sexta-feira, 28 de março de 2014

Ágora - Dar limites traumatiza?

Doutora, leio sempre o blog e gosto muito de ver as perguntas que mandam por que sempre aprendo alguma coisa de bom pra minha vida. Eu fiquei pensando e tambem tenho uma pergunta que acho que pode ajudar mais pessoas. Eu fui mãe nova, com 16 anos e o meu namorado era novinho tambem. Meu filho hoje tem 2 anos e amo ele demais, apesar de muitas vezes ser difícil. Estou com um conflito, porque o meu filho Lucas entrou numa fase que só sabe dizer não e fazer birra. Eu tento ser firme, fico séria e digo que não é assim que se consegue as coisas, tento educar. Mas meu namorado fala que é cedo pra essas coisas, que a cabecinha do Lucas ainda não entende e que vou acabar traumatizando o menino. Estou certa? Ou é melhor deixar pra por esses limites daqui uns aninhos? Muito obrigada. bjs
Aline - Cubatão, SP


Bom dia, Aline!

Dar limites não traumatiza. Ao contrário, enche a criança de confiança. Quando a criança ganha limites, ela passa a saber com clareza o que pode e o que não pode, e isso lhe dá a certeza de que é amada e respeitada, de que a família cuida e se preocupa com ela. 

Muitas famílias me procuram por causa da falta de limites, que quando existe não é apenas das crianças, mas da família como um todo. Quase sempre a preocupação é algo como "meu filho não tem limites e tenho medo que por conta disso ele não respeite os demais e arrume problemas sérios". É uma preocupação muito verdadeira e digna. No entanto, a falta de limites tem outro lado, tão preocupante quanto esse e que nem sempre se dá atenção. A pessoa sem limites nem sempre desrespeita os outros. Algumas vezes, ela se permite ser desrespeitada, o que a leva a um ciclo sem fim de situações de violência, abusos, relações e amizades abusivas... Isso é tão complicado quanto a outra situação! Quando alguém tem limites claros, é como se ela tivesse um "contorno", ela percebe direito o que é ela e o que não é ela, até onde ela pode ir, quando precisa se superar e, muito importante, até onde ela permite os outros irem ao lidarem com ela. Uma pessoa com limites claros e firmes respeita os outros e também a si mesma, sabe ouvir "não" e dizer "não" quando precisa.

Se a cabecinha do Lucas entende isso? Claro que entende! Entende tão bem que sabe até transgredir! Mostre que você percebe as transgressões, quando ele faz alguma coisa que não pode, diga, em tom sério e sem rir, que não pode. Em algum tempo, ele vai querer saber o porquê. Não se irrite, explique. Ter limites não é ter obediência cega, é saber pensar. Claro, de forma séria, mas ao mesmo tempo, respeitosa. De forma que a criança entenda. Não pode se debruçar nessa janela alta porque é perigoso cair, se isso acontecesse, ia se machucar feio, a gente teria de ir para o hospital e seria bem chato... Lembra do dia que você caiu da bicicletinha, como doeu? Então, dessa janela o tombo é pior, por isso não pode. A criança entende sim. E respeita quando é tratada com respeito. Muitas crianças rebeldes são assim porque não vêem um sentido nas regras da família, por isso é importante que ele saiba o porquê de estar fazendo o que você pede. Com isso, no futuro, o Lucas saberá fazer boas escolhas, pensando bem nas consequências e assumindo de forma mais tranquila as responsabilidades que a vida nos exige. 

Não tenha medo de colocar limites, são eles que vão ajudar o Lucas a crescer de forma madura, com senso crítico e sabendo assumir a responsabilidade pelas escolhas dele. Não tenha medo de ser mãe!

beijos pra vocês!
Bia


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quinta-feira, 27 de março de 2014

5 Formas de lidar com a timidez

"A timidez a princípio se apossou dele, como acontece às pessoas que se surpreendem sentindo além do razoável." - Virginia Wolf (1882 - 1941), escritora britânica.

Algumas pessoas têm escrito me pedindo sugestões para lidar com a timidez. É fundamental começar dizendo que ser tímido não é doença ou transtorno mental, é apenas uma característica de personalidade, como ser criativo, ser sociável, entre tantas possibilidades. Para a psicologia, uma característica ou comportamento só exigem tratamento quando colocam a pessoa ou os outros em risco, ou ainda quando traz sofrimento. Se nada disso acontece, não há problema algum em ser tímido. Ainda assim, muitas pessoas tímidas se queixam das dificuldades do dia a dia. Por isso, atendendo aos pedidos do Leandro, da Camila S. e de uma leitora que preferiu não se identificar, hoje temos dicas para lidar melhor com a timidez.



1- Treine antes o que vai dizer
Muitas pessoas tímidas sentem ansiedade e insegurança ao ter de falar algo mais importante com pessoas desconhecidas, de cargo mais algo, ou até com aquela pessoa que faz o coração bater mais forte. O que fazer? Treine antes! Claro que não podemos saber das reações e palavras que o outro terá (e que chato se a gente pudesse!), mas ajuda pelo menos ter uma boa ideia da mensagem que queremos passar. O mesmo vale para pessoas que ficam tímidas ao ter de falar em público. Nesse segundo caso, geralmente a situação é um pouco mais formal, como a apresentação de um trabalho ou projeto, por exemplo. Já sabemos o que vamos dizer e, se o foco somos nós, a reação dos outros não importa tanto. Treine em frente ao espelho, diversas vezes. Incluindo o "bom dia" e os comentários para descontrair. Parece simples, mas faz uma grande diferença, pois a gente pode ver com clareza o que precisamos melhorar. 

2- Avise às pessoas sobre sua timidez
Bom dia! Quero começar dizendo que sou tímida. Estou tremendo, como vocês podem ver... e daqui a pouco vou ficar corada. Mas não se preocupem, está tudo bem e vim aqui fazer o meu melhor. Soa meio bobinho, meio inocente, não é? A ideia meio que é essa. Mostre você mesmo a sua fraqueza, assim todos saberão que você tem consciência dela e não verão nenhuma graça em rir dos rubores, por exemplo. Em palavras mais técnicas, mostre seu ponto fraco e ganhe a simpatia da platéia! Claro, gente, bom senso! A ideia não é fazer disso um monólogo contando quantos litros de chá de camomila você tomou antes de vir, que tem um calmantezinho fitoterápico super natureba na bolsa e que vai sair de lá direto para o consultório do psicólogo! Só dar um toque rápido. Sou tímida, sei disso, mas vamos continuar mesmo assim, tenho tudo sob controle! Se a situação é com amigos e pessoas mais íntimas, também vale dar esse aviso. Conheço muita gente tímida que passa por metida e até grosseira apenas porque os demais nem imaginam a questão da timidez e partem do princípio que a pessoa "não se mistura, se acha melhor que todos..." Lembrando outra vez: a ideia não é se fazer de coitado, é apenas usar da sinceridade e transparência!

3- Construa apoios 
Ninguém é perfeito. Todos temos problemas, limitações e situações com as quais sentimos mais dificuldade de lidar. Isso não é vergonha nenhuma. Mas também, não são as nossas limitações que vão nos impedir de alcançar nossas metas e viver a nossa vida. E agora? Vamos construir apoios! Como aquelas pessoas com problemas de atenção e/ou memória que deixam lembretes... No caso da timidez, é necessário perceber quais são, exatamente, as maiores dificuldades. O lado mais formal da vida, como o trabalho ou os estudos? Um bom apoio é a organização, ter tudo no jeito evita aqueles momentos chatos em que, além de lidar com a situação e a timidez, você ainda precisa encontrar aquele papel importante e tenta lembrar se não o teria deixado na mesa de casa... Já no caso das relações pessoais, um bom apoio é o humor. Ninguém é perfeito. Saiba rir de si mesmo, dos outros, das situações. No fim, quando olhamos com a cabeça mais fria, as coisas não são tão sérias e rígidas assim como certas pessoas gostam de dar a entender. Enfim, essas são situações bem gerais, avalie a sua com cuidado e decida os "apoios" que pode ter.

4- Encontre uma característica compensadora em si mesmo
Sabe aquela história da menina muito dispersa que de repente se descobriu criativa? Com a timidez é igual. Nunca pense nela como um defeito. Ela é uma característica que pode se manifestar trazendo algo mais ou menos agradável. Isso amplia as possibilidades! Quais lados bons a sua timidez esconde? Talvez a qualidade tão rara hoje de saber ouvir e respeitar o outro. Talvez seja uma pessoa mais reflexiva e que consegue ter uma visão ampla das situações. Não transforme suas qualidades em problemas. Você não se resume a uma pessoa tímida, você é muito maior do que isso... e olhando com cuidado, a timidez na certa tem suas razões.

5- Atividades para se expressar
Muitas pessoas tímidas têm dificuldade em expressar aquilo que pensam ou sentem apenas dizendo. Mas podem fazer isso bem através de outras formas de expressão, como o desenho, a escrita, a música... Não precisa fazer isso para muitas pessoas verem, se não quiser. Basta que você faça e veja. A ideia não é pintar a Monalisa, a ideia é deixar as emoções fluírem.

Finalizando, essas ideias para lidar com a timidez visam ser estratégias para levar um dia a dia mais tranquilo. É importante saber que timidez não é doença, da mesma forma que nem toda pessoa mais introvertida, mais "na dela" é necessariamente tímida. No entanto, quando a timidez chega a um ponto que a pessoa sofre e não consegue levar uma vida normal, não consegue se realizar, é hora de marcar uma consulta com o seu psicólogo.

terça-feira, 25 de março de 2014

Mythos - Xamãs: ouvir o chamado e abraçar o próprio poder

O mito de hoje, na realidade, não é um mito, é um depoimento. Um xamã do povo Kwakiutl, nativo da América do Norte, contou como ele se tornou um xamã. 

Para quem não sabe, entre os povos mais antigos, a figura do xamã é fundamental. Ele atua como feiticeiro e curandeiro, seja naquilo que diz respeito à saúde, à realidade (como conseguir bom tempo, chuvas e colheitas em quantidade apropriada), e mesmo ao mundo dos deuses e espíritos. O xamã era temido e respeitado, sem ele, o povo ficava vulnerável à doenças, desastres, guera e mesmo à fúria de deuses e criaturas de outros mundos. Para que alguém se tornasse um xamã, quase sempre existiam sinais, como sonhos, doenças e sintomas misteriosos, certas características físicas ou de personalidade... Mas apenas isso não bastava! Era preciso não apenas ter a "vocação", mas também abraçar esse chamado, naquilo que muitos povos nativos chamam de "busca da visão". Era um processo muito solitário, geralmente envolvendo algum tipo de retiro ou reclusão, jejum, orações e práticas espirituais bastante rígidas. O resultado, quando bem sucedido, eram as chamadas experiências místicas (aquelas experiências em que a pessoa tem um contato direto com o sagrado, definindo de forma simples), por exemplo, visões com animais de poder, sonhos muito significativos, e até algum tipo de contato com a morte e o renascimento. 


O mergulho em si mesmo, que é o que representa esta fase, marca a pessoa para sempre. Ele não é mais uma pessoa comum, ele teve contato com realidades que os outros não conseguem ter, passa a habitar essas diversas realidades, chegando ao ponto de parecer que o mundo em que todos vivem no dia a dia é apenas mais um entre tantos - nem mais nem menos importante ou "real" que os demais. Agora vamos acompanhar o relato de um homem que passou por este processo, tornando-se um xamã. O relato foi retirado do livro "Mitologias: deuses, heróis e xamãs nas tradições e lendas de todo o mundo", coordenado por Roy Willis e editado pela PubliFolha.

"Todos nós ficamos doentes de varíola. Eu pensei que estivesse morto. Acordei por causa de todos os lobos que entraram na tenda, uivando e ganindo. Dois deles lamberam meu corpo, vomitando espuma e tentando colocá-la sobre meu corpo inteiro, retirando todas as cascas e feridas. A noite caiu e os dois lobos continuaram lá. Eu me arrastei até um abrigo de pinheiros, onde passei a noite toda. Sentia frio. Os dois lobos deitaram ao meu lado e, quando amanheceu, me lamberam todo de novo. Uma figura de um sonho mais antigo, Corpo de Arpoador, vomitou espuma e pressionou o nariz em meu peito. Ele vomitou pó mágico em mim, e no sonho riu e disse: 'Amigo, cuide do poder do xamã que entrou em você. Agora você pode curar os doentes e fazer adoecer aqueles da sua tribo que você quiser que morram. Todos o temerão'." (página 226)


Questões para reflexão:

1- Vamos começar entendendo que pouco importa se o relato do xamã aconteceu no mundo concreto em que todos vivem ou se tudo se passou em sonhos e visualizações durante uma meditação, por exemplo. Nada disso tira a realidade dos fatos: o homem se tornou um xamã e passou a ser assim reconhecido pelo seu povo. Da mesma forma, na vida da gente, nossa psique reconhece como verdadeiro tudo aquilo que lhe dizemos ser. Por isso, a primeira reflexão será perceber com quais "verdades" temos alimentado a nossa realidade. O que acontece em seus sonhos, meditações, sintomas e fantasias? Como você cria o seu mundo? Quais são as ideias e sentimentos centrais?

2- Qual é o seu poder? Entre muitas possibilidades, está o poder de escolha, o poder que temos sobre nós mesmos. Você está de posse do seu poder? Se sim, como foi a sua busca? Quais foram os desafios e o que o motivou? Se você não está, será que está ouvindo o "chamado"? Tem resistido e mesmo temido ir ao encontro de seu poder interior? Por que?

3- O xamã, em seu depoimento, descreve com clareza as fases do mergulho em si mesmo: algo acontece (no caso dele, uma doença) que o retira de forma brusca do dia a dia comum. Ele cai no sono/inconsciência, de forma tão profunda que acredita estar morto, o que também podemos ver como a morte de quem ele costumava ser antes de se tornar xamã. Então, ele está numa região de fronteira, não é mais aquela pessoa, mas ainda não se tornou xamã. Por algum tempo, ele não é nada, e sendo nada, pode se tornar qualquer coisa, tudo depende dos caminhos que se apresentam e de sua vontade e coragem para segui-los. Nesse momento, quando ele está por completo fora da realidade comum, inclusive de sua identidade, o contato com o sagrado, com as profundezas do inconsciente, acontece. Primeiro na forma dos lobos que trazem a cura, mostrando que nosso lado mais instintivo e selvagem carrega as soluções, pois mostra aquilo que somos em essência. Depois, no sonho, quando a passagem se completa: ele ouviu o chamado, continuou firme em seu caminho e se tornou um xamã. Será, então, reintegrado ao povo, agora completamente mudado, como o xamã. E, de posse de seu poder interior, um novo caminho se inicia.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Ágora - Sobre a paixão

Oi, Bia!
Nos falamos muito pelo facebook, mas acho muito mais clássico oficializar a minha pergunta/sugestão para o blog por meio do email!
Passei, neste último mês de fevereiro, um momento diferente, novo e incrível! A paixão! Ela veio de mansinho, como quem nada queria, pra de uma hora pra outra explodir numa gama de cores infindáveis dentro do meu ser!
Gostaria que você falasse dela um pouquinho. Das suas consequências em nossas vidas e também da sua igual necessidade à existência! 
Porque nem sempre somos correspondidos a tudo aquilo que expressamos à pessoa destinatária de nossa profunda emoção e desejo. Como lidar quando o relacionamento começa a acontecer, mas do nada as coisas acabam tomando outro viés e daí o sofrimento chega e faz morada!?! Como superar?! Quais caminhos tomar!?
Um abraço,
Luan - São Paulo, SP


Bom dia, Luan!

Muito lindo o tema que você propôs para discussão. Muitos psicólogos gostam de repetir que o ser humano é um ser que precisa viver próximo de outros. É a relação com os outros (e, por "relação", entendemos todo tipo de interação social) que nos torna, de fato, humanos. Mas ao dizer isso, gosto de acrescentar uma coisa. Não precisamos apenas da presença do outro. Precisamos interagir emocionalmente. Aí sim crescemos e nos tornamos humanos.

Pessoalmente, acho a paixão um sentimento interessante. É algo que foge do nosso controle, basta ver ou mesmo pensar na pessoa e já temos uma série de reações. Não é um sentimento que a gente possa negar ou fingir que não está lá, pelo menos não por muito tempo. De um jeito ou de outro, precisaremos lidar com ele...

Sim, a paixão tem fases. No começo o outro é lindo e perfeito. Bem, sabemos que ninguém é perfeito e que o outro com certeza tem seus defeitinhos, assim como nós - assim como qualquer pessoa. Mas, no início, não olhamos para isso. Olhamos para as qualidades... a pessoa é linda, parece nos entender como ninguém, tem gostos parecidos ou, ao contrário, tão opostos a nós que chega a encantar como um doce mistério a ser desvendado... ah! e ainda é super companheiro, nos apoia em tudo, é divertido, inteligente, entende as nossos anseios... já comentei que é lindo e perfeito?

E então, num dia qualquer, a realidade resolve nos dar um pequeno choque. Sim, ele é lindo e misterioso, é gentil, agradável e nos apóia em muitos momentos... Mas, talvez, tenha mudado um pouco. Muitas vezes, digamos, ele é calado, distante e precisa de um tempo sozinho. Provavelmente, ele sempre precisou. Nós é que só notamos agora, com o olhar mais atento. E aí, podem surgir conflitos. Será que fiz algo de errado? Será que os sentimentos dele por mim mudaram? Claro, a pessoa vai se sentindo insegura, acaba, muitas vezes, desanimando um pouco. A paixão ainda está lá. Basta que a pessoa apareça (na realidade ou nos nossos pensamentos) que a paixão aparece com toda a sua intensidade... Somos criaturas que sentem e que se apegam umas às outras.

Nesse momento, o relacionamento têm sua primeira crise. O outro não é apenas aquilo que a gente via. Nós, sob o olhar do outro, provavelmente também não. E frente a esse primeiro momento de crise, temos uma escolha importante a fazer: superá-la ou terminar. Se a crise for superada, o relacionamento amadurece e os dois crescem muito. Relacionamentos são grandes oportunidades não só de interagir com o outro, mas também de conhecer a si mesmo através do olhar do outro, repensar ideias, comportamentos, planos... Nesse sentido, pode trazer grandes crescimentos. No entanto, algumas vezes o casal se perde nesse momento. O lado recém descoberto da outra pessoa, de repente, fica mais forte que o lado que nos encantou. Em outros casos, o casal apenas ignora esse momento de crise, como se não olhando para ela, a situação fosse simplesmente desaparecer... Infelizmente, não é o que acontece. A crise negada fica no plano inconsciente, se manifestando nas nossas sombras. E, mais cedo ou mais tarde, ela voltará à tona muito mais intensa.

A melhor solução? Admitir aquilo que sentimos e que percebemos, no mínimo para nós mesmos. Sim, estamos apaixonados. Sim, de repente as coisas que caminhavam certinhas tomaram um rumo estranho. Talvez a gente se sinta perdido e inseguro, sem saber ao certo qual passo dar primeiro. Pare! Apenas pare e olhe ao seu redor. Olhe para o outro com clareza. Ele é tudo aquilo que percebemos e, provavelmente, tem características ainda não percebidas. Olhe, também, para si mesmo. Você vê, sinceramente, o relacionamento dando certo, fazendo os dois felizes? Veja que não perguntei sobre sentimentos, a questão é mais fria. Este é um relacionamento "viável"? Algumas vezes, chegamos à conclusão de que não. Estamos apaixonados, mas não é um relacionamento que nos faria realizados, que caberia no nosso momento de vida, por mais linda e perfeita que a outra pessoa seja, por mais sinceros que sejam os sentimentos. Algumas vezes, é o outro que não quer, e não volta atrás em sua decisão. Resta juntar os cacos e seguir em frente com a nossa vida. Outras vezes, no entanto, independente de ter tudo a favor ou tudo "contra", chegamos à conclusão que queremos isso sim! Precisamos do outro na nossa vida, independente de quem ele seja, de seus pequenos defeitos e da situação, às vezes, inusitada do relacionamento. Quando o caso é esse, dê o seu melhor. Supere a crise, converse, ajeitem a situação de modo a funcionar para os dois.

A paixão encanta porque altera o nosso centro, o nosso foco. E aí, toda a nossa realidade se altera, precisa ganhar novos sentidos, novos contornos e novas cores. Ao falar de paixão e amor, lembro sempre da lenda de Tristão e Isolda (que você pode ler clicando aqui). Eram dois jovens que se amavam muito e, pelas desventuras da vida, tiveram um final trágico. Termino com a mesma questão que me vem à mente sempre que penso nessa lenda: o que amamos? um ao outro ou a sensação de amar e ser amado?

Espero ter contribuído. Boa sorte para vocês, lembre-se que o melhor caminho a seguir é aquele pelo qual nossos pés insistem em nos levar, pois lá estará a nossa realização.
beijos,
Bia


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quinta-feira, 20 de março de 2014

Planejamento: transformando o sonho em meta

"Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos, porque o mais, por estar realizado, pertence ao mundo e a toda a gente." - Fernando Pessoa (1888 - 1935), escritor e poeta português.


Nenhum sonho se torna real a partir do nada. Todo mundo já ouviu e eu repito: é preciso dedicação, esforço e trabalho. Mas é preciso, também, ter foco, e nada é possível sem uma boa estratégia. O que isso significa? Que é inviável atirar para todos os lados! É preciso ser como um arqueiro, saber qual é o alvo, mirar e ir até ele. Pensando nisso, separei uma técnica de planejamento. Ela pode ser usada para qualquer tipo de plano que você precise organizar: um projeto profissional, uma viagem, uma festa, um roteiro de estudos... Vamos começar!

Primeiro passo:
Antes de planejar, é preciso saber qual é o seu objetivo. O que, exatamente, você pretende? Defina isso sem rodeios e sem meias palavras. Quanto mais claro e resumido for o objetivo, melhor. Exemplos: viajar para Salvador nas férias; organizar um roteiro de estudos das disciplinas de exatas para o vestibular; organizar um evento de integração dos novos colaboradores; abrir o meu próprio negócio (o que exatamente?); publicar um livro; começar um blog; e por aí vai. Bem curtinho e resumido desse jeito mesmo, em uma frase.


Agora sim, a técnica...

Pegue papel e caneta. Com a folha de papel na horizontal, dobre-a ou risque-a de modo a criar três colunas.

  • Coluna 1 - O que eu já tenho/fiz/sou. - Aqui entra tudo o que for relevante para o objetivo, desde que você já tenha isso ou essa habilidade. Exemplos: cursos, certificados, idiomas que fala, decoração a ser usada na festa ou evento, local, dinheiro, contatos, passaporte em dia no caso de viagens, tempo para dedicar ao projeto...

  • Coluna 2 -  O que falta. - Outra vez, de forma ampla, todos os elementos (habilidades a desenvolver, documentos a providenciar, contatos a fazer, etc.) que serão necessários e que ainda não temos. Exemplo, no caso de uma viagem, talvez eu fale a língua do local e meu passaporte esteja em dia. Mas talvez eu precise de mais algum dinheiro ou reservar hotéis e comprar passagens. No caso de um evento, talvez eu tenha a decoração, as comidas e bebidas, as flores, mas precise encontrar um bom local e alguém responsável pela música.

  • Coluna 3 - Estabelecer prioridades - É preciso pensar o objetivo como um todo, e as listas das outras duas colunas podem nos ajudar a fazer isso. Aqui, cada um dos elementos que nos faltam para chegar à nossa meta se torna um novo alvo a ser alcançado. Por exemplo, talvez a meta seja publicar um livro. Talvez a pessoa já tenha tudo escrito, tenha quem revise e bons contatos. Supondo que falte apenas a publicação em si, vamos criar prioridades! Ligar ou escrever para os contatos contando sobre o projeto e negociando o interesse por parte da editora. Escrever uma boa carta de apresentação. Enviar os manuscritos conforme acertado. Já no exemplo do evento em que nos faltava o local e a pessoa a cuidar da música, temos duas frentes de ação. O que é mais fundamental para que o evento aconteça, o local ou a música? Mais coerente ter o local primeiro, mesmo para que o DJ ou o músico leve a nossa proposta a sério... Aí cabe checar as opções, marcar visitas para conhecer os locais, combinar valores e horários... E depois sim contatar o responsável pela música e fazer uma proposta.

Gosto bastante dessa técnica, pois como já comentei outras vezes, aquilo que está escrito "sai" do plano mental e se torna algo concreto e observável, algo que todos podem ver e ajudar, especialmente se a meta em questão for buscada por uma equipe. Mais do que isso, ao ser colocado na realidade (mesmo que no papel, a princípio), o plano passa a ser algo sobre o qual podemos agir de maneira estratégica. Diminuímos a influência do "acaso", quando podemos agir sobre algo, atingir a meta deixa de ser algo aleatório e passa a ser o sentido para o qual (e pelo qual) caminhamos.

terça-feira, 18 de março de 2014

Mythos - O pote de ouro no fim do arco-íris: realizar os nossos sonhos

O que tem no final do arco-íris? De acordo com o folclore da Irlanda, lá existe um pote de ouro. Mas, como sabemos é impossível chegar ao final do arco-íris apenas caminhando em sua direção. O lugar não é alcançado assim. É preciso antes encontrar o Leprechaun, um duende que esconde lá os seus tesouros, e negociar o pote com ele. Foi o que aconteceu, certa vez, a um rapazinho muito humilde...

A família era muito pobre, desde que o pai morreu, a mãe lutava para sustentar todos os filhos e pagar todas as dívidas que tinham e só pareciam aumentar. Um dia, pediu que o mais velho fosse até o rio pescar alguns peixes para o jantar. Mas chegando perto do rio, viu um movimento estranho perto de um arbusto. Seria um coelho? Sua mãe poderia fazer um assado delicioso se fosse... Mas não era! Era ainda melhor! De costas para o menino, remendando um colete verde, estava o Leprechaun. O rapaz não teve dúvidas, esticou o braço devagar e pegou a criatura! Um fato sobre duendes que eu não mencionei... Quem captura o Leprechaun, dizem, tem direito a um pedido ou pergunta. O menino sabia que o Leprechaun era cheio de truques e sabia como fugir das pessoas. "Onde fica o tesouro?", perguntou. "No final do arco-íris!", respondeu o duende, desaparecendo logo em seguida. 

Ele ficou muito triste. Já anoitecia e ele voltaria para casa de mãos vazias, sem o pote de ouro e mesmo sem os peixes que a mãe havia pedido. Chegando em casa, o rapaz apressou-se em contar para a mãe e para os irmãos pequenos que apanhara o Leprechaun, mas fora tapeado. "Eu sei qual foi o seu erro.", disse a mãe. O menino olhou intrigado. "Você fez a pergunta errada. Ele respondeu e foi embora. Se algum dia o pegar outra vez, não se assuste, apenas peça para ele te levar diretamente para o pote de ouro."

Algum tempo depois, o menino pescava naquele mesmo rio, quando viu um movimento estranho naquele mesmo arbusto. Lá estava o Leprechaun! Ele esticou o braço, segurou firme e decidiu que não soltaria por nada, lembrando-se das palavras da mãe. "Olá outra vez, rapazinho!" O duende olhava para ele com uma expressão maliciosa. "Desta vez você não me engana! Me leve até o pote de ouro!", o menino pediu. O Leprechaun ainda tentou se esquivar, fazendo cara de susto e gritando "corra, vem vindo um touro bravo!", mas o rapaz não se deixou enganar. "Já disse o que quero, o pote de ouro, ou não vou te soltar!". O Leprechaun suspirou... "tudo bem, você venceu." E sobre o rio apareceu um arco-íris, o pote de ouro bem aos pés do menino. Em seguida, o Leprechaun desapareceu. O menino pegou o pote e foi para casa. Sua família pagou todas as dívidas e teve uma vida de fartura, pois o pote nunca se esvaziava. 


Questões para reflexão:

1- O pote de ouro é mais do que riqueza, é a certeza de que a vida sempre nos trará a abundância necessária para levarmos nossos dias com fartura. Abundância e fartura não são como o excesso, onde nada nunca basta e os desperdícios são muitos. A abundância está no equilíbrio. Como você lida com isso? Você permite que haja abundância na sua vida, em todos os sentidos? Existem ideias e emoções ligadas à dificuldade de ter essa abundância ou mesmo ao não merecimento? Você permite que a vida se encarregue de você, como uma mãe?

2- Pegue uma folha de papel e desenhe um grande pote. Agora preencha-o com palavras, desenhos e recortes daquilo que significa a abundância para você, o que não pode faltar na sua vida. O pote de ouro não nos faz pensar apenas na riqueza material, mas também nas riquezas do mundo interior, nos bons sentimentos e na presença de pessoas especiais na nossa vida... O que tem dentro do seu "pote de ouro"?

3- Qual o seu maior sonho? O que faz todos os sacrifícios e desafios da vida valerem a pena? Mais uma coisa... como você interage com esse sonho? Correndo atrás do arco-íris ou do Leprechaun? E quando chega ao Leprechaun, ao desafio maior antes da realização, o que você faz, enfrenta de cabeça erguida ou se perde em detalhes sem significado? Nossos sonhos são a maior riqueza do nosso pote de ouro. São eles que sustentam todas as outras e nos mantêm erguidos, seja qual for o desafio.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Ágora - Será que meu filho usa drogas?

Queria mandar uma pergunta pro blog. Tenho um filho de 15 anos e ele está diferente, mas agressivo, não quer ir pra igreja e fala que não acredita em Jesus e fala que a vida é dele e não posso me meter. Um amigo dele usa drogas e eu sempre digo pra não andar com o R., mas ele não me ouve. Tenho muito medo que meu filho esteja nas drogas e queria saber como eu faço pra saber se ele está ou não. Obrigada e deus te abençoe.
D.


Bom dia, D.

Vamos por partes. É normal que durante a adolescência os filhos, aos poucos, deixem de lado a opinião da família e busquem as próprias ideias e valores. Isso é um processo em que o jovem questiona opiniões que sempre teve como "certas", para formar a sua própria visão de mundo, e não precisa ser, necessariamente, uma fase agressiva ou de rebeldia. É normal e saudável, de alguma forma, todos nós passamos por isso. É comum que experimentem religiões diferentes, que façam novos amigos, que sonhem com um futuro que nem sempre é o mesmo que os pais sonharam. Isso não quer dizer que o jovem use drogas e nem que esteja com algum problema. Mas, claro, as famílias se preocupam com isso e sempre querem o melhor para seus filhos. Pensando nisso, separei alguns sinais que indicam que a pessoa possa estar usando algum tipo de droga:

- Isolamento sem motivo. O jovem que adorava passear com os amigos, "do nada", se torna calado e nem pensa mais em sair de casa. Claro, é preciso ver o contexto. Se, por exemplo, ele acabou de brigar com a namorada, ou está numa fase de muito estudo, mudou de bairro/cidade/escola e ainda não se enturmou, muitas vezes ele fica mais quieto. De todo jeito, cabe conversar e saber se está tudo bem.

- Mudança no grupo de amigos. Claro que pode acontecer da pessoa mudar de grupo por encontrar um com que se identifica mais... Mas uma mudança muito grande chama a atenção, especialmente se acontece "sem motivo", e o novo grupo é muito diferente do anterior.

- Mudança brusca de comportamento. Por exemplo, o jovem estudioso que se  torna irresponsável com suas tarefas, ou era amoroso e se torna agressivo sem motivos maiores, passa a gastar muito mais do que o usual, cometer atos de delinquência pequenos ou mais graves (como roubos, inclusive dentro de casa). São comuns o comportamento inquieto e agitado ou, ao contrário, a pessoa ficar apática, sempre de forma mais intensa que o usual para o jovem.

- Mudanças repentinas de humor. Da euforia e agitação, para a melancolia ou apatia. Podem acontecer crises de choro ou risso sem motivo, alterando de um estado para o outro subitamente.

- Baixa motivação para as atividades do dia a dia, como ir para a escola, ajudar em casa, ou mesmo atividades que ele gostava, como praticar um esporte ou ir a passeios.

- Queda no rendimento escolar. Em alguns casos, também é comum aumentarem as faltas às aulas e o abandono dos estudos. Claro, é preciso observar o contexto. A queda no rendimento pode acontecer por outros problemas, como de relacionamentos, estresse, ter sofrido algum tipo de violência ou perda, ou mesmo por alguma dificuldade pontuada nos estudos.

- Sinais físicos: aumento ou diminuição brusca do apetite; ter mais sono do que costumava ou, ao contrário, dormir muito menos do que antes; olhos vermelhos; alteração no ritmo de fala (por exemplo, aquela fala mais "pastosa"); usa óculos escuros com frequência, inclusive em dias chuvosos, dentro de casa, durante a noite, etc.; usa apenas roupas de manga longa, mesmo em dias mais quentes (drogas injetáveis); troca o dia pela noite; descuido com a higiene pessoal.


O que fazer? 

- Caso esses sinais sejam percebidos, especialmente um ou outro de forma isolada, é preciso conversar com o jovem antes de tirar conclusões precipitadas. Sem acusações e com respeito, mas ao mesmo tempo com firmeza. "Percebi que você parece mais quieto e triste, não sai e descuidou dos estudos, o que está acontecendo?" 

- Caso exista a dependência, é preciso ser firme e não ceder a chantagens emocionais, do tipo "paro quando eu quiser" ou "prometo não usar outra vez". Um ponto muito comum nos dependentes químicos é a falta de limites, portanto, isso precisa mudar. Especialmente se ele é menor de idade, a responsabilidade (e a decisão) é da família, o dependente químico está doente e não está em posição de escolher o que ou quando fazer.

- Buscar tratamento para o usuário e também para a família. Algo grave, como a dependência química, é um sinal claro de que algo não vai bem na família como um todo. Por tanto, a família também precisa ser tratada, pois está na posição que chamamos "co-dependência". Ah, e não, a dependência química não pode ser resolvida em casa, "rapidinho",  pela própria família, é um problema sério que precisa de ajuda e cuidado profissional.

- Prevenir: ser uma família presente na vida das crianças e jovens. Não apenas na adolescência ou em momentos de crise, mas sempre. Conversar sempre, sobre tudo, deixar os filhos falarem também aquilo que pensam ou sentem. Sejam uma família presente, cuidem uns dos outros, se importem e se respeitem sempre. Se ele não recebe atenção em casa, outras companhias, nem tão legais, não vão pensar duas vezes antes de fazer isso...

Boa sorte para vocês.
beijos,
Bia


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quinta-feira, 13 de março de 2014

Medo da intimidade e realidades compartilhadas

"Se não confiares o suficiente nas pessoas, elas não poderão confiar-te nada." - Textos taoístas.

Hoje vamos conversar sobre um assunto sugerido por uma leitora: o medo da intimidade, que se mostra, por exemplo, quando somos sinceros e contamos coisas muito pessoais a alguém, ou apenas damos a nossa opinião sobre algo, e nos sentimos vulneráveis e frágeis frente a essa pessoa.


Vivemos num mundo individualista, mais do que as gerações passadas. Esse individualismo crescente facilita inúmeros problemas, como a violência, a falta de solidariedade, o aumento da burocracia nas interações pessoais, chegando ao ponto de ver o outro como um "objeto", e não como um sujeito que, como nós, tem uma vida, sonhos, problemas... Mas vamos nos ater ao campo das relações! Grande parte das pessoas acha "normal" existir uma certa distância emocional, mesmo entre familiares ou amigos íntimos. Como se a nossa simples presença (real ou simbólica) fosse um contratempo intolerável para o outro, e vice versa. Aquela distância emocional que nos faz perguntar "está ocupado?" logo que a pessoa atende o telefone, sem parar para pensar que, caso estivesse tão atribulado assim, a pessoa simplesmente não atenderia. Ou amigos que marcam horários tão rígidos que uma simples ida a um café ganha as pompas de uma reunião de alta diretoria. Ou até, para entrarmos na raiz do problema, amigos bem próximos que se sentem desconfortáveis de "desabafar" ou contar algo mais pessoal, mesmo tendo essa vontade. Muitas vezes o desconforto vem disfarçado de atitude madura... "não quero perturbar", "não quero que se preocupem"... 

Mas na realidade, muitas vezes é o medo da intimidade o que está por trás da atitude. O problema da distância emocional é que, como diria o filósofo alemão contemporâneo Jürgen Habermas, ela cria um vazio, e ao não nos permitirmos preencher este espaço, ele é ocupado por atitudes burocráticas, deixando ainda menos espaço para o que o autor chama de "mundo da vida", que nada mais é do que aquelas relações de convivência tranquila e espontânea.

Além do individualismo, outros pontos que favorecem o medo da intimidade são algumas características da própria pessoa, como autoestima baixa, pouca confiança em si mesmo, experiências passadas ruins não superadas (como casos de violência ou abuso de todo tipo), baixa tolerância à frustração, entre outras possibilidades. Um medo que observamos é o de, ao ser sincero e se abrir com alguém, que essa pessoa "use contra nós" os nossos "segredos", as fraquezas que todos temos.

Como agir, então? Habermas responderia que é preciso reforçar e fortalecer o mundo da vida, cultivando a presença de pessoas especiais para nós, que preenchem a nossa vida com cores mais alegres que o cinza pálido da burocracia. Criamos assim, algo na contramão do individualismo, do medo e da burocracia, criamos uma realidade que faz sentido para nós e que é compartilhada com pessoas queridas. Começando bem perto de nós. Em casa, com a nossa família, com os vizinhos e amigos mais próximos. Não digo que é para "confiar em qualquer um", ou para sair por aí contando intimidades. Certas coisas sempre serão pessoais e muito íntimas, claro. Mas conforme estreitamos os laços com as pessoas próximas, nos sentimos mais à vontade para nos mostrarmos como realmente somos: no jeito de ser, na nossa história de vida, nos nossos ideais e sonhos... Estar junto do outro não é apenas estar ao lado. As pessoas só estão juntas e podem contar uma com a oura, de verdade, quando compartilham da mesma realidade, quando falam "a mesma língua" e, claro se respeitam. Não importa se falamos sobre uma comunidade, uma família, uma turma de escola, um casal, amigos... Só existe intimidade quando nos permitimos entrar no mundo do outro, ao mesmo tempo que o outro é bem-vindo no nosso e, assim, os dois mundos se tornam um.

terça-feira, 11 de março de 2014

Mythos - Pomona e Vertumno: amor é parceria

Hoje vamos conversar sobre a percepção que temos das pessoas ou, do outro lado da moeda, a forma como nos mostramos a elas. Mas não em qualquer contexto, e sim na esfera dos relacionamentos. Para isso, vamos partir de um mito romano chamado Pomona e Vertumno.

Pomona era uma ninfa que vivia na região que hoje em dia conhecemos como a Itália. Como todas as ninfas, ela era muito bela e adorava a natureza. No entanto, enquanto todas preferiam os bosques, Pomona amava os pomares. Pomona passava o dia cuidando das vinhas e macieiras, dançava por entre as plantas e quanto mais se divertia, mais elas davam frutos doces e saborosos. Em meio a tanta beleza, graciosidade e alegria, era esperado que a ninfa atraísse para si um grande número de pretendentes. Desde camponeses, guerreiros, até heróis, reis e mesmo deuses. Pomona, no entanto, pouco sabia do amor. E, sinceramente, não estava interessada. Seu coração não queria saber de homens ou beijos... Tudo o que queria era continuar cuidando de seu pomar e maravilhando-se com seus frutos. Mas um desses pretendentes era muito insistente. O nome dele era Vertumno. 

Vertumno se revela a Pomona. Obra em mármore de Laurent Delvaux, século XVIII.
A obra está no Museu Victoria e Albert, em Londres.
Vertumno era um deus do povo etrusco (um povo que vivia na Península Itálica e sobre o qual restam bem poucas informações). Como de costume, seu culto foi adotado pelos romanos, eles sempre mantinham os cultos e traços culturais dos povos que conquistavam ou até com os quais se confrontavam. Mas vamos voltar a Vertumno, o deus das mudanças de estações, que envelhecia e rejuvenescia conforme elas passavam. Ele estava encantado com a graciosidade de Pomona. Não. Mais do que isso. Ele não podia imaginar uma vida sem ela, e a eternidade da vida de um deus é tempo demais para tanto sofrimento. Ele tentava se aproximar dela com muitos disfarces. Como camponês, pescador, soldado, dono de vinhedo, rei... Pomona não se encantava. Ela até era gentil, mas deixava claro que não queria nada com ele.

Certo dia, Vertumno disfarçou-se como uma velha senhora que passava pelos campos em busca de algumas frutas. Pomona ajudou a velha a encher sua cesta com belas uvas, maçãs e peras. Enquanto colhiam as frutas, a "senhora" contava a Pomona sobre os encantos do amor. Apontou as vinhas, que crescem numa treliça, e disse à jovem que sem a vinha, a treliça seria inútil. Ao mesmo tempo, sem a treliça, a bela vinha seria pisoteada e jamais daria frutos. Uma precisava da outra. Assim é o amor, concluiu Vertumno, ainda disfarçado como uma senhora. Isso ganhou a atenção de Pomona. E a "velha" passou a falar sobre como as árvores só dão frutas quando suas flores são polinizadas pelos enxames, e que ela não deveria desperdiçar sua juventude privando-se do amor. Contou-lhe que conhecia um certo deus das estações que a amava muito, que seria um ótimo amante e adoraria cuidar dos pomares ao lado dela. 

Pomona ficou encantada e pensativa com o que a "velha" disse. No entanto, a frustração de Vertumno só aumentava! Pomona na certa precisava de um tempinho para amadurecer a ideia, pois não havia ido procurá-lo, como ele havia imaginado. E a possibilidade dela se interessar por algum outro de seus disfarces só diminuía. Vênus, a deusa romana do amor, não podia mais ver os desencontros dos dois, e já estava prestes a interferir... Então, num momento de desespero, Vertumno foi até Pomona sem disfarce nenhum, do jeito como era. E ao olhar para ele, Pomona se encantou tanto que, por alguns instantes, até se esqueceu de suas lindas frutas. Os dois se casaram e são felizes desde então, em algum campo da Itália, cultivando a fruta mais deliciosa que podemos saborear: o amor. 


Questões para reflexão:

1- Quando um relacionamento é harmonioso, os amantes têm uma relação equilibrada, são como a treliça e a vinha, complementando um ao outro. Como é o seu relacionamento atual, e/ou como foram os anteriores? Há/havia complementação entre vocês? Quais são ou foram os resultados disso?

2- Vertumno só conseguiu conquistar o amor de Pomona quando deixou de se preocupar em mostrar uma boa imagem de si e entrou no mundo dela. Ele a conquistou quando apareceu como a velha senhora, tão interessada nas frutas e no pomar quanto ela. O amor só tem sentido quando nos toca o coração, e foi o que ele fez quando abordou o assunto permitindo-se olhar para os relacionamentos partindo do olhar de Pomona. Você consegue perceber as coisas pelo ponto de vista daquele/a que você ama? Ou tenta sempre impor o seu olhar ao outro? Não falo (apenas) sobre "grandes opiniões" políticas, filosóficas e etc., mas sobre o dia a dia mais prático. Por exemplo, em como a gente se mostra e como percebe o outro. Isso é sobre parceria, amar é permitir que o outro participe da nossa realidade e, ao mesmo tempo, é não ter medo de mergulhar no mundo do outro, de uma forma que traga crescimento para os dois. Sem envolvimento, existe o eu e o tu, nunca o nós. E sem o "nós", um casal não tem força, é apenas duas pessoas que por acaso caminham juntas.

3- Não existe amor sem existir respeito e admiração. É preciso entrar no mundo do outro e permitir que o outro entre no nosso, sim. Mas isso precisa acontecer com respeito pela pessoa e pela realidade dela. Sem forçar situações que, direta ou indiretamente, o outro deixa claro que não quer ou permite. Existe um limite muito tênue entre a insistência da conquista e a inconveniência de um assédio. Como Vertumno, é preciso saber entrar no mundo do outro, mas também é preciso saber sair, dar ao outro o tempo e o "espaço" necessário. O outro só descobre o amor quando vivencia a falta. Se estamos sempre presentes, como Vertumno no início do mito, cada hora com uma nova face, com uma novidade, o outro nunca se descobrirá apaixonado, pois nunca terá a chance de sentir a nossa falta, de pensar como seria bom se estivéssemos lá e como ele gostaria dessa parceria. Uma coisa é amor e envolvimento. Outra coisa é falta de bom senso. Parceria e união não são o mesmo que simbiose!

sexta-feira, 7 de março de 2014

Ágora - Tratamento para depressão

É o seguinte queria saber que remédio eu tomo para depressão????? minha namorada brigou comigo e foi injusta e eu me sinto deprimido.
Alisson - Rio de Janeiro


Bom dia, Alisson,

Vamos começar pelo início. Depressão é coisa séria, não é como um resfriadinho que a gente se automedica ou toma um chá e fim. A depressão, quando se instala, é um transtorno psíquico que precisa de um tratamento cuidadoso e seguido à risca. Dificilmente alguém tem depressão apenas por fatores externos (como perdas, motivo de luto, uma grande crise...), é claro que esses fatores podem contribuir, mas normalmente existe algum fator interno, da nossa dinâmica psíquica, por trás da doença. O acontecimento externo é apenas um desencadeador desses conflitos e do mal estar que já existia.

O diagnóstico de depressão não é assim tão simples. Não basta estar triste. É preciso que essa tristeza, apatia e os diversos sintomas (inclusive físicos) estejam presentes e de forma constante por diversas semanas. É preciso que a depressão seja observada na entrevista clínica e que sejam feitos testes psicológicos para que se tenha certeza daquilo que pretendemos tratar. 

Por que, então, tantas pessoas dizem ter depressão? Porque o termo se popularizou na boca dos leigos! Qualquer tristeza ou chateação por conta de um contratempo comum da vida já é logo chamado pelo povo em geral de depressão. Mas não é bem assim! Somos seres que sentem. É normal ficar triste, chateado e mesmo com raiva quando algo ruim acontece. Isso não significa que temos depressão ou qualquer outro distúrbio, apenas que reagimos ao que nos aconteceu. Essa tristeza comum não é a depressão que os profissionais tratam. Quando a pessoa tem um contratempo e já se diz deprimida, é como se ela tivesse uma dorzinha de cabeça e já levantasse a hipótese de ter um tumor no cérebro! Em outras palavras, podemos nos sentir tristes de vez em quando. É normal e saudável que as nossas emoções se mostrem conforme vivenciamos as nossas experiências, isso não é doença!

O tratamento para depressão inclui psicoterapia, alterações no estilo de vida (prática de atividade física, alimentação, ingestão de água, alterações na rotina...) e, em casos graves (com risco de suicídio) também medicação. Não são os remédios que curam a depressão, eles apenas "abafam" os sintomas, psicoterapia e disposição para mudar são fundamentais. Nos casos em que o paciente precisa de remédios, o psicólogo o encaminha para um psiquiatra para que o tratamento seja feito em conjunto entre os dois profissionais, pois psicólogos não prescrevem nenhum tipo de medicação. E mesmo assim, como eu disse no início, depressão é uma doença grave e os medicamentos são controlados, não podem ser tomados de qualquer jeito e muito menos poderiam ser prescritos via internet! O objetivo da medicação é deixar o paciente mais estável para que possa olhar para os problemas e causas da depressão. Sem a vontade de encarar a vida e fazer transformações, tudo fica mais difícil...

Alisson, sugiro que você se acalme e, de cabeça mais fria, converse com a sua namorada. Claro, se sentir que a situação está pesada demais para suportar e essas emoções persistirem, busque ajuda psicológica.

beijos,
Bia


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quinta-feira, 6 de março de 2014

10 dicas para o cérebro

"Estamos usando nosso cérebro de maneira excessivamente disciplinada, pensando só o que é preciso pensar, o que se nos permite pensar." - José Saramago (1922-2010), escritor português premiado com o Nobel de Literatura em 1998.

Hoje vamos ver algumas sugestões para trabalhar e melhorar o desempenho do nosso cérebro. Não estamos pensando apenas em dar bons resultados nas nossas tarefas e superar desafios, aumentar a nossa produtividade, mas também em despertar nosso lado criativo, cuidar do equilíbrio emocional e, muito importante, estar atento à saúde. Vamos às dicas:


1- Coma direito e beba água em quantidade apropriada. Não tem como começar a conversar sobre melhorar o funcionamento cerebral se o cérebro não tem as mínimas condições necessárias para funcionar. Não se prive de água ou comida, boa parte da comida/glicose que ingerimos é usada pelo cérebro, que também é o órgão do corpo com maior concentração de água. Muitos distúrbios neuropsicológicos, como alguns tipos de demência, estão relacionados à perda de água que o cérebro sofre ao longo do envelhecimento.

2- Durma bem. Respeite horários fixos (dentro do possível) para dormir e acordar. Durma antes da 01 hora da madrugada, alguns hormônios não são secretados após esse horário. Além disso, mantenha o quarto em escuridão completa, sem luzes de apoio (se for necessário, oriento a manter uma luz de cabeceira ou lanterna ao alcance das mãos, apagadas, e a pessoa pode acender caso precise se levantar), alguns hormônios e substâncias que o nosso corpo produz só são produzidos no escuro. Sobre o sono diurno, evite. Se tem sono, pode cochilar por, no máximo, 15 minutinhos depois do almoço, nunca mais do que isso.

3- Aprenda outras línguas. Além de melhorar a nossa cultura geral e ajudar a conhecer uma nova cultura, amplia as redes neuronais, nos ajudando a pensar melhor e ampliando a gama de significados que temos "guardados". Outro ponto é que as línguas estrangeiras ficam alojadas numa área do cérebro diferente da nossa língua materna. Já vi caso de paciente com sequelas AVC (acidente vascular cerebral, o popular "derrame") que afetavam a área da língua materna... e a comunicação era feita normalmente em línguas estrangeiras, facilitando o tratamento e dando a essa pessoa uma qualidade de vida que ela não teria se não falasse outras línguas. Ah, importante: se a sua família é estrangeira e além do português vocês usavam alguma outra língua, então ambas estão no local relacionado à língua materna. Aprenda outra.

4- Tenha momentos de lazer. Vale sair com os amigos, praticar esportes, assistir a um filme, cuidar do jardim, dançar ou o que você gostar de fazer. Divirta-se! Claro que os estudos e o trabalho são importantes, mas pessoas que têm e respeitam seus momentos de lazer têm um rendimento muito maior. Além disso, nossa saúde física, psíquica e mesmo o nosso equilíbrio emocional ganham muito quando nos permitimos momentos de lazer.

5- Pratique esportes regularmente. Isso ajuda a diminuir o cortisol (substância ligada ao aumento do estresse) e a liberar endorfinas, que estão ligadas ao estado de satisfação e alegria.

6- Organize-se. Arrume a casa e o local de trabalho, as gavetas, armários e caixas, facilite sua vida. Use uma agenda, ou então crie uma lista de tarefas, mesmo para aquelas tarefas mais simples, como dar um jeito na roupa suja ou comprar a ração do cãozinho. Uma mente que não precisa parar suas atividades a cada momento para encontrar aquele papel ou lembrar de tudo o que precisa terminar antes do final de semana rende mais e se estressa muito menos. Nossa mente registra como feitas as tarefas que ficamos "repassando". Por isso, a cada vez que a gente pensa algo como "ir ao supermercado", além de ser um facilitador para esquecer a tarefa, é algo ainda mais cansativo, a pessoa se cansa pelo que fez e por todas as vezes que "fez" em pensamento!

7- Cuide da espiritualidade. Não importa a sua religião ou até se você nem sequer segue uma crença. Todos temos espiritualidade, isso é definido pelos psicólogos como a possibilidade da nossa mente de ir além de nós mesmos. Tanto faz se você cultiva esse lado frequentando sua religião, um grupo de estudos filosóficos ou políticos, sendo voluntário numa ONG que tenha uma causa que te toque, meditando em casa ou como preferir. O que importa é ter o hábito de se conectar a algo que vai além de si, seja esse "algo" uma divindade, o universo, a natureza, os excluídos pelo sistema...

8- Tenha momentos de ócio. Não, isso não é o mesmo que lazer, não falo de fazer algo concreto. No popular, falo daqueles momentos de pura preguiça, de se permitir vez ou outra passar o dia de folga chuvoso de pijama, de se permitir ficar largado no sofá ou tomando um sol... Muitas vezes, quando oriento as pessoas a se permitirem o ócio, elas demoram a compreender que não é um tempo para aproveitar e ir para a academia, nem para ficar na internet, nem para aproveitar e trocar a roupa de cama. É um tempo vago. Como o inverno, quando a natureza interrompe o processo de criar, de dar flores e frutos e se permite um momento de quietude. A ideia é essa, respirar um pouco do sufoco, da correria e das exigências da vida.

9- Tome sol. O sol está associado às nossas taxas de vitamina D que, entre muitas outras funções, têm uma participação importante no equilíbrio do nosso humor e na produção de serotonina, um "antidepressivo" que o nosso corpo produz. Não digo para se deitar no sol e "fritar", dez ou 15 minutos por dia (com tantas partes do corpo descobertas quanto for possível) já bastam. E o sol precisa ser direto, sem atravessar uma vidraça.

10- Cuide de você, esteja atento aos seus verdadeiros sentimentos e vontades. Respeite-se. Busque situações e relacionamentos que te fazem bem. Isso também conta muito para a nossa saúde, no sentido mais amplo da palavra. Muitas vezes as coisas "não andam" apenas porque não é para esse lado que a gente gostaria que elas fossem.

terça-feira, 4 de março de 2014

Mythos - Apolo, Dionísio, as festas dionisíacas e o carnaval

É carnaval. Uma festa conhecida pela inversão de papéis sociais, por permitir certa "bagunça" e deixar que as pessoas respirem  um pouquinho sem as regras e convenções sociais que nos outros dias todos seguimos. Hoje, aproveitando o clima de carnaval e a sugestão do meu irmão André, vamos falar de dois deuses opostos/complementares para entender um pouco essa história: Apolo e Dionísio.

Apolo é um deus civilizador. Ele é conhecido por levar o carro do sol, por isso já percebemos que é um deus responsável que nunca deixa de cumprir suas tarefas, além de ser extremamente pontual (o sol tem horários certos para nascer e para se por ao longo do ano, e isso não pode ser bagunçado). Além disso, Apolo é um deus ligado a diversas manifestações culturais, como a música e a poesia. Ele também está relacionado ao equilíbrio e à medicina (é o pai de Esculápio, deus da medicina), presa muito pelas regras e convenções, sendo a sua máxima a busca pela "justa medida", nada em falta e nada em excesso.

Da esquerda para a direita: Apolo, Dionísio e Hermes num banquete.
A peça é datada entre 350 e 330 a.C. e está no Museu Arqueológico da Espanha.
Já Dionísio é o extremo oposto de Apolo. Ele é o deus do vinho (bebida criada por ele), dos excessos e das grandes festas. Este deus (que assim como Apolo, é um filho ilegítimo de Zeus), cresceu nos bosques, entre sátiros e ninfas, num contexto muito livre, sem regras rígidas. Era cultuado também para manter a terra sagrada (existe uma ligação com Pã), através de relações sexuais nos campos com o objetivo de mantê-lo fértil. Dionísio é aquele que transcende, isto é, que vai além. Não apenas que sai deste mundo pelo excesso de vinho ou de prazeres, mas numa dimensão espiritual (para ele, não há uma divisão tão clara no êxtase alcoolico ou espiritual).

Esses dois deuses, tão diferentes, se complementam em muitos sentidos. Na esfera mitológica e arquetípica, por representarem elementos tão diferentes que, juntos, formam um todo pleno de significado. Na esfera social, em que temos Apolo como um deus muito querido pelos cidadãos gregos (mantenedor da ordem social do jeito em que está) e Dionísio como um deus adorado pelos mais pobres, pelos escravos e pelas mulheres, que não gozavam dos direitos da cidadania (pois é um deus que liberta os oprimidos, lhes dá esperança e permite ir além da situação do momento). 

Mas a complementação é ainda mais clara quando pensamos na própria cultura grega (e nos cultos, pois é do termo "culto" e "cultuar" que veio a palavra "cultura"). Importante comentar que Apolo "herdou" o Oráculo de Delfos de Gaia. Este era um dos maiores oráculos da Grécia, e muitas pessoas peregrinavam de longe para receber uma orientação nesse templo. Acontece que, durante o inverno, as sacerdotisas de Apolo se retiravam e "emprestavam" o oráculo às sacerdotisas de Dionísio, justamente na época de uma das maiores festas em honra a Dionísio. Isso, diziam os antigos gregos, era um exemplo do respeito que existia entre os dois deuses apesar de suas muitas diferenças, e deixava claro que por mais que um povo viva de forma regrada, na "justa medida" de Apolo, são necessárias épocas mais dionisíacas, épocas de respiro para que exista um equilíbrio (uma justa medida).


Questões para reflexão:

1- O carnaval, no Brasil, é um dos maiores exemplos de festa dionisíaca. Quais outras situações você se lembra de festas, eventos ou situações em que a ordem "normal" fica suspensa?

2- E na sua vida? Você tende a viver mais nas regras e no equilíbrio de Apolo ou nos excessos de Dionísio? Ou melhor, normalmente, todos tendemos a um certo equilíbrio! Em quais momentos da sua vida você vive cada um dos contextos? Lembrando que os momentos dionisíacos não significam apenas excessos e prazeres, mas tudo aquilo que caminha na contramão do dia a dia "normal", como as experiências ligadas à espiritualidade, as festas, ou até mesmo aquele final de semana mais frio em que preferimos nem tirar o pijama...

3- Se for o caso, lembre-se de alguma fase da sua vida em que viveu mais nos preceitos de Apolo ou mais nos de Dionísio. Havia algum tipo de sintoma ou dificuldade? Como você retomou o equilíbrio?