sobrinho (e chegou a conseguir, mas Ísis reviveu o menino). Após derrotar Set, Hórus se tornou o primeiro rei dos vivos do Egito. Passou a ser visto como o patrono do faraó reinante e guardião do Egito e de seu povo.

Questões para reflexão:
1- Lembre-se em quais períodos da sua vida você experimentou a falta de esperança de forma mais intensa. O que acontecia em sua realidade para desencadear esse sentimento? Como você lidou com a situação e com o que sentia? Se a mesma situação acontecesse hoje em dia, você sentiria desesperança com a mesma intensidade? Por que?
2- Nos momentos de tristeza e ansiedade, como essas emoções se manifestam no seu corpo?
3- Durante momentos de dor, assumimos comportamentos e posturas (físicas, emocionais ou mesmo perante à vida) diferentes da que estávamos acostumados. Veja quando temos uma dor nas costas, por exemplo, e passamos a andar curvados para sentir menos dor. Com as dores emocionais não é diferente. Quais posturas e comportamentos você assumiu nos momentos de dor e desesperança? Algum desses hábitos continuou mesmo após o período complicado passar? Que novos hábitos você poderia colocar em prática para superar os antigos?
4- O que você tem mais medo de perder?
5- Hora de recuperar a esperança! Quais hábitos, ideias, emoções, lembranças e planos te fazem sentir esperança (em si mesmo, na vida, no futuro)? Faça uma representação disso. Pode ser um desenho, pintura, algumas frases de efeito... Agora coloque sua produção em algum lugar que você veja com frequência. Pode prender na porta da geladeira, no espelho, na parede do quarto, fazer um quadro (por que não?) ou como você preferir. O importante é olhar para isso com frequência e entrar nesse estado emocional de esperança, de que a vida flui e de que caminhamos rumo a tempos mais felizes.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Ágora - Diferenças entre homens e mulheres

(não sei se é pertinente, mas uma recente discussão, atiçou minha curiosidade) quem é mais voltado à praticidade das coisas, homem ou mulher? (no sentido de se importar 'para que serve?')
ghesten


Oi Ghesten!
Um dos motivos que me levou a estudar a mente é que, quando o assunto é ser humano, a diversidade é a regra. Percebo, e vários autores da psicologia social (como P. Berger e T. Luckmann), da sócio histórica (L. Vygotsky) e mesmo da psicanálise (descrita por Freud, seu criador, como a "cura pela fala") concordam com isso: nos construímos na linguagem, e também através dela construímos nosso mundo e a realidade em que vivemos.

Mas vamos a sua questão. Existem alguns estudos no campo das neurociências que dizem que o homem tem mais neurônios e que a mulher tem uma rede neuronal mais ampla e eficaz, pois faz mais ligações entre seus neurônios. Outros estudos (estes mais antigos) apontam que em testes de inteligência os homens se saem melhor na parte numérica enquanto as mulheres levam vantagem na parte de linguagem (argumentam inclusive que meninas falam mais cedo que os meninos). Mas veja que esses testes foram desenvolvidos dentro da nossa cultura ocidental contemporânea. Em outras culturas, a situação pode mudar de figura. E muda. A área cerebral responsável pela linguagem, por exemplo, não é a mesma no ocidente e no oriente, porque a lógica e a estrutura linguística das línguas ocidentais são diferentes das orientais. Acho isso incrível! Isso significa que o nosso cérebro não é algo pronto e fechado, não tem um desenvolvimento linear, ele se forma e se desenvolve conforme vivenciamos as experiências da nossa época e cultura, do dia a dia de cada um.

Se eu contar que tenho uma amiga cujo sonho desde pequena era ser engenheira civil, algumas pessoas dentro da nossa cultura podem achar estranho. Talvez achem estranho também se eu contar de um amigo  que trabalha como professor de maternal, formado em pedagogia e pós-graduado em educação pré-escolar. Os dois amam suas profissões e são ótimos no que fazem. Na nossa cultura isso pode causar certo estranhamento, mesmo nos dias de hoje. Mas talvez para outras culturas não. Em algumas tribos indígenas da América do Sul, por exemplo, o homem cuida da caça e da proteção, sente até as dores do parto, restando à mulher tudo o que for relacionado à "vida prática", inclusive a construção das ocas (casas).

Quem é mais voltado para a vida prática? Fica outra pergunta no ar e, como boa psicóloga, devolvo a questão: o que é estar voltado para a vida prática? Veja que este também é um conceito que muda de cultura para cultura, de época para época e de pessoa para pessoa. Para que servem as coisas? Vivemos mesmo num mundo onde tudo é muito utilitário. "Utilitário" quer dizer que, se não tem uso, então não tem valor. Tudo parece ser descartável. O problema é quando essa ideia passa a ser aplicada aos estudos, às artes e, sobretudo, às pessoas. É com base nessa linha de pensamento que ocorrem boa parte dos maus tratos e agressões contra crianças, idosos, pessoas com deficiência ou com a saúde debilitada. Para que servem se nada produzem? Parece que para muitas pessoas nesta nossa realidade, "apenas" ser não é mais um valor...

Mas voltando à questão. As perguntas "para que serve?" e "o que é estar voltado para a vida prática?" me levam a uma terceira: "qual o sentido?" Nos construímos na linguagem. A realidade é construída na linguagem e dar sentido é um processo essencialmente linguístico. Então temos aqui algo peculiar. O sentido das coisas é pessoal! Posso apreender um significado social, mas cabe a cada um dar sentido a esses significados, é fazendo isso que amadurecemos. Assim, somos todos voltados à vida prática, independente do gênero, orientação sexual, faixa etária, nível intelectual, etc. O que muda é o que faz sentido para cada um de nós. Para que serve uma peça de motor de avião? Sinceramente, não me interessaria saber, desde que o avião funcione! Não pelo fato de eu ser mulher, mas pelo fato de que, no meu dia a dia, isso não faz sentido. Para que serve e como funciona o sistema límbico, área cerebral ligada às emoções? Já isso me interessa muito! E talvez não faça sentido para minha amiga engenheira civil, que também é mulher, mas faça muito sentido para meu amigo que é homem e dá aula para crianças pequenas, movidas pelas emoções que sentem. Repare que, também o conceito de gênero, de ser homem ou de ser mulher é aprendido socialmente. Ensinamos isso às nossas crianças o tempo inteiro, quando dizemos para sentar assim, se vestir com a cor x e não com a y, brincar ou não com determinados brinquedos... E aí, ser mulher ou homem numa certa cultura, região ou família é diferente de ser mulher em outras. Vou mais longe, ser mulher para mim, na certa é diferente de ser mulher para minha irmã. A interpretação que temos das coisas passa sim pelo fato de nos considerarmos e sermos reconhecidos como homens ou mulheres porque isso faz parte de quem somos; não pelo fator biológico, e sim pela forma como damos sentido a essa condição e vemos o mundo (também) com base nela.

Espero ter contribuído.
beijo
Bia F. Carunchio


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quinta-feira, 16 de maio de 2013

Criando o diário de sonhos

"Nós somos do tecido de que são feitos os sonhos." - William Shakespeare, escritor britânico (1564 - 1616)

Em diversos artigos já comentei o quanto é saudável fazer um diário de sonhos. Ajuda no autoconhecimento, na compreensão das situações que vivenciamos (elas se refletem nos sonhos, simbolicamente), e ajuda ainda a receber os nossos conteúdos mais profundos do inconsciente de maneira tranquila. É saudável ouvir o inconsciente quando ele fala através de sonhos, fantasias e sensações, pois assim ele não precisará gritar através de sintomas e conflitos mais sérios. Acontece que tenho recebido diversas mensagens de pessoas que me pedem ajuda para criar o diário de sonhos. Como começar? O que é importante anotar além do sonho? Como fazer? Achei que seria interessante falar disso no texto desta semana. Temos aqui, então, algumas dicas de como montar o diário e trabalhar com ele.

Material necessário:
- 1 caderno (de qualquer tamanho e forma, com ou sem linhas, enfim, isso fica para cada um escolher. Pode ser um caderno "especial" ou aquele que sobrou do último ano escolar, mas é importante que a partir de agora o caderno sirva apenas para isso).
- Lápis ou caneta
- Lanterna ou luz de cabeceira (para quem costuma acordar no meio da noite com um sonho super claro na mente).

Perguntas frequentes: 
1- Posso fazer no computador?
Não. 
2- Por que não??
Porque os sonhos se perdem na nossa memória muito facilmente, prefiro que você anote ainda na cama e, para isso, o caderno é mais prático.
3- Ah, mas meu tablet liga super rapidinho e fica no meu criado mudo, não posso mesmo fazer o diário de sonhos lá?
Não. Envolva-se com este projeto, dedique-se, faça isso ser algo especial. Escrever à mão faz com que usemos áreas cerebrais diferentes das que usamos para apertar os botões do teclado, como a área ligada à coordenação motora fina, que exige um planejamento de ação mais cuidadoso. Além disso, ter o diário num caderno funciona como um lembrete, quando a pessoa entra no quarto e vê o diário perto da cama, já diz a si mesma que os sonhos são bem vindos, que está bem lembrar-se deles. O que não aconteceria ao ver o tablet ou computador.

Criar um diário de sonhos é uma ótima forma para a pessoa
se conhecer melhor.
Antes de ir para a cama:
Diminua o ritmo. Deixe de lado os problemas de trabalho, este é o momento de relaxar. Um banho morno pode ajudar, bem como ter uma rotina de preparação para o sono, que pode incluir além do banho, um chá quentinho e com pouco açúcar (de preferência sem); quem tem o costume pode praticar meditação, orar ou mesmo fazer exercícios de respiração; diminuir a luminosidade do ambiente; ter uma conversa ou leitura tranquila, enfim, cada um encontrará a rotina de preparação mais adequada a si, o importante é que ela exista e seja feita com envolvimento e prazer.


Agora sim, vá para a cama:
Use roupas confortáveis, que não prendam seus movimentos e de acordo com o clima da estação e da sua região. O mesmo vale para os cobertores, garanta o seu conforto térmico para não passar frio e nem calor, pois isso interfere na qualidade do sono.
Coloque perto da sua cama o diário de sonhos, uma caneta ou lápis (pessoalmente, prefiro lápis, pois permite observar melhor dados como o traçado das letras e a pressão colocada na escrita, mas outra vez, cada pessoa encontrará a melhor alternativa para si). Se você tiver uma luz de cabeceira, ótimo. Se não tiver, pode ter uma lanterna. A ideia aqui é, ao acordar com um sonho claro na mente, não ter que se levantar e, com os movimentos, perder as memórias do sonho.
Deite-se confortavelmente, feche os olhos e respire fundo. Quando soltar o ar, sinta cada parte do seu corpo relaxar. Agora, dê a si mesmo a ordem mental de se lembrar dos sonhos que tiver. Faça isso numa frase curta e com poucos verbos, como "vou me lembrar dos sonhos desta noite". Se quiser, acrescente outras frases como "terei uma ótima noite de sono", "acordarei feliz e com saúde perfeita", etc. É saudável dizer coisas boas a nós mesmos, lembre-se que nossas palavras constroem nosso mundo!

Bom dia!
Você acordou. Quero acreditar que acordou com calma e sem aquele barulho chato do despertador... Nada de pular da cama! Fique deitadinho aí, espreguice e esqueça o dia que está lá fora. Lembre-se da noite. O que você sonhou? Tente lembrar. Passe o sonho na sua mente e depois conte-o com palavras a si mesmo. Se for um sonho longo, complexo ou confuso, conte mais de uma vez. Agora sim, abra o diário de sonhos e vamos escrever!

Mas o que eu anoto?
Outra vez, com a experiência cada pessoa encontrará o próprio jeito de anotar. Estes são alguns dos dados que eu anoto e que peço aos meus pacientes para anotar:
- Data (incluindo o dia da semana, algumas pessoas têm sonhos mais significativos nos finais de semana, quando podem dormir e acordar com menos pressa).
- O sonho: anote o enredo da melhor forma que puder. É raro a pessoa lembrar do sonho todo, mas conforme persistimos, as memórias aumentam.
- Impressões: o que este sonho te passa? Sentimentos, sensações, ideias, lembranças que o sonho trouxe...
- Acontecimentos relevantes do dia anterior, mesmo que não pareçam ter relação com o sonho, como sintomas, situações ruins ou boas, conflitos, conquistas, etc.
- Para as mulheres: anote sempre em qual período do ciclo menstrual você está. Os símbolos que surgem nos nossos sonhos se transformam conforme os períodos do nosso ciclo. Em poucos ciclos você já poderá observar isso. Com essa consciência, lidamos melhor não apenas com nossos sonhos, mas com a condição feminina e com a própria sexualidade.
- Qual sua interpretação deste sonho, isto é, o que você entendeu dele? Que mensagem simbólica o sonho te passa? Aqui é diferente do campo das impressões. Se lá nos aproximamos do sonho, aqui nos afastamos e olhamos "de fora". Faça associações, deixe a mente livre, as melhores interpretações surgem assim.

Cada detalhe sobre os sonhos é relevante. Um castelo de
conto de fadas, um castelo medieval ou um em ruínas não
têm o mesmo significado...
Trabalhando com o diário de sonhos:
Nossos sonhos são nossa mitologia pessoal, diz o mitólogo Joseph Campbell. E, como eu já disse outras vezes, a palavra "mito" vem do grego mythos, que significa "discurso". Assim, conhecer os nossos sonhos é conhecer o nosso discurso interno. O que seu inconsciente diz? Folheie o diário. Quais são as situações em que seu inconsciente te coloca com frequência? Que pessoas (ou que tipos de pessoas) aparecem mais? Em torno de que giram os conflitos? Que símbolos aparecem com frequência? Existe algum dia da semana ou fase do ciclo menstrual em que os sonhos ficam mais claros? Como o seu dia a dia se reflete nos seus sonhos? Que setores da vida se manifestam mais? Não tenha medo, ouse fazer perguntas a si mesmo e aos seus sonhos (e até a elementos dos seus sonhos).

Mas e quem não se lembra dos sonhos?
Montar o diário de sonhos é uma boa forma de começar a lembrar. Insista. Todos sonham, isso é certo. Anote as impressões que teve ao despertar, mesmo que não lembre do sonho. Acima de tudo, ouça a si mesmo. O silêncio também fala. Algumas vezes grita.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Mythos - Tristão e Isolda: morrer é afastar-se do amor

Nossa conversa de hoje será com base numa lenda de origem celta, Tristão e Isolda. É uma lenda que aborda a jornada do herói, com todas as lutas e aventuras que envolvem a descoberta de si mesmo, mas é também uma lenda que aborda os encontros e desencontros com o outro, o amor. Existem muitas versões desta lenda e, como eu já disse outras vezes, o fato de existirem diversas versões de forma alguma a desqualifica, muito pelo contrário, as diferentes versões enriquecem as lendas e mitos, pois mostram a variedade de olhares possíveis sobre a mesma situação.

Há uma versão que conta que Tristão era órfão de pai e mãe, criado pelo seu tio, o Rei Mark da Cornualha. Em outra, ele é filho do Rei Rivalen, sua mãe morrera durante o parto, daí o nome Tristão, "aquele nascido do pesar". O pai de Tristão casou-se outra vez e a madrasta judiava do menino. Certa noite, deixou perto da cama dele uma taça de prata com veneno, na esperança que Tristão bebesse durante a noite e amanhecesse morto. No entanto, quem bebeu o veneno foi o filho invejoso da madrasta, que tinha muito ciúme de Tristão. Isso só aumentou a fúria da madrasta.

Os anos se passaram e, numa nova tentativa de se livrar do enteado, a rainha sugere ao rei ordenar que Tristão viaje e conheça outras terras, para aprender as artes da cavalaria. Tanto o rei quanto o jovem se animam e assim é feito. Após algum tempo correndo outras terras, o escudeiro sugere: "por que não vai ao Castelo de Tintagel? Na Cornualha, seu tio, o Rei Mark, o receberá com alegria e ficará feliz em ensinar-lhe as artes da cavalaria." Tristão ainda protestou, mas o escudeiro insistiu: "nestas estradas você apenas enfrentará bandidos comuns, ladrões de galinhas, e não é lutando contra eles que se tornará cavaleiro."

Chegando à Cornualha, o Rei Mark recebeu o sobrinho com festa. Logo nos primeiros dias, surgiu a chance de Tristão provar seu valor, quando um cavaleiro irlandês chegou para cobrar uma dívida que o Rei Mark não achava justa. "Façamos assim, eu desafio seu melhor cavaleiro a me enfrentar até a morte. Se ele me vencer, a dívida será perdoada." dizia o cavaleiro. O Rei Mark aceitou e lá foi Tristão enfrentar o irlandês numa ilha deserta, próxima à costa da Cornualha. Mal desembarcou, Tristão afundou o próprio barco. "Apenas um de nós sairá desta ilha, de modo que não precisamos de dois barcos", justificou. Lutaram e, ao pôr do sol, um cadáver irlandês jazia na areia da praia. Tristão não estava muito melhor, tinha inúmeras feridas do combate. O corpo do cavaleiro irlandês foi enviado ao rei da Irlanda, acompanhado de uma carta contando os acontecimentos recentes e exigindo a anulação da dívida. Acontece que o morto era irmão da rainha da Irlanda, que ficou furiosa. Ela retirou uma lasca da espada de Tristão do corpo do irmão e jurou aos deuses que o assassino de seu irmão pagaria pelo que fez.

Enquanto isso, na Cornualha, Tristão custava a se recuperar. Não vendo alternativas, o Rei Mark chamou uma feiticeira que vivia nas imediações do castelo. "A cura não está aqui, mas nas terras daquele que causou seus ferimentos." Declarou a mulher. E lá se foram Tristão e o escudeiro para a Irlanda, claro, escondendo a verdadeira identidade do rapaz. O rei da Irlanda os recebeu muito bem e disse que a filha, Isolda, era ótima com ervas medicinais. Após algumas semanas sob os cuidados atenciosos da bela Isolda, Tristão estava completamente curado e completamente apaixonado pela princesa. Ela contava a Tristão as mais belas histórias de sua terra enquanto ele lhe fazia versos e a encantava com a música de sua harpa. Mas algo interrompeu o belo romance dos jovens. Ou melhor, alguém, Palomides, um rei árabe que veio pedir a mão de Isolda em casamento. Incerto em entregar a filha a um estrangeiro, o rei da Irlanda promoveu um torneio. O vencedor poderia se casar com Isolda. Mas o árabe era um grande combatente, derrotou até mesmo alguns dos cavaleiros do Rei Arthur. Desesperado por ver Isolda prestes a ser dada em casamento ao homem, Tristão apresentou-se na arena de combate e, para surpresa de todos, derrotou Palomides. O rei alegrou-se ao anunciar que Tristão e Isolda se casariam na primavera. Mas quem não se alegrou foi a mãe de Isolda. A rainha notou que faltava uma lasca na espada do futuro genro e, pasma, verificou que a lasca de metal retirada do corpo do irmão meses atrás se encaixava com perfeição na espada de Tristão. Ela chamou os guardas e exigiu que o rei tomasse providências, jamais permitiria que a filha se casasse com o assassino de seu irmão! Claro que, desesperada e aos prantos, Isolda implorou ao pai que poupasse a vida do amado. "Está certo." Decidiu o rei. "Tristão não será condenado à morte, mas o casamento não pode acontecer. E quero que Tristão deixe a Irlanda ainda hoje!" Antes de partir, os jovens se despediram e Tristão declarou que "morrer é se separar daquilo que se ama." Isolda, comovida, acrescentou: "Então agora morreremos nós dois, mortos em vida."

De volta ao Castelo de Tintagel, ninguém aguentava mais ouvir Tristão falar sobre Isolda. Até que, para a imensa surpresa do rapaz, o Rei Mark declarou que estava, também ele, apaixonado por ela. E tinha mais! Queria que Tristão voltasse à Irlanda e pedisse a mão de Isolda em seu nome. O jovem ainda tentou argumentar, mas o rei insistiu: "Ela está perdida para você, mas não para mim. Se você a ama, vá e faça o que pedi, assim eu ganho uma linda esposa e você uma linda tia!" Aquilo foi o fim para Tristão! "Com todo o respeito, tio, eu amo Isolda como um homem ama uma mulher, e não como um sobrinho ama a esposa do tio." O rei riu e concluiu: "mas é melhor ter sua bela Isolda por perto como tia do que não tê-la de maneira alguma!"

Sem ter escolha (porque o pedido de um rei  nunca era uma escolha), Tristão desembarcou na Irlanda outra vez. Conversou com o rei e, como o tio lhe havia instruído, explicou-lhe como seria lucrativo e vantajoso para ambos unirem as duas coroas. Isolda estava desesperada, não queria se casar com o tio de seu amado! A mãe, vendo a tristeza da filha, tentou dizer que com o tempo o amor nasceria, mesmo sabendo que era mentira. Então, deu uma garrafa com uma poção do amor a uma das servas que acompanharia a filha dizendo que servisse o "vinho" ao casal após a cerimônia de casamento, quando ambos estivessem a sós. Durante a viagem para a Cornualha, a serva viu o quanto Tristão e Isolda se amavam e resolveu desobedecer a rainha, servindo-lhes a poção. Mas a moça os deixou a sós, Tristão e Isolda não conseguiam mais renunciar à paixão que sentiam. Amaram-se por todo o caminho até a Cornualha.

"E agora, o que faremos?" Isolda preocupou-se pouco antes da cerimônia de casamento. O Rei Mark não gostaria nada de saber que sua noiva não era virgem. E gostaria menos ainda de saber que o amante era o próprio sobrinho. "Não se preocupe!", disse a serva. "Eu que causei o impasse, portanto esta noite tomarei seu lugar na cama do rei." O Rei Mark estava tão bêbado após a festa de casamento que nem se deu conta que a  jovem não era Isolda. Mas as coisas não estavam resolvidas. O povo fala. Ah, e como fala! Não se passava um dia sequer sem que alguém tentasse dizer ao rei que Tristão e Isolda eram amantes. O rei os vigiava, mas sempre via encontros inocentes entre a esposa e o sobrinho. Cansado dos boatos, o rei não viu alternativa a não ser pedir a Tristão que se afastasse da Cornualha por alguns anos. Mas Tristão não iria embora sem antes despedir-se de Isolda! Encontraram-se numa gruta e o que era para ser apenas uma conversa logo se tornou um beijo, e outro, e ouro... Os jovens se amaram até adormecerem, tendo entre eles a espada de Tristão. Num triste acaso, o Rei Mark entrou na gruta e viu o sobrinho e a esposa adormecidos. Mas estavam vestidos! Teria mesmo ocorrido algo entre eles? O rei trocou a espada de Tristão pela própria, sinalizando que esteve lá, e deixou a gruta em silêncio. Quando despertaram, entraram em pânico. Numa versão da lenda, o casal foge, renunciando à vida entre a nobreza e vivem juntos e felizes num casebre na floresta por muitos anos. Em outra versão, Isolda implora a Tristão que deixe a Cornualha, pois não sabia se o Rei Mark o perdoaria. Ele fez o que a amada pediu e partiu.

Tristão chegou a Camelot no dia exato indicado pelo Merlin, o sábio mago que aconselhava o Rei Arthur. Foi recebido com alegria e prontamente acolhido entre os cavaleiros da távola redonda. Mas o Rei Arthur notava que o novo amigo era um homem triste. "Apenas outra Isolda pode tirar de mim a tristeza que sinto!", Tristão confessou ao rei. Querendo ajudar o rapaz, o Rei Arthur convidou outra Isolda para visitar seu castelo, Isolda das Mãos Brancas, filha de um duque da região. A moça era linda e amável, e se apaixonou por Tristão no mesmo momento em que o viu. Ele, no entanto, descobriu com pesar que Isolda alguma substituiria a amada... Mas, sabendo que jamais a teria, casou-se com a nova Isolda. O casamento era infeliz. Tristão vivia frustrado e Isolda das Mãos Brancas tentava a todo custo parecer-se com a Isolda da Cornualha. Chegou a passar meses de luva para que suas mão ficassem ainda mais brancas, como as da Isolda amada. "De fato clarearam, mas as mãos da minha Isolda serão sempre mais brancas que as suas." Disse Tristão. Estava plantada a semente da discórdia no coração da esposa.

Então Tristão passou a se envolver em inúmeras batalhas, na esperança de que alguma delas lhe tirasse a vida e desse paz ao seu coração. Numa dessas batalhas, ele foi muito ferido e, era certo, não se recuperaria. Pediu, assim, ao escudeiro que fosse à Cornualha buscar Isolda. Não seria apropriado, mas ele precisava vê-la pela última vez antes de morrer. Pediu ainda que, ao se aproximar de Camelot, trouxesse uma bandeira branca se Isolda estivesse com ele, e negra caso não estivesse. A esposa ouviu tudo e começou a tramar sua vingança... Na Cornualha, deu-se um impasse. O Rei Mark dizia que não seria apropriado que Isolda fosse a Camelot, mas ela disse que iria com tanta autoridade que o marido não ousou argumentar.

"Ouço cavalos se aproximando." Tristão declarou em seu leito de morte. "Veja de que cor é a bandeira que trazem.", pediu à esposa. Isolda das Mãos Brancas foi à janela e mentiu ao marido: "negra como noite sem lua!" Naquele momento, Tristão entregou-se a morte. Momentos depois, o escudeiro entrou nos aposentos de Tristão com a Isolda da Cornualha. Ela, vendo o amado morto, não suportou e morreu também. Comovido com a história, o Rei Mark os enterrou lado a lado. No lugar onde cada um estava enterrado, nasceu uma roseira e ambas se entrelaçaram como amantes. Com raiva, o rei as arrancou, mas elas sempre voltavam a nascer e a se entrelaçar. O Rei Mark não teve alternativa a não ser deixar os amantes em paz.

Questões para reflexão:
1- Tristão e Isolda disseram que separar-se do que se ama é morrer em vida. Algo assim já te aconteceu? Quando e como foi? Existe algo que se possa fazer para restabelecer a harmonia?
2- Quando a bruxa diz a Tristão que o remédio está na terra daquele que o feriu, ela diz algo sábio: ao ir atrás das nossas metas não podemos agir de maneira aleatória, precisamos ter objetivos claros e tomar o caminho que nos leve a ele. Seja nos relacionamentos ou em outros setores da vida.
3- Um pensamento para reflexão: ao comparar Isolda das Mãos Brancas à Isolda amada, Tristão percebeu que, ao menos no coração, as pessoas não podem ser substituídas. E nem é prudente fazer comparações, foi assim que ele despertou no coração da esposa o ciúme e o ódio por uma pessoa que o próprio Tristão já considerava perdida para ele.
4- A lenda deixa a questão: Tristão e Isolda amavam, de fato, um ao outro ou amavam a sensação arrebatadora de amar e ser amado? E você, o que ama?
5- Após inúmeras tentativas de impedir o casal de permanecer junto, não resta escolha a não ser deixá-los em paz. Para você, como é esta imagem? O que é ser deixado em paz?

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Ágora - Armas de brinquedo e brincadeiras agressivas

Ótima sexta feira a todos! Como comentei esta semana, hoje começamos a nova coluna Ágora, em comemoração aos 4 mil acessos ao blog, com perguntas dos leitores. Para quem não sabe, Ágora era o espaço onde os antigos gregos se reuniam para discutir sobre política e tomar decisões, daí o nome para a nova coluna, que será publicada toda sexta feira. Hoje teremos a pergunta da Heloisa, do Rio de Janeiro.

Oi Bia!! Gosto muito de ler o seu blog principalmente quando você escreve sobre sonhos e autoconhecimento. A pergunta que eu tenho é sobre o meu filho. Ele tem 5 anos e é um amor de criança, é muito carinhoso comigo e com o pai dele e conversa com todo mundo. Na escola é tudo normal ele gosta bastante de ir e tem muitos amiguinhos, nunca tive reclamação de professora. Mas de um ano pra cá ele começou com brincadeiras agressivas. Não compro brinquedos de armas porque não acho bom, mas ele pega outros brinquedos e finge que é uma arma e isso me preocupa muito porque moramos num bairro muito violento. O que você acha? 
Obrigada. beijos
Heloisa - Rio de Janeiro

Olá, Heloisa! Fico feliz que você esteja gostando do blog.
Brincadeiras agressivas são muito comuns entre crianças, sem que isso signifique algum tipo de problema, muito pelo contrário. Nas brincadeiras as crianças aprendem a lidar com o mundo dos adultos, em especial situações cotidianas e afetos. Existe agressividade no nosso mundo, não tem como negar isso. Ela existe no dia a dia de cada um de nós, mesmo que a gente viva no lugar mais tranquilo do mundo, ela está lá sem que a gente nem perceba. Quando nos alimentamos, por exemplo, e mastigamos a comida, destruindo-a, partindo-a em pedacinhos bem pequenininhos... isso também não é agressividade? Sem certa dose de agressividade, não sobrevivemos! Ter brincadeiras agressivas não quer dizer que a criança seja agressiva. Porque como você mesma disse, nos momentos que não são de brincadeira, seu filho é uma criança amorosa e tem bom relacionamento com os amiguinhos, família, professora... Quando a agressividade da criança está num nível que já não é saudável, ela não se limita apenas às brincadeiras, se reflete nas relações, tanto na escola quanto e em casa. Essas brincadeiras de forma alguma significam que seu filho não será um adulto legal, do mesmo jeito que brincar de escolinha, de ônibus ou de médico não significa que a criança seguirá esse tipo de profissão. São apenas o que se mostram ser: brincadeiras, uma forma que a criança usa para entender a realidade. Veja que alguns adultos gostam de filmes de ação ou de guerra e não são pessoas mentalmente desequilibradas por conta disso, basta separar o que é "brincadeira" e o que é "realidade". Agora, se a agressividade sair do campo da brincadeira e começar a atrapalhar a vida e o desenvolvimento da criança, é hora de procurar um psicólogo. A melhor forma de garantir que uma criança se torne um adulto equilibrado é dar-lhe atenção e amor, ocupar-se com a criança agora para que não seja preciso preocupar-se no futuro.
beijo,
Bia F. Carunchio


Para participar da coluna Ágora, envie a sua pergunta para o email bf.carunchio@gmail.com, você também pode participar enviando sua pergunta através da nossa página no Facebook ou do meu perfil pessoal.  Você tem a opção de se identificar ou de se manter como anônimo.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Mandalas: a busca pelo centro

Preciso começar o texto de hoje contando que amo desenhar e pintar mandalas. Começou como uma brincadeira, mas depois de terminar minha primeira, não consegui mais parar! Passei a ler e estudar sobre o tema, e logo comecei a usar o trabalho com mandalas com alguns dos meus pacientes, com um resultado muito positivo, e pensei, por que não fazer um artigo sobre isso lá no blog? O tempo passou, outros temas furaram a fila, até que há algumas semanas minha amiga Isadora Kohatsu comentou que começou a desenhar mandalas também e sugeriu "você bem que poderia escrever sobre mandalas no blog". Então organizei meu material e aqui está o texto.

Na Índia existe o costume de fazer mandalas
no chão com areias coloridas, para proteger a casa.
Em sânscrito, uma língua falada na Índia antiga, "mandala" significa círculo. Ela é vista como um espaço sagrado, com a presença divina ocupando o centro do mundo. Em rituais religiosos, a mandala funciona como um "apoio" da divindade que simboliza, ou seja, é uma proteção visível, uma imagem de algo que só poderíamos sentir. Mas as mandalas não são apenas um elemento de culturas orientais. Elas existem no ocidente: jardins e praças circulares, fontes, as formas de rosa presentes em catedrais cristãs, e até mesmo as cidades europeias antigas eram construídas em formato de círculo, com muralhas em volta e uma importância especial era dada ao centro. Também tribos indígenas costumam construir suas aldeias em formato de círculo. Na natureza, as mandalas também estão presentes, em flores, conchas, caules... Estão presentes na raiz de todas as culturas. Muitas vezes as mandalas são usadas para contemplação durante a meditação. Por isso, existem mandalas de diferentes tipos e finalidades: regeneradoras, equilibradoras, protetoras e até que estimulam processos corporais.

Para Carl Jung (1875-1961), psiquiatra e psicoterapeuta suíço, a mandala é um símbolo da psique, de forma que o centro da mandala é o centro da psique, que ele denomina self ou si mesmo. Jung representa a psique por camadas, como uma cebola, sendo a parte mais externa o consciente e as mais internas o inconsciente, que se aprofunda mais e mais até chegar ao self, ao centro. O self é o arquétipo da totalidade e completude, simbolizado por unificações, união de opostos, equilíbrio. É o aspecto da psique que nos traz o sentimento de ordem, de viver uma vida que faça sentido. O self faz isso gerando um padrão no nosso inconsciente, que se reflete em todas as áreas da nossa vida, pois tudo que vivenciamos  (interna ou externamente) é simbólico. Estudando os sonhos de seus pacientes, Jung percebeu que formas de mandala costumam surgir quando a pessoa atravessava uma crise na vida, numa tentativa da própria psique de reencontrar um centro, um ponto de equilíbrio. A mandala cria uma ordem psíquica harmoniosa (ou a mantém, caso já exista), mesmo que a pessoa não saiba nada sobre mandalas, sonhar com elas ou trabalhar de forma artística é muito saudável, traz equilíbrio. Em sonhos, a mandala costuma aparecer na forma de roda, leme, pneu, roda gigante, flor, escada em caracol, labirintos ou jardins circulares, conchas arredondadas, ventiladores, pinturas, etc.

E como desenhar mandalas pode ajudar nesse processo de buscar o centro, o equilíbrio? Simples! As artes (desenho, pintura, modelagem, etc.) são terapêuticas, pois nos ajudam a dar forma a emoções e ideias caóticas ou confusas, organizando-as e trazendo-as à consciência. Consciente e inconsciente precisam dialogar para haver equilíbrio psíquico. Eles se completam e um não existe sem o outro. Na arte, a pessoa expressa suas emoções, conflitos e aspectos da vida que estão em maior destaque para ela naquele momento. Todos temos essa capacidade, independente da idade, nível cognitivo ou presença de distúrbio psíquico, pois a criatividade é uma função psíquica que todos temos, é nosso potencial de criar. Desde cedo somos encorajados a expressar nossas ideias racionais com palavras, mas nem sempre o mesmo se dá com conteúdos mais emocionais ou com outras formas de expressão. A expressão através das artes nos permite trabalhar não na lógica linear e de causa e efeito do consciente, mas sim na lógica do inconsciente: não linear, sem tempo ou espaço rígidos. E nessa forma de funcionar diferente, o inconsciente se revela, nos mostrando nossas potencialidades, novos caminhos, desejos e propósitos de vida. Quando recursos artísticos são usados em terapia, é possível chegar mais depressa aos conflitos e traumas do que usando somente a fala.

Exemplo de mandala em vitrais de catedral cristã.
Como já comentei, desenhar faz com que a pessoa dê forma aos seus conteúdos internos, que podem ser trazidos à consciência de maneira ordenada e harmoniosa. Mesmo medos, traumas e conteúdos agressivos podem ser expressos de forma ordenada, e é isso o que torna possível que sejam compreendidos, ou seja, a pessoa atribui um sentido a seus conteúdos, possibilitando a superação do trauma/conflito e a cura. Entretanto, existem pessoas, ou melhor, existem situações em que há uma grande dificuldade em desenhar uma mandala. A psicoterapeuta americana contemporânea Susanne Fincher afirma que apenas desenhar dentro de um círculo já proporciona uma melhora no equilíbrio psíquico, pois de acordo com essa autora, o desenho do círculo simboliza uma barreira protetora ao redor do espaço físico e psicológico que identificamos como nós mesmos. Nesses casos de maior dificuldade, podemos recorrer à pintura de uma mandala já existente. A pintura espontânea nos coloca num estado de relaxamento em que ficamos menos alertas e mais abertos às manifestações do inconsciente. Isso também ajuda na organização interna e no autoconhecimento. Cores estão relacionadas aos nossos afetos e estados emocionais. Quando pintamos, preenchemos uma forma (ideia, conflito, lembrança) de afeto. Cabe a reflexão: quais cores aparecem mais? Com quais afetos você preenche sua vida?

Mesmo que traga conflitos à tona, criar uma mandala é positivo, pois descarrega tensões emocionais. Quando cria uma mandala, a pessoa cria simbolicamente um espaço protetor ao seu redor, seu próprio espaço sagrado. Um local protegido de influências externas, onde a pessoa pode expressar seus conteúdos e trabalhá-los livremente. Isso ajuda a pessoa a encontrar em si uma atitude favorável à vida, experimentando a existência numa realidade harmoniosa, pacífica e preenchida por sentido. Criar e contemplar o que criamos nos tira da passividade, do papel de vítima, nos permite agir com autonomia e conquistar a posição de autor e protagonista das nossas vidas. E este é um grande passo no processo de se conhecer e de se tornar si mesmo (o que Jung chama de individuação). Tornar-se quem somos é a meta do desenvolvimento psíquico.

Estes são alguns dos benefícios de criar uma mandala:
- Aumenta da atenção concentrada.
- Expressa conteúdos internos e desenvolve novas formas de expressão.
- Autoconhecimento, maior contato consigo mesmo.
- Exercitar a criatividade, faz a pessoa se sentir capaz.
- Descoberta de novas potencialidades e novos caminhos. No ato de criar a pessoa pode modificar a si mesma, seus conteúdos e sua realidade, dando-lhes novas formas e novas "cores".
- Equilíbrio emocional.
- Aumenta a autoestima, a busca pela harmonia e equilíbrio nos leva a pensar sobre quem pretendemos ser.

Mandalas podem ser encontradas até mesmo na natureza,
basta olhar com atenção.
E agora, vamos aos procedimentos para criar uma mandala. Se você estiver com muita dificuldade de desenhar, ou mesmo se não se sentir bem desenhando dentro de um círculo, pode optar por apenas colorir uma mandala. No final do artigo de hoje coloquei algumas das mandalas que uso com meus pacientes, que você pode imprimir e colorir. Não há limite de tempo. Arrume o local: mesa e cadeira, o ambiente deve estar com luminosidade adequada. Peça para não ser interrompido. Deixe seu material por perto: lápis grafite, compasso, papel, material para colorir (lápis de cor ou giz de cera, de preferência). Se quiser, pode colocar uma música tranquila. Sente-se, respire profundamente e concentre-se. Tente não pensar em nada por alguns momentos, mas também não rejeite possíveis imagens ou sentimentos que surgirem, é o inconsciente começando a se abrir. Então é hora de criar! Marque um centro e trace o círculo externo. Partindo daí, a liberdade para criar é total. Quando terminar, é hora de colorir. Costumo pedir aos meus pacientes para começar a pintar pela camada mais externa da mandala e só passar à seguinte quando a primeira já estiver terminada. Seguindo esta ordem, só passando para a camada mais profunda quando as anteriores já estiverem prontas, seguimos o mesmo caminho do inconsciente de Jung. Esta ordem ajuda a pessoa a entrar em contato consigo mesma de forma mais organizada. Também é possível começar pelo centro, só passando às camadas mais externas quando as internas estiverem terminadas, trazendo o inconsciente para fora. Mas lembre-se que para sair, antes precisamos entrar! Quando terminar, contemple sua mandala. Se ao expressar nossos conteúdos na arte lhes damos forma, quando contemplamos voltamos a interiorizar esses conteúdos, mas agora de maneira ordenada e harmoniosa, com mais equilíbrio e menos conflitos.

Ah, uma coisa importante! Depois que terminar a mandala, vá fazer alguma coisa. Não fique jogado no sofá assistindo televisão, faça algo ativo. Pode ser uma caminhada num parque ou nas ruas do seu bairro, pode cozinhar, escrever alguma coisa, praticar algum esporte... Fazendo algo ativo permitimos que a energia psíquica do inconsciente seja "usada" em nossa vida. A mandala é um símbolo de quem a cria. Elas surgem espontaneamente quando a psique está em processo de reequilíbrio e transformação.   


Mandalas para colorir, de minha autoria:

Para imprimir as mandalas, clique sobre a mandala escolhida, a foto irá se abrir. Então clique sobre ela com o botão esquerdo do mouse e salve a imagem. Então é só abrir o arquivo e mandar imprimir.