terça-feira, 30 de julho de 2013

Mythos: O deus desconhecido: a angústia do não ser

Hoje vamos conversar sobre um mito do povo Romano. Aliás, diferente das outras semanas, hoje não temos exatamente um mito a ser contado. Mas havia um costume muito interessante em Roma, o culto ao deus desconhecido. Como já comentei outras vezes, os romanos eram um povo cujo maior foco era a conquista. Chegaram a conquistar todos os territórios ao redor do Mediterrâneo. Uma coisa muito interessante sobre esse povo é que eles tinham a mente bastante aberta às culturas dos povos que conquistavam ou com quem conviviam de algum modo. Se achavam a ideia boa, adotavam! Por exemplo, com os etruscos (povo da Península Itálica), os romanos aprenderam a construir templos e outras obras de engenharia, como um tipo de ponte (utilizando arcos em sua construção, o que tornava a obra mais resistente) e um sistema de esgoto avançado para a época; além disso o povo etrusco influenciou na troca da monarquia romana pela República (apenas mais tarde Roma passou a ser um império). Culturalmente, é provável que a maior influência tenha sido dos gregos, pois a religião romana era, em boa parte, uma releitura da religião grega. E já que chegamos ao campo da religião e dos mitos, uma curiosidade interessante: antes de construírem templos, o local onde os romanos faziam seus cultos era a casa, cultuando principalmente os espíritos de antepassados, sempre cultuados perto do fogo. Esses espíritos familiares eram chamados lare (de onde vêm palavras como lar e lareira). Mas este tema fica para uma próxima vez.

Esquema de um templo romano. Repare que o altar é o elemento em destaque, onde eram feitos os sacrifícios e oferendas. Em alguns casos, as paredes eram decoradas com encenações do mito da divindade homenageada. Era frequente ter de subir degraus para se chegar ao templo (o cristianismo herdou isso, muitas das igrejas católicas ficam no alto de uma escada), subir os degraus para entrar no templo simboliza um caminho, deixar o mundo comum, do dia a dia, e entrar no mundo dos deuses.
Quanto aos mitos, muitas pessoas pensam que os deuses dos romanos eram os mesmos dos gregos, o que não é verdade. Uma releitura é bem diferente de uma cópia. Ao adotar deuses e deusas de outras culturas, os romanos precisavam interpretar aqueles mitos e cultos, e ao interpretar, não há como não dar o seu próprio olhar ao fato, transformando-o em algo único e diferente daquele que lhe deu origem. Com a expansão do território romano e o contato com mais povos, os romanos conheceram ainda mais deuses. E foi então que se passou a cultuar o deus desconhecido. Quem era ele? Ninguém sabe, nem mesmo os romanos... Mas a ideia por trás do culto era bem prática: quando conheceram diversas culturas, os romanos perceberam que seus deuses não eram únicos, existiam muitos deuses! E cultuá-los ou não, trazia grandes consequências para os romanos. Caso não prestassem os cultos adequados às deusas da terra e da colheita, por exemplo, o povo romano corria o risco de ter uma safra pobre, problemas climáticos, invernos rigorosos demais, etc. Caso alguém falecesse e não prestassem as homenagens devidas aos deuses ligados à morte e ao submundo, a alma do falecido vagaria por muito tempo pelo limiar entre os mundos dos vivos e dos mortos até encontrar a paz...

Mas e se eles deixassem de prestar culto a algum deus, não por negligência, mas por desconhecimento? Não se poderia nem mesmo prever as consequências, pois ao não conhecer o deus em questão, também não seria possível saber qual era o seu domínio. Resolveram a questão construindo altares em honra ao "deus desconhecido". Os cultos eram simples. Todo ritual é a encenação de um mito (discurso). Assim, quando o deus em questão não é conhecido, seu mito também não é. E sem um mito, como criar um ritual e um sistema de culto? Complicado. Os romanos resolveram de vez a questão ao criar um sistema bem simples: um altar dedicado a esse deus, onde as homenagens seriam feitas na forma de oferendas. Assim, ofereciam sangue de animais sacrificados, para o caso de ser um deus mais ligado às batalhas ou à morte, por exemplo, mas também ofereciam pão, leite e mel, para o caso de seu domínio ser um pouco mais tranquilo, como as colheitas a fartura, bem como ofereciam flores para o caso de ser algum deus ligado a renascimentos e estações do ano, e por aí vai... No fundo esta foi a forma que os romanos encontraram para lidar com as incertezas, com o desconhecido. Isso mostra um grau de maturidade grande, pois existia a compreensão de que se não conhecemos algo, isso não significa que a coisa não exista e menos ainda que não interfira na nossa vida. Ter essa consciência e tomar atitudes preventivas demonstra maturidade e estratégia.


Questões para Reflexão:

1- A motivação dos romanos ao construir templos para o deus desconhecido nos fala sobre uma situação comum na vida de todos nós: a forma como lidamos com o desconhecido e as consequências que pode trazer. E você, como lida com aquilo que não conhece? Em quais áreas da sua vida você mais teme o contato com o desconhecido - e suas consequências?

2- O deus desconhecido não era conhecido porque não se sabia sua história, e assim, não podiam supor se existia ou não. Conheça sua própria história. É este conhecimento que nos permite existir em todo o nosso ser, não apenas enquanto corpo e mente, mas como seres inseridos num contexto que nos influencia e que, ao mesmo tempo, também podemos influenciar. Ter consciência da nossa história nos permite transformar nosso presente e futuro, pois nos mostra que somos seres ativos e autônomos na construção da nossa história, do nosso mito.

3- Quando os romanos decidiam que tipo de oferenda levar ao altar do deus desconhecido faziam algo que hoje chamaríamos de planejamento estratégico. Isso é bem simples. Apesar de não saber quem era o deus em questão, os romanos podiam supor, e faziam isso observando os detalhes a sua volta (como se os campos ou talvez o clima precisasse de atenção). Você usa este tipo de planejamento estratégico na sua vida? Como você costuma fazer?

4- O maior risco que um deus desconhecido corre é o risco de não ser, de "não existir", e a angústia que isso traz. Não apenas deuses da mitologia correm esse risco. Você consegue identificar personagens, lados seus, que são como o deus desconhecido? Aqueles lados nossos que até desconfiamos que exista, mas que pouco sabemos sobre ele? Tenho uma proposta: conhecê-lo. Tudo o que não conhecemos sobre nós está no mundo do inconsciente. O que precisamos fazer aqui é permitir que o inconsciente se revele. Você pode fazer isso com atividades artísticas, meditando e observando que sensações, emoções e pensamentos surgem ou mesmo "pedindo" que esse seu lado desconhecido (algumas vezes chamado de sombra) se mostre em seu sonho. "Convide" a sombra quando estiver na cama, pronto para adormecer, com uma frase curta e simples como "minha sombra é bem vinda nos meus sonhos desta noite". Conhecer-se é a melhor maneira de ter o poder de escolher o próprio caminho.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Ágora - Escolha profissional e a área "psi"

Meu nome é César, tenho 16 anos e estou no 2o ano do ensino médio. Esta fase é muito estranha porque além de todas as coisas da vida tu tens que escolher uma profissão. Bia, acho que sou novo demais para decidir meu futuro assim tão rápido. Por enquanto sei que quero trabalhar com pessoas, com a mente das pessoas. Queria entender melhor qual a diferença entre psicólogo, psiquiatra, psicanalista e terapeuta. Queria seguir uma dessas profissões psi, mas não tenho certeza qual. Obrigado
César - Santa Catarina

Olá, César.

Um dia já tive a mesma dúvida que você. Sabia que queria ser algo de "psi", mas o que? Também me senti um pouco insegura na hora de escolher uma profissão, a maioria das pessoas se sente assim (embora alguns anos depois, poucos admitam isso). Parece que a vida tem tantas questões mais urgentes... família, amigos, relacionamentos, a miséria no mundo, as guerras, a fome, as doenças, a violência, o medo que tantas pessoas sentem de seus semelhantes... e o pessoal pressionando na escolha da profissão! A vida adulta parece próxima, mas ao mesmo tempo distante.

Infelizmente ou felizmente, o momento da escolha se aproxima. Escolher sempre dói, porque quando escolhemos um caminho, estamos dizendo "não" às outras possibilidades. Se escolhi ser psicóloga e trabalhar nesta área, dificilmente poderei ter em paralelo uma carreira de guia turística, cheia de horários e compromissos, por mais que eu goste de passear... Quando tomei minha decisão, imaginei um dia na vida de cada profissional das áreas em que eu pensava em seguir. Pode ser interessante conversar com alguns profissionais de áreas que te interessam, conhecer um pouquinho do trabalho e do dia a dia deles para saber se é mesmo o que você quer para si, conhecer o ambiente de trabalho, a rotina, etc. Pergunte mesmo! É um ótimo jeito para se informar sobre uma decisão tão importante. Além disso, a nossa ansiedade diminui bastante quando lembramos que sempre podemos mudar de ideia, se não gostamos de um caminho, sempre podemos experimentar outros... A seguir, vamos ver algumas informações sobre as profissões que você mencionou.

- Psicólogo: O psicólogo fez faculdade de psicologia, que inclui aulas teóricas e práticas, além de estágios em diferentes áreas de atuação do psicólogo. Tem gente que não sabe, mas podemos trabalhar em diversas áreas além da clínica, como em empresas, escolas, junto a equipes esportivas, etc. Há algumas semanas, a Ana Carolina escreveu perguntando sobre as áreas de atuação do psicólogo, acho que você pode se interessar (clique aqui para ver). Importante dizer! Nós psicólogos não trabalhamos com medicamentos. Isso quer dizer que procuramos resolver as raízes do conflito que causa o mal estar ou os sintomas de nosso paciente em lugar de atenuá-los com remédios. Claro que existem casos mais graves (por exemplo, quando existe risco de suicídio), em que o uso de medicamentos é necessário num primeiro momento. Nesses casos, é fundamental a parceria com o psiquiatra, que irá medicar o paciente enquanto nós psicólogos tratamos o lado psíquico da doença, os conflitos que levaram ao desenvolvimento dos sintomas (emocionais ou físicos).

- Psiquiatra: O psiquiatra fez faculdade de medicina e a residência em psiquiatria. Geralmente trabalha com tratamentos medicamentosos, que inibem os sintomas psicológicos dos conflitos. É importante que o paciente psiquiátrico faça terapia com um psicólogo, pois "esconder" os sintomas não resolve os problemas da pessoa.

- Psicanalista: A psicanálise é uma linha de pensamento, uma das muitas abordagens psicológicas. Psicanalistas mais ortodoxos consideram que é parte deste grupo apenas quem segue estritamente os métodos e teorias dos grandes nomes da psicanálise (como Freud, Lacan, Melanie Klein, Winnicott...). Podemos dizer que falamos de psicanálise sempre que abordamos o inconsciente, ou melhor, o inconsciente enquanto o "lugar" onde estão nossos conteúdos reprimidos que geram nossos conflitos (diferente de outros teóricos, como Jung, que vê o inconsciente de maneira mais ampla). Importante saber que existem outras abordagens psicológicas, como a cognitiva comportamental, a humanista, a sócio-histórica, a existencialista, a psicologia analítica, as linhas corporais, entre muitas outras. Cada psicólogo trabalha com a abordagem com a qual se identifica, com o "ponto de vista" que se sente mais a vontade para olhar para seu paciente.

- Terapeuta: É terapeuta todo profissional que oferece algum tipo de tratamento terapêutico para a psique e/ou para o corpo. Entram aí profissionais da psicologia, terapia ocupacional, arte terapeutas, entre outros. Muitas vezes este termo é utilizado para os profissionais das chamadas "terapias alternativas" (cromoterapia, florais, tarot terapêutico, e outros métodos). Independente do campo de atuação, o terapeuta aplica suas técnicas (de acordo com a área de formação) sempre visando o estabelecimento de saúde e qualidade de vida para a pessoa. Terapia vem do grego therapia, que significa tratar, cuidar.

Independente da área de formação do profissional, ou da abordagem teórica, acredito que o cuidar sempre será o mais importante, pois é esse cuidado que nos permite ver o paciente como um todo e não como uma doença ou sintoma. Independente da área que você escolher seguir, César, siga sempre levando claro na mente este pensamento, este foco acima de tudo.

Caso a dificuldade em tomar esta decisão continue, você sempre pode procurar um psicólogo para fazer uma orientação profissional e planejamento de carreira. Isso pode ajudar muito a conhecer sua personalidade, suas preferências e também a planejar com cuidado os passos da sua formação e carreira. Lembre-se que apenas você pode fazer a sua escolha. E, para isso, é fundamental se conhecer bem.

beijo
Bia

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quinta-feira, 25 de julho de 2013

As cores nas mandalas

"Na realidade trabalha-se com poucas cores. O que dá a ilusão do seu número é serem postas no seu justo lugar." - Pablo Picasso (1881-1973), artista espanhol, um dos fundadores do cubismo.

Mandala, em sânscrito, significa "círculo". Ela é vista como um espaço sagrado, um espaço protegido, que pode levar à grandes transformações. Carl Jung considera a mandala um símbolo da nossa psique, sendo que quanto mais nos aproximamos do centro, mais fundo mergulhamos no nosso inconsciente. O que há no centro? Aquilo que Jung chama de self, ou si mesmo, que simboliza o equilíbrio, a união de opostos... O contato com o inconsciente sempre nos permite voltar transformados, por isso, quando unimos este objetivo às técnicas artísticas (como o desenho e a pintura), ganhamos o poder de construir e reconstruir a nós mesmos de maneiras mais equilibradas e harmoniosas. Até mesmo o simples fato de desenhar livremente dentro de um círculo já ajuda a pessoa a conseguir ou manter um nível de equilíbrio maior. Talvez você se lembre de uma conversa bem parecida com esta aqui... Clique aqui para rever o primeiro artigo sobre mandalas . Lá falamos sobre o conceito de mandala, seu significado em diversas culturas e os benefícios que o trabalho com mandalas traz, restaurando e mantendo o equilíbrio psíquico. Por isso, desta vez podemos partir do ponto em que paramos no outro artigo. Hoje gostaria de falar sobre alguns aspectos das mandalas. Entre esses elementos, podemos destacar as formas e as cores. Hoje vamos falar sobre as cores e numa próxima ocasião, se houver interesse dos leitores posso escrever sobre as formas.

Mesmo que sinta certo mal estar enquanto desenha ou pinta a mandala,
não pare. São as emoções vindo para a consciência, e deixá-las vir é
fundamental para o autoconhecimento e busca do equilíbrio.
Imagem: Bia F. Carunchio
Quando se trabalha com desenhos, pinturas ou outras formas de artes com objetivos terapêuticos, a análise dos elementos é muito interessante, pois nos dá dados concretos sobre o estado da psique com a qual trabalhamos. Essas análises permite que o terapeuta perceba dados como o nível de equilíbrio psíquico, os tipos de conteúdos emocionais externalizados e reprimidos, a possível presença de transtornos mentais e desequilíbrios e dados da própria dinâmica interior do paciente, isto é, como ele tende a funcionar. Enquanto as formas nos trazem dados "formais" (como atitudes e comportamentos, motivações, etc.), as cores representam nossa esfera emocional, a forma como sentimos e percebemos o mundo que nos cerca - e o nosso próprio mundo interior. Quando utilizamos recursos artísticos terapeuticamente, tendemos a projetar nossos conteúdos interiores no trabalho que criamos. Assim, o primeiro passo é desenhar e colorir a sua mandala ou apenas colorir uma mandala já pronta, se preferir (no fim do artigo anterior tem algumas, e também na nossa página no Facebook - clique! - você pode imprimir e colorir). Depois da mandala pronta, coloquei abaixo algumas informações sobre cores, assim se pode ter uma ideia dos conteúdos emocionais que aparecem com mais ou com menos frequência na sua psique. Lembrando que este trabalho, em casa por conta própria, NÃO substitui consultas psicológicas ou com outros profissionais de saúde, e nem tratamentos ou medicamentos como calmantes, antidepressivos e outros. É apenas uma forma de se conhecer melhor, o que pode, sim, ajudar a manter o equilíbrio psíquico, mas para ter certeza mesmo da sua dinâmica psíquica e do movimento emocional, é preciso ver um profissional e fazer uma avaliação psicológica completa. Dados como a história de vida, a história clínica e os sintomas do paciente podem interferir nesses significados e mesmo no uso de certas cores. Vamos aos dados sobre as cores.

- Vermelho: grande sensibilidade a estímulos, resposta afetiva imediata, tendência à impulsividade. Agitação e dinamismo, podendo levar à ansiedade. Cor ligada à sexualidade. Pode indicar desejo de poder (com tendência à abusos). Competitividade e forte desejo de sucesso.

- Rosa: afetividade. Em adultos, pode indicar um momento em que a afetividade está mais vívida, como quando nos apaixonamos. Indica sinceridade e sensibilidade, valorização da estética. Companheirismo e alegria. Se aparecer em excesso no trabalho de um adulto, em especial o rosa pálido, pode indicar certa imaturidade emocional, uma pessoa um tanto teimosa e "birrenta", cheia de medos e inseguranças que vêm de sua imaturidade. Em crianças o excesso de rosa não tem esse peso, pois se espera um grau de maturidade compatível com a fase do desenvolvimento em que estão.

- Laranja: Liderança. Tendência à sedução, no sentido de ganhar o outro para si, conquistando-o seja afetivamente, seja no plano das ideias. É a cor do fogo, e tal como ele, o laranja representa calor humano e emoção. Em graus equilibrados, indica boa sociabilidade, dinamismo e expressão aberta dos sentimentos. Sensualidade. Boa atividade, ou seja, é a pessoa que não só fala, mas também faz; muito voltada para a realização e atividades práticas, gosta de "por as mãos na massa". Se o tom de alaranjado puxando para o ferrugem aparecer em excesso, pode indicar cansaço exacerbado e mesmo certo desinteresse. Laranja em excesso pode indicar concretude de pensamento, ou seja, certa dificuldade em ir além do esperado ao lidar com emoções e ideias.

- Amarelo: responde aos estímulos de maneira eficaz e tende a pensar na adequação social de suas respostas e comportamentos. Racionalidade e inteligência, boa atividade cerebral, boa comunicação e gosto por aprender coisas novas. Discernimento e certo grau de idealismo. Boa atenção e concentração. Otimismo, é a cor do sol! Pode existir dificuldade em lidar com as emoções, com tendência a racionalizá-las em lugar de apenas vivê-las. Facilidade de comunicação e para trabalhar com grupos, lidera e orienta as pessoas ao colocar-se como um igual. Se for um tom de amarelo pálido, pode indicar medo, ingenuidade e indecisão.

- Verde: sensibilidade, paciência e autenticidade, relações afetivas muito significativas. Pessoa que consegue absorver bem os afetos do mundo externos e vê-los à luz de sua própria dinâmica interna, isto é, dá o seu próprio sentido ao que absorve do mundo. É a cor da ecologia, no sentido literal e simbólico, de pensar sempre no bem de todos com quem convive. Responsabilidade e determinação. Altruísta, e deve ter cuidado para não deixar-se sempre em segundo plano, priorizando os outros. Em excesso, pode indicar ansiedade.

- Azul: É a cor do oceano, e denota profundidade maior ou menor (em termos de emoção, sensibilidade e intuição) de acordo com o tom. Paz interior, harmonia e autoconfiança. Pessoas que usam muito azul com frequência tendem a ver um sentido muito especial na vida, e com isso contagiam aqueles com quem convivem. Sinceridade, grande preocupação com o outro, manifestando isso através de cuidados e carinho. Já o azul bem pálido denota indecisão, uma pessoa muito tímida que interioriza demais os conteúdos externos e guarda tudo dentro de si, podendo se sobrecarregar, pois nem sempre podemos lidar com tudo sozinhos. Azul em excesso, pode indicar o controle racional das emoções, uma pessoa guiada por pensamentos como "posso, mas penso que não devo". 

- Violeta ou roxo: A espiritualidade tem um papel importante na visão de mundo dessa pessoa (não necessariamente uma religião, pode se mostrar na forma de valores éticos bastante fortes, altruísmo, etc.). Criatividade. Tende a olhar para o lado bom de tudo, transformando experiências de sofrimento em fatores positivos que ajudam em seu desenvolvimento. Equilíbrio, carisma e introversão. Pode indicar uma pessoa mais sonhadora. Também é interessante pensar que esta cor é formada pela mistura de vermelho e azul. Isso significa que pode haver certa tensão interna, como a presença de conflitos entre os impulsos afetivos e o autocontrole.

- Marrom: É a cor da terra, e isso se traduz em solidez, foco, alguém que se empenha em manter os pés no chão, a viver no mundo concreto (e se orgulha disso). Bom nível de organização. Ego forte, persistência. Pode se mostrar como uma pessoa muito formal e um tanto rígida, que dá pouco espaço à imaginação e às fantasias. Em excesso, pode indicar teimosia, resistência passiva (por exemplo, a criança que não faz birra, mas também não faz o que foi pedido). Pode indicar, quando usado em excesso, certo grau de melancolia e tendência a comportamentos de obsessividade. Nesses casos, há desequilíbrio da energia psíquica, que pode estar estagnada. É preciso fazê-la circular, aliviando um pouco a rigidez e o formalismo!

As cores neutras são interpretadas pela psicologia como fuga dos estímulos emocionais. Algumas vezes nosso mundo interno pode ser confuso e até assustador. Certa vez um paciente que vivia uma adolescência muito tumultuada expressou isso de forma sábia e sensível: "sei que colorido ficaria mais bonito, mas ainda não me sinto pronto para isso". Então, após algumas sessões de trabalho, ele finalmente trouxe as cores para sua mandala - e as emoções que sentia para sua realidade. É importante saber respeitar o próprio tempo e as próprias necessidades, sem forçar cores/emoções em campos em que ainda não nos sentimos confortáveis com elas. Seguem os significados das cores neutras:

- Preto: É a ausência de cor. Repressão de conteúdos emocionais. Pode indicar grandes desequilíbrios, com agressividade (em especial voltada para si mesmo, pois a emoção é reprimida: sintomas físicos e psíquicos, pesadelos e problemas de sono, medos, baixa autoestima, insegurança, tendência a comportamentos de risco como o abuso de drogas ou mesmo colocar-se repetidamente em situações de perigo, etc.). Pode indicar, ainda, um trauma não superado. Sentimentos de melancolia e tristeza reprimida, se for frequente, é possível cogitar um quadro depressivo. OBS - Falamos aqui de um uso excessivo de preto, e não de um detalhezinho, ok?

- Cinza: Cinza mais claro mostra que a pessoa está em transformação, possivelmente descobrindo novos talentos, habilidades ou características (um contato saudável com a própria sombra). Tons mais escuros indicam sentimento de solidão, desequilíbrio e certa confusão mental. Se for algo ocasional, pode indicar um período de cansaço ou estresse maiores que o habitual para a pessoa. Quem usa cinza em excesso (tons escuros, em especial) tende a "não perceber" os estímulos emocionais da sua realidade para não ter de reagir a eles. A pessoa tende a negar suas emoções e percepções, termos como "não sei" ou "não vi" são frequentes no discurso de pessoas com excesso de cinza em seu trabalho.

- Branco: Soma de todas as cores. Inconstância, vulnerabilidade, impulsividade, desestrutura. Pode indicar uma pessoa "apagada", insatisfeita, que está envolvendo-se numa busca por si mesmo. Se usada em detalhes que harmonizam com as demais cores, pode ser positivo, indicando uma pessoa sensível e ética, que aceita bem a diversidade e tende a ter um bom equilíbrio entre o mundo interno e externo. Se for muito excessivo, a postura interna da pessoa está passando por mudanças.

Quando penso sobre cores, gosto de considerar as expressões linguísticas que as envolvem, como "amarelou de medo", ficou "vermelho de raiva" e por aí vai. Se expressões assim existem, pode ter certeza que se refletem no nosso mundo interno e ajudam a construí-lo, pois interiorizamos o mundo através da linguagem. Como vimos, o significado das cores pode variar não apenas de acordo com os tons, mas também de acordo com cada história de vida e com a maneira como a cor é utilizada. É importante destacar que o nosso movimento emocional não é sempre igual, como o nome diz, é um movimento, está em constante mudança e transformação. A manutenção do equilíbrio psíquico tem por objetivo, entre outros fatores, garantir que esse movimento seja como uma dança fluida e harmoniosa, e não um movimento inconstante e desengonçado. Trabalhar com mandalas é um dos meios possíveis para alcançar e manter este equilíbrio mas, acima de qualquer trabalho ou forma de terapia, é preciso existir o trabalho interior consigo mesmo, ou seja, a pessoa precisa se envolver consigo mesma, com suas necessidades, conflitos e desejos, pois apenas assim ela será uma parte ativa de seu processo de transformação.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Mythos - Sekhmet: Tenho raiva!

Hoje vamos conversar sobre um mito egípcio, da deusa Sekhmet, atendendo ao pedido de duas amigas queridas. Sekhmet significa "a poderosa" e muitas vezes é associada ao lado destrutivo do sol. Reparem que enquanto muitos povos cultuam o sol como o deus que permite que a vida floresça, para os egípcios o sol tem dois lados: o poderoso Rá, e a cruel Sekhmet. Isso mostra a importância de conhecer o meio em que um povo vivia ou vive ao se estudar seus mitos: num lugar mais frio e escuro, o sol é sempre uma bênção e um presente dos deuses. Na aridez do deserto, o sol pode machucar e até matar, castigando a todos sem piedade. Assim, Sekhmet representa a ira e punição de Rá (o sol). Algumas vezes, Sekhmet é mostrada também como o lado contrário da deusa Hathor (amor e fertilidade), nestes casos o foco da deusa é a ira, a violência e a justiça a todo custo.

The lion goddess Sekhmet, obra de Leon Dubois, 1823.
Ela é representada como uma mulher com cabeça de leão, coberta por um véu. A Sekhmet são atribuídas características como força e coragem, além de ser implacável. Sua missão é proteger o deus Rá e o faraó. Conta-se que certa vez Rá estava muito aborrecido com alguns seres humanos, que cometiam maldades gratuitas. Então, querendo proteger os bons, ele criou a deusa Sekhmet, para que punisse os maus. E assim ela fez. A deusa aniquilava as pessoas más. O plano de Rá deu tão certo que Sekhmet sentia, de fato, raiva dos maus, e no calor da raiva, tentava aplacar sua sede por sangue. O problema começou porque a sede não passava, e Sekhmet logo perdeu o controle no auge de sua raiva, passou a matar também as pessoas de bem e até mesmo crianças. Desesperada, a humanidade pediu ajuda a Rá, mas ele não podia parar a deusa, pois ninguém tinha controle sobre ela. Nem sempre se pode controlar a raiva, mesmo quando se é um deus. Rá não podia deixar a humanidade ser destruída. Ele precisava resolver a situação de alguma forma, e para isso precisava acalmar a sede de Sekhmet por sangue. Então ele criou uma nova bebida, que tinha a cor bem parecida com o sangue. Em outra versão, é a humanidade que, no auge do desespero, cria essa bebida, tentando enganar a deusa. De todo modo, deram à nova bebida o nome de "vinho" e fizeram com que a deusa se fartasse com ela. Quando ela adormeceu, Rá a recolheu e salvou a humanidade.

Uma coisa interessante é que Sekhmet também era vista como patrona dos médicos, pois é aquela que traz a cura para todos os males. Ela combate o mal, e isso indica que os egípcios viam as dores e doenças como uma das formas que o mal podia se manifestar contra alguém. Indica, ainda, que o mal era visto de forma relativa. A agressividade fora de controle pode sim destruir a humanidade... por outro lado, é preciso ter certo grau saudável de agressividade, que permita banir o que nos machuca e nos afeta de forma ruim (sintomas, relações e comportamentos destrutivos, etc.).


Questões para reflexão:

1- Sekhmet mostra ousadia e coragem frente a um desafio. Entretanto, ela se perde em meio a sua raiva e quase destrói toda a humanidade. Você se lembra de já ter passado por algo semelhante? Como você lida com sua raiva, de forma destrutiva ou construtiva, ou ainda negando-a e fingindo não sentir nada? É importante ter claro que tipo de situação costuma te levar a sentir raiva e quais costumam ser suas reações, pois só assim você poderá lidar com isso.

2- Sekhmet não conseguiu por em prática seus planos como gostaria, pois Rá (o lado "bom" e construtivo do sol) a impediu de destruir a humanidade como gostaria. E você? Como coloca seus planos e projetos (mais construtivos que destruir a humanidade, espero) em prática? Vai até o fim ou desiste e perde o interesse justamente quando ia colher os frutos? Parte para a ação ou espera que outras pessoas tomem atitudes no seu lugar?

3- Sekhmet traz a destruição, mas também traz a cura, é patrona dos médicos e das artes curativas. Isso nos mostra que o bem e o mal estão nas intenções e, sobretudo, na forma de perceber de cada um. Quais estratégias você usa para "destruir" aquilo que te faz mal (dores, sintomas, situações, relacionamentos abusivos...)? Não pense no sentido de vingança ou de maldade, mas sim de proteção, de saber colocar os seus próprios limites. Isso também é uma manifestação (muito saudável, por sinal) da nossa agressividade.

4- Para terminar, vou ensinar um exercício de respiração para a raiva. Talvez você não se lembre dele no calor da situação, eu sei. Mas é interessante fazê-lo mesmo depois que estiver um pouco mais tranquilo, pois a raiva pode sim continuar guardada e este é um jeito de deixá-la sair de forma não destrutiva. Chamo o exercício de "respiração do dragão", e costumo ensinar para as crianças por ser bem simples. Mas é claro que pode ser feito por pessoas de qualquer faixa de idade. Respire fundo pelo nariz contando até 4. Prenda o ar contando até 4. Solte o ar pela boca, mas imagine que no lugar do ar, o que sai é fogo, como se fosse um dragão! E, com o fogo, sinta sair a sua raiva e tudo o que te faz mal. Repita o exercício quantas vezes precisar (3 a 5 vezes costuma estar bem).

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Matéria sobre relacionamentos amorosos e sexualidade na 3a idade

Hoje gostaria de dividir com vocês o texto da jornalista Joyce Moysés, que foi publicado ontem, dia 21 de julho de 2013 na Revista AT do jornal A Tribuna, em Santos. É uma matéria sobre relacionamentos amorosos e sexualidade na terceira idade, para a qual dei depoimento técnico enquanto psicóloga. Confira a matéria a seguir.


Prorrogação de amor e sexo

O amor está no ar para quem já experimentou e quer sentir de novo e de novo. Não há começo nem fim para a sexualidade e a troca de carinho, tampouco idade. Leia e comprove. 

Joyce Moysés 

Os avanços tecnológicos na Medicina surtiram efeitos fabulosos. E um deles foi oferecer a todos nós uma longevidade que até uma década atrás não imaginávamos ter. Você já parou para pensar que ganhou a chance de respirar por pelo menos mais 25 anos que as gerações passadas? Fato é que o crescente envelhecimento da população trouxe novos comportamentos, condutas e desejos. Como o de prolongar os prazeres do afeto e da sexualidade, contrariando a sentença antiga de que lugar de idoso é dentro de casa, afundado no sofá, dormindo com a tevê ligada. Vide a declaração recente da atriz Suzana Vieira, 70 anos, a apaixonada Pilar de Amor à Vida, de que, enquanto fizer mulheres que dão beijo na boca, estará satisfeita com seus personagens na TV. E o bafafá em torno do biquíni da Betty Faria? Há poucos meses, a atriz rebateu as críticas lembrando que não vai se envergonhar de ter envelhecido nem abafar seu prazer, alegria, humor.


Também passou da hora de liquidar com o mito de o sexo perde o encanto na terceira idade. Cerca de 50% das pessoas acima de 60 anos, de ambos os sexos, estão fazendo amor a cada 15 dias pelo menos, segundo pesquisa da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira, gestora do hospital paulistano Albert Einstein. “Aquelas que já tinham uma vida sexual satisfatória antes da menopausa, geralmente não sentem tanta diferença na diminuição do desejo”, afirma Carmen Janssen, sexóloga, palestrante e membro da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana. No seu projeto “Maturidade, Muito prazer”, cerca de 65% das mulheres na faixa dos 60 anos declararam que fazem sexo e que não pretendem abrir mão do prazer enquanto puderem, segundo a expert, que recebe em seu consultório várias mulheres maduras, geralmente viúvas ou separadas, em busca de um novo amor.


“O cérebro precisa de estímulos de prazer para gerar mais prazer”, avisa Aparecida Favoreto, psicóloga, terapeuta sexual e mestre em Saúde Coletiva. “Felizmente, em Santos há muitas atividades para pessoas da terceira idade promovidas pelas faculdades, prefeitura, ONGs”, diz ela, que faz sua parte coordenando uma roda de conversa sobre amor, sexo e relacionamento todo último sábado do mês na Cafeteria Ao Café, no bairro do Boqueirão, às 8 da noite (é gratuito, chama Café na Kama, e tanto jovens quanto idosos estão convidados!). “Mas o Brasil, no geral, ainda não acordou para a necessidade de um investimento social voltado para a terceira idade, com espaços de lazer, atividade física adequada, orientação sexual... É ridículo ir a um baile, pensar em arrumar namorado(a)? Nada disso. É possível chegar aos 80 anos com ótima disposição física e mental."


Ter uma visão mais moderna sobre a sexualidade na maturidade é fundamental, pois são vários os aspectos positivos, segundo Carmen Janssen. Os filhos já cresceram, não há perigo de gravidez nem pressa. E o casal pode se curtir com muito mais tranquilidade, principalmente se ambos tiverem saúde e se souberem se adaptar

às mudanças fisiológicas que foram surgindo ao longo dos anos. “É muito importante que o casal valorize o carinho e o erotismo. Não se trata de forçar o desejo, mas de criar uma atmosfera propícia para que ele se desenvolva”, continua a sexóloga Carmen, sugerindo a todos assistirem ao filme Um Divã para Dois, lançado em 2012.


Decidida a acabar com o tédio em seu casamento de 30 anos, a atriz Meryl Streep (63 anos) encarna uma dona de casa que faz sexo oral no escurinho do cinema, treina a técnica levando bananas para o banheiro e decide procurar um famoso terapeuta de casal. Para isso, convence o marido - um contador que gruda os olhos na tevê, dorme no quarto de hóspedes e deixou há muito tempo de dar atenção à mulher. Nas sessões um tanto incômodas, os dois têm de falar de suas fantasias e fazer exercícios de resgate do toque (como um massagear o corpo do outro)... Numa entrevista coletiva, Streep declarou: "Este filme é uma oportunidade para falar intimamente de coisas que têm importância para gente da nossa idade de uma forma como não se vê no cinema.”


Como sexualidade é uma expressão pessoal, algo que está em todo o nosso ser, e não apenas o ato sexual, não tem hora para começar nem terminar. Portanto, não precisa ir embora com a menopausa feminina e a andropausa masculina. Nas palavras de Beatriz F. Carunchio, psicóloga e neuropsicóloga, mestre em Ciências da Religião pela PUC-SP: “Ao mesmo tempo em que nossa sociedade cobra que todos demonstrem ter uma rotina entre os lençóis bastante intensa, é preconceituosa quanto à orientação sexual, práticas na cama e até mesmo fases da vida. Na terceira idade, desfrutar da sexualidade e de relacionamentos amorosos, além de ajudar a manter a saúde física e psíquica, cultiva o sentimento de não estarmos sós, de que temos alguém com quem dividir as belezas e os conflitos do dia a dia”.



 Novos corpos e papéis

Verdade que fatores como a aposentadoria, as mudanças do corpo e a saída dos filhos de casa podem mexer com a estrutura do casal. “Conforme amadurecemos, ganhamos novos papéis e perdemos alguns. É comum que as pessoas demorem um pouquinho para se acostumar, da mesma forma que também pode ser difícil para o(a) companheiro(a) reconhecer a mudança dos papeis do outro, continuando a exigir as atitudes e os comportamentos de antes”, explica Beatriz, aconselhando como ponto crucial a prática da conversa sincera, em que o casal fala e escuta com liberdade e respeito as ideias e os sentimentos do outro. “Não é só gritar as mágoas. É estar atento às palavras que são ditas, pois são sempre carregadas de sentido e de história. E, assim, o casal se conhece e se reconhece a cada dia, mantendo a cumplicidade, o movimento e tudo mais que

os unem.”


Carmen Janssen complementa: com orientação médica, exercícios físicos mantêm o fortalecimento dos músculos e dos ossos, além de proporcionar a saúde geral e trazer mais disposição física e mental. E Aparecida Favoreto ressalta que resgatar o romantismo e o espírito de diversão de quando eram jovens também é salutar: “Que tal o casal se arrumar para sair, passear pela orla de mãos dadas, trocar beijos na matinê do cinema, dançar juntinho? Também indico aos meus pacientes exercícios como um dar banho no outro, começando por ensaboar as costas. Mas aviso: intimidade não é tirar a roupa, é abrir a alma. Assim como oriento a cuidar com carinho da própria individualidade. Para alguns, a vida às vezes parece tão sem prazer! É preciso levantar o astral, cuidar do psicológico para sentir-se bem na própria pele. Porque, aí, a pessoa consegue estar bem com o outro, tem brilho, encantos, energia”.


Beatriz lembra-se de ter atendido uma mulher na faixa dos 55 anos, que tinha muitos problemas no relacionamento com o marido, incluindo na área da sexualidade. Apesar de ouvir que precisaria transformar a si mesma (seus comportamentos, as palavras que usava e o jeito de olhar para a vida), ela insistia em esperar que uma atitude diferente partisse do outro. “Em casos assim, costumo incentivar antes de tudo que a pessoa se conheça. Sugeri até usar um espelhinho para ver suas partes íntimas, mas ela reagiu com susto. Contou que, até mesmo na hora do banho, costumava tirar a roupa de costas para o espelho para não olhar para o seu corpo. Difícil querer um relacionamento gostoso com alguém quando a pessoa não se sente à vontade nem com ela mesma - e não quer mudar isso.”



Quando a pessoa se volta para o seu íntimo, se envolve com ela mesma e com a realidade em que vive, a situação muda. “Como no caso de uma mulher que, aos 83 anos, procurou ajuda, pois sentia muitas dores e caminhava para um quadro depressivo sério”, exemplifica a neuropsicóloga. Viúva por duas vezes, há muitos anos havia desistido de tentar de novo, alegando não ser mais uma mocinha. Mas, no fundo, sentia demais a falta de um relacionamento amoroso, de um companheiro. Conforme trabalhamos sua história, seus amores, suas perdas... e o processo terapêutico evoluiu, as dores e a depressão melhoraram, a paciente sentia-se mais revigorada diante da vida e decidida a encontrar o terceiro marido! Alguns meses depois, ela se casou com um homem na faixa etária dela, também viúvo, também com o desejo de encontrar uma companheira. E são felizes

juntos”, finaliza Beatriz.


Matéria publicada no Jornal A Tribuna, no dia (21/07/2013), em Santos, SP.


Joyce Moysés é jornalista e escreve semanalmente na Revista AT, além de dar palestras sobre as transformações trazidas pelas mulheres no mercado de trabalho, sociedade e cultura.

Email da autora - joyce@joycemoyses.com.br

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Ágora - Problemas financeiros e limites

Oi Bia, tudo bem? Me chamo Adriele, moro no Rio e sou professora em uma pré-escola. Gosto muito do meu trabalho, mesmo sendo cansativo adoro cuidar de crianças e acompanhar as novas descobertas que fazem a cada dia. Mas o problema é o salário. Não é que eu ganhe tão mal assim, pois como a escola é de alto padrão, o salário dos professores é melhor... acho que na verdade o problema sou eu, gasto demais com coisas que na verdade não preciso. Um cafezinho, umas besteiras no supermercado, algumas revistas, compras que vou parcelando e de repente perdi o controle e gastei mais do que podia. Tenho muito problema para pagar os cartões de crédito, preciso recorrer a empréstimos de familiares e amigos com frequência e ja até perdi amizade com pessoas que gostava por causa disso. Meu noivo tenta me ajudar, mas ele é tão bonzinho, não tem coragem de me dizer os nãos que algumas vezes sei que preciso escutar. Como posso me organizar melhor? Como controlar esses gastos quando ninguém me diz não? Me sinto muito infeliz e deprimida e tambem ansiosa com essa situação. Muito obrigada. bjs
Adriele S. H. - Rio de Janeiro

Oi Adriele. 
Que situação mais desagradável. Problemas financeiros deixam mesmo a gente se sentindo insegura e ansiosa, pois no mundo em que vivemos é bem complicado conviver com dívidas.

Vamos aos poucos. Primeiro, precisamos conversar sobre limites. Você diz que seu noivo tenta ajudar mas não diz os "nãos" que você mesma já sabe que precisa ouvir. Quando somos crianças, a função de colocar limites em nós é dos adultos que tomam conta da gente. Conforme crescemos, vamos ganhando o direito de decidir por nós mesmos os nossos comportamentos e atitudes, o caminho que desejamos seguir na vida. Mas junto com esse direito, vem o dever, as responsabilidades. Toda escolha, mesmo que bem simplezinha, tem suas consequências, boas e/ou ruins. E se tivemos o direito de escolher, temos o dever de lidar com essas consequências das nossas escolhas. Desde criança, somos incentivados a projetar a autoridade em figuras de poder (pais, professores, instituições, polícia, leis, Estado...) ao invés de percebê-la dentro de nós. Mas a maior autoridade que precisamos seguir somos nós mesmos. O poder sobre a nossa vida está em nós, e junto com esse poder vêm as responsabilidades, entre elas, ter de dizer não a nós mesmos, algumas vezes. Claro que em situações difíceis sempre se pode pedir a ajuda de pessoas próximas como seu noivo, sua família e amigos, abrir a situação e pedir uma ajuda que não seja um empréstimo, mas sim a ajuda de se organizar e de dizer "não" aos gastos desnecessários. Mas é fundamental que você encontre essa autoridade dentro de si, não apenas pensando nos problemas financeiros, mas na vida e nas escolhas de forma geral.

Agora, sobre a questão financeira. É fundamental existir organização, pois só assim se pode perceber o todo da sua realidade e mexer nos aspectos que precisam de mudança. Algumas sugestões:
- Pare agora de fazer empréstimos. Não adianta nada resolver uma dívida arrumando outra nova.
- Cancele os cartões de crédito. Eu sei, são super práticos e é mais seguro pagar no cartão do que com dinheiro. Mas você pode se virar apenas com um, ao menos neste momento de maior dificuldade. Além de baixar os gastos, com apenas um cartão você controla melhor o quanto já gastou e o quanto ainda pode gastar.
- Sei que parece óbvio mas... Não gaste mais do que ganha. Mesmo que for receber o salário amanhã. Não comece o mês já com dívidas.
- Organize um livro de fluxo de caixa. É bem simples, você pode usar um caderninho (ou um arquivo no computador). Coloque a data e anote todos os recebimentos do dia e depois todos os gastos. No fim, coloque o valor total gasto naquele dia (mesmo com um cafezinho) e o total recebido. Além de mapear os seus gastos (assim sabe onde exatamente você se perde e o que poderia ser cortado), dá para perceber bem o dinheiro que temos disponível ainda.
- Especialmente para quem vive em grandes cidades, como é o seu caso, gasta mais pelo custo de vida ser maior. A boa notícia é que as cidades maiores oferecem diversas alternativas de serviços e diversão gratuitas, seja em ONGs, projetos sociais, universidades, SESCs, centros culturais, instituições públicas... Que tal conhecê-las e recorrer a elas? Existem sim muitos trabalhos gratuitos de qualidade.
- Neste momento, diga não e corte todos os gastos desnecessários. Cafezinhos, lanches (você pode levar seu lanche de casa, que além de ser uma opção mais barata, é mais saudável!), as tais "besteiras" no supermercado, evitar ligações pelo celular... Até que a situação mude, vamos nos ater aos gastos realmente necessários. E mesmo quando a situação mudar, é importante avaliar com cuidado antes de gastar. Preciso realmente deste produto ou estou apenas tentando compensar minhas frustrações?

Para terminar, quero falar sobre o sentimento de depressão. Este é um termo que caiu no popular. É normal nos sentirmos tristes, ansiosos ou frustrados nos momentos difíceis da vida, isso não significa que estejamos deprimidas ou estressadas... Depressão é doença! Você, na mensagem que me enviou, não apresenta o discurso de uma pessoa doente: tem planos e consegue ver a alegria e a beleza na vida apesar das dificuldades. Portanto, saiba que numa situação como a sua essa insegurança, esse tipo de sentimento é muito esperado... estranho seria passar por problemas e não sentir nada! O desconforto que você sente é um sinal que sua psique dá de que as coisas precisam mudar. Em atitudes concretas como as que sugeri, pois a questão da realidade externa precisa ser resolvida. Mas também precisa mudar dentro de você, Adriele. Precisa aprender a dizer não, até para si mesma, sem medo de desenvolver sua autoridade e colocar limites. Quando colocamos limites saudáveis, nos damos contornos, nos damos forma - conhecemos quem realmente somos. Precisa repensar seus valores e ir em busca daquilo que acredita que te fará feliz ao invés de se recompensar pelos dissabores e contratempos com gastos, é preciso ir ao encontro daquilo que faz sentido para você - e acredito que seja muito mais do que gastos com revistas e "besteiras".

beijo
Bia


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quinta-feira, 18 de julho de 2013

Aproveitar a vida é expressar gratidão

"De nada vale possuir uma coisa sem desfrutá-la." - Esopo, escritor da Grécia Antiga (620 a.C. - 564 a.C.)

Acredito que todos aqui já repararam em como o "conseguir" é valorizado no mundo de hoje. Conseguir um emprego melhor, uma promoção, conseguir um namorado(a), conseguir melhorar em alguma habilidade, conseguir fazer uma viagem, conseguir entrar na faculdade, conseguir comprar algo que queira... O que tudo isso tem em comum? Fácil! Todos esses desejos fazem parte de uma realidade cujo foco é acumular coisas e situações. Ah, Bia, mas qual o problema? Quem não gosta de conseguir algo que quer muito? Problema nenhum. Longe de mim achar que existe um problema aí, pois são as nossas buscas que nos movem na caminhada pela vida. O único problema que percebo é que existem pessoas cujo foco é apenas o conseguir, e nunca o desfrutar.

Pirâmide de Maslow.
Convido você a observar a imagem acima, da chamada Pirâmide de Maslow. Ela foi proposta por um psicólogo americano chamado Abraham Maslow (1908-1970), e tinha por objetivo criar uma hierarquia dos desejos e necessidades humanas. Assim, para Maslow só subimos para o próximo degrau da pirâmide depois de esgotar o anterior. Hoje em dia já não se usa essa teoria na psicologia, pois compreendemos que podemos estar realizados em algumas áreas da vida e em outras não, sem que exista uma hierarquia rígida por trás disso; afinal as pessoas, junto com seus desejos e necessidades, são diferentes umas das outras (mas esta teoria é bastante popular ainda no mundo empresarial, sobretudo na área de Controle de Qualidade Total e, em alguns casos, no setor de recursos humanos). Mesmo assim, eu gostaria que você observasse a figura com atenção. Gostaria de pensar nas diferenças entre necessidade, vontade e desejo. Minhas necessidades, como as suas, são sempre fisiológicas. Alimento, sono, água, respiração, excreção, sexo... enfim, o necessário é manter o corpo em funcionamento. A vontade é um anseio consciente, marcado pela nossa personalidade, história de vida e meio cultural. Se tenho fome, a necessidade é comida. Mas é a minha história, cultura e aspectos pessoais que me levam a ter fome de macarronada ao invés de comida oriental, por exemplo. Já o desejo pertence ao inconsciente, o que significa que dificilmente teremos consciência dele. E mais! O desejo pode até mesmo ir contra as nossas vontades conscientes! Um caso bastante comum é o da mulher que quer um companheiro, mas sempre se aproxima de homens abusivos, violentos ou destrutivos de alguma forma. Ou a pessoa que tem muita vontade de subir na carreira, mas sempre se sabota. O desejo (contra a vontade) está em ação. Como escapar disso? Trazendo os desejos para a consciência, pois assim é que podemos mudar. Afinal, ninguém pode mudar aquilo que não conhece. E para isso é preciso autoconhecimento e também reflexão acerca da nossa história, das nossas atitudes...

Mas voltando ao tema principal do artigo, fiz essa diferenciação entre necessidade, vontade e desejo porque sei que nossa tendência é pensar que as três palavras têm o mesmo significado e, como vimos, não têm. O foco da vida de boa parte das pessoas hoje é conseguir coisas. Conquistar, como diriam os antigos romanos. O problema começa quando aquilo que se almeja conquistar não partiu de nós. Muitas vezes vem dos outros, daquilo que eles nos levam a acreditar que seria melhor para nós. E, em muitos casos, "eles" são as campanhas publicitárias e o discurso vazio passado em alguns meios... É preciso sempre consultar o nosso mundo interior, pois só agimos com maior liberdade quando as nossas buscas e conquistas são, de fato, nossas.

Além das nossas conquistas, a vida nos dá muitos presentes, grandes e
mesmo nas pequenas coisas. Viver os bons momentos, apreciar as flores
e tomar um novo fôlego com a brisa da primavera também são formas de
demonstrar a nossa gratidão por estarmos aqui.
E a gratidão? A gratidão vem quando usufruímos aquilo que conquistamos. Se o foco for somente a conquista, não resta tempo para aproveitar o sucesso que tivemos. Tão logo conquistamos e já nos lançamos a outras buscas, que geralmente exigem ainda mais de nós do que as anteriores. O que foi conquistado se resume a um troféu na estante... e a gratidão? Como ser grata a algo que tenho/fiz mas ao mesmo tempo não fiz (apenas conquistei, não vivenciei)? É muito difícil. Sem a gratidão, a vida se torna vazia de sentido. É apenas uma corrida desenfreada quando ela pode ser um lindo passeio.

Aproveitar nosso sucesso, e mesmo os "presentes" que a vida nos dá, nos leva a sentir gratidão. Sim, a vida nos dá presentes. Conquistas que não são exatamente nossas, mas que transformam nossa vida para melhor... Ou mesmo os acasos felizes, as pessoas especiais que entram na nossa vida, as ideias maravilhosas que surgem num momento de sossego... Quando nos permitimos vivenciar as conquistas ou os "presentes da vida", demonstramos gratidão. Como comentei em outro artigo (Gratidão, clique aqui para ver), agradecer significa "dar as boas vindas". E o melhor jeito de dar as boas vindas ao sucesso e aos bons momentos é vivê-los de verdade. Participar desses momentos felizes, se envolver e não apenas passar pelas situações como se a vida nem sequer fosse nossa... Quando falamos em buscas e conquistas, falamos em escolhas. E nossa escolha só é livre quando sabemos lidar com a responsabilidade e com as consequências que trazem para nossa vida. Quase sempre se pensa em lidar com as consequências ruins, resolver os problemas... Gente, sucesso também é a consequência de uma escolha que fizemos! Um desafio para esta semana: dar-se ao desfrute. Desfrute de suas conquistas e desfrute dos presentes que ganhou da vida. Faça a busca ter valido a pena. Isso é ser grato.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Mythos - Oxum: a cura através do amor

Atendendo a alguns pedidos, hoje vamos trabalhar com uma deusa da mitologia africana, Oxum. Essa deusa também é muito cultuada no Brasil, em religiões de origem africana como o candomblé e em religiões com influência de elementos afro, como a umbanda. É cultuada ainda em outros países da América, como Cuba e Haiti. Quando os europeus trouxeram povos africanos para a América como escravos, eles trouxeram uma rica bagagem cultural, da qual fazia parte um sistema religioso baseado no culto aos Orixás, divindades da natureza que, juntas, garantiam a harmonia do mundo.


Oxum é uma orixá relacionada ao amor. Acredito que os leitores já devem ter notado quantas deusas e deuses são relacionados ao amor. Afrodite, Eros/Cupido, Hathor... É interessante perceber que o amor não é sempre o mesmo, tem diferentes faces, existem muitas formas de amar. Oxum está relacionada tanto ao amor materno (sob a proteção desta orixá ficam as mulheres grávidas e as crianças que ainda não sabem falar, bem como a ela se relacionam a fertilidade, o parto e a maternidade), mas também ao amor familiar (na África, as escolhidas de Oxum costumavam atuar como conselheiras em casos de conflitos familiares e/ou doenças) e ao amor apaixonado, pois esta orixá é sempre retratada como uma mulher muito bonita e sedutora, rege a beleza e a intimidade. Além do amor, Oxum é a orixá das águas doces. Na África, há um grande rio que leva seu nome, sendo que a orixá e o rio são a mesma entidade. É ainda relacionada ao ouro e às riquezas, sejam elas materiais ou mesmo a riqueza emocional de ter uma vida plena de amor.

Conta o mito que Oxum desejava Xangô, orixá dos raios e trovões. Disse então à Obá, orixá guerreira das águas revoltas e esposa de Xangô, que ele preferia a comida dela, Oxum, a de Obá. A esposa então ficou ávida para saber qual o segredo culinário da linda jovem. Oxum pregou-lhe uma peça: disse que colocava partes de seu corpo na comida. Obá foi cozinhar para o marido e cortou a própria orelha, misturando-a ao prato que preparava. Xangô ficou possesso! Não apenas o sabor era horrível como a esposa estava mutilada. Quando Oxum apareceu para espiar a situação do casal, Obá a atacou. E no embate, ambas se transformaram em rios. Conta-se que até hoje, no ponto em que o Rio Obá encontra o Rio Oxum as águas são muito revoltas e não se misturam.

Conta outro mito que certa vez uma linda princesa se afogou nas águas do Rio Oxum. Todos ficaram muito tristes com a morte da jovem, mas tiveram uma grande surpresa. Logo após o enterro, a princesa reapareceu, coberta de jóias de ouro e com roupas magníficas, presentes de Oxum. E ela reviveu transformada.


Questões para reflexão:

1- Oxum é uma divindade que cruzou um oceano. Esse símbolo, de deixar a terra natal e se estabelecer em outra é muito forte e traz profundas transformações: a Oxum que se cultua na África é diferente da Oxum que se cultua no Brasil, por exemplo. Claro que a base é a mesma, mas pequenas mudanças aconteceram, como se a orixá se adaptasse à sua nova terra e seus filhos adaptassem os cultos à nova realidade. Pensando nisso, gostaria de propor a você que pesquisasse a história da sua família. Oxum é uma orixá muito ligada à família. De onde vem sua família? O que você sabe sobre sua terra ancestral e a cultura de lá (práticas, crenças, mitos, costumes, história...)? Você mantém essas práticas hoje em dia? Por que sim ou por que não? Caso mantenha, quais alterações a prática original precisou sofrer para se adaptar ao novo contexto? Nesta pesquisa, você pode falar com membros mais velhos da sua família e/ou recorrer a documentos.

2- Vamos construir uma linha do tempo! Você vai precisar de um pedaço grande de papel (papel craft é o ideal, se não tiver, pode ser cartolina), algumas canetinhas e material para desenho. Use as informações que você conseguiu na atividade anterior e construa a linha do tempo da sua família. Você pode incluir eventos básicos (nascimentos, mortes, casamentos, separações, imigrações...) e também eventos complementares, que dão o colorido à história da família (outros eventos, como viagens, formaturas, festas, mudanças de casa, de trabalho, doenças, perdas, ganhos...). Quanto mais eventos, melhor. A ideia é que, ao construir a linha, a pessoa se aproprie da própria história (no caso, da história da família). Você pode colar fotos, ilustrar com desenhos, enfim, é uma atividade totalmente livre. Aliás, se membros da sua família quiserem participar desta atividade, a linha pode ser construída por todos juntos, isso costuma ser bastante proveitoso.

3- Oxum é muito ligada ao corpo e à beleza. Para este exercício, você vai precisar de um espelho (melhor se for grande) e privacidade. Tire suas roupas e se admire no espelho. Sem vergonha e sem julgamentos de feio/bonito. Apenas olhe para o seu corpo. Olhe para cada pequena parte isolada, começando pelos pés e terminando no rosto. Cada pessoa é única. Cada pessoa é linda do jeito que é. Qual é sua beleza? Onde ela mora? Você a conhece? Usa a sua beleza a seu favor ou a esconde?

4- Olhando a fundo o significado de Oxum, podemos pensar na cura através do amor. No último mito, após se afogar no Rio Oxum, a princesa retorna coberta de ouro (metal ligado simbolicamente ao sagrado e às transformações profundas) e com lindas roupas (uma nova roupagem, nova forma de perceber a realidade). Convido você a entrar no rio. Sente-se confortavelmente em algum lugar silencioso onde não será interrompido. Veja-se na margem de um rio refrescante e convidativo: o Rio Oxum. Tire suas roupas e entre no rio. Sinta a água envolver seu corpo... como é a sensação? A água é gelada ou menos fria? Vá mais fundo, apenas a sua cabeça está para fora do rio. As águas do Rio Oxum passam por você e carregam com elas tudo aquilo que já não tem mais lugar na sua vida: sintomas, medos, crenças limitadoras, situações, emoções, lembranças... Permita que as águas sábias te limpem, veja essas coisas deixando seu corpo na forma de um líquido escuro. Respire fundo e afunde a cabeça no Rio Oxum enquanto prende a respiração. Quando não aguentar mais, volte à superfície e respire fundo, como a criança que respira pela primeira vez. Você se transformou. Vire-se para a margem e caminhe em direção a ela, transformado e coberto das jóias do ouro de Oxum. As suas jóias são suas referências de felicidade, sucesso e boa saúde. Podem ser ainda características que você talvez precise, como autoconfiança, melhorar a autoestima, falar mais o que pensa, aprender a dizer "não", etc. Enquanto se seca ao sol, agradeça às águas pelo presente e pela ajuda. Veja como as jóias brilham. Elas são suas e pode usá-las sempre que precisar. Enquanto o sol te seca, sua pele absorve suas "jóias". Agora elas são parte de você.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Cultive os seus talentos

"Para fazer uma obra de arte não basta ter talento, não basta ter força, é preciso também viver um grande amor." - Wolfgang Amadeus Mozart, compositor austríaco (1756 - 1791)

Já conversamos outras vezes sobre talentos (no artigo Não transforme suas qualidades em problemas, clique aqui para ver), mas este é um tema que sempre é bom falar um pouquinho mais. Todos nós temos talentos. Temos nossas qualidades. Quando começo este tipo de assunto, quase sempre as pessoas tendem a pensar na vida profissional ou então em talentos artísticos. Mas não é isso. Ou melhor, não é só isso. Talentos podem aparecer em diferentes áreas, seja no lado profissional (os administradores brilhantes, a pessoa ótima em cálculos, alguém que domina uma técnica com precisão espantosa...) e artístico (desenhistas, compositores, músicos, escultores...), mas também no campo das relações humanas (pessoas muito empáticas, que conseguem se colocar no lugar do outro e perceber as coisas do ponto de vista dele com facilidade, por exemplo, pessoas que conseguem resolver e gerenciar conflitos...), na comunicação (pessoas que falam bem em público, por exemplo, passando informações de maneira clara e fácil de entender), nos esportes...

São os talentos que dão um colorido especial ao nosso mundo, pois nos permitem
ser quem somos e ter uma autoestima saudável.
O primeiro ponto é abrir os olhos. Conheça os seus talentos. Preste atenção ao seu dia a dia, perceba em que você se destaca. Ou então, como diz um amigo meu, perceba o que te faz sorrir. Ah, e perceba também em que tipos de atividade e de situação você realmente não se dá muito bem. Provavelmente os seus talentos são opostos a essas atividades (quem tem dificuldade em manter a atenção, geralmente pode ser uma pessoa bem criativa, por exemplo, da mesma forma que pessoas com dificuldades em atividades criativas podem ter um grande talento em atividades que exijam grande atenção e concentração).

O passo seguinte é criar um cenário. Crie uma realidade favorável aos seus talentos! Se sou uma pessoa criativa, preciso abrir tempo e espaço na minha vida para dar vazão a essa criatividade, seja escrevendo, desenhando ou inventando a moda que me vier na mente! Se meu maior talento estiver no campo das relações humanas, preciso vivenciar essas relações! Preciso conversar com pessoas, ou talvez eu queira me sentar numa mesinha de um café e observar. Se o talento for organizar, a pessoa se sentirá realizada criando formas de organização que facilite sua vida e a de outras pessoas. E por aí vai. Aliás, vá além. Crie um espaço físico para seu talento. Adora desenhar? Tenha alguns lápis de cor em casa, crie um cantinho (ainda que temporário) para esta atividade. Seu talento é estudar e aprender cada vez mais? Crie um ambiente ideal para isso, com boa luminosidade, bem arejado e silencioso (outra vez, pode ser a mesa da cozinha, mas no momento em que for desempenhar algo especial para você, crie este ambiente, este cenário). Imagine só a pessoa criativa do primeiro exemplo que é impedida de colocar seu talento em prática. Porque a vida é corrida. O trabalho dela talvez seja mais mecânico e não tenha relação com a criatividade. E chega em casa tão cansada que não consegue usar esse talento. O que acontece com ela? Num primeiro momento, ela pode ter sintomas emocionais. Fica mais triste, mais irritada, se torna uma pessoa tensa. Se não der atenção à isso e mudar seu estilo de vida, logo os sinais chegarão ao corpo: pode manifestar dores e sintomas, geralmente bem simbólicos!

Mesmo que o seu talento (como o meu) não esteja no campo da organização, neste momento teremos que organizar! Reestruturar nossas rotinas, cortando o que não faz sentido e abrindo espaço para o que realmente importa. Permita-se um tempo para si e para o que gosta de fazer. Mesmo que seja um tempinho na tarde do domingo... É importante ter esse respiro.

Ah, mas eu não tenho talentos! Procurei por eles como você sugeriu e minha vida é "normal", não tenho talentos! Está olhando para os lugares errados. Quando algum conteúdo nosso não se manifesta na nossa consciência, na certa esse conteúdo está no inconsciente. Num arquétipo chamado sombra, junto com os lados nossos que não admitimos ter e/ou que nunca tivemos a oportunidade de desenvolver (para saber mais sobre isso, veja o artigo Os maiores tesouros estão na sombra, clicando aqui!). Talentos e habilidades podem sim estar na sombra. Só é preciso trazê-los para a luz, pois a forma ideal de se lidar com os conteúdos da sombra é integrá-los à consciência, isto é, conhecê-los e permitir que se mostrem. Como fazemos isso? Um bom início é estar mais atento aos sonhos e fantasias, a sombra se expressa bastante nesses conteúdos. Outro bom caminho é a experimentação. Ninguém jamais saberá se é bom com desenhos se não se permitir desenhar, por exemplo. Ninguém descobre se ensina bem se não se aventurar nessa área.

Algumas culturas, como a Romana e a Japonesa, acreditavam que uma vez desembainhada, a espada precisava ser usada. Assim são nossos talentos. Uma vez que tomamos consciência deles, precisam ser usados. Exigem aparecer no nosso dia a dia, nas nossas atividades e atitudes. Quando reprimimos os talentos, seja pelo motivo que for (de baixa autoestima a medo de se destacar), eles voltam a nos assombrar através da sombra! Algumas pessoas preferem reprimir sua sombra ao invés de lidar com ela... e geralmente é aí que os conflitos entram em evidência.

Aposte na sua felicidade. Confie nos seus talentos. Eles são uma parte importante de você. Aquela parte que te permite fazer algo de coração e fazer isso sorrindo, a parte sua que faz algo que ama e assim "vive um grande amor", como disse Mozart. Não deixe que seus talentos morram ou pior, que se estagnem e passem a formar um tipo de "matéria morta" lá no fundo da nossa psique, junto com os sonhos em que não acreditamos mais. Dê uma chance a si mesmo e à sua felicidade!

terça-feira, 9 de julho de 2013

Mythos - Kinich Ahau: trazer a sombra para a luz

Como algumas pessoas já sabem, hoje temos um mito da civilização Maia. O povo maia foi um povo pré-colombiano que vivia na América Central. Era uma civilização bem desenvolvida: estudavam o céu e os fenômenos da natureza (prevendo fenômenos como terremotos com precisão espantosa), tinham seu próprio sistema de calendário e de marcação do tempo (o que significa que estudavam e valorizavam a história), possuíam linguagem escrita e tinham até mesmo um sistema de água encanada! Ao contrário de diversos povos nativos, os maias não eram nômades, eram fixos no espaço em que viviam, onde construíam cidades com praças, templos e diversos tipos de edifícios com arquitetura característica, para os mais diversos fins. Os descendentes dos maias sobrevivem até hoje, e alguns de seus idiomas ainda são falados em certas regiões.

O mito que eu gostaria de contar é o de Kinich Ahau. O domínio deste deus é bastante vasto: é o deus do sol, da música e da poesia, mas também das doenças e da finitude da vida (lembrem-se que o sol nasce e também se põe). Geralmente era representado como um homem maduro ou já idoso, com um espiral saindo da ponta de seu nariz e, algumas vezes, com barba. A jade era uma pedra muito utilizada em suas representações, bem como cores solares (amarelo, vermelho, laranja...). Kinich Ahau era ainda associado aos guerreiros maias (fortes e implacáveis como o sol quente da América Central) e aos governantes e líderes, que tinham uma ligação especial com este deus (note que ter essa ligação é bem diferente de ser o representante do deus na terra ou uma personificação, como muitos povos antigos consideravam seus líderes).

Kinich Ahau é um deus que considero muito interessante pelo seu poder de mudança. Durante o dia, ele é o sol (para os maias, a mesma palavra era usada para dizer tanto "sol" quanto "dia"). À noite, se transforma em jaguar e vaga pela escuridão. Ele era o próprio sol, por isso, se não estava no céu, na certa estaria em outro lugar - envolvido em outras atividades. É interessante perceber que o jaguar é um dos principais predadores da região em que viviam os maias. E fica o mistério no ar: por que o sol, aquele que governa e permite que a vida se mantenha, à noite, nas sombras, se transforma no maior dos predadores? Até mesmo os deuses têm sua sombra! É nas sombras do nosso inconsciente que se escondem lados nossos que não se mostram à consciência. Como são esses lados? Como seria viver com eles? Só saberemos se fizermos tal como Kinich Ahau e nos permitirmos vagar pelas sombras de tempos em tempos!


Questões para reflexão:

1- Como o mito sugere, é saudável dar tempo e espaço para que a sombra se revele. Você pode fazer isso através da arte, do contato com os sonhos ou da análise simbólica de seus comportamentos e/ou sintomas. Experimente.

2- Todos temos outro lado. Ninguém é apenas o que demonstra ou o que acredita ser. Carl Jung chamava de "sombra" esse nosso lado desconhecido. A sombra sempre aparece de alguma forma. É importante trazê-la para a luz, para a consciência. Apesar dela nunca se tornar completamente consciente, é nesse processo de descoberta que descobrimos quem realmente somos. Algumas pessoas entendem que na nossa sombra está o nosso lado "ruim" e isso não é verdade. Pelo menos não é completamente verdade. Lá também estão características e habilidades que não tivemos a chance de desenvolver. Por exemplo, uma pessoa muito insegura na certa tem um lado bastante confiante na sombra - e pode se beneficiar muito por trazê-la para a luz! Qual é o seu outro lado? O que se esconde ou se ofusca por trás das luzes de sua consciência?

3- Kinich Ahau é o sol que traz luz e calor, seguindo uma trilha certa pelo céu a cada dia; mas é também um jaguar, predador que vaga pelas sombras da noite e por caminhos incertos. Ele transita entre diferentes mundos e, quando isso acontece, se transforma. Por quais mundos você transita? Que nova "forma" (papel, função, cargo, características, etc.) assume em cada um desses "mundos"?

4- Sente-se confortavelmente: vamos meditar! Feche os olhos e respire profundamente. Sinta o ar entrar e preencher o seu corpo. O ar é purificador. Você pode imaginar que o ar entra com a cor azul, que se espalha por cada parte do seu corpo. Respire fundo, concentrando-se na respiração (sensação e som) e na cor azul que entra em seu corpo e te preenche. Imagine que, ao soltar o ar, partes de sua sombra, características suas despertam nas profundezas da psique vêm à luz de sua consciência, trazidas pelo ar que sai. O que você vê, ouve ou percebe? O que chega até você com o ar que entra e sai? De que cor o ar sai? O que emerge com ele? Faça essa respiração por alguns minutos (três minutos é o suficiente para pessoas que não têm o costume de meditar; se você está acostumado, pode fazer por mais tempo). Abra os olhos. Pegue papel e lápis de cor e desenhe sem pensar demais, sem se preocupar com a beleza do desenho ou com o que você está fazendo. Este é o desenho que veio da sombra. Finalizar com o desenho é importante para trabalhar (ainda que via inconsciente) os conteúdos, emoções, pensamentos e sensações que emergiram da nossa sombra. Uma vez que a sombra se revela, precisa ser trabalhada.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Ágora - O que faz um psicólogo?

Oi Bia, meu nome é Ana Carolina, estou terminando o Ensino Médio e agora no próximo semestre preciso escolher uma carreira para me inscrever no vestibular. Mas meu problema não é bem esse, já escolhi o que quero ser, vou ser psicóloga. Gosto do jeito que você fala da sua profissão e como não conheço outra psicóloga pra perguntar resolvi escrever pra Ágora, acho que tem mais gente com a minha dúvida. Mas então, eu queria muito me formar e trabalhar com pacientes, mas sei que o psicólogo pode trabalhar em outras áreas. Você pode me contar como é o trabalho do psicólogo em cada área? A gente se forma e pode trabalhar em qualquer uma ou tem que fazer alguma outra coisa? Como é o mercado de trabalho? Tem alguma dica pra eu ser uma boa psicóloga? Valeu Bia! beijinhos
Ana Carolina - São Paulo


Oi, Ana Carolina!

Fiquei feliz com a sua pergunta, de tempos em tempos sempre aparece alguém querendo saber mais sobre o curso de psicologia e as possibilidades de atuação, bom que com seu email você me ajudou a colocar esses dados no blog. As possibilidades de atuação do profissional de psicologia são inúmeras. O curso dura 5 anos e costuma ser dividido assim: os 4 primeiros anos são mais teóricos, o estudante terá matérias como filosofia, antropologia, sociologia, psicologia geral, teorias da personalidade, psicologia social, do trabalho, da educação, ética profissional... Nesta primeira parte, os estágios obrigatórios são mais pontuados (geralmente são feitos na clínica escola da sua faculdade ou em instituições vinculadas a ela, como empresas, escolas e hospitais gerais e psiquiátricos); o estudante não faz atendimentos, mas costuma aplicar testes psicológicos e fazer entrevistas, por exemplo, para ver as teorias estudadas na prática. O quinto ano costuma ser muito mais prático, com muitos atendimentos, estágios e supervisões. Na maioria das faculdades, as turmas de quinto ano se dividem de acordo com o interesse de cada estudante. Por exemplo, no meu quinto ano escolhi a área clínica, alguns colegas escolheram o enfoque na área da psicologia do trabalho, outros na psicologia da educação... Isso NÃO significa que podemos trabalhar apenas na área escolhida, nosso diploma de psicólogo nos permite trabalhar na área que quisermos, apenas a carga de estágios que cumprimos é maior na área escolhida. Estágios em outras áreas são cumpridos da mesma maneira, mas com uma carga horária menor. Um ponto importante: enquanto estudar psicologia, faça terapia. De preferência, comece antes mesmo de entrar na faculdade. Não dá para mexer na psique nos outros se a gente não conhecer bem a nossa própria! Agora vou falar um pouco de algumas das áreas de atuação da psicologia.

PSICOLOGIA CLÍNICA -  é a mais conhecida. Trabalhamos em consultórios atendendo pessoas que sentem algum tipo de desconforto com relação a elas mesmas ou a suas vidas. Há diferentes abordagens, ou "linhas", como a sócio-histórica, a psicanálise, junguiana, humanista, a cognitiva-comportamental... É possível trabalhar atendendo apenas um paciente, casais, famílias, fazer grupos terapêuticos (como grupos de dependentes químicos, de pais, de pacientes que passarão por cirurgias ou tratamentos mais agressivos, etc...).

NEUROPSICOLOGIA - um dos meus campos de atuação! É uma área bem nova no Brasil, buscamos investigar as relações entre o cérebro/sistema nervoso e as funções psicológicas (como a atenção, memória, cognição, a forma como lidamos com emoções e conflitos, planejamento de ação, entre outras). A neuropsicologia é uma área bem dinâmica, pois permite atuar na clínica, em escolas, empresas, na prevenção de problemas...

PSICOLOGIA DO TRABALHO / ORGANIZACIONAL - atuação junto a empresas, geralmente no departamento pessoal, fazendo seleção e treinamento de pessoal, campanhas motivacionais, resolvendo conflitos internos entre funcionários, diretoria, enfim, promovendo maior qualidade de vida no trabalho. Também faz consultorias.

PSICOLOGIA ESCOLAR / DA EDUCAÇÃO - o foco são os processos de ensino e aprendizagem. Pode trabalhar em escolas, junto a coordenação, professores, funcionários, alunos e famílias, com questões de ensino-aprendizagem, adaptação ao ambiente escolar, orientação profissional, etc.

PSICOLOGIA HOSPITALAR - atua dentro de hospitais gerais, junto aos pacientes internados, suas famílias e às equipes de saúde. Inclui ajudar o paciente/família a aceitar a doença, aderir ao tratamento, preparar-se para a alta após longos períodos no hospital ou mesmo atuar nos cuidados paliativos (junto a pacientes terminais e/ou suas famílias).

PSICOLOGIA SOCIAL - trabalha com grupos e os conflitos que ocorrem neles (a formação da nossa identidade, por exemplo), assim como os processos de interação indivíduo x sociedade (e aqui sociedade pode ser entendida não só no geral, mas grupos menores de amigos, colegas de trabalho, famílias, etc.). O foco é o ser humano inserido num grupo social.

PSICOLOGIA COMUNITÁRIA - atua junto a comunidades, muitas vezes através de ONGs, de instituições públicas ou privadas. Muita gente considera esta uma parte da psicologia social, mas veja que o foco aqui é específico, pois o grupo social em questão é a comunidade com a qual se está trabalhando.

PSICOLOGIA DO ESPORTE - trabalha com os fatores emocionais que afetam o desempenho de atletas, como a ansiedade, a motivação, a concentração... Também atua com times e equipes, ajudando os integrantes a terem coesão entre si e motivação.

PSICOLOGIA JURÍDICA - o psicólogo trabalha junto à Justiça, seja na área de perícia (por exemplo, para saber se um criminoso sofre de algum tipo de transtorno mental), seja na vara de família (em casos de adoção, de separação de casais e guarda dos filhos, etc.).

Existem muitas outras áreas, como o ensino, a pesquisa, a atuação junto a pacientes psiquiátricos hospitalizados, no sistema prisional, junto a refugiados, em emergências e situações de calamidade, fazendo avaliação psicológica, psicologia do trânsito, do comportamento do consumidor, entre outras. O mercado de trabalho para o profissional de psicologia sempre vai existir. Desde que existam seres humanos, aí está a necessidade de superar conflitos e situações que podem surgir.

Quanto à dica para ser uma boa psicóloga, eu diria para sair do campo da psicologia. Vá além. Não tenha medo de ultrapassar limites, leia, estude e conheça tudo que de alguma forma chegar ao seu alcance. Lembre-se que nosso maior instrumento de trabalho é o nosso discurso, por isso nunca o limita apenas à psicologia. Estude temas de áreas (afins ou não), na área da saúde, da educação, da administração, da física (lembre-se que trabalhamos com a realidade das pessoas, que nada mais é do que um contexto de tempo-espaço), filosofia, sociologia, estude história e política, estude sobre outros povos e culturas, sobre mitologias e diferentes religiões, leia biografias e obras de ficção... Ah, e veja bons filmes, peças de teatro, exposições, ouça músicas, leia poesias... Tudo é material, tudo é discurso e neste momento de formação, em especial, todo discurso pode contribuir para que você reflita e construa o seu próprio discurso. Para mim, é isso que faz de alguém um "bom" psicólogo.

Como vimos, o campo de atuação do psicólogo é bem vasto. Independente da área em que trabalhamos, nosso foco sempre é promover e preservar o bem estar psíquico/emocional do ser humano, seja através da prevenção, intervenção, tratamento ou cuidados paliativos. Onde existirem pessoas, lá estará o psicólogo!

Espero ter contribuído. E seja bem vinda à nossa profissão!
beijo
Bia F. Carunchio

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