terça-feira, 29 de abril de 2014

Mythos – Jano: portas, passagens e escolhas

Hoje a sessão Mythos é especial. Vamos pegar carona nas aulas de história da professora Cleonice Cordeiro, lá de Recife. Ela me contou que tem usado alguns dos mitos publicados no blog com seus alunos de 8º e 9º ano, que estão estudando civilizações antigas. Como já falei para a Cleonice, é uma grande alegria para mim que os textos contribuam para a aprendizagem e para a reflexão. Ela me escreveu contando sobre uma polêmica que surgiu há alguns dias. Alguns dos alunos disseram que não entendem porque os mitos romanos são tão parecidos com os gregos e, mesmo assim, a gente diz aqui no blog que os mitos são diferentes. E fizeram um desafio: gostariam que eu contasse um mito que seja apenas romano.

As cidades romanas tinham "portas" como essas. Em muitos lugares, essas portas ainda são usadas, sobre ruas ou passagens para pedestres. Repare como a parte de cima é um arco, uma técnica de arquitetura que dá firmeza e sustentação. Repare também na grossura das paredes antigas... Quem está abaixo da porta, não está nem dentro nem fora, está nos domínios de Jano.

Confesso que foi um belo desafio! Para começar, vamos entender esse negócio de mitos iguais, parecidos ou diferentes. O povo romano tinha um costume que acho bem interessante: ao invés de apenas destruir quase por completo a cultura dos povos que dominavam e impor os costumes e crenças deles, eles faziam o oposto, incorporavam na própria cultura alguns elementos dos povos conquistados, por exemplo, técnicas de arquitetura e medicina, estratégias militares, pratos que consumiam e, claro, crenças e mitos. Ah, Bia, pegamos você! Os mitos são os mesmos! Não, nada disso! Porque mesmo que tenham ficado muito parecidos, a forma de contar e de ouvir/entender/sentir o mito, mudava. Saía dos olhos gregos e ganhava o olhar romano. Mesmo que os povos fossem quase vizinhos, o olhar e o comportamento frente a um mito mudava, pois povos diferentes têm culturas, costumes e valores diferentes. Um exemplo do mundo de hoje: a história da chapeuzinho vermelho, que tantas crianças gostam. Uma criança que mora numa grande cidade, sem florestas ou lobos por perto, vai olhar para a historinha de forma bem diferente de uma criança que vive num campo cercada por florestas e animais nem sempre amistosos... Ou então os mitos sobre deuses do sol, enquanto em lugares frios os deuses do sol são bondosos e paternos, pois aquecem e permitem a vida em meio ao frio, nos lugares mais quentes e áridos, o deus solar com muita frequência é associado às dificuldades e castigos, à dureza do dia a dia. Assim é entre gregos e romanos, mitos bem parecidos, mas com o olhar bem diferente em alguns pontos, levando em conta que essa era a religião desses povos, a forma de cultuar, digamos, Zeus, não é exatamente igual e nem terá o significado igual ao do culto a Júpiter. Também aqui no Brasil de hoje, quando contamos esses mitos, damos o olhar típico do nosso estilo de vida em alguns pontos, transformando os mitos novamente. Assim, os mitos não são os mesmos porque eles têm vida, eles se formam e se transformam conforme faça sentido a cada realidade, de acordo com os valores, com a necessidade e a realidade de cada povo em cada época.

Jano era representado com dois rostos, cada um
olhando numa direção. Isso simboliza as dualidades e
os jogos de opostos (entrada - saída, começo - fim, etc.)
Agora, vamos ao mito de hoje, atendendo ao pedido da garotada que estuda com a professora Cleonice, um deus apenas romano: Jano. Este foi um deus que surgiu logo no início da civilização romana, por isso a maioria dos estudiosos de mitos concorda que quase não houve influências diretas de outros povos. Importante: nenhum povo vive sem ter influência de outros, simplesmente porque nenhum está sozinho no mundo! O que podemos pensar é que o deus Jano teve pouquíssima influência de outros povos. Este é o deus das portas, mais precisamente, dos batentes e daquele arco que existe acima das portas romanas. O que isso significa? Este é o deus das passagens! É o deus que rege aquele momento em que não estamos nem dentro e nem fora, nem no antes e nem no depois. Quando estudamos ritos de passagem, chamamos esse momento/lugar de limiar. Por exemplo, vamos imaginar que um de vocês, estudantes, sigam os passos da professora e se torne, também, um professor. No momento da formatura (um “ritual” do mundo moderno), essa pessoa não é mais estudante, mas ainda não se tornou professor. Apenas ao fim do “ritual”, da passagem, é que será reconhecido assim. Jano representa isso. E por estar lá na passagem, no momento de transição, ele representa passado e futuro, entrada e saída, fins e novos inícios. Esse momento de atravessar a porta, da passagem, é um momento chave (sem ironia!): é o momento em que temos a chance de mudança, de transformação, e por isso, de fazer escolhas.


Questões para reflexão:

1- Para os alunos da professora Cleonice (mas os demais leitores estão convidados a se juntarem a nós!): estudar mitos se torna muito mais interessante e ganha um sentido especial quando a gente consegue perceber aquilo que eles nos trazem no nosso dia a dia. A fase em que vocês estão, a adolescência, é marcada por muitas escolhas e passagens, por isso escolhi o mito de Jano. Nem sempre as escolhas são fáceis e tranquilas. Quais escolhas você costuma fazer no seu dia a dia? Quais você acredita que sejam as escolhas mais importantes da fase em que está vivendo? É fácil pra você lidar com escolhas? Por que?

2- Falamos sobre essa diferença de pontos de vista entre gregos e romanos. Mas para pensar nisso, nem precisamos ir tão longe e voltar tanto assim no tempo! Lembre-se de um momento que você passou com outras pessoas: qualquer momento, pode ser um dia na praia com os amigos, a visita aos familiares que moram em outra cidade, o almoço de ontem... Agora conte o momento com suas palavras, sem tentar ser “neutro”, pode dar o seu colorido à história. Feito isso, é a vez de quem também viveu o momento contar a versão dele, com o colorido dele. Quais foram as diferenças? Assim como a versão grega dos mitos é marcada por uma busca pelo equilíbrio, a versão romana muitas vezes é marcada pela conquista. Qual foi a marca da sua versão ao contar a história que você viveu? E qual foi a marca deixada na versão da outra pessoa? Foi o mesmo acontecimento? Sim e não. Numa realidade maior, sim. Na nossa realidade pessoal, não.

3- Uma vez que Jano é o deus das passagens, vamos pensar sobre elas. Você passou ou está passando por um momento de mudança? Em qual ou em quais áreas da sua vida? Se pudesse abrir a porta que levaria para a sua realidade ideal, como seria essa realidade? Descreva do jeito mais detalhado e vivo que puder. Agora: você faz escolhas (grandes ou pequenas) que te aproximem dessa realidade ideal?


DESAFIO: Para os alunos da professora Cleonice, já que me desafiaram, tomei a liberdade de desafiar também, fazendo a proposta de uma atividade diferente. Claro, todos são bem-vindos e podem tentar também. Por algum tempo, sejam romanos! Pesquise alguns costumes e procure vivenciá-los. Como era ser romano? Como um garoto ou garota da Roma antiga entenderia e viveria o seu dia a dia no Brasil dos dias de hoje? Quais as maiores diferenças e semelhanças? A gente entende de verdade o outro quando consegue se reconhecer no olhar dele. Tanto faz se esse "outro" for um romano antigo, alguém da nossa família, um morador de rua, um grande líder ou aquele colega com quem não conversamos tanto...

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Ágora - Suspeita de traição no relacionamento amoroso

Bia estou escrevendo aqui porque queria saber o que vc acha de um assunto um tanto delicado e não quero que coloque meu nome. Eu namorava uma moça e a gente estava já pensando eu e ela  em ela mudar aqui pra casa, mas eu soube que ela me traiu com outro. A pessoa que me contou isso não tem prova nenhuma mas é muito amigo meu então confio nele. Agora não sei o que fazer eu tentei me afastar um pouco mas não consigo por que gosto muito dela mas também não queria continuar numa relação que tem enganações porque como disse esse meu amigo, se ela faz uma vez, vai fazer de novo, apesar que ela jura que nem sabe do que ele está falando. O que vc faria? Fica com Deus.
G. - Rio Claro, SP


Bom dia, G.

Que situação mais chata. Vamos lá, não importa tanto o que eu faria, mas sim o que você vai escolher fazer depois de pensar na situação. O que posso fazer é ajudar nesse processo de reflexão, a escolha final sempre será sua. 

Clareando a história: você e sua namorada estavam bem e felizes, pensando em dar esse passo de morar juntos e tornar o relacionamento de vocês ainda mais sério. Então surge um amigo (que não fazia parte do relacionamento, por mais querido que fosse) e diz sem ter provas que a moça te traiu. Se toda história é um caminho, chegamos aqui a uma divisão tripla. Sua primeira escolha: acreditar no amigo e agir partindo disso. Ou acreditar na namorada e tocar a vida como planejavam. Ou, ainda, investigar essa história por si mesmo.

Independentemente de qual caminho você prefira, no cenário em que você caminha, existem duas possibilidades pairando no ar como sombras: a primeira é o seu amigo estar sendo muito sincero com você e a moça realmente ter te traído. A segunda possibilidade é a história não ser verdadeira. Algumas pessoas vêem uma coisa e compreendem outra. Algumas pessoas acreditam verdadeiramente que relacionamentos sempre acabam mal e que sempre há traições, o que não é verdade. Por fim, sei que dói, mas se por um lado traições acontecem sim, por outro lado pessoas "de confiança" e que se dizem muito amigas algumas vezes são exatamente aquelas que, pelo motivo que for, se colocam entre nós e a nossa felicidade, plantando conflitos, dúvidas e brigas. Isso também acontece, muito mais do que as pessoas gostam de pensar.

Como caminhar por um cenário tão hostil, em que não sabemos ao certo nem mesmo quem é sincero, quem realmente quer o nosso bem e em quem podemos confiar? Hora de parar, tomar um gole d'água e reavaliar seu mapa, peregrino! As coisas nem sempre são assim, certo ou errado, bom ou ruim, isto ou aquilo. Quero dizer que vale a pena explorar bem essa situação... A namorada já deu motivos para desconfianças ou a dúvida surgiu apenas quando o amigo fez esse comentário? Você já viveu antes situações de traição (com ela ou com outras pessoas)? Se sim, o que fez e qual foi o resultado? Explore mentalmente cada passo que você poderia dar e perceba bem qual te deixa melhor com você mesmo.

Se posso dizer alguma coisa do mundo mais concreto, conheço casais em que houve traição e terminaram, ou em que houve traição e que, após uma conversa madura e sincera, superaram o fato e o namoro ficou ainda melhor. Conheço casais que apenas ignoraram a traição ou que após a suspeita, "deram o troco" e se fragilizaram muito mais do que imaginaram, tanto como casal quanto como pessoa. Conheço casos em que "amigos" e até familiares plantaram as dúvidas de uma traição que nunca aconteceu e que, juntos, o casal superou isso e continuou a vida ainda mais unidos. As crises não existem para nos derrubar. Elas existem para que a gente repense o nosso caminho, descubra forças e aspectos sobre a gente mesmo que ficariam sempre escondidos sem esses momentos mais tensos. 

beijos,
Bia


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quinta-feira, 24 de abril de 2014

5 Hábitos autodestrutivos

Muito se fala sobre hábitos saudáveis. Pensando nisso, pensei em fazer ao contrário: vamos conversar hoje sobre hábitos que muitas pessoas têm, algumas vezes até sem perceber, e que nos fazem mal, no sentido psíquico e emocional.

Importante: esta NÃO é uma conversa sobre hábitos como compulsões, ou pessoas que se mutilam, que se colocam em riscos graves e diversos ou algo do tipo, que são casos sérios e que precisam de tratamento. São situações do dia a dia que todos nós passamos em alguns momentos, num contexto ou em outro.
Já ouviu a expressão "dar um tiro no próprio pé", usada quando a pessoa sabota a si mesma?
A dor emocional de um "golpe" vindo da pessoa em quem mais deveríamos confiar (nós mesmos), dói tanto quanto...

1- Não admitir (para si mesmo) o que te faz feliz:
Não importa o que é, nem de que área da vida estamos falando. É preciso ter consciência daquilo que nos deixa bem, e que nem sempre é a mesma coisa que deixaria seus amigos, sua família, seus colegas ou o pessoal em geral felizes. Exemplos: o pai de Margarida sonha em ter uma filha médica, e para corresponder às expectativas do pai e ser visto por ele como uma pessoa de sucesso/inteligente/(acrescente aqui as características que preferir), Margarida até prestou vestibular para medicina, talvez tenha até iniciado o curso e, quem sabe, se formado. Mas na realidade, o sonho dela era trabalhar com algo completamente diferente, aliás, ela morria de aflição de ver sangue! Ou seja, não adianta se iludir pensando que o reconhecimento do outro trará aquele sentimento de realização para você quando você está vivendo um sonho que não é seu, indo atrás de uma meta que não é sua ou entrando num relacionamento com aquela pessoa que você já percebeu que não tem nada a ver com você. Nada apodrece mais depressa do que sonhos mortos.

2- Acomodar-se:
Quando eu era criança, minha mãe tinha uma poltrona amarela imensa, pertinho de uma janela que dava para um jardim bem florido, onde se podia tomar um solzinho enquanto lia um bom livro. Eu sempre ia me sentar lá para ler os livros da escola e nunca dava certo: o lugar era tão confortável e me acomodava tão bem que minha mente se perdia em distrações e eu nunca terminava as tarefas... Com a vida da gente é a mesma coisa. Sabe aquele relacionamento com a pessoa que não é tão a sua cara, mas até que é legal? Ou aquele emprego totalmente oposto ao que você sempre quis, mas que até paga razoável e é "só por uns tempinhos"? Ou ainda aquela gambiarra na casa que está horrível e que a gente morre de vergonha quando recebe visitas, mas até que funciona bem? Então, o nome disso é zona de conforto. Fuja disso o quanto antes, não existe crescimento aí. É como querer assar aquele pão feito da massa mais deliciosa num forno morno.

3- Desistir do que você quer sem nem mesmo tentar:
Seja por estar preso na zona de conforto, seja por insegurança ou por aquele monte de desculpas esfarrapadas que a gente sempre arruma: a faculdade está puxada, o trabalho está estressante, nem sou tão capaz assim, meus filhos são pequenos, cuido dos meus pais muito idosos, estou com o dinheiro apertado, briguei com o namorado, não tenho tempo... Gente, é triste mas é a realidade: a vida sempre nos trará tarefas, desafios e situações daquelas que a gente tem que se virar rapidinho. É parte de ser adulto, acostume-se. Os sonhos não podem e não vão ser deixados de lado apenas por esses detalhes. As alternativas: organize-se (em todos os sentidos), peça ajuda ou orientações quando necessário, admita suas falhas e erros para que possa contorná-los, calcule e planeje a sua rota de ação. Ah si, feito isso, vai fundo! Sem medo de agir e de tomar atitudes!

4- Fazer pouco caso de si mesmo:
Violeta desenha muito bem. Mas sempre que recebe um elogio, ao invés de agradecer, ela diz que nem é tão boa assim, que nunca vai chegar a lugar nenhum com os desenhos e que morre de vergonha quando alguém os vê. Admitir nossas qualidades não é ser arrogante. É ser realista! Por que podemos admitir as falhas e erros (somos até admirados ao fazer isso) mas não podemos dizer que somos bons em algo? Outra forma como isso acontece é a pessoa que, antes que todos notem algo de bom nela/naquilo que ela fez, já critica a si mesma com palavras duras e injustas. É bom ser o nosso maior crítico, mas a vida exige equilíbrio: seja, ao mesmo tempo, o seu maior admirador.

5- Perder o encanto:
Quando jovem, Rosa sempre foi uma garota cheia de vida, que sorria bastante e tinha muita motivação para ir atrás dos seus sonhos e de tudo aquilo que a deixava bem. Mas, em algum momento, algo aconteceu e tudo mudou. Ela ficou "apagada", emocionalmente falando, fria consigo mesma... Já não sorria tanto, não tinha tantos sonhos assim, não mantinha contato com os amigos e a família, não dava tanta atenção às suas necessidades, chegou até a olhar para a vida dela e pensar que não reconhecia mais a si mesma. Rosa pensou que deveria ter algo de errado com ela... Talvez estivesse com uma depressão leve? Talvez fosse o estresse, estava numa fase difícil, mesmo. Ou, quem sabe, ela cresceu e está com a vida com tantas urgências que não tem mais tempo para si mesma. Gente, isso é muito triste! Não, a Rosa provavelmente não tem depressão. Arrisco dizer que ela apenas se perdeu de si mesma quando tentava ser tão "boa" e eficiente, as coisas pararam de fazer sentido e por estar tão imersa em suas atividades diárias e sem reparar na vida, ela só se deu conta quando a coisa apertou. Não deixe isso chegar a esse ponto ou piorar ainda mais. Nunca perca o encanto da vida, por mais corrida que ela seja. Tenha uns tempinhos de respiro. Faça algo que gosta (mesmo que seja algo simples e aparentemente bobinho, como passar aquela manhã chuvosa de sábado na cama lendo um bom livro ou vendo um filme). Permita-se o seu tempo, permita-se admirar a vida e se encantar com ela. Não é perder tempo. Digo mais: esse tempinho para encantar-se é o que sustenta todo o resto.

Eu ia terminar diferente, mas resolvi fechar o artigo de hoje respondendo a uma pergunta que uma pessoa querida que leu este texto assim que terminei me fez: "por que todas as moças dos exemplos têm nome de flor?" Atento ele, não? Escolhi nomes de flores para lembrar a todos que por mais difícil e escuro que esteja o caminho, chegará o momento de desabrochar. Todos nós carregamos a possibilidade de desabrochar e ser feliz - mesmo que a vida continue corrida e cheia de responsabilidades e compromissos!

terça-feira, 22 de abril de 2014

Mythos - Pachamama, madre tierra: terra, mãe e sustentação

Hoje, 22 de abril, comemoramos o Dia da Terra. Pessoalmente, este é um dia que gosto bastante, pela questão ecológica e pela proposta de refletir sobre a terra enquanto algo mais do que "apenas" o solo sobre o qual caminhamos. Para muitos povos, a terra é vista como uma criatura viva, a mãe de tudo e de todos. Não apenas porque nos dá os alimentos, mas também porque nos permite viver e nos permite morrer. A terra é aquela que nos nutre, nos sustenta, nos dá o "cenário"/contexto em que vivemos e, depois de tudo, ainda nos acolhe na morte, da mesma forma que acolhe as sementes que esperam para brotar.

Pachamama era uma deusa muito presente entre os povos andinos da América Latina. Ela é até hoje muito presente nessas culturas, muitos ainda a cultuam e deixam oferendas, seja na face de Pachamama, seja mesclada à face da Virgem Maria, que os conquistadores espanhóis relacionaram a ela. Seu nome é formado por duas palavras da língua quíchua, falada pelos antigos incas. Pacha significa terra, espaço, mundo e também tempo. Mama significa mãe.

Os povos antigos da região dos Andes erguiam grandes pedras para Pachamama, perto das quais enterravam suas oferendas, já que a deusa vive no interior da terra. Eles pediam a ela por uma boa colheita, mas também por proteção e acolhimento, pois a terra era uma criatura viva e dotada de poderes sobrenaturais ilimitados. Esses poderes da terra eram acessíveis em locais conhecidos como huacas. Até hoje, os povos que vivem nessas regiões enterram panelas de barro com comida como uma oferenda para Pachamama. Outro ponto curioso: esta era uma divindade essencialmente feminina. E, por ser próxima de nós como uma mãe é próxima de seus filhos, as mulheres se referiam a ela como "companheira".


Questões para reflexão:

1- Pensamos, algumas vezes, em tudo o que a terra faz por nós. Mas o que você faz pela terra? Todo relacionamento precisa de esforços e atitudes vindas de cada uma das partes envolvidas. Não existe conexão com a terra quando apenas a terra dá e nada recebe, isso é "sugar" o outro, não se relacionar! Vale tudo: de adotar uma pracinha perto de casa ou plantar um jardim (mesmo que em vasinhos nos apartamentos das grandes cidades modernas), separar o lixo para reciclagem, dar preferência a comprar alimentos frescos dos produtores locais... Simbolicamente falando, penso que não há sentido em conversar sobre temas como foco, atenção, carreira, enfim, tudo o que envolve "ter os pés no chão" se não existir, antes, uma conexão com a terra. Nosso discurso logo se tornaria vazio.

2- Muitos povos vêem a terra como nossa mãe. Os povos nativos, gregos e romanos, povos africanos e orientais... Mesmo na esfera judaico-cristã, em que a humanidade descende de um primeiro casal, o nome da primeira mulher, Eva, significa "terra". Vamos, portanto, pensar um pouco sobre a maternidade. Como é ou foi o relacionamento entre você e sua mãe (ou alguém que tenha cumprido este papel para você)? Quais são ou eram os maiores conflitos? Que características da sua mãe e do relacionamento entre vocês mais te marcou? Para quem é mãe: qual mãe você tenta ser para os seus filhos? Existe algo de parecido entre o seu jeito de ser mãe e o da sua própria mãe? O que você pensa sobre isso?

3- Nada é sagrado. As divindades, palavras, lugares e situações da vida descritas por nós como sagrados só o são porque nós, seres humanos, assim resolvemos. Nada é sagrado por si só, apenas após nós tornarmos algo sagrado, dando à coisa/ao ser um sentido sagrado. O que cumpre essa função sagrada para você? Mais do que isso, há algo que, para você, tenha um sentido semelhante ao de Pachamama, algo visto como protetor e sustentador de todo o seu ser? 

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Ágora - Medo de dirigir

Estou vivendo uma situação chata. Morro de medo de dirigir. Não entendo isso porque não sou uma menina de 18 ou 20 anos que acabou de aprender, já tenho meus 45 e apesar de ter carta, não consigo pegar o carro. Me dá um medo absurdo de bater, de machucar alguem, de me machucar, principalmente se tem criança no carro. Tenho uma vida ativa, trabalho, cuido da minha família, mas esse medo de incomoda muito. Nem sei como começar.
Marli - Goiânia, GO


Bom dia, Marli!

Este é um medo muito comum hoje em dia. E considerando o trânsito caótico das cidades e a quantidade de acidentes que acontecem, não vejo nada de irracional. Claro, não podemos parar a vida em função do nosso medo, mas precisamos reconhecer que é justamente ele que, em doses saudáveis, nos faz colocar os pés no chão e agir com cuidado, com prudência. Algumas dicas:

- Comece devagar. Aproxime-se do carro, experimente sentar no lugar do motorista. 
- Não queira já pegar uma autoestrada ou a maior avenida da cidade. Tente antes dar uma volta no quarteirão ou ir a algum lugar perto, que você já esteja familiarizada com o caminho. Conforme você se sentir mais confiante, aí sim se permita ir a novos lugares, mais distantes...
- Cuidado com aqueles amigos que se oferecem para ir com você, só aceite a ajuda ou convide se for uma pessoa calma, porque se você tem medo, já basta uma pessoa alterada no carro, as reações do outro podem atrapalhar mais do que ajudar. 
- Não se assuste com os sintomas do medo (como taquicardia ou boca seca), eles diminuem conforme a prática, quando senti-los, dê a eles o nome da emoção - medo, ansiedade, "nervoso", assim entram na esfera do conhecido e tendem a diminuir.

Se você não conseguir fazer isso sozinha, existem diversas alternativas para superar o medo de dirigir. Algumas autoescolas oferecem treinamento para motoristas que já têm a habilitação mas não têm confiança ou têm medo de sair com o carro. E, é claro, se o medo estiver maior do que você pode lidar, vale a pena procurar um psicólogo.

Muito importante: não queira provar nada para ninguém, você não deve explicações! Se quiser vencer o medo de dirigir, que essa vontade seja realmente sua, a pressão dos outros, na maioria das situações, só atrapalha tudo.

Beijos,
Bia


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terça-feira, 15 de abril de 2014

Mythos - O livro de Thoth: lidar com o desconhecido

Hoje temos um mito egípcio que envolve o deus Thoth, o deus lua, representado como um homem com cabeça de íbis. Ele é o deus do conhecimento, em especial o conhecimento secreto e a magia. Os egípcios foram um dos poucos povos a associar a lua a um deus e não a uma deusa. No entanto, o deus Thoth será apenas um elemento do cenário do mito de hoje. O discurso, a ação em si, está nas mãos de um mortal: um príncipe egípcio chamado Setna Khaemwese, filho do faraó Ramsés II.

Certo dia, Setna descobre que existia um livro que fora escrito pelo próprio Thoth. Ficou tentado a tomá-lo para si... quantos conhecimentos secretos deveriam existir no tal livro! Diziam as pessoas que os conhecimentos do livro de Thoth dariam grandes poderes a quem lesse o tal livro, como controlar os mares, ter poder sobre o céu e a terra, olhar para o sol sem fechar os olhos, aprisionar a morte... Estava decidido, ele precisava do livro! O príncipe soube que o livro estava escondido numa tumba próximo à cidade de Menfis. Importante contar: os egípcios, como a maioria dos povos antigos, tinham um respeito muito grande pelos mortos. Os mortos não eram apenas pessoas que deixavam de existir, e sim almas que se abriram para a existência em maneiras e contextos que os vivos só poderiam supor.

Enfim, o príncipe Setna rapidamente juntou alguns pertences e partiu para Menfis, uma cidade onde o culto aos mortos era bastante forte. Depois de muito perguntar e insistir, Setna saiu da cidade e encontrou a antiga tumba no local onde lhe haviam indicado. Mal se aproximou, foi abordado por fantasmas. Eles estavam surpresos de encontrar um vivo entre eles e fizeram de tudo para impedir o rapaz de profanar a tumba. Contaram que Thoth os matou por haverem tentado se apoderar do livro. Usaram truques e técnicas que apenas os mortos e quem lidava com eles podiam conhecer, para atrasá-lo e dificultar seu caminho. Argumentaram que, se ele roubasse o livro, seria castigado também. Mas Setna não ouvia, ele era um príncipe, moldado pelo próprio Ptah (um antigo deus criador) em ouro e preciosidades, assim como os deuses. O príncipe derrotou os fantasmas, profanou a tumba e tomou o livro de Thoth para si.

Mal deu alguns passos para longe da tumba profanada, Setna encontrou uma mulher lindíssima! Seus cabelos eram brilhantes e sedosos, a pele morena parecia feita de ouro... Ela o seduziu, mas antes que ele pudesse sequer tocar nela, a moça disse que só ficariam juntos se, antes, Setna entregasse a ela toda a sua fortuna e matasse seus próprios filhos. Cego de paixão e tentado pelos poderes do livro, ele concordou e assim fez. No entanto, assim que se abraçaram, a linda moça se desfez no ar como vapor e Setna se viu sozinho. Os filhos estavam vivos e bem. A fortuna estava como sempre esteve. A mulher era, também ela, um fantasma que se divertia usando seus truques nele e o assustava jogando com os poderes do livro. De acordo com os antigos egípcios, Setna foi sensato: voltou a Menfis e devolveu o livro à tumba.


Questões para reflexão:

1- Nos mitos, lendas e histórias de ficção, o desconhecido assume diferentes formas: espíritos e seres sobrenaturais, monstros, situações arriscadas e ameaçadoras. Claro que no nosso dia a dia não é bem assim... Muitas vezes o desconhecido se mostra na forma de sintomas, de sonhos que nos causam uma certa angústia, de planos que temos mas aos quais não sabemos ao certo como chegar, em situações de crise, nas perdas de todo tipo, enfim, na nossa própria sombra. Faça um desenho, uma modelagem em barro ou massinha, uma colagem, enfim, algum tipo de manifestação artística com o tema "o desconhecido". Dê um título e três características. Este é um primeiro passo para trazer o desconhecido para a luz da consciência. Por que trabalhamos com a arte? Para fugir das "armadilhas dos fantasmas", ou melhor, da censura que a gente se impõe nessas ocasiões sem sequer perceber.

2- Por que você acredita que Setna preferiu devolver o livro à tumba? Limpando a situação dos fatos do dia a dia, nos restam os valores, desejos e motivações inconscientes. E você, se tivesse a chance de colocar as mãos num livro que desse "poderes" infinitos, o que escolheria fazer? Por que?

3- O desconhecido pode assustar, e isso não é vergonha nenhuma, muito menos sinal de fraqueza! No mito isso fica claro não só quando a tumba é vigiada por fantasmas ao invés de guardas, mas também quando a mulher/espírito tenta seduzir Setna e o convence a fazer coisas que jamais faria. Na vida real, como você reage ao contato com o desconhecido em sua vida? Quais pontos te assustam e como você lida com eles? 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Ágora - Sonhos que se repetem

Bom dia Bia, tudo bem?
Queria mandar perguntinha pro blog...
Não é bem um problema ta? só curiosidade mesmo... pra vc ver eu tenho sempre o mesmo sonho... não tipo toda noite, mas já faz uns 5 anos que sempre que alguma coisa vai mudar na minha vida eu sonho que to na mesma estrada e tomo o mesmo onibus. Não acho assustador nem tenho medo porque é um sonho tranquilo mas fico curiosa de saber pq acontece isso.
Obrigada. bjs
Karina V. - Franca, SP


Olá, Karina!

Para começar, a situação que você me contou, de ter sempre o mesmo sonho, é mais comum do que se pensa. Não significa nada de "sobrenatural" ou de "especial" como algumas pessoas gostam de dar a entender, são apenas mecanismos que a nossa psique encontra para mandar a mensagem da mente inconsciente para o consciente. Mas é muito positivo você perceber não apenas que costuma ter o mesmo sonho, mas também em qual tipo de situação ele acontece. Isso mostra uma boa consciência de si.

Como conversamos em outros artigos, num sonho tudo é simbólico. A situação, o desenrolar das cenas, as pessoas, objetos, o cenário, as cores, as emoções que sentimos durante o sonho e depois que despertamos, as palavras usadas, o tom de voz... enfim, tudo mesmo!

Nosso inconsciente está sempre percebendo aquilo que vivenciamos. Claro, por ser inconsciente, não temos consciência dessas percepções, mas esse lado da nossa psique capta elementos como situações pouco claras, tons de voz, expressões faciais, palavras de significado dúbio, e por aí vai. Essas mensagens nos são comunicadas através de tudo aquilo que é simbólico, por exemplo, os sonhos, sintomas, atos falhos... Cada pessoa tem, se prestar atenção a si mesma vai notar isso, algum canal "especial" para essa comunicação. Você, por exemplo, conta que quando a vida está para "tomar um novo rumo", acontece o sonho do ônibus. Um conhecido meu diz que sempre que está para fechar um negócio que acabará mal, sente um desconforto no estômago. Enfim, é algo normal.

Mas por que acontece? O inconsciente de cada um de nós tem seus símbolos e os usa conforme a situação. Nossa psique percebe que alguns desses símbolos são mais eficazes em comunicar a mensagem (e quais são esses símbolos mais eficientes é algo que varia para cada pessoa). Quando tem uma mensagem urgente, o que acontece? O inconsciente se vale desses símbolos que chamarão mais a nossa atenção! Seja num sonho, num sintoma, numa sincronicidade...

No caso de pessoas que têm pesadelos ou sonhos recorrentes que causam mal estar, é interessante anotar e trabalhar com esse sonho, buscar interpretá-lo. Assim, conforme deciframos os símbolos e a mensagem, a psique percebe que "pode" mudar a forma de comunicação, pois já entendemos o recado. Nem sempre um sonho pode ser interpretado por completo e não há problemas nisso, pois os diversos sonhos que temos numa mesma fase trazem significados bem semelhantes, se a gente olhar com atenção.

beijos,
Bia


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quinta-feira, 10 de abril de 2014

5 Maneiras de trabalhar a concentração

Hoje vamos conhecer algumas dicas práticas para trabalhar a concentração. Isso é algo útil em diversas áreas da nossa vida: na espiritualidade, nos estudos e no trabalho, nas tarefas diárias… Por definição, a concentração é uma função neuropsicológica que nos permite escolher apenas um estímulo do ambiente (um livro que estejamos lendo, ou o foco da nossa meditação, ou ainda uma tarefa da vida prática) e, ao mesmo tempo, ignorar todos os outros estímulos, como pessoas falando, os carros passando lá na rua, nossos próprios pensamentos distratores (aqueles que teimam em vir nas horas menos convenientes e nos tiram do nosso foco). Vamos ver algumas sugestões para trabalhar a atenção concentrada:
concentração
1- Meditação visual: algumas pessoas acham que apenas quem é muito calmo e tem um grande poder de concentração pode meditar, mas isso não é verdade. Todos podem e devem praticar a meditação, mesmo que apenas por poucos minutos, pois ao mesmo tempo que nos exige certa concentração, a atividade também a desenvolve. Começando com uma meditação visual. Escolha um objeto qualquer. Pode ser, por exemplo, um relógio de ponteiros, assim você aproveita e marca o tempo. Sente-se, relaxe e respire fundo. Olhe para o relógio. Apenas o relógio importa, como se o Todo se resumisse a ele. Apenas observe o relógio. Se algum pensamento vier à mente, assim que você perceber, volte a se concentrar no relógio. É difícil? Comece devagar, com um ou dois minutos, e aumente o tempo aos poucos.
2- Meditação da respiração: o princípio é o mesmo da anterior, mas esta é um pouquinho mais avançada. Não há algo concreto e fora de nós para usar como foco de concentração. O foco está dentro de você mesmo, é a sua respiração. Sente-se confortavelmente e feche os olhos. Relaxe e respire fundo. Sempre respire fundo, lentamente, com calma e sem pressa. Talvez você perceba que sem o foco externo, os pensamentos distratores aparecem mais vezes. Está tudo bem. Quando percebê-los, apenas respire fundo e volte a se concentrar na respiração. Outra vez, comece aos poucos. Alguns minutinhos todos os dias valem mais e têm um efeito mais positivo do que uma longa prática de vez em nunca…
3- Lista de tarefas: uma dica da vida prática é fazer listas. Muita gente se distrai porque tem muitas tarefas para cumprir e menos tempo do que gostaria. E a nossa tendência é pensar coisas como “quando terminar com isso aqui vou fazer o trabalho de história antiga, depois vou dar um jeito na louça, vou ligar para o Fulano e resolver tal coisa e mais tarde tenho que ir a tal compromisso”. Parece organizado, mas não é. Porque a cada vez que repassamos na mente as tarefas e nos cobramos para lembrar de todas, nosso corpo secreta substâncias como a adrenalina e o cortisol que, quando em excesso, levam a quadros sérios de estresse, além de outros problemas físicos e psíquicos. Nossa mente se cansa antes de começar, pois a cada vez que pensamos e nos cobramos, é como se já tivéssemos feito e refeito tudo. Por isso, coloque no papel e libere o espaço mental para algo mais útil. Conforme for cumprindo as tarefas, risque-as na lista. A preocupação e o estresse diminuem conforme a lista diminui. Além disso, é bem mais fácil se concentrar em uma tarefa por vez do que tentar fazer todas ao mesmo tempo e não terminar nenhuma. Ou pior, terminar de forma medíocre.
4- Use a distração a seu favor: sempre fui uma pessoa distraída e com certa dificuldade de manter a atenção. E algumas vezes isso me ajudou muito na vida. Nossa sociedade tem o costume de colocar algumas coisas como apenas boas e outras como apenas ruins sem ver que tudo tem (pelo menos) dois lados. Sempre que vou escrever, gosto de me sentar perto de uma janela onde se possa ver um jardim, ou as árvores na rua, ou mesmo ter um vasinho de flores por perto. Porque sei que é algo que me encanta e me distrai. E sei que, com distrações na medida certa, meus textos (sejam de ficção, sejam artigos para blogs e sites, seja um texto técnico) saem muito melhores do que quando teimo em embarcar na loucura do mundo e fazer uma “linha de produção”. Sinto que isso me “humaniza” e me ajuda a pensar nos diversos focos da mesma situação. Avalie-se e perceba como a sua distração ou desatenção pode agir de forma boa na sua vida. Não estou dizendo que é para deixar para lá a tentativa de manter a atenção e de se organizar. É mais como correr “riscos calculados”. Em excesso a distração é ruim, mas em doses saudáveis é o alimento da criatividade e o colorido dos dias comuns.
5- Dê um tempo: Ninguém é focado 24 horas por dia. E se for, na certa deveria buscar ajuda… Dê um tempo. Faça pequenos intervalos de tempos em tempos, seja entre tarefas do dia a dia, seja entre exercícios de meditação. Dê uma volta, respire novos ares, converse com um bom amigo… permita-se ser desatento para que no momento certo você se permita usar ao máximo a sua atenção concentrada. A vida não é feita de receitinhas e esquemas prontos, a vida é feita de equilíbrio. Até o ciclo das estações do ano dedicou uma estação à beleza das flores. Por que não você?
Publiquei este artigo originalmente no site Frutos do Carvalho, dia 10 de fevereiro de 2014. Para ver o artigo original, clique aqui.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Mythos - Cronos: ser engolido pelo tempo

A ideia para escrever sobre este tema surgiu quase por acaso algumas semanas atrás. Eu estava conversando com alguns amigos quando, sufocado de atividades e prazos, um amigo meu me disse assim: "me sinto preso, me sinto como se o tempo me engolisse!" Claro, meu amigo falava em sentido figurado... Mas isso não me impediu de imaginar a cena, como num filme! E, na imaginação, o tempo era uma criatura gigantesca, que engolia meu pobre amigo sem sequer mastigar... E aí lembrei de um mito em que aconteceu exatamente isso!

Imagem: "Saturno devorando um filho",
do espanhol Francisco Goya, 1823.
Para quem não sabe, Saturno é como
Cronos ficou conhecido entre os romanos.
Estamos no mundo grego. Aliás, bem no início do mundo grego... O mundo ainda não tem deuses, tem apenas os Titãs e outras criaturas. Quando analisamos a mitologia grega, os deuses representam emoções, atitudes, situações e arquétipos (estruturas antigas da nossa psique) típicos do ser humano, como o amor, o trabalho, a guerra ou agressividade, a liderança, a maternidade, a morte... Já os titãs, são mais antigos do que isso. Eles representam forças mais básicas, que também fazem parte da nossa vida e do nosso mundo (externo e interno), mas sem ter as questões tão refinadas. Digo isso porque a conversa de hoje é sobre Cronos, o titã que representa o tempo.

Cronos é filho de Urano e Gaia ou, em linguagem atual, do Céu e da Terra. Gaia criou Urano para que ele a envolvesse por todos os lados... E juntos, tiveram muitos filhos, os doze titãs, hecatonquiros (gigantes com cem braços), ciclopes (gigantes com apenas um olho). Certo dia, Gaia olhou para a prole e percebeu que os filhos que criava acabariam por destruir a terra (a ela mesma!) e persuadiu o mais jovem dos titãs, Cronos/o tempo a castrar o pai, pois assim eles não teriam mais filhos. Cronos fez como sua mãe ordenou. O sangue e o sêmen de Urano, ao tocarem na terra/Gaia deram origem a mais criaturas. De seu sangue nasceram os gigantes, as ninfas e as fúrias. De seu sêmen, que caiu sobre a espuma do mar, nasceu Afrodite, a deusa do amor.

E assim Cronos passou a ser o líder. Ele se casou com uma de suas irmãs, que também era um titã: Réia, a energia criadora da terra. Juntos os dois deram origem a alguns dos principais deuses: Hades (deus dos mortos), Poseidon (deus dos mares), Héstia (deusa do lar e da lareira), Hera (deusa do casamento), Deméter (deusa da agricultura e colheita, assim como da maternidade) e Zeus (deus dos raios, que viria a se tornar o líder dos deuses). Acontece que Cronos tinha algo de muito parecido com seu pai. Ele temia que uma antiga profecia se tornasse realidade. Essa profecia dizia que ele seria destronado por um de seus filhos. Com medo dessa realidade, Cronos tomou uma atitude, agindo antes que o tempo (ele mesmo!) estragasse tudo: cada vez que Réia paria uma nova criança, ele a devorava. Inteira, sem sequer mastigar! 

Para encurtar a história, os deuses, que são imortais, continuaram crescendo e se desenvolvendo no estômago do pai. Réia se entristecia com essa situação, por isso, salvou Zeus, o mais jovem, e o escondeu numa caverna. Quando cresceu, uma águia contou a Zeus sobre sua história e seu destino. Ele, então, destronou Cronos e libertou os irmãos de dentro do estomago do pai (os deuses, portanto, passaram a viver fora do tempo!), assumindo a liderança. Claro que isso não foi tranquilo assim, houve uma grande guerra entre os deuses e os titãs. Nós, seres humanos, ficamos ao lado dos deuses, combatendo gigantes e outras criaturas - enfim, enfrentando os desafios da vida de cada um de nós. No final dessa guerra (titanomaquia), existem duas versões sobre o que houve com Cronos. A mais conhecida diz que os deuses o prenderam no Tártaro (o abismo mais profundo do mundo dos mortos, destinado a grandes criminosos), juntamente com outros titãs que se opuseram aos deuses, gigantes, etc., sendo que desde então eles estão presos lá e deuses e humanos vivem em segurança. Na segunda versão, originária dos cultos órficos (são cultos que vem de antigos hinos atribuídos a Orfeu, um mortal que ousou entrar no mundo dos mortos para resgatar a esposa - mas esta história fica para uma próxima vez - enfim, os cultos órficos davam grande importância à questão da morte e da continuidade da alma). Nessa segunda versão, Cronos cai em si e ele e os deuses fazem as pazes, sendo que Zeus dá a ele a Ilha dos Abençoados, uma região do mundo dos mortos belíssima, para onde vão as almas boas e nobres que conseguem ir para os Campos Elísios (algo semelhante a ideia de paraíso) por três vezes. Lá, diz essa versão menos popular, Cronos e Réia reinam e garantem uma vida cheia de paz e abundância.


Questões para reflexão:

1- Sobre o tempo: como você se relaciona com o tempo, de forma mais tranquila, ignorando, ou sempre "correndo contra o tempo"? Em que tipo de situação você se sente "engolido pelo tempo"? Como você costuma lidar com elas? Como isso se reflete no seu dia a dia e na sua vida (inclusive, se for o caso, em sintomas físicos ou psíquicos - dores, problemas digestivos, hipertensão, problemas de sono, ansiedade...)?

2- Cronos tinha medo de ser destronado por um de seus filhos. Algo semelhante já aconteceu a você? Por exemplo, na relação muito dominadora com o seu pai/figura paterna (aquele tipo de pai que de tão dominador, "devora" simbolicamente o filho) ou mesmo, na versão contrária, com os seus filhos, caso você seja pai. Lembrando que não falamos apenas de família, o papel do pai e de Cronos pode ser ocupado por outras figuras, como um grande líder, uma instituição da qual fazemos parte, o sistema social... Se for o caso, quais costumam ser suas reações a esse tipo de interação que "devora"?

3- Não podemos viver fora do tempo, não somos deuses/imortais. Estamos submissos ao tempo, gostemos disso ou não. Portanto, se queremos viver com equilíbrio, tudo o que nos resta é seguir os passos de Orfeu e fazer as pazes com Cronos. Terminamos com essa proposta de reflexão: você permite que o seu tempo passe, você caminha ao seu lado... ou você se percebe tentando "parar o tempo", aprisioná-lo no Tártaro a todo custo? Não é a toa que a doutrina órfica coloca Cronos na Ilha dos Abençoados. Uma vida justa e "nobre", ou em palavras atuais, uma vida equilibrada e com qualidade, envolve uma relação harmoniosa com o tempo, envolve aceitar e entrar no ritmo da música, sem a necessidade de acelerar ou retardar.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Ágora - Adoção por casais homossexuais

Meu nome é Gilson, conheci o blog faz pouco tempo e queria mandar uma pergunta que ta me deixando louco. Tenho um irmão que é gay. Ele mora junto com o namorado e uns anos atrás fizeram até um almoço como se fosse um casamento normal. Eu não aceito muito porque pra mim isso não é coisa certa dois homens juntos, mas respeito porque ele é meu irmão e mesmo não sendo o que eu acho certo, sei que ele não faz nada contra ninguem por viver com outro homem se ele é feliz assim pra mim tá otimo, fico feliz por eles! Acontece que agora ele e meu "cunhado" estão querendo adotar uma criança. A gente ouve muita história por aí, confio no meu irmão mas fico assim meio estranho com isso. Até porque a criança é uma menina, tem 4 anos e é muito graciosa, parece que eles se dão bem e a adoção ta indo nos conformes. Mas fico inseguro de pensar como dois homens vão poder criar uma menina, entende? Não sou preconceituoso, fico feliz por eles, mas isso é muito novo e estranho pra mim ainda. Queria ajuda para pensar direito e entender isso.
Gilson D. - Florianópolis, SC


Bom dia, Gilson!

Muito interessante e atual essa situação que você contou. Vamos começar por partes, pois percebo dois temas diferentes e importantes no seu discurso: a homossexualidade e o casamento do seu irmão, e também a adoção por casais homossexuais. É normal a gente ficar meio "chocado" com algo que não conhece bem, mas gostei muito da sua atitude de repensar seus valores e procurar ver a situação com a mente mais aberta. Vamos lá!

Ninguém escolhe a orientação sexual. Da mesma forma que você nunca escolheu gostar de mulheres, seu irmão também nunca escolheu gostar de homens. É algo da identidade da pessoa. O casamento entre homossexuais é tão sério, válido e legítimo quanto o casamento entre um homem e uma mulher, amor é amor, comprometimento é comprometimento, leis civis são leis civis, independentemente de qualquer detalhe. 

Importante deixar claro que homossexualidade NÃO é doença, é uma característica de identidade. Isso significa que um(a) homossexual é uma pessoa tão séria, sincera e capaz como qualquer outra. Inclusive para se casar e formar uma família. Ser homossexual significa apenas que o interesse sexual do seu irmão é voltado para homens (adultos). Essa condição NÃO faz dele alguém incapaz de controlar seus impulsos sexuais, muito menos um pedófilo. Ele não vai paquerar todos os homens que ver pela frente, não vai ser grosseiro com as mulheres e muito menos molestar crianças, a não ser que tenha algum tipo de desvio (que qualquer pessoa pode ter, tanto faz o gênero e/ou orientação sexual). Da mesma forma que um heterossexual não sai por aí molestando ninguém ou sendo grosseiro, a não ser que tenha algum desvio de conduta.

Sobre famílias homoparentais (isto é, famílias cujos pais são homossexuais), acho que já é mais do que tempo da sociedade repensar e aceitar isso com naturalidade. Afinal, se somos todos iguais perante a lei, somos todos cidadãos. E todo cidadão que assim desejar e for considerado capaz pela Justiça, pode sim adotar uma criança e constituir família. Um dado para refletir: temos muitas crianças vivendo em abrigos. A vida num abrigo nem sempre é fácil - geralmente, não é. Quando o menor deixa de ser um bebê, as chances de que venha a ser adotado caem muito. Depois dos 5 anos, então, essa chance quase não existe. É muito triste que crianças não possam crescer tendo o amor e o apoio (em todos os sentidos, mas, principalmente, o apoio emocional) de uma família. 

Agora, é claro que dois homens serão, sim, muito capazes de cuidar de uma menina! Se eles têm esse desejo de ter uma família amorosa, tenho certeza que vão educar essa criança da melhor forma que puderem. Sei que sempre vai ter alguém para dizer "ah, mas criança precisa de mãe e de pai!". Não, pessoal, a coisa não é bem por aí. Criança precisa de amor, atenção, educação, cuidados... E isso qualquer pessoa de boa vontade, que se responsabilize por ela, pode oferecer. A criança precisa da função materna e paterna. Não significa que essa função, esse papel, precise ser feito por um pai e uma mãe. Podem ser dois pais, duas mães, outros parentes e, em alguns casos, até um educaror, um psicólogo, médico, vizinho ou qualquer pessoa próxima que trate essa criança com o amor que ela precisa e merece, tanto faz o gênero ou a orientação sexual de quem cumpre esses papeis. Outra preocupação que algumas pessoas têm: "e se a criança 'virar' homossexual também?" Bom, sabemos que pais heterossexuais podem ter filhos gays, héteros, bissexuais... por que seria diferente com pais homossexuais? Aliás, mesmo que a criança se descubra homossexual no futuro, qual seria o problema?

O processo de adoção, como você deve ter percebido através do seu irmão e do seu cunhado (sem aspas, por favor), é complexo e longo. Não apenas pela burocracia do sistema, mas também porque a Justiça precisa ter certeza nas mãos de quem entregará um menor que, até então, era responsabilidade do Estado. Nesse processo, acontecem diversas entrevistas com profissionais como assistentes sociais, psicólogos, advogados, além de visitas domiciliares, observação da interação entre os futuros pais e a criança, são aplicados testes psicológicos... Enfim, é um processo bem complexo. E quando a pessoa não é considerada apta, a adoção simplesmente não acontece. Por isso, se a Justiça decidiu entregar a criança ao seu irmão e ao companheiro dele, se eles trazem essa vontade de ter uma família e compreendem o papel que terão como pais, estou certa de que serão felizes e farão um trabalho fantástico na educação da sua sobrinha.

Espero ter contribuído. Felicidades à família!
beijos,
Bia


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quinta-feira, 3 de abril de 2014

O que você evita?

"Uma vida sem desafios não vale a pena ser vivida." - Sócrates (470 a.C. - 399 a.C.), filósofo grego.

O ser humano, quando vive em meio a seus semelhantes, cria uma cultura, ou seja, um conjunto de costumes, regras e convenções sociais, tradições, crenças e instituições. Esses fatores culturais são peças importantes no nosso comportamento, mesmo que a gente nem sempre perceba. Isso significa que, quando mudamos a cultura, o comportamento das pessoas, numa situação semelhante, muda. Por exemplo, a forma como educamos nossas crianças, como cuidamos da nossa saúde, da alimentação, as crenças e o comportamento num momento de luto, o comportamento no local de trabalho, a relação com a sexualidade, tudo isso muda dependendo do contexto cultural em que vivemos. Claro, todo ser humano precisa comer, é uma necessidade biológica. Mas o que faz uma paulista ter fome de pizza ou um gaúcho ter fome de churrasco? O que faz uma pessoa deste mundo ocidental corrido e industrializado preferir um lanche rápido e cheio de gordura e componentes químicos? O que faz uma pessoa religiosa agradecer pelo alimento antes da refeição? O que nos faz comer com garfo e faca, com hashi ou com as mãos? A cultura da qual fazemos parte!

Comecei falando sobre isso para entrar numa outra questão. Quando pensamos em seres humanos, é bem difícil pensar em instinto. Podemos até pensar em escolhas inconscientes, daquelas que a gente mal se dá conta de ter feito, com base em valores e ideias tão enraizados que a gente também mal sabia que tinha. E aí, o pessoal diz: foi instinto. Não, não foi. Depois que o ser humano se tornou (também) um ser cultural, restam bem poucos instintos no nosso comportamento. Hoje vamos conversar sobre um desses instintos, que é observado tanto em animais como em seres humanos: a reação quando estamos frente a um ataque ou a uma situação desafiadora.

Frente a um grande desafio, temos duas reações possíveis: luta/enfrentamento ou fuga/esquiva. Em situações assim, nosso corpo libera uma grande quantidade de adrenalina, uma substância que nos deixa "acelerados", pronto para bater ou correr (seja de forma literal ou simbólica!). Importante: tanto faz se o desafio for o ataque de um animal selvagem numa época muito antiga ou algo dos dias de hoje, como perceber-se envolvido numa situação de violência, descobrir um problema grave de saúde, enfrentar o desemprego, a concorrência nem sempre leal, a perda de alguém querido, os dramas nos relacionamentos... Pouco importa qual é a situação. A reação, a princípio, é a mesma: enfrentamento ou esquiva. 

Paramos aqui para um exercício: olhe para a forma como você vem levando a vida. Perceba quais tipos de desafios você enfrenta e de quais você "foge", deixa de lado sem sequer tentar superar? Alguns tem mais dificuldade na vida profissional, ou nos estudos. Outros têm dificuldades nos relacionamentos ou nas amizades. Além do setor da vida, é interessante tentar perceber a situação de forma mais específica. Assim, quando ela se repetir, você identificará a situação desafiadora e poderá agir por escolha, direcionando o seu comportamento, não sendo escravo de reações instintivas. Por exemplo, digamos que o problema seja se enturmar num novo grupo. Talvez seja tão difícil que a pessoa nem tente, já se isolando assim que entra em contato com as novas pessoas. Se a pessoa tomou consciência desse comportamento, na próxima vez que tiver de conviver com pessoas novas, ela terá a escolha de fazer algo diferente, como dizer "oi" a alguém ou pelo menos sorrir. Claro, existem casos e casos. Pessoas passando por situações muito críticas, que envolvem sofrimento psíquico e sintomas corporais, precisam da ajuda de um psicólogo.

Nenhuma situação é um problema. Elas são apenas fatos. Somos nós, seres humanos, com a nossa mente que vive em uma cultura, que fazemos das situações boas ou ruins, tristes ou divertidas, conforme o olhar que damos a ela. E as situações complicadas? Essas podem ser ameaças das quais fugimos ou desafios que nos imploram para que sejam superados. Mesmo no campo dos instintos, a escolha é nossa!

terça-feira, 1 de abril de 2014

Mythos - Brahma: criando sua joia

Em algum momento da vida, nós todos criamos algo de especial para nós. Pode ser um grande projeto profissional, a constituição de uma família, escrever um livro, criar aquele jardim dos sonhos lá fora... Não importa o que (cada um terá suas preferências e sonhos), o que importa é algo que está por trás da situação: o ato de criar algo que preenche nossa vida com sentido. Que fique claro: não falamos de uma obra perfeita. Tudo é uma mistura delicada de luz e sombra, bem e mal, acertos e erros... talvez seja nesse equilíbrio que more a perfeição. Para nos ajudar nessa conversa, vamos trabalhar com Brahma, o deus hindu da criação do mundo. 

No hinduísmo, existe uma divindade superior a todas as outras chamada Prajapati. Esse deus não atua exatamente como uma entidade, e sim como uma força criadora. Antes dos seres humanos, animais, plantas, antes do nosso mundo e do próprio universo existir, tudo o que havia era Prajapati. Ele meditava quando uma semente surgiu em seu umbigo e brotou, desabrochando numa flor de lótus. Importante destacar que o lótus é uma flor muito simbólica nas culturas do oriente. Representa, ao mesmo tempo, a paz, a humildade e a pureza, mas também a persistência: o lótus brota nos lamaçais. Assim, podemos compreender Prajapati de forma semelhante ao universo em estado de não criação: o Caos descrito na mitologia grega e também na esfera judaico-cristã, ou mesmo a célula primordial que explodiu no Big Bang dando origem a tudo, na versão da ciência para os fatos. 

Mas voltando ao mito, dessa flor de lótus nasceu Brahma. Uma luz intensa brilhava ao redor da flor, e conforme a luz se espalhava, Brahma também se espalhava, tornando-se uma espécie de essência do poder que reside em todas as coisas. Nos mitos, Brahma viaja num cisne mágico. Esse cisne é capaz de separar leite puro da água, ensinando que bem e mal, certo e errado, enfim, todos os jogos de opostos possíveis encontram-se mesclados. Nós é que devemos desenvolver o nosso discernimento, separando o que importa daquilo que só está lá para confundir e tomar tempo e espaço. E por falar em tempo, Brahma tornou-se ainda a essência do tempo. Conta-se que um só dia para Brahma dura 4 bilhões e 320 milhões de anos para o ser humano. Os hinduístas acreditam que quando esse tempo chegar ao fim, o ciclo de criação começará outra vez, e assim se iniciará uma nova era.


Questões para reflexão:

1- Vamos começar pensando no mito do nascimento de Brahma do início, quando só havia Prajapati. Tudo o que existia era o caos primordial, o lodo, ou, em termos mais atuais, a crise. É natural que as pessoas se desesperem um pouco durante uma crise. A ordem não existe, o caos impera! Mas, apesar da sensação de angústia, as crises quase sempre têm um lado maravilhoso: são um terreno fértil e cheio de possibilidades, da onde qualquer coisa pode surgir, só precisamos de concentração. Prajavati se concentrou meditando, e assim deu origem ao lótus do qual nasceu Brahma, o impulso criador. Lembre-se da última grande crise que você enfrentou ou está enfrentando na sua vida. Pode ser uma perda (de alguém querido, do emprego, de um bem...), um evento fora do nosso controle, como um acidente ou uma doença, uma crise no plano das emoções e dos relacionamentos... Não foi nada fácil. Muitas vezes pensamos em desistir de tudo e entregar os pontos. Mas algo nos faz continuar. O que seria esse "algo" para você? Sua família, suas crenças, um ideal, uma grande meta... Esse é um dos pilares que dão sustentação e sentido para sua vida. Agora, olhe para o período que seguiu depois da crise: o que foi criado, o que surgiu de novo? Um diamante só surge quando um pedaço de carvão comum é submetido à pressão e calor de forma tão intensa que ele se transforma.

2- O cisne mágico de Brahma é capaz de separar a água do leite puro. No seu dia a dia, você tem o costume de separar o que importa daquilo que apenas ocupa tempo e espaço? Em palavras mais da nossa época, você é organizado? Não falo sobre pessoas que arrumam o guarda roupas de acordo com as cores e tecidos das peças, mas sobre aquela organização mais básica, que nos permite olhar com clareza para uma tarefa ou para algo que necessita da nossa atenção sem "tropeçar" nas coisas que só estão lá por estar. Exemplo: vai estudar? Tire de cima da mesa tudo o que não é pertinente ao que está fazendo (como o celular, outros papéis, objetos...). Tem uma porção de compromissos? Organize-os numa lista ou agenda. Aquilo que só está lá para ocupar espaço e tempo, para preencher a realidade, nos tira do nosso foco. São os chamados estímulos distratores, que nos prendem com algo irrelevante e dificultam a caminhada e os avanços, são obstáculos desnecessários às nossas metas. Preencha a sua realidade com aquilo que realmente importa para você. Corte sem medo o que não é pertinente (coisas, "obrigações", situações, relacionamentos...). O máximo que vai acontecer é ter de lidar com o vazio - e preenchê-lo com algo que te dê mais realização e equilíbrio.

3- Por fim, a última informação que o mito do nascimento de Brahma nos traz, é que ele também se tornou a essência do tempo. A criação tem um ritmo, tem certa musicalidade. Isto é, a criação,  próprio universo, na visão hindu (assim como em tantas outras culturas) tem um tempo certo para começar, se desenvolver e terminar, para que então um novo ciclo comece. E na sua vida? As metas têm tempo ou prazo? É muito importante que tenham um prazo claro. Exemplo: prestar vestibular e entrar na faculdade no final deste ano e depois me formar em psicologia ao fim de 5 anos. Coloque sempre um prazo para suas metas (profissionais ou pessoais) acontecerem, ou elas nunca sairão do campo do devaneio. A realidade, concordam os físicos, é formada por um contexto espaço tempo. Portanto, as metas não precisam apenas de "espaço" no mundo e na nossa vida, elas precisam de tempo (tempo de dedicação e tempo/prazo para que se "materialize"). Apenas espaço ou apenas tempo nunca seriam uma realidade, seriam apenas uma parte sem sentido de algo maior, o caos, o lodo... Não perca sua joia em meio ao lodo.