sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Ágora - Quando a pessoa não sonha

Uma perguntinha pra Ágora... Queria saber por que algumas pessoas quando dormem não sonham? beijo
Renan - Fortaleza, CE


Oi Renan!

Todas as pessoas sonham enquanto dormem, o que acontece é que algumas delas não conseguem se lembrar, por isso acham que não sonham. Nosso sono passa por diferentes fases durante a noite, e uma delas é chamada de sono REM, quando a pessoa apresenta movimentos rápidos dos olhos. Nessa fase, o cérebro funciona de forma bem parecida com quando estamos acordados, com a diferença de que ele bloqueia nossos movimentos (quando esse bloqueio não funciona bem, ocorrem os casos de sonambulismo). O sono REM também é a fase em que sonhamos de forma mais vívida, e como sempre passamos por esta fase, todos nós sonhamos. Quando uma pessoa desperta durante esta fase do sono, lembra de seu sonho de forma mais nítida. Importante saber que o sonho não é apenas nosso cérebro pensando coisas aleatórias enquanto dormimos, há um sentido maior por trás deles. Pessoas impedidas de sonhar, sendo sempre despertadas toda vez que estão prestes a entrar em sono REM, apresentam um nível de estresse e ansiedade muito elevado, o que se reflete nos aspectos físicos e psíquicos.

Acho que a sua curiosidade na verdade é outra, Renan: por que algumas pessoas não conseguem se lembrar de seus sonhos? Os sonhos são formados no nosso inconsciente e, para que nos lembremos deles, precisam chegar até a consciência. Algumas pessoas têm a fronteira entre consciente e inconsciente um pouco mais difícil de ser ultrapassada, por diversos fatores, como pela pessoa ser um pouco mais rígida ou pelo nível de estresse estar muito elevado,  por exemplo. A pessoa pode ainda bloquear esse contato com o inconsciente ao desvalorizar o material que emerge, seja por medo desse contato, seja por achar que é tudo besteira. Em alguns casos, ainda, quando passamos por grandes traumas ou por perdas muito significativas, algumas pessoas podem bloquear temporariamente o contato com o mundo inconsciente. Independente do motivo pelo qual não lembramos dos nossos sonhos, esta é uma forma da consciência se proteger de algo que acredita ser ameaçador. Entretanto, esse contato com o mundo do inconsciente e dos sonhos é bastante positivo, contribuindo muito para o nosso equilíbrio psíquico e para o autoconhecimento.

Neste artigo, O que seus sonhos dizem sobre você (clique), falamos um pouco mais sobre este tema e sobre algumas dicas para ajudar a lembrar dos sonhos.

Neste outro, Criando o diário de sonhos (clique!), trago algumas informações para montar seu próprio diário de sonhos e também para trabalhar com ele. 

De maneira geral, para lembrar dos sonhos é preciso antes de tudo valorizá-los (escrevendo-os no diário, por exemplo, e pensando sobre eles, fazendo um esforço para lembrar). Nossos sonhos nos trazem mensagens do nosso lado mais profundo, e podemos crescer e aprender muito com essas mensagens simbólicas.

beijo
Bia

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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Você sabe lidar com a abundância?

"Não é o que possuímos, mas o que gozamos, que constitui a nossa abundância." - Provérbio árabe.

Esses dias estive pensando sobre prosperidade, sucesso e abundância. Vivemos num mundo que incentiva todo tipo de excesso mas, de forma bastante irônica, não sabe lidar com a abundância. Confuso? Talvez devamos começar esta conversa dizendo o que entendemos por excesso e abundância. São conceitos bem parecidos, pois ambos os casos significam que a necessidade foi suprida e há algum excedente. Abundância é ter mais que o suficiente para suprir as necessidades, já o excesso é uma abundância que nunca satisfaz, pois o excesso nunca é o bastante.

Não é de hoje que o ser humano acredita que será mais feliz possuindo mais coisas, mais suprimentos, mais relacionamentos, mais experiências... Mas até que ponto nosso foco é a abundância e quando esse movimento passa a demonstrar que entramos no campo do excesso? No meu ponto de vista, o excesso começa quando paramos de desfrutar da abundância. Pense numa pequena comunidade rural. A abundância nas colheitas é muito desejada e bem vinda, pois garante que o grupo poderá se manter durante períodos de inverno e/ou de seca até a próxima colheita. O que é muito diferente da "abundância" dos nossos supermercados modernos e urbanos, em que tudo vira um produto disponível para ser consumido a qualquer hora do dia e época do ano. O consumismo é um sinal claro de excesso, não necessariamente de abundância.

Cornucópia: um antigo símbolo de abundância.
Mas os maiores conflitos começam quando as questões decorrentes do excesso chegam ao campo das experiências e das relações humanas. Faça uma experiência. Vá a uma festa, ou lembre-se de alguma que foi. Mas tem que ser uma festas dessa com muitas luzes, música alta que nunca para, muitas pessoas... Saia da festa para tomar um ar. É muito interessante essa experiência, pois o mundo, a nossa realidade, passa e parecer pobre em estímulos. Por mais linda que esteja a noite e o céu estrelado. Mesmo que você tenha saído para um lindo jardim. Mesmo que esteja ao lado de alguém especial. A pessoa sente como se tudo isso (ou apenas isso?) já não fosse o suficiente. Precisa de mais e mais estímulos, precisa sentir-se viva de uma forma quase desumana. Só assim sente que tem experiências dignas de serem lembradas. Esquecem que o que vale a pena ser recordado é aquilo que nos toca o coração, e que quase sempre esse toque vem das coisas mais simples.

Entramos assim no campo das relações humanas. Quem quer ter sabe lá quantas centenas de amigos nas redes sociais? Mesmo que não conheça um terço deles. Mesmo que nem saiba de onde vêm, o que gostam de fazer ou o que sonham para o futuro. Mesmo sabendo, lá no fundo, que os "amigos" também não sabem metade da pessoa que eles são e, pior, nem se importam em saber. E que bom se a coisa fosse apenas do mundo virtual. Você precisa fazer contatos profissionais, mesmo que esteja com grandes problemas pessoais - o mundo não quer saber disso, e contatos nunca são demasiados. Você precisa ser super simpático, extrovertido e sociável. Que história é essa de passar o sábado chuvoso em casa vendo filme com tão poucas pessoas? Tem um mundo imenso lá fora. Você precisa conversar com todas as pessoas de quem nunca mais lembrará o nome ou o rosto. Você tem que ter muitos amigos, muitos compromissos, muita experiência sexual e casos amorosos, você precisa deixar de ser quem é e mostrar que é legal e que se movimenta bem nessa "realidade". Pare! Será que precisa mesmo? Um segredo que ninguém conta: tudo o que é excessivo perde seu valor. A abundância é bem vinda e buscada. Mas o excesso é algo que quase nos oprime. O excesso transforma a leveza e a alegria sincera da abundância numa obrigação.

Busque a abundância, mas nunca permita que ela se torne um excesso. Tenha muitas experiências se isso te faz bem, mas viva-as de verdade, esteja presente em casa uma delas. Tenha muitos amigos se gosta de se sentir sociável e cercado de pessoas, mas conviva com eles, dedique-se a conhecê-los e se deixe conhecer. Trabalhe e ganhe dinheiro, mas não deixe que o brilho da moeda ofusque o brilho dos seus olhos. Tenha relações amorosas quando elas te fizerem feliz, mas tenha sempre claro que o que importa aqui é a felicidade e não a história para contar depois na rodinha de colegas. Eduque suas crianças para a vida, mas permita-lhes um tempinho para "apenas" serem crianças, elas só têm estes poucos anos para fazer isso e terão o resto da vida para serem pessoas focadas, esforçadas ou o que for.

O que separa a abundância do excesso é o sentido que damos a eles. Quando nossas experiências, relacionamentos, posses, atividades e etc. (independente de quantas forem) fazem sentido na nossa vida, estamos falando de abundância. Se forem vazios, são um excesso. Apenas ocupam espaço e tempo - o mesmo espaço-tempo que gastaríamos fazendo algo que nos deixa bem. Deixamos de ser quem somos para parecer alguém que imaginamos ter mais valor nesta realidade. Por quanto tempo vamos nos desrespeitar desse jeito?

Aprendemos a lidar com a abundância quando deixamos de pensar apenas na quantidade e percebemos a qualidade daquilo que vivemos ou temos em nossas vidas. E, nessa nova forma de perceber, passamos a dar um sentido pessoal às coisas, relacionamentos e pessoas. Construímos uma vida mais com a nossa cara. E isso, esse brilho nos olhos, é mais valioso e lindo de ver que qualquer excesso plastificado.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Mythos - Taliesin: ser sábio é transformar-se

Os mitos são considerados por seus estudiosos como a história inicial de um povo. Muitos povos tem seus primeiros reis, rainhas, magos e sábios como deuses e chega um ponto em que mito e história se entrelaçam tanto que já não se pode mais saber o que realmente aconteceu e o que é conto. O que pertence a cada realidade? Quando estudamos mitologias, percebemos que a realidade é uma só, e o mundo dito real entrelaça-se ao mítico de forma inseparável, como a trama de um tecido. A história de Taliesin é um desses casos em que não sabemos onde o mundo mítico termina e o nosso começa. Gostaria que vocês a conhecessem com a mente aberta, não pensando em separar as realidades, mas percebendo a beleza que é uni-las.

Estamos no mundo celta, pouco antes do ano 534 d.C. Ceridwen, a deusa feiticeira dos celtas, tinha em seu poder o caldeirão da transformação, onde preparava sua poção.  Essa poção precisava ser fervida no caldeirão durante um ano e um dia, a deusa feiticeira planejava usá-la em seu filho Morfan, que era muito feio e cuja aparência não podia ser mudada nem mesmo com magia, para torná-lo um sábio, compensando-lhe o infortúnio da feiura. Mas essa poção de Ceridwen é muito particular: as primeiras três gotas tornam quem quer que as bebesse um sábio. Já todo o restante, era o veneno mais letal. Ceridwen tinha dois ajudantes, o velho cego Morda, que cuidava do fogo, e o menino Gwion que, de cima de um toco de árvore, mexia o caldeirão enquanto a mistura era preparada. Certo dia, no entanto, a história do menino mudaria para sempre. Porque, num descuido, três gotas da poção fervente espirrou em sua mão. Num impulso por conta da queimadura, o menino levou a mão à boca e engoliu as três gotas, tornando-se sábio imediatamente.

Imagem:  J.M. Edwards, 1901.
Ceridwen ficou possessa! Ela queria matar Gwion por ter bebido as preciosas três primeiras gotas, as únicas que traziam sabedoria. Gwion percebeu a fúria de Ceridwen e fugiu! Ele transformou-se num rato, para poder se esconder da deusa com mais facilidade, mas Ceridwen se transformou num gato ágil e astuto. Então Gwion se transformou em peixe e se lançou num rio, mas Ceridwen não deixou por menos e transformou-se em lontra. Gwion percebeu e, quando estava quase sendo pego, transformou-se em pássaro e voou. Ceridwen, já sem paciência com os jogos do menino, tornou-se um falcão e alcançou Gwion com facilidade. Ele então voltou para a terra, transformado num grão de milho, não muito apreciado por falcões, mas adorados por galinhas, que foi no que a deusa se transformou antes de devorá-lo.

As coisas ficaram tranquilas de novo por algum tempo. Mas Ceridwen logo percebeu que estava grávida, e soube que a criança era Gwion e, outra vez, ficou furiosa. Ela resolveu que mataria a criança assim que nascesse. Os meses passaram e passaram... a barriga de Ceridwen crescia, e ela continuava com seu ressentimento por Gwion. Logo, a criança nasceu. Assim que o pegou em seus braços, já preparada para sufocar o bebê, Ceridwen teve uma grande surpresa. O menininho era lindo! Seu coração ficou dividido: a raiva de Gwion continuava e ele deveria pagar por ter tomado a sabedoria que não era destinada a ele. Por outro lado, o coração da deusa se encheu de compaixão pelo bebê tão lindinho, ela não conseguiria matá-lo! Pensou e resolveu o que fazer. Ceridwen colocou a criança num saco de couro de foca e o lançou ao mar. O destino dele seria decidido pela própria sorte.

Surpreendentemente, a criança sobreviveu. O saco de couro chegou a uma praia britânica, onde o príncipe celta Elffin costumava passear. Ele avistou o embrulho e, intrigado, foi até lá, recolhendo a criança. O menino renascido se tornaria Taliesin, um bardo muito sábio. Os bardos, entre o povo celta, eram poetas e músicos de grande sabedoria que cantavam os mistérios dos seres humanos, do mundo e dos deuses. Dizem que tinha visões e que sabia usá-las com sabedoria. Taliesin tornou-se também um rei celta.


Questões para reflexão:

1- Ninguém cresce e se torna uma pessoa sábia e madura se não se transformar. Gwion/Taliesin nos ensina que é preciso deixar que morra aquilo que não serve mais para que algo novo possa surgir e nos ajudar a transformar nossa vida. O que precisa morrer em você ou na sua vida?

2- Gwion transformado em milho é engolido por Ceridwen, e sua jornada no interior da deusa pode ser compreendida como um rito de passagem, uma iniciação. É depois disso que ele sai transformado. É preciso lançar-se ao desconhecido, permitir-se ser abraçado pela própria escuridão para que a luz volte e brilhe mais forte do que nunca. Quais períodos de escuridão e/ou de dificuldades você já enfrentou? Como eles te transformaram?

3- Podemos compreender o período que a criança passou no saco de couro jogado no mar como um segundo útero. Este, no entanto, era um "útero" cheio de perigos e sobreviver a eles foi um dos fatores que deu força à Taliesin. De onde vem sua força?

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

10 mil visitas!!

Ontem chegamos aos 10 mil acessos no blog! Confesso uma coisa: achava que os 10 mil acessos só chegariam daqui a uma ou duas semanas e chegar assim, de repente, foi uma surpresa maravilhosa para fechar a semana! Agradeço muito a vocês por isso.

Quero agradecer a todos vocês pelo apoio de sempre. Por cada leitura, comentário, sugestão, crítica, pelas ajudas na divulgação deste trabalho, pelas parcerias, pelas conversas inspiradoras e trocas de experiências... Em pouco mais de um ano passamos por muitas coisas juntos, conversamos sobre muitos assuntos e chegamos mais longe do que eu imaginava ao criar o blog.

Para comemorar, preparei um top 10 com as estatísticas do blog. Espero que gostem.

Flores comemorativas!!!

10 textos mais acessados: (clique no título para ler)

10 países que mais frequentam o blog:
1- Brasil
2- Portugal
3- Estados Unidos
4- Reino Unido
5- Argentina
6- Angola
7- Alemanha
8- Itália
9- Rússia
10- Uruguai

10 termos procurados no Google que trouxeram até o blog:
1- rosa dos ventos
2- mitologia
3- menstruação
4- fazer um diário de sonhos
5- mandalas
6- criança hiperativa
7- relacionamentos
8- blog a rosa dos ventos
9- significado das cores
10- mito de Eros e Psique


10 perguntinhas para os leitores: 

Um pedido especial. Por favor, me ajudem a melhorar o blog e a fazê-lo crescer mais respondendo ao questionário nos comentários ou, se preferir, no email bf.carunchio@gmail.com. Este é um espaço que construímos juntos, por isso suas respostas, críticas e sugestões são sempre muito bem vindas. É rapidinho, gente!

1- Idade
2- Profissão
3- Como conheceu A Rosa dos Ventos?
4- Com que frequência você visita o blog?
5- Que tipo de temas gosta mais de ver por aqui?
6- Que temas ainda não abordados gostaria de ver?
7- Tem algum mito ou mitologia de algum povo que você gostaria de ver no blog?
8- As questões no final da coluna Mythos ou nos artigos ajudam você de alguma forma?
9- Você costuma conversar com alguém sobre os temas do blog? Se sim, com quem?
10- Sugestões? Críticas? Receitas de bolo, simpatias contra má sorte ou conselhos de avó?

Outra vez, deixo o meu muito obrigada!! 

Ágora - Como falar de sexo com a minha filha?

Olá, Bia. Meu nome é Alex e sou de Minas Gerais. Perdi minha esposa a 10 anos e desde então crio meus filhos sozinho, eles são minha maior riqueza. Mas as crianças crescem. Meu filho mais velho já tem 16 anos e é um bom rapaz, faz planos de estudar direito. O problema é minha filha mais nova, que tem 11 anos. Ela é uma menina tranquila acho que na verdade o problema sou eu, vejo que o corpo dela está mudando e sei que logo vai se tornar uma mocinha. O meu problema é que não tenho a menor ideia de como conversar com ela sobre essas mudança e também sobre sexo.  Com o meu filho foi mais fácil, mas com ela eu me sinto muito envergonhado de falar sobre isso mas sei que preciso falar. Até podia pedir pra minha irmã falar isso com ela, mas a gente se ve pouco porque ela mora em outra cidade, além disso acho que é meu dever como pai. Tenho medo que se eu não disser nada ela não vai saber lidar com essas coisas de mulher ou que alguém se aproveite da inocência dela. Muito obrigado.
Alex - Minas Gerais


Olá, Alex!

Sei como é difícil para um pai ou uma mãe criar filhos sozinho/a. Cada fase da vida deles nos traz novos desafios e novas necessidades, nos fazendo repensar nossas próprias posturas e ideias frente à vida. Você está muito certo ao dizer que é preciso, sim, falar com a sua filha sobre as transformações da puberdade e também sobre sexualidade. Aliás, acho importante que se fale sobre esses temas mesmo para crianças pequenas, respondendo com sinceridade e naturalidade as suas perguntas. Costumo orientar meus pacientes que têm crianças ou adolescentes para que a conversa sobre o corpo e sobre sexualidade seja uma rotina na família, e que seja tratada com a naturalidade de um assunto de almoço de domingo.

Sua filha provavelmente também percebe as mudanças que acontecem no corpo dela. No começo, o ideal é manter uma postura aberta, para que ela se sinta bem caso queira perguntar algo ou conversar. Não vai ajudar muito se, ao conversar com a menina, você estiver mais ansioso do que ela com a situação. Ela perceberá essa ansiedade e entenderá que a sexualidade é algo para se envergonhar ou para manter uma postura tensa, e isso não é legal, não vai fazer bem a ela. Por isso, antes de tudo olhe para si mesmo e sinta as transformações que já estão ocorrendo na sua família com naturalidade. Como você mesmo disse, as crianças crescem, e logo você deixará de ser pai de uma menininha para se tornar o pai de uma mulher linda e forte. Acostume-se a esse seu novo papel.

Conversar com os filhos (sobre sexualidade ou sobre o tema que for) não pode ser uma "aula" em que os adultos falam e eles apenas escutam meio constrangidos. Precisa ser um diálogo, uma conversa em que todos podem falar o que pensam e sentem. Para isso, é preciso que exista uma relação de confiança, uma relação aberta em que os adultos se mostrem receptivos a ouvir as crianças e adolescentes. Além disso, é importante respeitar o momento deles, respondendo ao que perguntarem de forma sincera e clara e, muito importante, informando de acordo com a idade dos filhos. Se a menininha de 5 anos pergunta sobre menstruação, a resposta não precisa ser tão detalhada quanto se a filha de 11, já na puberdade e prestes a menstruar, resolver conversar sobre o tema, pois as necessidades de cada fase são diferentes. Isto é, a criança precisa entender sobre o que estamos falando, sem ficar sobrecarregada com informações que ainda não fazem sentido para ela.

Antes da conversa, Alex, sugiro que você pense muito bem sobre suas próprias ideias a respeito da sexualidade e sobre a sua visão de mulher. Essas ideias dos pais interferem bastante na forma como os filhos vão lidar com isso ao longo da vida. Quais ideias e valores você quer passar para sua filha? Quais crenças a respeito da sexualidade feminina você acredita que a tornará uma mulher mais em paz com ela mesma? Algumas vezes nós adultos temos ideias mais rígidas, transmitidas a nós pelos nossos pais, e a eles pelos nossos avós, e assim por diante. E, quando repensamos, vemos que nem sempre essas ideias ainda servem para o mundo de hoje. Ou mesmo que sirvam, algumas vezes concluímos que não são esses valores que farão nossos filhos felizes e realizados.

Outras sugestões: você pode comprar ou emprestar na biblioteca da sua cidade um livro próprio para a idade dela que fale sobre puberdade e sexualidade, para ela aprender mais sobre o próprio corpo. Existem até mesmo livros de anatomia com ilustrações bem didáticas das transformações que o corpo passa nessa fase, próprios para crianças e adolescentes. Outra opção é, depois que ela menstruar, levá-la a uma ginecologista para que ela converse e tire suas dúvidas. Lembrando que essas opções NÃO substituem a conversa com a família, que é sempre fundamental para que os jovens se sintam aceitos e seguros. Para terminar, há algum tempo conversei aqui na Ágora com a Gabi, uma menina de 12 anos que queria saber mais sobre menstruação, talvez seja interessante para vocês. Clique aqui para ler.

beijo,
Bia


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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Timidez

"Desculpem eu ser eu. Quero ficar só! Grita a alma do tímido que só se liberta na solidão. Contraditoriamente, quer o quente aconchego das pessoas." - Clarice Lispector, escritora brasileira (1920-1977)

O tema do artigo de hoje foi sugerido pela minha amiga e leitora Stella Benedetti, há algum tempo atrás. Falar sobre timidez quase sempre é algo feito colocando o assunto como um problema, ou então meramente catalogando as pessoas: "é quieta, deve ser tímida!". Espero conseguir não fazer isso.

A timidez se manifesta em muitas pessoas, independente da idade, classe social ou etnia. Aliás, um ponto interessante é que, em época de redes sociais e da comunicação em evidência, existem cada vez mais pessoas tímidas. Isso acontece por diversos motivos, entre eles porque com o aumento das relações virtuais, houve uma diminuição das relações face a face. Conto sempre o caso do adolescente viciado em computador que, ao ser perguntado se não sentia falta de ficar face a face com os amigos, respondeu "não tenho esses problemas, meu computador tem webcam embutida". Outro motivo é o distanciamento entre as pessoas. Perdemos o costume de conversar. Mesmo em casa, com a família, poucos têm o hábito de falar de si e de como foi o dia, por exemplo, ou de como se sentem perante uma situação. Pouco se fala além daquela conversinha social em que, ao ser perguntado "como está" a pessoa já responde "tudo bem", mesmo que não esteja. Chegamos a um ponto em que a pessoa que deseja um contato mais profundo é vista como dependente, e a pessoa que tem a delicadeza de ouvir o outro, é vista como tímida. Além disso, vivemos num mundo cada vez mais exigente e acelerado, que nos oferece poucos apoios e recursos para que se cumpram tantas obrigações e compromissos.

A timidez é o comportamento de insegurança ou de esquiva frente a um contato
com o outro, em situações em que o tímido estará em evidência.
Mas o que é a timidez, exatamente? Quase sempre se fala sobre ela como um problema. Aliás, um grande problema a ser superado o quanto antes! Como você ousa não ser sociável?! Mas eu vejo a situação do tímido de outro jeito. Não penso que seja necessariamente um problema, dependendo do grau e da situação em que a timidez aparece. Em psicologia, uma característica, comportamento ou sentimento só é patológico se coloca a gente ou outras pessoas em risco, ou então se nos causa sofrimento. Conheço muitos tímidos "leves" que lidam bem com sua timidez, e então ela passa a ser uma característica nossa, não necessariamente algo que a pessoa precise eliminar de si. A timidez é um desejo/necessidade de estabelecer um contato com o mundo externo, mas na hora que o contato está quase acontecendo, o tímido se retrai. Em geral, a pessoa tímida tende a valorizar excessivamente a opinião dos outros, maitas vezes mais do que a própria, por isso se preocupa sobre como será visto. Além disso, boa parte dos tímidos têm um padrão de qualidade alto, no popular, tendem a ser "perfeccionistas" e cobrar demais a si mesmos. Por isso, pensa que os outros farão o mesmo ou que julgarão seu comportamento/tarefa/sentimentos como inadequados. Muitas vezes, o tímido está errado.

Há vários tipos de timidez, a situacional (por exemplo, pessoas tímidas apenas para falar em público, ou para paquerar, ou em situações de trabalho...). É bem comum pessoas muito sociáveis se dizerem tímidas e, acredite, estão sendo sinceras, pois algumas vezes a timidez não se manifesta nas relações informais, ou seja, nas amizades, na família, nos relacionamentos amorosos, mas sim no mundo burocrático e formal do trabalho, por exemplo. Existe também a timidez crônica, ou seja, a pessoa é tímida o tempo todo, seja para apresentar aquele trabalho importante, seja para conversar com os amigos íntimos. Além disso, a timidez significa coisas diferentes para pessoas diferentes ou nas diversas fases da vida. Na adolescência, por exemplo, a timidez é muito frequente e, até certo ponto, normal, pois é nessa fase que passamos a nos perceber como capazes de fazer nossas próprias escolhas, mas ainda não temos a maturidade e a experiência anterior do adulto, por isso com frequência o adolescente se sente tímido e inseguro sem que isso tenha um significado maior, como seria o caso de uma criança pequena, por exemplo.

Neste ponto, é importante diferenciar a pessoa tímida da pessoa introvertida. Parece ser a mesma coisa, mas existe uma diferença fundamental: enquanto o introvertido é, como diz a palavra, voltado para dentro de si mesmo, o tímido pode não ser introvertido, pode ser voltado para fora, para o mundo e as relações (extrovertido, o que também não significa uma pessoa super sociável e simpática; introvertido e extrovertido são apenas formas de ver a realidade, focando mais o mundo interno ou o externo). O tímido pode sim ser extrovertido, pode ter o seu foco no mundo externo e, se for este o caso, provavelmente sofrerá mais com a sua timidez, pois é próprio do extrovertido buscar o contato com o mundo de fora enquanto a timidez causa certo retraimento, certa inibição quando a pessoa se coloca no mundo. Diferente do introvertido que, voltado para o mundo interno, tende a ver esse contato com o externo como algo que fica segundo plano, não buscando tantas relações e tanta agitação quanto o extrovertido. O introvertido pode não ser tímido e, se for, principalmente num grau leve, isso dificilmente será visto como algo problemático.

Algumas estratégias para lidar melhor com a timidez:
- Fazer atividades que permitem que você se expresse e, ao mesmo tempo, que conviva com outras pessoas, por exemplo, participar de grupos de teatro, coral, dança...
- Fique atento e perceba em quais situações a sua timidez se manifesta. É em alguma área da vida, como o trabalho/escola ou os relacionamentos amorosos? É ao ter que resolver questões com autoridades? É em períodos de maior estresse ou sempre? É ao ter de falar em público, como ao apresentar um seminário ou ao dizer algumas palavras numa sala cheia? Ou ao chegar a um lugar onde não conhece ninguém (uma festa ou um jantar, por exemplo)? Enfim, quando a timidez se manifesta? Desenvolva estratégias que aumentem a sua autoconfiança nesse tipo de situação, como ensaiar antes o que vai dizer ou respirar fundo para se acalmar.
- De que formas a timidez se mostra em você? Ela aparece no corpo (tremores, rubores, sintomas?) ou na forma de emoções claras? Ou é apenas certo mal estar? Conheça a sua timidez, ninguém combate ou faz as pazes com um inimigo invisível.
- O problema é falar em público? Treine em frente ao espelho! 
- Conte aos outros que você é tímido. Pode não parecer, mas isso é libertador! Quando fazemos isso, a maioria das pessoas desenvolve uma postura mais aberta e suportiva. No mínimo você não terá preocupações além da tarefa a ser desempenhada, como se preocupar se estão percebendo que seu rosto corou ou se as pessoas sentadas na última fila percebem os tremores das suas mãos... Além disso, mesmo em situações tranquilas, conte isso aos amigos. Muitos podem ajudar você a lidar com isso, além de estarem mais propensos a aceitar essa característica sua sem vê-la como problema.
- Traga com frequência à sua memória as lembranças de situações em que você enfrentou situações de timidez e se saiu bem. Isso ajuda nossa mente a criar um padrão, e o padrão que queremos criar aqui é de que somos capazes (de falar com o bonitão ou bonitona, de apresentar o seminário da faculdade, de contar aos amigos e familiares sobre como se sente quanto a algo, etc.).

Atenção: se a timidez causa problemas que impedem o andamento normal das atividades diárias, seja problemas físicos (falta de ar, dores de estômago, problemas intestinais, náuseas, alergias, etc.) ou emoções fora do seu controle (pânico, crises de choro ou de estresse muito fortes, sentimento de impotência e baixa autoestima, por exemplo) não há o que discutir, é hora de buscar ajuda.

Cada pessoa tem suas características. Nossa personalidade é formada por um conjunto de características, cada uma delas em maior ou menor grau. Essas características, junto com a forma como compreendemos nossa história e com os sonhos para o nosso futuro, formam a pessoa que somos. Somos únicos, somos todos muito complexos. Por isso, uma característica isolada, como a timidez, não é o bastante para definir uma pessoa e seu futuro. Se a timidez é uma parte sua, gostaria de fechar esse artigo dizendo que ela é mais um detalhezinho que te torna quem você é. Está tudo bem em ser você. Tenha sempre em mente que as pessoas queridas gostam de você com ou sem a timidez.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Mythos - Iemanjá: saiba dizer "não"

Hoje vamos trabalhar com Iemanjá, uma deusa, ou melhor, orixá, da cultura africana, muito popular no Brasil, ela é cultuada por exemplo no candomblé e na umbanda, e sincretizada com Nossa Senhora dos Navegantes, da Glória e da Conceição. Para quem não sabe, na religiosidade africana, o mundo material é uma extensão do mundo espiritual, portanto, esses dois mundos podem se comunicar e interagir. Há um deus supremo chamado Olorum, que só entra em contato com o ser humano através dos orixás, divindades relacionadas à natureza que, juntas, garantem a harmonia do mundo. 

No Brasil, Iemanjá é cultuada como a rainha do mar, é homenageada no dia 02 de fevereiro (especialmente na Bahia, onde nesse dia as pessoas se vestem de branco e vão à praia, oferecendo flores, velas e outras oferendas a ela) também é muito lembrada na passagem do ano (principalmente no Rio de Janeiro, quando as pessoas vestidas de branco vão à praia levar suas oferendas, tomar banho de pipoca e pular 7 ondas, para garantir um novo ano cheio de proteção e bênçãos).

Iemanjá é a orixá ligada ao mar, à fecundidade e à maternidade (de crianças a partir do momento que já sabem falar e dos adultos). Diferente de Oxum, ligada à maternidade de crianças que ainda não falam, que personifica a mãe sempre doce e amorosa, Iemanjá é uma mãe mais disciplinadora, que ama, mas que também coloca limites e pune quando necessário, como o mar, que nos oferece vida, mas que, quando revolto, pode causar grande destruição. De todo modo, independente de como a maternidade é vivenciada, note o quanto ela é importante na cultura africana, uma vez que é representada por mais de um orixá. A partir daí se percebe que a vida é um valor central para esses povos, por isso a maternidade, a fertilidade, a mulher e a sexualidade recebem destaque nos mitos/discursos e na forma de perceber a realidade.

Um detalhe importante: na África, Iemanjá é a orixá do rio que leva seu nome. Quando os povos africanos chegaram ao Brasil, claro que o rio ficou para trás. No entanto, Iemanjá os acompanhou e passou a ser orixá ligada ao mar. Há uma lenda que conta um pouco desta transformação. Iemanjá era uma linda mulher casada com o rei Oduduá e, com ele, teve dez filhos orixás. Por amamentar tantas crianças, seus seios aumentaram e ficaram um pouco mais flácidos do que antes. Iemanjá não era feliz nesse casamento e certo dia, enquanto caminhava, conheceu o rei Okerê. Eles se apaixonaram e Iemanjá disse que se casaria com ele desde que o novo esposo nunca risse de seus seios. Ele concordou e assim foi feito. Por algum tempo, foram felizes, mas certa vez Okerê estava bêbado e riu dos seios de Iemanjá. Ela se ofendeu e, muito magoada, fugiu. Ele corria atrás dela e para conseguir fugir, Iemanjá transformou-se num rio, que desaguaria no mar. Mas Okerê percebeu e, para pegá-la, barrou o caminho do rio transformando-se em uma grande montanha. Iemanjá, desesperada, recebeu ajuda de seu filho Xangô (orixá dos raios, trovões e tempestades, ligado à justiça por punir os malfeitores), que cortou a montanha (Okerê) ao meio, permitindo que Iemanjá chegasse ao mar. Ela tornou-se, então, a rainha do mar.


Questões para reflexão:

1- O primeiro ponto que chama a atenção no mito de Iemanjá é sua transformação: de rainha em rio, ou de orixá de um rio específico na rainha do mar. As transformações acontecem nos períodos de grande crise. No primeiro caso, quando fugia de um marido abusivo. No segundo caso, Iemanjá deixou de ser orixá de um rio específico para ser rainha do mar quando o povo africano foi escravizado e trazido à força para o Brasil. E você, de quais formas já se transformou? Procure se lembrar das maiores crises que já viveu (violências e abusos sofridos, ameaças, doenças graves, crises financeiras ou grandes problemas no trabalho, conflitos familiares mais sérios, etc.). Como você era antes e em quem você se transformou ao atravessar a fase conturbada?

2- Iemanjá nos fala também sobre a importância de saber dizer "não" e colocar de forma clara os nossos limites. Ela faz isso ao cuidar de seus filhos, sendo uma mãe que sabe ser amorosa e ao mesmo tempo exigente e, se preciso, rigorosa. Ela deixa seus limites claros quando sai de casamentos que a faziam infeliz e se torna a rainha do mar. Você sabe dizer "não"? Como você se sente quando precisa colocar seus limites, isso é algo natural ou gera angústia e ansiedade? Apenas sobrevivemos às crises quando sabemos colocar de maneira clara os nossos limites (seja com palavras ou com ações), pois é isso que nos permite afirmar (para nós mesmos) quem somos e quem pretendemos ser. Essa é a ação/afirmação que nos transforma, pois nos tira do papel de vítima indefesa e nos lança no campo da ação. Aí sim as crises atuam como transformadoras, como rituais de iniciação e/ou de passagem para uma nova forma de vida, em que podemos agir com maior autonomia; tal como Iemanjá se tornou rainha do mar, nos tornamos rainhas ou reis da nossa própria história.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Ágora - Medo do amor

Oi Bia. Queria perguntar sobre relacionamentos e pode colocar na Ágora tá? É que estou ficando com um garoto já faz um tempo e gosto muito dele, muito mesmo, mas isso me assusta. Sei que ele gosta de mim também porque já me provou isso com palavras e com atitudes tambem, ele tem tudo a ver comigo, mas tenho medo de tudo mudar depois que a gente começar a namorar ou quando o relacionamento for ficando mais serio. Tenho muito medo de sofrer no final, tenho 19 anos mas nunca namorei ninguém e ele é o primeiro que me apaixono assim e foi com ele que perdi minha virgindade. Minha amiga disse que sou fraca porque me apaixonei e isso me deixa mal. Nem sei bem do que tenho medo, acho que dele ser ruim comigo e eu sofrer demais se tudo acabar mal. O que você acha? beijinhos
Carol - Vitória, ES


Oi Carol!

Acho, em primeiro lugar, que amar alguém é sempre uma felicidade. Principalmente quando a pessoa sente o mesmo por você e os dois são sinceros quanto aos seus sentimentos. Se posso dizer, não concordo nem um pouco com a sua amiga. Ao contrário, amar e se apaixonar não é uma fraqueza, no meu ponto de vista é uma das maiores jóias que a vida pode nos dar. E as jóias existem para serem apreciadas e desfrutadas.

É normal a gente se envolver mais e mais quando se apaixona por alguém, e sei que algumas vezes isso pode assustar. Vamos nos vendo cada vez mais intensamente no olhar do outro, e tem hora que parece até que deixamos de ser quem éramos e, juntos, nos tornamos um.

Sobre o medo de sofrer, eu sinto muito, mas não existem garantias de que tudo acabará bem. E isso não tem nada a ver com estar apaixonada ou com esta conversa ser sobre amor e relacionamentos, isto é sobre a vida. A vida é assim, chega com mil novidades e nenhuma garantia. A única forma de saber no que vai dar é vivendo, arriscando. Mas, acho que você concorda comigo, não tem como fazer um relacionamento dar certo se a gente já entrar nele acreditando que o outro vai nos fazer sofrer e que vamos nos machucar no fim. Porque essa crença faz a gente não se envolver com o relacionamento e, sem envolvimento, nada dá muito certo...

Claro que as coisas mudam um pouco quando você começa a namorar. O papel de amiga é diferente do de ficante, que é diferente do papel de namorada que, por sua vez, é diferente do papel de esposa. Um papel é um conjunto de comportamentos e atitudes que permeiam uma função social (a de namorada, por exemplo). Isso quer dizer que o que se espera de uma namorada não é o mesmo que se espera da ficante. O grau e a forma de envolvimento é outro. Claro que as pessoas são todas diferentes, por isso elas têm a liberdade de decidir como irão vivenciar esses papéis. Um namoro pode ser rígido e opressor ou, ao contrário, pode ser algo leve e libertador, depende apenas de como o casal decide vivenciar a relação. Se você diz que vocês têm tudo a ver e formam um casal de ficantes bem entrosados, provavelmente também serão um casal de namorados assim, pois existe a sinceridade ao colocar os sentimentos e o respeito pelo outro.

E se um dia terminar? Bom, a vida muda, muitas coisas podem acontecer, mas acredito que quando um relacionamento é vivido com sinceridade, o saldo final sempre é positivo. No mínimo ficam as lembranças do tempo gostoso que passaram juntos, a experiência e o crescimento que as relações equilibradas trazem. "Que seja eterno enquanto dure". Nas relações, como na vida, acredito que precisamos ter esperança. É a esperança que nos coloca em contato com o futuro, nos libertando do presente e do passado. Na vida, muita coisa pode acontecer, daqui a poucos minutos podemos nem estar vivos mais! Mas a esperança nos leva a acreditar que estaremos, nos leva até mesmo a fazer planos, a sonhar. Nesse sentido, viva as relações com esperança, pensando em tudo o que pode acontecer de bom. E, se sofrer (como eu disse, não há garantias), fica a experiência anterior e a reflexão. O crescimento ocorrerá da mesma maneira.

A única forma de nunca sofrer é não vivendo, não se permitindo passar por experiências. Mas aí, outra vez, isso também é uma experiência e pode sim nos fazer sofrer, por exemplo, com o sentimento de vazio, a insegurança, o medo, a aridez emocional, a desesperança... Não existem garantias na vida, Carol. Viver é um constante arriscar-se, um arriscar-se a construir a própria vida da forma que nos deixa feliz. Os relacionamentos são construídos todos os dias, na convivência, nas palavras e experiências que dividimos, por isso, está nas nossas mãos fazer com que os relacionamentos sejam agradáveis e felizes. Aproveite!

Felicidades para vocês!
beijo
Bia


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quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Comprometa-se com você!

"A gente todos os dias arruma os cabelos, por que não o coração?" - Provérbio chinês

Fiquei em dúvida ao colocar o título deste artigo. Comprometa-se com você ou sua vida não tem pernas. De todo modo, hoje vamos conversar sobre a nossa realização, seja ela pessoal ou profissional. É normal ter planos e desejos na vida. Mesmo que não sejam lá tão claros, a maioria das pessoas sonha com algo, gostaria de fazer algo (seja um curso universitário, conseguir a promoção na empresa, mudar para uma casa maior ou saltar de paraquedas). Na clínica, quando nos deparamos com um paciente que esteja passando por um quadro depressivo, é fundamental verificar se ele tem planos, mesmo que não sejam planos "grandiosos" (por exemplo, observando se usa verbos no futuro ou se comenta sobre o que vai fazer mais tarde). Ter planos ou não é algo que marca um limite ao se pensar na gravidade de um quadro depressivo. Mas voltando para os planos, é fundamental tê-los, pois é nos planos e sonhos que encontramos o futuro, a esperança. E é isso o que nos faz continuar.

Comprometer-se consigo mesmo é entender que nós somos os únicos
responsáveis pela realização dos nossos planos e sonhos. É preciso caminhar!
Muitas vezes os planos são frustrados. Eventos fora do nosso controle podem acontecer, imprevistos existem. Mas de forma geral, na grande maioria das vezes nós mesmos somos os culpados dos nossos planos frustrados. A vida não anda, a vida está "de pernas para o ar", completamente bagunçada... Mas quem foi que bagunçou a vida? Quem é que não deixa que ela ande? A vida não tem pernas, somos nós que precisamos levá-la na direção em que gostaríamos que ela fosse; nós é que precisamos caminhar no sentido dos nossos sonhos. Isso pode soar bonito, mas essa caminhada nem sempre é assim tão simples. Na maior parte das vezes não é. Porque precisamos assumir responsabilidades. Responsabilidades sobre nossas atitudes e nossas escolhas. Mas principalmente, assumir a responsabilidade pela gente mesmo e pela nossa felicidade.

Quando assumimos uma responsabilidade, podemos dizer que nos comprometemos com algo. Assumimos as consequências (boas e ruins) das nossas escolhas. Por isso, apesar de o mais importante ser ter perspectivas de futuro, é interessante que esses planos sejam claros. Quando fazemos isso, transformamos um sonho numa meta, e isso quer dizer que o sonho passa a ter nossa própria permissão para se manifestar na realidade. Tornamos o sonho o mais claro possível, e conforme fazemos isso, um caminho começa a se delinear. Como se os passos surgissem. Quando pensamos em técnicas ou em pesquisa científica, chamamos esse caminho de "método". É o método que nos permite caminhar sabendo onde queremos chegar, contornando os obstáculos e superando os desafios que surgem na caminhada.

Algumas questões para ajudar a delinear as metas:
- Se sua meta não está clara para você, é interessante começar pensando sobre suas preferências. O que te faz sorrir? Quando sorrimos, nosso cérebro libera uma série de substâncias responsáveis pelo bem estar e manutenção da saúde.
- Se você já tem um sonho ou objetivo mais claro, procure questioná-lo. Do que você precisa e o que você já tem (recursos, conhecimentos, contatos, atitudes...)? Quais passos precisa seguir?
- Tenha sempre em mente que suas metas dependem apenas de você. Não adianta nada fazer planos incríveis e deixar toda a ação por conta de outras pessoas. Isso não funciona.
- Vá atras das metas menores que levarão à meta maior. Se, num exemplo simples, a meta é sair para tomar sorvete, é preciso se preparar, saber o endereço da sorveteria, chamar alguns amigos, decidir qual o caminho que vão fazer, se vão andando ou se vão tomar algum transporte... Olhar para a meta principal pode fazê-la parecer distante, quase inalcançável, mas quando seguimos as pequenas metas, é quase que esperado chegar onde queremos.
- Quais são suas intenções? O que exatamente você pretende? Este é seu foco. Seu compromisso é com você.

Uma vez que nos abrimos para as escolhas, quando ainda somos crianças, passa a ser impossível deixar de fazê-las, pois mesmo que a gente prefira que outros decidam por nós, foi escolha nossa retornar a essa posição mais passiva. Somos os únicos que podemos dizer o que queremos dizer através dos nossos lábios. Mesmo que outra pessoa dissesse por nós, a linha de pensamento seria outra, a entonação da voz, a conotação das palavras, tudo seria diferente. Os lábios seriam outros. Apenas nós podemos caminhar com as nossas pernas. Outra pessoa pode até querer nos seguir, mas não perceberá o caminho que trilhamos da mesma maneira que a gente. Mesmo que queiramos seguir alguém, ainda assim, percorrer o caminho da vida de outra pessoa foi uma escolha nossa e teve seus motivos. O comprometimento com a gente mesmo passa pelas responsabilidades por nós e pelas escolhas. Se a ideia é ter autonomia, não há como fugir do equilíbrio nem sempre fácil entre escolhas e consequências.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Mythos - Hécate: atravessando as crises

Hoje vamos fazer uma homenagem a Hécate, deusa grega ligada aos caminhos, à magia, à lua negra, ao parto e às transformações, pois hoje, dia 13 de agosto, comemora-se o seu dia. A origem de Hécate é incerta. Alguns dizem que ela era filha de Nyx (a noite) e de Érebo (o Tártaro, a parte mais profunda da terra/do submundo). Outras versões dizem que Hécate é filha de Astéria (deusa das estrelas) e do titã Perses. Estudiosos de mitologias dos povos tendem a concordar que a Hácate grega é uma adaptação do arquétipo da deusa egípcia Heqit, o que ocorreu por volta de 600 a.C. A Heqit egípcia já era cultuada em 4000 a.C. como a protetora dos partos, pois era quem assistia ao parto diário do sol e ajudava no germinar das sementes. Hécate é uma divindade misteriosa não apenas por estar relacionada ao mundo dos mortos e à noite, mas também por suas origens incertas.


Conta-se que Hécate era seguida por cães negros e que era a deusa dos mortos, ou melhor, das aparições e fenômenos relacionados a eles. É a senhora dos mistérios da noite, da lua, dos sonhos e experiências psíquicas, do mundo dos mortos... Ela conduzia os espíritos dos mortos através dos caminhos que levavam ao outro mundo, por isso era muito cultuada em encruzilhadas, locais onde diferentes caminhos e destinos se encontram. Era uma das guardiãs do mundo dos mortos, por isso guardava também os mistérios do parto (vivenciado como uma intensa transformação, um rito de passagem), das curas e das magias. Hécate é a guardiã dos portais, portanto e, junto com eles, guarda os portais simbólicos: nossos caminhos de vida, as transformações, transições e passagens. E podemos acrescentar, mais do que isso, esta deusa é a guardiã do nosso inconsciente e das nossas escolhas.

Hécate é representada portando muitos símbolos, como a tocha (luz, iluminação, mas também o fogo transformador), a chave (abrir caminhos, portais, transitar entre diversos contextos), a foice (ceifar/colher a vida, a lâmina é ligada ao discernimento e à tomada de decisão, permite cortar vícios, hábitos ruins, inseguranças...), é acompanhada sempre por cães negros (acreditava-se que cães acompanhavam as almas dos mortos, a eles são atribuídos o dom de perceber os espíritos; o cão também é visto como símbolo do destino e como auxiliar em curas), serpentes também aparecem nas representações desta deusa (serpentes, antes de haverem sido associadas ao pênis e se tornarem símbolo fálico, eram associadas ao feminino pois trocam de pele da mesma forma que o útero se descama e "troca de pele" todos os meses, e isso também se relaciona às transformações).

Muitas vezes Hécate é representada em trios. Seja nas faces da lua (com Ártemis personificando a lua crescente, Selene a lua cheia e Hécate a lua negra), nos mistérios da terra e da fertilidade (com Perséfone e Deméter) ou mesmo quando é representada com três faces: a jovem, a mãe/mulher madura e a anciã. Personificando a anciã, Hécate é aquela que tem acumulada em si a sabedoria do passado e a visão do presente, e com eles é capaz de atingir a sabedoria e o discernimento necessários para caminhar com segurança rumo ao futuro.


Questões para reflexão:

1- A melhor forma de lidar com a escuridão que existe em cada um de nós, é conhecendo-a. Apenas conhecendo a nossa própria escuridão é que poderemos permitir que ela se manifeste de forma criativa e construtiva, e não de formas negativas (depressão, medos, inseguranças, pesadelos, dependências...). Um breve exercício: apague as luzes e sente-se um pouco no escuro. Permita-se ficar assim por algum tempo, permita-se enxergar através do véu da escuridão, perceba o que há escondido dentro de si mesmo. Cada aspecto da nossa sombra/escuridão traz em si uma chave. A raiva talvez ensine a colocar seus limites e dizer não. O medo talvez ensine a superação, o planejamento e a cautela. A tristeza talvez ensine a pensar bem as escolhas e a valorizar mais a alegria. O que há na sua escuridão? Quais chaves esses elementos trazem?

2- Em algumas tribos indígenas, o rito de passagem para tornar-se adulto inclui passar uma noite vendado na mata, e o jovem só pode tirar a venda quando nascer o primeiro raio de sol. Neste processo, ele enfrenta seus medos e inseguranças, lida com a escuridão de fora, mas também com a escuridão de dentro. Ao tirar a venda vê ao seu lado o pai, que passou a noite junto do filho sem que ele se desse conta. Isso nos ensina que nem sempre estamos sozinhos, podemos contar com o olhar dos outros que são significativos e queridos para nós.

3- Muitas das crises que enfrentamos na vida são causadas por nós mesmos, ou melhor, pela nossa postura e pelas nossas atitudes frente à realidade. Ao escolher os seus caminhos, você tende a agir de forma mais impulsiva ou faz algum tipo de planejamento? Pensar nas consequências é mais do que pensar apenas no que poderia acontecer, é como Hécate ensina: apropriar-se do seu passado e ter boa visão do presente para que o futuro flua com tranquilidade.

4- Crises são inevitáveis. Claro que planejar e partir para a ação traz alguma segurança. Mas ainda assim, alguns eventos fogem ao nosso controle, pois não dependem apenas de nós. Como você lida com o imprevisto? Lembre-se das grandes crises que você já atravessou. Querendo ou não, a crise é sempre um grande rito de passagem. O que mudou em você e na sua vida? Como você renasceu? Ou melhor, quem é a pessoa que renasceu?

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Ágora - Perigos do contato com o inconsciente

Bom dia! 
Estou escrevendo para propor uma discussão para a Ágora. Leio sempre seus textos e vejo o quanto você fala sobre entrar em contato com o inconsciente e em permitir que ele se manifeste. Acho legal o jeito que você fala como se fosse uma viagem ou uma aventura mas queria saber se não existe algum tipo de risco nisso?
Atenciosamente,
Lúcio Silveira - São Paulo


Bom dia, Lúcio!

Gostei da sua pergunta, sei que muitas pessoas têm esse receio de entrar em contato com o inconsciente e ter complicações. É interessante começar pensando sobre riscos e perigos de forma geral. Tudo o que fazemos oferece riscos de alguma forma, mesmo que sejam riscos muito pequenos. Até mesmo conversar sobre algo tranquilo com um amigo querido pode nos fazer lembrar de experiências tristes. Mesmo ficar em casa sentado no sofá não quer dizer que nada de arriscado vá acontecer... Viver é passar por experiências, e isso pressupõe algum risco. Quando fazemos pesquisas científicas em que alguém se candidate a participar do estudo, a pessoa precisa ser informada dos riscos que corre e assinar um documento afirmando que está ciente e que concordou em ajudar no estudo apesar dos riscos. Em psicologia, algumas pesquisas recebem a classificação de "riscos mínimos". Certa vez fiz uma pesquisa sobre ídolos da mídia e pensei em entrevistar pessoas para que falassem sobre seus ídolos. A pesquisa recebeu a classificação de risco mínimo: apesar de ser um tema muito tranquilo de se falar sobre, não conheço a história de quem vou entrevistar e talvez haja o risco do assunto lembrar a pessoa de algo desagradável. Sempre existe um risco, em tudo.

Mas vamos ao inconsciente! Quais os riscos que a descida até o inconsciente pode trazer? Eu diria que depende muito de três fatores: como o contato é feito, o que existe lá e, principalmente, como a pessoa irá lidar com o que encontrar no inconsciente. O ideal é que o contato com o inconsciente seja feito de forma bem planejada e tranquila. Existem técnicas para isso: relaxamentos, técnicas de hipnose, meditações... No nosso inconsciente fica guardado tudo aquilo que não está na nossa consciência, em camadas mais profundas (como o momento do seu nascimento, um trauma muito grande, partes da nossa sombra que ficam muito reprimidas...) ou mais superficiais e que chegam com facilidade à nossa consciência (como detalhes da conversa que tive ontem com um amigo). Isso quer dizer que, de certa forma, o nosso consciente e o inconsciente estão sempre em contato de alguma maneira. O que essas técnicas fazem é dar uma ênfase maior ao inconsciente. Mesmo em hipnoses muito profundas, a consciência é apenas rebaixada, nunca anulada. Isso significa que a pessoa sob hipnose nunca dirá ou fará nada que vá contra seus princípios.

Na minha forma de perceber, o maior risco que o contato com o inconsciente pode nos trazer é o de não sabermos lidar com seus conteúdos, independente de quais sejam eles. Por isso, é preciso ter recursos. Nossos recursos nos fortalecem e nos permitem lidar melhor com os desafios, tanto os do inconsciente quanto os do dia a dia. Recursos podem ser referências de sucesso (a lembrança vívida de que já passamos por algo semelhante e nos saímos bem), habilidades, estratégias, prever as possíveis consequências das nossas ações, ter um plano B, enfim, tudo aquilo que aumenta a nossa autoconfiança. A ironia é que só ganhamos esses recursos conforme vivemos e nos arriscamos. Não existe vida sem risco.

Como controlar esses riscos? Primeiro, não mergulhe sozinho no inconsciente se estiver inseguro. Antes, se fortaleça. A ajuda de um profissional de psicologia pode ser bem vinda. Além do psicólogo auxiliar no processo de fortalecimento, ele pode atuar como um "guia" na sua jornada pelo inconsciente, ajudando a solucionar conflitos que possam surgir. No mais, o contato com o inconsciente é bastante enriquecedor. Esse contato com nosso lado mais profundo aumenta a confiança que temos em nós, pois nos permite descobrir coisas a nosso respeito que nem imaginávamos.

beijo,
Bia


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quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Beleza, autoestima e a menina mais feia de Esparta

"A beleza das coisas existe no espírito de quem as contempla." - David Hume (1711-1776), filósofo escocês.

Quero começar contando a história da menina mais feia de Esparta. Esta história foi escrita por Heródoto, historiador de tanto prestígio, e não consegui descobrir se é verdadeira ou uma lenda. No entanto, neste momento isso não faz diferença, mesmo porque os povos antigos viam seus mitos como uma realidade, logo o que temos em mãos é uma história, um discurso (mythos). Conta Heródoto que havia em Esparta uma menina muito feia. Seus pais ficavam tão constrangidos que mantinham o rosto dela coberto por um véu. A ama, entristecida pela situação, levava a criança todos os dias ao templo de Helena (importante dizer que Helena tinha uma ligação importante com Afrodite, a deusa da beleza e do amor). No templo a ama colocava a menina em frente à estátua da deusa e implorava para que ela se tornasse mais bonita. Certa manhã, quando as duas voltavam do templo, uma linda desconhecida pediu para ver a criança (na certa, a deusa disfarçada de mortal). A ama negou, pois a menina era muito feia e a reação que a mulher certamente teria seria mais uma vergonha para os pais dela. Mas a mulher insistia tanto que a ama acabou cedendo. Quando a mulher olhou para a menina, tocou-lhe a face com delicadeza e disse que se tornaria a mulher mais bela de Esparta. E assim foi feito.

Hoje vamos conversar sobre beleza. Não só aquela que vem de dentro, mas também sobre a beleza de fora, mesmo, do corpo. Olhar no espelho e gostar do que vê é algo que contribui muito para que se tenha uma autoestima saudável. Vamos fazer um exercício. Você vai precisar de um espelho e de um lugar com privacidade. Tire suas roupas e olhe-se no espelho. Se for um espelho grande, melhor ainda. O que você vê? Que tipo de características passam pela sua mente ao olhar para o seu corpo? Agora mantenha o foco em cada parte, sempre com atenção às características que surgem. Comece pelos pés, pernas, coxas, genitais, e assim por diante, sem esquecer nenhuma parte. Se possível, anote as características de cada parte (ou use um gravador). Podem ser características mais concretas (bonito, feio, gordo, magro, moreno, etc.) mas também podem surgir características mais abstratas. Tudo é válido, pois tudo isso conta sobre você. Ou melhor, essas características contam sobre a forma como você se vê. Nem sempre nos vemos da maneira como realmente somos.

O que você vê quando olha no espelho?
Agora vamos trabalhar com essas informações que você colheu. Comece percebendo qual a parte do seu corpo que recebeu mais características negativas? E a parte que recebeu mais elogios? Para o nosso inconsciente, tudo é simbólico. Assim, a forma como vemos cada parte nossa conta muito sobre o valor que damos ao que essas partes representam. Por exemplo, o cabelo está muito ligado à sexualidade, no caso das mulheres. Os pés podem ser interpretados como o poder de trilhar os seus caminhos, guiar a sua vida. Já as mãos podem representar as realizações, são elas que nos ajudam a transformar o mundo ao nosso redor, seja plantando, construindo, carregando coisas, escrevendo artigos... Mas, voltando ao exercício, observe essas partes de você outra vez, com mais cuidado. Elas são realmente da forma como você as descreveu? Já comentei outras vezes o quanto a linguagem é importante. Vamos tentar mudar as palavras, olhando para as partes "menos queridas" de seu corpo com outras palavras. Não palavras opostas às usadas, mas palavras que contem sobre a forma como são sem que isso soe depreciativo.

Voltando um pouco no tempo, podemos ver como a ideia de beleza não é natural, mas sim é construída em cada sociedade e em cada época, de acordo com a forma de vida de cada povo e com aquilo que é valorizado. Quem gosta de arte pode observar obras de diferentes épocas e origens e assim perceber o quanto a ideia de beleza muda. Um exemplo é o tipo de corpo retratado. Se hoje muitos consideram um corpo magro um ícone de beleza, há algum tempo atrás não era assim, as pessoas magras eram vistas como mais fracas e doentias, o bonito era ter o corpo um pouco maior. O bronzeado também mudou. Se em tempos antigos ter a pele bronzeada era sinônimo de status social mais baixo (pois a pessoa bronzeada provavelmente era mais pobre e trabalhava no campo, exposto ao clima), hoje é sinônimo de saúde, de alguém que se cuida e que pode dispor de algum tempo para se divertir ao ar livre. As ideias se transformam, os conceitos mudam.

E, sabendo disso, porque hoje tantas pessoas são tão revoltadas com o espelho? Hoje os valores nem sempre são pensados em conjunto entre todas as pessoas. Muitas vezes as referências e seus valores já vêm prontinhos, dados de bandeja pela mídia. Basta ligar a TV, abrir o jornal, entrar na internet, para ser bombardeado de ideias prontas. Entre muitas, ideias sobre a beleza e a estética. Só pelo motivo do sentido dado à beleza e dos conceitos do que é belo ou feio já virem prontos, esse movimento já seria alienante, pois não somos nós quem decidimos o que achamos bonito ou feio, mas a mídia que decide por nós, nos convencendo disso de forma tão sutil, com imagens coloridas e argumentos com tanto apelo emocional, que somos levados a acreditar que certas características são mais desejáveis do que outras porque realmente pensamos assim, e não de tanto vermos essas imagens e de tanto assimilarmos esses conceitos desde quando éramos muito novos. No meu ponto de vista, o cenário é ainda mais preocupante. A grande maioria da mídia tem por objetivo gerar lucro. Ora, se veicular informações sobre como pessoas com determinadas características são lindas permite vender mais produtos (cosméticos, vestuário, adornos, cirurgias plásticas e tratamentos estéticos, bens de consumo, etc.) para que todas as outras pessoas atinjam um ideal, é o que a grande mídia fará. Isso vai muito além da beleza. Essa dinâmica de ter um ideal de beleza único e cobrá-lo como se fosse um crime não corresponder a ele (ou pelo menos buscá-lo) faz com que a pessoa assimile que existe um jeito certo/belo de ser e os jeitos piores, mais feios e com menos valor, e que para estar inserido socialmente, é preciso chegar ao ideal. Mesmo que doa. Mesmo que pareça impossível. Mesmo que no final, eu me olhe no espelho e descubra que já não sou mais eu.

Gente, isso é uma crueldade! Preciso contar que resolvi escrever este texto porque andei recebendo mensagens de jovens perguntando sobre beleza e autoestima. Quem não está no padrão, muitas vezes é excluído e vítima de bullying e outras violências. Ou ainda adoecem, seja com distúrbios alimentares como a bulimia e anorexia, seja outros transtornos psíquicos ou psicossomáticos vindos dos conflitos e do sentimento de tristeza e de menos valia. Isso me entristece, principalmente quando olhei para a foto dessas pessoas e vi que eram, sim, bonitas. Não estão no padrão da mídia, mas são bonitas, cada uma a seu modo. São bonitas porque seus olhos têm vida.

Veja outra vez as características que você colheu no nosso exercício. Quais te fazem sentir mal? Voltando à história/mito da menina mais feia de Esparta, é interessante perceber que o que mudou a beleza da criança foi o fato de ter sido tocada pela deusa. Foram as palavras dela que tocaram a menina de tal forma que sua realidade se transformou. E as palavras de todos nós têm esse poder transformador. Se quiser mudar sua realidade, mude suas palavras e seu discurso/mythos. 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Mythos - Macária: aceitar os fins com doçura

Na mitologia grega existem duas figuras que recebem o nome de Macária. Uma era filha de Herácles e Dejanira. A outra, que é sobre quem vamos falar hoje, é a deusa da boa morte. Talvez a ideia de "boa morte" soe estranha aos ouvidos das pessoas deste tempo. A morte representa, na nossa cultura, um fim. Hoje costumamos negar a morte, como se ela não acontecesse, a não ser de forma muito distante, na frieza dos hospitais. A morte, para nós, foi desumanizada. Quando não é algo distante, é algo banal, como se as vidas valessem quase nada e pudessem ser descartadas ao acaso em acidentes que poderiam ser evitados ou na violência diária das grandes cidades. Parece até que hoje as pessoas não esperam por uma morte, mas morrem um pouquinho todos os dias, morrem conforme são tratadas como nada, como se nem ao menos fossem pessoas. Morrem um pouquinho a cada dissabor e a cada sonho perdido, morrem conforme as desesperanças assumem o lugar dos sonhos.

Para os antigos gregos, a visão de morte era bem diferente da nossa. Como para boa parte dos povos antigos, a morte não era um fim, mas um recomeço. Após a morte, as almas iam para o submundo e lá podiam ter diferentes destinos, como os Campos Elísios, caso a vida tivesse sido ética e justa, os Campos de Asfódelos, onde as almas esperavam por um julgamento, o rio Lethe, onde as almas podiam beber de suas águas e renascer; o Tártaro, local onde ficavam presos os piores assassinos, onde também estavam presos os titãs que perderam a guerra contra os deuses (esta é outra história); a Ilha dos Abençoados, para onde iam as almas que chegavam aos Campos Elísios por três vezes, entre outros lugares. Assim, na Grécia Antiga a morte era apenas mais um evento, não era marcada como um fim ou uma ruptura.

Mas vamos ao mito! Macária, como mencionei, era a deusa da boa morte. Seu nome significa "aquela que é abençoada". Ela era filha de Hades, deus do mundo dos mortos, e de Perséfone, deusa da primavera e rainha do mundo dos mortos. Provavelmente vem daí a ideia de "boa morte", quando a frieza do submundo encontra a esperança da primavera. Macária sentia grande compaixão pelos mortais, especialmente os de bom coração, que viviam uma vida justa. Esses mortais, a deusa não permitia que Tânatos (deus da morte) levasse. Ela mesma ia buscá-los. Macária tinha a habilidade de caminhar entre os mortais sem ser vista ou percebida, a não ser pelo moribundo. Era representada como uma mulher atraente, de pele branca e cabelos negros e, junto com ela, dizem, vem um perfume de flores da primavera. Ela sempre levava o moribundo com muita gentileza, colocando-o num estado de profunda paz e tranquilidade, algumas vezes, levava-o durante um sono tranquilo. Além disso, Macária nunca abandonava as almas. Depois da morte, acompanhava os ritos funerários, caminhava ao lado do morto até o submundo e ficava com a alma durante o julgamento. Quase sempre, as almas acompanhadas por Macária eram levadas para a Ilha dos Abençoados.


Questões para reflexão:

1- Os gregos não viam a morte como um fim. Nossa cultura vê a morte ou de forma artificial, ou de forma vazia. E você, qual a sua visão da morte?

2- Pense nas pessoas que perdeu. Como você lidou com essas perdas? Quando alguém que amamos morre, uma parte nossa morre junto. Todas as vivências, as trocas de confidência e de afetos parece que se tornam quase míticas. Passam a fazer parte de outra realidade, que não é mais a realidade de todos os dias. Claro que sentimos a falta do outro, mas sentimos também a falta de quem éramos quando estávamos junto de quem se foi.

3- Como você vê os fins e as transformações? Agora não falamos de morte, mas das mudanças e fins que acontecem na vida de todos: o fim de um relacionamento, as mudanças grandes e pequenas no nosso dia a dia, seja na vida pessoal, profissional, amorosa, familiar... Você aceita os fins/transformações com resistência ou com a doçura de quem é conduzido por Macária? Quando algo chega ao fim, algumas vezes é inútil tentar prolongar a permanência. Soa artificial e desumano. Algumas vezes é mais sábio apenas deixar que as situações sigam seus caminhos e lidar com os fins, tendo a certeza de que, como Macária nos ensina, cada fim carrega consigo a esperança de um recomeço.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Ágora - Suicídio: quando a vida pesa demais

Bia, não sei mais o que fazer. Tenho um amigo e gosto muito dele. Desde quando a gente era mais novo ele sempre foi um garoto mais quieto, mais triste, mas é uma pessoa boa e tem diversas qualidades, só ele que não vê. O problema é que de uns tempos pra ca ele está muito triste mesmo, acho até que ele deve estar com depressão. Ele não quer sair de casa nem pra fazer coisas que antes gostava de fazer, está sempre irritado ou então muito triste, mas sempre quando tento falar com ele, ele diz que não sabe por que se sente assim. Ele tem 21 anos, devia estar fazendo várias coisas, mas esta de licença do trabalho e parou a faculdade. Não se diverte, come muito pouco, os poucos amigos que tinha foram ficando pra tras, ele está um trapo! E semana passada eu tentava falar com ele, convencer a comer pelo menos um pouco e foi aí que ele me contou que algumas vezes planeja formas de se matar. Ele me contou várias, descreveu todos os detalhes! Diz que essa vida é pesada demais, que ele se sente cansado e triste, que é uma vergonha pros pais dele (não é, os pais dele amam ele e se preocupam), que ia ser melhor pra todo mundo se ele não existisse. Bia, isso me deixou muito assustada! Não posso perder meu amigo, gosto dele demais e me preocupo muito. Por favor ajude a gente.
Cecília M. - Guarulhos, SP

Oi Cecília,

Sei como é triste ver uma pessoa de quem a gente gosta nessa situação. A gente se preocupa, sofre junto, fica angustiada... Minha primeira orientação é dizer que sim, seu amigo muito provavelmente tem um quadro sério de depressão, pois além de ideias suicidas, existe até mesmo o planejamento. Ele precisa procurar um psicólogo e começar um tratamento o quanto antes. Aliás, provavelmente será necessária uma parceria com um psiquiatra, para que o seu amigo seja medicado. Os dois lados precisam ser vistos: os medicamentos receitados pelo psiquiatra vão ajudar a controlar os sintomas da depressão; mas curar não é apenas abafar sintomas, seu amigo precisa também da psicoterapia, precisa descobrir por que se sente assim, em qual ponto de sua história a vida sonhada se distanciou tanto da vida real que esta se tornou um fardo pesado ao invés de um caminho agradável.

Cecília, saiba que o tratamento de pacientes graves não é tão simples. Não basta apenas frequentar o consultório do psicólogo, do psiquiatra e de outros profissionais envolvidos no tratamento. Ele precisa se envolver com a cura. Em casos mais leves, esse envolvimento nem sempre é fácil. Em casos graves, é ainda mais complicado. Ele vai precisar de muita ajuda e apoio. E falo de diversos tipos de apoio. Desde aquela parte mais concreta, como lembrar o seu amigo das consultas e de tomar os remédios, até a parte que geralmente acham mais complicada: dar a ele o apoio emocional que ele precisa neste momento, mesmo que ele diga que não precisa disso e que quer ficar sozinho. Costumo dizer aos familiares dos meus pacientes graves que não basta vir às consultas, para o sucesso do tratamento, preciso da ajuda da família e dos amigos, preciso que todos se envolvam com o paciente e com seu tratamento e atuem como parceiros neste processo. Não basta passar uma ou duas horas por semana no meu consultório, pois ele tem depressão todos os dias e horários, e não apenas durante as consultas enquanto trabalho com ele. O apoio emocional que a família e os amigos podem (devem!) dar inclui ajudar a pessoa a ver a vida com outro olhar, e não com o olhar da depressão. É fazer-se presente na vida da pessoa, por mais que ele esteja irritado ou diga que não quer sair nem ver ninguém. Algumas vezes esse é o único "não" que ele pode dizer no momento. É convidar para estar junto, seja numa caminhada leve, para sentar-se à mesa no momento das refeições ou mesmo para uma simples conversa na luz do sol (estudos mostram que tomar sol por alguns minutos todos os dias pode ajudar bastante em casos de depressão). A vida fica pesada demais quando nossa única escolha passa a ser entre continuar existindo ou deixar de existir.

Outro ponto fundamental é ajudar o seu amigo a ver esperanças na vida. A depressão se instala quando aquela vida que desejamos viver está muito distante da vida que realmente vivemos, seja por fatores concretos (acontecimentos fora do nosso controle, consequências desastrosas das nossas escolhas, etc.), seja por darmos à nossa vida um olhar austero e pessimista demais. É importante ter esperanças. Esperança nos empurra para frente, nos leva a perceber que existe algo além do aqui e agora... aí fazemos planos, e se temos planos, nos empenhamos em fazer o nosso melhor, em fazer dar certo. A esperança ensina que existe algo além do aqui e agora e além de nós mesmos, nos leva a buscar, a movimentar a vida. É a esperança que nos mantém no caminho.

Boa sorte ao seu amigo, Cecília. Depressão tem cura. Com o tratamento certo ele pode sim perceber que a vida não precisa ser ruim e pesada e que, apesar dos contratempos que todos temos, existem esperanças, existem bons momentos e, principalmente, existem pessoas queridas para dividir conosco as belezas e angústias desse caminhar.

beijo
Bia


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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Confie na sua intuição

"Certas coisas se sentem com o coração. Deixa falar o teu coração, interroga os rostos, não escutes as línguas." - Umberto Eco (1932), filósofo e escritor italiano contemporâneo.

Hoje vamos conversar um pouco sobre intuição, num ponto de vista psicológico. Algumas pessoas têm uma visão um tanto mística do processo de intuição, no entanto este é um fenômeno psíquico que acontece com todos nós o tempo todo, mesmo que algumas pessoas não cheguem a perceber. Algumas vezes a intuição é clara, se manifesta como uma ideia clara e racional, por exemplo "vou ao supermercado e tenho a impressão de que vou encontrar minha prima lá." Em outros casos, não existem palavras, como quando temos um sentimento, ou mesmo uma sensação de que algo vai acontecer. Não sabemos como ou por que, às vezes nem sequer sabemos o que é o fato, mas intuímos que as coisas estão mudando na nossa realidade. Outras vezes, ainda, as intuições podem vir na forma de sonhos, visões, impressões...

Intuição vem do latim intuitione, palavra que podemos dividir em in - dentro, e tuere - olhar para. Assim, em linhas gerais, a intuição é um olhar para dentro de nós mesmos. Quando usamos a intuição, chegamos a uma conclusão por vias diferentes das usuais. Não por meio da racionalidade consciente, que nos levaria a concluir alguma coisa através de pesquisas em livros ou na internet, ou apenas perguntando para alguém. Ao contrário, a intuição nos leva a tirar conclusões olhando para dentro de forma não racional. Os primeiros psicólogos seguiam um método de pesquisa chamado "método introspectivo", em que após apresentarem um objeto ou um fenômeno a um sujeito, pediam que ele contasse as primeiras impressões que teve. Supondo que o objeto fosse uma bola de futebol, a racionalidade nos leva a dar a ela um significado que aprendemos nas nossas relações com o outro, um nome, e conclui que "é uma bola de futebol!" Mas nosso lado não racional nos leva a tirar conclusões como "é um objeto redondo", "é feito de certo material, nas cores preta e branca, etc." Para esses primeiros psicólogos este era um jeito muito rico de conhecer o mundo, pois nos permitia ir além dos significados aprendidos, repensando-os.

Só vemos uma pequena parte dos fatos do dia a dia, a maior
parte é captada apenas pelo inconsciente e, quando se mostra
à nossa consciência, nem sempre sabemos de onde vieram.
Hoje este método de pesquisa já não é mais usado, no entanto contei isso para ajudar a pensar na intuição. Se não usamos o lado racional da nossa psique, isso quer dizer que quem está nos dando as respostas é o nosso inconsciente. O inconsciente não tem tempo nem espaço, é livre no melhor sentido da palavra. Logo, quando "olhamos para dentro" procurando chegar a conclusões através do nosso inconsciente, não operamos na lógica do dia a dia, dos significados "certos" e do mundo linear. Trabalhamos com uma realidade onde tudo é possível, pois nela o mundo se mostra de formas bem diferentes, algumas vezes, surpreendentes (observe seus sonhos!). Apesar do método introspectivo ter caído em desuso, os primeiros psicólogos estavam certos quando diziam que antes de darmos um significado (dizer que o objeto apresentado é uma bola de futebol ou que a pessoa que fala comigo é um amigo querido), percebemos os pequenos detalhes daquilo que se mostra (no caso da bola, percebo sua forma, suas cores, etc., no caso do amigo, percebo seu rosto e suas expressões faciais, sua voz e a entonação que dá às palavras que me diz, por exemplo). Assim, antes que a nossa mente consciente e racional dê às coisas do nosso dia a dia um significado, nossa mente inconsciente as percebe. E aí entra a intuição. Quando a mente inconsciente chega às suas próprias conclusões a partir dos dados percebidos no mundo externo, sem a ajuda da mente consciente/racional, dizemos que essa conclusão foi uma intuição. E aí temos a impressão de que sabemos ou desconfiamos de algo antes de que a coisa se mostre ou se concretize. Por exemplo, posso ter a intuição de que o amigo do exemplo anterior virá em breve me dizer palavras boas. E posso saber disso, talvez, antes mesmo de encontrá-lo. No dia a dia não prestamos tanta atenção aos pequenos detalhes, mas nada escapa ao nosso inconsciente! Pelas expressões faciais do amigo, pelos olhares, pelo tom de voz que costuma usar ao falar comigo ou mesmo pelas palavras gentis que escolhe (bem como pela minha própria reação a todos esses fatores), posso concluir algo e dar algum sentido ao que intuí.

Chamamos isso de intuição e, por não termos consciência deste processo (pois quem atuou aqui foi o inconsciente) pode parecer algo mágico ou místico. Mas não é. A intuição é um processo psíquico normal, que todos nós temos, seja frente a acontecimentos marcantes ou mais comuns. Acontece mesmo que a gente não perceba. É importante desenvolver a nossa intuição, pois essa habilidade é um lado nosso como qualquer outro, por exemplo, o uso da linguagem, a capacidade de fazer cálculos ou de interagir com as pessoas. Nunca se deve reprimir ou renegar lados nossos, pois isso causa pequenas "rupturas" na nossa estrutura psíquica, levando ao desequilíbrio e possível adoecimento.

Um ponto importante é que nosso inconsciente e nosso consciente estão em diálogo constante, ou seja, eles trocam informações entre si. Da mesma forma, nosso mundo interno precisa trocar informações com o mundo externo. Algumas vezes, os acontecimentos no mundo externo e interno coincidem. Quando você lê sobre um autor e alguém comenta sobre ele. Quando você está com alguém no pensamento e a pessoa escreve ou telefona. Quando alguém diz ou faz algo que você pensava em dizer/fazer. A esse tipo de acontecimento se dá o nome de "sincronicidade", são as coincidências significativas que acontecem na vida da gente, basta estar atento para percebê-las. É um fenômeno semelhante à intuição, perceba que o mecanismo é o mesmo: o inconsciente percebe dados do cenário (físico ou psíquico) em que estamos e conclui o que pode acontecer. A maior diferença é que a sincronicidade é imediata, tanto o fato interno (ideia, pensamento, emoção, sensação) quanto o externo (o que aconteceu) se dão quase que simultaneamente, sincronicamente. Ao passo que a intuição é mais como uma conclusão, uma grande probabilidade de que a situação se desenrole conforme o nosso inconsciente sugere com base nos dados que percebeu.

O nosso consciente e o inconsciente não percebem
o mundo da mesma forma... olhe com atenção!
Sabendo agora o que é intuição, como se manifesta e também a importância de desenvolvê-la e de permitir que ela se mostre no nosso dia a dia, trago algumas sugestões de como desenvolver a intuição. Basicamente, toda função psíquica pode ser habilitada através do treino. Veja as crianças na escola. Quando fazem cálculos ou escrevem uma redação estão habilitando as funções psíquicas de cálculo, linguagem, pensamento abstrato, atenção, coordenação motora fina... Com a intuição é a mesma coisa, a melhor maneira de desenvolvê-la é permitir que o inconsciente se mostre. Algumas pessoas têm medo desse contato mais profundo com o mundo do inconsciente. Se este for o seu caso, antes de começar o treino é fundamental vencer este medo. Não existe motivo para temer um lado nosso, em especial quando sabemos que ele pode contribuir muito para o autoconhecimento e, assim, para uma vida mais saudável e equilibrada. Estas são algumas sugestões:

- O primeiro passo é permitir que as intuições venham. Não reprima suas impressões, sonhos mais significativos, sensações... Nem diga a si mesmo que são loucura ou bobagens, pois não são, são partes de você e da sua vida.

- Talvez você queira escrever um diário de sonhos e trabalhar com ele, para começar a libertar o seu inconsciente e estabelecer com ele uma relação amigável. Clique aqui para ler o artigo Criando o diário de sonhos.

- A arte, como já disse algumas vezes, é uma forma bem interessante de abrir um contato com o inconsciente. No caso da intuição, é interessante dar preferência à formas de arte que não passem pela linguagem verbal ou por estruturas mais rígidas. Aliás, quanto menos estruturas, melhor! Sugiro desenhos e pinturas bem livres, pintura a dedo, modelar argila, mexer com areia, danças sem uma coreografia a seguir...

- Meditar também pode ser uma boa ideia, pois nos permite focar por alguns minutos no mundo interno e não apenas no exterior. Veja aqui Como meditar e os benefícios da meditação.

- Quando tiver uma intuição, explore-a. Faça o consciente conversar de forma amigável com o inconsciente. Questione-se, por exemplo, sobre o que seria a sensação, qual o sentido dela para você, etc. Provavelmente o inconsciente não responderá com palavras e ideias racionais, pois ele não fala a mesma linguagem que o consciente. Mas esteja atento às sincronicidades e sonhos!

- Algumas pessoas gostam de anotar num caderninho suas intuições e sincronicidades. Além de reforçar o elo entre consciente e inconsciente, fazer essas anotações é um jeito do consciente se apropriar do material inconsciente e ainda dizer a ele que as informações são bem vindas.

- Independente de como escolher habilitar sua intuição, lembre-se que o mais importante é a periodicidade, ou seja, precisa dar atenção a isso sempre, assim a psique se acostuma a trabalhar também dessa maneira e não apenas racionalmente.

Para terminar, quero deixar claro que ter intuições, venham elas na forma que vierem, é um processo normal da psique saudável. Quanto mais intuições ou sincronicidades nós vivenciamos, isso significa que nosso contato com o mundo do inconsciente é maior. Isso é muito bom, pois significa que conseguimos integrar bem nosso lado consciente e inconsciente, o racional e o emocional... Toda atividade que permite abrir uma porta para o inconsciente ajuda a desenvolver a intuição, pois ela nada mais é que a manifestação de que existe uma relação de amizade com nosso mundo interior.