sexta-feira, 30 de maio de 2014

Ágora - Sobre o curso de psicologia

Olá. Vi seu blog 'A Rosa dos Ventos'. achei bacana. 
Pretendo cursar psicologia. Como se dá os estudos na faculdade de psicologia? Gostaria de saber como é o dia-a-dia do estudante de psicologia...
Antonio


Oi, Antonio!

O curso de psicologia dura 5 anos. Os 4 anos iniciais costumam ser mais teóricos. O estudante terá matérias como filosofia, antropologia, teorias psicológicas, anatomia e neuroanatomia, psicologia do desenvolvimento, testes psicológicos, entre muitas outras. Nesse bloco inicial, as atividades práticas acontecem de forma mais pontuada, como aplicações de testes e entrevistas/anamneses na clínica escola (toda faculdade de psicologia tem a sua clínica onde os estudantes aplicam o que aprendem), estágios e visitas a hospitais gerais e psiquiátricos, escolas, empresas...

No último ano, a situação se inverte, pessoalmente achei o quinto ano o mais interessante, pois a maior parte das atividades do curso são práticas. Geralmente as faculdades pedem ao estudante para que escolham uma ênfase, como psicologia clínica/da saúde, psicologia do trabalho, psicologia educacional... Ao final do curso, o profissional poderá atuar em todas as áreas, pois passará (durante a formação) por cada uma delas, apenas terá uma carga horária maior na ênfase escolhida. Para conhecer melhor as principais áreas de atuação do psicólogo, veja o artigo O que faz um psicólogo?, quando conversamos com outra futura estudante de psicologia, a Ana Carolina. Lá também conversamos um pouco sobre como é o curso e como aproveitá-lo ao máximo.

Sou suspeita para dizer, pois amo minha profissão, mas o curso é muito bonito e mexe bastante com o estudante, levando-o a repensar seus conceitos e atitudes perante as diversas situações da vida. Nesse processo, é fundamental não se limitar apenas ao que é ensinado na universidade, fazendo cursos paralelos, leituras paralelas, bons estágios e psicoterapia. Aliás, a psicoterapia é um ponto fundamental da formação. Ela permite que o estudante conheça a si mesmo e os caminhos de seu mundo interior antes de se aventurar pelo mundo interior de seus futuros pacientes. Permite ainda a compreensão de técnicas psicoterápicas, discussões sobre o papel e a postura profissional do psicólogo, a ética profissional... Para entender melhor a necessidade de se fazer psicoterapia, confira o texto Terapia para estudantes de psicologia, quando conversamos com o João Pedro, que também pensa em se inscrever no curso de psicologia e gostaria de entender melhor esse ponto.

Para terminar, Antonio, independentemente da área da psicologia em que você gostaria de atuar, nunca se limite apenas a ela em seus estudos. Conheça outras áreas, outras teorias... Aliás, amplie seus conhecimentos para além da psicologia! Outras áreas da saúde, das ciências humanas e exatas, a arte, tudo contribui para a formação do psicólogo. Leia livros, assista a filmes, visite museus e exposições, converse com as pessoas (incluindo também as pessoas sem formação acadêmica, todos sempre têm algo a ensinar e a contribuir). É fundamental manter uma postura aberta, saber ouvir e procurar entender cada situação pelo ponto de vista de quem conta, e não pelos nossos próprios. No mais, uma coisa muito gostosa sobre o curso é que a aprendizagem não termina quando a aula acaba, nosso dia a dia sempre oferece ótimas oportunidades para refletir e perceber tudo aquilo que lemos e estudamos.

Bem vindo à nossa profissão, Antonio!
beijos,
Bia


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quinta-feira, 29 de maio de 2014

Dicas para meditação e visualização

Como você se prepara antes de meditar ou fazer uma visualização? Quando eu apenas iniciava minhas práticas, encontrava diversos textos sobre como meditar, como fazer uma visualização, o que era uma coisa e outra... Mas nunca encontrei um texto sobre como se preparar para esses momentos. E um bom preparo pode fazer toda a diferença. Observo que muitas pessoas que afirmam que têm dificuldade para meditar, ou mesmo pacientes que contam que não conseguem fazer exercícios de imagem (que também são formas de meditar e visualizar) quase sempre cometem o mesmo erro simples: não entram no estado adequado antes do início das práticas. Hoje vamos aprender algumas técnicas bem simples para entrar nesse estado e atingir resultados melhores nas nossas práticas.


1- “Você precisa ir ao banheiro antes que a gente comece?” – Sim, é algo muito simples e básico, mas sempre que trabalho com crianças e vamos usar uma técnica de imagem, meditação guiada ou um relaxamento, gosto de fazer essa pergunta (e, quase sempre, eles respondem que sim!). A gente tende a se concentrar nas tarefas e olhar pouco para nós mesmos e nossas necessidades. Por isso, antes de começar é bom perceber se não precisa passar no banheiro ou beber água... É muito frustrante se concentrar e só então perceber essas necessidades básicas e simples – mas que podem incomodar e atrapalhar o andamento das atividades.

2- Alongamento! – Algumas pessoas, antes de começarem a meditar, gostam de fazer posturas de yoga, e isso é ótimo. A yoga é uma preparação do corpo para a meditação, momento em que, geralmente, passaremos um tempo mais longo parados. Se você não conhece yoga, não tem problema. Um alongamento básico também vale. Estique-se, espreguice! No caso de pessoas mais agitadas, mais dispersas ou que tendem a ficar sonolentas, costumo sugerir que antes do alongamento a pessoa salte 10 vezes. Isso tira a mente do foco anterior, ajuda a oxigenar o cérebro e, por consequência, ajuda a manter o foco na meditação ou na visualização.
3- Use roupas confortáveis, que não prendam a circulação. Se for necessário, afrouxe a gravata, abra o colarinho da camisa, tire sapatos, casacos pesados, abra o botão da calça ou da saia, tire o relógio ou outros acessórios que possam incomodar.
4- Relaxe o corpo. Você pode fazer isso dando a ordem mental a cada parte sua, como “relaxando os pés e tornozelos, relaxando as pernas...” e assim por diante. Claro, sinta os músculos se soltando enquanto faz isso, e não tenha pressa. Outra técnica eficaz é forçar e soltar cada músculo. Dê atenção especial a áreas como as costas, ombros, pescoço e rosto, que acumulam muita tensão. Com o tempo, você vai notar que dependendo das suas atividades, certas áreas são mais tensas que outras. Por isso, dê atenção a elas.
5- Mantenha sempre a coluna ereta. Isso ajuda o cérebro a se manter oxigenado, o que significa mais atenção, mais foco e mais eficiência/produtividade, além de menos distração e menos sonolência. Por isso, essa é uma orientação que dou não apenas para exercícios de meditação e visualização, mas também para momentos de estudo, leituras, enfim, tudo aquilo que nos exigirá atenção.
6- Antes de começar, faça alguns exercícios de respiração. Um bem simples é inspirar pelo nariz e soltar o ar pela boca, sempre sem pressa. Enquanto solta o ar, relaxe o corpo. Faça isso devagar, naquele ritmo que as pessoas adormecidas costumam respirar. A ideia é, com a respiração e o relaxamento, ajudar nosso cérebro a funcionar no padrão de ondas alfa – aquele padrão em que estamos relaxados e, embora despertos, estamos abertos para o mundo interno e para o contato com o inconsciente.
Agora sim, estamos prontos para começar. Ótimas práticas!

Para ler mais sobre meditação, acesse:

Publiquei este artigo originalmente no site Frutos do Carvalho, no dia 07/04/2014.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Mythos – Belerofonte: mantenha o foco naquilo que valoriza

Belerofonte era um jovem grego acusado de matar Belero; seu nome significa “matador de Belero”. Importante dizer, na Grécia, assim como em Roma, os nomes eram proféticos, indicavam o caminho e a história que a pessoa viveria. Mas enfim, perseguido por conta do suposto assassinato, Belerofonte se refugiou no palácio do rei Preto, que ficou feliz em lhe dar asilo. Entretanto, a esposa do rei se interessou pelo jovem visitante e, muitas vezes, tentou seduzi-lo. Mas Belerofonte era um homem muito correto, e não arriscaria perder a confiança do rei. Por isso, gentilmente se esquivava dos avanços da rainha. Farta da situação e cheia de ódio e mágoa, ela disse ao marido que o jovem havia tentado violentá-la. O rei Preto ficou possesso e tinha vontade de matar Belerofonte! Mas matar um hóspede de sangue real ia contra as leis... Por isso, disse ao rapaz que procurasse o rei Iobates, na Lícia. Junto, enviou uma carta selada contando ao amigo o que se passara e pedindo a ajuda dele para matar Belerofonte.

Acontece que também o rei Iobates acho que seria contra as condutas matar um hóspede de sangue real, mesmo ele tendo essas acusações sobre si (o assassinato e a tentativa de estupro). Iobates era um homem engenhoso, e não demorou a pensar num plano. Enviou Belerofonte para matar um terrível monstro, a Quimera, com cabeça de leão, corpo de bode, cauda de serpente e que, além de tudo, soprava fogo! Ele consultou o oráculo antes de cumprir sua missão, e lhe foi dito que a aventura seria fatal, a não ser que ele contasse com a ajuda de Pégaso, o cavalo com asas. Belerofonte partiu primeiro para encontrar e domar Pégaso e, juntos, a Quimera foi vencida com facilidade. Mas o rei Iabates ficou... desapontado, no mínimo. Como o rapaz pode ter sobrevivido?

Então, o rei Iabates, sem nem mesmo recompensar ou dar as boas-vindas ao herói, enviou Belerofonte para mais uma missão, ainda mais perigosa: ele deveria partir e derrotar dois terríveis exércitos, sendo um deles o das Amazonas, uma raça de guerreiras praticamente invencíveis. Com a ajuda de Pégaso, Belerofonte teve êxito novamente. Voltou para a Lícia, e quando o rei Iabates viu o rapaz retornar, esgotado, ferido, faminto, mas vivo, mal ode controlar sua raiva! Novamente, o rei se negou a recompensar o herói.

Belerofonte se sentiu injustiçado e, montado em Pégaso, cavalgou para o mar, onde falou com o deus Poseidon. Ele também ficou revoltado e enviou uma onda gigantesca para devastar a Lícia. O rei Iabates ficou desesperado conforme a tsunami se aproximava, também o povo entrou em desespero, implorando a Belerofonte que falasse novamente com Poseidon para que ele detivesse a onda. O rapaz assim fez e a Lícia foi poupada, assim como o rei e seus habitantes.

Depois de quase perder tudo o que tinha, inclusive a vida, o rei Iabates leu novamente a carta do rei Preto e refletiu... Se o jovem fosse mesmo culpado por tantos crimes horríveis, um deus nunca o ajudaria. Chamou Belerofonte, mostrou-lhe a carta e pediu para que contasse o que de fato havia acontecido. Quando ficou claro que a rainha havia mentido, o rei Iabates concedeu a mão de sua filha em casamento, tornando Belerofonte o herdeiro do trono da Lícia.

Ele vivia dias de glória governando seu reino. Foi um tempo de paz e abundância. Por ironia, Belerofonte encontrou sua destruição não no crime, mas no orgulho. Certo dia, Belerofonte decidiu que voaria com Pégaso até o Olimpo, onde viviam os deuses. Isso era, para os antigos gregos, um grande desrespeito (eles preferiam dar a volta nas montanhas em lugar de escalá-las, ainda que o caminho fosse mais longo). Zeus, o líder dos deuses, concordou com esse ponto de vista e também achou a atitude de Belerofonte pouco respeitosa. Ele enviou uma mosca, que incomodou Pégaso, o que fez com que Belerofonte caísse. Desde então, Pégaso pertence a Zeus. Quanto a Belerofonte, ele não morreu com a queda, que foi amortecida por alguns arbustos. Mas seu orgulho ficou tão ferido que ele nunca mais se atreveu a voltar para a Lícia e passou o resto de seus dias vivendo como um mendigo.


Questões para reflexão:

1- Belerofonte teve êxito nas tarefas mais difíceis pois tinha um foco. Repare que ele encontra sua desgraça apenas quando suas ações e escolhas passam a ser aleatórias. E na sua vida, qual é o foco? Você se mantém fiel a ele ou tem feito escolhas aleatórias?

2- Você já foi acusado injustamente de algo? Como foi, como você se sentiu? Conseguiu mostrar a realidade ou continuam acreditando nos boatos?


3- Vimos no início do mito desta semana que para os gregos e romanos, os nomes eram proféticos. Procure investigar a origem do seu nome, o que ele significa e se isso faz algum sentido na sua vida. No caso de pessoas que receberam o nome nos pais ou avós, é interessante ainda procurar saber como foi a vida dessa pessoa, quem foi essa pessoa. Profecias à parte, nosso nome é a forma mais básica de como nos identificamos e conta algo sobre nós.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Ágora – Terapia para estudantes de psicologia

Bia, assim, eu nunca fiz terapia. Eu to pensando de me inscrever pra fazer faculdade de psicologia e vejo que vc sempre fala que quem faz psicologia teria que fazer terapia. Queria saber se é obrigado a fazer pq eu nem tenho problemas e queria entender o porquê disso. Obrigado.
João Pedro – Campinas, SP


Oi, João Pedro!

É fundamental que quem pretende trabalhar na área psi passe por um bom processo psicoterapêutico. Não se trata de ter ou não um problema (aliás, penso que todos temos alguma coisinha pendente ou algum tipo de dificuldade, afinal, todo mundo tem limitações em algum setor da vida). A psicoterapia feita pelos estudantes de psicologia tem diversos objetivos.

O primeiro desses objetivos é o autoconhecimento. Quem pretende se aventurar pelo mundo interno de outras pessoas e ajuda-las a encontrar caminhos precisa conhecer muito bem o próprio mundo interno, os caminhos, armadilhas e os trechos mais perigosos. Assim, o futuro psicólogo diminui as chances de tropeços ao interagir com seus pacientes. Por exemplo, se identificando a tal ponto com a situação do outro que a caminhada se torne difícil...

Junto a isso, claro, é preciso refletir sobre possíveis questões que todos nós temos. Sei que nem sempre a gente tem um grande problema na vida, mas pequenos problemas também precisam ser vistos, especialmente no caso de que pretende trabalhar com isso. Todos temos alguma lembrança dolorosa que ainda nos magoa, ou algum tipo de dificuldade, talvez para lidar com a família, ou para falar em público, para controlar a ansiedade ou a atenção, com relacionamentos... Quero dizer que ninguém é perfeito, e que esses pequenos problemas podem nos prejudicar quando deixados de lado.

Além disso, existe o objetivo didático do processo terapêutico de estudantes. É bem comum que o psicólogo indique leituras técnicas, discuta temas como a conduta e a ética profissional, o papel do psicólogo, aponte dados mais técnicos do processo terapêutico que contribuem não apenas para o processo, mas também para a formação do futuro profissional.

Não, não somos “obrigados” a fazer terapia. Ninguém nunca é obrigado a nada, são escolhas. Mas eu diria que é muito recomendável que o estudante de psicologia faça terapia, pelo menos do meio do curso em diante ou, de preferência, durante todo o curso. Além de enriquecer a nossa formação e ajudar a lidar melhor com questões que afloram ao longo do curso, vejo isso como uma atitude de responsabilidade e respeito para com nossos futuros pacientes.

Beijo,

Bia


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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Abra espaço para o novo

O texto de hoje surgiu de uma conversa com um amigo alguns dias atrás. Ele se queixava de que a vida dele não anda. As coisas até ameaçam acontecer, ele até vai atrás daquilo que quer... Mas na última hora, tudo desanda! Algumas vezes ele se sabota com escolhas erradas, outras vezes as próprias situações se desenrolam de um jeito inesperado. Percebo que muitas pessoas passam por problemas desse tipo e sofrem com isso. Então hoje este será o nosso tema.


Percebo que em grande parte dos casos, essas pessoas com dificuldade em abrir espaço em suas vidas têm um perfil de acumuladores. Imagine um carrinho de mão vazio. Se após uns poucos passos a gente enche o carrinho com alguma coisa, logo ele ficará pesado e será bem difícil de fazê-lo andar (a não ser barranco abaixo, mas não me parece uma direção muito interessante para se mandar a vida). Explicando melhor, o perfil que chamo de “acumulador” se mostra de diferentes formas na vida da pessoa. Por exemplo, acumular objetos, roupas, papéis, mesmo quando não precisa mais deles. Acumular situações e relacionamentos que já se desgastaram, já cumpriram o papel na vida da pessoa. Acumular, até mesmo, sentimentos, que a pessoa não expressa e não se permite vivenciar. Tudo isso é nocivo, pois nem permitimos que todos esses elementos sigam em frente e tampouco que atuem em nossas vidas. Assim, eles ficam todos no nosso mundo interior, parados... E tal como a água parada junta sujeira, também os conteúdos internos e situações “paradas” deixam o nosso espaço congestionado. E o carrinho fica cada vez mais e mais difícil de ser empurrado.

O que precisamos fazer quando percebemos a vida assim é abrir espaço para o novo. Em todos os sentidos. Muitas pessoas sentem dificuldade de deixar certos elementos irem (o trabalho chato mas que paga razoavelmente bem, o relacionamento que não é estimulante mas é confortável, algum tipo de situação em que seja preciso colocar limites, algo que já cumpriu sua função mas a que somos apegados...). É difícil mesmo. Porque muitas vezes, abris espaço na vida significa trocar o que parece certo mas já não tem função pelo incerto, correr o risco. É apenas assim que podemos avançar.


Se está difícil rever o que você sente ou refletir sobre as mudanças que gostaria de fazer, comece por algo concreto, como organizar os armários e gavetas, separando o que vai doar, o que vai reciclar, o que vai jogar fora e o que continua. Nossa mente irá generalizar essa atitude e, logo, ficará mais fácil pensar com clareza sobre nossa vida e abrir espaço nas outras áreas. O mais importante é ser sincero sempre. Sincero com a gente mesmo e com o estilo de vida que gostaríamos de ter. Apenas assim a vida “anda”, pois tomamos em nossas mãos a direção e o poder de escolher o caminho por onde gostaríamos de ir.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Mythos - Ajayos e a visão peruana da morte: o que é mais fundamental em nós

Hoje vamos conversar um pouco sobre a forma como os povos andinos viam a morte, visão que, após a colonização espanhola, se mesclou a elementos do cristianismo e sobrevive até hoje entre os nativos de países como o Peru. Pensar sobre a morte é fundamental para compreender a forma de levar a vida e a visão de mundo de um povo. Costumo dizer que muitas coisas valem a nossa vida, como a convivência com pessoas queridas, atividades de lazer, um trabalho estimulante, entre tantas possibilidades que a vida nos oferece. Mas o que vale a nossa morte, o nosso sacrifício? Quando questiono isso, geralmente reparo que o sorriso desaparece do rosto da pessoa e a conversa ganha tons mais sóbrios. O que vale a nossa morte? Na certa, algo ou alguém que dê algum sentido especial ao tempo que vivemos até então.


Para os povos dos Andes, todas as pessoas têm duas almas, Athun Ajayo e Jukkui Ajayo. Athun é a alma que dá às pessoas uma consciência, uma forma de ser, de perceber e de agir. É criada por Pachamama e sobrevive após a morte do corpo. Já a outra alma, Jukkui, é alma que nos dá o equilíbrio entre o corpo, mente e Athun. Jukkui também cuida da imunidade e, segundo acreditavam, deixa o corpo durante o sono, transmitindo as impressões que teve na forma de sonhos. Os povos andinos acreditavam que sem Jukkui, a pessoa ficaria desprotegida e vulnerável a todo tipo de doença.

No momento da morte, acreditava-se que as duas almas deixavam o corpo, mas pairavam sobre ele durante três dias. Então, ainda na primeira semana após a morte, Jukkui Ajayo partia para sempre. Quanto a Athun Ajayo, acredita-se que vá e volte do mundo dos mortos. Essa alma é a consciência da pessoa, podia levar a alma de uma pessoa viva com ela para se casar no mundo dos mortos (por isso, não se aconselhava a pessoas solteiras que se aproximassem de cadáveres), Athun podia voltar para visitar os vivos, inclusive. Após a colonização, passou-se a crer que os Athun dos mortos voltavam em especial entre as festas cristãs de todos os mortos (1º de novembro) e de finados (2 de novembro). Nessa ocasião, os mortos são muito celebrados e lembrados por esse povo, acreditam ser possível conversar com os Athun de parentes e amigos já falecidos e dar-lhe presentes.


Questões para reflexão:

1- Jukkui Ajayo é a alma que nos mantém protegidos contra doenças e nos mantém em equilíbrio, garantindo a nossa vitalidade. E para você, o que mantém a sua vitalidade? Quais os elementos mais fundamentais para que você se mantenha vivo e equilibrado? O que te desequilibra e o que você faz para preservar ou recuperar esse equilíbrio?

2- Jukkui atua também nos sonhos. Sendo a função maior dessa alma a saúde e a vitalidade, o fato de que ela atua em sonhos ganha contornos interessantes. Podemos pensar que os sonhos eram vistos como algo que tem um papel especial no nosso equilíbrio. De fato, pesquisas da área das neurociências apontam que pacientes com distúrbios ou disfunções que os impede de sonhar têm graves problemas de saúde, inclusive afetando o sistema imunológico. Que fique claro, não é o caso das muitas pessoas que apenas não se lembram de seus sonhos. Mas o que eu gostaria de conversar neste ponto é, tendo essas informações, qual o lugar dos sonhos na sua vida?

3- Athun é a nossa consciência ou personalidade. Pegue uma folha de papel. Pode usar lápis colorido, giz de cera ou o material que preferir. Desenhe sua personalidade, ou como diriam os andinos, desenhe seu Athun. É uma forma interessante de trazer para a consciência informações sobre nós que dizem muito e sobre as quais nem sempre paramos para pensar. Lembrando: é uma atividade totalmente livre, sem certo/errado e a ideia é a expressão livre, não a criação de uma grande obra de arte, por isso, não se reprima!!

4- Vamos pensar um pouco nas pessoas que conhecemos e que já morreram. A personalidade dessas pessoas sobrevive nas memórias dos vivos. Naquilo que conversamos, naquilo que vivenciamos juntos, nos planos que fazíamos... E é comum, frente a uma perda, ter a sensação mais ou menos clara de que todas essas lembranças e experiências morreram um pouco também, porque agora somos os únicos a tê-las. Certa vez, uma mãe já bem idosa me trouxe os dentes de leite do filho, que havia morrido ainda criança. E ela disse algo que me fez pensar e que eu gostaria de compartilhar para que vocês também refletissem. O menino morreu de forma inesperada e trágica, sem deixar grandes feitos, ou mesmo lembranças como fotos. Tudo o que aquela mãe tinha, e que mantinha viva a memória do filho, eram aqueles dentinhos de leite e o amor que nutria por ele. Então, depois de me mostrar os dentes em silêncio, como quem está diante de algo sagrado, aquela mãe me disse que agora o filho estava um pouquinho mais vivo, porque eu também sabia sobre ele e sobre sua história. Como você lida com as memórias de todas as pessoas que você conheceu já se foram?


sexta-feira, 16 de maio de 2014

Ágora - Gastrite e psicossomática

Eu to com um problema de saúde e queria saber a sua opinião, confesso que to um pouco perdido. Sempre tive muitos problemas de estômago e já andava com algum remedio na carteira pro caso de alguma emergência. Faz um tempo que esses remédios pararam de me ajudar e resolvi marcar uma consulta com um gastro. Ele me disse que to com gastrite, passou uma lista imensa de alimentos que eu amo e não posso mais comer, alguns outros remédios e me mandou procurar um psicólogo. Eu queria entender pra que isso antes de gastar mais dinheiro em mais um profissional. O que o psicólogo poderia fazer num caso como o meu, porque sem querer ofender mas não vejo nenhuma relação entre meu estômago e minha mente.
Luís – Vitória, ES


Bom dia, Luís!

Variando a parte do corpo doente, essa é a pergunta de muitas pessoas. Por que uma doença do corpo poderia ser tratada em parceria com o psicólogo? Explico: algumas doenças não são apenas físicas. Muitas delas se formam numa combinação entre fatores físicos internos e externos (como a nossa predisposição genética, a nossa alimentação, os hábitos que mantemos) e fatores psicológicos, como as nossas emoções e a forma como lidamos com elas, nossos desejos, pensamentos, medos...

O corpo pode sofrer influências da mente. Uma experiência simples que acredito que vocês já tenham feito (ou poderão fazer agora!): pense na lembrança mais triste que você tem, não importa qual seja. Mantenha essa lembrança e vivencie toda a emoção que ela carrega. Em algum tempo, você poderá perceber que sua expressão facial mudou, a temperatura corporal pode ter caído um pouco e talvez você tenha vontade de chorar. Sim, dá certo com outras emoções. Experimente uma lembrança muito feliz, para mudar o clima. Inclusive, funciona com estados emocionais que nem mesmo são nossos ou nem mesmo são reais: podemos ter essas reações no corpo ao lembrar de uma situação vivida por alguém que conhecemos, pela personagem de um filme, etc.

Explicando de forma bem simples, este é o princípio da psicossomática, o corpo pode reagir (inclusive com sintomas) aos nossos estados psíquicos. A questão não é sentir tristeza, ou ansiedade ou raiva ou o que for. A questão é como a pessoa irá lidar com as emoções. Elas precisam sair de alguma forma, se não permitimos, se transformam em sintomas. Mesmo emoções que dizem ser positivas, quando enterradas fundo dentro de nós podem causar problemas. Emoções existem para serem vividas, quando não lhes damos atenção, nós as vivenciamos nas dores e sintomas. Elas sempre arrumam um jeito de serem sentidas...

Como um psicólogo poderia ajudar? Para começar ele poderia ensinar estratégias para lidar com o estresse e a ansiedade, muito ligados à problemas como a gastrite. Também emoções como a raiva precisam ser reconhecidas e trabalhadas, assim como as situações que desencadeiam todas essas reações emocionais precisam ser revistas, para que se possa lidar com elas de forma mais equilibrada (sem os sintomas). Claro, você já tem um problema cristalizado no corpo. Isso significa que precisa sim tomar a medicação receitada e seguir as regras alimentares que o seu médico passou. O psicólogo terá o papel de auxiliar a encontrar recursos para que as coisas não precisem chegar a esse ponto novamente.

Caso queira ler mais um pouco sobre psicossomática, há algum tempo o Igor me escreveu perguntando sobre o assunto, segue o link: Doenças psicossomáticas.

Melhoras!
Beijo,

Bia


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quinta-feira, 15 de maio de 2014

Demonstrações de carinho

O artigo de hoje seria, a princípio, sobre demonstrações de afeto, mas resolvi mudar para demonstrações de carinho. Não, não é a mesma coisa. Afeto, para os psicólogos, é tudo aquilo que nos afeta, não apenas sentimentos “bonitos” como muita gente pensa. Portanto, a raiva, as mágoas e frustrações da vida também são afetos. No entanto, nosso foco hoje são os chamados afetos positivos, como o amor, a amizade, o sentimento de estar feliz por alguém querido... e, aqui no texto, vamos chamar esse tipo de afeto de “carinho”.

Tudo explicado, vamos à conversa! Acompanho muitas pessoas dizendo por aí o quanto gostariam que alguém (seja alguém específico ou alguma pessoa maravilhosa que apareça na nossa vida) demonstre carinho por elas, no dia a dia mesmo, não necessariamente dentro do consultório, mas em conversas com amigos, nas redes sociais, na convivência com colegas. Ouço queixas do tipo “sei que Fulano sente algo por mim, então porque não demonstra?” ou ainda, o oposto: “sinto algo, mas não sei bem como mostrar isso para a pessoa”. Aí vai uma notícia boa para essas pessoas: mesmo sem perceber, desde que o afeto exista, a pessoa sempre demonstra.

É raro encontrar pessoas que, de fato, guardam seus afetos para si mesmas, e geralmente em casos assim, elas nunca guardam por completo. O que acontece é que muitas vezes essas pessoas um pouco mais fechadas demonstram suas emoções de forma inconsciente, com pequenos comportamentos que passam despercebidos até mesmo para ela, ou ainda demonstram de formas que a outra pessoa não compreende. Portanto, mais do que pessoas “frias”, o que temos são falhas de comunicação.

A interação com o outro acontece no diálogo, através da linguagem. Sei que quando digo isso, quase sempre as pessoas pensam em linguagem falada ou escrita. Mas a linguagem que usamos para comunicar emoções e desejos é muito mais profunda do que isso. Envolve gestos, posturas corporais, olhares, atitudes e comportamentos, sintomas (em alguns casos, claro), entre tantas possibilidades. Aliás, mesmo que a gente pense apenas na linguagem das palavras, teremos aí dados como o tom de voz, o volume mais alto ou mais baixo, a própria escolha de palavras...

Quando os afetos são recíprocos (seja numa relação de casal, entre pais e filhos, entre amigos, etc.), geralmente a confusão começa porque no mundo em que vivemos, desde crianças não somos encorajados a dar atenção aos pequenos sinais que o outro nos dá, somos ensinados que apenas a linguagem, no sentido mais racional e literal, é o que conta, e isso não é verdade. Além disso, deixando de lado as demonstrações que envolvem palavras ou gestos mais claros (como abraços e beijos), as pessoas tendem a demonstrar aquilo que sentem de acordo com seus valores pessoais. Por exemplo, alguém que valoriza o cuidar e proteger as pessoas que ama, demonstrará que se importa e sente algo através de atitudes que envolvam isso (o que, se a pessoa tiver, digamos, valores ligados a individualidade muito fortes, poderá ser sentido como um comportamento “grudento” e sufocante). Da mesma forma, quem valoriza conhecer o mundo interior do outro, talvez demonstrará seus afetos através de conversas, por exemplo, mesmo em assuntos que, para outras pessoas, pareçam ser algo um tanto aleatório. A pessoa que valoriza a liberdade, talvez demonstre seu carinho encorajando o outro a ser mais independente (o que, se esse outro for alguém que valoriza a segurança e uma vida mais estável em diversos sentidos, pode ser interpretado de maneira errada, não como uma demonstração de afeto, mas como um sinal de que “Fulano nem se importa comigo”, e até como implicância). Enfim, claro que na vida real as coisas não são tão fixas, a mente e os comportamentos podem ser bem complexos e ter motivos um tanto misteriosos num primeiro olhar.


Uma possível solução para esse tipo de embate, é ser mais claro. Não apenas com o outro, mas com a gente mesmo, tendo consciência daquilo que sentimos pelas pessoas com quem convivemos. Assim, será possível se organizar internamente para ser claro também com a outra pessoa. Nem todos amamos da mesma forma, e nem todos nos sentimos amados da mesma forma. Pais que têm vários filhos talvez percebam isso bem ao reparar que um filho é mais dado a abraços, o outro a intermináveis conversas e outro, talvez, prefira demonstrar e receber carinho através de pequenos gestos e mimos. O mesmo ocorre entre amigos, casais ou qualquer tipo de relacionamento. Para terminar, um lembrete: nunca trate as pessoas de forma aleatória. Procure conhecê-las, perceber o que gostam e o que valorizam. Assim, será muito mais fácil “falar a mesma língua”.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Mythos – Aracne: a qualidade daquilo que produzimos

Aracne, cujo nome significa “aranha”, era uma jovem que sabia fiar, tecer e bordar. Seu trabalho era tão lindo e refinado que ela era famosa em toda a Grécia. Entre os mortais, ninguém conseguia fiar tão depressa e nem tão bem quanto Aracne. Em pouco tempo, como costuma acontecer com pessoas que têm alguma habilidade especial, surgiram diversos boatos em torno da moça. Alguns diziam que ela tecia tão bem que devia ter aprendido a arte com a própria Atena (que além de deusa da sabedoria e das estratégias militares, era também uma deusa ligada à arte de tecer). Aracne respondia que aprendera sozinha e, completava, acreditava que bordava ainda melhor que Atena. De início, a deusa sequer deu atenção à vaidade da jovem. Porém, as pessoas logo passaram a acreditar naquilo que Aracne dizia e Atena começava a ser questionada. Eles passaram a desprestigiar os templos e a ignorar os festivais em honra a ela. Era preciso tomar providências...

Assim, Atena se disfarçou como uma senhora muito idosa, o que acreditava ser a aparência perfeita de alguém com muita sabedoria. Foi até a pequena cidade onde Aracne vivia e tratou de aconselhar a jovem, dizendo que ela deveria respeitar a deusa e não dar atenção a boatos, apenas continuando seu bom trabalho. No entanto, Aracne não deu ouvidos à “velha”, destratando-a. Atena voltou para o Olimpo, extremamente surpresa com a reação de Aracne. É, as medidas precisariam ser mais drásticas!

Atena apareceu em pessoa para Aracne, diante de todo o povo. Ela disse que desafiava a jovem para uma competição de bordado e, assim, todos veriam quem era melhor. O povo trouxe os mais delicados fios e as duas começaram a bordar, com a maior velocidade e habilidade de que eram capazes. Quando terminaram, todos ficaram admirados, incluindo a própria deusa. Atena havia bordado os maiores feitos dos deuses, a guerra contra os titãs, os templos e monumentos... Mas Aracne havia retratado em seus bordados o amor que existe entre os deuses, de forma tão linda e sincera, que acabou conquistando a admiração de todos, até da deusa. Tudo teria ficado bem se a moça apenas tivesse ficado quieta. Mas ela não fez isso, Aracne continuou dizendo em voz alta, diante de todos e da própria Atena, que seu trabalho era de qualidade muito superior ao da deusa! Já sem paciência, Atena ordenou que todos fizessem silêncio e dirigiu-se à jovem: “se você acredita que tece tão bem assim, que faça isso para sempre!” E, com essas palavras, transformou Aracne em aranha. Suas filhas continuam tecendo até hoje.

Questões para reflexão:

1- Aracne fiava, tecia e bordava tão bem que as pessoas que conheciam seu trabalho pensavam que eram dignos de terem sido feitos por uma deusa. Quais são as suas melhores habilidades? Em que você é realmente bom? Mesmo que esse “bom” não atraia a ira dos deuses, claro...

2- Como você reage frente aos elogios? Você os recebe bem? Algumas pessoas não lidam bem com elogios e reconhecimento, e demonstram isso de duas formas extremas e aparentemente opostas: negando-os ou gabando-se em excesso como fez Aracne.

3- E como você reage a situações semelhantes a enfrentada por Atena, quando alguém desfaz de algo que você sabe que foi feito com dedicação e cujo resultado foi bom?


4- Invista algum tempo refletindo sobre o seu “padrão de qualidade”. Ele é baixo a ponto de você nunca se preocupar com suas produções ou tão alto e inatingível a ponto de você nunca ficar satisfeito com o que fez? Como você costuma lidar com as exigências do seu padrão de qualidade (ou com a falta delas): de maneira tranquila, com reações emocionais como a ansiedade e a insegurança, com sintomas físicos (dores de cabeça, enjoos, reações alérgicas...), ou ainda de algum outro jeito? O que isso conta sobre você?

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Ágora - Insatisfação no trabalho

oi Bia boa tarde. Minha pergunta é sobre trabalho. Eu sempre fui uma pessoa que tem muita dificuldade de me adaptar no trabalho. Sou inteligente, sou dinamica, me dou bem com todo mundo e sou uma boa funcionária, mas não consigo ficar feliz no meu serviço. Meu trabalho é na area administrativa, sempre trabalhei nessa area e já fiz curso de gestão para ver se eu melhorava, mas não adiantou, o curso ajudou mas continuo insatisfeita. O trabalho rende normal, mas nunca me sinto feliz aqui. Sei que não tenho depressão porque é so no trabalho isso, nas outras coisas graças a deus está tudo bem. Queria ajuda pra saber como faço pra ficar mais satisfeita com o meu trabalho. Obrigada. beijo.
Gisele - Brasília


Olá, Gisele,

O trabalho é uma parte muito importante do nosso dia a dia. Não apenas por nos dar o nosso sustento, mas porque é no trabalho (no sentido mais amplo possível dessa palavra, ou seja, trabalho como toda atividade que transforma a realidade em que vivemos) que podemos produzir nossas obras, experimentar a nossa capacidade e ao mesmo tempo nos capacitarmos. Costumo dizer aos jovens da orientação vocacional que escolher uma profissão não é simplesmente escolher um trabalho, mas escolher um estilo de vida. As roupas que vestimos, a forma como o dia a dia se desenrola, os períodos de lazer, as pessoas com quem mantemos contato, em alguns casos até mesmo o ritmo de sono e a alimentação passam pelo tipo de trabalho que exercemos.

Por isso, é fundamental que o tipo de trabalho a que nos dedicamos, nos permita explorar tudo aquilo que temos de melhor, todo o nosso potencial. É importante também que os ambientes de trabalho sejam harmoniosos o suficiente para que permitam esse desenvolvimento. Claro, as empresas são competitivas... Mas a competição precisa estar voltada para os concorrentes, e não acontecer entre os membros da equipe! Cabe aos gestores cuidar desse ambiente e da coesão da equipe, porem, é claro, todos podem fazer a sua parte para tornar o ambiente e o contexto cada vez melhor...

Sobre a insatisfação, Gisele, acho que cabe repensar suas escolhas. Como você disse, é uma boa profissional, é qualificada e tem uma boa relação com os colegas. Isso mostra que provavelmente, a questão não está no cenário, mas dentro de você. Alguns pontos para ajudar a pensar:
- Por que você tem essa ocupação? Você escolheu ou as coisas apenas "aconteceram"? Como foi a escolha ou como foi que tudo aconteceu?
- Liste os pontos que gosta na sua profissão. Depois, liste os que não gosta. Compare as listas... Será que você realmente não gosta do que faz ou apenas está desmotivada?
- Como seria o seu trabalho ideal? O que você faria, em que tipo de lugar trabalharia, como você imagina sua rotina?

Pensando nesse último ponto, é interessante observar se o tipo de trabalho que mais desperta sua motivação é ou não aquele em que você está. Muitas vezes, as pessoas não precisam de mudanças radicais. Às vezes, basta olhar para o trabalho de outra forma, focar em pontos diferentes. Algumas pessoas percebem que ficam mais satisfeitas ao trabalhar como autônomo ou abrir o próprio negócio ao invés de em um emprego tradicional, por exemplo. Outras percebem que gostam da área em que estão, só precisam de uma nova meta, um novo foco, talvez descobrir um novo público ou setor... No entanto, também acontecem situações em que a pessoa sente vontade de mudar tudo, o esquema de trabalho, o local, a área de atuação, etc. Não tenha medo, explore, veja como seria, o que seria preciso, quais passos dar primeiro, pesquise, veja a viabilidade do novo projeto... Se existe a insatisfação, é porque há a necessidade de mudar, seja a mudança grande ou pequena. Portanto, organize-se, planeje e dê esse passo. É muito gostoso quando trabalhamos em algo que amamos e temos um estilo de vida compatível com nossos sonhos e com aquilo que valorizamos. Apenas você pode dar este passo em sua vida, Gisele, portanto, faça isso por você!

Sucesso em sua caminhada!
beijo,
Bia


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quinta-feira, 8 de maio de 2014

Sonhos: desvendando o mundo interior

Atendendo a pedidos, hoje vamos conversar sobre sonhos. Este é um artigo em que tentarei abordar diferentes visões, vamos começar falando sobre algumas formas de compreender os sonhos, na psicologia, nas neurociências, mas também a forma espiritual, como o sonho é entendido nas diversas religiões.  Depois, vamos conversar um pouquinho sobre os diferentes tipos de sonho, como os sonhos lúcidos, os sonhos eróticos, os pesadelos... E para terminar, vamos falar sobre a importância de registrar os sonhos no seu diário de sonhos, dicas para lembrar e como criar o diário de sonhos. Com ele podemos buscar a nossa mitologia pessoal, que será como um grande mapa para compreender a nossa realidade. Espero conseguir fazer isso de forma clara e prática para todos.

As ruínas de um dos principais templos de Esculápio, em Kós, na Grécia.
A visão popular

A forma como as pessoas de modo geral olham para os sonhos, varia entre extremos. No contexto em que vivemos, temos desde pessoas que olham para os sonhos como algo muito simbólico e especial, até pessoas que acreditam que as imagens dos sonhos não têm um sentido maior e são apenas fruto do funcionamento cerebral durante o sono. Sem esquecer daquelas que acreditam que sonhos são bobagens e nem sequer lembram de seus sonhos ou, quando lembram, não dão grande importância. Vivemos num mundo onde reina a diversidade. Por isso, diferente de sociedades tradicionais (como o mundo antigo ou medieval), muitas formas de ver os sonhos (ou o que for) podem coexistir sem que uma invalide as demais. São apenas formas diferentes de olhar para o mesmo fenômeno, o que levará a diferentes posturas e condutas frente aos sonhos.


A visão cultural

Os sonhos sempre chamaram a atenção do ser humano. Afinal, se quando dormimos estamos meio que “desligados”, como é possível que a mente trabalhe e ganhe vida independente da nossa vontade? Isso, na mente de pessoas de outros tempos, era um grande mistério. Se hoje já dá o que pensar, imagine num tempo em que não havia testes psicológicos, exames de eletroencefalograma e outros que permitem verificar a atividade cerebral? Devia haver algo de sobrenatural nos sonhos!

Na cultura grega, os sonhos eram vistos como remédios para a alma. E remédios que, apesar de agirem na alma, no nível psíquico (psique vem do grego psyché, que significa “alma”), os sonhos eram remédios que, para o povo grego, poderiam curar males do corpo! Quando alguém tinha um problema de saúde complicado, ou doenças misteriosas que os médicos da época não conseguiam identificar ou tratar (fossem físicas, fossem psicossomáticas ou emoções confusas), os gregos apelavam aos deuses. Em casos assim, havia um deus em especial que era muito lembrado. Seu nome é Esculápio. Ele é o filho médico do deus Apolo. Importante: Apolo, aquele que conduz o carro do sol, que nunca se atrasa e sempre pensa no equilíbrio e na “justa medida”, era visto como um deus civilizador. Por isso, faz muito sentido que o deus da medicina seja seu filho, pessoas “civilizadas” (na visão grega) cuidam da saúde e tratam das doenças e dores que surgem, restaurando o equilíbrio da vida. Enfim, quando tinham um problema de saúde (físico ou psíquico) de difícil solução, os gregos apelavam a Esculápio. Eles levavam suas klinis (peça de mobília semelhante a uma cama – desta palavra vem o termo “clínica”) para o templo de Esculápio. Lá, meditavam, passavam por rituais e dormiam... para que, no sonho, de maneira simbólica, lhes fosse revelada a cura! Acho esse costume dos gregos fantástico, pensar os sonhos como algo simbólico e medicinal é um pensamento bastante avançado para o tempo em que viviam. Esse costume perdurou até que o Imperador romano Constantino instituiu o cristianismo como religião oficial do Império Romano. Com isso, ele decretou em 385d.C. que os templos de Esculápio seriam fechados e transformados em hospitais cristãos. Assim foi feito, e o povo levou mais de um século para assimilar as mudanças. Os resultados disso, entretanto, permanecem até hoje. A cura é vista como algo desvinculado do paciente, como se fosse apenas obrigação do profissional de saúde ou dos remédios, sem esforço/reflexão nenhuma do doente. Outra consequência que continua: muitos dos hospitais ainda são vinculados a instituições cristãs.

Com o destaque dado ao cristianismo e também com a queda do Império Romano, a Igreja enquanto instituição passou a ser soberana, estaria acima de todos os outros poderes. E a visão dos sonhos, embora continuasse como algo do sobrenatural, mudou significativamente. Para o ser humano medieval, um sonho nada tinha a ver com Esculápio. Os sonhos bons (que traziam paz, bem estar ou eram inspiradores), seriam soprados aos humanos por Deus, pelo Cristo ou pelo Espírito Santo. Já os pesadelos, sonhos eróticos (já que a sexualidade era vista como pecado), ou que gerassem qualquer tipo de desconforto, teriam origem demoníaca, o que levava quem sonhou a passar por penitências, purificações e até a ser acusado de heresia! Nessa época, havia um grupo chamado os “benandanti”, que em seus sonhos lutavam contra espíritos malignos e demônios, protegendo as vilas e a lavoura de todo tipo de praga e estrago. Infelizmente, quando um deles era descoberto, acabava sendo acusado de bruxaria e, quase sempre, morto. Quem quiser saber mais sobre isso, recomendo ler um livro chamado “Os andarilhos do bem”, de Carlo Grinzburg.

Tudo um dia acaba, por mais que demore. E a Idade Média também acabou. Demorou mil anos, mas acabou. E com o fim, veio o renascimento das ciências e da racionalidade. Estamos na época da expansão marítima e da exploração de novas terras, da descoberta de novos povos e novas culturas, o contato com antigos manuscritos gregos... Isso trouxe um grande impacto na mentalidade das pessoas – e na forma como olhavam para seus sonhos. Com a volta da ciência e a permissão para dissecar cadáveres (o que era proibido pela Igreja durante a época medieval), as pessoas mais instruídas começaram a deixar de ver os sonhos como mensagens de Deus ou de demônios. Agora o sonho é produzido pelo próprio cérebro de quem sonha. Ah, mas nessa época os sonhos meio que perderam sua importância! O cérebro era um campo de estudo nebuloso e assim foi por muito tempo. Os cientistas até conseguiam dissecar o cérebro de pessoas que haviam tido algum tipo de problema ou acidente e verificar quais áreas do cérebro lesadas provavelmente produziam os sintomas emocionais e de comportamento, movimento, fala, etc. que o doente apresentava quando vivo. Mas pouco havia a ser feito quanto a isso. O equilíbrio neuroquímico do cérebro é muito delicado e, com os métodos e instrumentos rudimentares de outros tempos, não se conseguia grandes avanços (diz-se que na década de 1990 dobramos a quantidade de conhecimento que tínhamos a respeito do cérebro, e desde então, as neurociências avançaram muito mais, para ter ideia do quanto sabíamos pouco até então!). Assim, frente a acidentes e doenças a serem curadas e pesquisadas, não se pesquisava grande coisa a respeito dos sonhos. Para os cientistas dos séculos XVIII – XIX, o sonho era apenas um “zelador do sono”, impedindo que os impulsos do nosso corpo (como fome, sede, bexiga cheia, etc.) nos fizesse despertar e impedissem o descanso adequado. Nessa lógica, alguém que sente fome durante o sono sonharia algo como uma mesa com pratos apetitosos, ou a velha história da criança que sonha que está no banheiro e acorda com a cama molhada... Que fique claro, uma parcela muito pequena da população sabia ler nesta época, e entre as que sabiam, bem poucas chegavam a ter algum tipo de estudo universitário ou coisa do tipo. Portanto, a maioria da população continuava a crer nos sonhos como mensagens sobrenaturais (como tantos ainda hoje acreditam), o que quero dizer é que, com a ciência em destaque, essa postura começa a ser questionada.


A visão da psicanálise

Sigmund Freud (1856-1939) foi um dos primeiros a estudar os sonhos. É importante lembrar que Freud era judeu, e ser judeu em Viena na época em que ele viveu era bem complicado. Havia todo o tipo de preconceito, inclusive a imensa dificuldade em ocupar cargos nas universidades e se envolver com pesquisas que estivessem em evidência na época. Então, ao contrário de grande parte de seus colegas neurologistas, em lugar de estudar distúrbios, ou mesmo o sono, Freud estudou os sonhos, tema que nenhum colega cristão se interessava muito. Claro, há mais razões para ele ter estudado os sonhos. Freud notava que alguns de seus pacientes, mesmo quando tinham alguma dor ou problema físico, não respondiam aos remédios e tratamentos convencionais. Mas, entre esses pacientes, muitos se curavam pela fala! Contando e recontando suas histórias de vida, seus sonhos mais simbólicos, seus medos... Freud interpretava toda a fala como simbólica e, ao chegar ao significado que o sintoma tinha para o paciente, geralmente a pessoa se curava. Isso o intrigava, ele queria saber mais sobre o inconsciente (a ideia de inconsciente não foi criada por Freud, apenas aprimorada. Já existia no campo da filosofia, muito antes de Freud). Isso porque acreditava que no inconsciente estaria a chave para a cura de muitos problemas que a medicina convencional não dava conta.

E assim, em 1900, Freud inaugura oficialmente a psicanálise, com a publicação de seu livro “A interpretação dos sonhos”. Arrisco dizer que esta seria uma de suas obras mais importantes, e também a mais bonita, de leitura bem agradável. O livro, que é encontrado facilmente em livrarias, bibliotecas ou mesmo online (o site Freud Online é ótimo, acredito que tenham esta obra para leitura gratuita), é recheado de casos clínicos interessantes do Dr. Freud, teorias e explicações sobre sonhos e uma revisão histórica muito boa sobre como o sonho era visto até então. Para encurtar a história, a psicanálise clássica (freudiana) vê o sonho como a realização de um desejo reprimido. Muitas vezes, desejos de ordem sexual, ou então desejos muito agressivos, que a pessoa não ousava dizer nem para si mesma. Importante lembrar que somos fruto da realidade em que vivemos. Nós a construímos e, ao mesmo tempo, somos construídos por ela. Assim, na sociedade em que Freud vivia, cheia de pudores e recalques, isso era bem válido, hoje em dia nem sempre é assim.

Carl Jung tem uma visão diferente sobre os sonhos. Isso porque a forma como os dois compreendem o inconsciente não é a mesma. Enquanto Freud vê o inconsciente como um “depósito” de conteúdos psíquicos/emocionais reprimidos (por serem traumáticos ou apenas por não serem socialmente aceitos), Jung vê o inconsciente como uma fonte muito rica de símbolos, incluindo uma dimensão coletiva que traz a história e os símbolos de toda a humanidade (o chamado inconsciente coletivo). Para Freud, o inconsciente se disfarça. Para Jung, ele se revela. Isso muda completamente a visão dos sonhos, pois além de ganharem mais possibilidades de assuntos por trás do conteúdo manifesto (isto é, por trás das imagens e mensagens literais), vindo de uma fonte de símbolos carregados com forte conteúdo emocional ligados à integração de opostos e equilíbrio, os sonhos podem passar a ser vistos como elementos que nos transformam e nos tornam psiquicamente mais equilibrados, em outras palavras, nesta visão os sonhos podem ser interpretados como agentes de cura e de transformação interior, tal como acreditavam os gregos (coincidência ou não – provavelmente não, pois Jung estudou a fundo os símbolos e mitos das diversas culturas).


A visão das neurociências

Hoje em dia sabemos através de exames em laboratórios do sono que todas as pessoas sonham várias vezes por noite. Algumas raramente se lembram de seus sonhos e pensam que não sonham, mas isso não é verdade. Nosso inconsciente tem mesmo um mecanismo de censura tão sofisticado que é impossível não se maravilhar! Na visão das neurociências, nosso cérebro não se desliga por completo durante o sono. Aliás, quase nada se desliga, o que acontece é um rebaixamento da consciência conforme o tronco cerebral fica menos ativo (aliás, quem se sente sonolento ao ler ou estudar, basta ativar essa região do cérebro, por exemplo, andando um pouquinho e respirando profundamente). Os sonhos ocorrem diversas vezes durante o sono e, ao que tudo indica, são usados como material base para eles as lembranças do nosso dia, tanto aquilo que vivenciamos, como também aquilo que pensamos, imaginamos, sentimos, tememos e ansiamos... Os sonhos ocorrem de forma mais vívida e intensa durante o sono REM, uma fase do sono em que ocorrem movimentos rápidos nos olhos e em que o cérebro funciona com uma frequência de onda bem semelhante a de quando estamos acordados.


A visão da espiritualidade: o sonho nas religiões

Existem diferentes formas de entender os sonhos nos diversos caminhos espirituais e religiões. Assim como as ciências, as religiões são uma forma de explicar e dar sentido ao mundo em que vivemos. Usam caminhos diferentes, e isso não é motivo para vê-las como opostas. Ao contrário, quando a psique é equilibrada, ciência e religião se complementam numa dança harmoniosa, em que uma alicerça a outra e leva ao nosso crescimento. Mas passemos às visões de sonho de algumas religiões:

Na esfera judaico-cristã, existem diversas referências aos sonhos no Antigo Testamento. Muitas vezes os sonhos (em especial sonhos de reis e pessoas de destaque na comunidade) eram interpretados como sinais, mensagens ou presságios de sorte e abundância ou de desastres, dependendo dos símbolos que aparecessem. Além disso, muitos dos profetas tinham suas revelações nos sonhos.

Já em correntes espiritualistas e nos novos movimentos religiosos (entre eles, alguns ramos do paganismo), muitas vezes os sonhos são interpretados como mensagens de guias espirituais ou mesmo como a visita de parentes e amigos que já se foram deste mundo... Outras vezes, o sonho é visto como lembranças de nossos passeios e ações pelo mundo astral, quando se parte do princípio que, durante o sono, a consciência da pessoa deixa seu corpo e continua a agir enquanto o corpo recupera a força. Embora não seja a visão oficial de nenhuma religião do presente, permanece entre muitas pessoas a visão do sonho como mensagem, aviso, comunicação com espíritos ou divindades, e até como sinal para apostas e jogos de azar.

Nas religiões orientais, o sonho também é um elemento bastante presente. No hinduísmo, por exemplo, o nosso mundo real é um sonho de Vishnu, deus que mantém toda a ordem no universo. Ele dorme sob a serpente Ananta, enquanto navega no oceano cósmico e sonha cada pequeno detalhe do nosso mundo.
Já no budismo, o sonho é um instrumento que o ser humano tem a sua disposição para evoluir e chegar a um estado de iluminação. Para isso, é preciso trabalhar os sonhos, de forma a transformá-lo num sonho lúcido (aquele em que a pessoa sabe que está sonhando e tem controle de suas ações). Para isso, é preciso exercitar a nossa percepção da realidade, em práticas que envolvem tanto o nosso tempo acordado quanto o sono. O objetivo é eliminar a barreira que existe entre os dois estados, e assim poder chegar ao estado de sono profundo de maneira consciente, podendo aprender e contemplar as verdades que existem no nosso interior.

Afresco da Capela Sistina, "A crianção de Adão", Michelangelo, 1511.
Note como o local onde estão Deus e os anjos se assemelham a um cérebro de perfil.
Se assim for, a mão de Deus sai para encontrar a de Adão exatamente
na área cerebral do pensamento racional. Não é curioso?
Os tipos de sonho

Como muitos me perguntam sobre isso, resolvi incluir no artigo! Vamos aos diferentes tipos de sonho. Lembrando que a divisão que proponho aqui é apenas didática, um sonho pode se encaixar em diversas das categorias abaixo sem necessidade de alardes.

Pesadelos: são os sonhos que geram medo, desprazer, nojo, enfim, sentimentos desagradáveis ou de repulsa. Freud diz no livro “A interpretação dos sonhos” que 98% dos nossos sonhos são desagradáveis. Sim, é muito. Por isso devemos lembrar que Freud nos fala com base na realidade em que vivia: uma sociedade repressora e rígida, em que os (muitos!) desejos e ideias que não podiam ser expressados livremente, se manifestavam na forma de sonhos desagradáveis. Acredito que no nosso tempo e cultura a porcentagem seria diferente. Ainda assim, seria alta, pois o sonho não deixa de ser uma forma de refletir e repensar aquilo que vivemos/pensamos/sentimos, e é comum que as reflexões comecem por aspectos da nossa realidade que precisam de mais atenção, aqueles não tão agradáveis...

Sonhos lúcidos: São sonhos em que a pessoa que sonha sabe que está sonhando e, muitas vezes, tem mais controle sobre aquilo que faz e diz no sonho. Do ponto de vista das neurociências, este tipo de sonho acontece quando a consciência não foi rebaixada como de costume durante o sono. Alguns caminhos espirituais tendem a interpretar os sonhos lúcidos como sinal de evolução na caminhada da pessoa, que começa a ter um maior controle de si mesma. Clinicamente, não há problemas quanto a este tipo de sonho, mas apesar de ser uma sensação interessante, quando muito frequente, cabe refletir sobre a nossa necessidade de controle: por que não se entrega, nem mesmo aos próprios sonhos – a si mesma?

Sonhos premonitórios: Estes são aqueles sonhos que se tornam realidade. Não há uma explicação científica definitiva sobre este fenômeno (e eu acho isso o máximo!), mas mesmo sem explicação, é certo que acontecem mais do que os psicólogos gostam de admitir. Uma forma de explicar este fenômeno é com base na ideia de inconsciente coletivo de Jung, aquela parte da psique de todos nós onde ficam armazenadas as experiências da humanidade, numa visão histórica e cultural. No inconsciente, a noção de tempo-espaço é bem diferente da que temos na realidade desperta. Assim, uma vez que acessamos este lado da nossa psique por meio dos nossos sonhos ou de estados alterados de consciência (como a meditação profunda ou o transe hipnótico), podemos ter acesso aos conteúdos de qualquer tempo, sem que isso seja algo fantástico ou sobrenatural.

Sonhos eróticos: sonhos de conteúdo sexual são bem comuns na adolescência, e mesmo na vida adulta. Lembrando que a ausência deste tipo de sonho também não tem grande significado clínico. Quando interpretados sob o ponto de vista psicológico, é comum que sonhos de conteúdo sexual nem sempre tenham um significado relacionado à sexualidade, muitas vezes este é apenas um símbolo que o nosso inconsciente encontrou para nos mandar uma mensagem. O significado varia muito, conforme o contexto do sonho, sentimentos de quem sonhou, pessoas envolvidas (e como o sonhador as vê), as ideias e crenças da pessoa sobre a sexualidade... Tudo pode ser simbólico, inclusive os conteúdos sexuais, sejam mais explícitos e vívidos, sejam mais sutis, como insinuações e palavras de duplo sentido.

Sonhos com santos, deuses, anjos, demônios ou seres mitológicos: Por que raios um deus visitaria o sonho de uma pessoa comum? Na certa o deus ou a criatura em questão é uma representação simbólica. Outra vez, nos deparamos com o inconsciente coletivo. O deus, criatura, ou mesmo a cena de um pedaço de mito interpretada por você e pessoas do seu convívio são mensagens poderosas e especialmente simbólicas, pois estão nas camadas mais profundas do inconsciente coletivo. O discurso dos mitos (seja da cultura que for) é algo que nos molda enquanto seres humanos, nos insere na esfera cultural. Quando conteúdos mitológicos (na forma de personagens ou de situações) aparecem nos sonhos, temos um contato mais direto com o nosso Eu mais profundo. Isso significa que o potencial de cura/transformação que a mensagem do sonho nos traz é grande. É interessante procurar saber mais sobre o mito em questão e refletir bem se algo semelhante (de forma mais direta ou mais simbólica) não estaria se passando na nossa vida ou até na forma como vemos as situações que vivemos. Lembro de acompanhar alguns sonhos especialmente interessantes deste tipo. Num deles, uma jovem que se preparava para iniciar os estudos universitários, coisa que desejava muito, sonhou que abria o mar como Moisés faz no Antigo Testamento (quando os judeus fogem do Egito), o que deixa claro o sentimento dela de que a nova fase da vida seria um “divisor de águas” e uma libertação. Outro caso foi o de um homem já maduro que sonhou com Pégaso, o cavalo alado, puxando um arado com muita dificuldade num campo seco e morto. Isso mostrou bem a forma como ele se sentia em sua vida pessoal e profissional: alguém com um grande potencial, mas que se prendia a algo que não fazia sentido algum para ele, resultando em uma depressão séria. O sonho foi um reconhecimento do seu potencial, e o primeiro degrau para a cura. Qualquer semelhança com o que os gregos pensavam dos sonhos talvez não seja coincidência (provavelmente não é!).

Sonhos com pessoas que já morreram: Não, isso não significa que você é sensitivo, e muito menos que está sendo perseguido pelos mortos! Algumas vezes, os espíritos que aparecem em sonhos são “apenas” símbolos. São mensagens do nosso inconsciente. Para ter mais clareza sobre sonhos deste tipo, é interessante analisar quem é o morto: alguém da família ou algum amigo próximo? Alguém de quem você gosta e sente saudade? A morte já aconteceu há muitos anos ou é algo mais recente, que ainda está mais presente no nosso dia a dia, nos nossos pensamentos? Em muitos sonhos, a presença de um morto é bem semelhante à de um vivo. As pessoas dos nossos sonhos, independentemente de estarem vivas ou mortas, são antes de tudo pessoas, e representam aquilo que associamos a elas, sejam emoções (amor, raiva, desejo, medo, etc.), sejam conceitos (autoridade, beleza, iluminação, etc.). Na maioria dos casos, os sonhos são sobre esses significados, e não sobre as pessoas (vivas ou mortas).



Trabalhe com seus sonhos

Importante começar este trecho do artigo dizendo que nenhuma visão sobre os sonhos é mais certa que outra. São formas diferentes de se olhar para o mesmo tema de estudo e, claro, cada área só pode perceber os sonhos com clareza partindo de seu próprio campo. Assim, a visão das neurociências não invalida a visão psicológica, que por sua vez não invalida a visão dos diferentes caminhos espirituais. Porque não somos seres apenas espirituais, ou apenas psicológicos, ou apenas biológicos ou apenas espirituais/culturais. Somos uma mistura bem equilibrada disso tudo, assim, todas essas teorias e formas de compreender os sonhos fazem parte de nós e podem ser aplicadas à nossa vida sem que uma necessariamente entre em conflito com as demais.

Para lembrar dos sonhos: Muitos pacientes relatam que começaram a lembrar dos sonhos apenas ao começar a dar maior atenção a eles, e isso é uma grande verdade. É importante ter em mente que a nossa realidade interna (que se revela nos sonhos) é tão real quanto a externa. Portanto, para lembrar dos sonhos é preciso estar pronto para mergulhar nessa outra realidade. Prepare-se. Tenha uma rotina agradável para a hora de dormir, assim você faz a transição aos poucos, de forma bem calma. Nessa rotina, é legal incluir um banho morno, um chá relaxante (de preferência sem adoçar), diminuir as luzes... Você pode se dedicar a atividades tranquilas, como conversas sossegadas, leituras apaziguadoras, meditações, orações, exercícios de respiração, enfim, cada um descobrirá o que funciona melhor para si. Na hora de ir para a cama, cuide do seu conforto, incluindo o conforto térmico, para não passar frio e nem calor. Não durma com fome, mas também não coma nada muito pesado. Além disso, vista roupas que não prendam seus movimentos. Gosto de pedir aos pacientes que mentalizem uma frase curta e simples como “vou lembrar dos sonhos desta noite” por diversas vezes, já deitados e com os olhos fechados. Pode não dar resultados no primeiro ou segundo dia, mas cria na nossa mente um padrão de que os sonhos são bem vindos à consciência. Deixe o quarto bem escurinho e boa noite!

Para que trabalhar com os sonhos: Compreendê-los bem é uma forma muito boa de autoconhecimento. E o autoconhecimento é um caminho seguro para o desenvolvimento psíquico, a compreensão de sintomas físicos, e mesmo para o nosso desenvolvimento espiritual (independente do caminho ou religião que a pessoa siga – aqui pensamos a espiritualidade como aquele potencial de acreditar, de ter fé/confiar que todo ser humano traz em si). O trabalho com sonhos é mais facilitado com o diário de sonhos. Já ensinei como fazê-lo, mas vamos repetir mesmo assim!

Criando o diário de sonhos: É importante fazer o diário de sonhos escrevendo à mão. Além de facilitar os registros, ao escrever à mão trabalha partes do nosso cérebro diferentes das que usamos para digitar ou gravar um arquivo de áudio. Use um caderninho que seja prático para você, pode ser um caderno que sobrou do último ano escolar, ou um caderninho especial, você é quem decide! Mas é importante que seja um diário usado apenas para isso (ou, se tiver outros objetivos, que seja um caderno ligado ao autoconhecimento, como o diário menstrual ou algum tipo de livro das sombras). Não faça naquela mesma agenda que você anota as provas do seu curso ou as reuniões com aquele cliente super exigente, os compromissos mais estressantes... Apenas porque isso nos joga de cabeça para fora do mundo dos sonhos. Aliás, quando acordamos é muito fácil perder as lembranças do sonho. Para evitar isso, repasse o sonho na mente, com as imagens/frases que lembrar. Se precisar, repasse diversas vezes. Depois, conte os sonhos para si mesmo em pensamento, agora usando linguagem, como se fosse conta-lo para alguém. Isso ajuda a lembrar do sonho não apenas como um fato, mas também como um discurso. Agora sim, anote no diário, da forma mais completa e detalhada que conseguir. Pode ser que no início seja difícil. Tudo bem, respeite o seu ritmo. Talvez os primeiros registros sejam apenas algo como “Praia. Sensação boa.” Não tem problema, já é um avanço e um ótimo começo. Com o tempo, conforme fazemos isso todos os dias, nos lembramos de mais detalhes. Lembre-se de colocar data nos seus registros. Fique à vontade para acrescentar os dados que achar importante, como a fase da lua, algum acontecimento importante do dia anterior (eles interferem nos sonhos), algum sintoma que estava sentindo e, no caso das mulheres, o momento do ciclo em que está. Depois, procure interpretar o sonho. Pensar nos símbolos que se mostram (tudo é simbólico: pessoas, cores, lugares, palavras, objetos...) pode ajudar, mas evite manuais, ou se usar, não seja rígido. A melhor interpretação é a que parte da própria pessoa. Se estiver difícil, releia o sonho quando for se deitar, ou mesmo depois de alguns dias, dar um tempo pode clarear muito a nossa visão.

Sonhos e ciclo menstrual: Atenção mulheres, nossos sonhos mudam de acordo com o momento do nosso ciclo. Ou melhor, os símbolos que se mostram mudam. Durante o período pré-menstrual e a menstruação, se mostram símbolos mais ligados à morte e destruição, deusas negras, animais noturnos, cenários escuros/obscuros, águas escuras (não quer dizer que seja um pesadelo, ok? São “apenas” símbolos que, algumas vezes, vêm muito bem disfarçados!). Já no período fértil, assim como na gravidez, se mostram os símbolos da deusa branca, deusas mães, fertilidade (inclusive no sentido de projetos), criação... Nas mulheres que já entraram na menopausa, muitas vezes o ciclo se mantém simbolicamente nos sonhos. Outras vezes, o período menstrual (simbólico) passa a ocorrer durante a lua nova/negra (acho isso fascinante!).


Conclusão: desvendando a mitologia pessoal

Joseph Campbell, um grande estudioso de mitologias, tem uma frase de que gosto muito: “os mitos são sonhos públicos, os sonhos são mitos privados”. O caldeirão de onde eles saem é o mesmo: o inconsciente. Sonho e mitologia falam da nossa realidade mais íntima, ambos fascinam a humanidade há tantos milênios porque tocam a nossa alma e nos contam quem somos, permitindo ainda que a gente se transforme em quem gostaria de ser, caso trabalhe com eles com empenho e seriedade.

Use os seu diário de sonhos não apenas como um registro ou algo terapêutico. Use-o como um manual de mitologia – a sua mitologia pessoal. Depois de algumas páginas preenchidas, tire um tempinho para folhear o diário e ler alguns sonhos. Qual a tônica por trás deles? Qual o fio condutor? Toda mitologia tem um tema central que está por trás de grande parte das histórias. Nos romanos, podemos identificar essa tônica nas conquistas (de territórios, de poder, conquistas amorosas/sexuais...), nos gregos, percebemos que o fio condutor é o equilíbrio (entre estações do ano, vida e morte, corpo e mente...), entre os judeus, o fio condutor muitas vezes é a questão das leis e a obediência ou transgressão, que traz recompensas ou castigos.

Para perceber o seu fio condutor, é útil observar com atenção detalhes como o tipo de situação em que seu inconsciente te coloca, o tipo de linguagem usada, elementos que se repetem, personagens (ou arquétipos) frequentes nos sonhos... Você aparece nos seus sonhos? Se sim, qual o seu papel? Herói, vilão, sábio, alguém que lida com o poder ou que se opõe a ele...? Os sonhos são movimentados ou mais parados? São coloridos? Nele aparecem pessoas conhecidas ou apenas desconhecidos? Deixe a mente solta, quanto mais perguntas, melhor.

Quando desvendamos a nossa mitologia pessoal, damos um grande passo no caminho do autoconhecimento. Percebemos quais são as nossas maiores buscas, as ameaças, os medos, as estratégias que costumamos utilizar, as falhas frequentes... A importância disso está no seguinte: mundo interno e realidade externa são reflexos um do outro, como num jogo de espelhos. Quando encontramos esses detalhes sobre nós no nosso mundo interno, pode ter certeza, de alguma forma, mais literal ou mais simbólica, repetimos o mesmo funcionamento na realidade, nos diversos contextos e cenários do nosso dia a dia. Já disse o poeta Mário Quintana, de forma mais bela: “sonhar é acordar-se para dentro”.


Escrevi o artigo de hoje para o site Oficina das Bruxas, no dia 10/01/2014, e resolvi postar aqui no blog com pequenas adaptações, em função do grande número de pessoas que se interessam pelo tema e escrevem perguntando.