sexta-feira, 28 de junho de 2013

Ágora - Como lidar com o estresse?

Tenho 46 anos, sou casado com uma mulher especial para mim e temos duas filhas de 7 e 5 anos que são maravilhosas. Eu trabalho numa multinacional e há alguns meses fui convidado a me transferir para uma das unidades da empresa em Nova York. Minha família no começo ficou resistente em deixar a vida no Rio e mudar de país, mas era meu sonho conseguir esta promoção e eles me acompanharam. A minha esposa se acostumou bem, tem suas atividades aqui e fez amigos. As meninas também adoraram a escola nova, como já estudavam num colégio internacional, não estranharam tanto. Mas eu, que sonhava com isso, me sinto mal e não posso contar para ninguém, porque o sonho era meu! Sinto falta do Rio eu acho, desde que passamos as festas de final de ano no Brasil e reencontramos amigos e parentes. Acordo com taquicardia e passei a ter gastrite, que antes eu não tinha. No trabalho está tudo bem, na família também, mas quando encosto a cabeça no travesseiro o que sinto é um grande vazio.
Paulo César - Nova York

Oi Paulo César.
Parece que você está passando por um grande quadro de estresse. Aliás, consigo identificar alguns pontos na sua fala. Um deles é aquele sentimento que acompanha todo imigrante, saudade das origens. É difícil mudar de país. Dói. Mesmo que seja pensando numa vida melhor. Comparo a situação de quem muda de país hoje aos imigrantes de ontem. Em muitas cidadezinhas, sempre que um imigrante partia, o sino tocava como se houvesse morrido alguém. Acho que esse simbolismo marca bem a dor da mudança. A dor de deixar tudo aquilo que conhecemos e amamos e entrar de cabeça numa outra realidade, que a gente não sabe como será. Por mais que volte para o lugar de origem em algumas ocasiões, aquela já não é mais a nossa casa. Não fazemos mais parte daquele lugar, apenas de seu passado, e tomar consciência disso dói. Quando alguém muda de país ou de estado que seja, o lugar de origem ganha o status de uma terra mítica, o lugar de nossas origens que não está aqui nem agora, e só pode ser alcançado em algumas raras ocasiões... Certa vez uma paciente minha que vivia em São Paulo e havia vindo com a família do Ceará há pouco tempo me disse uma coisa muito sábia. Quando a saudade da terra natal apertava muito, esperavam um final de semana e faziam um dia típico. Ouviam músicas regionais, faziam pratos típicos, contavam lendas e histórias que vivenciaram ligadas à terra de origem. "Não é como estar lá, mas é um jeito de estar entre lá e aqui", disse essa pessoa, com muita razão.

Outro ponto que percebo em seu discurso é a culpa. Sempre sonhou com a promoção e quando ela vem e a família muda a vida toda apostando em seu sonho, como dizer a eles que não se sente realizado? Difícil. Nem sempre as escolhas mais lógicas são as que nos deixariam felizes. Muito provavelmente esta culpa é um dos fatores principais que te levaram a essa situação de grande ansiedade e estresse. O estresse aparece quando o conflito entre a vida sonhada e a realidade fica duro demais para ser suportado. Ao contrário do que muitos pensam, estresse não é necessariamente um mal de pessoas com a vida agitada. Eu conheço, e acho que você e os demais leitores também devem conhecer, pessoas cheias de atividades e que não são estressadas. O estresse vem dos conflitos. Dificilmente sonhos e realidade coincidem por inteiro. Precisamos encontrar o possível. Abrir na agenda corrida pequenos espaços de respiro. Resgatar a si mesmo. Recuperar-se, em todos os sentidos da palavra. 

Algumas estratégias para lidar com o estresse:
- Expresse o que sente. Pode ser falando, escrevendo, através de artes e até se permitindo chorar quando sentir vontade. As "lágrimas" que não caem fora de nós, caem lá dentro. E quando isso acontece, machuca muito. A raiva que não sai, nos queima por dentro (na forma de gastrite, por exemplo).
- Pratique exercícios físicos. Eles ajudam a controlar o cortisol, hormônio ligado ao estresse, além de liberar uma série de outras substâncias ligadas ao bem estar e à saúde.
- Mantenha uma alimentação equilibrada. O que comemos e a forma como comemos (com pressa, com calma, mastigando bem ou mal, em momentos de raiva, etc.) interferem sim na nossa saúde física e psíquica.
- Tome sol. Não estou dizendo para fritar... apenas tome alguns minutos de sol, há diversos estudos que comprovam que o sol, ou melhor a falta dele e da vitamina D (que nosso corpo produz ao tomarmos sol), pode estar relacionada a sintomas de depressão e ansiedade/estresse, além de outros transtornos.
- Mantenha uma rotina equilibrada. O dia precisa ter tempo para tudo, trabalho, diversão, momentos agradáveis com a família e amigos... De que adianta cumprir os compromissos da empresa e não cumprir os compromissos consigo mesmo? Veja sobre a importância das rotinas aqui.
- Faça pequenas pausas de tempos em tempos. Nosso cérebro funciona melhor com elas.
- Meditação pode ajudar muito, mesmo que apenas alguns minutinhos. Estudos comprovam alterações na ativação de genes ligados a saúde após poucos minutos de prática, e mudanças positivas na estrutura cerebral após 8 semanas de prática contínua. Veja mais sobre meditação aqui.
- Tenha momentos de lazer. Faça atividades que te façam sorrir. Passeie, cuide do jardim, faça esporte, seja o que for, o importante é ter atividades além do trabalho e das obrigações diárias. Atividades que nos lembrem que a vida não é apenas cumprir tarefas.

Ah! Não deixe de procurar psicoterapia. Em casos graves de estresse, quando distúrbios psicossomáticos começam a se manifestar (como a gastrite e a taquicardia, entre outros), ajuda profissional é fundamental!

beijo,
Bia F. Carunchio

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quinta-feira, 27 de junho de 2013

Corpo, mente e história: em busca das raízes

"O objetivo mais alto do artista consiste em exprimir na fisionomia e nos movimentos do corpo as paixões da alma." - Leonardo da Vinci, artista, arquiteto e inventor italiano (1452 - 1519)

Hoje gostaria de conversar com vocês sobre algumas informações mencionadas no evento da PUC-SP em que estive presente na última quinta feira, que teve como tema Psicossomática e Neurociência. Algo que foi dito em todas as aulas e palestras, sem exceção, foi a importância de conhecer a nossa história e a do contexto em que vivemos no tratamento de doenças, síndromes e transtornos do corpo e/ou da mente. Aliás, é interessante a visão de corpo e mente como um só todo. Já falei sobre história de vida em outros textos (para lembrar, clique aqui  e aqui!), mas nunca é demais falar sobre isso, desta vez com o foco nas relações (nem sempre fáceis) entre corpo e mente.

Nossa história nos dá consciência de nossas raízes.
Como ficar em pé, crescer e  produzir sem raízes fortes?
Um fato que noto na prática clínica é que, sempre que peço a um paciente para me contar sua história, ele o faz a partir de certo ângulo. Alguns destacam datas, idades, fases escolares e empregos que tiveram, outros dividem suas histórias com base nas casas e lugares em que já viveram, nos relacionamentos que tiveram, nos períodos de doença, internação e saúde... Isso quer dizer que cada pessoa tem o seu olhar, a sua forma de perceber a própria história e essa maneira como se conta é tão relevante quanto a história contada. Mas, de maneira geral, percebo que as formas que as pessoas escolhem contar suas histórias podem ser de três tipos: com o foco no corpo, na mente ou integrando-os. Quem foca apenas o corpo geralmente é um paciente que chega com problemas de saúde, muitas vezes bem sérios. Conforme avançamos no trabalho com a história de vida, me trazem itens como resultados de exames, medicamentos, bulas... Nem sempre esse tipo de paciente tem problemas corporais, em alguns casos a história contada pelo corpo pode falar de aspectos como esportes, sedentarismo, abuso de drogas/álcool/cigarro, sobre a vida sexual (ou a falta dela) e por aí vai... Pacientes que contam suas histórias apenas  pelo ponto de vista da mente geralmente são pessoas menos concretas. Os maiores focos da história são suas emoções, seus relacionamentos e amizades, a vida social, o trabalho e a carreira, os estudos, a vida espiritual... Nesses dois casos, quando a história acaba de ser contada sempre pergunto e incentivo a pessoa a pensar sobre o outro lado. Contou sobre o corpo... e os relacionamentos, como andam? Como estava o casamento quando começou a beber? Como vão as coisas em casa, na escola ou no trabalho? Contou sobre a mente, mas e o corpo como vai?Fuma? Toma algum medicamento? Como está a vida sexual? Pratica atividades físicas?

O ideal é chegarmos ao terceiro jeito de contar a história, aquele que une corpo e mente num todo único e inseparável... e é aí que pacientes e até alguns colegas podem ficar confusos! Explico. Gosto de perguntas, e vamos pensar nisso com base em uma: onde está a mente? Via de regra, a grande maioria das pessoas aponta para a própria cabeça. É obvio que a mente fica no cérebro, não é, doutora?? O que andam ensinando na faculdade de psicologia?? Mas a coisa não é nada óbvia. Porque a mente é uma parte abstrata de nós, isto é, não há em parte alguma do nosso organismo algo físico e concreto chamado mente. O cérebro, junto com a medula espinhal é a sede do nosso sistema nervoso central, que "comanda" nosso corpo, dos batimentos cardíacos à racionalidade mais refinada. Mas a mente é muito mais do que isso! Vamos pensar nas emoções. O sistema límbico, que fica no nosso cérebro, é responsável pelas emoções. Mas nunca sozinho. O amor, por exemplo. Ninguém ama apenas com o sistema límbico! Amamos com o corpo inteiro. Amamos com nossas lembranças e sonhos... amamos com o olhar, o tato e a audição. Amamos na interação com o ser amado. E tudo isso é parte da nossa mente.

Para os povos da Antiguidade, geralmente corpo e mente não se separavam. Diziam os gregos, povo cujo maior foco era o equilíbrio, que corpo e mente precisavam estar sãos para que houvesse equilíbrio. Para os romanos, a mente era o que permitia criar estratégias (geralmente de guerra, mas não só), e o corpo era o que as colocava em prática. Na Idade Média, a coisa muda. Passa-se a valorizar a alma (do grego psique, também traduzido como mente). O corpo passou a ser visto como um problema, pois afastava a alma de Deus... Nos séculos seguintes, a coisa mudou, mas mudanças não necessariamente significam melhoras. Nos séculos XVI até o XIX, a ciência passa a ser muito valorizada, com suas leis e métodos... o corpo se reduz a uma máquina. E para muitas pessoas, isso é assim até hoje. Repare no cérebro comparado a super computadores ou mesmo em intestinos que funcionam como reloginhos...

Hoje é preciso mudar a forma de olhar para o corpo e para a mente. Como discutimos, a mente está espalhada e espelhada no corpo como um todo, e vice versa. Por que reduzi-la apenas à razão? Por que reduzir o corpo a uma máquina? Somos muito mais do que isso! Nenhuma máquina pode alcançar o ser humano. Talvez em habilidades específicas (admiro as máquinas de calcular), mas nunca nos alcançarão no valor que temos enquanto seres humanos. Deixamos o discurso que nos dizia que somos criações divinas e passamos a adotar um discurso que nos reduz a meros instrumentos de produção (sem valor, senão pelo que produz), e que podem ser trocados quando deixam de produzir. Isso explica muito do preconceito e negligência da nossa sociedade para com idosos e crianças, por exemplo, que vivem fora dessa lógica de produção. Então qual a visão de corpo que poderia nos libertar desse processo? Aquele terceiro jeito de contar nossa história - de explicar nosso lugar no mundo. O jeito que nos faz ver a história não como um aglomerado de fatos, mas como nossas raízes. O jeito que integra corpo e mente, em que ambos têm a mesma importância. O corpo nos permite agir e ser no mundo, nos permite desfrutar dele e assim demonstrar nossa gratidão e nossos afetos sobre estarmos aqui. A mente nos permite elaborar o que sentimos, recordar e sonhar. E nesse processo, nos permite olhar para o corpo e para o mundo com o olhar do sagrado. Não falo de religião, falo do sagrado que esta na mente (e no corpo!) de todos nós: o olhar de profundo respeito (por nós mesmos, pelo outro e pelo mundo), saber ver com os olhos da harmonia. O olhar que nos permite ver na nossa história as raízes das nossas dores e sintomas e, em seus frutos (nos sonhos e planos, na história futura), a cura. Manter o foco no equilíbrio e na conexão corpo-mente. Aí está a cura.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Mythos - Midas: os resultados das nossas escolhas

O Rei Midas, sobre quem vamos falar hoje, era um homem ganancioso. Estudiosos da mitologia concordam que esta personagem teria surgido do contato entre os povos gregos e os frígios, povo que vivia na Ásia ocidental. Lá pelo século VIII a.C., naquela região da Ásia, havia um rei no reino de Mushki, em grego, Mita, de onde teria vindo o nome Midas, que inspirou os mitos. Vamos a eles!

Dionísio, o deus do vinho e das diversões, tinha um filho chamado Sileno, que raramente era visto sóbrio (na Grécia, Sileno geralmente é retratado como filho de Dionísio; já em Roma, ele é pais adotivo de Baco, releitura romana de Dionísio). O problema é que, quando embriagado (sempre), Sileno se esquecia de onde estava, e isso preocupava muito a Dionísio. Enquanto perambulava pelo reino de Midas, Sileno provou o vinho excelente... e, por ser excelente, o homem não se contentou em apenas provar, bebeu com vontade. Como de costume, ele perambulava alcoolizado pela região. Acontece que lá havia um rio, com um violento rodamoinho, que já havia matado homens sóbrios. Por isso, quando Sileno caiu no rio, teria morrido afogado se Midas não o salvasse.

Muito agradecido, Dionísio disse que recompensaria o rei dando-lhe o que desejasse. E Midas, que como eu disse era muito ganancioso, pediu que daquele dia em diante, tudo o que ele tocasse se transformasse em ouro. Prevendo uma catástrofe, Dionísio lhe perguntou se estava certo disso, e Midas confirmou muito animado. E assim foi feito. No início, Midas adorou a novidade... transformava flores em ouro, objetos, pequenos insetos... Mas, como Dionísio previra, a bênção logo se tornou maldição. Tudo tem dois lados. Midas teve fome, mas quando tocava qualquer alimento, pão, fruta ou carne, a comida era transformada em ouro! Tentou comer com a ajuda de utensílios, mas a comida virava ouro assim que chegava aos seus lábios! O homem entrou em desespero... Quando a filha veio consolá-lo e o abraçou, Midas transformou a jovem numa estátua de ouro! Desesperado, Midas suplicou a Dionísio que lhe retirasse aquele poder. Tudo tem limites e, em alguns casos, ultrapassar certos limites pode ser ameaçador para a nossa própria existência... Dionísio lhe recomendou que se lavasse no rio Pactolo, e assim a magia se desfez. Desde então, misteriosamente, há muito ouro nas margens desse rio.

Após algum tempo, Midas se envolveu num concurso musical, do qual participava o deus Apolo (deus que conduz o carro do sol, deus civilizador e que segue os princípios da "justa medida", algumas vezes é mostrado ainda como deus da música). O juiz do concurso, o deus Tmolo (das montanhas, algumas vezes deus do rio) deu o prêmio a Apolo. Mais uma vez querendo o que não era seu, Midas foi ao deus Tmolo tirar satisfações! Cansado da discussão, Apolo interveio e transformou as orelhas de Midas em orelhas de asno. Em outras versões, Midas era o juiz do concurso e, por não dar o prêmio a Apolo, este lhe transformou as orelhas em orelhas de asno. De todo modo, independente de como tudo aconteceu, o fato é que as orelhas de Midas já não eram as mesmas. Por muito tempo, Midas escondeu suas orelhas sob um gorro. Apenas seu barbeiro conhecia a realidade e jurou guardar segredo, sob ameaças de morte por parte do rei. Mas a cada vez que ia cortar o cabelo de Midas, o barbeiro mal conseguia segurar as risadas! Gente, aquilo era engraçado demais para ser mantido segredo! O pobre homem tinha que dizer a alguém! Então o barbeiro foi até a margem do rio e cavou um buraco. Enfiou a cabeça no buraco e gritou para as profundezas da terra: "Midas tem orelhas de asno!" Por algum tempo, nada aconteceu. Mas logo um pequeno arbusto nasceu naquele buraco e, não demorou muito, o arbusto cresceu e ficou forte. E então o arbusto gritava para quem quisesse ouvir: "Midas tem orelhas de asno!" O rei Midas mandou arrancar o arbusto e matar o barbeiro. Mas continuou com suas orelhas de asno.


Questões para reflexão:

1- Midas sofreu com o toque de ouro porque o quis sem conhecer seus próprios limites. Ele não respeitou a si mesmo, tomando para si mais responsabilidade do que poderia suportar. Algo similar já aconteceu a você? Costuma assumir para si "bênçãos" ou responsabilidades que não são suas? Muitos dos conflitos psíquicos se manifestam no corpo sem que tenhamos consciência do que está por trás do sintoma. Costuma ter problemas na coluna (problemas de postura, dores, etc.)? Respire fundo. Quando soltar o ar, relaxe seus músculos. Sinta a questão saindo junto com o ar. Solte os músculos e solte junto as responsabilidades que não são suas!

2- Toda benção pode ser uma maldição: só sabemos se é uma "sorte" ou um "azar" vendo as consequências, não a coisa em si. Todo discurso pode ser usado como forma de opressão ou de libertação, dependendo dos argumentos que se use junto dele. Tudo tem dois lados. E, sempre, todos os lados da situação precisam ser conhecidos. Só existe autonomia, só somos livres, quando escolhemos. E só escolhemos de verdade quando conhecemos a fundo uma situação, com todas as implicâncias e possíveis consequências.

3- Para os gregos, sempre que um ser mitológico é retratado com alguma parte do corpo de animal, isso demonstrava que aquela criatura era inferior, tinha em si algo de bestial e sem a razão dos humanos e deuses. Lembrem-se que, para os antigos gregos, a razão e o equilíbrio são valores fundamentais. Acontece que o ser humano traz dentro de si tanto o potencial para a razão e para o equilíbrio quanto para as maiores bestialidades. Como você lida com esse equilíbrio? É saudável permitir que os dois lados se expressem. Isso pode ser feito tranquilamente através das artes (desenhos, modelagens, danças, música...). A arte nos ajuda a expressar conteúdos geradores de tensão de maneira mais tranquila.

4- Um comentário sobre os boatos: eles crescem e ganham força como o arbusto do mito. E, independente de serem verdadeiros ou falsos, Midas continuará com as orelhas de asno.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Quando não somos levados a sério

"Não espere por uma crise para saber o que é importante na sua vida." - Platão, pensador grego (427 a.C. - 347 a.C.)

Em algum tipo de contexto, já deve ter acontecido com você. Já aconteceu com todo mundo. Pensamos que somos parte de algo, geralmente um grupo (família, equipe de trabalho, relacionamento afetivo, grupo de amigos ou grupos mais amplos). Então algo fora da ordem dos dias comuns acontece... e descobrimos que não fazemos parte. Nunca fizemos. É como se a gente não existisse. Ou porque não somos aceitos. Ou porque não somos notados. Ou porque, estrategicamente, aquilo que representamos não tem valor e não é interessante para o grupo. Ou simplesmente porque "não era" para estarmos lá.

Aqui no Brasil, na minha época de criança, existia um termo para isso. Fulaninho é "café com leite". Geralmente era uma criança menor ou mais nova ou com algum tipo de dificuldade, que estava brincando também, mas as regras e benefícios do grupo maior de crianças não valiam para o tal do café com leite. Estava lá, mas ao mesmo tempo não estava. Ah, e geralmente ninguém contava para a criança mais nova que ela era café com leite. Deixavam a coitada imaginar que também estava lá brincando, que o grupo precisava dela e contava com ela... Mas que decepção! De repente você descobria que tudo o que você tinha feito, todos os seus esforços, todos os riscos que correu não valeram de nada. Porque era como se você fosse um ser humano de segunda categoria. Não estava lá convivendo com os outros. Você não contava. Só ocupava espaço.

Aquele momento chato em que a pessoa descobre que não é o que pensava ser...
Pelo menos para mim, poucas coisas são mais revoltantes do que descobrir que não somos parte. Ser café com leite na vida... Não somos considerados. Aquele momento no trabalho em que você se dá conta de que sua opinião nem sequer é ouvida. No jantar em família, quando você fala e alguém fala mais alto (geralmente sobre algo irrelevante aos seus olhos). Quando você percebe que não tem um lugar no grupo, seja esse grupo qual for. Seus deveres cumpridos não são reconhecidos e seus direitos não existem.

Percebo na prática clínica, e também nas minhas vivências e conversas com amigos, que geralmente a primeira atitude numa situação dessas é questionar. Por que não faço parte? Muitas vezes nem sequer somos parte de algum tipo de minoria que faça com que pessoas sem noção tenham algum tipo de preconceito. Então por que não somos aceitos? Muitas vezes ficamos tão envolvidos pela situação que tentamos encontrar o problema na gente mesmo. Talvez se fosse mais simpático, ou mais extrovertido ou mais pontual? Se eu me vestisse diferente ou levasse a vida mais a sério? É o meu sotaque? A minha origem? Minha condição social ou minha profissão ou minha idade?

Convido o leitor a dar um passo para trás. Vamos nos afastar um pouquinho da situação. De longe, ganhamos visão do todo e não apenas de uma parte da situação. Temos um grupo maior e uma pessoa ou grupo menor à margem. Acreditando que pertence ao grupo maior ou tomando consciência de que nunca foi parte dele, sempre viveu numa bolha ou num tipo de vácuo existencial. Vamos organizar! Observe e descreva para si mesmo o grupo maior. Quem são? O que fazem? O que planejam ou valorizam? Depois, olhe para a pessoa ou grupo menor. Quem é? O que faz? O que planeja ou valoriza? Geralmente ao fazer este exercício, esbarramos nos valores. Algumas vezes os objetivos até que são bem parecidos... mas quando chegamos na parte dos valores a coisa muda. E como muda!

Em especial, é interessante observar os valores pessoais/grupais. Nenhum tipo é melhor ou pior do que o outro. Os valores nos dão nossas referências, nosso "mapa" nos caminhos pela vida. Sei que já falei sobre isso em outros textos. Meus pacientes sabem o quanto toco neste assunto. Mas precisamos ter consciência dos nossos valores. Claro, muito dificilmente vamos encontrar grupos ou pessoas exatamente com os mesmos valores que os nossos. O ponto é que quando os valores não são semelhantes, é muito difícil que o outro/o grupo nos aceite.

Aliás, a questão aqui não é sermos aceitos. Ninguém pode obrigar o outro a aceitar nada, porque aceitar é uma postura interna e particular de cada um. Faz parte do olhar que damos a algo, a alguém ou a uma situação, e apenas nós podemos dar o nosso olhar. Mas é preciso existir respeito. Respeitar, sim, é um comportamento. É algo que deveria vir antes da escolha.pessoal. Respeito e consideração. Não é respeitar porque valoriza x, tal como a pessoa/grupo em questão. É respeitar porque é um ser humano como qualquer outro, com seus direitos de tomar as próprias decisões. É respeitar a centelha de vida que existe em cada pessoa, aquilo que nos torna criaturas capazes de olhar para o outro e mesmo com tudo diferente, reconhecer nele um semelhante. O resto é café com leite!

1 ano do blog A Rosa dos Ventos

Hoje nosso blog completa 1 ano de vida!! Gente, sintam-se todos abraçados!!! 

Queria contar para vocês que comecei este blog, há um ano atrás, pensando em organizar os pensamentos. Sempre gostei e tive facilidade para escrever... por que não experimentar fazer isso num blog? Várias pessoas já tinham me sugerido, mas confesso que até começar, nunca tinha levado a sugestão muito a sério. Foi de repente mesmo, sem grandes planos. O blog nasceu às vésperas do solstício de inverno, que é a noite mais longa do ano, quando os dias de luz começam a retornar... Eu precisava de uma luz naquele momento e me joguei no blog! Precisava encontrar novos caminhos, e que símbolo melhor que uma Rosa dos Ventos, que aponta tantos deles? Entrei de cabeça. Naquela animação que os começos causam na gente, quando tudo é tão lindo e brilhante que, sem pensar muito, a gente só se joga para o novo caminho que surge. E venha o que vier.


E que surpresa, a coisa deu certo!!! Não tem satisfação maior do que saber que  algo que a gente gosta de fazer faz a diferença para a vida de outras pessoas. Muito obrigada a todos, amigos de antes e os que conheci por aqui, leitores, parceiros... Obrigada pelas leituras, comentários, sugestões, divulgações, críticas, conversas inspiradoras e tudo mais. Obrigada a todos que caminham ao meu lado e dividem comigo o que têm de mais valioso: suas histórias e seus sonhos.

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quarta-feira, 19 de junho de 2013

Gestação, Fertilidade e Criatividade: Faces do Feminino

Hoje mais um artigo meu saiu no blog Oficina das Bruxas, o título é Gestação, fertilidade e criatividade: faces do Feminino. Lembrando que gestação e fertilidade não é apenas gerar filhos ou fertilizar a terra, é algo ligado ao criar a que todos nós, homens e mulheres, temos acesso. Clique aqui para ler o artigo.

Desenho de Rosea Bellator.
Deixo um pedacinho do artigo para vocês...
"Já ouvi pessoas dizerem que o maior poder da mulher é gerar outra vida dentro de seu corpo. Para mim, esta ideia tem dois lados. Se por um lado não tem como não achar mágica a criação de uma vida, por outro corremos o risco de reduzir a mulher apenas ao papel de mãe. Quem nunca ouviu isso? “A mulher nasceu para ser mãe!” Especialmente quem diz que não quer ter filhos e já tem mais idade, já deve ter ouvido algo assim. Geralmente vindo dos lábios de uma pessoa um tanto inconformada… Mas aí pergunto: é só isso, a capacidade/desejo de ter filhos o que nos torna mulheres? E quanto às mulheres que não podem ou não querem ter filhos (pelo motivo que for), ou ainda as mulheres transgênero? Elas não têm “poder”? São “menos mulher” por causa disso? Não dá, né gente… Gestar é muito mais do que gestar crianças. E ser mulher é muito mais do que isso."



terça-feira, 18 de junho de 2013

Mythos - Hohodemi e Hoderi: os conflitos

Hoje vamos trabalhar com um mito japonês que fala sobre justiça, honra e superação de conflitos. Havia dois irmãos que eram semideuses. O mais velho era arrogante e desconfiado. O mais novo, doce e gentil. Certo dia os irmãos decidiram fazer um pacto de sorte, trocando seus artefatos de caça. Hoderi, o mais velho, deu seu anzol e Hohodemi deu seu arco e flecha. Mas tão logo o negócio foi feito, o irmão mais velho pensou ter sido prejudicado pela troca e pediu para desfazer. Hohodemi concordou. No entanto, pediu que o irmão mais velho ao menos lhe emprestasse o anzol, pois gostaria de pescar. Assim foi feito. O gentil Hohodemi pescou numa ponta do mar, mas teve pouca sorte, não pegou nada. O mar turvo não é bom para pesca, pensou o rapaz. Juntou suas coisas e mudou de lugar. No entanto, no mar claro, Hohodemi teve ainda menos sorte: fisgou apenas um peixe... e esse peixe abocanhou o anzol de Hoderi e fugiu com ele! Quando notou o que havia acontecido, Hohodemi ficou desesperado! O que diria ao irmão?

Como previsto pelo jovem, Hoderi ficou furioso. Gritou para que todo o palácio escutasse que seu irmão era um aproveitador irresponsável! Hohodemi não podia deixar as coisas daquele jeito. Precisava consertar a situação. Sabia que o irmão não aceitaria suas desculpas. Então ele pegou uma de suas preciosas espadas e fez com ela 500 anzóis. Mas o irmão não os aceitou. Queria o anzol perdido e nem um outro. Hohodemi sabia que não poderia recuperar o anzol do irmão. Por isso, em mais uma tentativa de se desculpar e recuperar sua honra, pegou outra espada, ainda mais nobre, e fez mais mil anzóis! "Aqui está, irmão. Mil e quinhentos anzóis. Sei que não é o seu, mas é tudo o que posso fazer para me desculpar e recuperar minha honra e a confiança que você tinha em mim". O irmão, no entanto, voltou a dizer "quero apenas o anzol que te confiei e nenhum outro. Nada mais, nada menos!" Desesperado, Hohodemi voltou à praia. Procurar um anzol no mar seria impossível. Só havia um jeito de restaurar sua honra: praticar harakiri (o suicídio dos samurais, sempre com o objetivo de restaurar a honra ou "limpar o nome da família"). Mas pouco antes que Hohodemi pudesse alcançar sua adaga, apareceu o misterioso deus Shiko Zuchi, que lhe deu um sábio conselho: ao invés de tirar a própria vida, ir até o deus dos mares, pois certamente ele poderia lhe ajudar.

Chegando ao palácio do deus dos mares, Owatatsumi, Hohodemi contou a ele e a sua linda filha o que lhe havia acontecido. O deus dos mares o recebeu muito bem e disse que ele era bem vindo para estar em seu palácio por quanto tempo precisasse. Comovido pela história, o deus dos mares ainda ofereceu a Hohodemi escolher um entre seus valiosos anzóis para dar ao irmão e sanar a dívida. Mas Hohodemi lembrou-se das palavras de Hoderi: precisava ser aquele anzol.

Na terra, três meses se passaram e Hoderi estava inconformado com a irresponsabilidade do irmão. Enviou um servo do palácio para procurá-lo. E o servo não demorou a voltar, trazendo a notícia que Hohodemi e a filha do deus do mar se apaixonaram e decidiram se casar. E viviam felizes. Hoderi ficou furioso, e passou a dedicar seus dias a difamar o irmão.

A vida no palácio do deus dos mares era tão tranquila e boa que Hohodemi esqueceu-se completamente do irmão, do anzol e de sua dívida. Só tinha olhos para sua esposa e ela para ele. E assim viveram por três anos. Certa manhã, Hohodemi se lembrou do anzol! A fúria de Hoderi deveria estar pior do que nunca! O deus dos mares se prontificou a ajudá-lo. Chamou todos os peixes e perguntou se algum deles havia visto o tal anzol. Foi então que um peixe dourado se aproximou e disse que há três anos algo lhe machucava a garganta... O deus removeu o anzol da garganta do peixe e deu-o a Hohodemi, recomendando muita cautela ao devolvê-lo ao irmão. "Esteja pronto tanto para a paz quanto para a guerra", recomendou-lhe.

Quando chegou ao palácio onde costumava viver antes de seu casamento, Hohodemi procurou o irmão para lhe devolver o precioso anzol. Mas, ao invés de receber o irmão e o anzol com alegria, Hoderi ficou mais furioso do que qualquer pessoa poderia ficar! Esbravejava calúnias e lamentos sobre quantos peixes poderia ter pescado nesses três anos, dizia que Hohodemi era um irresponsável e que havia fugido de suas dívidas. E, possesso, correu atrás do irmão que, não querendo lutar com ele, fugiu para a praia. Hoderi fazia danças de guerra e de morte enquanto entrava no mar atrás de Hohodemi. As danças despertaram Namazu, um deus peixe gigante que, ao mover sua cauda, causava terremotos e maremotos. O mar muito agitado fez com que Hoderi se afogasse. Já Hohodemi, que tinha a bênção do deus do mar, pode nadar de volta para o palácio submarino, com a honra e a dívida sanadas.


Questões para reflexão:

1- O mito se desenrola ao redor de um problema (a perda do anzol). Ou melhor, o mito é sobre as estratégias de Hohodemi para solucionar o problema. Ele tenta reparar a perda com objetos substitutos (outros anzóis), tenta se desculpar e, quando não sabe mais o que fazer, pensa em desistir. Então pede ajuda a alguém mais sábio e experiente, no caso, o deus dos mares. Que estratégias você usa para resolver problemas e conflitos? Geralmente quando temos um problema sério à nossa frente, existe uma tendência a agir por impulso. O que seus impulsos te levam a fazer?

2- O peixe que havia engolido o anzol tinha problemas com a garganta. E você, tem ou já teve algo "enroscado" na garganta? Geralmente, esse algo é formado por uma massa de emoções não expressas e palavras não ditas. Um fato sobre as palavras: algumas vezes o não-dito pode ser tão destrutivo quanto o mal-dito. Esteja atento à forma como você tende a se expressar ou a guardar os conteúdos para si.

3- A raiva de Hoderi o levou à própria destruição. Na certa porque a raiva não foi bem trabalhada. Todos sentimos raiva algumas vezes, somos humanos... O que você faz com a sua raiva? Se ela tem o potencial de destruir, também tem o potencial de criar! Experimente expressá-la em palavras ou através das artes. Nesse processo, não se espante se ótimas ideias surgirem do potencial escondido em sua raiva.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Ágora - Homossexualidade e aceitação da família

Bia, leio seu blog desde o comecinho e achei as novas colunas muito boas. Seguinte, tenho 16 anos e contei pros meus pais que eu sou gay. Não achava que ia ter coragem de contar mas aí comecei a namorar um menino que amo muito e queria dividir isso com eles. Queria que eles ficassem felizes por mim como sei que iriam ficar se eu namorasse com uma menina. Só que não... Sabe, teve a maior briga aqui em casa. E agora eles querem que eu vá no psicólogo pra parar de ser gay. Eu sou feliz como sou. Ate aceito ir no psicologo, mas pra me entender, pra lidar com essa bagunça na minha vida que ficou desde que contei pros meus pais, não pra virar hetero. Eles não proibiram o namoro nem nada do tipo, meu namorado vem na minha casa e meus pais tratam ele bem, mas dizem que eu deveria ficar com meninas pra ter certeza se sou mesmo gay. O que vc acha?
beijo
JP - São Caetano, SP

Olá, JP.
Em primeiro lugar, parabéns pela sua coragem e determinação. Não é nada fácil contar algo assim para a família. Muito legal também você ter essa vontade de que seus pais saibam do namoro, isso mostra maturidade e confiança para assumir a própria vida.

Acho super saudável ir a um psicólogo para se entender, especialmente na adolescência, que é uma fase de tantas mudanças e de tantas escolhas importantes. Quando a gente se conhece, lida melhor com as situações da nossa vida. Mas saiba que o psicólogo não pode fazer você "virar hétero". Primeiro porque é algo que está além do nosso alcance. Até pouco tempo atrás, a condição homossexual se chamava "homossexualismo" e era vista como crime, que precisaria ser punido, ou como doença, que precisaria ser tratada. A terminação "ismo" denota uma doença ou desvio. Mas hoje não é bem assim. Aliás, não é nada assim. A homossexualidade (e não mais "homossexualismo") é parte da identidade da pessoa. Não é doença, nem transtorno, nem desvio. A identidade é formada ao longo da vida da gente, e nada mais é do que a forma como nos reconhecemos e somos reconhecidos, a maneira como nos identificamos. E a orientação sexual de cada um passa pela forma como vivemos e nos reconhecemos e não por doenças ou desvios. Sendo assim, não há o que tratar. Se você for ao psicólogo, certamente ele dirá isso, pois todos nós psicólogos respondemos ao mesmo código de ética perante ao Conselho Federal de Psicologia.

JP, sobre essa ideia de ficar com meninas só para saber se você é mesmo homossexual, quando você mesmo conta que namora um menino que ama muito e está feliz com isso... achei a ideia bem absurda! Primeiro porque você estaria apenas se sujeitando a fazer algo que sabe que não quer, usando a menina e magoando o seu namorado, e nenhum dos três merece passar por nada disso, ninguém merece. Além disso, se você namorasse uma menina, será que alguém iria te sugerir ficar com um menino para ter certeza se você é mesmo hétero? Acho que não. Pelo menos nunca vi isso acontecer. Os afetos são partes de nós a ser vividas conforme surgem, sem ser impostos ou forçados. Basta que a gente tenha consciência deles e lide de forma tranquila, não são um experimento científico a ser testado e comprovado. Você sabe o que sente, e isso é certo para você. Isso basta.

Independente de procurar terapia ou não (e, se procurar, o psicólogo não pode mudar sua orientação sexual, mas sim ajudar você a compreendê-la e lidar com ela e com as situações da vida), o que precisa acontecer é uma boa conversa entre você e os seus pais. Pela forma como você fala, dá para notar que são uma família onde existe conversa, e isso é bom. Porque a conversa é o primeiro passo para conhecer e respeitar o outro. Os pais fazem o que acreditam que será melhor para os filhos, muitas vezes não se dão conta de que o filho cresceu e já pode escolher o próprio caminho. Cabe ao filho, com maturidade e respeito, mostrar que pode sim tomar as próprias decisões e lidar bem com elas. Aceitar a sua homossexualidade, eles até já aceitaram, só não querem ver. E com uma conversa sincera e madura, você pode ajudar seus pais a superarem esse preconceito.

Lembre-se que o seu maior compromisso é sempre com a sua própria felicidade!
beijo
Bia


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quinta-feira, 13 de junho de 2013

Relacionamentos dançados

"A arte de viver é simplesmente a arte de conviver... Simplesmente, disse eu? Mas como é difícil!" - Mário Quintana, escritor brasileiro (1906 - 1994)

Hoje vamos conversar sobre relacionamentos. É incrível encontrar uma pessoa que combina com a gente. Tão incrível, que existem pessoas que pensam ser impossível. Não falo de príncipes encantados ou princesas, porque não existem pessoas perfeitas... Também não falo de uma pessoa que fica "presa" a nós fazendo todas as nossas vontades, porque isso seria uma pessoa sem vida. Falo, porém, de pessoas que tenham sonhos, metas e valores compatíveis com os nossos. Veja bem que não precisam ser os mesmos sonhos (que chato tudo tão arrumadinho!). Mas compatibilidade é algo a se pensar...


O problema começa quando isso não acontece. Aliás, se isso não acontece, não vejo necessariamente como um problema. Pessoas podem ser completamente diferentes e viverem muito bem juntas, desde que sejam maduras o bastante para compreender que nossos sonhos nem sempre são os mesmos que os do outro. E compreender ainda que, além de diferente, não são compatíveis. Podem viver muito bem desde que exista respeito e consideração pelo outro. Certa vez conheci um ex casal que terminou um namoro recente porque ele tinha o costume de orar antes das refeições... e ela não conseguia manter a expressão séria no rosto durante as ocasiões. Ela não respeitava a religiosidade dele? Ele não compreendia, por mais que a moça argumentasse, que o sorriso não era pelo fato dele ser religioso, mas sim pela situação pouco usual de ter alguém orando em frente a uma porção de batatinhas num barzinho agitado de São Paulo? Estilos de vida muito diferentes? Ou será que apenas falta de tolerância de uma das partes ou de ambas? Claro que foi um exemplo muito simples, mas ilustra bem essa diversidade da qual estamos falando.

Enquanto estamos sozinhos, só temos de olhar para nós mesmos. Só existe um corpo. Só existem as nossas próprias emoções. E só existe uma psique, e é apenas os desejos, medos, planos e anseios dela, da nossa mente, com os quais precisamos lidar. Aí surge um outro! E de repente, sem aviso nem planos, passamos a ter dois corpos, duas psiques e uma grande montanha de emoções, planos, desejos, medos e anseios demandando nossa atenção. E, pasme! O jeito como sempre cuidamos da nossa vida e das nossas emoções, sonhos e ideais pode não servir para lidar com esse outro! Difícil?

Eu diria que relacionamentos, sejam do tipo que forem, funcionam como um teatro: temos o papel que desempenhamos naquele momento... e tem o outro, com sua própria máscara, que pode ou não combinar com a nossa. Cada um com sua história. E de repente esses dois resolvem interagir! Ora, dentro de um relacionamento, só tem sentido existir um "oprimido", uma vítima (no popular, falamos aqui do "coitado") se existir alguém que desempenhe o papel/função de opressor/mandão/pessoa que deita e rola! Só existe a pessoa que quer fazer dar certo, se o outro tiver esse objetivo também, independente das máscaras que usem. Que papeis você tende a representar nos seus relacionamentos? Isso é uma boa chave para compreende-los melhor, seja para identificar as falhas, estilos de pessoas que poderiam complementar bem o seu papel, ou mesmo para ter consciência de que tipo de relacionamento você tanto busca...

Também é interessante pensar o relacionamento como uma dança. Tenho um amigo, já mais velho, que costuma dizer que hoje em dia é fácil dançar. Você vai até a multidão na pista de dança, de preferência bem no centro da bagunça, se permite ser chacoalhado pelos movimentos da massa enlouquecida e os jogos de luzes das casas noturnas fazem o resto. Geralmente o comentário arranca risadas de todos. Bem, mas se pensarmos em relacionamentos, não é desta dança que falo. Porque não existe relacionamento se estivermos dançando sozinhos... Pense na valsa. A valsa é uma dança que se dança em pares. Acho que muitos dos leitores já dançaram valsa em festas de 15 anos, ou formaturas, ou casamentos, ou seja onde for. Para a dança ser harmoniosa, os movimentos do par precisa estar em sintonia. Um não pode competir com o outro, precisam cooperar para que a dança seja fluida e pareça natural, como se os corpos dançassem por vontade própria, sem exitar e sem receios ou afobações. Aliás, não basta a harmonia entre o par, é preciso estar atento aos arredores, sobretudo à música. A dança harmoniosa, ou a relação agradável, só são conseguidas com cooperação, que implica em respeito, consideração e metas/sonhos compatíveis. Ou, no mínimo, numa boa visão de si e do outro com clareza, respeito e consideração. Senão somos apenas mais um na multidão, à mercê dos movimentos da massa enlouquecida e dos jogos de luzes de uma triste realidade.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Mythos - Eros e Psique: o amor que transforma

Amanhã no Brasil é comemorado o dia dos namorados. E pensando no significado desta data, em relacionamentos e em amor, resolvi fazer o mito desta semana sobre isso, sobre o poder transformador e libertador que o amor e os relacionamentos saudáveis podem ter na nossa vida. Para isso, vamos conhecer o mito grego de Eros e Psique. É uma história longa, mas muito bonita. Me acompanhem...

Havia um rei que tinha três filhas. Todas eram muito bonitas, mas era a caçula, Psique (cujo nome significa "alma" e também "borboleta"), que arrancava suspiros de todos. Todos sempre se apaixonavam por ela, pois além de linda, Psique era uma moça gentil e sensível. Por conta disso, as pessoas começaram a compará-la à própria Afrodite, deusa do amor e da beleza. Com o passar do tempo, ninguém mais frequentava os templos de Afrodite, nem sequer lhe fazia oferendas ou prestava homenagens, passaram a ver a deusa do amor e da beleza como uma criatura distante, enquanto Psique não. Psique vivia entre eles e era gentil e atenciosa com todos. Psique entendia a todos e convivia com eles. É claro que Afrodite não gostou nem um pouco disso... Como uma deusa ou deus pode sobreviver sem que ninguém se lembre dela? Como continuar existindo se nunca fazem rituais ou prestam honras? Vendo sua existência ameaçada, Afrodite pediu a seu filho Eros (em Roma, o Cupido), para que descesse do Olimpo e procurasse a jovem Psique. As flechas de Eros eram irresistíveis, faziam qualquer mortal ou deus se apaixonar. Afrodite ordenou que o filho fizesse com que o homem mais cruel que encontrasse se apaixonasse perdidamente por Psique. Para a deusa, nenhum sofrimento seria maior do que aquele. Eros obedeceu as ordens da mãe e foi até a terra. Mas assim que encontrou Psique, aconteceu um imprevisto. A moça era linda! Eros se apaixonou por ela e decidiu que não poderia fazer um homem cruel se apaixonar por ela, não queria que a amada sofresse. Aliás, ele teria o cuidado de não deixar qualquer homem se apaixonar por Psique!

Cupido e Psique. François Gérard, 1822.
O tempo passou. As irmãs de Psique se casaram e eram felizes. As pessoas continuavam louvando a beleza da jovem, mas ninguém mais se apaixonava por ela. Nem os jovens, nem os homens mais velhos, nem os maus, nem os bons, nem os guerreiros, nem os artesãos ou agricultores... ninguém. Os pais da moça ficaram intrigados. O que havia acontecido? Por que a filha mais bonita era a única que não conseguia se casar? Resolveram consultar o Oráculo, pois lá o deus Apolo falava através de suas sacerdotisas e na certa poderia ajudar. No Oráculo, os pais de Psique souberam que a filha teria sim um amante. Mas seu amante seria uma criatura alada. E mais! Apolo aconselhava que levassem a jovem para o alto de um monte, onde o amante a encontraria. De início, eles se assustaram. Como poderiam entregar a filha a uma criatura com asas? Um monstro, na certa! Mas Apolo disse que o destino de Psique era aquele. E ninguém escapa impune de cumprir o próprio destino, por isso os pais levaram Psique a um monte deserto e deixaram a filha lá. Desesperada e sem poder acreditar que seus pais tiveram coragem de deixá-la naquele lugar deserto, ela chorou por horas a fio, até o cansaço vencer e fazer com que ela caísse no sono.

Quando despertou, Psique estava na melhor cama que já havia dormido. Deparou-se com muitas servas que tinham a ordem de servi-la bem. Ao longo do dia, percebeu que estava num palácio muito mais luxuoso que o de seus pais ou qualquer outro que já houvesse visitado. Quando, finalmente, a noite chegou, Psique conheceu seu amante. Ele entrou em seu quarto e, como estava escuro, a jovem Psique não conseguia ver seu rosto. Mas ele tinha uma voz tão linda! Ele falou a ela sobre seus sentimentos de amor e deu-lhe um aviso: eles viveriam bem desde que ela nunca olhasse para o rosto dele. Ela ficou curiosa, mas não teve muito tempo para pensar no assunto, pois logo em seguida o homem trouxe a moça para seus braços e beijou-lhe os lábios com ternura. Tiveram uma linda noite de amor e pouco antes de adormecer, Psique pensou que seu amante não devia se parecer em nada com um monstro, mas sim com um belo rapaz. Os dias se passavam em companhia de suas servas, Psique passeava pelos jardins do palácio, lia, divertia-se com música ou com o que desejasse. Mas nunca via o amante misterioso. Apenas no escuro da noite ele visitava sua cama e lhe dava noites com as quais nunca havia sonhado. Apesar da rotina ser agradável, do amante ser maravilhoso e de todos no palácio gostarem de Psique e fazerem de tudo para que ela se sentisse feliz, logo ela começou a sentir falta da sua família. O amante, então, permitiu que as irmãs viessem visitá-la. Elas ficaram impressionadas com a forma como Psique vivia. "Mas ainda assim, é um preço alto demais para ter que se deitar com um monstro." Uma delas disse antes de irem embora.

O comentário da irmã deixou Psique ainda mais curiosa a respeito de seu amante. Quem era ele? Não, não poderia ter a face de um monstro quando falava e a amava como um deus... ou podia? Naquela mesma noite, ela esperou que o amante adormecesse exausto ao seu lado e saiu. Foi silenciosa até o salão principal do palácio, pegou uma lâmpada a óleo e voltou aos seus aposentos. Quando ela se aproximou da cama, não podia acreditar! Deuses, ele era lindo e perfeito! O homem mais bonito que ela já havia visto! Psique não resistiu e curvou-se para beijá-lo. Mas ao fazer isso, um pouco do óleo quente da lamparina pingou sobre o ombro dele, acordando-o de súbito. O amante ficou furioso, pois muitas vezes havia pedido que Psique nunca olhasse para o rosto dele! Agora não havia volta, uma vez que passamos a conhecer uma realidade, não podemos mais fingir que ela não existe. Ele precisou revelar a ela que era o deus do amor, Eros. E, mesmo com o coração partido, teve que dizer que a história deles teria de terminar por ali. Psique tentou argumentar, mas Eros, sendo um deus, assumiu sua invisibilidade e foi embora. Ele foi até Afrodite, pois queria que ela curasse a queimadura em seu ombro causada pelo óleo. Quando a mãe lhe perguntou sobre o acidente, Eros não teve escolha senão contar sobre Psique. Afrodite ficou ainda mais furiosa! Quem aquela garota humana pensava que era? Ela não só ameaçava o culto a Afrodite com sua beleza, mas ainda teve a ousadia de ter um caso com seu filho! A mortal que se preparasse para sentir a ira de uma deusa enfurecida!


Psique só chorava. As servas não entendiam o que havia acontecido com a jovem... era sempre tão alegre e gentil... o que teria acontecido? Psique precisava clarear a mente. Não chegaria a lugar algum chorando daquele jeito. Ela sabia que agora, não apenas havia perdido seu amor, como na certa havia atraído para si a ira de Afrodite. Não tinha escolha, seu caminho era um só: se quisesse que sua vida fosse poupada, ela teria de ir até Afrodite e implorar seu perdão. Talvez tornar-se sua sacerdotisa e servir-lhe pelo resto de seus dias. O vento Zéfiro levou-a até a deusa, que ficou maravilhada pela chance de se vingar da mortal. Psique implorou por sua vida. Afrodite, com um sorriso perverso, disse à jovem que sua vida seria poupada... desde que ela cumprisse com perfeição algumas tarefas. Psique aceitou de pronto. Apesar de saber que dificilmente cumpriria as tarefas, tentar era melhor do que morrer.

A primeira tarefa seria separar uma pilha de sementes. Mas não eram sementes comuns. Eram as menores sementes que Psique já havia visto, de papoula, mostarda e painço. Aquela tarefa era impossível! Ela nunca conseguiria! Desesperada, Psique chorou. Chorou tanto que suas lágrimas caíram na terra. As formigas viram as lágrimas e, sentindo o desespero daquela bela jovem, decidiram ajudar. Elas carregaram as sementes e separaram as três pilhas distintas. Afrodite ficou furiosa! Até hoje as formigas tentam escapar de sua fúria, vivendo embaixo da terra!

A noite chegou e Afrodite deu à Psique apenas um pedaço de pão. Dormiu nas pedras geladas do chão e acordou com os primeiros raios de sol. Afrodite sabia que nada destruía a beleza como as privações e a dureza da vida. Era hora da próxima tarefa e desta vez Afrodite tinha certeza de que Psique não escaparia! A tarefa era ir até as ovelhas que a deusa mantinha junto a um rio e colher lã dourada. O problema era que as tais ovelhas tinham cabeças de leão e eram conhecidas por já haverem devorado muitos mortais. Outra vez, triste pelo destino terrível que a aguardava, Psique chorou. Mas logo percebeu que não era necessário arriscar sua vida, pois quando as ovelhas passavam junto de arbustos, um pouco dos fios de lã dourada ficava preso a eles. Psique recolheu dos arbustos tanta lã dourada quanto poderia carregar e levou depressa a Afrodite. Mas a deusa não desanimou. Ela deu um jarro de ouro a Psique e ordenou que ela buscasse água da foz do rio Estige, que separa o mundo dos vivos e dos mortos. A mocinha teria de escalar pedras escorregadias e, se não caísse e se afogasse, provavelmente se queimaria com a água quente... E ela provavelmente não teria terminado a tarefa sozinha. Mas uma águia apareceu, e levou-a em segurança até a catarata, onde ela pode encher o jarro com a água do rio Estige em segurança. Existem alguns boatos de que essa águia seria Zeus disfarçado, uma vez que a águia é um símbolo deste deus.

Cansada do joguinho, Afrodite resolveu terminar de uma vez por todas e enviar Psique diretamente à terra dos mortos. Ela teria de ir até lá e pedir a Perséfone, rainha do mundo dos mortos, um pouco de sua beleza. Poucos mortais foram ao mundo dos mortos e voltaram para contar a história. Só se sai de lá com a ajuda dos deuses. No caminho, Psique encontrou Hermes (algumas versões do mito dizem que encontrou apenas "um guia", mas é provável que seja Hermes, o deus da comunicação, um dos únicos a ter livre acesso ao mundo dos mortos, além de ajudar os viajantes e as "causas perdidas"). Hermes lhe contou que para entrar no mundo dos mortos era necessário pagar Caronte, o barqueiro, pela travessia do rio Estige. Mas Psique não tinha dinheiro. Hermes deu-lhe um bolo de mel, para que o desse a Caronte, pois o barqueiro adorava a guloseima e ficaria feliz em ajudá-la. Caronte ficou encantado com aquela linda jovem que lhe pedia o favor de transportá-la em troca de um saboroso bolo de mel. No mundo dos mortos, Perséfone foi muito gentil com Psique e lhe deu um pouco de sua beleza dentro de uma caixinha, com a ordem de não abri-la, a moça deveria apenas entregá-la a Afrodite. Mas, outra vez, a curiosidade foi maior e, no meio do caminho, Psique abriu a caixa, caindo num sono profundo.

Já curado de suas feridas e desesperado para ajudar a amada, Eros escapou do olhar de Afrodite e correu para socorrer Psique. Ele fechou a caixa e despertou a moça com um beijo. Disse então que ela deveria ir até Afrodite e entregar a caixa sem medo. Enquanto ela foi, Eros conversou com Zeus sobre seu amor por Psique e a situação desagradável com Afrodite. A resposta de Zeus foi simples e muito sábia: "Quando o amor físico (Eros, em grego) e a alma (Psyche, em grego) estão unidos, nem mesmo os deuses podem separá-los". Então Zeus mandou chamar Psique e lhe deu ambrosia, o alimento dos deuses, que a transformou em imortal. Desde então o casal vive feliz entre os deuses. Afrodite, por sua vez, ficou tão aliviada da jovem não viver mais na terra (e dos humanos retomarem seu culto), que no fim acabou sendo uma sogra muito simpática!


Questões para reflexão:

1- Além de achar este mito muito lindo, gosto dele por ser um dos poucos mitos gregos em que a mocinha é a heroína da história. Quem conhece um pouco de mitologia grega talvez já tenha notado que quase sempre que temos uma heroína e não um herói, a "busca" dessa personagem está relacionada às emoções ou à própria busca interior (com raras exceções). Entretanto, isso é apenas a forma como as buscas eram vistas na cultura grega antiga. As buscas humanas existem em todos os setores da vida, independente do sexo, gênero, orientação sexual, etc. É muito importante conhecer nossas buscas, pos só assim, tornando-as conscientes, é que podemos transformá-las em metas... e uma vez que sejam metas, estamos livres para ir ao encontro delas! Quais são suas buscas? Não falo das metas comuns, mas daquelas que urgem dentro de nosso coração de forma que não conseguimos fazê-las calar. Escreva sobre elas. Se não conseguir colocá-las em palavras, respire fundo, feche os olhos e volte-se para o seu centro. Então expresse a busca através de desenhos ou colagens. Pode não ser consciente, mas a busca está sim sendo expressa. Com o desenho feito, procure falar/escrever sobre ele, em especial sobre as sensações e sentimentos que sua obra (enquanto a expressão do seu inconsciente) te causa.

2- Repare bem nas tarefas que Afrodite deu à Psique: concentração (separar as sementes); solucionar um problema muito arriscado/difícil (trazer lã dourada); lançar-se ao desafio, envolver-se (buscar a água da foz do rio Estige); adentrar no inconsciente e tomar contato consigo mesma (falar com Perséfone, que no mito de hoje fez o papel da guia interior); tomar contato com a própria realidade interna (abrir a caixa), uma experiência tão intensa que a transforma (adormece e depois é despertada por Eros), da qual sai renovada (transforma-se em imortal). Este é o caminho de todas as nossas buscas. Nem sempre é algo tão dramático como no mito, mas é algo que pode ser percebido na nossa realidade externa ou mesmo em movimentos internos. Procure perceber, tendo consciência de sua(s) busca(s) como foi ou está sendo este caminho. Em qual parte dele você está, quais são mais difíceis ou mais tranquilas para você.

3- Sobre relacionamentos. O mito de hoje nos conta que um ponto fundamental dos relacionamentos é a confiança. Enquanto Psique confiou em Eros, tudo estava bem. Entretanto, apesar do relacionamento ser agradável, não era transparente, pois uma das partes (Eros) escondia algo da companheira (o rosto - a máscara que usa nas relações). Conhecer a realidade pode trazer conflitos, mas apenas assim, olhando para ela e solucionando os conflitos que surgem é que se pode estar verdadeiramente com o outro. Os melhores relacionamentos são aqueles em que ambas as partes se envolvem por completo. São estes os que nos transformam para melhor, pois suas dádivas e desafios nos ajudam a conhecer o que existe de melhor em nós e no companheiro(a).

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Ágora - Sonho com sensação de queda

Li o teu artigo (Criando o diário de sonhos) e comecei o meu diário de sonhos, Bia. Como dito no artigo, é uma experiencia optima. Mas tenho uma questão, podes responder na Ágora, por favor, e podes deixar o meu nome. Desde miuda tenho sonhos sobre estar a cair. São bastante rápidos e intensos. Dificilmente há imagens, como uma sensação de queda. Sempre acordo de sobressalto depois do sonho e com a experiencia do diário percebo que os tenho com mais frequencia do que pensava. Gostava de saber se significam algo. Muito obrigada! 
beijos 
Maria Ines - Lisboa, Portugal

Olá, Maria Ines!
Também tenho esse sonho/sensação. A grande maioria das pessoas costuma ter ou ao menos já experimentou essa situação. O nome é "espasmo hípnico", e não há uma explicação fechada sobre a razão de acontecer. Entretanto, a maioria dos profissionais concorda que isso acontece quando estamos na transição do estado de vigília para o de sono. Quando todos os nossos músculos relaxam, nosso cérebro pode interpretar a sensação como uma queda, o que faz com que o sistema nervoso central mande a ordem para o corpo se movimentar e evitar o possível acidente. Por isso acordamos de maneira tão abrupta, com a sensação de que estávamos caindo. Sendo uma reação fisiológica e não um sonho, não há muito a ser interpretado. Vale lembrar que espasmo hípnico não é sintoma nem causador de nenhum problema de saúde, é uma reação normal do nosso organismo que não oferece riscos. Pessoas com maior grau de ansiedade e com mais tensões (ou que estejam passando por uma fase mais atribulada) costumam ter o espasmo hípnico com mais frequência. Se for o seu caso, vale a pena criar um momento agradável para a hora de dormir, deixar o corpo e a mente relaxarem aos pouquinhos... meditação, uma leitura ou conversa tranquila, um banho morno, exercícios de respiração... Tudo isso pode ajudar a relaxar e a adormecer com maior tranquilidade.
beijo
Bia

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quinta-feira, 6 de junho de 2013

O sol interior: reconhecendo o poder em si mesmo

"Não basta saber, é preciso também aplicar; não basta querer, é preciso também fazer." - Johann  von Goethe, escritor alemão (1749-1832)

Este artigo começou a partir de uma conversa com um de meus pacientes sobre poder. Não aquele poder da Justiça ou o poder do Estado. Nem o poder de uma instituição (empresas, escolas, instituições religiosas, etc.). O poder sobre o qual vamos conversar hoje é muito mais sutil. Algumas pessoas nem sequer percebem que ele existe. É o poder do dia a dia. O poder que temos sobre nós mesmos, sobre nossas vidas, nossos corpos e nossos caminhos.

O primeiro ponto é: de quem é esse poder? Por absurdo que pareça, muita gente sente dificuldade em encontrar o poder em si mesma. Ou mesmo em assumir que encontrou. E aí podem acontecer dois tipos de situação. A primeira, a pessoa que transfere seu poder para outros. Só vai a uma festa, por exemplo, se os amigos "forem também", mesmo que esteja com muita vontade de ir. Na hora de escolher a profissão, pensa nos desejos da família, no que aprovariam. Antes de decidir mudar de emprego, fica inseguro pensando em tudo o que "os outros" podem achar... Veja bem, não estou dizendo que nunca devemos considerar a opinião dos outros. Devemos sim. Não só porque eles podem ver a situação de forma diferente de nós, mas também porque muitas das nossas atitudes podem interferir na vida deles. O problema começa quando delegamos completamente o nosso poder para outras pessoas e passamos a agir apenas com base na opinião delas. O segundo tipo de situação acontece quando a transferência desse nosso poder para os outros é mais discreta. Algumas vezes vem camuflada na forma de competições ou de admirações exageradas, a pessoa coloca quem admira num patamar tão alto, tão inatingível, que esquece de perceber que essa pessoa também tem problemas e pontos fracos, esquece que ninguém é perfeito. E aí, seja por competição ou admiração, passa os dias correndo atrás do que o outro aprovaria e valorizaria, ou então tentando ser melhor do que ele, conforme o caso. Busca-se a superação sim, porém não de forma autônoma, mas para corresponder às expectativas que pensa que esse outro tem. De quem é o seu poder?

Nosso poder é o poder de fazer escolhas,
e com elas decidir sobre os nossos caminhos
Foto de minha autoria.
Isso nos leva a mais uma pergunta. Quem está em primeiro lugar na sua vida? Nunca deixo de me surpreender quando faço essa pergunta e a pessoa não me responde "eu!". Normalmente falam sobre os filhos, em especial o do meio, coitadinho, que tem bronquite. Ou sobre os pais já idosos. Ou sobre o chefe, ou os clientes, ou a esposa, marido, namorado... Aliás, mesmo em crianças pequenas se pode perceber esse movimento. Com crianças, o trabalho psicológico é mais lúdico, baseado em "brincadeiras" e desenhos, entre outros métodos. Muitas vezes a criança já demonstra essa questão de não assumir o próprio poder, o que posso ver num desenho sobre a família, por exemplo. Muitas crianças nessa situação desenham suas famílias e não se esquecem de ninguém. Colocam até mesmo aquela tia que mora em outra cidade, o irmão que pega no pé dela e até o animalzinho de estimação. Mas não desenham a si mesmas. E isso é muito triste, pois fica mais visível do que nos adultos o problema que não assumir nosso poder pode causar: não existimos! Até podemos estar lá também, mas não fazemos parte. Não porque os outros não nos aceitem, mas porque nós mesmos não nos consideramos.

A seguir, trago algumas ideias sobre o que fazer para tomar seu poder em suas mãos.
- O primeiro passo é aproximar-se de si mesmo. Se você se identificou com alguma parte deste artigo, talvez seja o momento de investir um pouco mais em autoconhecimento. Você pode fazer isso com a ajuda de um terapeuta. Mas independente de buscar essa ajuda, é preciso agir. Traga o poder para si. Se expresse sem medo, seja falando, escrevendo, através de música ou outras maneiras de arte. A arte é muito indicada, pois através dela podemos expressar conteúdos nossos que estão nas profundezas do nosso inconsciente.
- Mantenha o foco nas suas escolhas! Elas acontecem o tempo todo e sua vida só terá a sua cara se cada pequena escolha for bem pensada e decidida com consciência. Eu sei que é difícil. Mas é só assim que a nossa vida será, de fato, nossa. Porque sempre que nos deparamos com uma bifurcação no nosso caminho, se não tomamos a decisão de ir por um dos lados, outra pessoa fará isso por nós. E as consequências podem não ser boas. Claro que quando nós mesmo escolhemos também existem riscos. Mas, ao fazer uma escolha consciente, levamos em conta esses riscos e possibilidades. Não somos pegos de surpresa por um dragão ao entrar numa caverna, mas entramos na caverna com a ideia de enfrentar o dragão. E isso muda tudo.
- Estabeleça suas metas e o que precisa fazer para ir até elas. A caminhada pela vida nunca é aleatória. O que buscamos? Onde desejamos chegar? Tenha isso claro para si. Pode ser uma meta de vida, como formar uma família ou ter uma velhice tranquila... ou pode ser uma meta mais a curto prazo, como sair com os amigos no final de semana ou dar uma escapadinha no meio da tarde para tomar sorvete. Não importa, o fato é que precisamos ter metas se quisermos chegar a algum lugar. Precisamos planejar essas metas com cuidado e dedicação. Ah, e não tenha apenas uma meta, tenha várias. Em diversos setores da vida. Metas nada mais são do que sonhos que estão sendo colocados em prática. E nada anula mais o poder pessoal de uma pessoa do que matar os próprios sonhos.

Para terminar, vou ensinar uma técnica simples, mas poderosa. Este é um exercício de visualização, que pode ser feito como uma meditação dirigida. Costumo usá-lo com meus pacientes, em especial em casos de não assumir o próprio poder, ter dificuldade em fazer suas escolhas, enfim, insegurança. Mas também temos conseguido bons resultados em casos como depressões e síndrome do pânico, justamente por ajudar a pessoa a sentir o próprio poder, o calor do "seu" sol. Exercícios de imagem são poderosos, pois falam direto ao inconsciente. 

Vamos começar! Sente-se confortavelmente, mantenha a sola dos pés em contato com o solo. Sinta esse contato, sinta-se aqui e agora. Feche os olhos e faça três respirações profundas, inspirando pelo nariz e expirando pela boca. Sinta cada parte do seu corpo relaxar. Em especial, sinta seus pés, ventre, ombros, pescoço e testa relaxarem. Muitas tensões se acumulam nessas áreas. Continue sempre respirando profundamente, lentamente. Agora, imagine que há um pequeno sol dentro do seu peito. Um pontinho de luz e calor em meio à escuridão. Esse sol cresce, até preencher todo o seu peito. Sinta seu poder. Sinta seu calor. Veja a luz do seu sol iluminar cada parte do seu corpo, aquecendo, curando, dando forças... Veja a luz do seu sol se derramar a partir de você, ao seu redor, e depois veja como ela se espalha pelo ambiente, iluminando tudo ao seu redor. Você tem luz própria!

Tome o "seu sol" todos os dias, pelo menos uma vez. Sugiro fazer isso pela manhã, para começar o dia confiante e consciente do seu poder. Você pode repetir esse exercício sempre que quiser ou precisar, como antes de uma situação em que precise se sentir capaz de tomar suas decisões e agir em sua vida, sempre que precisar se sentir confiante. É fundamental ter consciência e/ou recuperar esse nosso poder. E é importante saber que o maior poder que alguém pode ter é o poder de fazer as próprias escolhas. Porque sem elas, nós não somos quem somos. Sem nosso poder de escolher, não somos ninguém.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Mythos - Kwan Yin: o sofrimento do mundo

Esta semana vamos trabalhar com um mito chinês. Ou melhor, Kwan Yin não é cultuada apenas na China, mas também no Japão, Coréia e em muitos outros países, pois é uma figura de grande destaque no budismo (em alguns casos, é cultuada também no taoismo). Um ponto interessante é que Kwan Yin não é uma deusa ou divindade, mas sim uma bodhisattva, isto é, um ser humano que está a um passo da iluminação. Ela é muito popular pela forma como se dedica aos seres humanos. Ela pode se tornar iluminada, mas jurou a si mesma que não daria este passo enquanto ainda houvesse pessoas sofrendo na Terra. Por isso permanece eternamente na condição de bodhisattva, ouvindo o sofrimento do mundo. Vamos conhecer sua história.

Kwan Yin, antes de se tornar o que é, nasceu como uma menina chamada Miao Shan. Ela era filha única e como era de costume na cultura oriental antiga, o pai dela pensava em arrumar-lhe um bom pretendente, pois além de garantir uma vida boa para a filha, este seria o único jeito de melhorar de vida tendo uma filha e não um filho. O problema era que os planos da moça eram outros. Ela era muito espiritualizada e tinha vontade de se tornar uma monja budista. O pai, é claro, achou um absurdo! Seria embaraçoso para ele ter uma monja na família! Sem que a filha soubesse, ele encontrou um pretendente para ela. Era um homem já de idade e nada atraente... mas muito rico. Conforme se aproximava o dia do casamento, Miao Shan não fez nada a não ser rezar por horas e horas... Não provou o vestido de noiva, não quis escolher as flores que enfeitariam a festa. Apenas orava. A mãe dela foi defendê-la, mas o pai se recusou a ouvir: o casamento já tinha sido combinado e teria de acontecer! Mas toda a raiva e determinação do pai não causavam nenhum impacto na jovem. Por isso ele a prendeu numa torre, esperando que caísse em si e concordasse com o casamento. Mas na torre, tendo apenas arroz seco para comer e ninguém com quem conversar, Miao Shan dedicou-se ainda mais às suas preces. Após algum tempo, o pai percebeu que a filha não iria ceder e ordenou aos seus soldados que a matassem.

Os soldados amavam e respeitavam Miao Shan. Mas o medo que sentiam do pai dela era ainda maior. Nesse impasse, eles a levaram para a floresta e levantaram suas espadas. A jovem fechou os olhos, já se preparando para abri-los no pós vida... Quando, do nada, um tigre saiu de entre as árvores e avançou nos soldados. Em seguida pegou Miao Shan com a boca e a carregou até uma caverna, onde a deixou e desapareceu. A moça mal teve tempo de olhar ao seu redor e também a caverna desapareceu. Ela flutuou levemente a outro lugar, cheio de fantasmas que se moviam com rapidez. Perto dos fantasmas estava Yen Wo Lang, o regente da morte. Essa era a entidade que mantinha as almas como suas escravas, sendo que enquanto estivessem a seu serviço, elas não conseguiam renascer e nem corrigir seus erros passados. Miao Shan o desafiou, e o regente da morte fez com que as chamas em sua cabeça crescessem de maneira assustadora. Ela apenas se ergueu e sua alma reluziu. Ele ainda tentou jogar-lhe uma maldição, mas viu que a moça rezava pacificamente, irradiando uma aura de paz que atraia os fantasmas para ela. Yen Wo Lang  viu cada uma das almas que ele mantinha como escravos flutuarem para a terra e renascerem como bebês, com toda uma vida de oportunidades pela frente. E assim ele compreendeu que seus truques e maldades não tinham poder algum sobre Miao Shan.

Quando a menina abriu os olhos, estava novamente na caverna onde o tigre a havia deixado. Novamente, voltou a orar. E em meio às suas preces, apareceu o Buda. Ele lhe disse que em um ano exato atingiria sua meta. Disse ainda que precisava chegar à ilha de P'u T'o Shan, mas que tivesse cuidado, pois o pai soube de sua fuga e estava em seu encalço. O Buda ainda lhe deu um pêssego que a manteria sem sentir fome ou sede até que atingisse sua meta.

Ela seguiu as instruções do Buda e quando chegou à ilha, lá havia muita luz. Ela estava a um passo da iluminação, de atingir um estado búdico e não precisar mais sofrer na terra com as misérias humanas. Ninguém jamais havia exitado em dar este passo, mas Miao Shan parou. Como poderia ter a consciência em paz sabendo que ainda havia tantos sofrendo no mundo? Pessoas sendo mortas injustamente, passando fome e frio, vivendo em condições desumanas... Como poderia dar este passo e ter a consciência em paz sabendo que tantas pessoas não conseguiam encontrar um caminho em suas vidas, não conseguiam sentir a paz dentro de si por causa das dificuldades da vida e da dureza do caminho? Não, ela recuou. E ao desistir da iluminação, Miao Shan transformou-se em Kwan Yin, aquela que escuta o sofrimento do mundo. Ela jurou para si mesma que permaneceria naquela ilha até que não existisse mais sofrimento no mundo. E desde então ouve todas as preces e acalma o sofrimento das pessoas. Dizem que ela atende a todas as preces e que apenas dizer seu nome, Kwan Yin, já é o bastante para criar uma aura de paz e harmonia.

Questões para reflexão:
1- Numa interpretação psicológica do mito, o tigre que defende Miao Shan, a caverna, o regente da morte e o Buda representam partes do nosso inconsciente. Ele é muito poderoso, pode nos dar defesas, soluções e sábias orientações, basta se concentrar e manter o foco. Em quais áreas da sua vida você percebe que precisam de ajuda? O que você faz para obtê-la?
2- Tal como Miao Shan, vivemos num mundo cheio de violência e intempéries. Qual a sua participação nisso? A sociedade somos todos nós. Como você reage ao sofrimento do mundo ou, dizendo em outras palavras, como você reage aos problemas da sociedade como a violência, a miséria, o individualismo?
3- Pegue duas folhas de papel. Em uma delas, faça um desenho ou colagem sobre o sofrimento. Pode ser o sofrimento do mundo ou o seu próprio sofrimento. Na outra, faça o mesmo, mas pensando na paz. Que diferenças e semelhanças existem entre os dois trabalhos? Na paz também pode existir conflitos, da mesma forma que foi uma vida de conflitos que deu a Miao Shan a consciência da paz.