quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Falando sobre a morte: as perdas e o luto

"Nisto erramos: em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto grande parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence à morte." - Sêneca (04 a.C. - 65d.C.), jurista, intelectual e escritor romano.

Como já comentei na página do Facebook, nesta semana temos diversas comemorações de diferentes povos em honra aos mortos e aos antepassados. Por isso resolvi dedicar as postagens da semana a este tema, e hoje o artigo é sobre morte e luto. Aliás, sobre as grandes perdas em geral. O luto é uma forma de superar uma perda grave, que pode ou não ser a morte de uma pessoa querida. Vamos começar falando um pouco sobre o que é o luto, as características mais comuns e os diferentes estágios. Vamos, depois, falar um pouco sobre a saída do luto e a importância de vivenciar com liberdade esse momento para a superação de uma grande perda.

Já comentei diversas vezes que hoje em dia vivemos num mundo muito pobre em ritos de passagem. E com a morte não é diferente. A morte deixou de ser vista como uma das maiores passagens da vida para se tornar algo frio e distante. Pouca gente tem a sorte de morrer em casa, cercado de pessoas queridas. A maioria morre nos hospitais, cheio de tubos e aparelhos. Ou, pior, nas ruas! Morre de repente, sem ter tido tempo de dizer algo que quisesse dizer ou mesmo de se despedir. Hoje as pessoas morrem como se nunca tivessem existido. Como se a vida não valesse nada. Ao mesmo tempo, a morte foi distanciada de nós ao ser relegada aos hospitais. Não somos ensinados a pensar sobre ela ou a celebrá-la, muito menos a lidar com ela. Em face a isso, o luto muitas vezes é visto como doença, mesmo sendo, até certo ponto, uma reação normal e saudável às perdas.

Quando a morte tem nossa permissão para ser celebrada (seja num funeral, seja relembrando momentos especiais que vivemos com aquele que se foi, seja em rituais religiosos), ela ganha o status de rito de passagem. Com isso, passa a ser vista de forma mais leve, pois a morte enquanto a maior das passagens se integra à vida e faz com que o todo ganhe sentido. Todos caminhamos para a nossa morte. Toda semente precisa conhecer a escuridão da terra para se tornar uma árvore forte. Também nós, para que tenhamos uma vida completa e integrada, precisamos do contato com a morte, precisamos lidar com ela e conhecê-la sem medos ou preconceitos.

A psiquiatra suíça Elizabeth Kübler-Ross (1926-2004) estudou profundamente a morte e o luto e, no final de sua vida, coletou e estudou relatos de experiências de vida após a morte. Ela desenvolveu um modelo com cinco fases do luto que é muito usado em psicologia e possibilita diferenciar o luto normal do luto patológico. Vamos a essas fases:

1- Negação: Parece que é mentira. Mesmo sabendo o que houve, mesmo que a gente tenha um atestado de óbito em mãos ou veja o corpo. Apenas parece mentira, não dá para acreditar que realmente aconteceu. A dor da perda é grande demais para parecer real.

2- Raiva: Surge o sentimento de injustiça. Por que foi acontecer bem comigo? Podem acontecer reações de hostilidade, com raiva e inveja. A perda ainda não parece real, mas no fundo sabemos que é, e isso nos parece injusto. Qualquer palavra de conforto soará falsa para quem está nesta fase.

3- Negociação: A pessoa faz promessas e sacrifícios, seja de forma consciente ou não, esperando que a perda possa ser revertida. No caso de um paciente terminal, podem surgir pensamentos do tipo "me deixe viver só até meus filhos crescerem". O mesmo vale para familiares e pessoas próximas. A pessoa enlutada tenta driblar a morte, negociando com ela ou com divindades, ou ainda com pensamentos do tipo "e se...". Também é frequente nesta fase do luto a ideia de que a pessoa que perdemos deveria estar viva e quem ficou é que deveria ter morrido no lugar dela.

4- Depressão: a pessoa se convence de que a perda aconteceu e é impossível de ser revertida. Com isso, é normal se sentir triste e desesperançoso. A pessoa que se foi existe agora apenas nas nossas lembranças, e todas essas recordações e planos que tinham em comum ganham um novo sentido nesta fase, pois se tornam os únicos vínculos com a pessoa que perdemos.

5- Aceitação: Por fim, a pessoa aceita a perda, sem negá-la, sem tentar barganhar com a morte e sem se desesperar. É o momento em que a dor se transforma em saudade. Agora, o vazio deixado pela aceitação da perda está pronto para ser preenchido. Veja que não falo em substituir pessoas importantes, elas sempre terão seu lugar simbólico no nosso coração e nas nossas lembranças. O que digo é que aquele sentimento de perda e de vazio está pronto para ser preenchido com sentimentos mais amorosos e tranquilos.

Um ponto importante, Kübler-Ross afirma que esse modelo de fases do luto é válido não apenas para mortes, mas para toda grande perda, de acordo com aquilo que a pessoa valoriza. Podem acontecer, por exemplo, após um divórcio, a perda de um emprego, perdas materiais, catástrofes, problemas com a Justiça, uma situação de falência, aposentadoria, ou até com o fim de uma fase da vida...

Essas fases não têm um tempo certo de duração. Não somos máquinas rígidas, cada pessoa é uma pessoa, e cada vínculo que se cria entre duas pessoas é único. Em geral, a fase da depressão é a mais demorada, pois é quando realmente tomamos consciência do que houve e lidamos com a perda dando a ela um sentido mais construtivo ao invés de vê-la como uma injustiça ou a maior catástrofe do mundo. Perdas doem, mas acontecem na vida de todas as pessoas, não é algo pessoal contra nós. De forma geral, a psicologia entende que um processo elaboração do luto leva, em média, 6 meses. Se estiver durando muito mais do que isso, com sofrimento intenso e desinteresse pelas coisas que antes gostava, entende-se que o luto se tornou patológico, é importante que a pessoa busque a ajuda de um profissional para superar a perda e se reorganizar.

Em crianças pequenas, o luto também pode ser observado, mesmo antes que aprendam a falar. É possível passar pelo luto desde o momento em que podemos criar laços de apego, pois estamos todos sujeitos a perder aqueles a quem somos apegados e, claro, sofremos com a perda. Nas crianças o processo de luto é observado nos desenhos e brincadeiras, temas como morte, doença, acidentes graves passam a ser muito presentes, de forma bastante realista e detalhada. Também pode acontecer da criança brincar de quebrar ou destruir de alguma forma os brinquedos, demonstrando como se sente "em pedaços". Até certo ponto, isso é saudável, pois a brincadeira e o desenho são meios que a criança tem para se expressar. Já nos adolescentes, pode ser comum a reação de raiva e revolta. É importante que essas reações sejam acolhidas com amor, por mais difícil que seja, pois isso ajudará o adolescente a se sentir seguro para expressar o que sente de formas menos destrutivas. O próprio início da adolescência é um processo de luto pela perda da infância (do corpo infantil, das atenções que recebia, da simplicidade da vida de criança com a ausência de responsabilidades...). Por isso, nesta fase a pessoa já está um pouco mais insegura emocionalmente, e é normal ter reações diferentes das de um adulto frente à morte ou à uma grande perda. O adulto já tem vivências e recursos internos para lidar com essas perdas, enquanto o adolescente geralmente não. Logo a forma de demonstrar o que sente nem sempre é a mesma.

Qual o lugar dos seus mortos na sua vida?
De que forma você permite (ou não permite)
que estejam presentes?
É interessante saber que o luto é um fenômeno ao mesmo tempo psicológico e social. Cada sociedade e cultura vivencia o luto de uma forma, pois em cada cultura se dá um olhar diferente para a morte. A morte vista como um castigo ou ainda um fim desencadeia sentimentos bem diferentes da morte vista como uma passagem ou um renascimento para outra forma de existir. Claro que isso também passa pelo pessoal, e é obvio que quando perdemos alguém querido sempre sentimos falta, vivenciamos a perda de alguma forma. O que muda é a forma como expressamos esse sentimento de perda. No ocidente, é comum que se expresse tristeza e choro. Na Rússia, é comum que se faça um memorial, em que se bebe em honra ao morto, lembrando momentos alegres e especiais da vida dele. Na aldeia de onde vieram meus pais, no interior da Itália, era tradição que quando alguém sabia que estava para morrer (por alguma doença ou por idade já avançada, ou ainda - conta minha avó - por ter recebido algum tipo de aviso místico), preparava para si um saquinho com uma moeda, um toco de vela para iluminar o caminho, uma troca de roupa e outras coisinhas que ajudariam o morto em sua jornada pelo outro mundo. Em grande contraste com a nossa cultura, existem alguns locais do oriente onde a morte é vista com alegria, como um passo na nossa evolução. Enfim, cada povo tem seu próprio jeito de lidar com a morte e com o sentimento de vazio que ela pode deixar nos vivos. Para refletir um pouco mais sobre o papel dos nossos antepassados, clique aqui e veja a coluna Mythos desta semana, em que trabalhamos com os Lare.

O trabalho com pacientes em processo de luto pode ser difícil, mas geralmente leva a processos terapêuticos muito ricos e belos. O olhar que se dá à vida depois de um luto bem vivenciado e superado é marcado por grande reflexão e novos valores, mais aprofundados e amadurecidos que os de antes. Enfrentar e superar o luto é um processo de "descer ao mundo dos mortos" e voltar fortalecido, é um renascer, um recriar de si mesmo. Toda semente, antes de brotar e dar frutos, desce às profundezas da terra. Assim, também, somos nós.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Mythos - Os Lare: a força dos antepassados

O mito desta semana é uma homenagem ao dia de finados, comemorado no próximo sábado. Queria muito fazer esta homenagem e vinha planejando há tempos, mas qual mito usar? Depois de analisar algumas possibilidades, me decidi pelo mito que não conta a história de nenhum deus ou herói, mas sim a história das pessoas comuns. Este não é exatamente um mito, mas sim um culto, achei que poderia ser interessante explorá-lo nesta semana. Falo do mito de origem etrusca/romana dos lare, do culto aos nossos antepassados. O culto aos lare era romano, e acredita-se que tenha surgido do culto etrusco aos lase (uma lasa era um antepassado feminino). Assim, que fique claro, os lare não são deuses ou criaturas mitológicas, mas sim espíritos humanos que vieram antes de nós e que, de acordo com essas crenças, nos protegem e guiam. Sim, nossos pais, avós, bisavós... mas também aqueles antepassados que vieram muitos séculos e milênios antes de nós e que, mesmo que não façamos ideia de quem foram, também marcaram a nossa história e contribuíram para que viéssemos a existir.

Lar romano de bronze, encontrado na Espanha.
Do termo lare surgiram palavras como "lêmure" e "larva" que, no contexto romano, correspondiam à nossa ideia de espírito ou fantasma. Surgiram também palavras que ainda usamos hoje, como lar e lareira. O culto aos lare era centrado na lareira, no fogo que a animava e que nunca se extinguia, pois este era o centro da casa e da família, o lugar de honra onde as refeições eram preparadas e servidas, as conversas e decisões importantes aconteciam, as histórias eram contadas, o conhecimento era transmitido... Vejam como alguns pontos desse culto perdura, por exemplo, as conversas ao pé do fogo e as tradicionais fotos de família colocadas junto da lareira.

lar era inicialmente representado em estátuas de madeira, barro ou cera pois, ao contrário do bronze ou das rochas, esses materiais são pouco duráveis, assim como a vida humana. Com o passar do tempo, a estátua se aprimorou, passando a ser feita de outros materiais e ganhando contornos humanos mais claros, vestindo túnicas amarradas na cintura e botas leves, sempre acompanhadas por um cão, símbolo de fidelidade, aquele que conhece os caminhos (note que, no mundo grego - e os etruscos são, muitas vezes, apontados como um povo antecessor comum tanto de gregos quanto de romanos - Hecate é sempre acompanhada por cães, sendo uma deusa do mundo dos mortos, da magia, dos caminhos e encruzilhadas). Os símbolos associados aos lare era a pátera (uma taça para oferendas), a cornucópia (um cesto em formato de chifre, pleno de grãos e frutos da farta colheita, simbolizando abundância e fertilidade) e o ríton (um chifre que servia como taça de beber). As refeições eram partilhadas com os lare na forma de oferenda e na comensalidade, isto é, fazia-se as refeições na presença dos lare e esperava-se que estes a partilhassem. Quando se tinha um problema, crise ou qualquer tipo de situação difícil, era comum que se recorressem aos lare, pois eram sábios e certamente nos protegeriam e até enviariam sinais apontando a decisão ou o caminho mais conveniente.

Interessante saber: apesar do culto aos lare ser doméstico e familiar, também existiam os lare públicos (entre eles, Remo e Rômulo, os fundadores de Roma!), eram os antepassados do povo, cultuados na entrada dos templos de Vesta (a deusa do fogo e da lareira), nas encruzilhadas das estradas, nas embarcações e até na sede do império, pois havia lare protetores do imperador.

O culto aos ancestrais mantinha viva a memória deles. E quando isso acontece, nós também ficamos um pouquinho mais vivos, pois sabemos (sentimos) no fundo dos ossos que mesmo que muitos anos se passem, mesmo depois que estivermos mortos e mil anos se passem, ainda estaremos presentes na memória dos vivos, ainda seremos parte da família e da história dessas pessoas, ainda teremos o nosso lugar. Alguém honrará nossa memória. Não como algo que um dia foi, mas como alguém que ainda é, ainda existe seja na forma de lembranças e consciência, seja na representação do lar, seja na estrelinha brilhante e especial no céu. 


Questões para reflexão:

1- Você sabe quem são seus antepassados? Conhece histórias da sua família, das suas origens? Isso é fundamental, nos dá a força saber de onde viemos, saber que outros já estiveram onde estamos dando o seu melhor. Procure investigar suas origens. Pode ser através de fotografias antigas e documentos, procurando antigos objetos de uso, tudo isso conta muitas histórias quando se sabe ouvir. Outra forma bem interessante de fazer isso é visitar seus pais, seus avós e, os sortudos, visitem seus bisavós. Na certa eles vão adorar te ver e contar algumas boas histórias de família enquanto tomam um chá!

2- Não deixe o material que você coletou cair no vazio. Registre as lembranças. Pode ser escrevendo-as, criando um video com fotos, objetos e depoimentos, um álbum de fotos especiais e outras lembranças, e até criando uma árvore genealógica (existem diversos sites na internet onde você pode criar sua árvore gratuitamente e acrescentar datas, histórias, fotos...). Permita-se honrar seus ancestrais, permita que participem da sua vida.

3- O que você faz para honrar seus antepassados? Você deixa que a memória deles, os exemplos e ensinamentos que deixaram participem da sua vida? De que forma? Na Roma antiga os lare eram lembrados e trazidos para o convívio sempre que a família passava por um momento importante, como um nascimento, casamento, funeral... Mesmo no dia do aniversário, os romanos tinham o costume de agradecer aos lare. E para você, qual o papel que seus antepassados (mais próximos ou mais distantes) ocupam na sua vida?

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Ágora - Como funciona a hipnose?

Bom dia, Bia! Sou leitor do teu blog já faz alguns meses e tem me feito pensar muito sobre as coisas da minha vida. Minha pergunta é mais uma curiosidade, queria saber como funciona a hipnose. Usam aquele pêndulo? A pessoa hipnotizada faz mesmo tudo que mandam? Quero dizer se a hipnose funciona mesmo ou é coisa de circo, porque quando mais novo eu vivia tentando hipnotizar meu irmão com um ioiô, mas nunca dava certo. Era coisa de criança mesmo e a gente sempre ri quando lembra disso, mas a curiosidade fica. Os psicólogos usam mesmo a hipnose? Obrigado.
Dênis - Lajeado, RS


Oi, Dênis!

Acho que muitas crianças em algum momento brincam de tentar hipnotizar alguém, pois este é um tema quase sempre apresentado pela mídia como algo fantástico, que foge ao nosso dia a dia comum. Bom, para começar, sim, hipnose existe "de verdade" e pode ser usada para tratar problemas mais graves. É importante dizer que o uso clínico da hipnose não envolve pêndulos. Em shows em que as pessoas são hipnotizadas dessa maneira, geralmente elas já foram colocadas em estado hipnótico antes, e induzidas a retornar ao estado quando o pêndulo fosse utilizado. Em consultórios, a hipnose é muito diferente. O paciente é levado a relaxar por meio de palavras e técnicas de imagem. Alguns outros profissionais de saúde também se utilizam da hipnose para minimizar a dor do paciente (dentistas, por exemplo) É possível fazê-lo sem palavras, apenas por meio de toques em pontos específicos do corpo, que induzem o relaxamento da consciência e o estado hipnótico.

Muitas pessoas têm medo de hipnose, e o primeiro medo que surge é o de fazer algo que vá contra seus princípios. Isso é completamente impossível. Durante a hipnose, o que acontece é um rebaixamento da consciência, quem atua é o nosso inconsciente. Mas para onde a consciência vai? A consciência continua lá, em segundo plano. Assim, enquanto o terapeuta fala, o paciente têm consciência plena do que se passa, pode ouvir sons fora da sala de atendimento, perceber a poltrona em que está sentado, enfim, a consciência está lá, apenas está menos ativa. No entanto, quando o terapeuta usa palavras ou dá sugestões que vão contra os valores morais e éticos da pessoa, ela simplesmente sai do estado de transe, "desperta". Por isso, frases absurdas como "pare no meio da rua e espere alguém te atropelar" na certa tirariam a pessoa do transe, pois a defesa da própria vida sempre será mais forte do que qualquer tipo de sugestão. Além disso, os psicólogos e outros profissionais de saúde respondem aos seus conselhos de ética profissional, que lhes impõem um código de normas éticas. A hipnose, assim como qualquer outra técnica, só pode ser usada para trazer o equilíbrio do paciente, nunca para causar danos ou constrangimentos. Assim, o pêndulo e as sugestões absurdas ficam apenas para o circo e shows de televisão, a hipnose clínica é bem diferente.

O segundo medo é o de "ficar preso" em algum lugar. Pergunto: se estamos explorando a psique do paciente, como ele poderia ficar preso onde quer que seja? É o mesmo que ter medo de dormir e não conseguir acordar! Alguns pacientes caem no sono durante a sessão de hipnose, e não há problemas nisso. A técnica atinge seu objetivo da mesma forma e o paciente apenas desperta normalmente, como depois de uma soneca.

Alguns sintomas e problemas que podem ser melhorados pelo uso da hipnose: hipertensão arterial, alergias, enurese noturna, incontinência urinária, problemas sexuais (impotência, ejaculação precoce, frigidez), sintomas de TPM e problemas menstruais, asma, bronquite, rinite alérgica, distúrbios do sono (ronco, apneia, insônia, pesadelos...), problemas digestivos (gastrite, dispepsia...), diarreias crônicas, distúrbios alimentares, obesidade, enxaquecas, dores crônicas, entre outros. Algumas questões psicológicas também podem ser tratadas com o auxílio da hipnose, como fobias, ansiedade, insegurança, questões emocionais e comportamentais. A hipnose ainda pode ser usada em casos graves de depressão, síndrome do pânico e dependência química, por exemplo, com a intenção de retirar o paciente da crise (isso significa que os motivos que o levaram a entrar na crise ainda precisam ser tratados!). É importante dizer que, especialmente em grande parte dos casos, o paciente precisará fazer um acompanhamento com o psicólogo.

A hipnose é um instrumento de grande ajuda no trabalho clínico de muitos psicólogos, promovendo bem estar e qualidade de vida, assim como acelerando o processo terapêutico.

beijo,
Bia


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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O poder das palavras e do pensamento

"A vida de um homem é o que seus pensamentos constroem." - Marcus Aurelius (121-180), filósofo e imperador romano.

Sei que muitas pessoas olham com suspeita quando se fala sobre o poder que nosso pensamento tem sobre a nossa realidade, por isso quero deixar claro no início sobre o que não estamos falando: não é aquela coisa infantilizada de "eu quero e por isso vai acontecer", nem aquele pensamento meio "mágico". Este é um artigo sobre afinar nossas metas à linguagem que usamos e aos temas que passam com frequência pela nossa mente, com o objetivo de transformar a nossa realidade a partir da nossa própria transformação interior, de um jeito bem prático e objetivo: mudando a linguagem que usamos.

Psicologicamente falando, somos seres feitos de linguagem e movidos pela linguagem. É a comunicação que nos permite agir e interagir no mundo, planejar, criar laços e mostrar quem somos. É o nosso discurso, por assim dizer, que diz quem somos, para os outros e também para nós mesmos. Como eu disse antes, não quero que este seja um artigo cheio de teorias que caiam num vazio, por isso vamos continuar daqui explorando cenas do dia a dia e pensando em atividades práticas.

Você cria sua própria realidade a partir de suas palavras (ditas ou pensadas).

1- As críticas vazias:
Já notou como algumas pessoas adoram criticar? Criticam "os outros", o colega descolado, o chefe, os professores, os políticos, os médicos, a própria família, o desconhecido no metrô, só não criticam a si mesmos! Claro que não há problemas em criticar, aliás, acho que é justamente criticando e refletindo sobre as diversas situações que podemos nos conhecer melhor e aprender com as atitudes dos outros. Mas é preciso diferenciar os tipos de crítica. Existem as construtivas, que buscam uma melhora, como o estudante que diz ao professor que o esquema de aula dele está difícil de ser acompanhado para que, juntos, busquem soluções em ambas as partes. Existem as críticas destrutivas, onde alguém aponta as falhas e conflitos do outro de forma dura, sem pensar em soluções ou transformações, mas em destacar supostos erros do outro por pura vaidade, fazendo aquele que critica parecer (ou se sentir) "melhor" que o criticado. Existem as críticas que trazem crescimento, mesmo quando não se chega a uma solução. Fulana tem problemas de relacionamentos, e falar ou pensar sobre os problemas dela me ajuda a reconhecer e transformar os conflitos nos meus próprios relacionamentos. Houve um crescimento. De outro lado, existem as críticas vazias, em que Fulana é criticada sem que isso traga nenhuma solução ou crescimento para ninguém, apenas para mostrar como ela é supostamente inadequada ou como os que criticam são melhores, não há uma reflexão, apenas um discurso vazio que supre a necessidade do momento de encontrar um "bode expiatório" para certos problemas, sem que se faça nada para mudá-los.

Na prática - Gostaria que você observasse as críticas que costuma fazer. Elas são construtivas ou destrutivas? Trazem crescimento ou são vazias? Vamos além! Quem são os maiores alvos das suas críticas, em especial as vazias e destrutivas? O que há em comum entre essas pessoas ou situações? São seus superiores (professores, diretores, o Estado, o sistema)? São seus subordinados? São pessoas com quem você tem laços emocionais fortes? Busque o que há em comum entre eles, o que simbolizam na sua vida, pois quase nunca esses alvos são simples desconhecidos, e mesmo quando são, nós os enxergamos como representantes daquilo que criticamos (a autoridade, a rigidez, a aparente despreocupação, etc.). Como você lida com aquilo que seus alvos representam? Provavelmente é aí que está o seu conflito.


2- Reclamações que não transformam:
Pior que as críticas, são as reclamações, pois se a crítica, no mínimo, promove certa reflexão (ou deveria), as reclamações, quando não são transformadoras, servem apenas para reforçar para nós mesmos um discurso negativista, de que a vida não é boa, o mundo é um lugar ruim e precisamos sempre desconfiar de tudo e todos. Sim, precisamos ter cuidado, mas a vida não é por aí. Existem sim pessoas em quem se pode confiar, o mundo pode ser um lugar que nos agrade se criarmos nossa realidade desta maneira, o que não está bom, pode ser mudado. O problema não são aquelas reclamações justas e que visam melhorias: sobre a dificuldade de relacionamento com a família, sobre abusos de poder, sobre injustiças e negligências que infelizmente acontecem. O problema são aquelas reclamações sem nexo, aquela "ladainha" que algumas pessoas insistem em repetir o dia todo (em voz alta ou pior, em pensamento), mas nunca faz nada para buscar transformações ou apontar soluções. No popular, falo aqui dos "reclamões" de plantão. Como criar para si uma realidade que vai ao encontro do que nos faz sentir felizes e realizados se reforçamos com nossas palavras o tempo todo o quanto somos miseráveis e azarados, o quanto Fulano é folgado e Beltrano nunca colabora? Não dá. Porque quanto mais reclamamos nesse sentido, mais reforçamos para nós mesmos que a vida é essa aí e que não há nada a se fazer para melhorar.

Na prática - Antes de tudo, corte essas reclamações vazias da sua vida! Sim, é difícil, mas sempre que perceber que está embarcando nessa, pare e pense algo como "deleta, deleta, deleta!". Isso provavelmente já abrirá um belo espaço vazio na nossa mente e na nossa vida. Por que não preencher esse espaço com pensamentos e ações que nos fazem crescer? E com isso entramos na segunda parte desta prática, que é trazer o foco para si. Muito provavelmente, o responsável pela vida estar da forma como está é você mesmo, pois é o único que pode agir na sua realidade. O que exatamente te incomoda? Garanto que isso passa muito longe da vida dos outros, esses outros são apenas um espelho que encontramos para não ver em nós mesmos as características ou problemas que tanto repudiamos. Mas é apenas ao encontrá-las em nós mesmos que ganhamos o poder de transformá-las. Traga o foco para si. O que você pode fazer para mudar o que tanto te incomoda? Busque ajuda profissional, se necessário. Lembre-se que "os outros" nunca nos ofendem ou nos colocam para baixo, eles apenas agem. Quem se ofende e se põe para baixo é o próprio sujeito, quando seu foco está "nos outros" e na vida deles!


3- Pare de focar o que não quer!
É muito triste o que vou dizer, mas é uma realidade que observo na prática clínica e na minha vida pessoal. Acredito que todos embarquem nesse hábito algumas vezes, mesmo que sem perceber. É o costume de agir por evitação. Vamos fazer isso deste jeito para não ter problemas com Fulano, ele é muito grosseiro!  É a pessoa que inicia um relacionamento esperando não se machucar demais quando o outro a desapontar. Ou o profissional que inicia um novo projeto esperando que a equipe não tenha grandes conflitos ou que os resultados falhos possam ser contornados logo. Ou quem faz o que for apenas esperando não ter tantos contratempos. Olhando de relance, parecem até boas intenções, mas vou explicar porque não são. Todas essas pessoas focaram o que não querem! Não seria mais harmonioso focar o que se quer? Espero que o novo relacionamento seja feliz e que traga crescimento para nós dois. Espero que, no novo projeto profissional, a equipe seja bem integrada e envolvida, e que os resultados sejam excelentes. O que quer que eu faça, espero que tudo dê certo e que eu possa agir com autenticidade e eficácia caso as situações me surpreendam, que eu possa sempre me superar e fazer o meu melhor. Perceba como o ânimo frente às situações é outro! E, com isso, a realidade que criamos para nós baseada no nosso discurso (falado ou pensado) também é outra! O mundo deixa de ser um mar de catástrofes em que eu preciso me proteger e me desdobrar em mil para suprir todas as demandas e passa a ser algo mais aberto, que me permite agir e interagir conforme minhas escolhas e meus próprios valores.

Na prática - Agir por busca e não por evitação. Manter o foco naquilo que esperamos, e não no que não esperamos. Quando fazemos isso, a realidade interna que criamos nos leva a pensar sobre o que exatamente queremos, sobre onde pretendemos chegar. Isso nos abre a possibilidade de sonhar com os pés no chão, ou seja, de planejar. Para ter um planejamento viável e bem feito, delimite sua meta da forma mais precisa possível, inclusive colocando um prazo. Veja (se possível, liste) o que você já tem para a realização da meta (documentos, habilidades e conhecimentos, redes de contatos, recursos de todos os tipos, referências de sucesso...). Depois, divida a meta em várias pequenas ações, estabelecendo prioridades e criando estratégias de ação (isto é, pensar o "como?").

E agora, de posse dos mapas e planos, é como dizem os peregrinos: "bom caminho"!

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Mythos - Nu Kua: criar ordem e ritmo na vida

Hoje vamos conversar sobre Nu Kua. Ela é uma deusa importante da cultura chinesa, e apesar do destaque que tem nos mitos de criação, estabelecendo a ordem do mundo, criando os seres humanos e ensinando-lhes sobre o casamento, esta é uma deusa sobre quem pouco se fala hoje em dia. Foi um grande desafio encontrar material sobre ela, mas é interessante refletir sobre os deuses pouco conhecidos, pois podem trazer informações importantes sobre nós mesmos que tendem a ficar nas sombras na medida em que pouco se fala sobre isso.

"Nu Kua", obra de Susanne Iles
Nu Kua é uma deusa chinesa relacionada à ordem e também ao casamento. Ela foi a criadora da humanidade, e é representada como metade mulher e metade serpente (em algumas versões, metade mulher, metade dragão). Essa representação, seja com a parte serpente ou a parte dragão, sugere que Nu Kua é uma deusa alquímica, uma deusa transformadora. A serpente troca sua pele com frequência, se renova. Por isso, em culturas antigas, este era um símbolo do feminino (segundo a lógica: o útero "troca sua pele" todos os meses, graças a isso as mulheres menstruam e são férteis, logo a serpente, que também troca de pele com frequência, era vista como um símbolo feminino), e também um símbolo de transformação, pois permite que aquilo que já não serve se vá para que venha o novo. Apenas mais tarde, com o advento das sociedades patriarcais, que a serpente foi reinterpretada como símbolo fálico. De todo modo, Nu Kua é metade serpente. Sendo associada à criação e à vida, ela é identificada com as águas, sejam essas águas chuvas, poças, lagos, rios ou onde quer que possam viver peixes e anfíbios.

Quando se viu no caos, no universo primitivo recém criado e cheio de lodo, Nu Kua resolveu que algo faltava naquele cenário. Não existia vida, apenas montes de lama. Ela então juntou uma boa quantidade daquele material e moldou algumas criaturas, tomando por base seu próprio corpo. Ela achou que a cauda de serpente não combinava com a criação, por isso, deu pernas às criaturas. Criar esses novos seres foi um processo muito longo, mas quando terminou, Nu Kua viu que o trabalho compensou, pois os seres humanos eram lindos! Entretanto, em pouco tempo ela percebeu que não havia pessoas o suficiente para preencher o mundo, e criou mais, desta vez mais depressa. O resultado não foi um trabalho tão fino quanto o anterior e os primeiros seres humanos protestaram. Nu Kua, no entanto, explicou que os seres menos perfeitos ficariam com o trabalho mais duro, e criou assim uma sociedade baseada em castas, um sistema mais rígido de classes sociais. Depois disso, ela inventou as relações sexuais e o casamento.

Tudo ia bem e as criações de Nu Kua prosperavam, mas em certo momento, o caos voltou. Em algumas versões, o caos foi trazido por povos que viviam no norte da China; já em outras, o caos voltou devido às lutas constantes entre dois monstros rivais, Gong-Gong e Zhu-Rong. De todo modo, as duas versões do mito levam à mesma crise e ao mesmo desfecho. Seja pelas batalhas dos monstros, seja pela invocação dos povos do norte, o caos voltou na forma de chuva, muita chuva. Um grande dilúvio se formou, aldeias e plantações foram destruídas, pessoas e animais morriam pela força das águas e pela falta de alimento. Montanhas de lodo voltavam a se acumular pelo mundo. Nu Kua precisava agir! Ela afastou o céu da terra, e trocou os pilares que antes sustentavam o céu pelas patas de uma grande tartaruga. Então foi até um rio e encontrou cristais muito brilhantes, que ela cravejou no céu/na carapaça da grande tartaruga, fazendo a chuva parar. Assim, desde então as chuvas acontecem apenas quando são necessárias e o mundo ganhou ordem e ritmo, por exemplo, nas estações de chuva e seca, e nos ciclos de plantio e colheita.


Questões para reflexão:

1- No mito que acabamos de ler o caos se manifesta no mundo na forma de desequilíbrio e falta de vida, seja por chuvas excessivas, montes de lodo, ou um mundo vazio e sem vida. Como o caos se manifesta em você? Observe e sinta com atenção. Talvez seja na forma de trabalho excessivo e tarefas se acumulando. Talvez os relacionamentos estejam tumultuados e carentes de amor. Talvez a vida pareça sempre culminar para o pior, num ciclo de autossabotagem que parece não ter fim. Talvez isso se mostre na falta de recursos (financeiros, emocionais, racionais, etc.). Fique atento também se o caos não vem de maneira inversa: algumas pessoas criam para si mesmas uma "ordem", ou melhor, uma rotina tão rígida que as faz sofrer e adoecer. Apenas observando o caos é que se pode restaurar a ordem.

2- O mito nos ensina que nós é que criamos nosso próprio caos. Sim, o grande dilúvio começou pelas batalhas entre os monstros, ou pela invocação dos povos do norte. A variação de motivos ensinam que os motivos externos, aparentes, pouco importam. O que interessa é a nossa reação. Nu Kua é associada às águas, inclusive águas da chuva, e o caos trouxe chuvas! O caos externo, na realidade, só se realizou enquanto caos por haver despertado o próprio caos interno de Nu Kua (ou a face destrutiva/caótica da deusa). Da mesma forma, algumas vezes acontecem situações na vida que parecem fugir ao nosso controle - e fogem mesmo! Mas o verdadeiro caos que sentimos e que interfere na nossa vida de forma mais duradoura, marcando nossa história, é o caos que vem de nós mesmos, a forma como lidamos e reagimos a essas situações incontroláveis, ou ainda o caos vindo das nossas próprias escolhas impensadas e emoções tumultuadas. Quando temos consciência de como o nosso caos geralmente se manifesta, como sugerido no ponto 1, podemos percebê-lo se aproximar antes que se manifeste por completo. Assim, é possível reagir antes mesmo do acontecimento, agindo de forma preventiva para que nossas reações se mostrem de forma não destrutiva.

3- Nu Kua é uma deusa ligada ao criar, ao "fazer". Você se sente bem e realizado apenas no "fazer" ou se permite a realização em outras esferas da vida, como no "ser", no "sentir", no "pensar"...? Geralmente, quando a pessoa se sente realizada (apenas ou principalmente) no fazer, tende a se esforçar mais que o necessário para o bom cumprimento de uma tarefa. Isso resulta em tarefas e criações primorosas, mas também num elevado nível de estresse e autocobrança. Se este for o seu caso, é interessante refletir até que ponto você deixa de lado necessidades suas que tende a ver como "menos importantes" que a realização da tarefa. É importante suprir essas necessidades, mesmo que pareçam sem propósito ou que "não levariam a nada", pois somos seres que vivem em diferentes realidades ao mesmo tempo, e cada uma delas tem seus desafios e necessidades.

4- Nu Kua cravejou o céu de cristais brilhantes e com isso restaurou a ordem do mundo. Cristais podem ser interpretados simbolicamente como elementos transformadores, ou que aceleram um processo/transformação (catalizadores). Quais são os seus "cristais"? O que ordena a sua realidade e permite que sua vida ganhe coerência e sentido? Não encontre apenas um elemento, lembre-se de Nu Kua: o céu está cheio de cristais.

5-  Para terminar, um exercício prático! Crie algo sem se preocupar com o resultado final. Pode ser qualquer tipo de criação: um desenho, modelar barro como Nu Kua, criar um novo visual com as suas roupas ou com maquiagem, criar uma nova receita na cozinha, escrever um poema, tirar um som do violão... Não se preocupe aonde sua criação te levará, apenas tenha coragem e se entregue ao processo de criar. Ouse seguir seu caminho.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Ágora - Conversando sobre aborto

Olá Bia, não me importo de ser identificada, sou a Jéssica.
Na semana passada uma amiga minha de 19 anos "sofreu" um aborto, e para mim a palavra sofrer cabe muito bem na situação.

A questão é que sempre me posicionei como feminista, a favor do direito da mulher fazer o que bem quiser com o próprio corpo, mas essa semana me veio um trecho de uma música na cabeça e com ele um esquema de novas questões. Só para não ficar muito no ar, o trecho é esse: "Eu quero ficar perto de tudo que acho certo até um dia eu mudar de opinião." ~ Coisas que eu Sei - Dani Carlos.

Essa minha amiga só tinha o meu apoio e de mais duas outras amigas para ter os bebês, que ela até o momento queria, o namorado e a família não os queriam e depois de quase 6 meses de gestação ela "perdeu" os bebês.

Eu fiquei a flor da pele, irritadíssima, senti que meu universo estava violado e as pessoas a minha volta até estranharam essa minha reação até porque a gravidez sequer era minha.

Desde então percebi muitas mudanças na minha maneira de pensar e queria muito que você falasse um pouco mais a respeito de aborto na sua página.
Eu estudei um pouco sobre gestação no meu curso e me lembro que uma coisa que chamou muito a minha atenção foi uma informação de que até mais ou menos os 6 meses o feto não poderia sentir dor. Para mim isso foi interessante, significava que um aborto feito até os 5 meses não causaria dor ao bebê. Mas penso se esses bebês não sentiram dor, penso no que poderia ser pior, e se esses bebês, caso nascessem, crescessem, se iriam gostar ou não de viver (sim entrei até na questão sobre pessoas que cometem auto extermínio). Sei que não adianta nada ficar pensando o que não foi, mas confesso que as vezes eu faço mesmo isso.
Queria opinião de pessoas diferentes, vou ler cada comentário (caso haja algum).
De acordo com minha religiosidade eu até fiz um ritual para os bebês que minha amiga perdeu, pedindo que o espírito deles encontrem seu caminho e paz. Ela as vezes chora, mas não muito e eu controlo minha reações perto dela sabe. 
Bom, era só isso tudo. Quando e se puder falar um pouco sobre alguma dessas questões eu ficarei grata.
Beijo

Jessica - Belo Horizonte, MG


Olá, Jessica.

Entendo bem como você se sente. Falar sobre gravidez e aborto é sempre uma situação muito delicada, principalmente quando envolve pessoas queridas. Como este é um tema polêmico, é bom começar esta conversa dizendo que independente da opinião pessoal de cada um sobre o aborto, não podemos exigir que a nossa opinião sobre o tema (ou sobre qualquer outro) seja válida para todas as pessoas. Tentarei me manter o mais neutra possível ao discutir este tema, pois a ideia aqui é que os leitores possam se informar e chegar às próprias opiniões. Muitas pessoas que defendem o aborto talvez não se submetessem a um, mas são maduras o suficiente para respeitar a escolha dos outros e compreender que seu ponto de vista pessoal não pode servir para toda a humanidade. Acho importante ter isso em mente. Como o tema é amplo, decidi percorrer o seguinte caminho na nossa conversa: vamos começar falando um pouquinho sobre aborto, seguir com a possível dor sentida pelo feto, e vamos abordar também a síndrome pós-aborto, que pode estar relacionada com as reações da sua amiga que te deixam tão desconsertada.

Vamos começar com uma informação que talvez surpreenda algumas pessoas. Quando feito com segurança e higiene, o aborto é um dos procedimentos mais seguros da medicina atual. O problema começa quando nos deparamos com esta estatística: apenas 40% das mulheres em todo o mundo têm acesso em seus países a um aborto legal e seguro. Quando feito de maneira segura, o aborto até a 21a semana de gestação é mais seguro que o parto. Nos Estados Unidos, por exemplo, a taxa de morte materna por aborto é de 0,6 morte a cada 100.000 abortos, em contraste com o parto, cuja taxa de mortalidade materna é de 8,8 mortes para cada 100.000. Assim, os números mostram que um parto é 14 vezes menos seguro que um aborto (feito em condições adequadas). Ainda assim, em boa parte dos países os médicos são obrigados a dizer às pacientes que o aborto é um procedimento de altíssimo risco, mesmo em países e situações em que o aborto é legalizado. O cenário é bem diferente sem as condições adequadas de higiene e segurança: a cada ano, 70 mil mulheres morrem e 5 milhões ficam com sequelas devido a abortos feitos sem segurança ao redor do mundo. Os dados são da Organização Mundial da Saúde (OMS), e os interessados podem ler o documento emitido por eles clicando aqui. Como eu disse antes, independente de ser pessoalmente contra ou a favor do aborto (isso é irrelevante!), o fato é que são muitas pessoas morrendo ou ficando com sequelas graves devido a procedimentos descuidados. Isso é um problema de saúde pública e precisa, sim, de atenção.

 A questão do feto sentir ou não sentir dor, ou melhor, a partir de que idade gestacional o feto sente dor, é um tema de grande interesse hoje em dia nos campos da medicina, ética e política. Alguns defendem que o feto sente dor desde a sétima semana, quando os transmissores de dor da pele já estão formados. Outros defendem que apenas entre o segundo e terceiro trimestre o feto terá aparatos neurológicos e químicos adequados para sentir dor. De todo modo, os receptores de dor se formam na sétima semana, o hipotálamo (estrutura cerebral que recebe os sinais do sistema nervoso - por exemplo, os sinais de dor) já está formado na quinta semana. No entanto, não se pode dizer apenas com base nisso que o feto sente dor, pois a dor será interpretada como tal (ou seja, "sentida") no córtex cerebral, e a ligação entre o tálamo e o córtex só termina de se formar na 23a semana. Em geral, os especialistas concordam que só há dor a partir da 26a semana de gestação, quando esses sistemas e as ligações entre eles já estão mais maduros. Em alguns países, são usados anestésicos no feto para minimizar a dor durante o aborto. Na maioria dos países onde o aborto é legalizado, ele pode ser feito por escolha da mulher durante as 10-12 primeiras semanas de gestação e por orientação médica até a 21a semana. Quando se fala sobre legalizar o aborto, não se pretende abortar bebês já formados, em final de gestação, mas sim embriões nas primeiras semanas de gravidez. É bom frisar também que o aborto pode sim acontecer de forma espontânea (por exemplo, quando o feto não está bem "preso" à parede do útero). Isso não é "culpa" da mulher, algumas vezes a gravidez tem esse risco de aborto aumentado por diversos fatores que vão da condição de saúde da mulher, estilo de vida, histórico clínico, até as características do próprio embrião.

Hoje em dia, muitas vezes o aborto induzido é colocado como um direito de escolha da mulher. Direito sobre a própria vida e o próprio corpo. Isso levanta questões éticas, como até que ponto alguém pode ter algum direito sobre outra vida. E aí, surge outra questão, ética e científica: em que momento a vida começa? São questões que não têm uma só resposta correta, há diversos posicionamentos coerentes e que diferem de forma radical uns dos outros. Independente de pensar o aborto como algo "certo" ou "errado", legal ou ilegal, como uma simples escolha ou como um grande erro, o fato é que muitas vidas estão em risco, e sempre estarão enquanto o aborto for visto como um crime ou ainda como "método contraceptivo" (acredito que, caso se opte por fazê-lo, seja qual for o motivo, este deveria ser sempre o último recurso, não a maior forma de se evitar filhos, como pessoas menos informadas sobre o tema gostam de dar a entender!). Uma conduta ideal e acessível seria a prevenção da gravidez indesejada, que pode ser feita com métodos contraceptivos acessíveis a todos (como a camisinha ou a pílula anticoncepcional, que no Brasil são distribuídos gratuitamente no serviço público de saúde), políticas públicas (como campanhas informativas), planejamento familiar de qualidade (e isso vai - ou deveria ir -  muito além de "obrigar" pessoas a se submeterem a vasectomias ou laqueaduras, deveria envolver todo um preparo econômico, psicológico e médico). Principalmente, é fundamental que exista a educação sexual, na mídia, nas escolas, em casa... As famílias precisam superar os falsos moralismos e ter o hábito de falar sobre sexualidade com seus jovens e mesmo com suas crianças (claro, respeitando a maturidade emocional de cada um), permitindo que se expressem nesse sentido e que tirem suas dúvidas em todos os momentos, e não apenas quando já estão na adolescência e, muitas vezes, com a vida sexual iniciada.

Um detalhe pouco divulgado é que, após passar por um aborto (seja por escolha, por motivo de saúde ou o que for), a mulher precisa receber cuidados psicológicos. A síndrome pós-aborto é um conjunto de sintomas muito semelhantes ao estresse pós-traumático (comum em ex combatentes de guerras e em pessoas que passam por grandes traumas). Algumas pessoas argumentam que a síndrome não é causada pelo aborto em si, mas sim por ideias e conceitos que temos sobre este tema, que nos são passados muito sutilmente (ou nem tanto) no convívio social. Não há dúvidas de que nossas ideias, crenças e sentimentos sobre uma situação interferem na forma como lidaremos com ela depois que acontece. Entretanto, independente das causas, este é um problema sério e que necessita atenção. Alguns sintomas comuns da síndrome pós-aborto: sentimento de culpa (percebido em frases como "é uma marca/lembrança que sempre vou carregar"); ansiedade; alheamento (a pessoa parece não estar, de fato, presente aqui e agora, como se as questões da própria vida não a afetassem mais); depressão (que pode vir a ser grave, com tendências suicidas); distúrbios alimentares (da anorexia e bulimia à compulsão alimentar); abuso de álcool e drogas; comportamentos de auto-punição; bloqueio para estabelecer laços afetivos com crianças, mesmo muitos anos depois; grandes dificuldades afetivas; pode ocorrer ainda uma psicose reativa (após o procedimento, geralmente de curta duração).

Jéssica, tanto as suas reações como as da sua amiga são comuns. Legal ou ilegal, natural ou provocado, um aborto dificilmente é visto como um fato corriqueiro do dia a dia. Especialmente em sociedades de valores mais tradicionais, judaico-cristãos, como a nossa, é comum que o aborto (nosso ou dos outros) seja visto e vivido como uma grande ruptura, por mais feminista e mente aberta que a pessoa seja. Essas ideias estão muito arraigadas na mente de todos nós. Especialmente quando vivemos ou acompanhamos bem de perto situações assim, quando nos envolvemos, sempre cabe a reflexão sobre os diversos pontos de vista, pois é assim que encontramos um sentido maior para o que aconteceu.

Espero ter contribuído para a discussão.
beijos,
Bia


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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Educar é um ato de amor ao próximo

"Não se pode ensinar nada a um Homem, só é possível ajudá-lo a descobrir por si mesmo". - Galileu Galilei (1564-1642), físico, matemático, astrônomo e filósofo italiano.

Quando eu cursava a graduação em psicologia, minha amiga Maria José Brito estava às voltas com seu mestrado e doutorado, e algumas vezes ela me enviava emails com perguntas. Não perguntas práticas, de certo ou errado, mas daquelas que nos fazem querer pensar. E eu pensava, algumas vezes pensava por semanas. E então respondia, e discussões maravilhosas aconteciam. Certa vez ela me enviou a seguinte pergunta: "Bia, o que é educação para você?" Mesmo que já se tenham passado vários anos, na semana dos professores, me pareceu um bom tema a ser discutido aqui no blog. Antes, gostaria de deixar claro que este não é (apenas) um texto sobre professores ou escolas, pois independente da nossa profissão, idade, grau de instrução, etc. somos todos educadores e aprendizes, todos temos coisas a ensinar e a aprender.

Conhecimento nunca deveria ser algo imposto, e sim algo que se constrói juntos.
Educar vem do latim educare, que por sua vez vem de ex (fora) e ducere (guiar). A educação, portanto, vai muito além do ambiente escolar ou de cuidados com crianças, como alguns pensam, acontece sempre que alguém é guiado por outras pessoas, por alguém externo a si, através de um caminho que ainda não está confiante de percorrer por si. Anos atrás, lembro-me de ter respondido à Maria José que educação é antes de tudo um ato de amor, e explico meu ponto de vista. Tomando por base o significado latino de educar que exploramos antes, podemos pensar que só pode servir de guia (e ser um bom guia) aquele que sabe muito bem onde está pisando e para onde vai. O bom guia conhece o caminho bem o suficiente para evitar obstáculos difíceis e os perigos do caminho. Mas não basta o conhecimento. Pois o educador não precisa apenas "saber muito", precisa também guiar o outro, transmitir para outra pessoa aquilo que sabe de formas que façam sentido para ela. E isso só pode acontecer quando o educador é capaz de ver o outro, olhar para ele e ser capaz de se colocar no lugar daquela pessoa. Entender o contexto que vive e as situações que passa. Entender as dúvidas e incertezas pelo olhar do outro. E, mais do que tudo, ter a humildade de se lembrar todos os dias que, mesmo que muitos anos já tenham se passado, algum dia ele também foi só uma pessoa com dúvidas e incertezas sobre o caminho em questão (seja um caminho acadêmico, profissional, de vida, do campo das relações, um caminho espiritual, etc.).

O bom guia precisa ver o outro com olhos amorosos, pois só assim, ao sentir que alguém se importa de verdade, a pessoa aprenderá a ser seu próprio guia e a caminhar por si. Assim, o bom guia, ou o bom educador, é aquela pessoa que compartilha o que sabe com generosidade o suficiente para que o outro se torne livre e independente ou, como os psicólogos gostam de dizer, favorece a autonomia. Ser um bom guia não é apenas evitar buracos e trechos difíceis do caminho. É saber calcular os riscos e, tendo consciência de verdade de quem é aquele que é guiado, permitir que ele enfrente desafios e trechos difíceis de acordo com seu grau de capacidade no momento. Não basta ensinar, é preciso criar no outro a confiança de que ele é capaz. E para isso é preciso ter a sensibilidade e o bom senso de saber que aqueles a quem guiamos não são todos iguais, tem características e histórias diferentes. Além disso, apesar de estarem sendo guiados pela mesma pessoa e através do mesmo caminho, não vão todos para o mesmo lugar, pois cada um tem os seus planos e isso precisa ser compreendido e respeitado.

O bom guia não é aquele que caminha à frente,
mas o que é capaz de caminhar ao lado.
Uma coisa que prejudica a educação hoje em dia é que vivemos num mundo em que tudo é descartável e utilitário (precisa ter um uso prático). Para que estudar filosofia, ou sociologia, ou artes? Vejam como aumentam os cursos voltados para áreas puramente burocráticas e mercadológicas. Não que sejam desnecessários, mas vale a reflexão. Poucas pessoas aprendem para ter uma boa formação e uma educação de qualidade. Para que ensinar xadrez às crianças? Elas que desenvolvam o raciocínio com algo que "importa mais" para o mundo de hoje! Para que a arte, a música? Não querem se formar enquanto pessoas melhores, mas apenas responder com ansiedade quase patológica as demandas sociais, brigar pela aceitação de um mundo onde até nós mesmos somos descartáveis!

Há pouco tempo um jovem estudante de psicologia me escreveu dizendo que não aguenta mais o curso. Está no primeiro ano e não entende como aulas de filosofia ou de neuroanatomia poderão ajudar quando estiver face a face com seus futuros pacientes. Como alguém pode sentir que vem sendo bem guiado quando não vê sentido no caminho percorrido? Realmente, quando você tem 17 anos a vida e o dia a dia têm questões de ordem prática muito mais urgentes do que saber o que pensava Sócrates há 2500 anos, ou para que serve o tronco cerebral. A vida grita ao seu redor! O mundo explode em novos amigos, festas, paqueras... e então, quando você abre os olhos, está na clínica-escola com seu primeiro paciente. Você se lembra da voz do seu professor/guia dizendo para não se preocupar demais, pois ele estará mais ansioso que você. Você pede para ele entrar na sala e se sentar, fecha a porta e faz o mesmo. E então, num flash muito louco, todas as aulas de filosofia, neuroanatomia, conversas paralelas, festas, puxões de orelha e tudo mais passam diante dos seus olhos! E você começa a pensar que agora precisará ser um guia pelo mundo interno daquela pessoa, que tem algum problema sério e confiou em você o suficiente para entrar na sala e se sentar. Mas, outra cilada do mundo de hoje! Como ser um guia quando o mundo mal nos ensina a sermos guiados? O mundo resiste em nos deixar ver o sentido de percorrer um caminho até o fim. Muitos passos iniciais não fazem um caminho inteiro.

Educação é muito mais do que ensinar ou aprender, educação é, antes de tudo, interação. Não existe interação em que os sentimentos não estejam presentes. Seja de forma construtiva ou destrutiva. Em especial as relações mais profundas, e não há como negar que uma relação entre educador e educando (seja no contexto que for - escola, família, sociedade, saúde...) é profunda, pois passa pelos sonhos e receios do outro. Como diz a frase de Galileu com a qual abrimos o artigo de hoje, só é possível ensinar algo na medida em que guiamos o outro. E essa atitude nunca é fruto de autoritarismo ou de imposição, não se pode forçar o outro a percorrer um caminho, se pode apenas apontar perigos e atalhos, precaver das armadilhas e dar recursos para lidar com os percalços. O caminho em si, cada um precisará percorrer com as próprias pernas.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Mythos - Hefesto: rejeição e compulsão por trabalho

Há algumas semanas conversei sobre este mito grego com alguns amigos, já pensando em colocar aqui no blog. Hefesto, apesar de estar entre os principais deuses gregos, é menos conhecido que muitos outros. E isso é interessante, pois mesmo entre os deuses, em seus mitos, Hefesto tem diversas histórias relacionadas à rejeição, que é um dos pontos que vamos trabalhar hoje.

Vulcano - Guillaume Coustou, 1742.
Em algumas versões do mito, Hefesto é filho de Zeus e Hera, os reis dos deuses. Em outras versões, ele é filho apenas de Hera, que o concebeu inalando o perfume de uma flor (isso é parte da memória de povos mais antigos, antes de saber como a mulher engravidava, o ser humano fantasiava que isso acontecia cheirando flores, comendo algo diferente ou até se expondo ao brilho da lua!). Nesta segunda versão, Hera queria se vingar de Zeus, pois o marido teve uma filha sozinho, Atena, a deusa da sabedoria, que saltou da cabeça do pai já adulta e armada! (na verdade não foi exatamente sozinho, ele havia engolido a ex mulher, Métis, a razão, que estava grávida, por medo de ser destronado pelo filho, mas esta história fica para outro dia). Quem conhece o mito do nascimento de Atena pode estranhar a vingança de Hera, pois na versão mais comum, Zeus tinha uma forte dor de cabeça e Hefesto, que é um deus ferreiro/artista, deu uma machadada na cabeça do líder dos deuses, libertando a jovem Atena. Como ele poderia ter nascido depois dela? Simples! Quando estudamos mitologias, precisamos pensar na lógica do inconsciente (aquela mesma dos sonhos), que é atemporal, não segue um tempo linear como estamos acostumados na nossa realidade comum. Passado, presente e futuro se mesclam, se repetem e se interpõem.

Enfim, Hera queria se vingar do marido por ele ter tido uma filha sem ela e resolveu que também teria um filho sem ele! Mas quando Hefesto nasceu, o menino era feio! Zeus teve, sem a esposa, uma filha que era a deusa mais genial, e ela teve o deus mais feio! Muito envergonhada, Hera jogou a criança do alto do Olimpo. Isso pode soar terrível para nós, mas é preciso olhar para o mito com os olhos dos antigos gregos, e na Grécia Antiga, bem como entre outros povos, era comum sacrificar crianças que nasciam com algum tipo de problema ou deficiência.

Na versão em que Hefesto é filho de Hera e de Zeus, ele se mostra um rapaz muito apegado à mãe, que era bastante exigente e o rejeitava com frequência. Hefesto sempre tentava apaziguar as brigas constantes do tumultuado casamento de seus pais, até o dia em que Zeus se irritou além do limite e jogou o filho do alto do Olimpo.

E aqui as duas versões da história se unem. Hefesto caiu por nove dias, até chegar ao mar. Dizem que ele tem as pernas tortas devido à queda, mas em algumas versões, ele já nasceu com os pés tortos. Ele foi resgatado e levado para a terra firme de uma pequena ilha deserta na costa grega. Lá havia uma gruta, e Hefesto passou a isolar-se com muita frequência nessa gruta, onde ele criou sua oficina. Ele trabalhava como um ferreiro e artesão, fazia as armas mais precisas e fortes para os deuses, fazia ainda objetos de arte e outros utensílios. Certa vez fez um trono de ouro para Hera para se vingar por ela tê-lo jogado do Olimpo, e o trono era tão perfeito que quando sua mãe sentou, o corpo dela encaixou-se tão bem ao trono que ela não conseguia mais se levantar. Mas esta história fica para outro dia!


Questões para reflexão:

1- Na versão em que Hefesto é filho apenas de Hera, podemos pensar que isso simboliza alguém com apego extremo à mãe. Se isso já seria por si só uma situação problemática (nada ao extremo é bom), a rejeição dessa mãe apenas agrava a delicadeza do problema, pois quanto mais é rejeitado, mais se esforçará para ter a aceitação da mãe. É difícil ter um apego muito grande e a pessoa querer nosso mal. Você já passou por isso (com sua mãe ou com outras pessoas)? Hefesto reagiu à situação de rejeição e abandono refugiando-se em sua ilha deserta, fechando-se em sua gruta e descontando os sentimentos no trabalho. Ele trabalhava incansavelmente e era o melhor ferreiro de que se tem notícia. Como você se defende deste tipo de situação? Qual é a sua ilha, a sua gruta? 

2- Outro ponto importante: Hefesto representa o arquétipo do rejeitado, mas também o compulsivo por trabalho, aquela pessoa que desconta no trabalho excessivo suas frustrações e amarguras (no caso de Hefesto, é fácil pensar que ele busca ser o melhor dos ferreiros para conseguir algum amor de sua mãe...). Diante disso, cabe ainda refletir sobre o papel que o trabalho ocupa na sua vida. O que ele é para você? Uma válvula de escape, uma fonte de criatividade e realização, a única fonte de realização e satisfação ou apenas uma forma de ganhar a vida?

3- Ser jogado do alto do Olimpo pelos pais é mais do que uma simples rejeição. É ser banido do convívio com os iguais. Apesar do Monte Olimpo ser relativamente baixo (2917 metros - não é tanto assim pensando que lá viviam os deuses, supostamente afastados do convívio com os seres humanos), Hefesto cai por nove dias não pela distância entre o topo e o mar, mas sim pelo abismo que existe entre a condição de deus e algo abaixo da humanidade (ele cai no mar grego habitado por toda sorte de criaturas fantásticas e é deixado numa ilha deserta, não numa cidade ou num campo). Isso retrata bem as quedas simbólicas que vez ou outra todos sofremos na vida, seja uma queda de status, uma grande perda, etc. Quais "quedas" você já sofreu? As feridas estão curadas ou, como Hefesto, você ficou com as pernas tortas, caminhando com insegurança?

4- Por outro lado, quando os pais lançam Hefesto do alto do Olimpo, eles o lançam ao próprio caminho. É graças a ter sido jogado do alto do Olimpo pelos pais (forte simbolismo emocional) que Hefesto pode deixar de se preocupar com o casamento torto dos pais e se tornar o maior dos ferreiros. Algumas vezes nosso "azar" pode ser nossa maior sorte. Algumas vezes as maiores crises que enfrentamos são justamente nossa maior oportunidade de transformar completamente a nossa vida.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Ágora - Sugestões para estudar melhor

Oi Bia 
Meu nome é Lucas, tenho 15 anos. Queria falar com você sobre a escola e os estudos essas coisas não estão muito bem comigo. O final do ano ta chegando e começa o medo das provas finais. Estou no 9o ano, quando eu era mais novo so ficava brincando na aula e repeti de ano quando estava no 6o, na epoca minha mãe me colocou na psicologa e melhorei bastante. acho que entendi que preciso levar a serio se quiser dar certo na vida. Tenho muito medo de não conseguir!!! Medo de repetir, de acabar largando os estudos e ter uma vida ruim. Tambem fico preocupado pq se tudo der certo e eu passar de ano (minhas notas estao na media) vou pro Ensino Medio e não sei como vou conseguir dar conta de tantas lições de casa, trabalhos, livros e tudo mais. Acho que preciso aprender a me organizar melhor e tambem a ser menos distraido. Como faço pra melhorar?
Valeu Bia!! Ah e o seu blog é otimo!!!
Lucas - Valinhos, SP


Olá, Lucas!

Que legal que gosta do blog! Queria começar dizendo que também gostei bastante da sua pergunta. Você mostra muita maturidade quando reconhece que tem um problema e busca formas de melhorar. É normal, quando a gente se vê frente a um problema ou uma situação nova, se sentir assustado. Porque é difícil deixar de lado uma situação conhecida (por pior que ela seja) e lançar-se para o desconhecido. O que não pode acontecer é paralisar!

Você diz que suas notas estão na média. Se for assim, as coisas estão relativamente sob controle, basta fazer um bom trabalho na reta final. Separei algumas sugestões para ajudar a estudar melhor:

- Coma direito. Eu sei que parece não ter nada a ver, mas comer em quantidades menores e com frequência garante que seu cérebro seja abastecido constantemente com glicose. Isso quer dizer que assim podemos aprender e pensar melhor. Também é melhor dar preferência a alimentos mais naturais e nutritivos.

- Durma o suficiente. Na adolescência é normal ter mais sono. Por isso, nada de ficar até de madrugada no game! Cuide de você. O computador, a TV e outras distrações ainda vão estar aí no dia seguinte. Uma coisa interessante: nossa memória se fortalece no sono, pois é nas horas que passamos dormindo que o cérebro "grava" as informações importantes.

- Tenha um lugar para estudar, isso ajuda a "entrar no clima" e a não perder livros e papeis importantes. Pode ser uma escrivaninha num cantinho do seu quarto, a mesa da cozinha, a biblioteca do colégio, não importa. O fundamental é que seja bem iluminado e arejado. Mantenha o lugar arrumado, senão o desespero já chega antes mesmo de começar as tarefas! A organização de que falo é aquela coisa bem básica: lixo no lixo, papeis e livros empilhados num cantinho, canetas na gaveta ou numa latinha, objetos que não têm nada a ver com o estudo vão para o lugar deles. Abra espaço para o seu estudo!

- Evite estudar ou ler deitado na cama ou sentado de qualquer jeito. É melhor se sentar à mesa, com a coluna no lugar e os pés no chão. Isso ajuda o nosso cérebro a receber mais oxigênio, melhorando a atenção e facilitando a aprendizagem.

- Tenha uma lista de tarefas. O que precisa fazer esta semana? Trabalho de história, exercícios de matemática, estudar para a prova de inglês e a redação sobre atualidades? Muito bem, então dedique-se a uma tarefa por vez. Assim, além de terminar mais rápido por não ter de mudar de assunto e retomá-lo toda hora, você se mantém mais atento ao conteúdo estudado e aprende melhor.

- As horas de aula são preciosas! Demorei para aprender isso, mas é a verdade. Quando eu estava na faculdade, meus horários eram muito corridos. Além do curso, eu tinha muitas atividades fora do período de aulas, por isso não tinha tanto tempo para correr atrás de informações perdidas. Então, percebi que o melhor a fazer era, nos momentos de aula, estar 100% na aula! Anotar tudo direitinho e tirar as dúvidas naquele momento, pois eu sabia que mais tarde não poderia fazer isso. Se a gente olhar com frieza, uma sala de aula nos oferece muitas distrações. Amigos para conversar, pessoas para ficar olhando, coisas sobre as quais queremos pensar ou que passam pela nossa mente e que nem sempre têm relação com a aula... No entanto, tudo isso ainda vai estar lá quando a aula terminar, mas a aula "se vai" assim que toca o sinal! Sei que é difícil mudar isso, mas ajuda muito quando a gente toma a decisão de que a partir de agora vai se manter totalmente presente na aula. Uma coisa que pode ajudar é comentar sobre isso com os seus amigos e professores e pedir para que te ajudem a melhorar, dando um toque quando notarem que você se distraiu.

- Crie uma rotina de estudos. As tarefas precisam de horário, não são algo que se faz quando não sobrou nada melhor para fazer. Por exemplo, quando chegar da escola se dê um intervalo curto para descansar um pouco e comece logo o que precisa ser feito. Crie seus horários e permita-se segui-los. Além de facilitar o seu trabalho, essa rotina acalma aquela ansiedade que algumas vezes sentimos frente a muitas tarefas que se acumulam.

- Faça resumos da matéria. Todos os dias, quando chegar da escola, leia o que anotou e escreva o que entendeu sobre os pontos importantes, com as suas palavras, em poucas linhas. Assim, quando for estudar ou tiver dúvida, é só voltar aos seus resuminhos!

- Dê um tempo! Separe alguns momentos para relaxar e se divertir. Quando nos desligamos um pouco, podemos descansar e recuperar o ânimo. Permita-se por exemplo dormir um pouco mais nos finais de semana, sair com os amigos ou fazer alguma coisa que você goste.

Você também diz que é desatento. Lucas, eu gostaria que você tentasse perceber em que momentos acontecem as distrações. Só durante a aula e as tarefas ou também quando está fazendo uma coisa que gosta (falando com os amigos, vendo um filme, etc.)? Se for apenas durante a escola, é questão de seguir as dicas e ajustar seu foco. Mas se for o tempo inteiro, inclusive em atividades que você goste, aí é interessante voltar para a psicóloga, assim ela pode avaliar direitinho se está tudo bem.

Você já deu o primeiro passo, que é reconhecer sua dificuldade e a necessidade de mudanças. Agora é pegar firme e colocar as mudanças em prática!

Bons estudos!
beijo,
Bia


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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Resgatando a criança interior

Dia 12 de outubro é comemorado o dia das crianças no Brasil. Pensando na data, preparei o artigo de hoje pensando em formas saudáveis para lidar com a nossa criança interior. Sim, a criança que um dia fomos ainda vive dentro da gente. Quando crescemos e deixamos a infância cada vez mais para trás, mesmo que a gente nunca perceba, a criança interior continua lá. Ela quer correr por aí, ter tempo para brincar, tomar um sorvete, passear num dia de sol... mas acima de tudo, a criança interior que o mesmo que ela sempre quis: ser ouvida.

A vida dos adultos é corrida, todo mundo sabe disso. Principalmente nas grandes cidades... Quase sempre são vidas cheias de compromissos, muito trabalho, responsabilidades, pouco tempo de sono e menos ainda para diversões e atividades mais criativas. Quando a criança interior não pode ser ouvida, ela não se conforma. Criança não desiste fácil! Ela vai te fazer ouvir de qualquer jeito, mesmo que para isso precise te machucar ou dar um belo susto! 

A criança interior representa nosso potencial, aquele lado nosso que quer se divertir, que tem a vida toda pela frente e que ainda não está completa, tem nas mãos todas as possibilidades. É a criança interior que nos permite a diversão espontânea com a qual vamos perdendo o contato na vida de gente grande. Nossa criança é quem dá o colorido à nossa forma de perceber a realidade, pois nos leva a agir mais espontaneamente, sem a rigidez ou a seriedade do adulto. Cuidar da nossa criança é cuidar de nós mesmos e dos nossos sonhos e projetos (é a criança que os têm em mãos!). Por isso, hoje separei algumas sugestões para trabalhar com a sua criança interior. Ah, vale lembrar! Quem tiver crianças exteriores (filhos, sobrinhos, priminhos, irmãozinhos...) pode também inclui-las nas atividades, elas costumam gostar bastante!

A criança que você foi ainda existe aí dentro... vamos deixar que
ela saia e venha se divertir um pouco!

1- Resgatando a criança:
Lembre-se de quando era criança. Se quiser pode encontrar aqueles videos antigos ou fotos. Qual era sua brincadeira preferida? O que você mais gostava de fazer? E o prato predileto? O que não gostava, o que mais te deixava triste ou assustado?


2- Fazendo as pazes com sua criança interior:
O que você mais precisava e não teve quando pequeno? Não estamos falando apenas de coisas concretas, mas principalmente daquilo que é abstrato mas faz toda a diferença. Teve o carinho necessário? Teve atenção sincera de seus cuidadores? Teve limites o suficiente para crescer consciente de si e de seus papéis, autoconfiante? Ou será que teve tudo isso em excesso, criando o sentimento de sufoco e a rigidez no comportamento? O que a sua criança interior mais precisa hoje para sorrir? Dê isso a ela, não importa se é um abraço, dizer a alguém sobre como se sente, dormir um pouco mais, aprender a dizer não. Todos os dias faça no mínimo uma coisa que deixe a sua criança interior sorrir e se sentir respeitada e amada.


3- Sugestões para trazer sua criança à tona... Divirta-se!!

- Experimente o novo. Vá a algum lugar onde nunca foi, faça algo que nunca fez, fale com alguém que não conhece, prove novos sabores! Quando somos crianças tudo é novo e diferente, todo momento é uma descoberta, e é essa atitude curiosa e aberta que nos permite mudar nossos conceitos e pontos de vista, quebrando ideias rígidas, preconceitos e inseguranças.

- Faça bolinhas de sabão! As crianças adoram. Coloque água num copo e um pouco de detergente, misture, molhe a pontinha de um canudo e sopre com cuidado para o alto. Deixe a bolinha voar e ser livre. Tente fazer a maior bolinha de sabão do mundo. Assopre dentro da mistura e faça uma bagunça! O importante aqui é a diversão sincera, sem programar, sem horário fixo, acertos ou erros como os adultos costumam fazer. Ah, se sua criança for participar dessa atividade com você, cuidado, água com sabão não é suco e as mais novinhas podem esquecer e tomar ao invés de soprar!

- Organize um pic-nic. Pode ser num parque, bosque, pracinha, na praia... Com certeza existe algum lugar bonito perto da sua casa. Para os dias frios e chuvosos, uma dica que a gente fazia lá em casa: faça o pic-nic dentro de casa (com toalha no chão e todo o resto), por exemplo na sala. Convide os amigos. Levem uma toalha grande para forrar o chão, os comes e bebes, podem levar coisas para a diversão como bola, música, etc.

- Solte pipa. Num local seguro (de preferência não em lages ou telhados) e longe dos fios da rede elétrica. Deixe a pipa viajar pelo céu, aprecie a sensação de leveza, de estar no alto...

- Faça arte. Pode desenhar e pintar com seus lápis de cor e de cera, se tiver pintura a dedo, melhor ainda! Invente colagens com revistas velhas e papéis coloridos. Não precisa ficar lindo, é só diversão e expressão livre. Não estamos num concurso de arte e ninguém vai até a sua casa brigar com você porque porque o gatinho que você desenhou saiu com cara de Papai Noel...

- Seja um "mestre cuca"! Ah, não precisa separar aquele avental especial do cursinho de pratos gourmet ou os ingredientes para pratos muito especiais. Hoje é uma receita especial sim, mas o toque especial será a diversão, por isso, deixe de lado as formalidades. Prepare algo divertido e simples. Brigadeiro de colher, pão de queijo, biscoitinhos que você pode decorar com castanhas e frutas secas, espetinhos de frutas... Solte a imaginação.

- Adivinhe formas de nuvens. Deite-se no chão e relaxe. Gaste algum tempo nesta atividade, se envolva sem medo. O que as nuvens parecem? Olhe suas formas e posições mudarem com o vento.

- Olhe o céu durante a noite e tente reconhecer algumas constelações. Muitas delas têm nomes de personagens e criaturas da mitologia, e pode ser divertido pesquisar quem são e porque estão lá no céu...

- Se possível organize a noite da fogueira (cuidado, crianças!!), fica bem divertido com mais alguns amigos. Vocês podem assar batatas, milhos, jogar conversa fora, tocar tambor...

- Conte uma história. Solte a imaginação, permita-se inventar, permita que a história aparentemente não tenha sentido, apenas deixe a imaginação solta e a criatividade fluindo.

- Crie um jardim. Pode ser no quintal de casa ou, quem não tem espaço, pode fazer isso num vaso ou jardineira, criando um mini jardim. Nem que seja o bom e velho feijãozinho no algodão, mas deixe-se ver e surpreender por uma vida que brota e cresce... deixe-se crescer junto com a plantinha.

- Desligue a luz e faça algumas sombras com uma lanterna ou vela. É ótimo para a imaginação! Com pipoca fica mais gostoso!

- Começou a chover? Hora de correr para fora e se divertir muito!! Nada como brincar na chuva... Ah, não tem chovido muito na região onde você mora? Mangueiras, baldes e bexigas com água resolvem! Ainda está frio? Guarde a ideia para o verão, é bem divertido.

- Leia algo por gosto. De preferência alguma coisa sem relação alguma com a sua área de trabalho ou de estudo. Leia algo novo: uma boa história de ficção, algo sobre música, ou culinária, ou mitos de um povo diferente, ou arte... É muito saudável manter sempre uma leitura paralela de alguma área diferente da que estamos acostumados a ler, pois além de ajudar a relaxar e estimular a criatividade, nosso cérebro cria novas redes de sinapses.

- Brinque com barro ou argila, ou ainda faça um castelo de areia. Esses são materiais regressivos, que nos colocam em contato com as nossas emoções mais profundas.


Não importa quantos anos você tem. Não importa se a infância está tão distante que mais parece ter sido um sonho. Também não importa se ela foi feliz e tranquila ou se foi uma época difícil da sua vida. O que interessa para nós neste momento é resgatar essa criança, esse lado nosso cheio de planos e esperanças. Resgatando nossa criança interior podemos levar uma vida de adulto, mas com a leveza de viver da criança, tornando nossos dias mais agradáveis e equilibrados.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Mythos - La Loba: Recuperar a si mesmo

Semana passada conversamos sobre violência sexual (se você não viu esse artigo, clique aqui para ler). É um tema tenso e polêmico, que gerou bastante mobilização entre os leitores. Alguns me escreveram contando suas experiências ou a de alguém próximo. Outros, que por sorte nunca passaram por isso nem acompanharam de perto, escreveram comentando suas opiniões, tirando dúvidas, se solidarizando, ou ainda falando sobre prevenções e políticas públicas. Outras pessoas, ainda, escreveram para me dizer o quanto estavam desconcertadas e revoltadas pela escolha do tema para o artigo. De todo o jeito, essas reações são todas muito positivas, mesmo quando agressivas. Quando algo nos toca é importante reagir, ou pelo menos ter clareza do que sentimos e expressar isso de algum modo. Comentando com uma pessoa querida sobre a reação das pessoas frente ao artigo, essa pessoa me sugeriu trabalhar com um mito mais amoroso esta semana. Mas resolvi fazer diferente. Vamos trabalhar com um mito alquímico esta semana, isto é, um mito ligado às transformações profundas. Diante de uma situação limite, que nos leva a questionar qual o sentido de estarmos neste mundo, precisamos reavaliar quem somos, o sentido de estarmos aqui (isto é, de onde viemos e para onde pretendemos ir). Não se pode sentir o amor e dar valor a ele quando não estamos inteiros. Precisamos antes nos reconstruir.

Hoje vamos trabalhar com uma lenda do deserto mexicano, La Loba, a mulher dos ossos ou La Huesera. É uma senhora gorda que passa o dia perambulando pelo deserto. A vida no deserto é muito dura. A secura exige muito de quem caminha por lá. O sol escaldante desafia até mesmo quem já foi desde novo acostumado ao clima hostil. A existência no deserto significa uma batalha diária entre vida e morte, se percebe com muita clareza que não há garantia alguma de que terminaremos o dia vivos ou de que não amanheceremos mortos depois da noite gelada. Mas mesmo assim La Loba anda pelo deserto, atravessando-o todos os dias. Geralmente falam sobre ela como uma mulher já madura e gorda, que carrega sacos de lona. E, dentro desses sacos, se algum viajante desavisado conseguir espiar, vai ver uma porção de ossos. É isso o que La Loba faz o dia todo: caminha pelo deserto recolhendo ossos humanos e de animais, principalmente de lobos. A morte é uma presença constante no deserto, nos lembrando o tempo inteiro de que ainda estamos vivos - por enquanto!

"La Loba... La Huesera", imagem de Steeringfornorth, DeviantArt.
Quando o sol se põe no deserto, tingindo o cenário com um alaranjado intenso, La Loba se esconde da noite gelada em sua caverna. A caverna de La Loba é um lugar muito simples: uma fogueira para aquecer e criar luz, além de uma imensa pilha de ossos. Ela pega alguns ossos com cuidado e começa a montar um esqueleto de lobo. Limpa cada osso e o encaixa em seu devido lugar. Conforme a noite avança, o esqueleto de lobo volta a tomar forma, até estar completo. La Loba então caminha para perto de sua fogueira, sempre olhando para o esqueleto com atenção. E uma música lhe vem à mente. Não qualquer música, mas sim uma muito ligada à vida que retorna. Enquanto La Loba aponta as mãos para o esqueleto e canta sua música, algo inusitado acontece. O esqueleto começa a se forrar com carne... e a música continua, com mais devoção, e o lobo ganha pele, os pelos negros crescem fartos e brilhantes. La Loba canta com a alma, e o lobo sente isso, logo ele começa a respirar outra vez e a dançar a música da vida. 

Em certo ponto de sua dança, o lobo salta e corre para a noite, cada vez mais rápido. Ele cruza a noite fria do deserto com a certeza de um vencedor. Ele pode escolher a vida, pois já provou a morte. Em certo ponto de sua corrida, o lobo uiva para a lua e aumenta ainda mais a velocidade da corrida. Ele se transforma enquanto passa a correr apenas sobre as patas traseiras, os pelos dão lugar a uma pele macia, os cabelos brilhantes caem-lhe até a cintura, o rosto de lobo fica cada vez mais delicado... e logo quem corre não é mais um lobo, e sim uma mulher que corre com velocidade para o horizonte, rindo e completamente livre, ao som da música da vida.


Questões para reflexão:

1- Vamos começar pensando sobre nosso cenário. O deserto é inóspito e duro com todos. Simbolicamente, atravessar um deserto pode significar atravessar uma grande crise na nossa vida: uma situação de violência, uma doença, um acidente grave, uma perda que nos tira o chão... Não apenas nessa lenda, mas em outros mitos de outros povos, o deserto também surge durante as crises e provações. No contexto cristão, Jesus passa 40 dias no deserto, jejuando, enfrentando o clima hostil e resistindo à muitas provações. No contexto grego, durante a guerra entre titãs e deuses, em certo momento os deuses, pegos desprevenidos, fogem para o deserto. La Loba transita bem pelo deserto porque sabe onde está pisando e o que precisa (coletar ossos). Muitas vezes o deserto é, ainda, um deserto emocional. Um vazio tão grande que vai além da solidão: faz com que a pessoa sinta sua existência enquanto ser humano ameaçada, tamanha a aridez emocional em que se encontra. Não há outros com quem partilhar as belezas e dramas da vida. Não há emoções para sentir e vivenciar o que se passa. Olhe ao seu redor. Como é o seu deserto? Quais são seus maiores perigos, o que ameaça sua existência? Muito importante: o que te mantém cruzando esse deserto todos os dias? Mas uma coisa é certa. La Loba não conseguiu sua sabedoria passeando por vilarejos ou colhendo flores em jardins, mas sim entrando na crise/deserto e coletando ossos, isto é, envolvendo-se com a situação caótica e transformando-a em recursos criadores. As crises trazem um grande potencial transformador, que se abre para nós desde que tenhamos coragem de nos envolvermos com a morte/mudança.

2- Se fosse você caminhando no deserto no lugar de La Loba, como seria? Ela carrega um saco de ossos. Podemos compreender os ossos como aquilo que temos de mais básico, aquilo que nos sustenta e nos dá forma. Abra o saco que você carrega e retire os ossos, um a um. O que são seus ossos? O que te sustenta e te faz continuar caminhando em meio à aridez do deserto?

3- A lenda termina com a mulher/lobo transformada e correndo livre para além do deserto. No entanto, isso só aconteceu por ter tido coragem de enfrentar a aridez do deserto e permitiu que ela a transformasse. Podemos compreender o deserto como cenário / contexto, como já exploramos no ponto 1. A lenda se torna ainda mais transformadora quando pensamos em suas personagens (La Loba, o lobo que revive e a mulher em quem ele se transforma) como partes da psique de uma mesma pessoa. A pessoa atravessa a crise/deserto e se entrega a ela, morre, é drenada de toda vida que tinha: sua história, seus sonhos, seu corpo... só restam ossos bagunçados (nossos valores mais fortes, nosso sustentáculo mais fundamental), que a parte sábia da nossa psique (La Loba) recolhe num saco de qualquer jeito e continua a caminhar. Os ossos só saem do saco quando ela chega à sua caverna, a um local protegido e seguro onde podemos ser nós mesmos sem grandes preocupações (podemos relacionar a caverna ao lar ou, numa análise mais aprofundada, ao útero materno). Nesse ambiente seguro e fortalecedor, os ossos podem ser limpos com cuidado, removendo deles qualquer resquício de morte ou dano. É o momento de juntar os cacos, de se cuidar. E então o fogo (catalizador de processos intensos e profundos de transformação) é aceso e começa a reconstrução. Note que só podemos nos reconstruir porque vivenciamos a crise e o luto pelas perdas que inevitavelmente acontecem. Cada osso é colocado no lugar certo, mas apenas depois de limpo. Em seguida, a reconstrução continua, conforme La Loba canta a música da vida. A música é algo bastante significativo. Mesmo quando cantada, quando tem palavras, a linguagem da música não é interpretada pelo cérebro da mesma forma nem nas mesmas áreas que outros tipos de linguagem (quando se lê ou se ouve uma fala, por exemplo), a música é muito mais carregada de emoção. Isso nos aponta um dado importante: nossas emoções têm um papel fundamental no processo de reconstrução de nós mesmos, foram elas (simbolizadas na música) que trouxeram o lobo/mulher de volta à vida. A aridez emocional pode ser uma defesa frente à uma crise muito grande, a gente "desliga" e prefere não sentir... Mas apenas retomando o contato com as emoções é que poderemos sair inteiros da crise. Após um grande baque, a vida retorna de forma instintiva, como um renascimento, o lobo mostra isso. Aos poucos, conforme o lobo se arrisca a caminhar pela sombra da situação enfrentada (noite do deserto), agora fortalecido emocionalmente, é que ele pode "crescer" e ser verdadeiramente livre, escapar de suas antigas amarras, correr para o horizonte do deserto tomando uma nova forma (no ponto em que o lobo se torna mulher). Só quando permitimos que a crise nos transforme e extraia de nós pontos positivos é que somos verdadeiramente transformados por ela. Só quando tivemos coragem de nos permitir a desconstrução e em seguida a reconstrução é que poderemos correr sob a luz da lua para os horizontes do deserto. Estamos prontos para explorar novos horizontes.