quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Alcancei minha meta. E agora?

"Menosprezamos facilmente um objetivo que não conseguimos alcançar ou que alcançamos definitivamente." - Marcel Proust (1871 - 1922), escritor francês.

Já falei em outros artigos sobre metas e objetivos. A importância de ter um objetivo, um "para onde vamos?", a importância de haver um planejamento para isso e, claro, segui-lo. Por isso hoje a conversa é sobre um lado diferente das metas: quando elas ficam para trás. Quando a gente alcança aquilo que pretendia e a vida segue. Nem sempre sabemos lidar com o sucesso, e isso se mostra de várias maneiras, mesmo após chegar ao objetivo. Muitas vezes, logo após a conquista, vem a destruição, causada pela própria pessoa que tanto lutou e buscou aquilo que tinha como meta. 

Quando a gente não cuida daquilo que conquista, o fruto das nossas buscas se torna
algo tão vulnerável e passageiro quanto um lindo castelo de areia na beira do mar.

Por que alguém faria isso? Por que destruiria aquilo que tanto almejava ou por que daria uma rasteira em si mesmo? 
Algumas pessoas, por incrível que pareça, têm vergonha de terem tido sucesso em algo. Como se colher os frutos da própria dedicação fosse algo escuso, e não é. Outras pessoas apenas não sabem lidar com as mudanças que o objetivo alcançado trouxe - e sempre há alguma mudança. Insistem em continuar fazendo o mesmo que faziam antes, em cultivar alguns comportamentos de antes que não cabem na nova realidade. Exemplos: o comportamento que dá certo num ótimo funcionário não são, necessariamente, o que dará certo num empresário, caso ele tenha alcançado a meta de abrir o próprio negócio. As atitudes que funcionam bem para uma pessoa sozinha não são as que darão certo quando essa pessoa alcançar o objetivo, digamos, de formar uma família.

Como fugir disso?
Em primeiro lugar, quando uma meta é alcançada, um ciclo se fecha. Em palavras mitológicas, isso pede um rito de passagem! Em palavras do dia a dia comum, celebre, comemore, faça a dancinha da vitória, enfim, marque a passagem de algum jeito. De preferência, permitindo-se fazer algo de divertido, o que ajudará o nosso inconsciente a associar o "alcançar metas" como algo muito bom e gostoso.

Outra situação que acontece é a pessoa que mal chegou a um objetivo e já se propõe a ir atrás de outro, ainda mais fantástico. Não. Viva o momento. Alcançar uma meta, como eu disse, sempre traz uma transformação. Viva-a. Transforme-se junto com a vida. Dê um tempo para as coisas se assentarem na nova realidade, observe e avalie bem como as coisas ficaram, como você ficou. E então cuide. Boa parte das pessoas que chegam a seus objetivos se perdem nesse momento, por não darem a importância certa ao cuidar, por não protegerem aquilo que conquistaram. E proteger é no sentido de vivenciar a coisa com envolvimento e abertura. Nem sempre isso é fácil, pois enquanto perseguíamos o objetivo estávamos tomado pela adrenalina, por aquele esquema de luta ou fuga que em outros tempos, quando o objetivo era, por exemplo a caça para o almoço, garantia a nossa sobrevivência. Uma vez alcançado o objetivo, a adrenalina baixa, e algumas pessoas têm a sensação de calmaria excessiva. Mas isso também é parte do fluir da vida. É preciso ver como as coisas se desenrolam e aí sim calcular o próximo passo. Apenas observando com muito cuidado a nova realidade é que o próximo passo terá sentido, não será dado ao acaso. E, para isso, é preciso viver aquele tempinho mais parado que se desenrola depois que terminamos com um objetivo, quando a adrenalina da conquista baixa e parece que entramos numa rotina outra vez. Mas viva-o com estratégia. Considere-o um "laboratório" e, passando bem por esse período, o próximo passo ou a meta despontará. Aí sim, com novo fôlego, o peregrino continua sua busca e parte para novos horizontes.

Oficina de mandalas em São Paulo

Olá a todos os amigos e leitores! Estou muito feliz de contar para vocês que vamos ter uma oficina de mandalas aqui em São Paulo, na capital! Vai acontecer em março, num final de semana para facilitar os horários de todos. 

Vamos aprender mais sobre as formas, cores, padrões geométricos, símbolos e seus significados. Vamos também ter algumas vivências e tempo para colorir mandalas e criar as nossas próprias. Teremos um grupinho pequeno, para que todos se sintam a vontade para participar bastante e aproveitem o máximo possível a oficina. 

Lembrando que o trabalho com mandalas é tanto preventivo quanto terapêutico, ajuda a pessoa a se conhecer melhor e a entrar em contato com o inconsciente de maneira segura e divertida. Também dá resultados muito bons no caso de pessoas que estejam enfrentando algum problema psíquico ou emocional, como depressão, síndrome do pânico, estresse, ansiedade, dificuldade em se colocar e em colocar os seus limites, problemas de sono, e mesmo doenças psicossomáticas, como as alergias, bronquites, hipertensão, distúrbios menstruais, entre outros.

A oficina de mandalas vai acontecer aqui no meu consultório, que fica na zona oeste de São Paulo, em frente à estação Villa Lobos/Jaguaré da CPTM, é bem tranquilo de chegar. Todo o material que vamos utilizar será fornecido no dia do curso. As inscrições podem ser feitas pelo email bf.carunchio@gmail.com. A idade mínima para participar da oficina é de 15 anos. Maiores detalhes na imagem abaixo. Espero por vocês!

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Mythos - Vishnu: a manutenção da realidade

Na mitologia da Índia, o deus Vishnu é chamado de preservador e protetor. No hinduísmo, o mundo é criado e destruído muitas vezes, formando ciclos. Cada ciclo é iniciado por Brahma, que cria o mundo; preservado e protegido por Vishnu, até o momento em que é destruído por Shiva. O nome Vishnu vem do termo sânscrito vishva, que significa "tudo". O nome Vishnu significa "aquele que tudo impregna". Ele tem vários epítetos, formas pelas quais as pessoas o chamam quando não querem ou não podem dizer seu nome: aquele que existe por si mesmo, o senhor dos sacrifícios, aquele que é adorado por todos, o protetor do mundo, o senhor do paraíso, o espírito supremo.



Vishnu é representado como um homem de pele escura, tingida de azul nos ícones, deitado sobre a serpente Ananta, que tem mil cabeças e representa a eternidade. A serpente flutua num oceano de leite, o oceano cósmico de onde tudo surge. Do umbigo de Vishnu, sai uma flor de lótus, e sobre ela está Brahma, o criador. Aos pés de Vishnu está Lakshmi, sua esposa e deusa da beleza, sorte e fortuna, elementos que precisam se curvar ao absoluto para que se mantenham. Quando Vishnu dorme e sonha, seu sonho é a nossa realidade.

De acordo com os mitos do hinduísmo, o deus Vishnu vem ao mundo sempre que algo realmente perigoso o ameaça. Ele pode vir na forma de animais, na forma humana ou de forma mesclada, como um ser humano com partes animais. As formas mais conhecidas são Rama, um arqueiro, e Krishna, um pastor que toca flauta e dá sábios conselhos. Uma de suas formas ainda não existiu, está por vir, e se chama Kalki, é um espadachim montado num cavalo.


Questões para reflexão:

1- Qual o lugar dos sonhos na sua vida? Os sonhos de Vishnu são fundamentais, pois eles que criam e movimentam a realidade. Seus sonhos (dormindo) têm algum significado especial para você? E os sonhos acordados? Você costuma planejar seus passos ou deixa a vida seguir ao acaso? Por que? Como são os ciclos da sua vida? Como você os cria, protege e destrói? Existe um equilíbrio entre planejar e agir?

2- Quando uma grande ameaça se mostra, Vishnu vem para o mundo defendê-lo do que quer que seja. Qual a sua atitude quando está frente a algo ameaçador? Quais são as maiores ameaças na sua vida? Como seria a destruição total, a não existência? E como é a luta, como ela a faz sentir (ameaçado, confiante, protegido, entristecido...)? Suas defesas são eficazes ou, como Vishnu, seria necessário assumir novas formas/atitudes nas ocasiões que trazem essa necessidade?

3- Lakshmi, a esposa de Vishnu, é deusa da beleza, sorte e fortuna, e esses elementos precisam se curvar a algo maior e misterioso, muitas vezes chamado apenas de "o absoluto". Numa via de mão dupla, ao mesmo tempo que Lakshmi se curva ao absoluto, estando aos pés de Vishnu, ela também traz em si os pilares que o sustentam, os valores que protegem o absoluto e o movem rumo à continuidade. Quais elementos/valores cumprem essa função protetora e encorajadora na sua vida?

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Síndrome do pânico: o papel dos amigos e da família

Bia, bom dia!
Gostaria de saber o que amigos e parentes podem fazer para ajudar uma pessoa que está inquieta, insegura, não conseguindo ficar sozinha e tendo alguns episódios de ansiedade. Pelo que pude ver, se aproxima muito de sindrome do pânico, ocorrendo também a falta de ar.
Obrigada!
Natália - Ribeirão Preto, SP


Olá, Natália!

Qualquer que seja o problema que uma pessoa tenha (físico, emocional ou mesmo os desafios da vida), o apoio de pessoas queridas é sempre muito importante, em alguns casos, decisivo. Muitas vezes, além das atitudes em si (acompanhar até a consulta, lembrar dos medicamentos, enfim, coisas do dia a dia que algumas pessoas em situação mais grave podem precisar), o que mais faz diferença na vida dos pacientes é perceber que existem pessoas ao lado dele, que se importam e se preocupam com a sua melhora. 

Se a pessoa for adulta, o quadro que você me descreveu parece bem com síndrome do pânico, e precisa ser tratado por um psicólogo. Se for criança, o sentimento de pânico (não a síndrome!) costuma acontecer quando ela começa a ter contato com a realidade de forma um pouco mais realista, e percebe que o mundo não é tão "perfeitinho" e cor de rosa como as fantasias a faziam supor. Algumas entram em pânico e passam a manifestar medos diversos por verem os problemas (na propria vida, em casa, na escola, no mundo...) e se perceberem impotentes, são apenas crianças que pouco podem fazer para mudar a realidade maior. Cabe à família transmitir o "colo", o sentimento de que todos estão lá para cuidar e proteger aquela criança, assim como emprestar a ela um olhar mais maduro e experiente, por exemplo mostrando que não é preciso se desesperar, apenas ter cuidado. Também no caso da criança, é interessante procurar um psicólogo, pois apesar de medo do novo e uma certa surpresa frente ao mundo adulto serem normais, falta de ar certamente não é.

Caso a pessoa não esteja em tratamento, a maior ajuda que um amigo verdadeiro pode dar é insistir para que ela procure ajuda. Nem sempre a pessoa quer, e muitas vezes ela se ofende com a sugestão. Mas sem receber o tratamento adequado (com um psicólogo e, em casos mais graves, também com um psiquiatra, para que a pessoa seja medicada), pouco existe a ser feito. Cabe conversar sobre como esses sintomas vêm dificultando a vida dela, e que ela merece se sentir melhor e viver livre das crises, para que realize seu potencial e possa ir atrás do que a faz feliz.

No caso da pessoa já estar em terapia, o papel dos amigos e familiares é um pouco mais simples. Cabe a eles dar o apoio necessário à pessoa, entendendo as ausências, respeitando os sintomas, dando um ombro amigo quando necessário... mas também é importante pegar no pé quando for preciso! Tem que ir às consultas e fazer o tratamento direitinho. E nada de "parar a vida" só por causa do problema, não é paralisando frente a um obstáculo que se vence! Aliás, pouca gente conhece de onde vem a ideia do pânico. Na mitologia grega, Pã, um sátiro (uma criatura que é homem da cintura para cima e bode da cintura para baixo, ligada à proteção e preservação das florestas e bosques), tinha uma "arma" especial que ele usava contra aqueles que ameaçassem a natureza e a continuidade da vida: gritos paralisadores! Gritos horríveis que causavam no oponente um medo tão majestoso que ele se paralisava! Em outras palavras, os gritos de Pã causam pânico. Tenha em mente, Natália, que a pessoa com síndrome do pânico funciona como alguém que ouviu um grito de Pã, em algumas ocasiões, ela fica paralisada, simplesmente não consegue dar o próximo passo. Não é "frescura", como alguns dizem. O medo e os sintomas físicos são bem reais, estão mesmo lá (a ponto de dificultarem a continuidade da vida normal). Os amigos e familiares podem ajudar a pessoa a dar os passos que precisa, com paciência e respeitando os limites dela. Mantenham uma atitude disponível, para o caso da pessoa precisar conversar, precisar de ajuda com algo do dia a dia, ou mesmo para emprestar à pessoa que sofre de síndrome do pânico um olhar mais realista. Muitas vezes o pânico dos deixa com uma visão um tanto parcial dos fatos. Para entender, basta pensar sobre os medos que todos nós sentimos ao longo da vida, muitos deles são os chamados "medos irracionais", são infundados (como o medo do escuro das crianças). Para o paciente com síndrome do pânico, alguns obstáculos parecem muito maiores do que na realidade são. Então é preciso dar dados de realidade à pessoa, como contar a ela a forma como você, que não sofre da síndrome, percebe a situação a ser enfrentada (seja a situação algo complexo como um desafio profissional, seja algo simples - algumas pessoas têm crises em situações da vida diária, como o trânsito carregado, lugares mais cheios como um supermercado, ou até nos momentos de solidão em casa). Cabe que os amigos emprestem o olhar realista e contem à pessoa que, se seguir com o tratamento e se envolver o máximo possível nele, os resultados serão muito bons. Cabe ainda lembrar a pessoa sobre as referências de sucesso dela, isto é, de todos os desafios que ela já enfrentou e venceu, pouco importa se for algo grandioso ou algo simples como conseguir andar de bicicleta quando era pequena mesmo com todos dizendo que ela cairia. Nossa psique não registra tanto o "o que", e sim o "é, consegui antes e vou conseguir outra vez!", o padrão de comportamento e pensamento. No mais, a melhor ajuda de amigos e familiares que alguém com síndrome do pânico (ou com a questão que for) pode  receber é a certeza de que existem pessoas queridas e especiais na vida dela, que se importam e que estão junto com ela nos momentos divertidos, mas que também continuam lá para elas nas horas difíceis.

E se você tem (ou desconfia ter) síndrome do pânico, não deixe de buscar ajuda. Ajuda profissional, claro, mas conte também com seus amigos mais próximos, com sua família... Isso faz uma grande diferença, pacientes que percebem que existem pessoas queridas ao lado deles nesses momentos têm um processo mais rápido e intenso. Não é vergonha nenhuma estar passando por essa situação, e os verdadeiros amigos estão sinceramente preocupados e interessados em ajudar. E lembre-se: você não é o problema, você está apenas atravessando-o neste momento. E toda travessia é mais tranquila em boa companhia pois no final, saem todos transformados.



Para participar da coluna Ágora, envie a sua pergunta para o email bf.carunchio@gmail.com, você também pode participar enviando sua pergunta através da nossa página no Facebook ou do meu perfil pessoal.  Você tem a opção de se identificar ou de se manter como anônimo.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Mandalas: as formas e símbolos

Conversamos sobre mandalas em outros dois artigos (Mandalas: a busca pelo centro e As cores nas mandalas) e, atendendo ao pedido de alguns leitores, hoje teremos mais um sobre este tema, desta vez abordando o significado das formas e símbolos. Para quem não sabe, mandala, em sânscrito, significa círculo. As mandalas são desenhos que simbolizam o todo, a completude, e também a nossa psique, sendo que quanto mais nos aproximamos do centro, mais fundo mergulhamos no inconsciente. O trabalho com mandalas, criando as nossas próprias ou mesmo colorindo uma já pronta (você encontra algumas na nossa página do Facebook), vai muito além de ser apenas uma atividade gostosa e relaxante. Esse tipo de atividade tem o poder de equilibrar nossas emoções e nossa psique, aliviando sintomas emocionais (pois facilitam que a pessoa se expresse) e até mesmo sintomas físicos de origem psicossomática (alergias, dores de cabeça, gastrite, hipertensão, TPM e distúrbios menstruais, entre vários outros). De quebra, trabalhamos a atenção/concentração e podemos, ainda, ter um panorama bem claro de como vai o mundo interno da pessoa. Para isso, é fundamental analisar com muito cuidado as cores (ligadas às emoções e afetos) e também as formas e símbolos que surgem. Estes, por sua vez, são ligados a aspectos mais formais e concretos do nosso ser, como atitudes, comportamentos e mesmo o tipo de assunto que está em evidência na nossa vida (o trabalho/estudos, a maternidade, a espiritualidade, a diversão, e por aí vai...). O salto transformador no trabalho com mandalas está em criar os nossos símbolos (ou pintar um tipo de mandala com símbolos adequados às nossas necessidades) e preenchê-los com cores, ou seja, com emoções, o que nos permite dar-lhes algum sentido. 

Quando pensamos nas formas que o inconsciente tem para nos transmitir mensagens, sabemos que elas sempre vêm na forma de códigos. Tudo nos sonhos, sintomas, atos falhos e na linguagem usada no momento da psicoterapia (seja falada ou na forma de desenhos, gestos, etc.) são símbolos. Portanto, quando conversamos sobre os significados de símbolos, gostaria que vocês mantivessem a mente aberta, pois tudo pode ser um símbolo, de um simples ponto a um símbolo conhecido, como uma cruz ou uma estrela, passando pelos objetos de uso diário, lugares e até pela face de pessoas queridas. Trago, agora, alguns dos símbolos mais comuns. Perceba que quando pensamos, por exemplo, formas triplas, não queremos dizer apenas triângulos, mas tudo que remete ao três, mesmo três elementos semelhantes colocados de maneira estratégica, ou até uma criatura fantástica como um cão com três cabeças (como Cérbero, o cão de Hades que guarda a entrada para o mundo dos mortos/inconsciente). Agora, vamos ao resumo de alguns dos símbolos mais comuns:

Imagem: Bia F. Carunchio.

CÍRCULO - Separação o espaço sagrado do profano, cria e delimita um espaço a ser usado com certo objetivo. Poder ilimitado que irradia do centro e se espalha pelo todo. Pode representar o acolhimento do útero materno.

DUALIDADES - União de opostos / complementares que leva a uma transformação (quando em harmonia) ou expressa um conflito.

TRIÂNGULOS E FORMAS TRIPLAS - Apontado para cima, é a busca pelo transcendente (não apenas no sentido espiritual). Apontado para baixo, é o transcendente que vem ao mundo comum. O três tem um sentido especial em diversas culturas (trindade cristã, três fases da lua, deusas de três faces – Hécate, Brigid, as tecedeiras do destino...).

QUADRADO E FORMAS QUÁDRUPLAS - Mundo externo e concreto. Quatro pontos cardeais, a forma como nos movimentamos pela nossa realidade. De forma geral, envolve questões formais, muitas vezes de trabalho.

PENTÁGONO E PENTAGRAMA - Renovação, quatro elementos que se unem ao éter. Liberdade de ação e de pensamento.

HEXÁGONO E ESTRELA DE 6 PONTAS - Estrela de Davi: dois triângulos que apontam para cima e para baixo. Relação entre a busca pelo transcendente e a vinda deste para a vida comum. Comunicação. Frequentemente envolve questões familiares.

ESTRELA - Leveza, renovação, inspiração. Busca por objetivos, “seguir a própria estrela”.

ESPIRAL - Representa os ciclos (das estações, da lua, do dia, do nosso corpo, da vida, etc.). Vontade ou necessidade de se expressar. Contato com o inconsciente: quando surge, dar atenção aos sonhos, intuições, inspirações...

LABIRINTO - Representa a jornada ao “mundo dos mortos”, uma iniciação pelo mundo interior.

ARABESCOS E NÓS - Os caminhos da vida e, com eles, as nossas escolhas e decisões.

É importante ter em mente que os símbolos são como "portais", eles nos levam a outras realidades e outros mundos de forma muito mais rápida e eficaz do que os caminhos racionais levariam. O símbolo nos entrega, via inconsciente, um grande conjunto de significados sem precisar nos dizer uma só palavra ou dar sequer uma explicação. Símbolos carregam um grande potencial transformador, pois não agem no plano consciente (no aqui e agora, quando estamos atentos e armados com nossas defesas) e sim no inconsciente, onde não há essa nossa lógica de espaço-tempo linear, a lógica é outra, mais rica e intensa, e traz nos símbolos uma porta sempre aberta para as mudanças que almejamos.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Mythos - Poseidon: lidando com as nossas emoções

O deus sobre quem vamos conversar hoje tinha uma grande importância para os antigos gregos e também para os romanos (que, na face de Netuno, fizeram uma releitura de seus mitos e cultos), pois Poseidon, também chamado Posídon, é o deus dos mares. Tanto a Grécia quento Roma tinham seus territórios espalhados por diversas ilhas (no caso de Roma, por diversos continentes, abrangendo grande parte da Europa, o norte da África e partes do Oriente Médio). Naquele tempo, a única forma de ir de um lugar a outro, seria enfrentando a imensidão do mar. Acontece também, que as viagens por mar no mundo antigo eram situações de muita instabilidade, pois poderiam ser tranquilas e pacíficas, assim como poderiam ser cheias de perigos e riscos, fazendo os viajantes nunca chegarem aos seus destinos! Era fundamental que o deus dos mares estivesse satisfeito e em paz para que as viagens seguissem em segurança.

Poseidon, imagem de Jim Jorz, DeviantArt.
Poseidon é filho de Reia (a energia da terra, seu potencial fértil e criativo) e de Cronos (o tempo, o pai devorador que sempre devora seus filhos - no caso dos mitos, isso acontece literalmente, pois Cronos os engole assim que nascem, por medo que um deles tome seu lugar, o que Zeus fez). Em uma das versões sobre seu nascimento, Cronos o jogou ao mar ao invés de engoli-lo. Em outra versão, Reia deu um cavalo a Cronos no lugar do filho. No entanto, a versão mais contada é aquela em que, como todos os irmãos a exceção de Zeus, Poseidon foi devorado por Cronos. Nessa terceira versão, Poseidon foi o último filho a ser engolido e o primeiro a ser libertado por Zeus. Compreendemos a estadia dos deuses no estômago de Cronos (sendo digeridos pelo tempo) como um "segundo período de gestação". Assim, Poseidon foi o que passou menos tempo no estômago do pai, e isso se reflete em sua personalidade. Hades, por exemplo, foi o que mais tempo ficou lá, por isso se mostra um deus introvertido, que raras vezes sai do mundo dos mortos/inconsciente. Zeus nunca foi engolido, por isso é o mais extrovertido, tem muita confiança em si mesmo e é um grande líder. Já Poseidon... ele está entre os dois. Ora é calmo e introvertido como Hades, ora é agitado e revolto como o mar numa noite de tempestade!

Como característica de personalidade deste deus (e como o traço arquetípico que ele nos deixa), destacam-se a agitação e a capacidade de expressar emoções profundas, tanto no sentido amoroso, como quando pediu Anfitrite em casamento enviando-lhe um golfinho (a melhor parte de si), quando pelo lado da raiva, pois era um deus violento, que tinha o costume de inundar as cidades-estado protegidas por deuses rivais (existe até hoje, em Atenas, um poço de água sagrada que, dizem, surgiu de uma disputa entre ele e Atena, a deusa da sabedoria e patrona da capital grega), a tal ponto que Zeus chegou a proibir-lhe as inundações! Mas ele tinha outros métodos, pois Poseidon também está associado aos terremotos, o que gera conflitos com Hades, pois o senhor dos mortos teme que num dos tremores uma fenda se abra na terra e a humanidade descubra o que se passa após a morte. 

A impulsividade é outro traço marcante de Poseidon, pois ele é guiado principalmente por suas emoções instáveis e tumultuadas, e não tanto pela razão. Por esse motivo, mesmo sendo muito requisitado nas viagens por mar, este não era um deus tão amado pelos gregos. Assim como o irmão Zeus, Poseidon era muito dado a casos amorosos, com deusas (entre elas, Gaia - deusa da terra, Deméter - deusa da fertilidade, e Afrodite - deusa do amor e da beleza), ninfas e humanas. Sua esposa, Anfitrite reagia tal como a esposa de Zeus, Hera: ao descobrir as aventuras do marido, vingava-se,  Anfitrite optava por transformar as amantes em monstros terríveis, quase sempre monstros marinhos, o que tem várias explicações. No ponto de vista histórico/antropológico, esses casos amorosos explicam a tentativa de trocar o culto central a uma deusa pelo de um deus (no caso, Poseidon) na passagem do matriarcado para o patriarcado. No ponto de vista simbólico, explica o medo que o ser humano pode ter do mar - e de suas emoções mais impulsivas e indomadas pela racionalidade.


Questões para reflexão:

1- Em diversas culturas e estruturas simbólicas, a água está relacionada às nossas emoções. E o mar é um grande símbolo emocional. Ele pode denotar a profundidade das nossas emoções, a agitação ou tranquilidade emocional. Sendo que no caso da tranquilidade, não é algo estanque como um lago, mas algo que, mesmo com calma, está sempre em movimento, é algo dinâmico e que pode mudar a qualquer momento! Com quais aspectos do mar/oceano as suas emoções geralmente se parecem? Como "Poseidon" se mostra no seu dia a dia?

2- Como você expressa as suas emoções ("boas" ou "ruins"), de forma impulsiva ou direta como Poseidon, ou de forma mais contida, mediada pela razão? Qual jeito é melhor ou pior? Nenhum! São formas diferentes de lidar com algo que todos temos e sentimos, nenhum jeito é pior ou melhor, existe apenas o jeito que funciona melhor para cada pessoa. Quais tipos de emoção são mais fáceis de serem mostradas ao mundo e quais são mais difíceis? Por que? Veja que não falo sobre as emoções que a sociedade condena (no caso da nossa, a raiva é um bom exemplo). Muita gente tem dificuldade com emoções bem aceitas e valorizadas, como o amor e a alegria.

3- No caso de Poseidon, o jeito como ele lida com suas emoções é expressando-as em suas ações (quase sempre de maneira impulsiva). E você, como tende a lidar com elas? Expressando-as (como?), guardando-as para si mesmo, negando-as...? A forma como lidamos com as nossas emoções, mais do que a emoção em si, conta muito sobre a forma como tendemos a agir e reagir na vida, seja essa forma mais dentro daquilo que se aceita socialmente, mais fora, seja de forma impulsiva, racionalizada ou um meio termo.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Vencendo a falta de confiança em si

Olá  Bia, 
Costumo acompanhar o seu blog, inclusive fiz até o meu caderno Rosa dos Ventos, imprimo seus textos, colo e tento fazer a atividade que você recomenda e vou acompanhando meu desenvolvimento. 
Mas, confesso que estou atrasada em acompanhar todos os artigos (uma das metas para 2014 rsrs). Então, vim sugerir um artigo, caso ainda não tenha no blog, sobre como desenvolver a autoconfiança. Tive uma criação muito rígida, com muitas críticas e percebo que isso até hoje reflete em minha auto-estima. 
Abraço 
R. - Alagoas


Bom dia, R.!

Você nem imagina o quanto fico feliz de saber que o blog vem contribuindo para que você e outros leitores levem uma vida mais equilibrada e em paz consigo mesmos. Como combinamos, sua sugestão entrou como edição da coluna Ágora, pois sei que muitas pessoas vivem essa situação de terem uma baixa autoconfiança devido à educação excessivamente rígida que receberam. Então vamos falar um pouquinho sobre essa rigidez e terminar com algumas sugestões para vencer a insegurança.

Uma educação rígida é identificada quando a pessoa recebe muitos limites de forma pouco flexível. De forma alguma estou dizendo que limites são ruins ou que o "não" da família não precisa ser firme. Nada disso, limites são aquilo que dão nosso contorno e, na medida certa, nos enchem de autoconfiança e nos levam a respeitar (a nós mesmos e aos outros). Mas bom senso por parte dos adultos costuma fazer um bem danado às crianças! Se deixar de fazer algo um dia, uma "vezinha" só, nenhuma criança "vira mau caráter". Nenhuma criança passa a ser "a fedorenta da classe" apenas porque ficou um dia sem banho. Nenhuma criança morre de fome com comida na mesa só porque não almoçou muito bem. Nenhuma deixa de ter noção das responsabilidades e obrigações da vida só porque deixou de fazer uma lição ou de arrumar o quarto um dia. Bom senso, ok? Também não estou dizendo que isso pode se tornar rotina, mas de tempos em tempos, uma pequena transgressão faz muito bem a crianças e adultos. É parte do nosso equilíbrio.

Em outros casos, a rigidez da família é mais sutil, não se mostra com tanta clareza nas regras do dia a dia, e sim nos valores, costumes e tradições. Alguns bem comuns: "criança fica quieta quando adulto fala", "meninas não dizem palavrão", "meninos não choram", "'ai' dos meus filhos se não me chamarem de 'senhora'", "comporte-se como uma mocinha", "ninguém te perguntou o que você quer, apenas sorria e faça", "engole o choro", enfim, são valores que não deixam nenhum espaço para que as crianças e jovens se mostrem como são e ganhem segurança para que façam suas escolhas de vida de maneira consciente. Óbvio que nem sempre as situações permitem escolhas, mas sempre deixam uma brecha. Um exemplo simples que gosto de dizer às famílias com crianças: se hoje está frio e o pequeno quer brincar lá fora, terá de vestir um casaco, não há escolha aqui. Mas ele pode escolher entre usar o vermelho ou o azul. Com o passar do tempo, o ideal é que as escolhas sejam cada vez mais frequentes e mais decisivas na vida do jovem. O papel da família não é apontar o "único caminho certo" (mesmo porque duvido muito que exista algo assim!), e sim dar o suporte emocional para que o jovem escolha por si, alertando sobre riscos e situações que podem surgir, mas respeitando a escolha de cada um.

Agora algumas dicas para quem sente falta de confiança em si mesmo:

- Não deprecie aquilo que você faz ou o que você é, nem de brincadeira. Muitas pessoas inseguras têm esse costume, como se repetissem o discurso que antes era feito por pais, familiares, professores, etc. Isso é ruim, pois nossa psique recebe um reforço desse tipo de atitude, fazendo com que a gente sempre tenha uma visão negativa de nós mesmos.

- Muitas vezes, a insegurança vem acompanhada da timidez. É importante trabalhar esse lado, especialmente quando gera algum tipo de desconforto ou dificulta o dia a dia. Uma boa alternativa é participar de atividades como um grupo de teatro amador ou um grupo de coral. Apresente-se para as pessoas e receba os aplausos! Não importa se vai apresentar uma peça, uma música, algo que tenha escrito ou criado, o importante é apresentar algo "seu", dar-se a conhecer. Puxar conversa numa fila qualquer ou no ônibus também é interessante.

- Não seja rígida com você mesma do jeito como a sua família costumava ser, R. Ninguém tem apenas defeitos ou inadequações. Temos muitas qualidades. Invista no seu autoconhecimento e descubra suas qualidades. Descubra se os "defeitos" não são, na verdade, uma bela qualidade disfarçada. E nada de ter medo de mostrar suas qualidades para o mundo!

- Muitas vezes também, a baixa autoestima é a grande companheira de pessoas inseguras. Outra vez, nunca se deprecie, nem de brincadeira. Há algo de lindo em todos nós, por dentro e por fora, basta valorizar-se. A autoestima está mais ligada à nossa postura do que aos padrões de beleza que a sociedade nos exige. 

- Busque suas referências de sucesso. Papel e lápis na mão, anote tudo o que você já fez e deu certo. Desde algo grande como ter se formado, ter uma família amorosa ou ter aberto o próprio negócio, até coisas simples e de muito tempo atrás, como ter aprendido a andar de bicicleta quando criança, ter ido a uma festa bonita, ter conseguido fazer a receita de bolo que mostraram na TV. A psique mais profunda não reconhece o que foi grandioso e o que foi algo menor, ela apenas reconhece que "eu consegui!" Se você tiver fotos ou lembranças de momentos assim, procure-as e espalhe-as pela casa, por aqueles lugares onde você vai ver (e reviver a lembrança) com frequência.

- Quando adolescente, participei de um grupo de teatro, e lá aprendi uma técnica chamada "entrar na personagem". Quem é a "personagem" que você quer viver? Quem você quer ser? Uma profissional dinâmica e de sucesso? Uma mãe amorosa e companheira? Uma mulher livre e consciente de si e do seu poder de escolha? Você pode ser quem quiser, R. basta "entrar na personagem. Sim, como se fosse um teatro. Aos poucos as atitudes parecem mais naturais a nós mesmos, conforme interagimos com os outros "estando na personagem". Não é falsidade ou "fingimento", porque não se trata de uma personagem inventada, e sim de si mesmo, de quem cada um gostaria de ser. Isso é sobre permitir que a R. que você realmente é desabroche e se mostre para o mundo!

- Vamos meditar! Concentre-se, relaxe e preste atenção apenas na sua respiração. Enquanto faz isso, imagine um sol dentro do seu peito. Esse sol espalha sua luz por todo o seu corpo, até que você ganhe luz própria e ilumine tudo e todos a sua volta. Alguns pacientes têm dificuldade de perceber o sol iluminando o corpo inteiro no início. Tudo bem, vá até o seu limite e pratique todos os dias, até que o sol ilumine você por inteiro e se expanda para além de você. Com a prática, é possível fazer todo o processo em poucos segundos, no tempo de algumas respirações profundas. Esta técnica é ótima para a prática diária (ao acordar, para já começar o dia brilhando!) e mesmo para aqueles momentos e situações da vida que nos exigem uma dose maior de confiança (como antes de alguma prova ou concurso, antes de uma apresentação importante, quando for falar com alguém especial...).

- Celebre. Comemore. Não importa tanto o que. Traga para a sua vida e para o seu dia a dia aquele sentimento gostoso de que você merece ser parte de algo bom, merece viver a realidade que escolhe para si. Não precisa nada tão elaborado. Tudo o que deu certo (até um dia sem reclamações ou pensamentos negativos) pode ser comemorado (reforçado e transformado em referência de sucesso). Fatos externos (como um acontecimento familiar, uma conquista ou superação, a chegada do verão,, etc.) podem ser comemorados. Todo motivo é bom o bastante para isso se você sente que é. Comemore fazendo algo que gosta (passeando no parque da sua cidade, juntando pessoas queridas para comer uma pizza, enfeitando a casa com flores, enfim, fica para a escolha de cada um). Você está neste mundo porque merece estar aqui, então faça a experiência ser fantástica para você!

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Amizade e "cobranças": apego excessivo + insegurança emocional

"Como as plantas, a amizade não deve ser muito nem pouco regada." - Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), escritor brasileiro.

A ideia para o artigo de hoje surgiu no comecinho do ano, numa conversa com minha amiga Nadia. A conversa foi sobre pessoas que iniciam uma amizade com outros e passam a cobrar dos amigos certo envolvimento que, muitas vezes, vai além do que a outra pessoa espera. Acredito que muitas pessoas já encontraram amigos que cobram maior contato ou proximidade, ou ainda venham com aquela velha conversa de "você sumiu!" mesmo sem ter motivos para isso.



Por que isso acontece?
Existem diversos motivos para isso. O mundo é uma grande sala de espelhos. Repito muito isso, pois cada vez a frase me parece mais verdadeira. Quero dizer que, muitas vezes, aquilo que tanto incomoda no outro (mesmo que o descomprometimento, o comportamento distante ou até a atitude de cobrança, vendo o outro lado da situação) é da própria pessoa e não do outro. 
Outras vezes, o motivo é a insegurança se mostrando em uma pessoa emocionalmente imatura, que aparece como esse tipo de ciúme ou cobrança. 
Um terceiro motivo, muitas vezes também ligado à insegurança, é o apego excessivo. É claro que é muito bom ter pessoas a quem somos apegados, ter amigos muito presentes na nossa vida... mas nada em excesso é bom. No caso, o apego excessivo traz à tona sua sombra: o medo da perda (seja a perda do outro em si, do vínculo tido como "especial", da atenção...). Existem pessoas que nunca tiveram relacionamentos (de amizade, amorosos e até familiares) minimamente satisfatórios. Então, muitas vezes essas pessoas têm a tendência a se apegar demais quando encontram alguém que parece ter um carinho sincero por elas. Aliás, mesmo que a gente mal conheça a pessoa e tenha apenas conversado sobre banalidades por poucas vezes, elas podem se apegar. Existem pessoas que nem sequer estão acostumadas a receber atenção dos outros de forma positiva.
Outras pessoas, ainda, não sabem lidar com a frustração (o que também é sinal de imaturidade emocional). É difícil aceitar um "não", mesmo que o "não" seja apenas algo como o amigo ter amizades com outras pessoas além dela, ou estar ocupado (fazendo a pessoa perceber que o centro da vida do amigo não é ela), enfim, a pessoa não aceita a frustração de ter de dividir a atenção e o tempo do outro com nada nem ninguém.
Enfim, existem inúmeras possibilidades, que geralmente têm alguma relação com a imaturidade emocional.

Como lidar com pessoas assim?
Cada pessoa encontrará a sua maneira de lidar com essa situação. Quando se trata de relacionamentos, não há um modelo pronto a ser seguido, apenas aprendemos a nos relacionar quando nos relacionamos. E situações envolvendo um relacionamento não dependem apenas de nós ou do outro, dependem daquilo que surge entre um e outro.
Algumas pessoas preferem apenas se afastar quando o amigo começa com as cobranças ou com o apego excessivo/ciúme. No entanto, não deixa de ser estranha a atitude, não deixa de causar espanto que, num mundo onde tanto se fala e se busca relacionamentos equilibrados, isso aconteça. Claro, em relacionamentos equilibrados não existem cobranças sem motivo... E relacionamentos equilibrados não acabam sem ter um fim, mesmo que o fim seja apenas uma conversa do tipo "não posso lidar com essas cobranças todas, por isso prefiro me afastar por enquanto". Talvez uma conversa sincera seja a primeira oportunidade que a pessoa tenha para repensar suas atitudes (e uma boa demonstração de amizade verdadeira). Talvez a pessoa entenda bem, ou talvez não. Mas mesmo sendo uma conversa que pode trazer algum desgaste emocional, ela vale a pena (claro, mantendo-se o respeito e o tom de voz em volume minimamente educado!), pois as duas partes tendem a crescer e amadurecer.
Outras pessoas, preferindo evitar o conflito, preferem apenas contornar a situação, ou seja, aceitar que o outro funciona desse jeito e lidar com as cobranças e o apego da forma que puder em cada momento. É uma atitude que parece respeitosa, no entanto, não traz grande crescimento a nenhum dos dois e, em pouco tempo, a relação se desgasta e se fragiliza - confirmando a quem cobra o envolvimento do outro a crença que as pessoas realmente "não prestam", são "falsas" e "todas iguais"...

Acho que me identifiquei com a pessoa que cobra os outros e é apegada demais, e agora?
Que bom que percebeu, isso mostra uma grande consciência de si, o que é um sinal de que você já está pronto para dar mais um passo no seu desenvolvimento. É claro que você sabe que as pessoas têm diversos amigos e obrigações na vida... Mas não basta saber com a razão, é preciso compreender isso com o coração. As pessoas não criam laços apenas passando o tempo inteiro juntas ou não tendo outras companhias. Os laços mais bonitos se criam quando o carinho que sentimos uns pelos outros é sincero. E isso não tem nada a ver com distância, diferenças sócio-culturais, agendas cheias ou vazias, ou qualquer outra condição que descreva a nossa existência. Isso tem a ver apenas com o sentimento, com o amor, respeito e consideração que nutrimos pela pessoa. Sentir saudade também é parte de relacionamentos equilibrados (todo tipo de relacionamento), eles são feitos de encontros, partidas e reencontros... Algumas vezes, apenas refletir sobre isso pode ajudar. Outra coisa que pode ajudar é conversar sobre isso com alguém de confiança, pedindo para a pessoa dar um toque quando você passar dos limites. E se tiver dificuldade com a situação, vale muito a pena procurar um psicólogo para resolver a questão da insegurança.

Quando amamos alguém (a amizade não deixa de ser uma forma de amor), não amamos o outro apenas pelo que ele é, mas também apesar daquilo que ele é. É gostosinho amar uma pessoa madura emocionalmente, simpática, de bem com a vida e com o mundo... Mas ninguém é o tempo inteiro assim. Todos nós temos uma sombra, um lado completamente diferente daquele que mostramos aos outros (e a nós mesmos). Faz parte do nosso crescimento lidar com a diversidade, com outras formas de ser e de existir. Faz bem descobrir que podemos amar pessoas em condições diferentes das nossas, inclusive pessoas inseguras e que mostram esse apego de forma pouco equilibrada. E amar, neste caso, não é fingir que não percebe ou que a atitude do outro não incomoda. É preciso muita coragem e também muito amor para dizer aquelas coisas que todos percebem, mas que ninguém ousa dizer, como apontar essa questão das cobranças e do apego e, se for preciso, sugerir ao outro buscar a ajuda de um psicólogo para estabelecer vínculos com maior equilíbrio. O "como" lidar é sempre uma escolha de cada um. Mas uma coisa é certa: enquanto a gente fugir do problema, esse tipo de situação continuará a se repetir na nossa vida, nos mais diferentes contextos, até que a gente encare a situação e aprenda a lidar com ela.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Mythos - Odin e as runas: o esforço criativo

Hoje vamos conversar sobre o esforço criativo. Importante começar dizendo que criatividade não é apenas algo ligado às artes, como muita gente pensa. Criatividade é tudo aquilo que se relaciona com o potencial de criar que todos nós temos, seja criar algo artístico, um projeto profissional, um filho, uma família, criar a ideia de uma viagem ou criar as possibilidades para um sonho ou meta que temos na vida. Para abordar este tema, vamos conversar sobre o deus nórdico Odin, um dos principais deuses (ou um dos mais conhecidos na nossa época) desses povos.

O nome Odin significa "vento" ou "espírito". Ele é conhecido por diversos apelidos ou títulos, entre eles, o protetor das runas, protetor dos exércitos, senhor da vitória, pai de todos, senhor da magia, entre muitos outros. Como se percebe, Odin é um deus ligado às guerras e vitórias, mas também à sabedoria, magia e dons proféticos, além da morte/transformação (que está mais ligada às guerras e à sabedoria/magia do que se pode pensar a princípio).

Odin andava sempre acompanhado de dois corvos, Huginn (pensamento) e Munnin (memória). Cada um repousava sobre um de seus ombros e todos os dias, eles sobrevoavam o mundo e davam a Odin um relatório completo de tudo o que haviam presenciado, em especial as guerras e batalhas. 

Odin, der Göttervater, obra de Carl Emil Doepler, 1882.
Sendo um deus de tanto destaque e cuidando de tantas áreas diferentes da vida, é de se esperar que existam muitos mitos e histórias acerca de Odin. Por isso, escolhi uma delas para trabalhar hoje, e foi o mito da criação das runas. As runas eram antigos símbolos usados pelos povos da Escandinávia e da Europa Central tanto com o objetivo de comunicação escrita, como também na forma de oráculo ou talismã. Para criá-las, Odin dependurou-se de cabeça para baixo na Yggdrasil (a árvore do mundo, também conhecida como árvore da vida ou do conhecimento - símbolo que aparece em muitas culturas e que conecta diferentes mundos, como um eixo ou "coluna vertebral"). Então, Odin feriu-se com a própria espada e deixou que seu sangue fluísse. Conforme as gotas de sangue pingavam na terra, uma a uma, as runas se formavam e se revelavam a ele.

Depois de soltar-se da árvore, Odin pegou as runas e foi conversar com Mímir, um deus gigante que guardava a fonte de sabedoria cujas águas alimentavam Yggdrasil. Mímir permitiu que Odin bebesse um gole dessa fonte, em troca de um de seus olhos, o que o tornou um deus sábio e que tem grande clareza daquilo que percebe.


Questões para reflexão:

1- Nada surge sem esforço. Uma obra (seja qual for e no setor da vida que for) precisa de envolvimento e trabalho para que se complete. Odin que o diga. Ele se sacrificou muitas vezes pelo que tinha a intensão de fazer. Observe quais setores da sua vida não estão do jeito como você gostaria. Quais sacrifícios precisam ser feitos? Quero deixar claro que não falo sobre sofrer, e sim sobre dedicar-se e fazer tudo o que for possível para a coisa dar certo! É aquela velha história, ninguém melhora as notas passando o dia todo jogando video game, ninguém tem uma família harmoniosa deixando-a sempre de lado, ninguém encontra um trabalho melhor se continuar a oferecer os mesmos diferenciais de sempre... Como você se sacrifica? O que pode fazer de diferente para conseguir resultados diferentes?

2- Trabalho prático! E é sobre criatividade! O tema é criação. A proposta é que você desenvolva algo sobre este tema, usando os recursos e conhecimentos que tiver à sua disposição e realize sua obra. Vale ir para a cozinha dar uma de mestre cuca, pintar, modelar, criar algo com sucata ou tecidos, escrever, criar um novo projeto profissional, passar um tempo fazendo algo lúdico e diferente com as crianças, enfim, Odin usou apenas o próprio sangue, acredito que nós também podemos pensar em algo com os conhecimentos e recursos que temos.

3- Os povos antigos  viam as runas tanto como oráculo quanto como linguagem escrita. Isso mostra uma ideia que tende a aparecer com frequência: as palavras como aquilo que molda a nossa vida, como as "palavras mágicas" dos contos infantis. E isso está bem longe de ser crendice! As palavras moldam a nossa realidade, pois são elas que nos permitem explicar (para nós mesmos) aquilo que vivemos, isto é, dar um sentido às nossas experiências. E tudo pode ser visto de diferentes formas e através de diferentes ângulos, o que permite viver realidades muito diferentes dependendo do discurso/das palavras que usamos, partindo da mesma experiência. Vale a pena verificar quais são as realidades que se apresentam a você, especialmente se não estiver contente com a sua.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Ágora - Criança que não dorme

O que fazer se a criança não quer dormir?
Regis


Oi Regis!

Algumas crianças demoram mais para dormir mesmo. O que fazer? O primeiro passo é segurar a ansiedade e aquele sentimento de "preciso dormir, amanhã vou sair cedo para o trabalho". As crianças, especialmente quando bem pequenas, sentem esse tipo de emoção e ficam ansiosas também. E aí demonstram esse sentimento... ficando agitadas e não dormindo de jeito nenhum!! 

Para todas as idades:
- Tenha uma hora certa para a criança dormir e acordar, e siga-a. Isso cria no cérebro uma programação no relógio biológico da criança, que em poucos dias já começa a sentir sono perto daquele horário.
- Crie uma rotina para a hora de dormir da criança, como escovar os dentes, usar o banheiro, deitar na cama, ouvir uma história e beijinho de boa noite. Todos os dias, de preferência na mesma ordem. Isso ajuda a entrar no clima. Claro, a rotina pode se alterar com a idade das crianças. Talvez os mais velhos prefiram ler a história para você ao invés de ouvi-la, ou apenas falar sobre algo que fez durante o dia. Os mais novinhos, talvez se acalmem mais com uma canção de ninar...
- Veja se a falta de sono não é por causa de algo que vem acontecendo e deixando a criança ansiosa, especialmente se começou "do nada". Pode ser algo simples, como algum desentendimento com um amiguinho, ansiedade por um passeio, até algo mais sério, como problemas na escola e até abusos.
- Mas quase sempre a coisa é simples! Veja se ele está bem, se não está com roupas demais agora no verão ou com frio na época de inverno.
- Um banho morno ajuda a criança a relaxar.
- Cama dos pais não é lugar de criança, cada um dorme no seu lugar! Seja firme nisso.
- Para os adultos que têm a missão de colocar a garotada na cama: respire fundo, mantenha a calma, não se descontrole!!

Bom, para facilitar, vou dar algumas sugestões práticas conforme a fase da criança.

Recém nascidos:
O sono dos bebês mais novinhos não é regular como o nosso. Quem tem crianças já deve ter notado como eles parecem não diferenciar noite e dia do mesmo jeito que os mais velhos. Eles dormem poucas horas, acordam para mamar, trocar a fralda e em pouco tempo já dormem mais um poco. Esse padrão é normal.
- Enrole a criança bem apertadinho, até os dois meses de vida, eles se acalmam muito assim, pois se sentem como se estivessem na barriga da mãe. Atenção, agora no verão, especialmente nas regiões mais quentes, use um tecido bem leve e macio!
- Balance. Isso, segure firme a criança nos braços e balance ou ande pela casa. O movimento também era uma constante antes da criança nascer.
- Esqueça as musiquinhas! Faça um som assim "ssshhhh", num tom mais alto. Não, você não está sendo rude com seu bebê, muito menos pedindo que se cale. O que estamos fazendo é imitar o som que a criança ouvia quando ainda estava na barriga da mãe (o som da respiração e da corrente sanguínea da mãe). Isso a faz sentir "de volta ao útero" e a deixa mais calma.

Bebês:
Aos poucos, o tempo acordado aumenta e o sono tende a se concentrar durante a noite. No entanto, alguns bebês demoram um pouquinho mais para perceber a diferença entre dia e noite, e acabam invertendo as atividades: de dia, dormem como anjinhos, e à noite ficam muito animados para brincar!
- Ensine a diferença entre dia e noite. Por exemplo, durante a noite, deixe-o dormir com o quarto no escuro, já nas sonecas do dia, mantenha a janela aberta para que entre luz natural no quarto. O bebê percebe a luz (mesmo que esteja dormindo) e os sons da casa, e assim a tendência é que ele associe mais depressa que o dia é para brincar e a noite é hora de dormir.
- Balançar a criança, agora cantando as musiquinhas de ninar, costuma dar um bom resultado.
- Se for possível, outra dica legal é sair com a criança para dar uma voltinha de carro (usando uma cadeirinha apropriada para o tamanho dela, nada de deixar o bebê "solto" no carro. Além de ser uma irresponsabilidade, pode se machucar feio!). Conheço casos em que o sono chegou ainda na rua de casa.

1 a 3 anos:
Nessa fase ele já dorme durante a noite e provavelmente faz um soninho durante a tarde. Esse tempo de sono diurno deve diminuir aos poucos, até não ser mais necessário. Talvez já vá para a escolinha ou, mesmo que fique em casa, a criança já tem suas brincadeiras e outras atividades que regulam o ritmo da vida, não apenas o sono/vigília/alimentação/higiene dos mais novinhos.
- Estimule as atividades durante o dia, especialmente as que ajudam a criança a gastar energia e se divertir bastante.
- Antes da hora de dormir (meia hora antes, mais ou menos), deixe o ambiente na penumbra (com um abajur, ou então assistindo a um desenho na TV com as luzes apagadas), assim o soninho começa a chegar...
- Faça da hora de dormir um momento gostoso, e não uma guerra caseira. Acompanhe a criança até o quarto, coloque-a na cama, faça desse momento algo especial para vocês. Contem algo um para o outro, leiam um livrinho juntos, orem (se for o costume da família), e termine com um bom abraço e um beijo de boa noite.
- Se a criança estiver sem sono, leve-a para fora de casa. O ar da noite as deixa sonolentas.

4 a 7 anos:
É a fase em que a criança começa a tomar consciência das regras. Isso significa que é o momento de colocá-las em ação! Na hora de dormir, não é diferente. Combinem de um jeito que a criança entenda, como "a hora em que o ponteiro pequeno do relógio chegar no 9" ou "quando terminar de passar o desenho X", será a hora de ir para cama.
- A rotina para a hora de dormir deve ser mantida e ajustada conforme a necessidade de cada criança. Talvez agora que ela está mais velha, ela mesma queira ler o livrinho junto com você (além de um momento gostoso e divertido de convivência, é uma ótima chance de treinar a leitura!), ou quem sabe vocês queiram inventar uma história, e continuá-la a cada noite (a hora de dormir acaba virando um momento esperado pela garotada!).
- Continua valendo a dica de estimular a criança durante o dia, correndo, brincando e se divertindo bastante. Criança precisa extravasar e gastar energia, e quando elas não têm a oportunidade de fazer isso de dia, a hora de dormir acaba se tornando um ótimo momento de correria!
- Dormiu tarde porque ficou enrolando ou fazendo birra? A hora de acordar continuará sendo a mesma. Limites existem e a criança precisa aprendê-los. Regra é regra.
- Ainda vale a dica de sair para o jardim ou quintal durante a noite. Se os adultos se animarem a aprender algumas constelações e os mitos que lhes dão nome, este pode se tornar um momento bem gostoso para a família toda.
- Eles são muito curiosos nesta fase. Fale sobre os sonhos, pergunte o que sonhou, se foi engraçado ou se deu medo... conte seus sonhos... Incentive a criança a se envolver com a hora de dormir - e com o mundo interno dela.
- Evite que durmam durante o dia, ou não terão mais sono durante a noite.

Mais de 7 anos:
Agora eles já são mais velhos, já interiorizaram a rotina da hora de dormir e já estão habituados às regras, limites e costumes da família. É hora de aprender a pensar sobre esses limites, isto é, aprender a negociar e a fazer combinados.
- Ok, de sexta feira e sábado a criança já pode dormir um pouco mais tarde (com bom senso, não de madrugada!). Ganhar esses pequenos direitos a ajuda a tomar consciência das consequências e dos deveres que vem junto.
- Vai passar um filme que ele quer muito ver? Tudo bem, mas apenas hoje. Amanhã cedo vai acordar no mesmo horário, vai para a aula e vai cumprir as atividades do dia normalmente.
- Nessa fase da vida, quando dizia que não conseguia dormir, ouvi muito da minha mãe que ninguém consegue pegar no sono falando e correndo pela casa. E é verdade. Ensine-o a pegar no sono na cama dele, no escuro e sem TV.
- Readaptem a rotina da hora de dormir. Conforme os anos passam, ele provavelmente não vai querer mais ouvir historinhas, mas vai querer contar sobre o que fez de dia, matar as saudades da família e contar os sonhos que teve pela manhã. Até que crescerá mais e lhe bastará dizer "boa noite" antes de se recolher por si só.
- É um bom momento para ganhar o primeiro "diário de sonhos". Além do contato consigo mesmo, ajudará na leitura e escrita, além de incentivar processos neuropsicológicos como a atenção, a memória e a consciência de si.

ATENÇÃO: Se a criança em fase pre-escolar grita e chora durante o sono, sem reconhecer os pais ou cuidadores, ela pode estar sofrendo com o chamado terror noturno. Busque a ajuda de um psicólogo.

Espero ter ajudado, Regis. Bons sonhos para sua criança!
beijos
Bia

Por que nunca criticamos?

"Não há porque não criticar muito severamente quando se tem a sorte de amar a pessoa que se critica." - Jean Paul Sartre (1905-1980), filósofo existencialista francês.

Provavelmente você já notou isso. As pessoas não criticam nada. É, eu sei, elas reclamam (algumas delas mais do que deveriam!). Mas reclamar é bem diferente de criticar. A reclamação é aquela ladainha vazia, em que a pessoa não busca dividir sua revolta/tristeza/preocupação, e muito menos busca uma solução. Tudo o que ela quer é se queixar mais e mais, seja para ganhar a compaixão dos outros e se sentir querida, seja porque ainda está digerindo o que passou e falar ("reclamar") a ajuda nesse sentido. De todo jeito, poucas criticam. A crítica é uma queixa com foco. Ou melhor, nem sempre é uma queixa. Prefiro pensar na crítica como um olhar atento aos detalhes, que aponta aquilo que não está muito bom com a intenção de gerar melhoras ou novas atitudes.

Não fomos educados a criticar. Muita gente cresceu ouvindo que "quando não temos nada de bom para dizer, apenas ficamos quietos". Isso é muito triste! Porque, quase sempre, apesar da atitude dizer outra coisa, a pessoa percebeu os pontos ruins e não disse nada com medo de ofender o outro. E esse medo é bem concreto e real, pois da mesma forma que nunca nos ensinaram a criticar, poucos aprenderam a ouvir críticas. Já entendem como "estão colocando defeitos em mim", ou como uma brincadeira de mal gosto. Perdem a chance de ouvir uma opinião sincera e mudar para melhor algo que não está muito bom.

"Vacuous adolescence", obra de Jeffrey Harp, 2003.
Como aprender a criticar? Com a ajuda do olhar sincero e atento que todos nós podemos ter. Percebendo pontos melhores e piores naquilo que analisamos (trabalhos, relacionamentos, o comportamento de alguém, um discurso...). E colocando a nossa opinião, de forma construtiva, isto é, ciente de que a ideia não é diminuir o outro e sim ajudá-lo a crescer. 

Quando criticamos, estamos sendo sinceros. E a nossa sinceridade é dirigida ao responsável pelo que criticamos, mas também a nós mesmos. É estranho ter contato com algo, perceber falhas e então sorrir e dizer que tudo está lindo, quando sabemos que não está. 

Muitas vezes estamos tão envolvidos com aquilo que fazemos que não percebemos os pontos fracos. Seja porque estamos animados com os pontos fortes daquilo que criamos, seja porque os pontos fracos da nossa produção refletem justamente aquelas áreas em que não somos tão bons. Todos nós precisamos de ajuda em algo. Por isso, é fantástico ter críticos de confiança. A maioria dos grandes escritores os têm, geralmente são amigos que leem em primeira mão e dizem com sinceridade o que acharam, fazendo as críticas cabíveis. Os pesquisadores de programas de mestrado e doutorado têm o orientador, que entre outras funções, também acaba sendo o primeiro crítico.

Para terminar, gostaria de contar algo sobre os bastidores do trabalho de Freud, o criador da psicanálise. Freud era judeu e vivia em Viena no início do século XX. Uma realidade difícil, e ele tinha consciência de que qualquer coisa que ele escrevesse seria muito criticado. Mas, na minha opinião, ele foi uma pessoa muito estratégica. Depois de escrever cada um de seus textos, ele os lia e fazia todas as críticas que imaginava que iria receber. E então reescrevia o texto e repetia o processo - quantas vezes fossem necessárias. Hoje... temos preguiça! Mais do que isso, muita gente acredita que é muito melhor e mais especial que as outras pessoas e é lógico que o que ele faz sempre estará bom e não precisa de melhorias! 

Mas a vida não é bem por aí. Ser o nosso próprio crítico como fazia Freud, na área que for, é um exercício muito bom. Não apenas melhora aquilo que fazemos, mas nos ajuda a encontrar nossos pontos fracos - e a superá-los! Também é muito bom poder contar com pessoas de confiança que nos critiquem com sinceridade e de forma construtiva. É bom saber que temos ao nosso lado pessoas de confiança, que são sinceras conosco aponto de dizer, visando o nosso crescimento, aquelas palavras que ninguém mais ousaria.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Mythos - Uirapuru: amor e/é liberdade

Atendendo aos pedidos da Márcia, do Eduardo e da Luana, hoje temos um mito brasileiro. Este é um mito de simbologia muito bonita, pois fala de algo raro e precioso, o canto de um pássaro mágico. O uirapuru é um pássaro da Amazônia, que canta por volta de 15 dias por ano. Dizem os povos da floresta que o canto do uirapuru é tão mágico que quando ele canta toda a floresta faz silêncio para apreciar sua música.

De acordo com os mitos dos povos indígenas da região, havia numa aldeia um cacique muito egoísta, que queria tudo para si. E havia também um guerreiro, que se apaixonou pela esposa do cacique. Ela era a mulher mais linda da tribo, e o guerreiro sabia que nunca poderia tê-la, ou mesmo falar sobre seus sentimentos. Então, buscou a ajuda de Tupã. Ao contrário do que muitos pensam, Tupã não é exatamente um deus, mas o mensageiro de Nhanderuvuçu (deus supremo da mitologia guarani, ele não tem uma forma, é a energia criadora), que se comunica através dos trovões, por isso Tupã é popularmente visto como um deus trovão (lembre-se que a Amazônia é uma região bastante chuvosa). Tupã também controla o clima, os ventos e empurra as nuvens pelo céu. Na verdade, até que os jesuítas catequizassem os povos indígenas e associassem Tupã ao deus cristão, ele representava algo como o sopro da vida. De todo modo, Tupã compreendeu as dores do guerreiro apaixonado e, para ajudá-lo a ficar perto de sua amada, o transformou num lindo pássaro, de cores vivas, como vermelho, amarelo, laranja...

Toda a aldeia ficou encantada com o pássaro, que chamaram de uirapuru, que significa "pássaro ornado" e também "pássaro que não é pássaro". O cacique também gostou muito do uirapuru, e decidiu que o teria apenas para si. Por isso, não pensou duas vezes antes de entrar na mata e ir atrás dele. Mas, acontece que o uirapuru é um pássaro que se movimenta muito depressa, e voa grandes distâncias em pouco tempo. E o cacique acabou se perdendo na mata. Quanto ao guerreiro transformado em pássaro, ele passou os dias cantando e encantando sua amada.

Os povos da floresta contam algumas tradições interessantes sobre o uirapuru. Se uma linda jovem conseguir acertá-lo com uma flecha, o pássaro se transformaria num lindo guerreiro. Mas se isso acontecer, todo cuidado é pouco para o casal, pois algum feiticeiro invejoso e perverso poderá tocar sua flauta e fazer com que o guerreiro desapareça! Segundo as tradições desses povos, quem ouvir o raro canto do uirapuru, terá muita sorte e tem direito a um pedido especial. Se um homem possuir uma pena do pássaro, terá sorte no amor e nos negócios, e se uma mulher tiver uma parte do ninho, terá quem ela mais ama sempre ao seu lado.


Questões para reflexão:

1- O guerreiro precisava de liberdade para estar próximo da mulher que amava. E Tupã deu-lhe essa liberdade ao transformá-lo num pássaro, que entre muitos povos e culturas diferentes, é associado a essa liberdade. Você se sente livre? Por que? Procure perceber em quais áreas da sua vida você é mais livre e em quais precisa de maior liberdade. Quais estratégias você poderia usar para conquistá-la?

2- O mito do uirapuru nos fala sobre algo belo e raro. O que traz beleza à sua vida? O que é mais precioso? A estética (bem diferente da beleza valorizada pela mídia) não é apenas a beleza física. Existem relacionamentos belos, situações e lembranças belas... Existem sonhos e sentimentos belos. A estética/beleza nos ensina a ter esperança, nos passa o sentimento de que há um sentido maior por trás dos acontecimentos da vida. Encontramos a estética quando conseguimos nos organizar (e a nossa vida) num todo belo e harmonioso.

3- O cacique se perdeu porque queria apenas para si algo que na verdade não era dele. O pássaro existia para ser livre, para voar por onde o coração mandasse... Você já se sentiu assim, seja como o cacique, que tenta aprisionar algo (o pássaro ou o amor) que existe para crescer livre, seja como o uirapuru, que teve sua liberdade ameaçada? Se sim, quando? Como venceu a situação? Somos verdadeiramente livres quando somos amados. Pelos outros, mas, principalmente, por nós mesmos.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Ágora - A primeira consulta no psicólogo

Oi Bia. De ficar lendo seu blog eu me animei e resolvi começar a ir no psicólogo. Marquei a consulta e to esperando chegar o dia, eu perguntei e ele me disse que trabalha com sonhos e essas coisas que você também fala. Mas fiquei com uma dúvida. É que eu vou chegar lá, não conheço o psicólogo e vou ter que contar alguma coisa, mas o que? É que eu não tenho um problemão assim eu só marquei pra me conhecer e também porque penso em fazer psicologia no futuro e já queria começar a fazer a terapia. Bom éera isso. Pode colocar na Ágora. :) beijinhos
Carol - Salvador, BA


Oi, Carol!

Que notícia boa! Você nem imagina o quanto fico satisfeita de saber que o blog está encorajando o pessoal a buscar terapia, seja para resolver alguma questão, seja pelo autoconhecimento. Principalmente se você pensa em estudar psicologia, faz muito bem em buscar psicoterapia.

Pode ficar tranquila. Alguns pacientes ficam meio ansiosos e até tímidos antes da primeira sessão, mas não tem motivo para isso. O psicólogo não vai "ficar traumatizado" com a história de ninguém. Ele está acostumado a ouvir sobre muitos tipos de situação e olhar para elas com naturalidade, buscando compreender o lado simbólico que ela traz. O psicólogo também não vai julgar ninguém. Não nos preocupamos se o que Fulano fez foi certo ou errado, ele fez o melhor que pode no momento. Também não existe aquela coisa de "será que é verdade ou o paciente inventou tudo??" que algumas pessoas pensam. Porque, creio, se o paciente me conta algo, sempre é verdade, mesmo que apenas para ele.

Mas vamos desmistificar isso, Carol! O que acontece na primeira sessão de psicoterapia? Você chega ao consultório e espera o psicólogo te chamar para a sala dele. Lá dentro pode ser como um escritório, com mesas e cadeiras. Outros preferem as poltronas confortáveis. Ou ainda, pode haver um divã para o paciente se deitar, se preferir. Muitas vezes, os pacientes marcam a sessão porque têm uma queixa ou um problema que gostariam de resolver. Nesses casos, é bem comum que alguns pacientes já entrem no consultório querendo contar o que está acontecendo com eles. No seu caso, é interessante dizer ao psicólogo que você marcou a consulta para se conhecer melhor, assim ele direciona seu processo terapêutico direitinho.

Além de conhecer o motivo que trouxe o paciente, é normal que os psicólogos façam a chamada "entrevista inicial". Essa entrevista são apenas perguntas para te conhecer melhor. Não existe um padrão, cada psicólogo pergunta e direciona a entrevista conforme aquilo que acredita ser necessário para compreender cada caso. Eu, pessoalmente, gosto de fazer um questionário bem completo, não focando apenas o problema, mas também o corpo, alimentação, hábitos diversos, sono, questões familiares e do trabalho ou escola, remédios que toma (se for o caso), histórico clínico... 

Se for necessário, o psicólogo aplicará nas sessões seguintes alguns testes, técnicas e procedimentos para investigação de conflitos emocionais, dinâmica psíquica, estrutura de personalidade... Também não há motivos para ansiedade aqui. Não existem respostas certas ou erradas, pois a personalidade é o "jeito" de cada pessoa, e isso cada um tem o seu!

Depois, com base nas informações suas que o psicólogo percebeu, com base no que você contou e nos resultados dos testes e atividades, mas também com base em detalhes como tom de voz, comportamento, linguagem não verbal, etc., o psicólogo te dará uma devolutiva (isto é, ele te diz o que percebe, traduzindo para você as informações trazidas). Então, juntos, vocês definirão um programa de ação, isto é, quais pontos precisam ser tratados ou abordados, e como vão fazer isso.

Boa sessão!
beijos,
Bia


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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A hora da virada: quebrando antigos padrões

"Nada existe de permanente, a não ser a mudança." - Heráclito de Éfeso (535 a.C. - 475 a.C.), filósofo grego pré-socrático, considerado o pai da dialética.

Muitas vezes nós conversamos aqui neste espaço sobre os nossos valores. Como diz a própria palavra, cada um encontrará os seus valores naquilo que mais valoriza, nos elementos (sentimentos, crenças/ideias, emoções, situações, relacionamentos, etc.) que são mais importantes para si. Alguns valores que muitas pessoas mencionam são o amor, a família, a sinceridade, o respeito... Algumas pessoas mencionam o trabalho, o sucesso, o casamento, os estudos, a espiritualidade, a diversão, a prosperidade financeira... enfim, cada pessoa encontrará seus próprios valores naqueles elementos que dão sentido à sua vida e direcionam suas atitudes e pensamentos. Não existe valor mais certo ou melhor, existe apenas os valores que funcionam e fazem sentido na sua vida e aqueles que te levam por caminhos que você não vê sentido em percorrer.

É fundamental, se queremos ter alguma mudança na vida, examinar com cuidado esses valores. Quais são eles? Quando fizer a sua reflexão, não tenha medo de ser sincero com você mesmo e aceite o que vier. Para mudar algo, antes de tudo precisamos reconhecer a existência daquilo que nos incomoda e acolher a dor que nos causa. Por isso, quando você se pergunta algo como "quais são os meus valores mais fortes?" ou "o que direciona minha vida?", permita que sua psique responda com liberdade e sem pressões.

Uma vez identificados os valores centrais no modo de vida da pessoa, outra reflexão deve se seguir. Quais atitudes e metas esse tipo de valor inspira? Em que momentos e situações eles mais se mostram? É muito importante identificar com muitos detalhes os comportamentos, tipos de palavras e discursos e mesmo as emoções e buscas afetivas que esses valores nos dão. Uma vez feito isso, teremos em mãos um mapa do nosso funcionamento. Se fôssemos máquinas, eu diria que essas reflexões, quando feitas com envolvimento, nos dão um bom manual de instrução do programa que estamos seguindo. Se tudo vai bem e estamos felizes, muito bom! Nada como viver uma vida que reflete de maneira clara o nosso mundo interior. Entretanto, nem sempre isso acontece. De forma geral, é esse tipo de insatisfação que nos joga de cabeça nas crises (de relacionamentos, de família, na vida profissional e mesmo as temidas "crises existenciais").

A boa notícia é que sempre podemos mudar de padrão. O foco não deve ser a mudança de comportamento, mas sim a transformação dos valores, pois os novos valores, por si só, direcionarão novas atitudes e formas de vida. Sempre que rompemos um valor que já não faz sentido para nós, é muito importante colocar outro no lugar. Por isso, pense muito bem nas trocas que gostaria de fazer. Quando apenas removemos o padrão indesejado e deixamos seu lugar vazio, a psique entende isso como uma grande perda, e passa a tentar suprir o espaço deixado... recuperando o mesmo padrão indesejado!

Por isso, antes de sair mudando, é bom pensar com cuidado no que queremos. Quais as nossas metas? Que tipo de comportamentos, atitudes e posturas gostaríamos de banir da nossa vida e quais gostaríamos de incorporar? O termo "incorporar" é a chave. Ao assumir um novo estilo de vida, partindo da transformação dos nossos valores, o novo modo que escolhemos precisa ser incorporado, ser tão "nosso" que se mostra até mesmo no corpo, nos menores detalhes. Então a mudança estará completa e estaremos prontos para uma nova vida.