terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Boas festas e feliz 2015!

Chegou o final do ano. E como em todo final de ciclo, é hora de fazer um balanço do ano que passou, recordando os momentos mais importantes, honrando as perdas, aprendendo com os erros e sorrindo novamente com cada lembrança alegre. 



É também o momento de agradecer. Agradecer por cada felicidade que tivemos, por cada conquista, por cada aprendizado... Mas, principalmente, é o momento de agradecer por cada pessoa especial que nos acompanhou por esses caminhos, sorrindo e comemorando nos momentos bons, apoiando e confortando nos ruins e ainda nos permitindo participar de suas próprias buscas e caminhadas. Quando dois peregrinos caminham juntos, um elo especial se forma. Nenhum deles sabe exatamente onde vão chegar, nem mesmo quem eles serão ao chegar, mas ainda assim, têm a coragem de caminhar lado a lado, estando lá para o outro.

Sou muito grata a todos os "peregrinos" que caminharam comigo por aqui, leitores e parceiros, que acompanharam o caminho lendo, curtindo, comentando, compartilhando os textos e compartilhando até aquilo que têm de mais precioso: suas próprias histórias de vida. Agradeço pela confiança, pela gentileza e amizade, pela companhia.

Um aviso: o blog estará de férias nessa época de festas. Nos outros anos optei por não interromper as atividades do blog nessa temporada, mas desta vez o final do ciclo pede um momento de pausa e reflexão, para que a gente volte com energia total no novo ano. Retomaremos as atividades do blog dia 13 de janeiro. Na página do Facebook as atividades continuam normalmente.

Boas festas para todos e um 2015 recheado de felicidade! Que o ano novo seja muito mais lindo do que a gente espera! :)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Ágora - saudade de onde nunca estive

O que explica muitas pessoas, inclusive eu, sentirem saudades de lugares que nunca visitaram e situações que nunca vivenciaram?; há até uma canção do Renato Russo que fala à respeito. 
Desde já desejo-lhe felizes Natal e Ano-Novo.
Érico


Boa tarde, Érico!

Na forma como eu entendo, essa "saudade" poderia ser um tipo de déjà vu, expressão francesa que significa "já visto" e que é usada para descrever aquela sensação de que já conhecemos algo ou alguém, de que já estivemos em certo local ou mesmo uma saudade ou nostalgia de algo que nunca se passou.

Nosso cérebro organiza nossas memórias em duas categorias: a imediata, por exemplo de algo que acabou de se passar, do filme que acabamos de ver ou de uma conversa que tivemos há pouco; e a memória de longo prazo, que nos traz lembranças mais antigas, de meses ou mesmo de muitos anos atrás. Para uma lembrança ser armazenada na memória de longo prazo, ela precisa ser significativa para nós e, antes, precisa passar pela memória de curto prazo. Conforme o tempo passa e reforçamos uma lembrança especial, ela se "firma" na nossa memória de longo prazo. Acontece que, vez ou outra, nosso cérebro falha no processo e nossa lembrança vai direto para a memória de longo prazo, deixando essa lacuna, essa sensação estranha...

No caso da sua pergunta, é interessante considerar que aquilo que nunca foi vivido pode ter sido sonhado, visto em filmes e livros, por exemplo e, ao passar diretamente para a memória de longo prazo, criam o sentimento de saudade e mesmo um interesse maior por certos temas. Tenho um amigo fascinado pelo Egito, ele adora filmes, documentários e livros sobre o tema, mas nunca esteve lá. Diz sentir saudade de lá, como se fosse um lugar em que já houvesse morado. Quando conversamos sobre isso, ele diz que desde muito novinho tem esse interesse. Talvez essa falha de memória (que é comum de acontecer e não indica maiores problemas) possa ter acontecido no início de todo esse interesse, fazendo com que a "saudade" aumente mais a cada filme assistido ou livro lido...

Espero ter contribuído para a discussão.
Boas festas para você também!
Bia 


Para participar da coluna Ágora, envie a sua pergunta para o email bf.carunchio@gmail.com, você também pode participar enviando sua pergunta através da nossa página no Facebook ou do meu perfil pessoal.  Você tem a opção de se identificar ou de se manter como anônimo.


quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

7 Atividades que ajudam no desenvolvimento psicológico das crianças

O artigo de hoje vai ser um pouquinho diferente. Recebi algumas mensagens de leitores perguntando sobre atividades para as crianças nas férias escolares; e como diversas pessoas tinham esse interesse, resolvi escrever um artigo ao invés de responder a essas questões na Ágora. Para entender melhor do que estamos falando, confira as mensagens:

Boa tarde Bia. 
Minha ex esposa tem a guarda dos meus filhos e eles vão passar as férias de janeiro comigo. O que você sugere pra manter a criançada ocupada e feliz? É a primeira vez que fico sozinho com eles por tanto tempo. Obrigado.
Paulo Henrique S.

Bia, chegou aquela época do ano que é o terror das mães, as férias escolares kkkkkkkk..... Como faço para manter meus filhos quietinhos e deixarem eles se divertir? Porque assim nossa família é humilde e não tenho como passear com eles porque trabalho o dia todo.
Juliana G. D.

Bia,
Sou uma avó louca pelos meus netos. Eles vão ficar aqui comigo depois das festas, moro numa chácara no sul de Minas e acho que vai ser mais gostoso para as crianças passarem as férias da escola aqui ao invés de presos no apartamento das minhas filhas em São Paulo. Queria algumas sugestões de atividades para eles brincarem, porque na casa deles só brincam de computador. Mas queria essas brincadeiras que ajudam a desenvolver. Eles são seis crianças entre 5 e 8 anos, todos são muito espertos e até o menorzinho de 5 já sabe ler. Obrigada. um natal abençoado para você e sua família e um feliz 2015.
Maria Lúcia 



Então, pensando na situação do Paulo Henrique, da Juliana e da Maria Lúcia, que é a mesma de tantas outras famílias, separei algumas ideias de atividades simples e econômicas que podem ser feitas nesse período de férias das crianças.

1- desenhar no chão da calçada ou do quintal com giz de lousa. O giz é barato e é encontrado com facilidade em qualquer papelaria. Além disso, é fácil limpar a bagunça depois com um balde d'água - ou podemos apenas deixar a arte da garotada durar! Essa atividade desenvolve a criatividade, a coordenação motora, ajuda a criança a expressar suas emoções através do desenho e ainda traz um sentimento de liberdade quando permite ir além do desenho no papel.

2- Pular amarelinha! Vocês podem riscar a amarelinha no chão com o giz que usaram na atividade 1 ou ainda fazer a amarelinha com fita adesiva no chão, inclusive dentro de casa, como no quarto dos pequenos. Essa atividade ajuda a "gastar energia", trabalha funções nervosas como o equilíbrio, o planejamento da ação, atenção e concentração, além de ensinar valores como a persistência e a competitividade "boa", aquele movimento de tentar se superar.

3- Organizar um piquenique. Vocês podem ir ao parque da cidade, a uma pracinha ou mesmo aproveitar uma sombrinha gostosa do quintal de casa. Deixem as crianças se envolverem e participarem bastante, tanto no preparo dos lanches quanto na arrumação do lugar (antes e depois da brincadeira!). Evitem alimentos prontos, façam vocês mesmos os sanduíches, o suco, preparem algumas frutas ou o que a imaginação e o apetite sugerirem. Essa atividade ajuda a desenvolver a cooperação e o trabalho em equipe, ensina a trabalhar com organização para alcançar uma meta (no caso, ter um momento gostoso é a meta). ATENÇÃO ADULTOS: não estamos recebendo nenhuma personalidade ou autoridade oficial para o evento. Não é a festa de coroação de um rei, é um piquenique de férias organizado por crianças... a ideia é se divertir, e não fazer tudo perfeitinho!

4- Vamos juntar sucata: caixinhas, garrafas, latas, tampinhas, papel, papelão... Agora vamos soltar a imaginação e construir brinquedos de sucata! Podem fazer pés de lata, casinhas com caixas de papelão, uma cidade em miniatura para brincar com carrinhos e bonecos, criar fantasias e montar um teatrinho... A imaginação é o limite! Quando a brincadeira terminar, todo o material usado pode ser levado para a reciclagem, ensinando às crianças a importância de cuidar da natureza. Isso contribui para a atenção e coordenação motora, ajuda a desenvolver a criatividade, trabalha o planejamento e ainda dá para a criança a noção de pensamento além de si mesma, de responsabilidade por algo maior, quando trabalhamos a questão da reciclagem. Este tipo de atividade é aquele tipo de brincadeira sem competitividade, em que, como disse certa vez um dos meus pequenos, "ninguém ganha nem perde, a gente só se diverte e faz amigos".

5- Fazer bolinhas de sabão. Vocês podem diluir um pouco de detergente de cozinha na água, molhar um canudinho na mistura e soprar de leve. Em geral as crianças gostam muito desta atividade e ela é ótima para ser feita depois de um momento mais agitado. Por trabalhar a respiração lenta e rítmica, ajuda a criança a se acalmar e a se concentrar, pode inclusive ser feita como forma de meditação - o que estamos soprando dentro da bolha? O que estamos tirando de dentro de nós? O que estamos dividindo com o mundo? Para onde essa bolinha vai?

6- vamos convidar alguns amigos e fazer uma noite do pijama! Com direito a desfile de pijamas, histórias e lendas que a criançada adora escutar (famílias, vocês encontram muitas na internet, inclusive aqui no blog temos várias histórias que as crianças podem gostar na coluna Mythos) e algumas guloseimas. Isso desenvolve a socialização e incentiva valores como amizade e companheirismo. Além disso, como no piquenique, ajudar a organizar a brincadeira contribui bastante para o desenvolvimento do planejamento, trabalho em equipe, ajuda a criança a aprender a expor suas ideias e ouvir as sugestões dos outros.

7- estamos entrando no verão, o que significa que as noites são mais quentes que no resto do ano. É uma época muito boa para ir lá para fora e olhar as estrelas. Aprendam algumas constelações simples e fáceis de localizar, como o Cruzeiro do Sul ou as Três Marias e ensinem aos pequenos. Além de se sentirem espertos, esse tipo de atividade relaxa a criança, cria um momento harmonioso de convivência entre a família e trabalha aspectos como a concentração e a atenção.

Lembrem-se que o importante não é o brinquedo, mas o como se brinca. A participação dos adultos precisa se dar como participante mesmo, e não como diretores. A ideia é que os pequenos brinquem e os adultos façam o papel complementar, para terem um tempo gostoso juntos e ajudar no desenvolvimento das crianças, e não que os adultos brinquem e as crianças assistam. Ah, e criem também as suas atividades, adaptem, permitam-se!
Ótimas férias para todos e divirtam-se! :)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Mythos - Oxossi: aceitando a fartura

Hoje temos um mito de origem africana. Oxossi não é humano e nem um deus, ele é um orixá, uma entidade que, na cosmovisão africana, rege os diversos aspectos da natureza, do mundo criado por um ser maior. Até hoje ele é cultuado no Brasil e na América Latina, nas religiões de origem ou com influência africana. Na África, Oxossi é pouco cultuado hoje em dia, pois muitos de seus sacerdotes e devotos foram escravizados ou mortos séculos atrás.


Oxossi é o orixá que rege as matas e florestas, assim como a caça e os animais. Seu símbolo é o arco e flecha que usa na caça. Também é ligado às diversas manifestações artísticas, do canto dos pássaros às artes produzidas pelo ser humano. Portanto, é um orixá ligado ao sustento, mas também à fartura, a uma vida próspera e com a sua harmonia.


Questões para reflexão:

1- Vamos começar pensando sobre a figura de Oxossi, um caçador. O caçador é aquele que se permite ir além do conhecido, além do óbvio. Ele mira seu alvo, dispara uma flecha certeira e conquista sua meta. A fartura está muito relacionada a conquistar aquilo de que precisamos para uma vida com qualidade. Como você conquista suas metas? Como é, no seu dia a dia, esse processo de mirar o alvo e alcançar (difícil, tranquilo, sofrido, cheio de ânimo ou de preocupações...)?

2- Sobre a fartura, faça uma festa de toda a fartura que existe em sua vida. Lembrando que fartura não é apenas dinheiro ou ter comida na mesa. Ter boa saúde, trabalho, bons amigos, amor, uma família que nos apoia emocionalmente também são sinais de grande fartura. Deixe a sua lista em algum lugar que veja sempre (e leia com frequência a sua lista!), como na sua agenda, num mural ou mesmo na porta do armário ou da geladeira. A gratidão só vem quando sabemos reconhecer e aceitar a fartura que existe na nossa vida.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Mythos - Sheela Na Gig: nascimento, morte e envelhecimento

Sheela Na Gig é uma figura da mitologia celta. Não é exatamente uma deusa ou uma personagem, e sim uma representação do feminino sábio e criador. Ou pelo menos, não são conhecidos mitos em que Sheela Na Gig se destaca e interage com deuses, mortais ou outras criaturas.

Sheela Na Gig. Imagem de Hrana Janto.
Ela é representada como uma figura feminina, abaixada com as pernas abertas, abrindo e mostrando os próprios genitais com as duas mãos. Esse símbolo era encontrado nas entradas de templos (e mais tarde, de igrejas cristãs na região da Irlanda e Grã Bretanha, até serem destruídos por religiosos que consideraram a imagem ofensiva). Um ponto bem curioso é que algumas vezes, Sheela Na Gig não é uma mulher jovem ou madura, que compreenderíamos como uma mãe, uma mulher fértil. Ela é mostrada como uma avó bem idosa, com os seios murchos, os cabelos ralos, alguns dentes faltando e o corpo bem magro. Por isso, ela representa, ao mesmo tempo, nascimento e morte, e todo tipo de transição ou grande mudança que possa existir entre esses dois extremos. Além disso, traz à tona o poder da mulher idosa/sábia, que já não gera filhos, mas é capaz de gerar e sustentar toda uma realidade com sua experiência, sabedoria e intuição. 


Questões para reflexão:

1- Nos dias de hoje, a imagem da pessoa bem idosa gera reações de medo, de pena e até de nojo. A expectativa de vida é a mais alta da história, no entanto, não tempos o respeito pelo idoso, essa faixa etária não tem a visibilidade que merece. Vivem muito, mas esperam parar de envelhecer por volta dos 20 ou 30 e poucos anos e viver o resto da vida assim. E isso não é apenas algo estético ou um ideal de beleza, pois junto com aquilo que se deseja aparentar, vem um jeito de agir, pensar e sentir. Ou seja, é uma grande perda de tempo passar uma vida muito longa como se sempre fosse jovem. A ideia pode até parecer atraente no início, mas é uma perda de tempo (com o perdão do trocadilho) gastar tantas décadas na casa dos 20 anos quando existem novos desafios, novas descobertas e novos insights nas fases que seguem. Como você lida com o seu envelhecimento (ou com a possibilidade de "ficar velho")?

2- Sheela Na Gig nos apresenta uma visão da morte bem diferente da que se tem hoje em dia. Entre alguns povos da antiguidade (celtas, gregos, romanos, entre outros), a morte e a fertilidade estavam intimamente relacionadas. Entre gregos, por exemplo, os rituais fúnebres eram bem parecidos com os rituais de casamento e, em alguns casos, envolviam mesmo a prática sexual. A ideia dos funerais era promover a fertilidade, ajudando o morto a renascer (neste ou em outro mundo, conforme as crenças de cada povo). Trazendo isso para o nosso dia a dia, como você vê os momentos de transição? É frequente que a mudança seja experimentada como uma morte, pois envolve perdas. Mas, passado o turbilhão da perda, algo novo surge, uma nova fase, novos relacionamentos, um novo trabalho talvez... Algo renovado e fresco nasce da velha Sheela Na Gig. Como se a vida brotasse da morte. Quais foram as maiores mudanças que você já enfrentou na vida? Como se sentia no começo da mudança e mais tarde, quando as coisas começavam a se estruturar novamente?


sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Ágora - Não entrei na faculdade mais uma vez


Oi Bia. Eu to vivendo uma situação deprimente. Não consigo entrar na faculdade e este já foi meu terceiro ano fazendo vestibular. Tenho 20 anos e ainda não entrei quando tenho amigos da mesma idade que já estão quase terminando. Estudei num dos melhores colégios de São Paulo e meus pais tem uma condição social muito boa então eu sou muito cobrado por isso e me sinto péssimo por nunca conseguir mesmo tentando cursos mais fáceis de passar eu sempre acabo desapontando eles e fico me sentindo péssimo com isso. Até meu irmão mais novo que tem só 17 anos entrou direto numa ótima universidade e vai fazer engenharia aí eu acabo sendo ainda mais pressionado por isso, mas o L. (irmão) sempre teve mais cabeça pros estudos do que eu, ele é o mais inteligente e capaz da minha família toda. Mas me sinto péssimo Bia, sinto que sou uma vergonha pros meus pais. Me sinto uma pessoa fracassada e sem valor. 
D.


Olá, D.

Em primeiro lugar, o valor de uma pessoa não se mede em termos de sucesso ou fracasso. Ninguém perde seu valor por passar ou não numa prova. Por isso, D., por mais desagradável que seja não ter conseguido, isso não é motivo para se sentir menos do que outras pessoas.

Sobre a questão em si, a primeira coisa que pensei quando li sua mensagem foi: será que ele quer fazer faculdade ou só tem medo de desapontar a família? Profissão é coisa séria. Passamos a maior parte do tempo no nosso trabalho e mesmo nos outros momentos, nosso estilo de vida continua sendo marcado consideravelmente pela nossa profissão. E mesmo pensando mais a curto prazo, é bom lembrar que um curso universitário não é algo simples, exige gastos, tempo de dedicação, estudos e certos sacrifícios. Por isso, pense muito bem e não faça nada apenas para corresponder à expectativa da sua família. Se quiser fazer, faça por si mesmo. Existem outras opções para ter uma formação que você pode considerar, como cursos de curta duração ou mesmo uma formação técnica, mais voltada para a prática do que para o mundo acadêmico. Avalie as opções e escolha por si.

Caso opte por fazer a faculdade, vale a pena rever seus passos para descobrir onde está errando. Quais matérias e conteúdos tem mais dificuldade? Estudar em grupo é algo que ajuda ou que te distrai? Como se sai nos simulados? Ou os conteúdos estão claros, mas na hora da prova a pressão e a ansiedade atrapalham? Costuma deixar tudo para a última hora? Organizou um roteiro eficaz para os estudos renderem melhor? Também é preciso dar atenção ao lado emocional, cuidando dessa ansiedade que vem de toda a pressão que você recebe, D. É preciso esforço, mas é preciso também ter tempo de relaxar, dormir o suficiente, ter atividades divertidas com amigos e pessoas queridas, enfim, deixar esse "nervoso" ir embora.

Independente do que você decidir e de como a vida se desenrolar, saiba que não é isso o que determina o sucesso, o valor e muito menos a felicidade de alguém. A pressão se desfaz e a vida se torna mais leve quando as nossas escolhas são de fato nossas, quando os passos que damos são resultado da nossa vontade e necessidade, e não de expectativas que outras pessoas (por mais queridas que sejam) criaram sobre nós. Só podemos viver os nossos próprios sonhos, nunca o de outras pessoas.

Beijos,
Bia 


Para participar da coluna Ágora, envie a sua pergunta para o email bf.carunchio@gmail.com, você também pode participar enviando sua pergunta através da nossa página no Facebook ou do meu perfil pessoal.  Você tem a opção de se identificar ou de se manter como anônimo.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Mythos - Maya: olhar além das ilusões

Maya é a deusa indiana associada ao universo material, conhecida como "tecelã da teia da vida" e "mãe da criação". Na visão hinduísta, o mundo material é apenas uma ilusão que nos impede de ver um mundo além deste, mais legítimo e sem as enganações da matéria.

Além de ser ligada à criação, Maya é associada à inteligência, à magia e à água. É Maya quem ergue os véus do mundo, os véus da ilusão. E ao fazer isso, ela nos dá acesso a  um conhecimento precioso, pois nos permite olhar além das ilusões e perceber a realidade por trás do mundo e das situações. Ela tem o poder tanto de cegar com ilusões como de nos livrar dela.


Questões para reflexão:

1- O que você entende por "ilusão"? Já viveu situações em que, mais tarde, percebeu que estava iludido? Costumamos dizer que alguém está iludido quando a pessoa não vê a realidade da forma como realmente é, cai em auto enganos e acaba tomando atitudes das quais irá se arrepender quando conseguir ver além da ilusão.

2- Maya não é apenas a que ilude, mas também a que ergue os véus e nos permite ver por trás deles. Existem situações na sua vida em que você resiste a ver por trás do véu? Se sim, quais? Despertar de uma ilusão nem sempre é fácil. Algumas vezes é dolorido, pois destrói sonhos e esperanças. No entanto, é fundamental perceber que, enquanto estivermos cegos pelos véus de Maya, nada realmente se desenvolve na nossa vida. É como se a gente estivesse preso num cenário em que não há liberdade de agir. Só há realidade quando há escolhas verdadeiras. E nunca escolhemos de verdade mergulhados em ilusões.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O sonho que não se realiza e a semente não germinada

Nada apodrece mais depressa do que sonhos mortos. Aqueles que nunca se realizaram e que no fundo a gente sabe que nunca vão se realizar... Mas que continuam lá, preenchendo o espaço e o tempo que poderiam ser usados para outros sonhos mais possíveis. Aquele sonho da adolescência que a gente nunca colocou em prática - e nem vai colocar. A vida tomou outro rumo, crescemos e de repente temos uma vida tão estruturada, tão diferente daquela época, que nos percebemos sem condições de ir atrás daquele antigo sonho. Ou apenas percebemos que não é viável. Mas as sobras dele continuam lá e não deixam a pessoa seguir em frente.



Claro que sou a favor de ir atrás dos nossos sonhos. Mas existe uma diferença clara entre sonhos que podem se tornar um projeto, que podem se tornar realidade, e aquele tipo de sonho que a gente mesmo sabe lá no fundo que não vai acontecer. Seja porque o tempo passou, porque as condições da nossa realidade mudaram por completo, porque mudamos de ideia e não queremos admitir, porque no fundo aquilo não dependia de nós, porque novas situações surgiram na vida da gente e transformaram tudo. Existe uma diferença entre abandonar um sonho e mudar de ideia. Assim como existe uma diferença entre desistir e perceber que apesar dos nossos esforços, o desejo não vai se realizar.

Sobram os retalhos de sonhos. Aquela matéria morta que nos impede de ir para frente na vida. Aqueles fantasmas que assombram nossa alma e dificultam a nossa caminhada. O que fazer? É muito difícil deixar isso para trás. Porque apesar dos entraves que os sonhos mortos provocam (sintomas físicos e psicológicos, além de emoções como insegurança, medo, incertezas, frustração e o sentimento de sermos pouco capazes de seguir com a nossa vida), ainda é mais confortável ficar preso a algo desconfortável e conhecido do que lançar-se ao desconhecido (mesmo que tenha boas chances de ser melhor do que esperamos)

Uma semente que não germina não está morta. Parece que ela está lá, esquecida na terra, incomodando... Talvez ela apodreça. E assim servirá de adubo para as outras sementes. O sonho não realizado, quando superado, pode nutrir novos sonhos. Ele não foi um fracasso. Porque nos sustentou no passado - talvez por anos e anos, talvez na fase mais complicada da nossa vida. Sempre terá seu lugar nas nossas lembranças. E agora, se bem aproveitado, sustenta nosso presente pois nos dá referências (da realidade em que vivemos, das nossas atitudes, do nosso jeito de ser e agir), nos fortalece para viver os nossos novos sonhos de forma mais efetiva, levando a gente a novos caminhos - mais possíveis e felizes.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Ágora - Narcisismo: pessoas "metidas"

Bia, qual o problema dessas pessoas que se acham? Eu me irrito muito com essas coisas porque vejo ai umas pessoas que nem são bonitas, nem inteligentes, nem fazem nada demais pra elas mesmas (e menos ainda pros outros) e se acham!!! Fico muito irritada quando vejo gente metida sem nem ter motivo kkkkkk pq quando tem motivo pra ser metido é ao contrario, ai a pessoa que faz coisas legais e até podia se achar é simples e gente boa.
Beijos e parabéns pelo blog
Mel


Bom dia, Mel!

Percebo nessas pessoas metidas, como você descreveu, dois tipos de situação. A primeira não é nada demais, a pessoa apenas tem uma boa autoestima e está focada nela mesma. E ai, quem não tem o foco em si mesmo acaba se incomodando um pouco por não conseguir ter esse tipo de atitude.

A segunda situação, que acredito ser a que você descreveu, Mel, é um pouco mais complexa. Algumas pessoas tem um grau de narcisismo muito elevado. A palavra "narcisismo" veio do mito grego de Narciso, um jovem tão belo que, ao contemplar a própria imagem num lago, apaixonou-se e morreu afogado. Todo mundo tem um certo grau de narcisismo. Graças ao nosso narcisismo temos autoestima, e também cuidamos de nós mesmos. Mas quando esse narcisismo é alto demais, a pessoa começa a ter problemas. Por exemplo, ter uma visão distorcida de si mesma e da realidade. Como se ela só tivesse pontos positivos, como se tudo no mundo e na vida dos outros existisse em função delas e mesmo uma grande dificuldade em aceitar que nem tudo é da forma que ela gostaria que fosse...

No segundo caso, é muito indicado que a pessoa procure psicoterapia, pois o menor dos problemas é ser esnobe. Quando não temos uma visão realista da vida e de nós mesmos, fica muito complicado assumir a responsabilidade pela gente mesmo e pela nossa felicidade. Além disso, a convivência com outras pessoas fica muito prejudicada, pois a pessoa excessivamente narcisista, além de não ser ela mesma (pois sequer sabe quem é, usa uma máscara), também tem dificuldade em perceber o outro como um sujeito que também tem sentimentos, necessidades, problemas e desejos. O outro é visto como um objeto. No máximo como "platéia". 

Lembrando que é normal e saudável que crianças pequenas, assim como os adolescentes tenham um grau de narcisismo um pouco acima do que os adultos têm. Cabe aos familiares e educadores dar a eles os limites necessários e dados claros da realidade (sim, tem que dividir o chocolate com o seu irmão; sim, precisa esperar sua vez e respeitar a vez do colega; não, você é bonita mas não vai se expor dessa maneira nas redes sociais porque a internet está cheia de pessoas mal intencionadas; não, você não vai a tal lugar porque o responsável por você sou eu e não acho seguro, ainda que você pense que está acima de todos os problemas).

Cada um é aquilo que quer ser, que faz sentido para si. Cada pessoa tem o seu caminho de vida, as suas escolhas e preferências. Percebo que quando a pessoa tem esses conceitos claros (emocionalmente, não apenas como ideias), não vê sentido em se colocar como alguém acima dos outros. A vida não precisa ser o tempo todo uma competição. As vezes (na maioria das vezes, aliás), cada um está apenas mergulhado na própria realidade, vivendo a própria vida e deixando os outros viverem a deles.

Beijos,
Bia


Para participar da coluna Ágora, envie a sua pergunta para o email bf.carunchio@gmail.com, você também pode participar enviando sua pergunta através da nossa página no Facebook ou do meu perfil pessoal.  Você tem a opção de se identificar ou de se manter como anônimo.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Mythos - Ares: força e coragem

Nos mitos gregos, Ares é o deus da guerra. Não como Atena, que é ligada à guerra pelas estratégias que desenvolve, mas como alguém que usa a força física como principal meio de ação. Ele era representado como um guerreiro forte e corajoso, com sua armadura grega.



Quanto às interações com outros deuses, Ares é filho de Zeus e Hera, o rei e a rainha do Olimpo. É o principal amante de Afrodite, deusa do amor e da beleza, que era esposa de Hefesto, deus ferreiro e irmão de Ares.

Um ponto curioso dos mitos que cercam Ares, e ao qual vamos nos ater nas questões para reflexão, é que quando Ares nasceu, os Alóades (dois irmãos gigantes) o prenderam por treze meses num jarro. Ele só conseguiu se libertar quando Zeus enviou Hermes (o Deus da comunicação, também ligado à mediação e negociação) para ajudar.


Questões para reflexão:

1- O primeiro ponto que chama a atenção é a forma como nossa sociedade, assim como a dos antigos gregos, tende a lidar com a agressividade. Ela é desvalorizada, muitas vezes vista como algo inferior, de pessoas que "não sabem usar a razão". Como consequência, ela fica escondida no jarro... Entretanto, para os psicólogos a agressividade não é sempre ruim. Ela não está ligada apenas à violência gratuita ou a comentários grosseiros. A agressividade pode ser usada de forma positiva, como autodefesa ou para se impor num ambiente mais hostil ou competitivo. Um exemplo concreto é a alimentação. Quando comemos, picamos, cortamos, mastigamos e moemos a comida. É algo agressivo, mas sem isso não sobrevivemos. Como está a sua agressividade? Precisa ser controlada e educada, caso tenha um perfil mais explosivo? Ou ao contrário, precisa vir à tona (de forma equilibrada, claro) para que você aprenda a se impor e se fazer respeitar?

2- Ares no jarro encena claramente um rito de passagem masculino. Em diferentes povos, o rito de passagem dos meninos para a vida adulta é semelhante à situação de Ares: ficam no escuro, sujeito a diversos perigos e ameaças, precisam aprender a gerenciar riscos, suportando o medo e mesmo a dor. Enfim, precisam encontrar sua coragem. E hoje em dia, como você percebe que somos cobrados (independente do gênero ou faixa de idade) a demonstrar nossa coragem? Outro ponto: você ao longo da vida foi incentivado a demonstrar força e coragem ou, ao contrário, a ter atitudes mais delicadas? Como isso repercute na sua vida?

3- Ares só se libertou do jarro com a ajuda de Hermes. Num mito, podemos pensar as diferentes personagens como lados diferentes de uma mesma pessoa. Assim, existem situações em que, por maior que seja a força física, o poder de persuasão e negociação é o que vence. Como é esse equilíbrio no seu dia a dia?

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Escolhas: a que(m) você pertence?

Uma situação muito comum que eu percebo no dia a dia, tanto entre pacientes e mesmo em outras pessoas com quem convivo, é a forma como cada um faz suas escolhas. Encanta reparar naquilo que levam em conta, nas prioridades, medos e desejos que movem cada um e com isso ver como somos únicos e temos, cada um de nós, o nosso próprio encanto. 



O problema é que nem sempre somos tão sinceros assim ao fazer escolhas. Algumas vezes nos deixamos levar por ilusões. E acreditamos nelas tão bem que ficamos como que "cegos" para todo o resto. Passamos a nos debater num mar de conflitos, internos e externos, de informações que não fazem sentido no nosso coração. Isso pode acontecer numa tentativa de agradar outras pessoas, ou apenas por estarmos tão envolvidos em um lado da situação que não conseguimos vê-la como um todo.

Sempre que nós deixamos levar (pelas situações, pelos outros, por visões parciais da realidade), a escolha feita será menos "nossa", menos autônoma do que poderia ser. Não somos de ninguém... Mas ao mesmo tempo, também não somos de nós mesmos. 

A melhor forma de contornar isso é estando afinado com aquilo que valorizamos. Quais são os seus valores? O que é importante para você? Não existe resposta certa ou errada, cada um encontrará, ao analisar o próprio mundo interior, aqueles elementos que fazem mais sentido para si. Importante dizer que não basta conhecer esses valores. É fundamental levar a vida de forma a estar em sintonia com eles. Se, digamos, a família seja um valor para alguém e essa pessoa tiver um estilo de vida em que não possa ter uma convivência constante com a própria família, ou ainda um contexto em que a família seja com frequência desvalorizada, provavelmente o dia a dia será considerado frustrante e as escolhas que se apresentam não serão tão autônomas quanto poderiam.

Nunca pertencemos a nós mesmos por completo. Sempre haverá algo na vida e em nós mesmos que foge do nosso controle - ou no nosso poder de escolha. Seja no mundo interno (não controlamos o que sentimos, por exemplo, apenas escolhemos a forma como lidamos com essas emoções); seja no mundo externo (temos responsabilidades e obrigações na vida que não necessariamente teríamos numa condição de liberdade maior). Entretanto, a chave para uma vida coerente é ter consciência dos próprios valores e, tanto quanto possível, fazer escolhas em sintonia com eles. Nem sempre pertencemos por inteiro a nós mesmos. Mas podemos usar estratégias (como o autoconhecimento e as escolhas sinceras e coerentes com aquilo que somos) para sermos nós mesmos, sermos nossos, tanto quanto possível.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O diário de sonhos: um olhar para dentro

Desde épocas antigas os sonhos intrigam a humanidade. Muitos se interessam por saber que mensagens existem por detrás de seus símbolos, o que o sonho está querendo nos dizer. Sonhos já foram considerados mensagens de deuses, demônios e todo tipo de criatura sobrenatural. Os antigos gregos, quando estavam doentes, iam ao templo de Esculápio (filho médico de Apolo, e deus da medicina), onde participavam de rituais e depois dormiam, para que sonhassem com a cura. Os sonhos também já foram vistos apenas como atividade cerebral sem sentido que acontece enquanto dormimos, ou como algo fundamental para manter a saúde psíquica. Mas não é bem assim, ou melhor, não é apenas assim.

Sonhos são mensagens. E mensagem nenhuma envia a si mesma sozinha! É preciso que alguém as envie... Não! Não falo aqui sobre deuses ou outros seres. Falo sobre o nosso inconsciente, o nosso Eu mais profundo. Assim, os sonhos são mensagens enviadas por uma parte nossa à nossa própria consciência.

Os sonhos têm dois tipos de conteúdo: o conteúdo manifesto (as imagens, falas, sons, sensações, etc. – tudo o que está explícito) e o conteúdo latente (a mensagem decodificada). Sobre o que seriam essas mensagens? Sobre você mesmo, sobre suas escolhas e seu caminho de vida. Os sonhos são instrumentos poderosos de autoconhecimento. Quando trabalhamos com nossos sonhos, podemos descobrir muita coisa sobre nós mesmos. Em pouco tempo, percebemos que nossos sonhos trazem símbolos poderosos que retratam a nossa própria transformação – o processo pelo qual nos construímos e nos tornamos quem somos.

Para perceber melhor esse nosso desenvolvimento, é interessante criar um diário de sonhos. Antes que protestem, digo que todos nós sonhamos. Aliás, sonhamos muitas vezes todas as noites. Na fase de sono REM, que em adultos acontece em média 4 a 5 vezes por noite, os sonhos são mais vívidos e mais carregados de emoção, portanto, mais lembrados.

Dicas para lembrar dos sonhos
Uma boa dica para quem tem dificuldade de lembrar dos sonhos é dar ais atenção a este tipo de assunto. Ter uma rotina relaxante na hora de dormir (banho morno, uma xícara de chá, meditação, oração, leituras tranquilas, etc.) também ajuda muito. Esqueça os problemas e compromissos do dia, é hora de relaxar! Não vá para a cama com fome e nem com o estômago cheio, prefira algo leve, se for comer. Na hora de dormir, use roupas confortáveis, que não prendam seus movimentos, e garanta que você não passe frio e nem calor. Isso interfere na qualidade do sono e na lembrança dos sonhos. Uma dica importante: antes de adormecer, dê a si mesmo a ordem mental de que irá se lembrar dos seus sonhos. Algo simples e direto, do tipo “vou me lembrar dos meus sonhos”. Mentalize a frase várias vezes. Pode não funcionar nas primeiras tentativas, mas insista, persista. Vale a pena descobrir o que seu inconsciente tem a dizer. Ele nos traz mensagens preciosas.

De manhã...
Quando acordar, evite pular da cama. Aliás, evite se mexer demais. Os movimentos interferem na nossa mente, e podem atrapalhar a lembrança dos sonhos. Repasse o sonho na sua mente, do jeito que se lembrar, quantas vezes precisar. Depois, conte o sonho a si mesmo, em seus pensamentos. Contando, isto é, organizando o conteúdo do sonho em palavras, muitas vezes acabamos por lembrar de mais detalhes. Por fim, pegue o seu diário de sonhos e vamos começar as anotações!

Mas Bia, como é esse diário de sonhos?
É um caderno comum. Você escolhe se tiver vontade de customizar a capa, folhas com ou sem linhas (eu prefiro sem, as linhas sempre me atrapalharam!), enfim, fica para cada um decidir como prefere e como é melhor para si. O meu é um caderninho super simples, desses com folhas sem pauta e capa de cartão. O mais importante é NÃO fazer no computador/tablet. Escrever no papel nos faz usar áreas do cérebro diferentes das que usamos para digitar (como a coordenação motora mais refinada). Além disso, percebo com meus pacientes que aqueles que seguem esta orientação se envolvem mais com o projeto e têm resultados melhores. Ah, também NÃO anote naquela mesma agenda que você usa no dia a dia para registrar a reunião com o chefe, as provas da faculdade, as contas para pagar... Respeite seus sonhos (e a si mesmo), faça deste momento algo especial. Outra dica: deixe o diário no criado mundo ou em algum lugar perto da cama. Além de facilitar, vê-lo por lá na hora de se deitar nos prepara para lembrar dos nossos sonhos (lembre-se de deixar também um lápis ou caneta!)

O que anotar?
Fique à vontade para criar seu próprio jeito. Eu gosto de fazer assim:
- Data, dia da semana, fase da lua e momento do meu ciclo menstrual (óbvio, só para as mulheres, pois os símbolos dos sonhos podem mudar de acordo com a fase do nosso ciclo).
- O conteúdo manifesto (o sonho em si), mesmo que se lembre coisas vagas, como “cor de laranja, sensação de sufocamento”. Com o tempo, você lembrará mais detalhes.
- Interpretação. O que o sonho diz? O que te lembra? Quais os símbolos de maior destaque (lembre-se: tudo pode ser um símbolo!)? Que impressões, sensações ou lembranças o sonho traz? A melhor interpretação é a sua própria, lembre-se que foi você mesmo quem codificou a mensagem! Claro, saber sobre símbolos pode ajudar a pensar. O mesmo vale para a mitologia, que pode ser de grande ajuda neste campo, é comum que elementos míticos e até mitos completos apareçam nos nossos sonhos, disfarçados ou até mais claros.
- Detalhes do dia anterior. Teve grandes perdas ou grandes alegrias? O monstro do pesadelo é o mesmo do filme que viu? Algumas vezes nosso sonho usa lembranças do dia anterior (ou mais antigas!). Esteja atento a esses detalhes.


Já dizia o estudioso de mitos Joseph Campbell, “os mitos são sonhos públicos, os sonhos são mitos privados”. Olhando com cuidado a mitologia de um povo, notamos um fio condutor. Nos judeus, muitas vezes esse fio é a criação de leis e obediência-transgressão dessas leis, bem como a recompensa ou punição. Nos gregos, é a busca do equilíbrio, da “justa medida”. Nos romanos, o fio condutor quase sempre é a conquista (de terras, de outros povos, de tesouros, conquistas amorosas, etc.). E na sua mitologia pessoal, nos seus sonhos, qual é o fio condutor? Folheando o diário de sonhos, você pode descobrir isso e muitas outras coisas sobre si mesmo. Basta o olhar atento, com envolvimento e dedicação. Bons sonhos a todos!

Publiquei este artigo originalmente no site Frutos do Carvalho, no dia 16/12/2014.

domingo, 2 de novembro de 2014

Mythos - Ptah: solidez na vida

No Antigo Egito, Ptah era um deus criador em muitos sentidos. Ele modelou e deu vida a diversos outros deuses, e organizou o universo até que ficasse da maneira como nós mortais o conhecemos. Ele também é considerado um deus criador porque é o deus dos artesãos e arquitetos. Ptah é um construtor, e como tal, rege as obras feitas em pedra.

Ptah é marido da deusa Sekhmet (clique aqui para ler sobre ela). Ao contrário da esposa, mais agitada por ser uma guerreira e, em certas ocasiões, movida por acessos de fúria, Ptah é mais centrado, conhecido como "o senhor da verdade" e "aquele que escuta as orações". Mâneton, um antigo historiador e sacerdote egípcio que viveu por volta do século III a.C., considerava que Ptah pode ter sido o primeiro rei egípcio (para este povo, o faraó tinha uma ligação muito próxima com os deuses). 

Quanto a sua imagem, Ptah usa uma túnica longa e na cabeça, uma espécie de gorro, vestimentas que mostram seu grande poder e destaque (no início da civilização egípcia, apenas a nobreza usava roupas, e ainda assim, apenas os adultos. Alguns historiadores apontam que quanto maior o status social da pessoa, mais a roupa lhe cobria o corpo). Ptah geralmente é representado como um homem velho e com barba, mumificado, segurando um cetro com símbolos de vida, força e estabilidade.


Questões para reflexão:

1- Num contexto simbólico, Ptah representa a solidez. Ele é um construtor e rege as obras feitas em pedra, construções fortes e sólidas, que podem durar milênios. Pensando nas suas ações, naquilo que você realiza na sua vida (profissionalmente, no plano afetivo, familiar, social, etc.), qual o grau de "solidez"? As situações e os relacionamentos que você vivencia têm uma estrutura clara e "sólida" ou são passageiros, com pouco envolvimento, "líquidos", para usar a linguagem de Bauman?

2- Os egípcios conheciam Ptah como "o senhor da verdade e "aquele que escuta as orações", ou seja, não é um simples criador, mas alguém que responde por sua obra. E você, qual o seu grau de responsabilidade na vida? Falo sobre a responsabilidade sobre nós mesmos. O quanto você responde por si? Em quais tipos de situação é mais fácil ou mais difícil de assumir suas escolhas e decisões?

3- Ptah carrega os símbolos da vida, força e estabilidade. Você percebe alguma ligação entre esses três elementos? Por que? Por que você acha que foram associados a um deus criador?

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Ágora - Medo de ficar solteira

Oi Bia, por favor me deixe como anônima. Eu queria mandar uma pergunta pro seu blog, sobre relacionamento amoroso. Tenho 37 anos e ainda não me casei. Já tive namoros longos, terminei meu último namoro faz 2 anos já e desde então nunca mais arrumei homem nenhum. Eu me sinto envelhecer e diminuindo a cada dia as minhas chances de ser feliz no amor. Sou bonita e bem sucedida, não sou exigente demais, até conheço alguns homens com quem poderia dar certo mas não consigo me interessar por eles e muito menos imaginar o resto da vida ao lado deles. Minha família e meus amigos me cobram muito nesse sentido e apesar de eu ter uma carreira brilhante eu me sinto fracassada por não ter me casado. Queria uma orientação. Obrigada.
Anônima


Bom dia, Anônima.

É interessante perceber o quanto as pessoas projetam a felicidade em relacionamentos. Lendo seu email, a primeira coisa que me perguntei foi: será que ela realmente quer um companheiro ou quer apenas mostrar para os familiares e amigos que foi "capaz" de se casar? Acredito que este é um ponto interessante de começar a pensar. Muitas pessoas hoje em dia acreditam que quem está solteiro não pode ser feliz, e isso é uma grande mentira. Porque a felicidade não é o resultado direto da vida que temos, e sim um sentimento. E sendo um sentimento, ela depende apenas de nós mesmos.

Outro ponto que me chama a atenção é uma certa ansiedade. Já ouviu dizer que em momentos especiais a ansiedade só atrapalha? Na busca por um relacionamento não é diferente. Penso que o primeiro passo é respirar e ter calma. Qual o valor de "tentar" um relacionamento sério e estável com qualquer pessoa que parece legal, sem sentir nada, sem grande envolvimento? As chances de isso dar certo, a princípio, não são muito grandes...

O amor não é um sentimento que vem pronto. É diferente da paixão, aquele encantamento. Eu diria até que a paixão é uma fase de algo que pode virar amor, um tempo para o casal se envolver e construir, juntos, na convivência, o amor. Por isso, acho muito difícil encontrar amor por aí, em qualquer pessoa que parece legal. Ser feliz no amor (ou em qualquer outra área da vida) exige empenho e envolvimento, exige que as duas pessoas queiram construir um relacionamento harmonioso. Um relacionamento não dá certo por sorte ou por um simples acaso. O relacionamento dá certo quando o casal se permite estar envolvido, sem jogos e sem medo, e aí fazem dar certo, fazem o amor crescer e o relacionamento se desenvolver. Por isso, não tenha pressa. O amor é uma coisa humana, sempre podemos encontrá-lo, em qualquer idade ou situação que se esteja vivendo, desde que estejamos abertos a vivê-lo em todas as suas possibilidades.

beijo,
Bia


Para participar da coluna Ágora, envie a sua pergunta para o email bf.carunchio@gmail.com, você também pode participar enviando sua pergunta através da nossa página no Facebook ou do meu perfil pessoal.  Você tem a opção de se identificar ou de se manter como anônimo.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O momento da refeição

Gosto de sugerir às famílias e casais com questões ligadas ao relacionamento, à falta de diálogo e com queixas de brigas e discussões frequentes, uma medida simples: que façam as refeições juntos. Se não for possível todos os dias, ao menos um almoço de domingo por exemplo. Não precisa ser nada muito elaborado, apenas a comida de sempre, mas com todos sentados juntos e desfrutando de um momento tranquilo e agradável. Sem TV, celulares ou outras distrações. Apenas a refeição e as pessoas queridas. Separei hoje alguns pontos que costumo sugerir nesta atividade.


Nas mais diversas culturas, o momento da refeição é sagrado. É um momento de cuidado consigo mesmo, de respeito para com o alimento que nos manterá vivos e fortes, de compartilhamento (palavra tão na moda nessa época de redes sociais) com os queridos. É um momento que, quando bem aproveitado, nos ajuda a sentir que somos parte daquele grupo, nos identificamos com aquelas pessoas e permitimos que elas também se identifiquem conosco. E assim se cria um tipo de interação muito mais plena de bons afetos, muito mais próxima e íntima.

Claro, para a estratégia dar resultados, alguns pontos precisam ser respeitados. 
-Não basta fazer isso uma só vez e esperar que a família fique harmoniosa ou que a interação entre o casal mude, é preciso que se crie um hábito de ter refeições juntos até que isso simplesmente se torne o "natural". 
- TV, telefones celulares e outros equipamentos ficam de lado neste momento. 
- Se gostam, podem colocar uma música tranquila e em volume um pouco mais baixo, para permitir que as pessoas conversem e interajam. 
- Aliás, interajam! Com educação, sem provocações, em tom de voz normal. A hora da refeição é um momento de paz! Aproveitem para conhecer melhor uns aos outros, contar como foi o dia, algo que gostaria de fazer, etc. Não é o momento para falar de problemas e questões que nos deixam tristes ou chateados. 
- Arrumem um cantinho bem tranquilo e gostoso para a refeição que vão compartilhar. Não precisa ser nada caro, basta um cantinho limpo, tranquilo e aconchegante de casa. Se o tempo estiver agradável, podem gostar de fazer isso lá fora, ou mesmo de fazer um piquenique num parque da sua cidade.
- Deixe que todos ajudem e se envolvam. As pessoas se sentem fazendo parte quando também são bem-vindas a contribuir com algo dentro de suas possibilidades (preparar um prato, arrumar a mesa, colher uma flor para enfeitar...).

Essa interação íntima, facilitada na comensalidade (ou seja, quando comemos juntos), é chamada de "mundo da vida" pelo filósofo Habermas. É no mundo da vida que podemos nos permitir ser quem somos e explorar todas as nossas possibilidades, sem medos ou inseguranças, pois as outras pessoas gostam de nós e nos respeitam, nos dando (e recebendo de nós) o suporte necessário para que exista crescimento.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Mythos - Medusa: o olhar que petrifica

A Medusa provavelmente é uma das criaturas mais conhecidas da mitologia grega. Ela é uma górgona, isto é, uma mulher com cabelos de serpentes, que fazia com que qualquer pessoa que olhasse diretamente para ela se transformasse em pedra. O interessante é que ela era a única górgona que era mortal e capaz de ser vista pelos seres humanos.

Mas nem sempre foi assim. Inicialmente, a Medusa era uma linda jovem, com cabelos muito brilhantes. Era tão linda que chamou a atenção de Poseidon, deus dos mares. Ele a seduziu e a levou para o templo de Atena (a deusa virgem da sabedoria e do conhecimento). Por sua vez, Atena ficou escandalizada com a ousadia do casal! Como puderam profanar o templo de uma deusa virgem daquela maneira? Furiosa, Atena vingou-se da jovem transformando-a em górgona, com cabelos de serpente, presas de javali e mãos de bronze. Nenhum outro homem jamais iria olhar para ela (mesmo porque, se o fizesse, viraria pedra!).

A Medusa foi banida para os confins do mundo ocidental. Lá, Perseu a encontrou e a decapitou. Quando a cabeça dela foi arrancada, saíram de lá o gigante Crisaor ("lâmina de fogo") e o cavalo alado Pégaso, com um grande estrondo. Alguns estudiosos de mitos acreditam que, por essa simbologia, inicialmente a Medusa pode ter sido a personificação das tempestades. Então, Atena, que guiava os golpes de Perseu, recolheu o sangue da Medusa em dois frascos e os deu ao médico Esculápio, explicando que o sangue recolhido do lado direito geraria a vida, e o do lado esquerdo era um veneno mortal. Quanto à cabeça da Medusa, Atena a tomou para si e com ela adornou seu escudo.


Questões para reflexão:

1- Percebemos dois momentos da Medusa: a bela jovem e o monstro terrível. Perceba que tudo tem uma dualidade. E, mais do que isso, perceba que nas dualidades, nos jogos de opostos, o "bom e mau" nem sempre é tão fixo e certo. No caso do mito, a deusa Atena percebeu a bela jovem como mais perigosa (pois ameaçava a integridade de seu templo - em linguagem simbólica, de seu lugar mais íntimo, da parte mais sagrada de si mesma). Qual seu lado mais perigoso (para si mesmo)? Quais características suas podem ser de grande ajuda ou, vendo por outro lado, arriscam colocar tudo a perder?

2- O sangue do lado direito da Medusa gera a vida e o do lado esquerdo gera a morte. Pensando na comparação da Medusa às tempestades, vemos que elas também são assim: ao mesmo tempo que são perigosas, gerando enchentes, virando embarcações e causando destruição e mortes, as tempestades têm um lado bom, pois fertilizam o solo. Somos uma dança complexa entre vida e morte, continuidade e destruição, avanços e retrocessos. Como seu lado mais "tempestuoso" pode te ajudar? O que ele te ensina?

3- A cabeça arrancada da Medusa continua a ter o poder de transformar aqueles que olham para ela em pedra. Isso conta sobre Atena (que adotou a cabeça para seu escudo, e que transformou a jovem em górgona), sobre seu próprio olhar. Um olhar que petrifica. Um olhar austero, que faz com que a força "bruta" se curve a ela, pois força sem inteligência não é de grande valia... Qual a sua maior estratégia? O que em você (características, comportamentos, conhecimentos) deixa outras pessoas impressionadas, "petrificadas"?

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Ágora - Medo de mudar

Oi Bia eu leio sempre teu blog. Queria fazer uma pergunta sobre o medo de mudar. Na minha vida eu olho e vejo diversas coisas que estão muito diferentes do que eu gostaria. Sei bem que não é culpa dos outros, são minhas escolhas que levaram a ser tudo desse jeito e posso mudar. Mas nem sei por onde começar, acho que tenho medo de fazer essas mudanças. Será que isso é normal? beijos
Tainá


Oi, Tainá!

A situação que você contou é muito comum e não tem grandes motivos para preocupações. Ter medo (seja do que for) é uma reação normal da nossa psique, é uma forma de proteção, capaz de nos colocar em alerta para que a gente fuja ou enfrente algo percebido como uma ameaça. Mas, conforme o ser humano se desenvolveu, aquilo que é visto como ameaçador também se tornou cada vez mais refinado. Deixou de ser apenas algo que ameace diretamente a nossa vida para se expandir para aquelas situações e elementos que, imaginamos, pode ameaçar nossa existência simbólica. 

Muitas pessoas são resistentes às mudanças (e, aqui, o medo pode ser encarado como um tipo de resistência), afirmando que "se eu mudar vou deixar de ser eu mesmo!" Isso mostra com muita clareza o medo de se desestruturar, de se perder de si mesmo ou, como eu disse antes, essa é uma percepção da mudança como ameaça simbólica à nossa existência.

O que fazer? Trazer o desconhecido (as mudanças - aquilo que não sabemos ao certo como será e que, por isso, nos assusta) para o conhecido, para o presente. Uma pessoa só muda efetivamente quando lançar-se para o desconhecido parece menos pior do que manter-se como se está. Assim, é muito aconselhável passar a dar atenção ao que realmente gera insatisfação, o que a gente gostaria de mudar, por que realmente quer isso, como esses elementos ou situações nos fazem sentir. Depois, idealize. Sonhe. Como seria o jeito que te deixaria satisfeita? Não tenha medo de sonhar e planejar, claro. Talvez dê mais confiança começar pelas mudanças menores. Muita gente prefere começar "soltando" e fechando aquilo que já não faz sentido para, então poder abraçar algo novo. Caso se sinta confortável, crie um rito de passagem para terminar a fase antiga e virar a página. Isso pode ser algo muito simples, como fazer algo especial com pessoas queridas ou mesmo apenas com você, conforme sentir que seja pertinente. De preferência, algo que tenha algum tipo de relação com a situação.

Tainá, queria deixar claro que essas são sugestões gerais, sem conhecer ao certo as situações que você está vivenciando. Se estiver muito complicado, se não conseguir pensar nisso tudo, olhar para isso tudo sozinha, pode ser interessante marcar uma consulta com um profissional de psicologia, que poderá auxiliar nesse processo.

beijos,
Bia


Para participar da coluna Ágora, envie a sua pergunta para o email bf.carunchio@gmail.com, você também pode participar enviando sua pergunta através da nossa página no Facebook ou do meu perfil pessoal.  Você tem a opção de se identificar ou de se manter como anônimo.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Mythos - Iara: o fluxo dos sentimentos opostos

O mito da Iara é brasileiro, de origem indígena da região da Amazônia. Iara é uma sereia, uma linda índia de pele morena, cabelos longos e negros e os olhos brilhantes, com cauda de peixe. Ela canta de forma tão bela que os homens, fascinados, se jogam no rio e acabam afogados.


Mas nem sempre foi assim. Iara era uma linda índia, filha do pajé de sua tribo. Ela era uma guerreira, e seu pai nunca lhe poupava elogios. Seus irmãos tinham muita inveja disso. Por isso, certa noite, resolveram matá-la enquanto dormia. No entanto, eles se esqueceram que sendo uma guerreira, Iara tinha o sono muito leve, e estava sempre atenta ao menor ruído ou movimento suspeito. Para se defender, ela acabou matando seus irmãos. Arrependida e com medo da reação do pai, Iara fugiu. Mas ele a perseguiu, procurou-a sem descanso, até que a encontrou. Como punição por matar os irmãos, o pajé jogou Iara no ponto em que dois rios se encontram, para que se afogasse com a violência das águas. Os peixes tiveram compaixão da linda moça e a transformaram em sereia.


Questões para reflexão:

1- Iara era uma ótima guerreira, o que deixava seu pai orgulhoso. Seus irmãos tinham inveja e ela acabou matando-os para se defender do ataque desleal. No entanto, depois se arrependeu do que fez e teve medo das consequências, da reação do pai, fugindo para a mata. Você percebe sentimentos de inveja nas pessoas com quem convive quando se destaca em algo? Como lida com isso? 

2- O remorso é um sentimento poderoso. Fez Iara largar tudo (a tribo, seu posto como ótima guerreira e as pessoas queridas - que poderiam compreender que seu ato foi feito em defesa própria) e fugir para a mata, simbolicamente, para dentro de si mesma. Quando nos arrependemos ou nos sentimos culpados, fugimos para dentro de nós mesmos quando remoemos o que aconteceu e revivemos aqueles afetos, reavivamos a situação fazendo com que ela nunca termine. Em quais momentos você já se sentiu culpado ou arrependido? Olhando hoje em dia, havia motivo real para esse sentimento? Como se libertou da culpa?

3- De forma geral, quase sempre as águas podem ser interpretadas como as emoções nos mitos e sonhos. Quando dois rios se encontram, isto é, quando duas emoções diversas fazem morada no nosso coração ao mesmo tempo, podemos nos sentir "afogados", sufocados pelo fluxo das águas/emoções. Uma boa saída organizar esses conteúdos, como fez Iara, transformando-se e adaptando-se a uma nova realidade, para assim se mover com eficácia em meio à correnteza emocional. Você já teve sentimentos opostos sobre a mesma coisa? Como tende a lidar com isso?

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Ágora - Aposentadoria e crise emocional

Bom dia Bia. Queria escrever pro seu blog. Meu problema é que o meu marido se aposentou e agora fica só em casa largado no sofá. Ele não é tão velho e está muito bem de saúde graças a Deus, mas vejo que ficar assim está deixando ele com o humor cada vez pior, estamos discutindo mais e caindo numa rotina que não está fazendo bem para a nossa saude, para a família e nem para o nosso casamento, até nosso netinho que tem 7 anos percebe. Não sei o que fazer. Parabéns pelas coisas que você escreve, que Deus sempre te abençoe. 
Cida


Bom dia, Cida!

A situação que você contou é bastante comum, especialmente pessoas que sempre trabalharam fora, como imagino ser o caso do seu marido, acabam estranhando a fase de aposentadoria. É como se toda aquela rotina, aquele dia a dia que a pessoa viveu a vida toda, de repente parasse de existir. E aí a pessoa se sente sem lugar, sem função... sem importância. Especialmente, isso acontece com pessoas que estavam acostumadas a levar o trabalho como a única (ou a principal) tarefa de suas vidas. Já ouvi muito de pessoas nessas condições que se sentem "inúteis" e "sem vida". Portanto, a saída é perceber que a vida da gente é muito mais que o trabalho e a profissão. 

Cida, percebo que é muito importante que você e o seu marido conversem sobre isso. Muitas vezes, a pessoa sequer tem clareza da situação. É interessante pensar no sentido que a aposentadoria tem na vida de cada um. Enquanto algumas pessoas entram em crise, outras vêem esse momento como a grande oportunidade de fazer coisas que sempre quiseram mas nunca tiveram tempo. Aproveitar a vida ao lado de pessoas queridas, se dedicar a uma atividade que goste, voltar a estudar um tema de interesse sem as pressões do mundo profissional, ou até mesmo se dedicar a uma nova área de trabalho. 

Muito provavelmente, seu marido se sente perdido com essas mudanças no dia a dia, mas na certa irá se entusiasmar com um novo objetivo. Algumas possibilidades para começar a mudar essa situação são os grupos voltados para a terceira idade que são oferecidos gratuitamente em ONGs, universidades e associações comunitárias, em que são propostas atividades artísticas, esportes, passeios culturais e mesmo estudos (como cursos de computação, de línguas, sobre atualidades, entre tantos temas), conforme as preferências de cada um. Também é uma boa ideia que você e seu marido se acostumem a fazer algumas atividades em parceria, mesmo que uma simples caminhada, isso aproxima o casal e fortalece o vínculo afetivo. Acima de tudo, é fundamental lembrar que a vida não termina com o encerramento da vida profissional; o valor de uma pessoa não está apenas em suas atividades de trabalho, mas na pessoa como um todo.

beijos,
Bia

Para participar da coluna Ágora, envie a sua pergunta para o email bf.carunchio@gmail.com, você também pode participar enviando sua pergunta através da nossa página no Facebook ou do meu perfil pessoal.  Você tem a opção de se identificar ou de se manter como anônimo.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Mythos - A noiva espírito: vida, morte e a nossa meta

O mito de hoje é do povo algonquino, um povo nativo que vivia em tribos no nordeste da América do Norte. No mito, a questão da morte de uma pessoa querida e tentativas de revertê-la são usadas como metáforas para discutir a questão do irreversível e inevitável, coisas da vida que simplesmente não estão nas nossas mãos e não podemos controlar. Podemos com isso pensar ainda na questão da existência e da maior meta que cada pessoa tem, do sentido que cada um percebe em sua própria vida

Imagem: The ghost bride, de Atropo Tesiphone, DeviantArt.
Havia, muito temo atrás, um guerreiro muito leal e corajoso. Ele lutou em muitas batalhas, trazendo honra e orgulho para seu povo. Esse guerreiro estava noivo da moça mais linda da tribo. Ela era muito doce e amorosa, e eles tinham planos de casar em breve e formar uma linda família. Acontece que, por uma infelicidade da vida, a noiva morreu na véspera do casamento. A morte nem ao menos pensou que o casal se amava, que a moça era jovem e uma boa pessoa e que ainda tinha muito para viver. Também não se importou com o fato do guerreiro ser um homem bom e leal, que não merecia tamanha dor. Porque a morte é uma daquelas coisas que chega para todos, sem perguntar se pode ou como seria. Ela apenas acontece e nos deixa perdidos, pensando naquela vida que poderia ter sido, mas não foi.

Como era de se imaginar, o guerreiro ficou muito abalado com a morte da noiva. Enquanto os outros rapazes caçavam, ele passava os dias sem comer e nem dormir, ao lado do túmulo da noiva, contemplando o nada. Até que um dia escutou por acaso uma conversa dos mais velhos da tribo, que comentavam sobre o caminho para o mundo dos espíritos. Sem pensar duas vezes, partiu na mesma hora, decidido a trazer a noiva de volta!

O guerreiro caminhou sem parar por dois dias, e quando olhava ao seu redor, não havia nenhum indício de estar se aproximando do mundo dos mortos. Até que ele avistou uma cabana e parou por ali. Uma noite bem dormida não faria mal... O homem que vivia lá era muito sábio, e contou ao guerreiro que viu a noiva passar por ali há pouco tempo, mas avisou que, para segui-la, teria de deixar o corpo físico para trás e ir até ela apenas com seu espírito. O guerreiro seguiu as instruções do sábio e assim foi feito. Ele viu a esposa pouco antes de chegar ao lago em que ficava a ilha dos espíritos, mas lembrou-se que não se deve falar com os mortos antes de chegarem ao seu destino. Ele entrou numa canoa e seguiu a esposa. Quase no meio do caminho o céu se fechou e uma grande tempestade caiu, arrastando para longe alguns mortos que não eram dignos das bênçãos que aguardavam na ilha. O guerreiro e a esposa, que eram pessoas justas, continuaram seu caminho e chegaram em segurança à ilha dos espíritos. 

Na ilha era sempre primavera, o tempo era bom e o sol brilhava sempre. Flores de todas as cores desabrochavam o tempo todo, e árvores com frutos doces e maduros estavam por toda parte. O guerreiro encontrou sua esposa na praia, deram as mãos e caminharam. Mas pouco depois, uma voz muito boa, do Mestre da Vida, disse ao casal que o guerreiro precisava retornar, pois ainda não era sua hora. Ele obedeceu e se tornou um grande chefe da sua tribo, vivendo o resto dos seus dias em paz por saber que reencontraria sua amada.


Questões para reflexão:

1- O primeiro ponto para refletir é que cada um só pode viver a sua própria história. Podemos caminhar ao lado de alguém, dar forças a essa pessoa, mas nunca agir e sentir no lugar dela. Isso fica claro no mito quando, ao atravessar o lago, cada espírito entra e conduz sua própria canoa, cada um só pode sofrer as consequências (boas ou ruins) daquilo que fez, cada um só pode responder por si, por mais que algumas vezes gostaríamos de responder por quem amamos para lhe atenuar o sofrimento. Como você se responsabiliza (isto é, como responde) por si? Existe a tendência a responder pelos outros, ou a esperar que outras pessoas escolham e ajam por você? Se sim, em quais momentos?

2- A morte e o Mestre da Vida são duas personagens muito interessantes. Apesar de opostas, vida e morte são faces da mesma moeda: a existência. Ninguém pergunta se queremos morrer, e nem se queríamos viver... Apenas existimos e isso basta para que passemos a vida procurando um sentido para isso, mesmo que a gente sequer perceba esse movimento. Quando pergunto sobre o que dá sentido à nossa vida, as pessoas me dão muitas respostas. A família, as pessoas queridas, as práticas religiosas, os momentos de alegria, o trabalho e a sensação de dever cumprido, ajudar a melhorar o mundo, e por aí vai... Mas, quando pergunto o que vale a nossa morte, a coisa muda! Pare por alguns minutos e pense: o que dá sentido à sua existência a ponto de valer a sua vida/morte? O que vale seu sacrifício (mesmo que em sentido simbólico)? Quase sempre, é aí que mora a nossa meta de vida.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Ágora - Seguir de volta nas redes sociais: reconhecimento, afeto ou conveniência?

Nas redes sociais, existe o fenômeno SDV (sigo de volta), pessoas que passam horas conectadas apenas atrás de 'seguidores', existem até sites que vendem 'seguidores'. Pergunto: quais os elementos psicológicos envolvidos nesse comportamento, que na minha opinião é bizarro?
Antecipadamente, obrigado
Érico


Olá, Érico!

As redes sociais são um fenômeno muito curioso dos dias de hoje, pois mudaram por completo a maneira como interagimos e nos relacionamos, e mesmo a relação do ser humano com a tecnologia. Tudo se tornou um pouco mais público, e as pessoas quase sempre se revezam entre a exposição excessiva de momentos que até poucos anos atrás eram íntimos, ou a preocupação quase doentia em não se expor e não mostrar detalhes da vida que não fariam diferença alguma se aparecessem ou não (e que, geralmente, quase ninguém se interessaria em saber). Ao mesmo tempo que a vida fica mais pública, fica mais imediata também. Nem precisamos voltar tanto tempo assim, para antes dessas tecnologias, basta pensar na época em que os emails eram novidade. Será que Fulano olha os emails dele todos os dias? Será que tem um email só para si ou devo escrever no da família? Será que vai me responder logo? Hoje, com as redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas, isso é impensável. E esse imediatismo, muitas vezes, em lugar de aproximar as pessoas, se transforma numa nova e inesgotável fonte de estresse. Mas vamos ao tema!

Percebo nessa questão de seguir de volta, dois traços psicológicos que se destacam. Um deles é o narcisismo, um egocentrismo muito exagerado. O perfil na rede social passa a ser como uma revista de fofocas que fala apenas da pessoa em questão! Se acordou ou foi dormir, o que comeu, por onde andou, com quem esteve... A pessoa narcisista, apesar de parecer muito segura de si, esconde uma grande insegurança, por isso precisa ter sua personalidade, suas escolhas e seu comportamento legitimados, validados por outras pessoas o tempo todo. E no mundo de redes sociais, essa validação ocorre por meio de "likes" e "curtidas", um grande número de seguidores e compartilhamentos, que são sentidos por essas pessoas como carinho e afeto. 

Outro fator psicológico que percebo nessa questão, e que pode ou não estar associado ao narcisismo, é a baixa tolerância à frustração. Quase ninguém aprende a conviver com as frustrações e fracassos que fazem parte da vida de todos, não sabem ouvir "não". E aí, quando chegamos ao plano dos afetos (e curtidas, compartilhamentos ou seguidores são, nesse contexto, algo que demonstra algum tipo de afeto, ainda que um simples legal, eu também penso assim, amigo!), ocorre que não basta a pessoa demonstrar seu afeto, ela precisa receber do outro o mesmo carinho, na mesma intensidade, senão ela estaria "fazendo papel de trouxa"... e a vida não é bem por aí. Exigindo que siga de volta ou que curta fotos e posts em retribuição, é como se essas pessoas sentissem que podem controlar os afetos do outro para não se frustrarem. Eu te sigo se você seguir de volta. Eu curto sua foto e te digo que está lindo se você também curtir a minha e dizer que estou uma diva. Eu te apoio enquanto você me apoiar. Eu te amo, mas apenas se você me amar. A vida não é assim!

A vida tem altos e baixos. Tem momentos em que somos as estrelas e momentos em que somos platéia, e ainda tem momentos em que estamos nos bastidores arrumando a bagunça, remendando o figurino e preparando algo novo. A vida não é uma festa o tempo inteiro. Claro que é muito bom quando sentimentos (mesmo que uma simples e pós-moderna admiração na rede social) são recíprocos. Mas quando não são, não há motivos para "deletar" aquilo que sentimos ou pensamos apenas porque o outro não pensa ou sente igual. No meu ponto de vista, falta a essas pessoas maníacas por seguidores, uma boa dose de confiança em si e naquilo que pensam/sentem, mesmo porque, se eu só admiro alguém porque a pessoa me admira em retribuição, na realidade eu seria uma pessoa falsa, que estaria usando esse afeto enquanto fosse conveniente... e a vida é curta demais para viver de aparências.

Espero ter contribuído para a discussão.
beijos,
Bia


Para participar da coluna Ágora, envie a sua pergunta para o email bf.carunchio@gmail.com, você também pode participar enviando sua pergunta através da nossa página no Facebook ou do meu perfil pessoal.  Você tem a opção de se identificar ou de se manter como anônimo.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O desejo de viver em outro país: 5 reflexões

O tema do artigo de hoje foi sugerido pela leitora Rogéria, e é algo que observo em muitas pessoas hoje em dia, pacientes, colegas e amigos: o desejo de ir fazer a vida em outro país. Essa vontade de ir embora, se colocada em prática, é uma escolha daquelas que deixam uma bifurcação no nosso caminho, uma espécie de rompimento radical com a vida que a gente levava até então. Por isso, é importante examinar alguns pontos sobre a situação, para que a escolha seja feita e vivida da forma mais harmoniosa possível.


1- Você está fugindo dos seus problemas?
Não é uma regra, mas algumas vezes isso acontece. O desejo sincero não é de ir viver em outro lugar, e sim de deixar os problemas para trás. Sejam dificuldades financeiras, questões familiares, um trabalho pouco estimulante, questões emocionais mais profundas... O problema é que lá no fundo da bagagem, esses problemas todos pegam carona. Independente de onde se planeje viver, é preciso encará-los e lidar com eles. O fato é: ninguém deixa o país de origem porque tudo está bem. O que motiva a mudança precisa estar claro para a pessoa.

2- Existem dificuldades em todos os países...
Todo lugar tem regras e leis que precisam ser seguidas, todo lugar tem chefes e supervisores exigentes e rigorosos, algum colega sem noção ou um vizinho mal humorado, todo lugar tem normas culturais que precisam ser respeitadas e que nem sempre compreendemos bem o porquê... É uma ilusão acreditar que nesses aspectos as coisas serão tão diferentes assim. O cenário é outro, mas a situação em si é exatamente a mesma. Todo país é um lugar fantástico para se viver quando a gente se envolve com a vida.

3- Por quanto tempo essa experiência no exterior duraria?
A ideia é ir fazer um curso fora ou está sendo transferido pela empresa com data para (possivelmente) voltar? Nesses casos, a situação é mais simples, pois já sabemos de antemão que logo voltaremos ao nosso país, é apenas uma experiência diferente por uns tempos. No entanto, se a ideia for, de fato, ficar por lá, é preciso pensar em tudo com mais cuidado. De quanto em quanto tempo voltariam para o país de origem para rever familiares e amigos? A princípio, as pessoas sempre dizem que "em todas as férias!", mas isso não é a realidade... Quanto mais nos envolvemos com a nova vida, mais difícil é retornar à antiga, ao mesmo tempo que, se não nos envolvermos, dificilmente as coisas dariam certo. Meus pais só conseguiram retornar ao país de origem mais de 40 anos depois de saírem de lá. Conheço muitas pessoas que nunca voltaram. E tantos outros passam pela mesma situação. Isso deixa uma lacuna na nossa existência, e muitas vezes é bem difícil lidar com ela.

4- A adaptação no novo país.
Todos os que vão te acompanhar realmente querem ir (marido/esposa, filhos, namorado/a, pais, sogros...)? Ou a ideia é ir sozinho? E se for sozinho, como seria para você não ter ninguém num lugar desconhecido? Onde iriam viver? Já viram trabalho? Se for com as crianças, como seria a adaptação delas numa escola estrangeira, com outra língua, outros costumes, sem os amiguinhos? Todos falam minimamente a língua do novo país? Tudo isso precisa ser muito bem conversado, para que a mudança seja mais tranquila.

5- Preconceito.
É difícil ser estrangeiro. E é difícil ser filho de pais estrangeiros. Às vezes fica aquele sentimento de não ser completamente entendido, apenas "tolerado", aquela sensação chata de não fazer parte do grupo, de nem sempre entender a situação ou sobre o que exatamente as pessoas estão falando, por mais que as duas culturas sejam semelhantes. Preconceito e discriminação, apesar de ser contra as leis da maioria dos países, é algo que infelizmente acontece muito mais do que se pensa e deixa marcas muito ruins na gente. Este é outro ponto a ser considerado, especialmente na questão de como iremos lidar com essas situações e, quem for se mudar com a família, instruir suas crianças sobre atitudes que podem ser tomadas.

Hoje em dia, com a globalização e o avanço tecnológico (especialmente os meios de transporte e de comunicação), parece que as distâncias ficam mais próximas entre povos e culturas. Entretanto é preciso perceber que, apesar de ser possível ir e vir de um continente a outro em menos de um dia (o que antes poderia levar meses) ou mesclar diferentes culturas ao nosso gosto, nem sempre as coisas funcionam desse jeito. Há nem tanto tempo assim atrás, quando um imigrante partia de sua terra natal, o sino da igreja local tocava como se alguém houvesse morrido. Isso é muito forte, é realmente um fim, e isso precisa ser levado em conta antes dessas grandes mudanças. Tentar a vida em outro país é um passo válido e meio que "na moda" hoje em dia, mas precisa ser planejado com cuidado para que essa experiência seja proveitosa.

Quem se interessa pelo tema e quiser ver outro artigo sobre mobilidade, clique aqui e leia Mobilidade: peregrinos, imigrantes, refugiados e vagabundos.