sábado, 28 de setembro de 2013

200 "curtir" na página do Facebook

Já somos mais de 200 na página do Facebook! Este pequeno texto é só para deixar o meu muito obrigada.

Para conhecer A Rosa dos Ventos no Facebook, clique no link - https://www.facebook.com/blogarosadosventos


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Ágora - O consultório de psicologia

Bom dia, Bia!
Meu irmão está prestando vestibular esse ano e ele quer entrar em administração. Mesmo eu sendo um pouco nova (tenho 14 anos) fiquei super animada por ele e por mim também. Aí já comecei a pensar em qual profissão quero seguir e acho que quero psicologia. Eu li o seu artigo sobre as áreas da psicologia e me interessei muito pela clínica. Queria entender melhor como funciona, como é o dia a dia de um psicólogo no consultório? Como os psicólogos andam no dia a dia, usam avental como os médicos, tem que usar branco ou alguma roupa especial? Como é o consultório por dentro? Sei que parecem perguntas bobinhas, mas nunca conheci ninguém que fez psicologia e sou muito curiosa!!! Muito obrigada! beijinhos
Juliana - São Paulo


Bom dia, Juliana!

Uma das coisas que me atraiu para a clínica foi a variedade, pois cada nova pessoa que nos procura traz com ela um mundo cheio de novos significados e novas possibilidades. Essa amplidão de caminhos e de potencialidades é, para mim, uma das maiores belezas da clínica psicológica.

Para começar, vamos explorar onde estamos. Como é o local de trabalho do psicólogo clínico? Em geral, temos a sala de espera, como em qualquer outra clínica, e o consultório. No consultório, os elementos podem variar de acordo com as preferências do psicólogo, a linha teórica pela qual ele conduz os atendimentos e também o público que ele atende. Por exemplo, na sala lúdica, para atendimento de crianças, é comum ter uma mesinha e cadeirinha apropriadas para o tamanho dos pequenos, brinquedos, livrinhos infantis, um ponto de água (usada em algumas atividades) e um chão lavável, o que permite a expressão mais livre por parte da criança. Já na sala de adultos, o cenário muda! Poltronas confortáveis, assim como uma mesa onde se pode fazer atividades gráficas e testes psicológicos. Alguns psicólogos preferem apenas a mesa e as cadeiras, como num escritório. Outros gostam de ter um divã para que o paciente se deite. A decoração das salas de atendimento, de forma geral, é o mais neutra possível, favorecendo a interiorização e atuando como uma "folha em branco" na qual o paciente pode projetar seus conteúdos internos tranquilamente.

Agora vamos olhar para os psicólogos... Você gostaria de saber "como eles andam". Não, não usamos o jaleco, a não ser quando trabalhamos em hospitais. Algumas clínicas com diversas especialidades diferentes exigem que todos os profissionais de saúde usem o jaleco, e nesses casos, nós usamos. Mas num consultório apenas de psicologia, não se usa jaleco. Essa atitude é uma forma de mostrar aos pacientes (e à sociedade) que não estamos tratando-os do ponto de vista médico. Diferente dos tratamentos médicos, no tratamento psicológico não se usa medicamentos. O paciente de psicologia precisa ser um sujeito ativo em seu processo de tratamento e autoconhecimento. Sem o jaleco, essa mensagem se transmite mais facilmente, mostrando que não somos uma autoridade distante dizendo ao paciente o que fazer. Prefiro pensar nos psicólogos como intérpretes da linguagem/comportamento que são apresentados na clínica, bem como uma espécie de "guia" pelo mundo interior, que pode apontar caminhos possíveis, mas respeitando que a decisão de qual caminho seguir e como segui-lo sempre será da própria pessoa, pois apenas ela mesma pode viver a vida dela. Mas voltando ao assunto, como "anda" o psicólogo clínico? Sem jaleco, com roupas comuns. Quem atende crianças geralmente usa roupas que facilite a interação com os pequenos (muitas vezes é preciso sentar no chão, jogar bola junto com eles e outras atividades um pouco mais agitadas), como sapatos mais baixos e calças. Independente de que tipo de paciente se atende, é interessante dar preferência a algo mais discreto, deixando aqueles esmaltes mais coloridos, a maquiagem mais pesada e as roupas mais chamativas para os finais de semana e momentos de lazer.

Como é o dia a dia? No geral, os pacientes frequentam o consultório uma vez por semana, sempre no mesmo dia e horário, pois isso é parte do processo terapêutico. Quando estabelecemos um dia e horário fixo para a pessoa, ela ganha um espaço só dela, para falar sobre aquilo que mais a angustia. Muitos dos pacientes que nos procuram não têm um espaço-tempo assim fora do consultório, então isso é muito importante e precisa ficar claro para a pessoa que aquele momento é dela. Esse horário fixo, ajuda o paciente a se sentir seguro e acolhido, pois ganha um tempo-espaço para existir sendo ele mesmo, além de fazer com que ele se prepare para o momento do atendimento.

Mas o que exatamente é feito dentro da sala do psicólogo? Isso depende de quem é o psicólogo, qual a linha teórica que segue e quem é o paciente. O atendimento infantil é feito geralmente de forma mais lúdica, usando desenhos, argila, histórias e brincadeiras, pois a criança se expressa melhor assim. Claro, de tempos em tempos são realizadas sessões com os responsáveis pela criança, para que recebam as informações sobre o andamento do processo, sejam orientados e tirem suas dúvidas. Já o atendimento com adultos acontece com base principalmente na fala. Algumas linhas psicanalíticas mais tradicionalistas estimulam que o paciente fale mais e o terapeuta apenas pontue suas interpretações em alguns momentos. Mas hoje em dia a maioria dos psicólogos trabalha de forma mais interativa, como uma conversa mesmo. Dependendo da linha teórica seguida pelo profissional e do caso atendido, outros elementos se incluem nos atendimentos, como análise de sonhos, técnicas corporais, relaxamentos, etc.

Basicamente é isso. Para terminar, dois pontos fundamentais. O primeiro é a ética, o sigilo. Isso significa que os psicólogo não pode expor o que acontece no atendimento sem que o paciente autorize. E, mesmo quando autoriza, o caso é exposto sem informações que possam identificar sobre quem se fala (nome, lugar onde trabalha ou estuda, dados irrelevantes para a compreensão do caso, etc.). Mesmo quando atendemos crianças e damos uma devolutiva aos responsáveis, não se fala sobre o que a criança fez ou disse, mas sim sobre como percebemos o processo. O segundo ponto é a importância do psicólogo ter passado por um processo terapêutico. Como mexer na escuridão dos outros se não conhecemos bem os caminhos e percalços da nossa própria escuridão? Conheça muito bem o seu mundo interior antes de se aventurar pelo de outras pessoas.

Espero ter contribuído.
beijos,
Bia

Para participar da coluna Ágora, envie a sua pergunta para o email bf.carunchio@gmail.com, você também pode participar enviando sua pergunta através da nossa página no Facebook ou do meu perfil pessoal.  Você tem a opção de se identificar ou de se manter como anônimo.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Veja o outro como ele é: uma questão de identidade

"Aquele que conheceu apenas a sua mulher, e a amou, sabe mais de mulheres do que aquele que conheceu mil." - Leon Tolstoi (1828-1910), escritor russo

Podemos olhar para uma pessoa através de muitas lentes e de ângulos muito diferentes. E dependendo da lente e do ângulo que escolhermos (ou que se apresentam disponíveis para nós), estabeleceremos um tipo diferente de relacionamento com a pessoa em questão. Vamos começar pensando nas identidades. A identidade de alguém não se baseia apenas em quem a pessoa acredita que é. Ninguém vive só. Por menos pessoas que tenha a sua volta, mesmo que se considere pouco sociável, todos estamos inseridos em algum tipo de grupo, sendo o mais básico o que podemos pensar como esta época, lugar e meio cultural. Esses grupos (e outros, como a família, os amigos, os colegas da escola ou do trabalho, o grupo religioso, etc.) nos ajudam a definir nossa identidade. Como todos sabem, não somos sempre os mesmos, mudamos e nos transformamos ao longo da vida, em cada pequeno momento do nosso dia a dia. Assim, diz Ciampa, psicólogo brasileiro de grande destaque no estudo da identidade, nossa identidade é um processo constante de transformação, a qual ele chama de "metamorfose". Identidade é metamorfose, e não algo estanque que se forma e em dado momento termina. A identidade só termina com a morte. Talvez nem com ela, pois os que ficam mantém viva a memória e a identidade do que se foi...

Mas voltando ao tema! Hoje não vamos conversar sobre a sua identidade, e sim sobre a identidade dos outros. Quem é o outro? Antes mesmo de falar com a pessoa, já se começa a ter ideias sobre a identidade dela. Onde a encontramos? O que ela faz? Como se veste? Como caminha, como se move? São elementos simples mas que, mesmo que a gente não queira, começam a nos fazer pensar sobre quem ela é. Algumas pessoas podem achar que daí é que surgem os preconceitos... e elas estão certas! Vemos o outro com lentes preconceituosas sempre que supomos coisas sobre a pessoa que não sabemos ao certo se são verdadeiras. Nem todos que estão de terno trabalham em cargos de comando. Nem sempre a moça bonitona é fútil. Nem todas as pessoas tatuadas, ou com cabelos coloridos, ou com roupas fora do convencional são mau caráter. Nem todo morador de rua é ladrão ou preguiçoso. Mas, independente de querermos ou não, criamos conceitos sobre os outros quando olhamos para eles, e esses conceitos têm base nos nossos valores e nos valores exaltados pelo meio cultural, época e local em que vivemos. Isso é o que Ciampa chama de identidade pressuposta. "Pré-supomos" coisas sobre o outro antes mesmo de conhecê-los, e iniciamos a interação com base nessas suposições e preconceitos.

Relacionamentos sinceros acontecem
quando nos permitimos ver o outro
como ele é e, ao mesmo tempo,
nos damos a conhecer com sinceridade.
 Depois, conforme um contato se inicia, surge a identidade posta. Como o outro se apresenta? Como se mostra para nós? Veja bem que não estamos falando sobre como ele realmente é, mas sim sobre como nós o percebemos num primeiro contato. Fatores que contribuem para que se comece a ampliar a identidade do outro para algo mais concreto, para algo posto: a linguagem que a pessoa usa, tom de voz e ritmo de fala, a forma como olha (ou não olha) para nós, expressões faciais, postura corporal, gestos que utiliza, sobre o que se fala, como se comporta, como é o humor... Ele é ranzinza ou só está tendo um dia difícil? Ela é sempre tão sociável assim ou quer alguma coisa? Esse menino deve ser hiperativo, por que não se senta? E os pais, por que não dizem nada? Perceba como a pessoa começa a ficar mais delineada. Saímos das suposições tão gerais e vagas, entramos no campo das possíveis características de personalidade, começamos a pensar que conhecemos os possíveis valores desse outro.

Mas o que isso tem a ver com relacionamentos? Numa interação, ou pelo menos numa interação minimamente saudável, precisamos perceber o outro. Quando essa percepção do outro não acontece, temos uma pessoa com grandes dificuldades de relacionamento, seja pelo egocentrismo, seja por transtornos do desenvolvimento (por exemplo, pessoas com autismo têm dificuldade em perceber os outros), seja apenas por uma necessidade de "desembaçar as lentes" e olhar para o outro sem medo. Mas, pensando em pessoas que percebem o outro, noto que muitos dos conflitos dos relacionamentos surgem porque a percepção para por aqui. Viu a identidade pressuposta, deu uma olhadinha na identidade posta e fim! O outro é isso. Tão previsível! E, quando a pessoa menos espera, o outro muda! Fica frio, ou ao contrário, se aproxima com intenções bem diferentes das nossas. Ou só fingia ser nosso amigo e na verdade é um falso! Reparem quantas pessoas reclamam da falsidade dos outros... E aí fica a pergunta: existe mesmo tanta gente falsa e mau caráter no mundo ou existem pessoas que não se dão ao trabalho de ver o outro como é? De conhecer o outro de verdade?

Ninguém muda da noite para o dia. Mudanças, em especial as mudanças marcantes e duradouras, ocorrem num processo gradual, de dentro para fora. Nem sempre olhamos para o outro, mas mesmo assim, o outro sempre se mostra para nós, ainda que não se queira ver. Certa vez, quando eu era recém formada, atendi um casal em crise, estavam juntos há oito anos. Contando a história deles, comentaram que se conheceram num ponto de ônibus e foram morar juntos na semana seguinte. É claro que em algum momento surgiria um conflito. Não só porque todo relacionamento, em algum ponto, tem suas tensões, mas por não se permitirem olhar para o outro da forma como são, não chegaram a se envolver de verdade com a pessoa do outro. Ambos alegaram que não mudaram, e ambos tinham razão. O que acontecia é que nenhum dos dois aceitava perceber o outro, apenas porque é muito mais confortável ficar com aquela impressão inicial do que conhecer o outro de verdade. Para encurtar a história, o casal continuou junto, depois de passar por um processo muito bonito de conhecimento mútuo.

Como conhecer o outro de verdade, diminuindo conflitos desnecessários nos relacionamentos? Observando, ouvindo, sentindo, mas também se dando a conhecer. O outro não é um objeto frio e distante, por isso só o conhecemos na interação sincera, na convivência. Muitos dos "falsos" na verdade apenas não foram devidamente conhecidos. Muitas características até são vistas mas, no início do relacionamento, tentamos manter a ilusão. Ah, ele vai mudar... Ela trata mal os pais, que independente!! Ele não é ciumento demais e nem controlador, só se preocupa comigo! Algumas vezes somos nós mesmos os responsáveis pela "falsidade" do outro, pois resistimos a deixar ir embora a fase das aparências e do encantamento. Tentamos mantê-las a todo custo. Mas vale a pena?

Claro que olhar além das aparências algumas vezes pode doer. É o preço de um relacionamento sincero. Alguns conflitos podem surgir, pois a imagem que criamos do outro com base nas identidades pressuposta e posta se choca com a forma como o outro é. No entanto, se os possíveis conflitos são superados com maturidade, há um grande crescimento para ambos e um grande amadurecimento da relação. Surge a cumplicidade e o envolvimento. Não estou dizendo que precisamos aceitar o outro seja ele como for. Apenas precisamos olhar para ele. Sim, ele é ciumento e controlador e quando a relação ficar mais séria ele não vai mudar isso. Sim, ela trata mal a família dela e, na certa, fará o mesmo com você quando se envolverem um pouco mais. Não, eles não vão mudar a não ser que queiram e trabalhem para que isso aconteça.

O que fazer com o que viu? Avaliar bem se é o que você busca num relacionamento. E, com tudo às claras, dar os passos seguintes, sejam eles quais forem, mas sempre conhecendo a situação e consciente do que escolheu. O outro pode escolher ser verdadeiro ou mostrar-se de forma falsa mas, mesmo que a pessoa realmente seja "falsa", sempre acaba por mostrar quem é nos pequenos detalhes. A nós, por outro lado, cabe decidir se queremos ver o outro como ele realmente é, se estamos prontos para aceitar a realidade ou se queremos manter a máscara. 

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Mythos - Perséfone: Quem você foi antes de se tornar quem você é?

Este é um mito grego do qual gosto muito, pois sua linguagem simbólica nos conta sobre o processo de crescer e abrir nosso mundo para novas realidades, tornando-nos quem realmente somos (ou queremos ser).

Perséfone é a deusa da primavera. Nesse momento do mito, ela é conhecida por Core, que em grego significa "menina". Ela vivia com sua mãe, Deméter (deusa da colheita e da fertilidade). Um detalhe fundamental para que se compreenda o mito: Deméter é, também, o arquétipo da mãe, pois a colheita e a fertilidade estão muito relacionadas ao nutrir, ao cuidar. E sendo o arquétipo materno, não é difícil concluir que Deméter realmente gosta de ser mãe, tanto que esse gosto algumas vezes passa dos limites e cai numa superproteção, que pode fazer a filha se sentir sufocada.

Perséfone chega ao submundo.
Imagem de minha autoria.
Certo dia Perséfone colhia flores num campo com suas amigas ninfas. Elas colhiam lírios, que no mito podemos associar à inocência. De tanto que se divertia, se afastou do grupo sem perceber, atraída por uma flor que nunca havia visto, o narciso. Note que o prefixo da palavra narciso ("nar") é o mesmo de palavras como narcótico, relaciona-se a torpor. Quando a jovem colheu o narciso, uma fenda se abriu sobre a terra e de lá saiu Hades, em seu carro puxado por cavalos negros. Hades é o deus do mundo dos mortos, que havia se apaixonado pela deusa da primavera (do retorno da vida), tão oposta e, ao mesmo tempo, tão semelhante a ele mesmo. Hades raptou Perséfone e levou-a para seu reino no submundo. A fenda na terra se fechou de pronto, fazendo com que aparentemente ninguém soubesse o que havia acontecido.

Outro fato importante para compreender este mito: na Grécia Antiga, era costume que o noivo raptasse a noiva da casa de seus pais, provando assim sua "capacidade" e seu "valor". Neste caso específico, Zeus, o líder dos deuses e pai de Perséfone, havia concordado concordado que Hades desposasse sua filha. Deméter, no entanto, não sabia de nada, e sendo uma mãe cuidadosa e superprotetora, entrou em desespero ao perceber que a filha havia desaparecido. Durante 9 dias, ela percorreu o mundo inteiro procurando por Perséfone, sem encontrá-la. No décimo dia, Hélio teve pena do desespero da deusa e contou-lhe o que havia acontecido. Hélio é o titã que representa o sol. Sendo assim, tanto por sua luz e brilho, como pela posição privilegiada em que cruza o céu todos os dias, ele é quem vê tudo e sabe de tudo. Sabendo do que houve, inclusive que Zeus havia decidido o futuro da filha sem nem ao menos dizer a elas, Deméter perde sua função, perde o sentido que dava a sua vida (ser mãe). Porque perdeu a alegria de viver, Deméter envelhece (ou, por ser uma deusa, transforma-se numa velha) e vaga sem rumo pelo mundo.

Enquanto isso, no submundo, Perséfone se recuperava do susto do rapto, da falta que sentia da mãe e de sua vida de antes, e começava a se acostumar com sua nova realidade. Importante dizer que no submundo, assim como no nosso inconsciente, o tempo passa de forma muito diferente do mundo dos vivos / da realidade externa. Hades é um deus muito temido pelos gregos, as pessoas evitavam até mesmo dizer seu nome, preferindo títulos como "o rico" (em almas e em preciosidades, seja as do inconsciente, seja as riquezas que existem abaixo da terra). Conforme Perséfone o conheceu, percebeu que não era bem assim. Hades era um deus pouco compreendido e também pouco conhecido, já que raras vezes saia do mundo dos mortos. Ela percebeu que ele não era terrível e assustador como diziam, era um homem gentil e maduro, com um mundo interior criativo e cheio de potenciais (a semente precisa ser enterrada - ir para o mundo dos mortos - para que brote e dê frutos).

Andando sem rumo pelo mundo, Deméter chegou a Elêusis, onde as princesas da cidade-estado a encontraram e a levaram para o palácio. Lá, o rei Celeu e a rainha Metanira tiveram pena da velha que perdera a única filha e, sem saber que se tratava de uma deusa, permitiram que Deméter ficasse no palácio, como ama do bebê do casal, Demofonte. O dia a dia no palácio, fazendo algo que gostava, cuidando amorosamente do bebê como se fosse seu próprio filho. Ela se envolveu tanto com a tarefa que resolveu transformar o menino em imortal. Todas as noites, depois que ele adormecia, Deméter o envolvia com néctar (a bebida dos deuses) e o colocava no fogo (relacionado à transformação), fazendo um ritual. No último dia do ritual, a rainha Metanira viu o que acontecia e, horrorizada, retirou o filho do fogo, impedindo a conclusão do ritual. Demofonte continuaria humano, não poderia suprir o vazio emocional deixado pela perda de Perséfone e, percebendo isso, Deméter se revelou como deusa em todo seu esplendor. Ela declarou então que, enquanto não recuperasse a filha, nada cresceria na terra, que ficou coberta de gelo.

Deméter apelou a Zeus para que trouxesse a filha de volta. Ele negou, já havia permitido o casamento com Hades e não poderia trazer a moça de volta para sua mãe. A onda de frio persistia, Deméter dizia que, se não recuperasse a filha, nada mais viveria sobre a terra. Algum tempo passou, os seres humanos, animais e plantas começavam a morrer, seja de fome, seja de frio. Nesse ponto, Zeus já estava preocupado. Se Deméter continuasse com sua greve, a humanidade inteira morreria. E, sem seres humanos, o que seria dos deuses? Quem iria honrá-los e cultuá-los? Como continuariam existindo sem as crenças das pessoas?

No submundo, Perséfone e Hades já haviam se apaixonado e estabelecido um relacionamento, ambos felizes e satisfeitos com a situação. Certo dia, Hermes, o deus mensageiro (e um dos únicos a ter livre acesso ao mundo dos mortos) trouxe uma mensagem de Zeus, que pedia a presença de Hades no Olimpo para decidirem o que seria feito com a situação de seu casamento e das consequências que trouxe para Deméter, para a humanidade e, se nada fosse feito, para os deuses. Hades conversou com Perséfone. Era certo ela continuar lá? Era adequado pensarem em sua felicidade quando o mundo inteiro perecia? Mas, ao mesmo tempo, eles se amavam e não queriam deixar um ao outro... o que fazer? Foi quando tiveram uma ideia. De acordo com as leis do mundo dos mortos, quem comece o alimento dos mortos ficaria para sempre preso a ele. Hades deu a Perséfone uma romã, fruta associada aos óvulos pela quantidade de sementes e pela cor vermelho sangue de seu suco. A deusa comeu algumas sementes de romã, em algumas versões 4, em outras 6 sementes.

De volta ao Olimpo, Deméter percebe que Perséfone está diferente. Não é mais uma garotinha, mas sim uma mulher. Uma mulher forte e que deseja seguir seu próprio caminho, tornando-se a rainha do mundo dos mortos ao lado de Hades. Mas, ao mesmo tempo, Perséfone se preocupava com a mãe e não queria deixá-la sozinha. Diante do ponto de vista da filha, Zeus propôs um acordo: Perséfone passaria no submundo o número de meses por ano correspondente ao número de sementes de romã que comeu (4 ou 6). Os meses que Perséfone passa no submundo, correspondem aos meses de inverno, quando Deméter lamenta a morte da filha. Quando chega a primavera, ela retorna para a terra, vivendo com sua mãe.

Uma curiosidade para terminar este mito. Os reis de Elêusis ficaram tão honrados por haverem tido uma deusa entre eles que construíram na cidade um grande templo para Deméter. Também sentindo-se grata, Deméter ensinou o outro filho do casal, Triptólemo, a cultivar trigo e fazer pão, instruindo-o a passar este conhecimento a toda a humanidade. Todos os anos acontecia em Elêusis uma grande procissão de Atenas até o templo de Elêusis, quando os iniciados presenciavam o mistério da deusa, o Hiero Gamos (casamento sagrado), um poderoso rito de fertilidade e renovação.


Questões para Reflexão:

1- Ao perder a filha para o deus dos mortos, Deméter passa por um processo de luto em suas diversas fases: negação (os nove dias procurando a filha pelo mundo, atuando como ama de Demofonte e tentando fazer o menino tornar-se um imortal para que suprisse o lugar emocional da filha), raiva (deixa de prover a terra com alimentos e cobre-a de gelo), barganha (tenta negociar o retorno de Perséfone com Zeus e com Hades) e, por fim a aceitação (aceita perder a filha para o mundo dos mortos por alguns meses todos os anos). Um processo de luto saudável pode perdurar por até 6 meses. Lembre-se de alguma perda muito significativa que você teve. Como reagiu a ela? E como a superou? As perdas nos transformam. Mesmo depois de superá-las, já não somos mais os mesmos.

2- Quando Perséfone é levada ao submundo, ela vivencia um intenso rito de passagem, deixa o papel da filha para ocupar os papeis de esposa e de rainha. É uma mudança muito significativa mas, para que ocorra, foi preciso permitir a morte de Core (menina). É preciso deixar de colher os lírios e se permitir conhecer o narciso... É preciso comer as sementes de romã... Crescer e amadurecer nem sempre é fácil, independente da idade que se tenha. Porque é preciso deixar um mundo e um modo de vida conhecido e confortável e abrir-se para o novo, para o incerto. Qual foi a transformação mais intensa pela qual você já passou? Quem é você depois disso?

3- Percebo um significado maior nas viagens de Perséfone entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Por que ela alterna seu tempo entre a mãe e o marido? Simples! Porque por mais que a gente se transforme, aquele que já fomos um dia de certa forma continua a existir dentro de nós. A mãe já foi filha. O velho já foi jovem. Talvez o agressor já tenha sido a vítima. A psicóloga já foi apenas uma estudante meio entediada, lendo livros de mitologia numa aula qualquer... O inverno não se vai para que a primavera chegue, mas é o próprio inverno que se transforma em primavera, e chega com a força da vida porque já se permitiu conhecer a frieza da morte. Assim somos nós, nunca deixamos de ser quem costumávamos ser, nos tornamos outros e nos transformamos apenas a partir daquele que um dia fomos, e que sempre marcará nossa identidade. Quem você foi antes de se tornar quem você é?

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Ágora - Pessoas difíceis de lidar

Oi Bia gosto muito do seu blog. Queria saber pq algumas pessoas são tão difíceis de lidar????? Na minha cidade tem só gente chata e difícil, um monte delas!!!!! kkkkk ...........bjs
Anônimo


Bom dia Anônimo!

Mas que coisa, hein?! Uma cidade cheia de pessoas de relacionamento difícil? Bom, vamos lá! Um relacionamento é sempre um desafio (seja um relacionamento amoroso, de família, de amizade, de trabalho, ou aquelas interações sociais que a gente tem no nosso dia a dia, tipo com o caixa do supermercado, com o motorista do ônibus, com o vizinho, com o médico, ou com alguém numa fila qualquer...). Digo que é um desafio porque, quando entramos em qualquer tipo de interação com outra pessoa, precisamos conectar a nossa subjetividade (nossas ideias e sentimentos quanto ao "tópico" do relacionamento, nossos valores, nossa consciência da nossa história, a visão que temos do outro com quem interagimos, etc.) à subjetividade da outra pessoa. Dá para imaginar que a subjetividade de ninguém é igual a de mais ninguém, cada um de nós é único. Num relacionamento, podemos dizer que estamos num terceiro campo, isto é, nem apenas na nossa subjetividade, nem apenas na do outro, mas num local onde ambas se tornam uma terceira coisa, que se chama intersubjetividade. Como essas duas subjetividades se relacionam nesse terceiro campo que se cria nas relações depende de cada pessoa! Algumas vezes, as subjetividades se conectam... outras vezes, elas se interpõem... outras vezes, ainda, uma tenta prevalecer sobre a outra... Outras vezes elas se mesclam quase que por completo... as formas de estabelecer relacionamentos são tantas quantas as possibilidades de interação que o convívio com os outros nos permite. Qual dessas formas é a melhor? Nenhuma! São formas diferentes de estabelecer relações e vínculos. O que podemos questionar é qual é a melhor para você.

Diante desse cenário, é normal e até esperado que algum tipo de conflito possa surgir dos relacionamentos. Ah, um conflito não quer dizer necessariamente uma "briga". Um conflito acontece sempre que algum detalhe do nosso mundo interno não coincide com o mundo interno do outro. Mas, que fique claro, existem muitas formas de lidar com essas diferenças, a escolha é sempre nossa. Não falo apenas de respeitar as diferenças (mesmo porque isso é fundamental), mas sim de como vamos interagir na prática com as ideias, valores e comportamentos diferentes daqueles que nós teríamos. Evitando-os? Tentando aprender sobre novas formas de vida? Refletindo sobre o nosso próprio jeito de pensar e de agir? "Passeando" ocasionalmente pelo jeito do outro?

Tendo em vista seu comentário, acho importante falar um pouquinho sobre projeção. Em psicologia, uma projeção acontece sempre que vemos no outro alguma característica (boa ou ruim) que na realidade é nossa mas não aceitamos vê-la em nós mesmos. Claro que é normal existir algum conflito nas relações... Também pode acontecer de encontrar uma pessoa ou outra que é tão diferente de nós que simplesmente não sabemos como lidar com ela. Mas quando a cidade inteira é formada por pessoas difíceis, é preciso começar a questionar se a dificuldade não está em nós mesmos, seja na nossa intolerância, seja apenas por não saber ao certo como se relacionar com os outros. Nos dois casos, um psicólogo pode ajudar bastante a pessoa a começar a ver suas relações com um novo olhar. Mesmo porque não temos como mudar outra pessoa, apenas podemos mudar a nós mesmos... E como mudar algo que não aceitamos sequer perceber que é nosso? Difícil...

Muitas vezes esses conflitos são levados ao extremo, seja pelos envolvidos terem uma competitividade exacerbada, seja por uma das partes (ou ambas!) não conseguir perceber de verdade o outro, como um sujeito com seus próprios valores, seus próprios planos e ideais. Há algum tempo atrás, escrevi o artigo Pessoas que acham que sempre têm razão (clique para ler!), em que detalhamos um pouco mais essas questões de dificuldade na interação social.

No mais, apesar de poder gerar conflitos, nada nos faz crescer tanto quanto os relacionamentos (e o gerenciamento das diferenças). É nos reconhecendo no olhar do outro que podemos amadurecer e nos tornar quem somos; seja pelas afinidades, seja pela percepção respeitosa das diferenças. A vida acontece nas relações.

beijos,
Bia


Para participar da coluna Ágora, envie a sua pergunta para o email bf.carunchio@gmail.com, você também pode participar enviando sua pergunta através da nossa página no Facebook ou do meu perfil pessoal.  Você tem a opção de se identificar ou de se manter como anônimo.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Tudo pronto para o recomeço!

Logo será primavera no hemisfério sul. E com a primavera chegam as flores e os ventos de esperança num novo ciclo. Talvez alguns leitores tenham notado que nos últimos textos temos trabalhado os fins de ciclos. Terminar nem sempre é fácil, algumas coisas ficam para trás e nem sempre é tão simples dizer adeus ao conhecido e certo, mesmo que já não nos sirva mais. No entanto, essa despedida é fundamental para que haja um recomeço. Hoje, às vésperas da primavera, vamos conversar um pouco sobre o recomeço e o início de novos ciclos.

Quando se passa por algum rito de passagem (algum tipo de iniciação, formatura, casamento, menarca, parto ou menopausa, etc.), como já comentei em outros artigos, existe um tempo, muito breve, em que não somos nada, não temos um status. Deixamos o antigo para trás e ainda não entramos no novo. Isso é uma das coisas que mais assusta quando falamos sobre recomeços. Perdemos o status anterior, isto é, já não podemos mais dizer que somos quem costumávamos ser, mas ao mesmo tempo ainda não temos o novo status. De certa forma, apesar de angustiante para algumas pessoas, esse processo é necessário em toda mudança. Se quisermos vivenciar a mudança e o novo ciclo de maneira envolvida, estando presentes de verdade na situação, precisamos nos despir completamente do velho. Sem medo. Ou melhor, apesar do medo. Mudanças acontecem na vida de todos, mas para serem bem aproveitadas, precisam de um ambiente propício, precisamos estar abertos às transformações e disponíveis para o novo.

Você está pronto para o novo? Separei algumas sugestões para fazer essa reflexão e, ao mesmo tempo, preparar-se para um novo início:
- Verifique quais as pendências estão presentes na sua vida. Ah, e seja detalhista, considere todas as áreas da vida e todo tipo de pendência: profissionais, financeiras, relacionamentos que já não fazem sentido mas insistimos em nos agarrar a eles, comportamentos e atitudes que não demonstram nossos reais desejos e necessidades, emoções que não nos fazem bem... 
- Livre-se de todo tipo de lixo, seja o "lixo" que acumulamos nos armários e gavetas de papéis, seja o lixo emocional que guardamos dentro de nós. Nossa realidade interna e externa são reflexos uma da outra, por isso, sempre que trabalhamos uma dessas realidades, a outra também é modificada. O ideal é mexer em ambas as realidades para resultados mais precisos. Esse movimento de livrar-se do lixo (interno e externo) é uma forma de dizer ao nosso inconsciente que estamos abertos para o novo e para as mudanças.
- Um exercício de respiração para nos ajudar nesse processo de renovação: Inspire profundamente e, ao deixar o ar sair (devagar), veja saindo de dentro de você uma fumaça escura e densa. Deixe sair tudo. Você pode visualizar através de símbolos, elementos que você gostaria que deixassem sua vida: conflitos emocionais, problemas, dores... Quando inspirar novamente, veja o ar puro e limpo entrando pelo seu nariz, acompanhado de símbolos de recomeço e positividade, como flores, estrelas, laços, coraçõezinhos, ou o que quer que, para você, simbolize uma vida plena e renovada.
- Faça um balanço do ciclo anterior. O que foi alcançado, quais metas você atingiu, o que precisa melhorar, quais surpresas (agradáveis ou nem tanto) teve... Como a vida te surpreendeu?
- Agora planeje o novo ciclo! Quais metas você tem? Quando falo em metas, muitas pessoas entendem algo profissional ou grandioso, mas não precisa ser necessariamente algo assim. Pequenas metas também podem ser necessárias. Será que precisa se divertir mais? Estudar ou trabalhar com maior dedicação? Talvez queira desenvolver uma nova habilidade ou mudar algum comportamento... Enfim, tenha claro para si o que você espera do novo ciclo, nossa vida não precisa ser aleatória, pode sim ter sentidos.

Por fim, lembre-se que os recomeços dependem menos do mundo externo e muito mais de nós mesmos. Existem épocas em que estamos mais voltados para recomeços, como em ritos de passagem, ano novo, primavera, páscoa, aniversário... Mas independente da data, sempre é tempo de recomeçar e de fazer diferente. É sempre tempo para despir-se de toda insegurança e então deixar ir o que não nos serve mais. É sempre o momento certo de nos permitirmos rebrotar e nos reinventarmos com escolhas autônomas e que nos fazem mais felizes.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Mythos - Baba Yaga: aceitando os ciclos

Hoje vamos conversar sobre uma figura muito comum nos contos de fadas russos e no folclore dos países do leste europeu, Baba Yaga. Sua interpretação muda um porco conforme a cultura, por exemplo, enquanto nos contos russos ela é uma bruxa má, no folclore da Hungria, por exemplo, Baba Yaga é uma fada boa. Em todos os casos, no entanto, essa personagem tem pontos em comum: é representada por uma mulher muito idosa ("baba", em russo antigo, significa velha, feiticeira e contadora de histórias/sábia - isso revela como a mulher idosa é/era percebida nessas culturas). Como tantas feiticeiras de contos de fadas, ela vive numa cabana na floresta. Mas há uma peculiaridade sobre a cabana da Yaga, ela é construída com os ossos dos mortos e tem pés de galinha, por isso a casa pode mudar de lugar com frequência, confundindo e surpreendendo os viajantes desavisados.

Imagem: Nik-Ants, deviantArt.
Outra coisa interessante sobre a Baba Yaga é o seu lado destrutivo. Ela não apenas tem uma casa construída com ossos dos mortos, mas também devora crianças. Além disso, viaja montada num almofariz (um objeto no qual se mói grãos e outros alimentos). Isso sugere a questão do sacrifício. Em tempos passados, o sacrifício era muito mais explícito do que hoje, pois era literal. Em diferentes culturas, pessoas e/ou animais eram sacrificados como forma de garantir proteção ao grupo, transformações, e diversos outros fins. Algumas vezes, como a história da Yaga mostra, produtos como grãos (e, mais tarde, pães e bolos) eram "sacrificados", assim como leite, vinho e mel e outros alimentos, que eram oferecidos a diversas divindades como forma de agradecimento ou de fazer algum pedido, compartilhando o que o grupo tinha de melhor e que poderia agradar à divindade em questão. Nos dias de hoje ainda fazemos sacrifícios, embora geralmente sejam mais simbólicos, como no campo dos comportamentos e atitudes.

Em nossa vida, os aspectos da nossa personalidade que não são vivenciados de forma construtiva, acabam por se mostrar de maneiras destrutivas, seja na forma de sintomas, crises, conflitos, acidentes... Baba Yaga nos mostra, ao viajar num almofariz, a importância de alimentar a nossa vida. Os grãos que seu almofariz é capaz de moer não se sacrificaram ao acaso, e sim com o objetivo de nos fortalecer, nos alimentar, enfim, manter a nossa vida. Da mesma forma, a casa construída com ossos mostra que aqueles aspectos nossos que parecem "mortos" ou profundamente adormecidos podem ser a nossa maior base. Se unimos a imagem da morte ao almofariz, temos a morte/sacrifício como um portal para grandes transformações (lembre-se que, ao serem moídos, os grãos se tornam farinha, cujos produtos são a base alimentar de muitos povos). Assim, os fins de ciclos (representado na figura mitológica pela imagem da anciã) ganham um potencial transformador, preparando-nos para novas etapas, novos ciclos e renovações diversas.


Questões para Reflexão:

1- Como você lida com as mudanças da vida? Existe algum medo ou receio nesses momentos? Algumas pessoas vêem o começo dos ciclos com bom ânimo, outras com incerteza. Já o fim dos ciclos podem ser vivenciados como transformadores, portas para novos começos, ou como fins absolutos, fazendo com que a pessoa se feche para os recomeços. É normal ter certo receio dos fins, afinal, não sabemos o que vem pela frente no novo ciclo, é difícil trocar o conhecido pelo incerto... Mas esse sentimento não pode ser forte o bastante para nos paralisar, precisamos ser nutridos pela Baba Yaga, precisamos nos manter fortes e confiantes no futuro. Isso acontece através do planejamento da finalização e do novo ciclo, bem como mantendo o foco na sabedoria acumulada no ciclo que termina. O que esse ciclo te ensinou e será levado para as próximas etapas de vida?

2- A pessoa sacrifica algo ou a si mesma sempre que transforma aquilo que será sacrificado em algo sagrado. O que cumpre função sagrada para você? Não estamos falando (necessariamente) de religião ou espiritualidade. Quem ou o que está em primeiro lugar na sua vida? Podemos viver por muitas coisas... mas o que é tão importante para você a ponto de valer seu sacrifício, sua morte (simbólica)? O que te nutre?

3- Perdemos o contato com o envelhecimento. Vivemos numa realidade em que todos "precisam" ser (ou parecer) sempre jovens. Juventude virou sinônimo de saúde e beleza, como se não existisse estética no processo de envelhecer e nas pessoas mais idosas... Quantos anos você tem e quantos anos tem a sua mente? E o seu coração? Um problema vindo desse conflito com o envelhecer é a questão da sabedoria. "Baba" significa idosa, mas também sábia e feiticeira (aquela que transforma). Como um rosto que fica eternamente na casa dos 20 e poucos anos pode aprender e se transformar, como pode demonstrar a sabedoria conquistada nos anos vividos? Por que negamos esse presente? Quando não nos permitimos envelhecer, nos negamos a maior transformação pela qual podemos passar: viver a nossa história.

4- Vamos fazer um breve exercício. Sente-se confortavelmente e respire fundo. Enquanto expira, relaxe todos os músculos do seu corpo. Repita a respiração mais duas vezes. Veja-se em frente a uma senhora muito idosa. Não tenha medo de olhar para ela. Repare em seus cabelos brancos e ralos. Repare na pele muito enrugada, nos movimentos vagarosos... Repare na sabedoria que existem nos olhos dela. Aproxime-se dela. Ela sabe quem você é e sabe tudo sobre você. Converse com ela. Conte algo que te angustia, abra seu coração. No fim da conversa, ela te dará um conselho sábio, junto com algum objeto. Guarde esse objeto no seu coração, aproxime-o do seu peito e veja-o integrar-se a você. Respire profundamente. Ofereça, também, um presente para a sábia. Despeça-se e abra os olhos. Saiba que ela estará sempre com você. Sempre que precisar, basta respirar profundamente e conectar-se a ela.

5- Baba Yaga, como vimos, é uma figura poderosa de transformação. A casa de ossos mostra algo aparentemente morto que é usado de forma construtiva, tão viva que até se move (graças aos pés de galinha, a casa da Yaga muda sempre de lugar). Quais aspectos em você ou em sua vida parecem "mortos" ou profundamente adormecidos? Uma vez identificados, é fundamental fazer as pazes com esses pontos seus, permitir que se mostrem de forma criativa. Quem sabe justamente esses aspectos se tornem sua maior força, seu refúgio? Permita-se transformar aquilo que precisa ser transformado, e permita-se também integrar esses aspectos, aproveitando-os de forma construtiva. Nesse potencial para integração e transformação está a essência da sabedoria de Baba Yaga: finalizar os ciclos para que se possa recomeçar.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Oficina de Mandalas

Gostaria de fazer um convite especial. Que tal participar de uma oficina de mandalas? A ideia é aprender um pouco mais sobre essas formas presentes em todas as culturas e épocas, e também sobre nós mesmos. Vamos passar um final de semana agradável em Ribeirão Preto - SP, conversando sobre as mandalas e ainda criando as nossas próprias formas e passando por vivências, trabalhando nosso equilíbrio psíquico e favorecendo a integração da nossa totalidade.

A oficina vai acontecer nos dias 09 e 10 de novembro, na Book Club - Centro Cultural e Linguístico (conheça o site e a página no Facebook). Inscrições através do e-mail bookclub@bkclub.com.br
Mais informações abaixo. 
Aguardo vocês lá!


sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Ágora - Como ser mais criativo

Você pode dar algumas dicas de como ser mais criativo? Não sou nada criativo e ouvi dizer que a criatividade ajuda a inteligência, por isso queria melhorar esse meu lado. Obrigado.
Junior - Brasília


Olá, Junior!

A ideia que se tem de inteligência hoje em dia, entre os psicólogos, é bem diferente da que se tinha anos atrás. A inteligência não é uma só, é múltipla (linguística, numérico-matemática, corporal, interpessoal, emocional, etc.). Assim, inteligência envolve todo tipo de habilidade que pode nos ajudar a resolver bem os desafios da vida, não apenas os desafios acadêmicos e escolares, mas também as situações do dia a dia, como situações sociais e interpessoais. Isso significa que existem diferentes estilos de inteligência, sem que um seja melhor ou pior que a outra, cada pessoa se sairá melhor em atividades relacionadas às suas habilidades.

Vejo a criatividade como algo ligado ao ousar. Ousar tentar algo novo, ou mesmo ousar tentar algo já muito conhecido através de novos caminhos. Um ponto importante sobre as diferentes características que compõem a nossa personalidade, é que todos temos todas elas. Algumas vezes as temos num grau mais alto e elas se destacam, a ponto de alguém nos definir através dela: "Fulano é tão sociável!" Outras vezes, as temos num grau mais mediano, quando certa característica nem se destaca e nem deixa a desejar, apenas cumpre sua função. É o caso do estudante que, por exemplo, nem se destaca em matemática, mas consegue notas satisfatórias para não perder o ano. Outras vezes, essas características são baixas ao ponto de pensarmos que não as temos, como quando você me conta que "não é criativo". O que geralmente acontece é que essas características que acreditamos que não temos, ou que temos num grau muito baixo, estão na nossa sombra, naquele lado menos acessível e mais profundo da psique. No plano da consciência, geralmente as características que temos em baixa são supridas por seu oposto/complementar. Por exemplo, existem pessoas muito atentas e focadas na realidade. Outras têm essa atenção concentrada como uma característica mais rebaixada, e isso pode ser suprido por uma postura mais criativa perante a realidade. Da mesma forma, por exemplo que existem pessoas que vêem o mundo ao seu redor de forma mais emocional ou, ao contrário, mais racional. Mesmo as características mais rebaixadas e/ou que estejam na sombra podem sim ser trazidas para o consciente. Aliás, isso é muito saudável.

Algumas sugestões para exercitar a criatividade:

- Permita-se errar. Sem a pressão de ter que acertar sempre, a mente pode trabalhar com maior liberdade e se permitir perceber o mundo de outra forma e executar as tarefas de novos jeitos.

- Veja a situação de outro jeito. Mude o ângulo de visão e a realidade mudará. Uma boa forma de exercitar isso é descrevendo ou desenhando um objeto. Depois, vire-o e faça o mesmo, olhando-o por um novo ângulo. Nossa mente generaliza essa habilidade de "ver sob outro ângulo" para as diferentes esferas da vida.

- Leia mais, especialmente leituras não teóricas, como romances, contos, obras de ficção e de poesia. Isso nos permite conhecer outras realidades, que podem ser bem diferentes da nossa, e nos ensina ainda a nos colocarmos no lugar do outro (no caso, do autor, do narrador ou das personagens). Diferente de quando assistimos a uma história pronta, a leitura (ou ouvir alguém lendo) nos obriga a trabalhar a imaginação de maneira mais intensa.

- Crie. Permita-se criar com liberdade. Pode ser criar um desenho ou escultura em argila, pode escrever algo, pode criar receitas na cozinha, criar um novo look com suas roupas e acessórios, novas formas de decorar a casa ou o seu quarto... Neste campo, não há limites!

- Abra-se para o novo. Permita-se ir para seus compromissos percorrendo caminhos diferentes, ouça novas músicas, vá a novos lugares, experimente novos sabores, conheça novas pessoas... Todas essas novidades atuam no nosso cérebro criando novas sinapses, isto é, novas interações entre nossos neurônios, e isso cria novas redes.

- Use a outra mão. Quem é destro pode tentar fazer atividades rotineiras com a mão esquerda, e quem é canhoto, com a direita. Tente comer, escrever, escovar os dentes, se pentear ou o que for com a outra mão. Isso trabalha nosso outro hemisfério cerebral, o não dominante (e mais criativo), além de também favorecer as novas sinapses.

- Entre em contato com o inconsciente, ele é um poço inesgotável de criatividade. Pode ser anotando sonhos, meditando, ou apenas se permitindo imaginar.

- Dê um tempo! Ninguém é criativo com pressa. Por mais ocupado que você seja, reserve um tempinho para si, para olhar as flores, caminhar, tomar um chá... Esse "ficar a toa" também é parte de uma vida equilibrada. Quando estamos o tempo inteiro com pressa, ficamos mais tensos e, com o passar do tempo, mais estressados, e além de não ser bom para a saúde, isso é horrível para a criatividade.

Por fim, ser criativo está muito ligado a se permitir ser quem você é. Permita-se pensar e sentir diferente do que é esperado, permita-se ver a vida pelos seus próprios olhos e vivê-la conforme os seus próprios valores e respeitando as suas escolhas.

beijo,
Bia

Para participar da coluna Ágora, envie a sua pergunta para o email bf.carunchio@gmail.com, você também pode participar enviando sua pergunta através da nossa página no Facebook ou do meu perfil pessoal.  Você tem a opção de se identificar ou de se manter como anônimo.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Permita-se caminhar no seu tempo

"Independência é aceitar a si mesmo antes da aprovação alheia." - Martha Medeiros, escritora brasileira contemporânea.

Vou começar o artigo de hoje contando dois momentos que vivi na última semana. No primeiro eu estava em um museu de história natural. Logo na entrada, havia um magnífico esqueleto de dinossauro, imponente, como se desse as boas vindas a cada visitante. Ao redor dele, inúmeros visitantes observando, estudantes fazendo anotações, e entre tantas pessoas, um menino me chamou a atenção. Devia ter uns 4 ou 5 anos e dizia super animado a quem quisesse ouvir que aquela era a primeira vez que ele via um dinossauro de verdade (ou ao menos o esqueleto...), o quanto ele adora dinossauros e como estava feliz. Ao seu lado, o pai tentava puxá-lo pela mão dizendo que não tinham tempo e que, se o menino não andasse logo, não poderiam ver a sessão dos insetos. Em pouco tempo, o pai apenas segurou a criança no colo e caminhou apressado para o corredor dos insetos. No segundo momento, eu esperava um elevador. Ao meu lado, uma mulher na faixa dos quarenta anos fazia o mesmo com dois menininhos que tinham uns 3 anos. O elevador chegou e todos entramos. Tentei apertar o botão do andar em que ia descer e um dos meninos me impediu dizendo que não. A mãe sorriu e me explicou "ele adora apertar os botões! Quer saber em qual andar você vai descer." Disse ao menino que ficaria no dois. A outra criança disse "o mesmo que nós." Todos esperamos pacientemente até o menino encontrar o botão com o número dois, ficar na pontinha dos pés e, finalmente, apertar o botão. Agradeci. Na saída, demos "tchau" e as crianças nos acompanharam dizendo "tchau tchau" de tempos em tempos, enquanto a mãe esperava pacientemente que eles acenassem e recebessem de volta um aceno enquanto caminhávamos pelo corredor.

O dinossauro que o menino gostou.
O que essas duas histórias têm em comum? O tempo e a falta dele! Ou melhor, a forma como lidamos com o nosso tempo. Em atitudes tão simples, e sobre as quais provavelmente não vão mais pensar depois que passarem, essas duas famílias ensinaram valores muito diferentes às suas crianças. Enquanto a família do elevador ensinou a seguir o próprio ritmo, a respeitar a si mesmo e as próprias necessidades, a família que estava no museu ensinou sua criança a correr, passando por cima dos próprios desejos em favor daquilo que os outros preferem ou do que se espera dela. Insetos, dinossauros e elevadores a parte, quando transportamos os mesmos comportamentos para outros cenários, já com pessoas mais velhas, temos: pessoas que se permitem ser quem são, que se respeitam e são atentas aos próprios desejos e necessidades; e pessoas que passam a vida correndo contra o tempo, contra tudo e todos na expectativa de cumprir tarefas, de atender as expectativas dos outros (ou aquilo que imaginam que sejam as expectativas dos outros). E cumprir tarefa não é viver, é empurrar o tempo de vida com a barriga!

Durante o meu mestrado na PUC-SP, tive a oportunidade de conversar com diversos peregrinos e colher seus depoimentos sobre a peregrinação que fizeram e sobre suas trajetórias de vida. Um fato que me chamou a atenção, foram os conselhos que guardaram da experiência da peregrinação, e que podem ser estendidos para a vida. Neste momento, eu destacaria dois desses conselhos. O primeiro, é nunca carregar mais do que você aguenta. Carregar peso demais numa caminhada longa pode machucar, na vida, carregar mais do que a gente aguenta (emocionalmente) machuca tanto quanto. Ser forte também é saber dizer "não" e reconhecer nossos limites. Para que "carregar" um corredor cheio de insetos quando minha felicidade com o dinossauro é tanta que fez todos ao meu redor sorrirem também? Qual o sentido disso? Crianças de 5 anos vêem insetos todos os dias. Correm atrás de borboletas, espantam moscas, pisam em formigas, caçam mosquitos. Qual o sentido de ver insetos mortos quando tenho algo incrível como um dinossauro bem na minha frente? O segundo conselho dos peregrinos, muito sábio é: ande sempre no seu ritmo. Ir mais devagar ou mais depressa machuca, o corpo perde sua dança no ritmo que lhe seria natural e precisa se esforçar para acompanhar ritmos que lhe são estranhos. Respeite o seu tempo para procurar botões no elevador ou acenar para uma desconhecida, se é isso o que te faz sorrir.

Caminhar no seu tempo é respeitar seu ritmo, suas necessidades e desejos. Durante alguns dias, faça uma avaliação da sua rotina. Viva-a da forma como está acostumado, mas mantendo o foco na questão: estou me respeitando? O que me impede de caminhar no meu ritmo e de me dar o meu tempo? Por mais ocupada que seja uma pessoa, por mais cheia que seja sua agenda, é fundamental ter os "tempinhos de respiro" entre uma atividade e outra. Isso não é luxo, isso é parte do respeito com que tratamos a nós mesmos. Depois de alguns dias, faça um balanço, separe o seu dinossauro dos insetos do seu pai, separe o que faz sentido ser vivido e o que você está apenas atravessando numa dança meio arrastada que não é sua.

No fim, o que dói mais não é viver uma vida que não escolhemos. Sim, isso dói bastante. Mas dói ainda mais perceber que, ao fazermos isso, nós não nos respeitamos. Ora, se nem nós mesmos respeitamos os nossos limites, como esperar que as outras pessoas respeitem? Não respeitam. Porque quando a gente não coloca nossos limites de forma clara, passamos para as pessoas a imagem de que somos "ilimitados", e aí eles podem ir até onde quiserem, não precisam nos tratar como gente! Não somos ilimitados, ninguém é. Por isso, permita-se caminhar no seu ritmo, descobrir os seus próprios ritmos e as suas danças. Apenas assim, conhecendo-se e reconhecendo-se, você perceberá quais são os seus limites e o que te faz sorrir.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Mythos - Hathor: purificar-se

Hoje vamos trabalhar com o mito egípcio da deusa Hathor. Ela é a deusa ligada ao amor, à paixão, aos afetos e prazeres, e a todo tipo de felicidade. Ela é também a deusa do parto e aquela que acolhe as almas após a morte. Estando ligada à felicidade, Hathor também rege a música e a dança, pois os egípcios viam ambas como expressão de felicidade e alegria. Ela era também a antiga deusa do sol, por isso tem duas faces: a Hathor amável, deusa do amor, dos prazeres e de tudo o que é belo; mas também a face destrutiva e fatal, como pode ser o sol do deserto. Depois que Rá passou a ser cultuado como sol, contam os mitos que este deus transformou Hathor numa cobra e a colocou na coroa do faraó. Outras vezes, Hathor é o olho de Rá. Muitas vezes a Hathor afetuosa é vista como a outra face de Sekhmet (para ler sobre esta deusa, clique aqui!).

Um mito que mostra a face colérica de Hathor conta que esta deusa certa vez se enfureceu com a humanidade, pois haviam deixado de cultuar os deuses. Resolveu, então, que puniria aqueles que não prestassem as devidas homenagens aos deuses. E matava essas pessoas, mas matar a levou a um tipo de êxtase e logo Hathor perdeu o controle e passou a matar qualquer pessoa viva que encontrasse. Muito depressa, Rá percebeu que precisava agir e foi se aconcelhar com Toth, deus ligado à cultura e à sabedoria. Ele sugeriu que Rá inundasse a Terra com cerveja. Assim foi feito. Logo, Hathor confundiu o líquido com sangue e bebeu até se embriagar e adormecer. Os seres humanos que restaram repovoaram a Terra. Rá, cansado de resolver as questões da humanidade se retirou e deixou Toth tomando conta da Terra. Foi uma escolha bastante acertada, pois Toth ensinou a humanidade a escrever, compor e, muito importante, a governar a si mesma.

Quanto a face amorosa desta deusa, nos deparamos com um mistério. Os mitos geralmente mostram apenas a face destrutiva de Hathor, e não se sabe ao certo por que os egípcios a associavam ao amor, aos prazeres e à felicidade. Provavelmente eles conheciam mitos que se perderam no tempo. Ou, podemos imaginar, viam o lado destrutivo de Hathor como um cuidado para com a parcela da humanidade que era devota aos deuses. De todo modo, os mitos de dilúvios estão presentes entre diversos povos. Na Bíblia, a passagem do dilúvio e da arca de Noé é bastante conhecida, mas há também um mito inca de dilúvio, mitos de diversos povos nativos americanos, asteca, grego, da Babilônia, e o dilúvio de cerveja dos egípcios. Em todos os casos, o dilúvio está associado, de uma forma ou de outra, a certo tipo de cuidado dos deuses para com seus devotos mais dedicados. Esses mitos trazem também a ideia de purificação, no sentido de banir todo o mal. Talvez, de algum jeito, a destruição e a morte também possam ser vistas com os olhos do amor.


Questões para reflexão:

1- No início comentamos que Hathor é a deusa da estética, da música e da dança, entre outros domínios, e que isso está relacionado à felicidade. Uma das características da estética, do belo (aos nossos próprios olhos) é nos trazer alegria. O que faz essa função estética para você? O que te agrada os olhos? E quanto ao olfato, quais perfumes te agradam e trazem boas recordações? E quanto a audição, quais sons ou músicas soam de forma bela para você? E o paladar, quais são os sabores que mais te agradam? Por fim, passemos para o tato. Que tipo de toques e texturas te agradam mais? Cerque-se sempre daquilo que você considera belo e agradável, em outras palavras, cerque-se de coisas que, para você, cumpre uma função estética. O "belo" nos coloca em contato com os momentos de felicidade, nos permite ver a vida com os olhos plenos de esperança e felicidade.

2- Como diversos deuses, Hathor tem duas faces, no caso, a amorosa e a destrutiva. Isso é bastante saudável. Quando ficamos presos a apenas um modo de ser, nossos recursos de enfrentamento dos desafios da vida se reduzem. A amorosa talvez não saiba lidar com desafios que a destrutiva lide bem, e vice versa. Quais são suas faces e quando cada uma delas aparece? Um ponto interessante: alguma das suas faces é usada para "encobrir" outra(s), como uma forma de proteção às faces ocultas?

3- Vamos pensar sobre a purificação. Purificar, no sentido de livrar-se daquilo que faz mal, requer alguns sacrifícios. Nos mitos, o sacrifício é literal, os "maus" são mortos. Na nossa vida prática, esses sacrifícios podem ser muito mais sutis. Convido o leitor a avaliar a própria vida. O que pode ser sacrificado para que a vida flua melhor e com mais felicidade? Lembre-se, você pode "sacrificar" comportamentos, relacionamentos abusivos/destrutivos, vícios, ideias limitadoras... Torne-se você.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Ágora - Criança com muitos medos

Bom dia! Queria perguntar sobre a minha filha. Ela tem 6 anos, é uma criança tranquila e quase sempre é bem madura para a idade. Até pouco tempo atrás era uma criança normal, mas agora começou a ter crises de medo, muito medo de tudo. Acho esquisito que ela tem medo de coisas bobinhas que as crianças dessa idade tem, tipo medo do escuro. Mas também começou a ter medo de ficar sozinha. Antes a Giovana adorava brincar sozinha no quarto, hoje tem um pouco de medo. Até fica, mas só depois de eu lembrar ela de como gostava e que não tem nada lá para ter medo. Acho que o que começou a me assustar é que minha filha começou a dizer que tem medo que eu morra e meu marido também. Não costumamos colocar medos nela, não gostamos disso, queremos que ela cresça e seja uma pessoa independente e feliz. Por que será que ela está assim, se nada diferente aconteceu? Não sei como agir enquanto mãe, preciso de alguma orientação. Obrigada. beijo.
Meire - Petrópolis, RJ


Olá Meire!

O que você me contou é uma coisa bem comum de acontecer hoje em dia com as crianças na faixa etária da sua filha, mais ou menos entre os 6 e 8 anos. Algumas dessas crianças chegam aos consultórios psicológicos com a mesma queixa que você me trouxe: nada diferente aconteceu, os pais quase sempre são amorosos e não excessivamente rígidos ou permissivos na educação da criança, mas existem muitos medos. Esta é a fase em que a criança muda a forma como pensa sua realidade, saindo do pensamento mais "mágico" e fantasioso das crianças menores e entrando numa forma mais concreta de ver o mundo. Sua filha está começando a entrar em contato com a realidade, começando a vê-la de forma mais parecida com a que vemos, e nesse sentido é bastante positivo que ela apresente alguma reação ao que percebe. A questão é: por que a reação da Giovana frente ao mundo é de medo?

Hoje nossas crianças vivem uma realidade muito mais estressante do que as crianças das gerações passadas. Não só o dia dia delas é mais corrido e cheio de compromissos, sobrando pouco tempo para apenas serem crianças, mas a própria realidade exige mais de todos nós. Hoje temos questões como a violência que chegou a um grau inacreditável, a miséria e a fome, a destruição da natureza e outras que podem ser bem difíceis de compreender e de lidar até para nós adultos, imagine então para crianças que percebem a realidade e, ao mesmo tempo, sentem que não podem fazer grande coisa para mudá-la. Claro que nos sentimos impotentes frente a questões como essas. E, muitas vezes, esse sentimento de impotência se mostra na forma de medo.

Mas como lidar com a criança quando ela apresenta esses medos? A primeira coisa que gosto de fazer é dizer a ela que os medos são nossos amigos. Aparecem para nos proteger, sempre que estamos frente a alguma coisa que achamos que pode ser perigosa. O problema do medo é quando ele é excessivo, porque aí ao invés de proteger, ele nos faz paralisar. O próximo passo é dar à criança dados de realidade (e nem pense em fazer isso dizendo que o medo dela é besteira pois não é, para a Giovana, esses medos são muito reais, tanto é que causam uma reação). Comentei que ela começa a ver o mundo de forma mais concreta, mas ainda faz isso pelos olhos de uma criança de seis anos, que não tem a experiência e o pensamento abstrato dos adultos. Ela se assusta porque sabe que nessa idade, dificilmente saberia lidar com as situações em que se imagina, como a solidão, a morte dos pais ou algo desconhecido que pode se esconder por baixo do véu da escuridão. A Giovana precisa conhecer o mundo pelo olhar dos adultos em quem ela confia, como os pais, familiares, a professora... Precisa que esses adultos mostrem a realidade de forma que ela consiga lidar. "Sim, o escuro assusta mesmo, mas quando a gente liga luz, vê que não tinha nada lá para ter medo". "Sim, algum dia a mamãe e o papai vão morrer, mas provavelmente já vamos ser muito velhinhos e você já vai ser grande". Veja bem que não é mentir para a criança, nem apresentar um mundo coloridinho. É mostrar quando existe ou não razão para se preocupar e dar a ela recursos mais saudáveis para lidar com essa preocupação (prevenir acidentes, tomar cuidado, etc.). 

Em alguns casos, a criança pode ter apoios para lidar com seus medos, por exemplo no medo do escuro, pode ser interessante dar para a Giovana uma lanterna para que ela deixe perto da cama e acenda quando acordar durante a noite, assim saberá que não há com o que se preocupar. Em outros casos, como o medo da solidão ou da morte de pessoas queridas, os adultos precisam perceber que o medo da criança reflete o maior medo de todos nós: o medo que nos coloca face a face com a nossa finitude e com o próprio drama da nossa existência, nos levando a questionar o sentido de estarmos vivos. Infelizmente, este é um tipo de medo que a gente apenas aprende a lidar. Ninguém tem garantias de que voltará viva para casa: pode ser atropelada no caminho, pode ser vítima da violência, pode ter um mal súbito... enfim, muita coisa fora do nosso controle pode acontecer. Mas seguimos acreditando que voltaremos vivos, que na manhã seguinte continuaremos aqui, vivendo a nossa vida da melhor maneira possível. O nome disso é esperança. E a esperança vem quando nos envolvemos com o olhar cuidadoso e carinhoso das pessoas amadas, no caso da criança, com o olhar dos pais e cuidadores. A esperança nos permite ter metas, seja ela uma grande meta profissional ou "apenas" passar um sábado gostoso no parque da cidade com a família e os amigos. E tendo metas, a esperança aumenta ainda mais, pois apesar dos medos e de tudo o que pode acontecer, temos algo de bom pelo que esperar e pelo que buscar. Perceba que não se trata de esquecer os nossos medos, mas sim de continuar apesar deles. Vencer os medos nem sempre é deixar de tê-los, é principalmente continuar caminhando mesmo sabendo que eles estão sempre ao nosso lado.

beijos para você e para a Giovana.
Bia


Para participar da coluna Ágora, envie a sua pergunta para o email bf.carunchio@gmail.com, você também pode participar enviando sua pergunta através da nossa página no Facebook ou do meu perfil pessoal.  Você tem a opção de se identificar ou de se manter como anônimo.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Convivendo com segredos

"Que os segredos, amiga minha, também são gente; nascem, vivem e morrem." - Machado de Assis (1839 - 1908), escritor brasileiro.

Todo mundo tem segredos. Não é questão de ser tímido, introvertido ou, como muitos gostam de acusar hoje em dia, de não ser autêntico. Temos segredos porque separamos nossa vida entre pública e privada. Neste ponto, cabe dizer que aquilo que é visto como público ou privado varia de acordo com o grupo social e a época. Um exemplo claro é a religião. Por muito tempo, a religião foi vista como parte da vida pública: no ocidente cristão, era a Igreja que cuidava de documentos e registros de nascimento, casamento e morte. Era ela quem promovia boa parte das festas e eventos sociais, em muitas cidadezinhas, era na igreja que a  população se reunia para discutir questões pertinentes à comunidade e era ao redor se seu calendário e datas comemorativas que a rotina das pessoas se organizava. De poucos anos para cá, conforme muitas religiões, filosofias de vida e ideologias passaram a coexistir dentro do mesmo espaço social, a religião vem sendo cada vez mais colocada no campo da vida privada. No Brasil, durante o último CENSO houve relatos de pessoas que se recusaram a responder aos pesquisadores sobre a religião que seguiam alegando que isso era muito pessoal e que o Estado ou quem for nada tem a ver com isso.

Mas este não é um artigo sobre religião. Este é um texto sobre segredos. E cada um guarda em segredo aquilo que acredita ser pertinente manter para si mesmo ou para um pequeno grupo de pessoas de confiança. Todos temos nossos segredos. E ao contrário do que se pode pensar, tê-los não tem nada a ver com desconfianças ou desconsiderações. Dependendo dos valores de cada pessoa, de seu jeito de ser e de sua história, existem aspectos da vida que a pessoa pode se sentir pouco confortável para comentar, ainda que com uma pessoa querida.

Os segredos mais escuros podem nos conduzir a lugares surpreendentes!
Vivemos numa cultura em que se prega fervorosamente que todos precisam ser super extrovertidos e falar sobre tudo com todo mundo, afinal, as pessoas precisam se abrir! Mas a vida nem sempre é por aí. Em boa parte das vezes, não é. Do ponto de vista psicológico, não há problemas em ser uma pessoa mais introvertida, mais "fechada", muito menos há problemas e ter segredos, desde que a pessoa lide bem com isso. Porque nem sempre temos a necessidade e/ou a vontade de dizer certos detalhes da nossa vida a outras pessoas. Como psicóloga eu diria que manter segredos são ruins quando afetam a vida de outras pessoas (ou a nossa) de forma mais significativa, ou quando quem guarda o segredo não consegue lidar com ele sozinho e acaba se machucando ou se colocando em risco.

Um ponto fundamental: podemos guardar um segredo de quase todos. Só não podemos guardar segredo de nós mesmos. Porque o segredo que guardamos da gente mesmo fica tão bem guardadinho, escondido lá nas profundezas da psique que logo começa a nos fazer mal. O segredo, ou o conteúdo inconsciente, precisa aparecer, pelo menos para nós, e se relutamos em olhar para ele da forma como é, começará a se mostrar em sintomas, tensões e conflitos.

Para evitar isso, é fundamental manter livres as estradas de acesso entre consciente e inconsciente, em especial mantendo uma atitude receptiva para consigo mesmo. Mas ao se falar sobre segredos, tem mais um detalhe muito importante: conhecer bem os seus limites e as suas fronteiras entre o público e o privado. Reflita: o que é público para você? Ou seja, que tipo de coisas a respeito de si ou da sua vida você gostaria que os outros soubessem ou não se importaria se viessem a público? Esse tipo de informação em geral está dentro do que é aceito pela sociedade ou pelo grupo com o qual convivemos. Costumam fazer parte dele informações sobre nossa vida profissional, detalhes mais superficiais da nossa vida familiar, esportes e atividades que gostamos de fazer no nosso tempo livre, o filme que fomos assistir no cinema no último final de semana, etc. Dependendo do grupo em que estamos, essas informações podem ser mais aprofundadas ou mais superficiais. Essas são as informações que permitem que as outras pessoas comecem a nos conhecer e formem uma imagem de quem somos.

Alguns segredos são compartilhados com pessoas ou grupos de confiança (geralmente familiares e amigos mais íntimos, o psicoterapeuta e os grupos terapêuticos, talvez alguns vizinhos e colegas mais próximos... Entram aí detalhes mais íntimos da nossa vida pessoal e familiar, como contratempos e surpresas (boas ou ruins) que vivenciamos, alguns dados sobre como nos sentimos e sobre a nossa saúde, acontecimentos do dia a dia, alguns conflitos que enfrentamos... Esses pequenos segredos permitem que as pessoas da nossa confiança nos conheçam um pouco mais intimamente, assim eles podem olhar para nós e ver além do que aqueles detalhes superficiais permitem supor.

O que é privado para você? Quais ideias, sentimentos e vivências você não gosta de expressar? Por que? É importante conhecer esse nosso lado ou, no mínimo, ter uma boa noção de que tipo de segredos guardamos (até de nós mesmos). Algumas informações nós conhecemos e apenas guardamos para nós mesmos. Já outras são tão conflitivas para nosso lado consciente que o inconsciente nos protege mantendo-as para si e lidando com elas como pode. Ele faz isso mostrando-as de forma simbólica em nossos sonhos e sintomas, por exemplo, mas também nos nossos desejos, em situações que se repetem na nossa vida, nos conflitos que enfrentamos e até mesmo projetando esses conteúdos e sentimentos sobre outras pessoas. Neste campo podem entrar emoções e ideias que não aceitamos em nós e pensamos que os outros também não aceitariam, exemplos comuns são certos conteúdos ligados à raiva e a alguns medos antigos. Podem entrar aí também as vivências traumáticas e dolorosas, como estupros, abusos e violências de todo tipo que a pessoa tenha sofrido, conflitos que não consegue admitir que existem, ter passado por acidentes graves, perdas repentinas e muito dolorosas, crises muito intensas, entre outros.

Respire bem fundo e diga a si mesmo que permite que seus "segredos" se revelem para você de forma saudável. Permita-se conhecê-los, permita que esses conteúdos venham. Sem grandes julgamentos ou cobranças, apenas se sinta receptivo. Se for algo muito pesado para lidar sozinho, divida o segredo com alguém em quem você confia. Se for preciso, se a situação te machuca, busque ajuda de um profissional. E não, você não vai "traumatizar" o psicólogo, como estive ouvindo por aí! Este profissional foi treinado para olhar para as faces que nem a própria pessoa quer ver, ele sabe transitar entre o mundo consciente e inconsciente e pode ajudar a lidar com o que emerge, em especial quando os "segredos" envolvem experiências traumáticas de abusos e violências, situações fora do nosso controle com as quais precisamos lidar ou mesmo as consequências desastrosas de uma escolha que não foi bem pensada. Por mais terrível que seja um segredo, ele é o que é: apenas mais uma informação. E as informações nos afetam de maneiras diferentes dependendo da forma como escolhemos lidar (ou não lidar) com elas.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Mythos - O pequeno grão de bico: força de vontade

Hoje vamos trabalhar a nossa força de vontade, aquele impulso que nos faz continuar mesmo quando tudo a nossa volta parece ir contra nós. Força de vontade é aquilo que emerge quando estamos numa situação difícil e mais ninguém, além de nós mesmos, acredita que somos capazes de resolvê-la. Para isso não vamos usar um mito, mas sim uma história folclórica (que faz a mesma função dos mitos pois também usa linguagem simbólica), um conto de uma região da Itália chamada Abruzzo, de onde vieram meus pais (esta é também uma homenagem a eles, mesmo de longe, espero que se sintam abraçados!). Este era um dos meus contos preferidos quando eu era criança, e a lembrança de ouvi-lo com tanta frequência na voz sempre bem humorada e dramática do meu pai mexe comigo até hoje. Espero poder contar essa história para vocês de forma tão significativa como ele fazia nas noites de tantos anos atrás.

O Pequeno Grão de Bico era um menino muito pequeno para a idade dele. Tão pequeno que cabia na palma da mão de seus pais e quando ia a algum lugar distante, viajava no bolso de alguém. Mas mesmo sendo pequeno, o Pequeno Grão de Bico era um menino esperto. Ele gostava muito de brincar nos campos e de ajudar os pais a cuidar dos animais. Quando chegava o inverno, nevava muito na região montanhosa em que ele e sua família vivia, e naqueles dias, o Pequeno Grão de Bico brincava na neve com seus amigos e depois iam todos para dentro de casa para se aquecer perto do fogo. Naquele tempo não existia aquecedor, por isso era muito importante ter sempre um estoque de lenha por perto durante o inverno rigoroso das montanhas.


Certa noite, a pequena casa onde a família morava ficou sem lenha e o fogo, dançando tímido, não duraria muito mais tempo. Acontece que naquele inverno os pais do Pequeno Grão de Bico ficaram doentes e não podiam sair no frio da nevasca que estava para cair. O menino olhou ao seu redor e se viu sozinho com os pais muito gripados. Pela primeira vez ele estava sozinho num momento difícil e precisaria dar conta da situação. Talvez se ele queimasse alguma outra coisa no lugar da lenha, pelo menos naquela noite... mas o que? A casa onde viviam era muito simples e não podiam apenas queimar o que tinham! Podia queimar papéis velhos, mas o menino sabia que além de fazer muita fumaça, o fogo de papel apagaria depressa... Foi quando o Pequeno Grão de Bico viu que a única forma de vencer um problema é enfrentando-o. A mãe viu o filho se agasalhar e perguntou onde ia. Já era noite, começava a cair uma nevasca e o menino era pequeno demais para sair sozinho com um tempo daqueles! Além disso, ele estava acostumado a andar sempre no bolso dos pais e na certa não saberia se virar sozinho. Quando ele avisou que ia buscar lenha, os pais ficaram muito apreensivos. Por um lado, não queriam que ele saísse e corresse tantos riscos. Por outro lado, sabiam que a única forma da família não congelar de frio era deixando que ele fosse.

Quando chegou ao estábulo, os animais estranharam o menino aparecer assim, no meio da noite. Ele explicou a situação e logo ouviu comentários sobre o que pretendia fazer. As galinhas achavam que o melhor era estar numa cama quentinha numa noite fria como aquela, e quanto mais cedo, melhor. As ovelhas concordaram e disseram que ele deveria voltar para casa e se enrolar num cobertor de lã bem quente. As cabras lembraram que estava nevando e o Pequeno Grão de Bico poderia se perder na neve, e como seus pais ficariam tristes e sentiriam sua falta, pois o menino era a alegria da família! E o burro falou que por um bom motivo até sairia, mas tinha medo de sair sozinho com aquele tempo, pois a neve cobria os caminhos e ele não saberia voltar para casa sem ter as pegadas para seguir... "Mas eu sei como voltar!" Disse o menino, já subindo pelo animal. Os outros bichos disseram que ele era muito pequeno e cairia de cima do burro quando ele corresse, pois nunca havia ido para tão longe sozinho. Mas ele tinha um plano: enrolou-se na orelha do burro, assim além de ficar quentinho e seguro, poderia dizer o caminho até a casa do lenhador com mais facilidade!

E assim partiram. Enfrentaram o vento forte e a nevasca. O Pequeno Grão de Bico tinha um ótimo senso de direção, por isso ensinou ao amigo um caminho rápido e seguro. Quando chegaram à casa do lenhador, o homem não podia acreditar que o menino teve coragem de ir até lá numa noite como aquela! Sabendo das notícias sobre os pais dele e que a família estava sem lenha, o homem vestiu seu casaco e carregou o burro com alguns feixes de lenha.

Chegando em casa, os pais do Pequeno Grão de Bico estavam muito apreensivos, e ficaram felizes de ver o menino voltar bem e com lenha suficiente para a família se aquecer. Depois desse dia, todos souberam que mesmo pequeno, ele era capaz de grandes feitos, pois tinha boa vontade, estratégia e bons amigos.


Questões para Reflexão:

1- Caber na palma da mão dos pais é um símbolo poderoso de proteção. É preciso primeiro se sentir pequeno e protegido para depois ser grande. Só cresce quem um dia já foi pequeno, é subindo os degraus do nosso desenvolvimento que nos tornamos grandes e mais maduros e, para isso acontecer, é fundamental o olhar amoroso de pessoas significativas. De quem você recebeu esse tipo de olhar quando pequeno? E hoje em dia, de quem você recebe?

2- Desafios são fantásticos, pois nos permitem crescer conforme nos sentimos capazes de fazer algo que antes duvidávamos. Guardamos a experiência de superação como uma referência de sucesso, isto é, uma lembrança muito forte e vívida de que podemos dar conta das exigências da vida. Lembre-se dos maiores desafios que enfrentou e das estratégias que usou para superá-los. Experimente reviver em seu corpo as sensações que teve ao vencer o desafio.

3- O Pequeno Grão de Bico nos ensina a ser o herói da nossa própria história. É nos desafios, conforme criamos nossas estratégias e as colocamos em prática, que sentimos que somos não apenas o herói da história, somos também os donos dessa história, e podemos escrevê-la da forma que mais nos satisfaz. E nesse processo, podemos nos tornar a pessoa que gostaríamos de ser.