sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Ágora - Melhorando a relação entre a madrasta e o enteado

Boa noite, Bia. Tudo bem com vc? Eu queria mandar uma pergunta pro seu blog. É que assim, estou namorando faz um tempo e agora estamos pensando em casar. Só que o meu namorado tem um filho que mora com ele, a mãe do menino mora em outro estado e não quer nem saber. Ele tem 7 anos e não me aceita de jeito nenhum, fala que eu não sou a mãe dele e que nunca vai gostar de mim. Eu fico mal porque gosto do menino, meu sonho era ser mãe só que não posso porque uns anos atrás perdi meu bebê e precisei tirar o útero. Quero muito me casar com ele e que a gente seja uma família, claro que não vou ser mãe verdadeira do meu enteado, ele tem mãe e eu estou feliz em ser madrasta, mas gostaria que ele pelo menos me aceite e que a gente possa ter um relacionamento legal. Estou tentando acertar mas não sei mais como. O que eu faço?
Suely - Maringá, PR


Bom dia, Suely!

É uma situação delicada. O menino é novinho e ainda não tem aquela compreensão mais racional de um garoto mais velho, do tipo "espero que meu pai seja feliz". Mas nada é impossível e acredito muito que para tudo tem jeito. 

Uma coisa interessante é antes de se casarem, vocês três fazerem atividades juntos, como uma família. Pode ser um passeio num parque da sua cidade, ou mesmo uma tarde gostosa em casa, com muitas brincadeiras. As crianças tendem a ficar um pouco arredias quando estão com medo de uma situação nova, e o pai se casar é algo novo e que trará mudanças para a vida e a rotina da criança, é normal ele precisar de um tempinho para se acostumar com a ideia. Fazer coisas juntos ajuda a criança a perceber que está segura e sempre terá o seu lugar na família, ajuda a todos a se acostumarem aos novos papeis e a criar intimidade de um jeito informal e agradável.

É normal também ele ficar enciumado e pensar que o pai está trocando o amor que sente pelo filho pelo amor da nova esposa, ou mesmo pensar que a mãe está sendo substituída pela madrasta. É muito importante que os três tenham uma conversa sincera e com muita paciência, explicando tudo direitinho para ele. Mesmo que a mãe "não queira nem saber", more longe e eles nunca se vejam, ela sempre será a mãe dele e terá um lugar especial no coraçãozinho dele. É fundamental dizer que, de fato, você não é a mãe dele, mas você gosta muito dele e do pai dele, e gostaria de fazer parte da família deles. É importante vocês dizerem também que o pai sempre vai amá-lo e que ele sempre terá o seu lugar de filho. Fiquem abertos às perguntas e dúvidas dele, respondendo com sinceridade e de um jeito que a criança entenda. Ah, e nunca, de jeito nenhum, digam coisas como "eu também não gosto de você!", a criança não sabe separar o que é dito no momento da raiva daquilo que é sincero. Reforce sempre o quanto gosta e se importa, e demonstre isso com ações, estando lá para ele nos momentos necessários, participando da vida dele.

Crianças podem ser resistentes e difíceis, mas do mesmo jeito que resistem, se apegam com facilidade às pessoas que elas percebem que se importam com elas e em quem podem confiar. Suely, você está muito consciente do seu papel e com muita vontade de se integrar a essa família, tenho certeza que com boa vontade e paciência, tudo vai entrar nos trilhos.

Felicidades para vocês!
beijos,
Bia


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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Liberdade: a prisão sem grades

"Ser-se livre não é fazermos aquilo que queremos, mas querer-se aquilo que se pode." - Jean-Paul Sartre (1905-1980), filósofo existencialista e escritor francês.

Vamos começar o artigo de hoje com um breve exercício. Gostaria que vocês listassem os desejos de liberdade. Os seus, os de conhecidos, os do povo. O funcionário que quer liberdade para desenvolver suas ideias mais criativas e originais e nem sempre tem essa permissão. O adolescente que quer a liberdade (em tantos sentidos, mas aqui quero destacar a liberdade de serem eles mesmos) que muitos pais relutam em permitir. A liberdade de ir e vir que, seja pelo medo, pela violência, por compromissos e responsabilidades ou seja qual for a situação, nem sempre é possível. A liberdade de ter os direitos civis mais básicos respeitados - e que é negada a tantos. Listou? Segure firme essa lista. Cuide bem dela. Você carrega nas mãos os sonhos e esperanças da humanidade.


Quando falamos sobre liberdade, a maioria das pessoas entende algo semelhante à possibilidade de pensar, sentir, agir e ser da maneira como escolher, sem repressões e sem controles. Claro que esta é uma definição ideal e na prática não é bem assim, temos leis, normas sociais e uma porção de elementos que cerceiam a nossa liberdade completa, e graças a isso, vivemos em sociedade. Mas vamos ficar com esse conceito mais geral, mesmo que imperfeito. Nesse sentido, se ser livre significa agir conforme os nossos próprios valores e referências, sem que outras pessoas nos ditem o que fazer, quando ou como. Assim, nenhuma outra pessoa (além de nós mesmos) é responsável pelas nossas escolhas. E aí, chegamos num ponto fundamental: não existe liberdade sem uma dose gigante de responsabilidade.

A responsabilidade é pensar de um jeito futurista, meio que "prever" o futuro. Nossa liberdade nos desperta para as escolhas. E o primeiro elemento a ter vontade de ditar alguma coisa, são os desejos e impulsos. Mas tão logo cedemos, percebemos que nossas escolhas nem sempre serão acertadas guiando-se apenas por desejos. E, se formos livres, nós é que teremos de lidar com essas consequências e dar conta delas de alguma forma. Percebemos que apenas "ter vontade" não basta, é preciso saber lidar com as conquistas e com tudo o que vier junto. Então a gente se dá conta de que muitas vezes não escolhemos aquilo que queremos fazer, e sim o que precisa ser feito e o que é esperado em determinadas situações e papéis. Não, isso não é ser falso e nem deixar de ser autêntico. Isso é ser maduro o suficiente para entender que certas coisas dependem de nós e apenas de nós, e precisam ser feitas. Começamos a criar responsabilidade conforme nos sentimos capazes de fazer escolhas e lidar bem comas consequências e resultados delas.

Mas independente das responsabilidades e de como lidamos com elas, nosso tema hoje não é este, e sim a liberdade. Lutamos tanto pela liberdade mas, mal sabemos, estamos condenados a vivê-la. Todo momento é feito de pequenas liberdades e no fundo, quem nos coloca freio somos nós mesmos. Sim, você pode largar tudo (emprego, família, cargos, etc.). Terá consequências, mas poder, pode. Temos escolhas o tempo todo e, se estamos onde estamos, foram as nossas muitas escolhas que nos guiaram pelos caminhos que traziam até aqui. Ter liberdade de escolha, até certo ponto, é maravilhoso. É muito gostoso sentir esse poder dentro de nós, o poder de criar e recriar a nossa vida, a nossa realidade e a nós mesmos como quisermos. Ter liberdade é uma delícia quando se está pronto para esse poder, quando se sabe lidar com ela de forma equilibrada, sem causar desastres aos outros ou a nós mesmos. Quando não estamos prontos (por razões como imaturidade, falta de limites, medos, inseguranças, dúvidas excessivas...), viver a liberdade é uma tormenta! Não temos ninguém que possa escolher por nós, pelo simples motivo que somos os únicos que podem agir na nossa vida. Deixar o outro tomar atitudes no nosso lugar seria, também, uma escolha: a escolha da omissão.

Como saber se estamos prontos para a liberdade? Simples. Sempre estamos prontos para alguma liberdade, de acordo com a complexidade da situação e com a maturidade que temos (o que não tem a ver apenas com a idade ou capacidade intelectual, mas principalmente com o nosso emocional). Talvez uma criança de 2 anos já possa escolher, digamos, entre brincar com um brinquedo ou outro. Uma de 5 anos talvez tenha escolhas mais práticas, como qual fruta vai levar para comer na escola ou se prefere vestir a camiseta laranja ou azul. Um jovem já pode decidir que caminhos gostaria de trilhar na vida, em suas mais diversas áreas. Alguém mais maduro e preparado para isso pode assumir responsabilidades por outras pessoas e fazer escolhas que beneficiem o todo, como é o caso dos grandes líderes. 

A questão é: como esperamos estar prontos para grandes escolhas e liberdades da noite para o dia, sem nunca ter se permitido ter as liberdades menores? Não tem muito como. Tudo na vida é um exercício, essas pequenas escolhas (como os exemplos da roupa, da fruta, dos brinquedos, entre tantos outros - do mundo infantil ou adulto) nos preparam para os próximos passos. É difícil querer estar muitos passos à frente. Cada etapa, mesmo que simples, é fundamental e não deve ser pulada. Já disseram de forma mais bela antes de mim: o caminho se faz caminhando. Para onde? Escolha. A liberdade é toda sua.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Mythos - Vasalisa: despertando a intuição e a sabedoria interior

Hoje vamos conversar sobre um tema que muita gente pergunta: o despertar da intuição e a nossa sabedoria interior. Para isso, vamos trabalhar com um conto folclórico, que cumpre uma função bem semelhante à dos mitos, falando, por metáforas e símbolos, diretamente ao nosso inconsciente. Este é um conto típico da Rússia e de outros países do Leste da Europa, e conta a história da menina Vasalisa, que passa por um rito de passagem intenso e transformador.

Vasalisa era uma menina muito amada por seus pais. Mas este não era um dia feliz. Sua mãe estava na cama, muito pálida e banhada em suor, à beira da morte. Logo antes de fechar os olhos pela última vez, a mãe chamou a menina e lhe deu uma pequena bonequinha de pano, já meio amarrotada pelo tempo. "É para você, minha filha. Se algum dia você estiver perdida ou precisar de ajuda, pergunte à boneca. Guarde-a sempre com você e nunca fale a mais ninguém sobre ela. E lembre-se de dar-lhe de comer de vez em quando. Esta é a minha bênção." Pouco depois, a mãe de Vasalisa morreu.

Após algum tempo, o pai de Vasalisa casou-se outra vez, com uma viúva que tinha duas filhas. Embora a madrasta e suas filhas fossem gentis com Vasalisa na frente do pai, havia algo, uma maldade, uma malícia que o pai não notava. De fato, quando ele não estava as três a tratavam com pouco caso, deixando sempre para ela os trabalhos mais pesados. Elas não gostavam de Vasalisa, pois a mocinha era sempre doce e gentil, além de ser muito bonita. A madrasta e suas filhas eram, mesmo entre as três, rudes e maldosas. A situação se arrastava sem nunca encontrar um fim, pois de tão doce e solícita, Vasalisa nunca demonstrava os problemas que tinha com elas. Certo dia, elas se fartaram! Combinaram de deixar que o fogo se apagasse para mandar a menina atravessar a floresta e pedir mais à Baba Yaga (uma personagem típica da região, conheça mais sobre ela clicando aqui). Na certa a Yaga iria matá-la e preparar um ótimo assado!


Naquela noite, Vasalisa encontrou a casa fria e completamente escura. A madrasta xingou a menina e disse que sem fogo não poderiam se aquecer e nem cozinhar. "Vasalisa, apenas você pode entrar na floresta e encontrar Baba Yaga. Eu já sou uma velha e não aguentaria a viagem. E minhas filhas não devem ir porque têm medo. Só você pode pedir fogo à Baba Yaga. Vá e não perca tempo!", a madrasta praticamente enxotou Vasalisa para a noite fria.

Conforme Vasalisa caminhava, a floresta parecia ficar cada vez mais escura. As sombras, os ruídos, e mesmo o frio cortante a deixavam mais e mais assustada. Cada vez que ela encontrava uma bifurcação ou encruzilhada, pegava a boneca e perguntava "este é o caminho que preciso seguir?" A boneca respondia sempre se sim ou se não, e cada vez que encontrava o caminho, Vasalisa lhe dava um pedacinho de pão, enquanto seguia a resposta que sentia que a boneca havia dado. Ela caminhou por muito tempo. A noite se transformou em dia, o sol chegou no alto do céu e se pôs outra vez. Quando a noite já estava escura novamente, Vasalisa avistou a cabana da Baba Yaga. Importante dizer, Vasalisa sabia muito bem o quão terrível era a Yaga! Ela viajava num caldeirão, remando-o com um pilão e limpando seus rastros com uma vassoura feita com os cabelos de alguém que morreu há muito tempo! A cerca da cabana era decorada com crânios humanos, as travas das portas e janelas eram feitas com dedos e a casinha ficava sobre enormes pés de galinha, podendo mudar de lugar a qualquer momento. A maçaneta da porta de entrada era o focinho de algum animal de dentes muito afiados! Vasalisa perguntou à boneca "Essa é a casa que precisamos visitar?" A boneca respondeu que sim ao modo dela e ganhou algumas migalhas de pão. Mas antes mesmo de Vasalisa se aproximar da porta, Baba Yaga apareceu flutuando em seu caldeirão enquanto gritava "o que você quer aqui?". Vasalisa contou que o fogo de sua casa se apagou e que precisavam de uma brasa. A velha questionou a rasão dela imaginar que receberia acesso ao fogo. "Porque estou pedindo", disse Vasalisa com sinceridade. Por sorte, era a resposta que Baba Yaga esperava. No entanto, ela só receberia o fogo se cumprisse algumas tarefas antes... E tinha mais! Se as tarefas não estivessem boas, além de não ganhar o fogo, Vasalisa seria morta!

Baba Yaga estava de saída e deixou Vasalisa encarregada de lavar a roupa, varrer a casa, separar os grãos de milho bons dos estragados e preparar a comida. Se não terminasse até o retorno da Yaga, Vasalisa seria o banquete! A menina se desesperou. Ela nunca daria conta de tantas tarefas! A boneca disse que era tarde e que a jornada havia sido longa e cansativa. Sugeriu que a menina dormisse um pouco, e pela manhã poderia fazer tudo melhor. Assim ela fez. Quando despertou, a boneca havia feito tudo, faltando apenas preparar a refeição. Baba Yaga voltou para casa espantada com o capricho de Vasalisa. Jantou e deu mais tarefas: lavar mais roupas, arrumar a casa, limpar o quintal e separar milhões de sementes de papoula que estavam em um grande monte de esterco. Outra vez, a menina se desesperou, mas a boneca a acalmou dizendo que tudo daria certo. Em certo momento da noite, Vasalisa adormeceu no chão da casa e, quando acordou, foi com a voz espantada da Yaga: a casa brilhava de tão limpa, as roupas já estavam secas e dobradas e o estrume separado das sementes, como que por magia! Baba Yaga questionou como ela conseguiu fazer tudo, e Vasalisa disse que foi por saber que no final tudo acaba bem. A velha comentou o quanto ela era sábia para alguém tão jovem, e Vasalisa explicou que isso era graças à bênção que ela recebeu da mãe. Nesse momento, Baba Yaga mudou. Levantou-se, levou Vasalisa para fora, pegou uma das caveiras da cerca e a colocou numa vara. O buraco dos olhos da caveira brilhavam como fogo. "Você não pode mais ficar aqui! Vá agora e não diga mais nada, este será o seu fogo!"

Vasalisa caminhou de volta pela floresta a noite toda, correndo pelos caminhos que a boneca sugeria. Ela estava um pouco assustada com a caveira e com a luz que saia de dentro dela. Pensou até em largar lá na floresta e dar um, jeito quando chegasse em casa. Mas a caveira falou com ela, para não ter medo e seguir em frente... Conforme Vasalisa se aproximava de casa, a madrasta e as filhas viam uma luz estranha vindo da floresta. Elas não tinham ideia do que era. Pensavam que a menina havia morrido de frio ou teria sido morta por animais selvagens. Quando Vasalisa estava bem perto de casa, as três saíram e foram ao seu encontro, perguntando onde esteve por todos aqueles dias e reclamando de que estavam todo aquele tempo sem fogo. Vasalisa nem sequer respondeu ou olhou para elas, continuou andando e levou a caveira para casa, onde acendeu um fogo reconfortante após a viagem. Ela se sentia muito vitoriosa por ter sobrevivido a tudo aquilo. A menina comeu e foi dormir sem dar atenção para a madrasta ou as filhas. No entanto, a caveira manteve os olhos bem vivos nas três. E as queimou de dentro para fora durante a noite. De manhã, quando Vasalisa despertou, no lugar das três havia apenas cinzas. A menina viveu em paz a vida dela.


Questões para reflexão:

1- O primeiro ponto de reflexão neste conto é a morte da mãe excessivamente boa. Na nossa vida, esse elemento não é necessariamente a nossa mãe ou alguma pessoa. Em muitos casos é uma situação cômoda, confortável, mas que não nos permite crescer. A "mãe boazinha demais" não nos permite ter sonhos e ir atrás deles, pois ela já nos supre em tudo... e mesmo que a pessoa sonhe ir além, correr atrás das metas (sejam quais forem) envolve riscos, sempre. E essa "mãe"/situação nunca nos permitiria arriscar tanto. Procure perceber quem, o que ou quais situações cumprem essa função na sua vida (se houver alguma). A morte dessa mãe boazinha demais mostra que estamos todos sozinhos e por nossa conta... e também que estamos livres para viver a nossa própria história.

2- A entrada na floresta é o mesmo que o mergulho no inconsciente. Não é nada fácil descer pelo inconsciente. Estamos sozinhos e num lugar assustador, cheio de caminhos que se cruzam e podem nos levar tanto aos maiores tesouros como aos piores perigos. Quando Vasalisa chega a algum lugar, é para enfrentar a sombra! A sombra é um lado da nossa psique que todos temos, pode ter características boas ou "ruins", é como um negativo daquilo que percebemos em nós, definindo em linhas bem gerais. A sombra de Vasalisa é a Baba Yaga: velha, experiente, com uma certa fama de crueldade que contrasta com o jeitinho doce e meigo da menina. Integrar nosso Eu e a nossa sombra não é tarefa fácil. Veja bem como pareciam impossíveis as tarefas que Vasalisa cumpriu na casa da Baba Yaga. Ela foi ajudada pela boneca, que também era um lado dela: a intuição e a sabedoria interior. Depois que perdemos a mãe boazinha demais, todos nós temos essa bonequinha, mesmo que esteja bem escondida lá no fundo... Ela é a nossa melhor guia quando estamos perdidos ou não sabemos o que fazer, já aconselhou a mãe de Vasalisa. Você tem o costume de escutá-la? Se sim, além de ouvir, coloca em prática aquilo que a intuição/sabedoria interior diz? E, muito importante: com o que você a alimenta? 

3- Baba Yaga manda Vasalisa de volta para casa quando ela menciona a benção que recebeu, pois isso significa que a menina conquistou o fogo - a centelha de vida, a chama do conhecimento mais precioso que ela poderia ter: confiar na própria intuição, aprender a ouvi-la e a guiar-se por ela. A caveira a acompanha no caminho de volta a casa (a realidade comum, ou mesmo o mundo externo a nós). Ela volta transformada, aquilo que antes era a causa de seus problemas (a madrasta e as filhas dela) já não significam nada, Vasalisa não as ouve mais e nem lhes dá atenção, não está disponível para elas. Durante a noite, a caveira as queima com seu olhar (o olhar sábio do inconsciente mais profundo, capaz de enxergar além de aparências ou daquilo que é dito/mostrado, enxerga as lacunas e o que é pensado, mas não dito. Esse é o olhar que transforma, "queima" e muda o estado dos elementos. Conquistar a sabedoria interior é ter coragem e ousadia de buscar o fogo, buscar a luz em meio a sombras até o ponto em que percebemos que, por mais escuras e assustadoras que sejam as sombras, a luz sempre estará dentro de nós e nos guaiará de volta a nós mesmos.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Ágora - Medo de morrer

Boa tarde Bia,
Li alguns artigos seus sobre morte e achei muito interessante. Mas acho que faltou falar uma coisa, que é um problema que me incomoda, que é o medo de morrer. Sempre tive esse medo e não consigo ficar tranquilo nunca porque sei que a morte pode vir a qualquer momento. Não perdi ninguem nos ultimos tempos, não tenho nenhum problema de saude mais serio (só alergia de ele e sou meio ansioso e um pouco depressivo as vezes mas ninguem morre disso). Então não entendo porque posso ter esse medo. Ao mesmo tempo sei que é um medo normal que todo mundo deve ter por isso nunca fui no psicologo mas comigo é muito forte. Como eu faço pra perder esse medo? Obrigado.
Filho de Hades - São Paulo, SP


Olá, Filho de Hades (curti o nome!),

Você está certo quando diz que é normal ter medo da morte. Em algum momento da vida, todas as pessoas vão sentir isso com um pouco mais de intensidade, quase sempre ao se deparar com a possibilidade da própria morte ou com a morte de pessoas queridas ou, ainda, em momentos chave de grandes crises e transformações em que a ameaça de não existir se faz mais concreta. A morte é a face do desconhecido que todos nós, um dia, teremos de enfrentar. Não sabemos quando, nem como, e nem podemos perguntar a alguém como é. Isso assusta.

Mas não é normal ter um medo da morte tão intenso que prejudique o fluir da vida. Não é normal, num momento em que não estamos frente a frente com a morte (nossa ou do outro), nos sentirmos paralisados perante à vida. Não é normal que esse medo chegue a um ponto em que nos sentimos ansiosos e depressivos o tempo inteiro. Claro, o medo da morte é existencial. Não é algo como o medo de altura ou de falar em público que a gente supera, é um medo que sempre será parte de quem somos. Mesmo assim, vale a pena procurar um psicólogo para falar sobre isso e aprender a lidar com esse medo de um jeito mais tranquilo.

Vejo vida e morte como parte de um mesmo todo. Sendo assim, a morte é o grande objetivo da nossa vida, o maior rito de passagem, para onde nós todos caminhamos. Assim, o medo da morte faz parte, mas quando é um medo mais intenso, ele se reflete como um medo da vida. E aí podem aparecer problemas como ansiedade, depressão, pânico, sintomas psicossomáticos, e mesmo comportamentos de esquiva frente a desafios e situações normais da vida, pois as pequenas mudanças e desafios (crescer, tornar-se independente, mudar-se, mudar de trabalho, formar uma família, começar um novo projeto...) passam a ser associadas de um jeito ruim à grande e maior mudança: a morte. Pensando nisso, psicoterapia te ajudaria muito. Somos um jogo complexo de luz e sombra. Apenas quando esses dois elementos dão as mãos é que o todo ganha harmonia e passa a ser inspirador ao invés de ameaçador.

beijos,
Bia


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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Medo de errar: sinais e superação

O maior erro da vida é ter sempre o medo de errar." - Elbert Hubbard (1858-1915), filósofo norte americano.

O tema do artigo de hoje surgiu enquanto eu assistia à competição de patinação artística nos jogos de inverno, mas é um assunto que afeta a todos nós. O medo de errar. De tentar algo novo, ou algo que a pessoa queira muito fazer... e de repente perceber que tudo deu muito errado. Este é um medo comum, que nem sempre é tão claro, mas que com frequência se mostra na vida de todos.



Alguns sinais do medo de errar:

- Insegurança em excesso, mesmo ao fazer algo que sabemos que temos capacidade.

- Deixar de tentar, mesmo quando nada temos a perder.

- Transferir o nosso receio para os outros ou para situações: o que os outros iriam dizer?; Antes de fazer X preciso que Fulano mude tal coisa; quero ir, mas antes queria que as coisas se resolvessem em casa...

- Criar os nossos próprios problemas e empecilhos, que quase nunca são reais: tenho depressão, por isso não posso retomar os estudos (óbvio, não falo de casos reais de depressão grave, mas de pessoas que se auto intitulam depressivas sem terem esse diagnóstico, apenas devido a uma tristeza ocasional), não posso mudar de área de atuação profissional porque não seria seguro; não devo ir à festa e me acabar porque já não tenho idade para isso; não posso praticar tal esporte porque minha coordenação não é das melhores...

- Perfeccionismo. Normal querer fazer algo bem feito, mas não somos perfeitos, somos seres humanos e temos nossas falhas, cometemos erros. Deixar de fazer algo porque não sairia "perfeito" deixa de ser um cuidado para se mostrar um grande medo de errar, isso sim.

- Ou, ao contrário, a pessoa se acha tão incapaz que nem sequer acredita que pode fazer algo satisfatório, mesmo quando se trata apenas de diversão e os resultados não importam tanto.

- Algumas vezes a pessoa até tenta, mas o medo de errar (ou de lidar com o sucesso?) assusta e ela mesma acaba se sabotando.


Superando o medo de errar:

Ninguém é perfeito. O primeiro passo para superar ou lidar melhor com o medo de errar é compreender isso. É preciso aceitar que somos passíveis de erros e falhas, portanto, tanto faz o que a gente pretende fazer, a ameaça do erro e o medo de que esses erros se concretizem sempre estará presente, num grau maior ou menor. 

É preciso saber lidar com a frustração, em tudo o que fazemos. Seja a frustração de um grande projeto que deu erado, seja a frustração de ouvir um não ou apenas um contratempo. Hoje em dia muitas famílias não ensinam isso a suas crianças e, ao não saber lidar com a frustração, a pessoa tende a não ter limites e/ou se tornar uma pessoa extremamente insegura. É possível aprender a lidar melhor com as frustrações (o que diminui, entre outros elementos, o medo de errar), através da psicoterapia, conforme a pessoa consegue construir novos sentidos para as frustrações, medos, desafios e vitórias.

Outro ponto fundamental: dar tempo ao medo. O medo existe como forma de proteção. Dê um tempo para o medo existir e então vá lá e faça! O medo não deve ser reprimido, deve ser reconhecido e olhado com respeito. Apenas assim o medo também respeitará o nosso tempo de tentar e o tempo de vencer.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Mythos - O Dagda: harmonizando os opostos

Esta semana temos um mito celta, do deus O Dagda, conhecido entre os celtas como “o deus bom” ou “o poderoso da grande sabedoria”. Na história mítica da Irlanda, terra de grande influência celta, conta-se que em tempos antigos diversos povos mágicos invadiram o lugar e influenciavam a cultura com seus conhecimentos e sua magia. O último desses povos foi o chamado Tuatha De Danann. O Dagda era o maior deus dos Tuatha.

Placa de uma das faces do caldeirão Gundestrup, peça encontrada no fim do século XIX, datada do período entre 200 a.C. e 300 d.C.

O Dagda é conhecido como bom por ter habilidades muito diversificada, indo das artes da guerra à música. Ele controla o clima e as colheitas, tem um caldeirão mágico que se enche com leite ou com carne para alimentar o povo. Tem ainda um pomar com árvores sempre cobertas de frutas doces que não conheciam o inverno, e dois porcos que ressurgiam após cada abate.

No entanto, entre muitos dons, pertences e habilidades, gostaria de destacar a clava com a qual O Dagda se mostrava em seu aspecto guerreiro. Não era uma clava comum! Era uma clava mágica, que mostrava a força e poder deste deus: uma das pontas matava os inimigos com um só golpe... enquanto a outra ponta tinha o poder de trazer os mortos de volta à vida!


Questões para reflexão:

1- O que, quem ou quais habilidades suas mais suprem as suas necessidades de conforto e segurança emocional? Um caldeirão que sempre se enche de alimentos nutritivos e saborosos, um pomar que sempre tem frutos maduros, controle sobre o clima e as colheitas... Hoje muita gente busca suprir as necessidades de conforto (que antes eram supridas de forma simbólica nos dons de um deus) através do consumo ou das novas tecnologias (como sistemas de aquecimento ou resfriamento de ambientes, estufas que garantem alimentos e a beleza das flores o ano todo ou mesmo os congeladores domésticos, que permitem a qualquer pessoa saborear seu prato preferido fora da época). O problema é que a nossa necessidade de segurança não é apenas física, é psicológica, emocional e simbólica. Muitas vezes, conforme repetimos nos relacionamentos a lógica de consumo e descarte, essas necessidades são negligenciada (por nós mesmos). Por isso, repito a pergunta: o que/quem/quais habilidades suas garantem o seu conforto e segurança, num sentido simbólico?


2- Quais opostos você percebe em si ou na sua vida? Como você lida com eles? Existe algum tipo de conflito ou negação? A clava de O Dagda tanto pode matar quanto devolver a vida. Existem diversas formas de lidar com os opostos que existem em cada um de nós. Uma dessas formas é o conflito, com tendência a um lado ou ao outro. Outra forma, pode ser a confusão, quando a pessoa se nega a perceber (ou a admitir que percebeu) que existem opostos em si/em sua vida e que precisará fazer algo a esse respeito. Algo típico dessa postura é negar um dos lados e supervalorizar o outro. Uma terceira forma possível de lidar com os opostos (e uma forma mais saudável e equilibrada) seria integrá-los. Sim, é difícil e exige muita determinação e maturidade. Mas vale o esforço! Quando nossos opostos estão integrados, deixam de ser, por exemplo, raiva e tranquilidade, ou insegurança e autoconfiança, ou o que for. Eles se unem de forma harmoniosa e se transformam, dando origem a um terceiro elemento que, mutas vezes, é a chave que tanto procurávamos.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Ágora - O início da vida escolar: ideias para crianças e famílias

Oi Bia, meu filho tem 6 anos e vai pra escola pela primeira vez, eu estou um pouco nervosa, é uma transição bem complicada pra mim porque eu sou muito apegada a ele e ele nunca frequentou escolinha nem creche. O meu bebê cresceu, e agora?? Como lidar com tudo isso?? Penso se ele vai se adaptar bem na escola ou se vai ser difícil pra ele tambem. Obrigado pela atenção. Se achar interessante pode postar na sua página, mas sem meu nome, por favor. É difícil admitir que se tem uma "aflição" por algo tão simples e comum. Só estou falando isso com vc.
Anônima


Olá, Anônima!

Agradeço muito pela confiança. Preciso começar dizendo que não há nada de errado em se sentir aflita quando a criança vai iniciar a vida escolar, não importa se aos 6 anos, aos 3 anos ou com poucos meses de vida. As famílias nem sempre admitem, mas quase sempre se preocupam, e não a toa. Na maioria dos casos, o início da vida escolar (seja no Ensino Fundamental, escolinha ou creche) é a primeira grande separação entre a mãe e a criança desde o momento do parto. É bem diferente daqueles momentos em que a família deixa a criança uma tarde na casa da avó, de uma tia ou vizinha de confiança enquanto os pais têm algum compromisso, pois a escola não será algo de ocasião, será todos os dias, por toda a infância e adolescência do filho.

Momentos de passagem sempre nos deixam apreensivos, pois nos obrigam a encarar o novo, o desconhecido. Dó deixar o conhecido para trás, mesmo quando o novo parece legal. Dói deixar de ser mãe de um menininho pequeno e passar a ser mãe de uma criança maiorzinha, não temos ideia de como isso será, de como será o nosso novo papel, de como a criança vai encarar tudo. Frente a esses momentos de passagem, os povos mais antigos davam conta da insegurança que surge preenchendo os momentos de transição com ritos de passagem. E isso não é coisa de gente primitiva, longe disso! Olhando com cuidado, nossa vida é cheia de momentos de passagem, e o início da vida escolar é um deles. É preciso permitir que a "mãe do bebê" e a "criança pequena" fiquem para trás para que a "mãe da criança mais velha" e o "garotinho que frequenta a escola" possam assumir daqui em diante. Não permitir essa mudança e se apegar aos antigos papeis é o que causa boa parte dos conflitos emocionais, familiares e mesmo escolares/de aprendizagem. Por isso, separei algumas sugestões para adultos e crianças passarem por esse momento de forma mais tranquila.

- O ideal é conversar com a criança com certa antecedência. Contar que ele está mais crescidinho e que logo começará a frequentar a escola. Contar que escola é um lugar onde todas as crianças vão para aprender coisas novas, fazer amigos, para ter um futuro digno.

- Cuidado com o que fala! A criança pequena conhece o mundo através do olhar e das palavras dos adultos. Por isso, é importante que as famílias evitem dizer coisas como "escola é chato, mas tem que ir e acabou! Fazer o que?" Dizer coisas assim já bloqueia o interesse da criança pela escola e pelos estudos, antes mesmo deles começarem! Por que fazer a criança se sentir castigada quando podemos fazê-la se sentir premiada? Escola é legal sim. Pode ser legal se a gente der esse olhar, e num primeiro momento isso depende mais de nós, adultos, do que da criança.

- Se for possível, o ideal é levar a criança para conhecer a escola antes das aulas começarem. Se possível, agende um horário próximo da hora do recreio, quando a criança poderá ver os futuros coleguinhas brincando e fazendo coisas divertidas, o que lhe dará uma primeira impressão agradável.

- Envolvam-se! Façam os preparativos! Vão juntos escolher a mochila e organizar o material escolar. Comente como aqueles materiais parecem interessantes e como ele vai ficar mais esperto ao escrever naqueles cadernos, pintar com os lápis de cor e ler aqueles livros! Ajuda a criança a se preparar, e também a família a compreender (emocionalmente) a passagem.

- Acompanhe-o até o portão no primeiro dia. Dê um abraço apertado e um beijo, deseje boa sorte e diga a ele para se divertir bastante. Aprender é diversão. Mas atenção, adultos! É normal ficar preocupado, mas não demonstre isso! A criança percebe e tende a ficar preocupada e ansiosa também. Procure dizer algo descontraído, que quebre o gelo da situação e de que ele se lembrara, como "entra e arrasa", ou algo assim.

-Famílias: não chorem. Algumas vezes é a criança que consola os pais no portão da escola. Tentem não deixar isso acontecer na frente da criança. Esteja lá para ele e assuma a postura de que a nova situação é algo fantástico e que vocês estão super animados!

- Algumas crianças choram no primeiro dia, principalmente as mais novinhas. Uma coisa que ajuda a prevenir isso é dizer (antes deste momento, por favor...) em diversas ocasiões como será o dia a dia na escola: ele chega, diz tchau pra mamãe e entra sozinho, brinca com os coleguinhas, vai para a sala de aula, aprende coisas novas, vai para o recreio tomar um lanchinho e brincar mais um pouco, volta para a sala de aula e logo a mamãe volta para buscá-lo e ir para casa. A mamãe sempre volta no final do dia/na hora do almoço (marque o tempo com algo que a criança entende, evitando termos como o horário ou a hora da saída, que ela ainda não sabe ao certo quando é). Se mesmo assim ele chorar, acolha e acalme-o um pouco. Contar que toda criança vai para a escola e que, quando os pais eram da idade dele também iam, ajuda. Mesmo que demore, ir para casa e tentar outro dia não é uma opção. Escola não é uma escolha: toda criança vai.

- Para a família: especialmente no caso de pais que passavam o dia todo com a criança até então, é interessante pensar em algo para suprir as horas que passarão sem os pequenos. Alguns pais se empolgam tanto que resolvem voltar a estudar também, tentar um novo curso... Outros arrumam um horário mais sossegado para colocar as leituras em dia, fazer caminhada ou ginástica, meditar... O início da vida escolar do seu filho é uma coisa muito boa. Por isso, também os adultos, foquem em algo bom, em algo de positivo que o novo ciclo lhes trará.

- Adultos, sejam participativos! A criança entrar para a escola não significa que o papel dos pais termina aí... longe disso! Sejam pais presentes e companheiros. Mostrem interesse em saber como foi o dia na escola, o que ele gosta mais ou gosta menos, se tem amiguinhos, se tem alguma dificuldade. Encoraje-o a perguntar sempre que tiver dúvidas, a fazer as tarefas, a ir além... A educação não pode se limitar a escola. Frequentem museus e bibliotecas ou livrarias, deem o exemplo lendo e estudando também. Lembrando que ser uma família participativa não é fazer as tarefas no lugar da criança, e sim permitir que ela cresça e se desenvolva, estando lá sempre que precisarem, e ao mesmo tempo permitindo que se organizem e aprendam a gerenciar as próprias rotinas desde bem cedo.

- Marquem a passagem. Não deixe um momento tão especial na vida da criança e da família passar em branco. Pode ser algo como convidar a família toda para almoçar em casa no domingo depois da primeira semana de aula, para que a criança conte a todos como está sendo essa nova etapa e para que se sinta querida e acolhida... ou pode ser algo simples, como ir tomar um sorvete e brincar no parquinho depois do primeiro dia, ou ao fim da primeira semana.

Ótimo início de ano letivo para todos!
beijos
Bia


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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Corpo, ato e aceitação - você se sente em casa?

"Não imites ninguém. Que a tua produção seja como um novo fenômeno da natureza." - Leonardo da Vinci (1452-1519), artista, estudioso e cientista italiano.

Algumas pessoas não se sentem em casa. Nem entre amigos. Nem no local de trabalho ou estudo. Nem entre a família. Nem na própria casa. Não conseguem perceber dentro de si mesmas aquele sentimento gostoso de aconchego, de poder se mostrar como se é e sem esconder nem um lado seu, de poder baixar a guarda e relaxar um pouco. Normalmente, pessoas assim carregam uma grande ansiedade, que nem sempre é consciente. Uma ansiedade que vem quando a pessoa percebe sua existência ameaçada, de forma concreta ou simbólica. É o tipo de emoção comum em pessoas que já sofreram violências, abusos, abandonos, perdas, negligências, que presenciaram os horrores de uma guerra ou situação semelhante de violência extrema, seja essa violência física, psicológica, sexual, emocional...

Quando pensamos em "sentir-se em casa", não é sobre lugar físico que estamos falando. Tanto faz se a casa é grande ou pequena, se fica na cidade ou no campo, se é simples ou muito sofisticada. O lugar do qual falamos e que nos faz sentir em casa não é um lugar físico, e sim a posição emocional que ocupamos. Algumas pessoas ocupam repetidas vezes o papel de vítima, de estrangeiro, de pessoa de fora, do diferente que não é aceito. E aí não se sente em casa. Outras pessoas ainda, até são aceitas, mas não se sentem bem-vindas e acolhidas, pois elas mesmas não se aceitam. E essa situação que se passa nas nossas emoções, no nosso mundo interior, se reflete no mundo exterior. Uma das formas de se refletir é o sentimento de não ser bem-vindo, de não se sentir aceito e integrado aos demais, de nunca se sentir em casa, como disse uma pessoa conhecida.



Vamos explorar a dimensão que falta para compreender esse tipo de situação. Pensamos no mundo interior e no exterior, mas ainda não examinamos a fronteira: nosso corpo. Você se sente em casa no seu corpo? É interessante notar que boa parte das pessoas que têm queixas sobre não serem aceitas ou não se sentirem em casa em nenhum lugar/grupo, quase sempre têm queixas sobre o corpo. Essas queixas podem ser sintomas, insatisfação com a aparência, ou mesmo algo um pouco mais sutil, como não saber lidar com o próprio corpo (o que se percebe em elementos como postura corporal, ritmo dos movimentos, sexualidade, e vários outros). Antes de pensar na aceitação, no sentimento de ser bem-vindo e de estar em casa, no grupo e nas relações, é preciso pensar o corpo. É preciso observar quais ideias, emoções, lembranças e valores estão descritos no corpo da pessoa e em como ela vive esses elementos.

O corpo é muito mais importante do que se pensa, mesmo quando falamos sobre temas "do mundo interior", como aspectos psicológicos e emocionais, espiritualidade ou valores. O corpo é a primeira tela onde o inconsciente pode projetar-se, para nós mesmos e para o outro, basta que se saiba ler os corpos. O corpo é a fronteira entre o Eu e o não-Eu, e sendo um limiar, um espaço de divisa, ele é altamente influenciado tanto pelo mundo interno quanto pelo externo. Aliás não basta pensar o corpo real. É fundamental pensar também sobre a visão que a pessoa tem do corpo - e que em boa parte dos casos, é muito diferente do corpo real. Certa vez, fazendo um trabalho corporal durante uma sessão de psicoterapia com uma criança de 8 anos, a menina foi precisa quando olhou para o molde de papel em tamanho real de si mesma e disse "não sou eu, minha mãe diz que sou uma bebezinha, como posso ser tão grande?" Apenas quando me encostei ao molde, mostrando que eu era mais alta e portanto o molde não era meu, foi que a criança se convenceu de que o corpo real era bem diferente do corpo imaginado. Isso acontece (talvez não de forma tão clara e dramática) com a maioria das pessoas. Em geral elas se descrevem de maneira bem diferente do que outras pessoas as descreveriam, muitas vezes ressaltando pontos "negativos" que os outros não notam ou ainda notam como "positivo". E, muitas vezes, em especial nos casos de pessoas com conflitos maiores, a descrição do outro é mais "gentil" do que a dela mesma. Por que?

Sentir-se em casa, sentir-se sendo parte (do grupo, da família, etc.) não é tarefa simples. Envolve sentir-se parte de si mesmo, sentir-se em casa no próprio corpo e sentir-se bem vindo na vida, ocupando o espaço existencial que nós - e apenas nós mesmos! - podemos ocupar. O outro é só um coadjuvante. Não o deixe roubar a cena.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Mythos - Hera: recuperando o poder sobre si mesmo

Hera é a rainha dos deuses entre os gregos. Por isso, vamos aproveitar o gancho do mito desta semana para conversar sobre poder. Não o poder sobre o mundo que ela desfrutava sendo rainha e esposa de Zeus. E sim o poder que toda pessoa tem sobre si mesma. Para conversar sobre isso, não vamos estudar um dos muitos mitos de Hera, e sim a história dessa deusa, que acho bem interessante.

Entre os gregos, Hera é considerada a deusa do casamento. É uma deusa ligada às mulheres, não no âmbito da fertilidade ou maternidade, mas na mulher perante o mundo, perante a política e as lideranças (sejam elas quais forem). O próprio nome Hera significa "grande senhora" ou "nossa senhora", o que indica que este não era o nome da deusa, e sim um de seus títulos (numa época anterior à hegemonia grega). Quando os gregos a englobaram em seu panteão, Hera deixa de ser a senhora que costumava ser. Entre os povos pré-helênicos do sul, Hera era uma deusa tão forte e poderosa que governava sem a interferência de um homem. Ela não precisava de um. 

Mas, junto com os invasores do norte, havia um marido a caminho reservado para Hera: o poderoso Zeus, com seus raios, temperamento de líder e um certo ar de superioridade... Muitas vezes, quando analisamos a história das religiões (e para os povos antigos, seus mitos eram sua religião, que inspirava um sistema complexo de rituais e cultos), é possível notar que os casamentos entre deuses muitas vezes são fruto de alianças ou dominações entre povos. Quase sempre, no mundo patriarcal, o deus do povo dominador casa com uma deusa do povo dominado.

E assim Hera deixou de ser a grande senhora, digna, independente e soberana... para se tornar a esposa ciumenta e intrometida de Zeus! Apesar de ser a deusa do casamento, ela é constantemente traída pelo marido, e está sempre armando emboscadas para as amantes e os filhos que Zeus têm com elas. O ponto é: Hera (não vista como apenas grega, mas a Hera pré-helênica) nunca quis se casar. A revolta dela não seria por algo tão simples como uma traição conjugal, mas por algo muito mais complexo: a perda do poder que ela tinha sobre si mesma - e que as traições do marido colocam em evidência todas as vezes que Zeus a "descarta" como se ela não valesse o ar que respira.


Questões para reflexão:

1- Reúna algumas fotos suas, de vários momentos e fases da sua vida. Tenha papel e lápis em mãos. Enquanto olha com atenção as fotos, escreva uma lista com tudo aquilo que vem à mente sobre você mesmo. Tanto coisas boas como ruins, aspectos físicos, emocionais, de personalidade... Preste atenção no tipo de palavra que você usa para se descrever e para falar de si mesmo.

2- Hera foi senhora absoluta de seu povo antes de ser agregada ao panteão grego e se tornar irmã/esposa de Zeus. Se você pudesse ser qualquer coisa que desejasse, sem limites, sem obstáculos, o que você escolheria ser? O que te impede?

3- Nos mitos, Hera costuma transformar suas frustrações (por não poder dar um jeito nas traições do marido, por ter menos voz ativa no Olimpo do que gostaria, etc.) não em mágoa, e sim em revolta. Aquele tipo de revolta boa, que a impulsiona a ter um potencial de ação. E você, em que transforma suas frustrações? 

4- Você já foi desestimulado a ir atrás do que quer? Por quais pessoas? Como você reagiu? As pessoas que te desencorajavam tinham razão por ver a baixa viabilidade dos seus planos ou não? Para recuperar o poder sobre a gente mesmo, é fundamental aprender a dizer "sim" aos nossos sonhos... Mas é tão importante quanto isso saber dizer "não" para aquilo que os outros pensam que seria melhor para nós (e que nem sempre seria o mais viável ou o que nos faria sorrir), e mesmo dizer "não" para nós mesmos algumas vezes. Hera ensina aquilo que aprendeu a duras penas: sonhar é lindo, os sonhos são as bases do mundo real... mas nenhum sonho será real enquanto a gente não colocar os pés no chão e iniciar a caminhada.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Ágora - Quando a criança deve ir para a escola?

Bia, tenho uma pergunta sobre colocar a criança na escola. Eu tenho 63 anos e tenho a guarda do meu netinho Felipe que fez 2 anos, o aniversário dele foi agora em janeiro. Será que já é hora de colocar ele na escolinha? Quando meus filhos eram da idade do Felipe, só ficava na escolinha as crianças que a mãe não podia olhar e que não tinha ninguém pra deixar enquanto trabalhava, ou falavam que era coisa de mulher folgada que não queria cuidar dos filhos. E também queria saber como ver se a escola é boa. Obrigado.
Maria Aparecida - Minas Gerais


Olá, Maria Aparecida!

É verdade, em outros tempos as crianças entravam na escola mais tarde do que hoje. Muitas famílias não dão importância à pré-escola, pois a escola obrigatória só começa no primeiro ano do Ensino Fundamental (que hoje em dia começa no ano em que a criança completa 6 anos de idade, e não 7). A ideia das "escolinhas" não é que a criança estude, como no ensino regular, mas principalmente que ela conviva com outras crianças, faça amiguinhos, aprenda a dividir, a esperar sua vez e, ao mesmo tempo, desenvolva elementos como a percepção, a coordenação motora, etc. A ideia também não é ser um lugar em que a criança fica porque ninguém em casa tem tempo ou vontade de tomar conta, e sim um lugar que a criança frequenta para se desenvolver de forma mais equilibrada.

Anos atrás, não era tão comum ir a um lugar que não a casa para isso. As famílias eram maiores, os vizinhos conviviam mais, e assim a criança já convivia com outras crianças no próprio lugar onde morava. Além disso, as brincadeiras de antes ajudavam mais no desenvolvimento de algumas funções, eram brincadeiras de mais movimento e em que as crianças interagiam mais, implicavam em tentar e conseguir, persistir, gastar energia... Claro que hoje em dia ainda existe isso, mas com menos intensidade. Hoje, muitas crianças não sabem brincar, e isso é muito triste. Muitas passam grande parte do dia apenas assistindo TV, muitas vezes programas que nem mesmo são voltados para crianças. Boa parte não pode brincar do lado de fora, seja por viver em ruas muito movimentadas e não ter um quintal, uma área externa ou mesmo uma pracinha próxima, seja por conta da violência, e até mesmo porque algumas famílias acham algo tão importante para o desenvolvimento como o brincar, algo transtornoso, é bem normal ouvir famílias se queixarem de que a criança vai se sujar, vai cair, vai sujar a casa... e para evitar transtornos, evitam também uma vida normal e saudável. É triste crescer apenas assistindo a vida, e não vivendo-a. Quando crescer mais, que referências/lembranças terá para dar confiança frente aos novos desafios?

Sobre quando colocar a criança na escolinha, o mais importante é ter bom senso. Cada criança tem seu tempo e as suas necessidades. Eu, pessoalmente, não acho legal colocar uma criança novinha, de poucos meses na escolinha, a não ser que não tenha jeito. Mas, de novo, não existe uma regra, essa é uma postura pessoal minha. Acho legal que já saiba andar e falar um pouco, pelo menos, antes de ir para a escola, se a família tem a possibilidade de esperar.

Outra coisa, crianças em fase pré-escolar não são pequenos executivos! Portanto, não é necessário (e nem saudável) ocupar o dia todo. Meio período na escola basta. Ela terá tempo, quando mais crescida, para fazer natação, inglês, judô, piano ou o que for. Por enquanto, a prioridade é brincar. Faz bem conviver com outras crianças, mas também é necessário ter um tempo sem tarefas, sem obrigações ou tanta rigidez, em casa, com a família, com os brinquedos dele, ter tempo de ficar mais a vontade, de ser criança.

Para escolher, vá conhecer várias escolas. Toda escola é boa quando a família educa e faz a sua parte. Não fique sem graça de perguntar como é o dia a dia das crianças, que tipo de atividades fazem, caso ele vá comer lá, se o que é oferecido é nutritivo e balanceado, se podem comer sozinhos... Observe se a escola tem área ao ar livre (e se as crianças brincam lá todos os dias, se tem um espaço adequado para correrem e tomarem um pouquinho de sol...), veja como são as salas e outras instalações, se são seguras e adaptadas para o tamanho dos pequenos (cadeiras e pias mais baixinhas, lugar adequado para um soninho...), com que tipo de brinquedos elas brincam, qual a formação das professoras, quem /quantos supervisionam as brincadeiras...

Quando escolher uma escola, leve o Felipe para conhecer e veja se ele também gosta. Não deixe de conversar com o menino com antecedência, dizendo que vão procurar uma escola, que lá ele poderá conhecer novos amigos para brincar e que passará um tempinho lá todos os dias, mas que a vovó sempre voltará para buscá-lo. Faça desse momento algo gostoso para vocês dois, não uma obrigação a ser cumprida, mas um momento especial: agora o Felipe é um menino maiorzinho que já pode ir à escola!

Nesse primeiro momento da educação da criança, o que mais conta não é ter mil atividades sentadinho na sala de aula ou levar para casa no final do ano uma pasta bem recheada de lições. Vale mais o sorriso, a camisetinha suja de areia do parquinho no final da tarde, as brincadeiras com os amiguinhos, a possibilidade de ter algum contato com a natureza, aprender a respeitar o outro e a ele mesmo, explorar e aprender a ser quem ele realmente é. O resto vem com o tempo e com os desafios das próximas fases da vida. E para superar bem as próximas fases, é importante passar bem por esta. Por enquanto, ao pensar na pré-escola, basta ser criança.

beijos para você e para o Felipe!
Bia


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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Planejamento estratégico: tempo, ritmo e melodia

"Me busco em músicas que dão ritmo ao que sinto de forma silenciosa." - Martha Medeiros (1961), escritora brasileira contemporânea.

O nosso cérebro dança uma sinfonia complexa. Nosso equilíbrio físico e emocional é mantido com um balanço delicado das estruturas nervosas, glândulas e substâncias como hormônios e neurotransmissores. Tudo isso combinado com o nosso dia a dia, estilo de vida, enfim, com a realidade externa em que vivemos. Comecei com essas informações para falar sobre o ritmo e, com ele, sobre uma das funções neuropsicológicas que muito influencia a nossa vida, chamada "planejamento da ação". Vamos começar abordando esse lado mais neuropsicológico, ligado ao planejamento de movimentos para, a seguir, expandir as ideias para o planejamento estratégico na nossa vida, conforme o ritmo em que vivemos.

Ter ritmo não está apenas ligado à dança,
 mas também à melodia/harmonia dos nossos movimentos
e ao ritmo com que escolhemos viver a nossa vida
Nossos movimentos têm uma musicalidade. Pense num atleta, talvez um jogador de futebol, já que estamos em ano de copa do mundo. Seus movimentos são rítmicos, existe uma harmonia nos movimentos, uma certa leveza e agilidade, é quase uma dança. Com todas as pessoas os movimentos funcionam assim. Não apenas em esportes e danças, mas nos movimentos do dia a dia: na cozinha, caminhando até o metrô, ao digitar um texto, tomar banho, ou qualquer outra atividade diária. Aliás, nem sempre! Os movimentos só têm ritmo quando são tácitos, isto é, quando são tão conhecidos para nós, que os fazemos sem precisar pensar, no "piloto automático". Como quando caminhamos, não precisamos pensar "perna direita... e agora a esquerda", apenas vamos. Diferente de alguém que está começando, digamos, a aprender a dirigir, e precisa pensar quando mudar a marcha do carro, em que tempo pisar ou tirar o pé do freio para evitar solavancos, etc. Para que algo se torne tácito, é preciso que a gente pratique e repita muitas vezes ao longo do tempo. Assim, o ritmo e a musicalidade não se referem apenas à musica em si e à dança, mas à fluidez e harmonia dos nossos movimentos, em especial os voluntários: aqueles que "escolhemos" realizar, como caminhar, saltar, escrever, dançar... diferente dos involuntários, como as batidas do coração.

Mas o que isso pode ter a ver com o planejamento das atividades do nosso dia a dia? Muito mais do que parece. Para o nosso cérebro, a atividade principal em questão é a mesma: tanto faz planejar os movimentos de uma jogada bonita, um projeto profissional ou uma festa para o final de semana. Claro, algumas das áreas cerebrais e funções envolvidas mudam (a racionalidade, a área motora, as áreas responsáveis por emoções, entre muitas outras, são ativadas conforme o tipo de atividade), mas o que quero dizer é que planejar sempre é planejar.

Quando somos capazes de planejar algo, usamos habilidades como a percepção do todo, percepção de detalhes e "previsão", ou melhor, imaginação de todas as possibilidades que podem se desenrolar a partir do panorama percebido no presente, assim como a partir de lembranças de situações semelhantes que já aconteceram no passado (nossas referências). Por exemplo, se estamos dirigindo um carro e vemos uma bola quicar atravessando a rua, paramos quase que por instinto. Mas não foi um instinto. Muito rapidamente, o nosso cérebro se lembra de alguma situação passada, vivida ou não por nós, em que, digamos, logo depois da bola passou um garotinho correndo. A área racional do cérebro nos dirá que crianças pouco medem as consequências, em especial quando estão entretidos com algo que gostam, como jogos com bola. "Prevemos" que após a bola, é grande a chance de alguém atravessar a rua distraído, e então a área motora, rapidamente enviará um impulso ao pé para que pise no freio. Paramos a tempo de ver um menininho correr pela rua atrás da bola, provavelmente sem ter percebido o risco que correu. 

Esse vislumbre de várias probabilidades é a chave do planejamento estratégico. A pessoa levanta possibilidades de ação para cada forma como a situação poderia vir a se desenrolar. Claro, o planejamento não pode jogar com o acaso. Estratégia e acaso não combinam! É preciso que exista alguma meta, algo a ser buscado que oriente nossos passos, que dê um sentido maior ao planejamento. Em termos musicais, qual música você dança. Qual será o ritmo, como serão os movimentos. É preciso respeitar o tempo de cada ação e é preciso que as ações tenham melodia para que fluam de maneira harmoniosa.

Existe ainda, se pudermos expandir um pouco essas ideias e conceitos, o ritmo que escolhemos para viver em nossa vida. Ritmo de vida implica em ações e estratégias, mas, especialmente, implica em musicalidade e na forma como escolhemos lidar com o nosso tempo. É importante perceber o nosso ritmo. Não para correr atrás do ritmo que o mundo de hoje nos impõe, e sim para saber qual é o ritmo com o qual nos sentimos confortáveis. Certa vez, durante meu mestrado, conversei com um peregrino que me contou que, no início do Caminho de Santiago de Compostela, na divisa entre França e Espanha, ele ouviu que os brasileiros tinham fama se serem lentos ao caminhar e resolveu provar que estavam errados. Resultado: teve uma tendinite que o obrigou a ficar mais de uma semana parado e, depois disso, caminhar respeitando o próprio ritmo. Não adianta querer viver no ritmo dos outros. Algumas pessoas, mesmo que mais lentas, são mais produtivas do que aquelas mais aceleradas. Conheça o seu ritmo não para se adaptar ao que os outros pensam que você deveria ser, e sim para saber adaptar o seu dia a dia ao seu ritmo. Muitas vezes, sou uma pessoa lenta, levo mais tempo do que se espera para escrever ou ler algo, por exemplo, porque percebo que rendo melhor assim, permitindo tempos para dispersar e imaginar com calma. E, acredite, sempre que me obriguei a manter a atenção total e não dispersar, os resultados não me agradaram. Claro, sabendo disso, quando as tarefas têm prazo, sei que terei menos contratempos começando com antecedência. Foi a estratégia de planejamento de ação que desenvolvi para mim. Respeite seu ritmo, seja gentil com você. Saiba como é a melodia que você dança e permita-se ouvi-la e apreciá-la. Você pode se surpreender muito com os resultados.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Mythos - Marwe: a inveja que os outros têm de nós

Hoje vamos trabalhar com um mito africano, da região do Quênia. Vamos aproveitar para discutir sobre como lidamos quando os outros se sentem com inveja de nós por coisas ou situações que conquistamos com o nosso próprio esforço. O mito conta a história de Marwe, que não era uma deusa ou outro tipo de criatura mitológica, e sim uma pessoa comum, uma garota humana e mortal, com suas qualidades e falhas como todos nós.

Marwe era uma jovem que vivia com seus pais e seu irmão numa pequena aldeia africana. As pessoas na aldeia viviam do plantio e colheita, mas precisavam ter cuidado, pois alguns animais costumavam invadir as lavouras em busca de alimentos. Por isso, Marwe e o irmão eram responsáveis por tomar conta da plantação de feijões da família, regando, arrancando as ervas daninhas e impedindo que os macacos comessem os feijões.  Mas aquela tarde estava escaldante! O sol da África estava impiedoso naquele dia, e os irmãos se sentiam cansados e com muita sede por causa do calor. Eles acharam que não teria problema se fossem até o lago beber um pouco de água. Quando tocaram a água cristalina e fresca, foi como renascer! Não resistiram e acabaram mergulhando no lago, nadaram e brincaram para amenizar o calor. Foi tão refrescante e divertido, que eles se esqueceram por completo da plantação... Quando voltaram ao campo, surpresa! Os macacos haviam comido todos os feijões! Todos! Não sobrou um sequer para contar a história! Marwe teve tanto medo da fúria dos pais que voltou ao lago e se afogou. O irmão, desesperado, voltou para casa para contar as terríveis notícias. Os pais ficaram tão arrasados pela perda da filha que até se esqueceram das perdas no campo de feijões, que se tornou algo pequeno e sem importância.

Entretanto, ninguém sabia do que se passava com Marwe, pois os vivos dificilmente entendem o que acontece aos mortos. Quando ela entrou no lago, afundou mais e mais, até chegar às profundezas, e acabou por entrar no mundo dos mortos. Ela chegou a uma casa onde vivia uma velha sábia com seus filhos. Por vários anos, ela viveu com a velha. Ajudava-a em suas tarefas, ajudava a tomar conta da casa e da família e também conversava muito com ela, aprendendo com sua sabedoria. Mas, conforme as semanas se tornaram meses e os meses se tornaram anos, Marwe tinha muita saudade da família e dos amigos, sentia falta até mesmo do trabalho no campo de feijões nas tardes escaldantes. A velha sábia percebeu isso, ela sabia que a garota precisava estar outra vez entre os vivos. Certo dia, a velha perguntou se Marwe preferia o calor ou o frio. Sem entender, a mocinha disse que gostava mais do frio. Então a velha encheu uma bacia com água fria e fez Marwe mergulhar as mãos lá. Quando a jovem retirou as mãos da água, ela ficou maravilhada: estavam cobertas de jóias tão finas e preciosas como ela nunca sequer havia sonhado! Ela fez o mesmo com os pés e pernas, que também saíram da bacia cobertos das mais lindas jóias. Sorrindo, a velha vestiu Marwe com roupas dignas de uma princesa e fez uma profecia: Marwe voltaria da morte e se casaria com um homem que a faria muito feliz, o nome dele era Sawoye. Por fim, a velha sábia enviou a moça para a casa dos pais.

Quando Marwe chegou em casa, viva, saudável e coberta por roupas e jóias tão finas, ninguém pode acreditar! Sua família não cabia em si de tanta felicidade! Pensavam que ela estava morta há anos e, do nada, ela aparece linda e cheia de riquezas! Em pouco tempo, o povo todo da aldeia e até das aldeias vizinhas ficaram sabendo que lá havia uma moça linda, rica e solteira, e então muitos pretendentes passaram a frequentar a casa. Marwe ignorava todos eles, mesmo quando eram belos e gentis. A não ser por um deles, Sawoye, que tinha um sério problema de pele que o tornava feio, mas como a jovem já havia vivido no mundo dos mortos, sabia ler o coração das pessoas e podia ver que ele era um homem bom e que seria o melhor companheiro para ela. Eles se casaram e tiveram uma bela festa. Depois da primeira noite de casamento, a misteriosa doença de pele desapareceu, mostrando que Sawoye era, na realidade, um homem lindíssimo. Como Marwe tinha muitas jóias, o casal comprou um rebanho e, em pouco tempo, eram as pessoas mais ricas do lugar. Eles viviam felizes, mas os outros pretendentes tinham inveja dessa felicidade e, num momento de fúria, mataram Sawoye.

Mas Marwe já havia morrido, e sabia os segredos e detalhes do mundo dos mortos. Sabia, inclusive, como reviver um morto! Ela levou o corpo do marido para a casa deles e recitou as palavras que havia aprendido com a velha sábia. E Sawoye reviveu, mais forte do que nunca. Quando os inimigos retornaram para tomar as riquezas do casal, Sawoye os matou. O casal viveu feliz por muitos anos e, quando encontraram a morte, foram tranquilos e sem medo.


Questões para reflexão:

1- Este é um mito complexo, em que ocorrem muitas mudanças e transformações. Marwe sai do dia a dia normal quando uma grande crise acontece (os macacos comem a plantação - o que pode ser comparado à perda dos sonhos, daquilo que "plantamos"), e usa a crise como rito de passagem, o que é simbolizado pela morte. Para muitos povos, a morte não é um fim, mas uma transformação, o início de uma nova jornada. No mito de Marwe isso fica claro quando a jovem mergulha no lago/consciência e não teme se deixar afundar até as profundezas da psique, onde moram a completude e a sabedoria. No mundo dos mortos, a passagem é feita e, enquanto morta, morando com a velha sábia (o lado sábio dela mesma - de todos nós), ela já não é mais a menina que cuidava dos campos e nem a mulher poderosa que se tornaria mais a frente no mito. Ela, durante os anos que esteve no mundo inferior fazendo a passagem, não é nada. E, sendo "ninguém", Marwe aproveitou o momento para criar para si um novo Eu, da forma como sonhava. Aprendeu com a velha/consigo mesma e se tornara uma mulher rica e poderosa. As jóias e preciosidades que ela trouxe quando voltou a vida (quando o rito de passagem se consumou), não são outras senão as riquezas do nosso mundo interior. Quando as temos em mãos, somos capazes de tudo, somos capazes de criar rebanhos, que simbolizam uma "riqueza" que, por si só, cresce e aumenta. Examine a si mesmo e perceba quais são as riquezas que a sábia/o sábio que vive em você lhe envia. Como você as recebe, com gratidão como Marwe, com pouco caso, com receio e desconfiança ou, ainda, com ganância? Você teme ou já temeu as riquezas do seu mundo interior? Por que?

2- Outro ponto que me chama a atenção é a misteriosa doença de pele de Sawye, o marido de Marwe. As doenças de pele são associadas a problemas de contato, conflitos nas relações. E, quando ele se envolveu num relacionamento verdadeiro e preenchido de afetos construtivos, ele ficou curado! Como são os seus relacionamentos (de todos os tipos)? Qual a emoção que domina, qual a "meta" que os move? Aliás, existe movimento ou estão estagnados?

3- Vejo muitas pessoas se queixarem da inveja que os outros sentem dela, ou ainda da "falsidade" com que alguns as tratam. Vejo mais! Vejo pessoas se orgulharem de despertar a inveja dos outros! Claro que existem algumas pessoas mais invejosas, que olham para aquilo que conquistamos mas esquecem de ver o trabalho que tivemos e todos os sacrifícios que fizemos; ou pior, invejosos que querem o nosso lugar existencial enquanto pessoas! É preciso lidar com esse tipo de situação, evitando atitudes de exibicionismo visando provocar quem já sabemos ser desse jeito; estando atento a quem está de fato ao nosso lado, para quem podemos abrir o coração, em quem confiar ou não; e mesmo sugerindo a essas pessoas que se tratem quando necessário (com respeito, de forma alguma estou sugerindo mandar alguém para terapia em tom de xingamento ou de agressão, como já vi, mas com compaixão pelas dificuldades da pessoa). É importante dizer que nem tudo o que vemos por aí é realmente inveja. Muitas vezes é admiração sincera e saudável, e o suposto "invejoso" pode, na verdade, ser apenas alguém que nos vê como modelo (do que for), alguém em quem ele gosta de se inspirar. Não tem nada de errado em admirar alguém e pensar "puxa, gostaria de ser assim!", aprendemos modelando outras pessoas, mesmo depois de adultos, e mesmo que a gente nem perceba. Isso é bem diferente da atitude "se eu não posso fazer isso, Fulano também não vai poder e euzinha garantirei isso!! hahaha!!", esse é que seria o verdadeiro invejoso. É triste sentir inveja? Sim. Mas é mais triste sentir o desejo ou o orgulho de ser invejado e, sendo muito sincera, vejo por aí mais pessoas com esse desejo do que pessoas invejosas. É uma atitude emocionalmente imatura, pois para essas pessoas, não basta viver como gostam, é preciso ter platéia - e não uma platéia que a admire e apoie, mas uma que a inveje e queira o pior para ela. Por que não se permitem ser verdadeiramente amadas e admiradas? Percebo em algumas dessas pessoas que se orgulham de ser alvo da inveja alheia, um certo desejo em estar "por cima", competindo com quem elas pensam que está "por baixo" e, portanto, seriam invejosos em potencial. Seja a situação que for, quem está verdadeiramente "por cima" (se é que existe algum tipo de ranking na vida) não puxa tapetes e nem causa inveja de propósito, mas sim estende a mão e caminha lado a lado. Se a situação for essa e existir algo para ter orgulho, não seria apontar as falhas, e sim ajudar a caminhar, não ter medo de voltar quantas vezes precisar e acompanhar a pessoa como uma igual. Acredito que essa seja a melhor atitude contra a inveja.