sexta-feira, 27 de junho de 2014

Ágora - Minha família não aceita meu namoro

Bia, tenho uma situação complicada sobre relacionamento. Pode colocar no seu blog se vc achar que vai ajudar mais pessoas. É assim, faz um tempinho que eu to namorando com um garoto e a gente se ama muito, não tem grandes problemas entre nós, o problema é a minha família que eles não aceitam isso de jeito nenhum. Eu nem sei porque essa situação, eu tenho 21 anos, trabalho e faço faculdade, ele tem 19 e tambem trabalha e faz faculdade. Somos pessoas sérias, esforçadas e nosso sentimento é sincero! Eu fico muito triste com essa postura da minha família, porque o G. não é uma pessoa ruim, tem caráter, me ama e me respeita. Eles nunca nem mesmo conversaram com ele para conhecer ele melhor, só ficam repetindo que vou sofrer demais e que agora é melhor eu me focar só na faculdade. Mas a gente se ama e faz planos pra no futuro casar e ter a nossa família, por isso quero tanto que meus pais aceitem essa minha escolha. Socorro! 
Débora - Minas Gerais


Oi, Débora!

Essa é mesmo uma situação que nos deixa com uma insegurança bem chata. Amamos alguém, e também amamos nossa família, queremos que o relacionamento evolua... e é muito chato quando a família não aceita isso. Vamos pensar na situação por partes para entender melhor e buscar caminhos.

Primeiro, acho que é fundamental a pessoa se resolver consigo mesma. O que espera do relacionamento? É apenas um namorinho ou existe a intenção de construir uma vida juntos? Bom, essa parte você já fez, pelo que me contou, certo Débora? Vocês pretendem se casar e formar a família de vocês, querem um relacionamento mais sério e, por isso, a aceitação da família pesa mais do que quando o casal só pensa em um relacionamento mais passageiro.

Segundo, acho fundamental ter uma conversa muito franca com os seus pais, não tentando impor que aceitem o namoro de vocês, e sim tentando entender o que eles dizem. Muitas vezes, quando nos apaixonamos, não vemos o outro com tanta clareza. Aliás, nem precisa estar apaixonada! Muitas vezes outras pessoas percebem características do outro diferentes daquelas que percebemos. Nesse sentido, pode ser interessante ouvir os pais, outros familiares e amigos, para saber o que exatamente eles pensam e ficar atenta se eles têm razão ou não. Importante dizer, muitas vezes quilo que as pessoas apontam como um problema ou um defeito foi justamente o que nos atraiu para aquela pessoa... por isso, é legal prestar atenção, mas também é fundamental ter a consciência de que a escolha sempre será nossa. Nessa conversa, vale a pena ainda perceber os medos que seus pais têm. Muitos temem que os filhos deixem os estudos em segundo plano por conta do relacionamento, ou que deixem sonhos e metas de lado. Vale a pena, se o caso for esse, deixar suas intenções bem claras, mostrar o quanto os dois se amam, mas também mostrar que levam a sério os estudos e o trabalho, enfim, mostrar que são responsáveis em todos os sentidos.

Terceiro, é interessante conversar também com o seu namorado, é importante que o casal tenha cumplicidade para que não fique à mercê das vontades de outras pessoas, sejam elas quem forem. É importante expor o que vem acontecendo em casa com sinceridade. Vocês se amam e, supondo que seus pais não aceitem o relacionamento de vocês de jeito nenhum, como vão escolher lidar com isso? Tenham um plano. Um bom plano, aliás. Um planejamento que envolva, inclusive, o tipo de discurso  e comportamento que terão com familiares que não os aceitam, mas que vocês amam. É melhor do que deixar para ver o que fazer na hora dos conflitos e acabar dizendo ou fazendo coisas que vocês podem se arrepender quando esfriarem a cabeça.

Não existe um jeito ou uma receitinha para alguém aceitar nossas escolhas, e a não aceitação também é uma consequência que precisamos assumir. O que precisa acontecer, sempre, é o respeito, no caso que você contou é preciso que os pais compreendam que a filha cresceu e já pode fazer suas escolhas. No entanto, a aceitação, que é aquela postura interna de lidar bem com a escolha do outro (e quem sabe até se alegrar pela felicidade dele), não tem como ser "forçada" ou "imposta". Muitos pais constroem sonhos encima dos filhos, e é frustrante para eles quando as escolhas dos filhos não vão na direção que eles esperam, muitos têm certa dificuldade para aceitar isso. Mas ao mesmo tempo, se o filho basear suas escolhas apenas naquilo que agradaria aos pais, estarão vivendo uma vida artificial, com escolhas que na realidade não são as dele. Geralmente, quando os pais percebem que os filhos estão felizes com a vida que escolheram e que tudo mais vai bem, eles tendem a se acalmar e a se alegrar pela felicidade dele. As escolhas na nossa vida sempre serão nossas. Independente daquilo que outras pessoas (por mais queridas que sejam) sintam ou pensem a respeito.

Boa sorte.
beijos,
Bia


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quinta-feira, 26 de junho de 2014

Em busca de si mesmo: medo e libertação

O medo é a prisão e a técnica de controle mais eficiente que existe. Quando sentimos medo, não precisamos que ninguém nos desencoraje ou nos pare, fazemos isso sozinhos! Além disso, a pessoa cheia de medos ou no auge desta emoção, é facilmente manipulada. A maior parte dos psicólogos e neurocientistas concorda que o medo é uma das emoções mais antigas que existem, seja pensando no desenvolvimento evolutivo (boa parte dos animais, mesmo com um sistema nervoso rudimentar, apresentam sinais de medo), seja no sentido do desenvolvimento da pessoa (o medo é uma das primeiras emoções que aprendemos a sentir, está numa parte mais “antiga” do nosso cérebro).

Como tudo, o medo tem dois lados. O lado bom, e o maior objetivo, é nos proteger. Quando uma pessoa tem medo, digamos, de altura ou do fogo ou de tempestades com muitos raios, ela está se protegendo, evitando acidentes e até a morte. Quando o medo é mais refinado, mais inserido no dia a dia do mundo cultural, como o medo de não ser aceito, de fracassar em algo importante, de perder pessoas queridas, o objetivo também é a proteção. Quem sente medo, arrisca menos e diminui assim as chances de ter de lidar com uma fatalidade... Mas ao mesmo tempo, quem não arrisca por medo, quem se permite ser controlado pelos medos que tem, também nunca terá uma boa surpresa por ter conseguido algo e superado o controle que essa emoção tinha na pessoa.

Em resumo, o medo é bom quando atua como defesa, mas é ruim quando, de tão grande que é, nos impede de dar os passos que tanto desejamos. Por isso, o oposto do medo é a liberdade. A liberdade exige coragem, ou melhor, exige que a gente supere os nossos medos, principalmente aqueles medos que vêm muito bem disfarçados de ideias fortes e significativas como “nunca vou fazer X” ou “uma pessoa prevenida vale por duas”, entre tantas outras.

A liberdade mais especial que existe não é aquela de ir e vir ou de dizer o que quiser ou de fazer o que vier na cabeça. A melhor liberdade que podemos conquistar é aquela que é freada pelos verdadeiros medos, a liberdade de ser quem realmente somos. Independente das amarras do “tenho que...”, “deveria...”; das armadilhas do “receio” de falhar ou da “insegurança” do que os outros poderiam achar, do “sentimento de instabilidade” frente ao que poderia acontecer... Apenas ser quem somos, sem rótulos nem amarras. Claro que isso é difícil. E mais: isso provavelmente é algo que sempre buscaremos, mas nunca atingiremos por completo, o que apenas incentivará ainda mais a busca.


Não pense que essa busca é tão racional, nem que ela acontece rapidinho no intervalo da novela. É uma busca que dura toda uma vida. É uma busca que exigirá de nós todo o nosso envolvimento, inclusive de reconhecer quando estamos recuando ou paralisados pelo medo. Apenas quando nos desprendemos e soltamos todos esses medos é que estamos de fato protegidos, num jogo de opostos muito curioso: quando deixamos ir e nos submetemos ao que mais tememos é que nos é revelada a nossa recompensa.


Publiquei este artigo originalmente no site Frutos do Carvalho, no dia 17 de fevereiro de 2014.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Mythos - Parvati: harmonia e completude

Hoje temos um mito indiano. Parvati é uma das esposas de Shiva. Ela é filha do Himalaia e do rio Ganges, dois importantes símbolos da região em que esse mito surgiu. Mas nem sempre ela foi Parvati. No início, seu nome era Sati. Ela era a filha de Daksha e quando chegou a idade de se casar, o pai deu uma linda festa para que ela escolhesse entre seus pretendentes. No entanto, não convidou Shiva (pois ele havia sido banido do convívio com os deuses por haver cortado uma das cabeças de Brahma). O pai anunciou que Sati jogaria sua coroa de flores, e o deus que a pegasse seria o noivo de sua filha. Para a surpresa de todos (em especial do pai!), Shiva apareceu bem neste momento e pegou a coroa! Sem escolha, todos concordaram com o casamento.


No entanto, as coisas não iam tão bem para a jovem. Ela amava seu pai, e também amava seu marido... Mas os dois viviam para implicar um com o outro. Sati não suportava tanta discórdia e tantas brigas na família. Farta da situação, ela se atirou no fogo sacrificial e morreu. Vishnu, o deus preservador, ao ver o desespero de todos, fez com que a deusa renascesse como Parvati, uma deusa ainda mais bela e esposa perfeita.

Parvati é uma deusa doce e gentil. No entanto, o relacionamento dela com o marido não é tão simples e, embora ela sempre consiga acalmá-lo, os desentendimentos são frequentes. Certa vez, ela cobriu os olhos do marido com as mãos e isso fez a escuridão cair sobre o mundo. Cheio de raiva, Shiva fez com que um terceiro olho surgisse na própria testa, devolvendo a luz ao mundo. Simbolicamente, Parvati é a deusa que equilibra o temperamento mais duro do marido, trazendo paz, harmonia e doçura para o mundo.


Questões para reflexão:

1- Sati se sacrificou por outras pessoas. Ou melhor, por não suportar a desarmonia entre pessoas amadas. Você percebe esse tipo de movimento em si? Você tende a se sacrificar pelos outros (em que momentos e por quais pessoas)? 

2- Quando Sati morre e renasce como Parvati, o que acontece, simbolicamente, é um rito de passagem. Ela deixa de ser aquela que se perturba com a desarmonia ao seu redor e se torna, ela mesma, uma fonte de harmonia. Além disso, no rito de passagem ela entrou em contato com sua escuridão e com seu mundo interior, passando a ter acesso ao que mais necessitava (no caso desta deusa, a harmonia). O que você mais precisa? Como isso se mostra no seu mundo interior? Se tiver dificuldade de pensar sobre isso, vale fazer um desenho deixando os sentimentos virem...

3- Parvati e Shiva formam uma unidade enquanto casal, um todo pleno de equilíbrio. Ele é agitado e ela é mais calma. Ele tem um modo de ser mais conturbado, seu equilíbrio emocional parece mudar como as marés... Já ela é doce e gentil, sempre harmoniosa. Pode parecer, aos olhos ocidentais de hoje em dia, duas pessoas diferentes demais. Mas a mitologia (e talvez a vida) é assim mesmo, os relacionamentos e parcerias fazem com que as duas partes se tornem uma unidade, que precisa de equilíbrio, precisa funcionar bem. Como são seus relacionamentos mais íntimos? Existe esse equilíbrio? As diferenças se somam, potencializando algo de harmonioso ou vivem numa competição sem fim devido às diferenças e semelhanças?

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Ágora - O sentimento de nacionalismo e a Copa do Mundo

Oi Bia! Escreve alguma coisa sobre a Copa do Mundo? Não esses protestos e esse lado mais político, que apesar de eu achar importante, todos já estão falando. Eu queria entender é sobre o sentimento de nacionalismo, o pessoal andando por aí com as cores da bandeira, enfeitando ruas... Eu sei que isso é mais que o amor por uma equipe esportiva, tem algo a ver com o sentimento de nação, e queria entender isso. Valeeeu!!! 
Marcel - Mauá, SP


Oi, Marcel!

Esse nacionalismo recebe o nome de identidade nacional, isto é, a forma como um povo se percebe e olha para si mesmo. Ao mesmo tempo que essa identidade pode dar margem a certos estereótipos e preconceitos (como os populares "brasileiro é folgado",  "japonês é inteligente", "italianos só comem macarronada" e tantos outros), a identidade nacional mostra as características de um povo. Isso é bom ou ruim? Nem um nem outro, é apenas a expressão dessas características e da forma de ser de um povo.

Décadas atrás, estudiosos da identidade falavam muito sobre o sentimento de nacionalismo e a identidade nacional. Lembro sempre do caso do sociólogo Zygmunt Bauman, nascido na Polônia e exilado, buscando abrigo na Grã-Bretanha. Certa vez, ao receber uma homenagem, perguntaram-lhe qual hino tocar, o da Polônia ou o hino inglês. Bauman disse que não se considerava polonês por ter sido expulso de seu país de origem, mas também não era um inglês. Resolveram o impasse tocando o hino da Europa, mantendo o foco numa identidade que vai além da nacional. 

Hoje em dia, a identidade nacional já é um assunto um pouco menos falado nos meios acadêmicos, mas ainda presente em alguns contextos. Com o avanço da globalização, as fronteiras entre os povos ficaram mais tênues. Especialmente as fronteiras culturais e emocionais. Em especial nos casos de locais que receberam imigrantes de forma mais intensa, observa-se muito essa necessidade de preservar a cultura do local de origem, na linguagem, nos costumes, nos pratos típicos e nos valores do povo em questão. Não é preciso, por exemplo, ir até a Itália para participar de uma festa italiana ou japonesa, alemã, boliviana... elas acontecem com regularidade nos locais que receberam esses povos, permitindo que todos conheçam um pouco de suas tradições e costumes.

A identidade nacional tende a ficar mais intensa em algumas situações, como em momentos de crises (econômica, política, social, etc.), após acidentes graves ou grandes desastres, nos momentos em que um país ou povo está em evidência (como na Copa do Mundo, no momento de alguma grande conquista ou em outros eventos internacionais), e mesmo entre pessoas que se encontram fora de seu país de origem (repare como muitos imigrantes e descendentes preservam as tradições culturais de forma muito mais intensa do que quem permaneceu no país de origem, chegando até a apresentar certa rigidez em alguns casos). 

Entendido o que é a identidade nacional, podemos perceber que ela se apresenta de acordo com os valores de um povo. A Copa do Mundo não é o elemento principal, é apenas um cenário usado para a expressão dessa identidade nacional de maneira mais clara. No entanto ela acontece todos os dias, quando puxamos conversa com as pessoas no transporte público ou numa fila, mostrando que somos um povo sociável e que valoriza essa interação com os demais. Ou quando fazemos piadas e brincadeiras com algo sério, mostrando que apesar de compreender a gravidade de uma situação, sabemos rir de nós mesmos e ver o lado inusitado da coisa. Não somos um povo "sem identidade" como vivem querendo nos jogar goela abaixo. Ao contrário, somos um povo culturalmente rico e que cresceria muito se soubesse valorizar essa riqueza cultural.

beijo,
Bia


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quinta-feira, 19 de junho de 2014

Respeitar a si mesmo

Muito se fala sobre a importância de respeitar – os outros, o mundo, a natureza... mas muitos se esquecem da importância do respeito a si mesmo. Parece algo simples, no entanto, quando pensamos no dia a dia, percebemos que muitas pessoas não se respeitam – e nem sequer percebem isso! Vamos começar pensando então em exemplos disso.


- Autossabotagem: aquele processo em que a pessoa tem uma meta, se esforça e no último momento, estraga tudo. O estudante que se dedicou o ano todo mas, bem no dia do vestibular, se atrasa ou tem uma dor de barriga e perde a prova. Ou a pessoa que luta sério por uma oportunidade e no último momento comete um erro até simples, mas que faz tudo desandar.

- Problemas na autoestima, que além de ser muito baixa, faz essas pessoas dizerem coisas ruins ou pejorativas sobre si mesmas (muitas vezes em tom de brincadeira, mas que carregam verdades desanimadoras).

- Falta de gratidão: a pessoa que simplesmente não consegue olhar para as coisas boas presentes na vida dela e se sentir grata. Isso é ruim, pois a pessoa, ao não sentir gratidão, não consegue olhar com amor para as coisas boas da vida, entrando num processo de amargura.

- Sentimento constante de amargura e de ser injustiçado. Muitas vezes isso se mostra na face de quem reclama demais, quando a pessoa não quer desabafar algo que aconteceu ou buscar mudanças, quer apenas repetir aquele mesmo discurso negativo de todos os dias, reforçando o quanto ela é cheia de problemas, de injustiças e o quanto todos só a usam sem se importar...


E daí?

O problema de não se respeitar é que, pouco a pouco, a vida vai perdendo a cor e ganhando os tons frios e sem graça do lado ruim da vida. A pessoa deixa de perceber o outro lado, deixa de notar tudo o que tem de bom na vida dela e tudo aquilo que a torna digna de respeito. Logo, outras pessoas notam isso, e ao perceberem que a pessoa não se respeita, surge a brecha para que os outros também a desrespeitem, como se ela dissesse “beleza, pode me usar, me desrespeitar, fique à vontade! Eu mesma faço isso!”


Como mudar isso e ganhar o respeito de si mesmo?

- Faça uma lista de gratidão, pelo menos 30 itens, se passar, melhor. Vale tudo, desde coisas bem únicas a seu respeito até coisas mais gerais como “não passar fome” ou “ter saúde”. Depois, pegue essa lista e coloque em algum lugar que você veja sempre, como a sua agenda, a porta da geladeira, etc. Todos os dias, leia essa lista e sinta, em seu corpo, a sensação de ser grato.

- Mais uma lista, dessa vez de atos heroicos. Claro, ninguém aqui cortou a cabeça da medusa ou realizou os trabalhos de Hércules! Mas todos temos nossos feitos, mesmo que mais humildes. Superar uma doença ou uma grande crise na nossa vida. Ter se formado. Ter conseguido fazer aquela viagem ou ter aprendido algo novo como andar de bicicleta ou um idioma... Todos temos algum feito. Os psicólogos chamam isso de referências de sucesso ou lembranças fortalecedoras. São elas que ensinam ao nosso cérebro que somos capazes, sim, e que temos forças para continuar por mais escuro que o caminho esteja. Outra vez, deixe essa lista num lugar em que possa ler sempre que possível (em especial nos momentos difíceis).

- Tente algo novo. Pode ser qualquer coisa, aprender algo diferente, começar a praticar um esporte, fazer outro caminho para ir até as atividades do dia a dia... Isso traz para o cérebro a certeza de que somos capazes, de que as possibilidades de transformação estão nas nossas mãos.

- Ensine algo a alguém. Vale ensinar qualquer coisa que você saiba: algo da sua profissão, uma receita, o que for. Ver que somos tão capazes a ponto de ajudar alguém a se capacitar também é algo que nos traz uma imensa sensação de segurança.



Acima de tudo, lembre-se, você não é perfeito e nem precisa ser. Ninguém é. E são os pequenos “defeitos” que nos tornam humanos, pois é neles que estão todo o nosso potencial para aprender mais, para que a gente se transforme. O respeito por si mesmo está em perceber a beleza nesse processo que vivemos de mudar e se transformar sempre.


Publiquei este artigo originalmente no site Frutos do Carvalho, no dia 31/03/2014.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Agora - Não gosto daquilo que criei

Bia quando der faz um artigo sobre a relação de amor e ódio de artistas com suas obras finalizadas? Por exemplo, o pintor faz um quadro e depois de terminado observa e não gosta do que fez...algo assim...tenho visto desenhistas falando sobre naõ gostar de seus resultados...e eu tenho essa sensação com algumas coisas que já fiz....faz faz faz?
Daniella - Guarulhos, SP


Olá, Daniella!

Penso que existem, a princípio, duas possibilidades para a situação que você descreveu: a pessoa é exigente demais consigo mesma (por diversos motivos que exploraremos a seguir) ou a obra realmente não ficou boa e a pessoa tem crítica e maturidade o suficiente para admitir isso. 

Começando pela segunda possibilidade, acho muito saudável quando a pessoa tem esse senso crítico. Eu sei o que dizem, nunca se compare a ninguém. Mas ao mesmo tempo, é importante comparar as nossas obras e produções (seja uma obra artística, seja um projeto profissional, um trabalho de escola, o desempenho num esporte ou atividade...), pois apenas com essa comparação sincera é que podemos saber como estamos, se melhoramos ou pioramos. Importante: a ideia aqui não é se colocar para baixo ou ter um acesso de estrelismo! A ideia é comparar a obra e não a pessoa! Isso mostra um bom grau de maturidade psíquica, pois a pessoa conseguiu ter um afastamento emocional daquilo que produziu e, assim, conseguiu um julgamento sincero de sua obra. Nesses casos, é importante se comparar aos iguais. Um exemplo bem simples: quando eu era criança, adorava jogar tiro ao alvo. Todos diziam que eu tinha uma pontaria excelente, e sempre saia da brincadeira com os bolsos cheios de balas e chocolates. Até hoje me vejo como alguém com boa mira. Mas, é claro, me comparando a pessoas que, como eu, só jogavam isso em festas juninas e parques de diversão. Se eu me comparasse a arqueiros olímpicos, atiradores profissionais e etc., minha ótima pontaria com toda a certeza é bem falha... O que estou dizendo é, se você faz algo apenas como amador, se compare aos amadores. Se está começando, se compare aos iniciantes. Se é alguém de destaque na área ou atividade, se compare ao pessoal de ponta. Claro, sempre mirando no próximo degrau e percebendo como poderia melhorar seu desempenho. Mas não é de muita ajuda (ao contrário, só atrapalharia) que, digamos, um garoto que joga bola nos finais de semana se sinta frustrado por não jogar como um profissional, que treina todos os dias de forma intensa. Da mesma forma que não levaria a lugar nenhum se um profissional se achasse o melhor ao comparar sua obra apenas a de amadores, e se visse no "direito" de não investir em sua carreira porque parece que ninguém (amador) faz isso...

O outro caso, das pessoas que exigem demais de si mesmas, é um pouco mais complexo. Uma das possibilidades é a pessoa realmente ser perfeccionista demais. Já conheci pessoas que desenvolveram sintomas psicossomáticos, como gastrite e hipertensão, por não lidarem bem com esse perfeccionismo. É muito bom exigir o nosso melhor de nós mesmos. Mas, ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que nós temos nossos limites, assim como a própria realidade que vivemos também os tem. Não há como superar esses limites se a gente não os conhecer, por isso insisto sempre na questão do autoconhecimento e, no caso que estamos vendo hoje, no conhecimento da área em que querem melhorar. Outra possibilidade importante de mencionar é a questão de fazer um planejamento claro. Algumas vezes a produção não sai como imaginamos por falta de planejamento, não tanto de habilidade ou conhecimento. É preciso ver o tempo de planejamento e preparo como parte fundamental de um projeto ou de uma obra. 

Mais uma coisa. Pessoas mais exigentes consigo mesmas costumam ter um "padrão de qualidade" muito alto. Isso é bom, pois sempre produzem algo com excelência. Mesmo quando não ficam felizes com os resultados, o que se observa é que em geral a obra não deixa grande coisa a desejar, no olhar das outras pessoas. Ao mesmo tempo, isso pode ser estressante para a pessoa, no caso do padrão que se deseja ser tão alto que ela não se percebe capaz de alcançar jamais, o que era uma motivação para ir mais longe acaba por se tornar uma fonte de estresse e perda de interesse. Por isso, é fundamental buscar um equilíbrio, fazer um bom planejamento (daquilo que queremos produzir, mas também do nosso desenvolvimento) e dar um passo por vez.

beijos,
Bia


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quinta-feira, 12 de junho de 2014

5 pontos sobre relacionamentos amorosos

Dizem que o amor vem quando a gente menos espera. E isso tem sua verdade num certo sentido, o amor (acho que todo sentimento) vem sem avisos. Chega, se instala no nosso coração e, quando a gente percebe, já é!

Já pensava em escrever sobre este tema, mas uma coisa que reforçou a ideia foi que depois do mito desta semana (Afrodite - clique para ler), recebi algumas mensagens de pessoas contando que gostariam muito de ter um relacionamento amoroso mais estável, mas têm dificuldade. Pensando nisso, preparei alguns pontos para a gente pensar sobre o tema. Claro, cada um tem a sua opinião e o seu próprio jeito de olhar para os relacionamentos, a ideia aqui não é pensar em "certo ou errado", e sim refletir sobre isso.


1- Ninguém tem um relacionamento. As pessoas estão (juntas!) num relacionamento. 
Parece algo muito simples, mas as palavras têm seu poder. Se a gente pensa em ter um relacionamento, a impressão que dá é que todo o controle, toda a responsabilidade e todo o "poder" é nosso. Não, gente, não é. Um relacionamento não está nas mãos de uma só pessoa, é construído em conjunto. Cabe a nós, mas também ao outro. O relacionamento é aquilo que surge entre a gente e a outra pessoa. Estamos nele, mas por ele ir além de nós mesmos, não podemos tê-lo.

2- Sem envolvimento, nada acontece!
Já ouvi de algumas pessoas que elas deixam de se envolver para não sofrer tanto se der tudo errado, ou até para não dar o "poder" do relacionamento todo para o outro (aliás, desculpem se pareço meio fora da realidade, mas não consigo ver um relacionamento satisfatório com tanto foco assim no tal "poder"... não é bem por aí, gente!). Aliás, quem começa algo (seja um relacionamento, uma atividade profissional, etc.) esperando que tudo dê errado? Não dá. Aí é que nada vai para frente! Enfim, se não se envolver, nada acontece. Porque o relacionamento fica todo nas mãos do outro, só se sustenta porque o outro corre atrás. E isso é muito chato, logo o outro se cansa, sente que não é amado e, outra vez, ficamos com a ideia de que "não demos sorte e que bom que não nos envolvemos". Enfim, o não envolvimento por medo (seja qual for esse medo), é em si mesmo uma bomba relógio.

3- Estar envolvido é bem diferente de sufocar o outro!
Estar envolvido não é ser "grudento". Dê tempo e espaço para o outro respirar. Faz parte de um relacionamento e de uma vida saudável ter outras interações sociais, como amigos, familiares, colegas do trabalho ou estudo... Assim como ter outras atividades. Permita que o outro tenha esse espaço e se dê essa oportunidade também. Claro que é uma delícia passar um tempão com quem a gente ama... Mas existe vida além do relacionamento. Não descuide dela. É nesses momentos longe que temos a chance de sentir saudade, de perceber que o outro nos faz falta e de ter o interesse de buscá-lo.

4- Arrisque! Conte ao outro como você se sente, ele não é adivinho!
Ouse ser feliz. Ouse ser você mesmo junto com a pessoa que você ama. Ouse falar como você se sente (seja um sentimento "bom" ou nem tanto). Em teoria, é essa pessoa especial quem sempre estará lá para nós e para quem nós também sempre estaremos prontos para o que vier. Seja você mesmo sem medo, se dê a conhecer e, claro, queira conhecer o outro. É nessa troca que o relacionamento e o envolvimento acontecem, descobrimos coisas sobre o outro, mas também sobre nós mesmos. Não, o outro não é obrigado a notar que você está feliz ou triste... mesmo porque um suspiro e um aiai podem ter mil significados diferentes. Arrisque ser você mesmo de forma clara, facilite a felicidade de vocês.

5- Faça dar certo!
Confie. Não existe relacionamento de nenhum tipo sem confiança. O que seria algo agradável, leve e gostoso vira uma guerra de intrigas e acusações sem sentido. Sejam cooperativos entre si, e não aqueles casais que competem por tudo e acabam abrindo espaço para brigas e picuinhas desnecessárias... Disse no mito desta semana e repito: nenhum relacionamento é perfeito desde o início, são as pessoas envolvidas no relacionamento que precisam escolher fazer com que ele dê certo.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Mythos - Afrodite: você está pronto para o amor?

Aproveitando que nesta semana comemoramos o dia dos namorados, resolvemos entrar nesse clima gostoso e falar hoje sobre Afrodite, a deusa grega ligada à beleza, ao amor e à paixão. Ela nasceu quando Cronos (o tempo) castrou o pai, Urano (o céu). O semen de Urano caiu sobre a espuma das ondas do mar e dessa união surgiu Afrodite. Seu nome significa, literalmente, "nascida da espuma". Isso é importante para compreender esta deusa. Ao contrário da maioria dos deuses olimpianos, ela não é filha ou irmã de Zeus, portanto é uma deusa menos submissa a ele e mais aberta para ouvir o próprio coração e se entregar a seus desejos.


Mas pensar Afrodite apenas como deusa do amor é algo um tanto vago. Existem muitos tipos de amor, como o que sentimos por aquela pessoa especial, o que sentimos pela nossa família, pelos amigos... No caso de Afrodite, falamos sobre o amor romântico, sensual e carnal. Partindo disso, o contexto em que esta deusa atua é o da sexualidade, da atração física, da beleza... Mas não vamos nos limitar aos relacionamentos! Afrodite, acreditavam os gregos, está presente em tudo aquilo que é belo: nos poemas e músicas, nos perfumes, texturas, sabores, enfim, nos prazeres físicos de todo tipo.

A maioria dos mitos que envolvem Afrodite são ligados (claro!) ao amor. Ela era casada com Hefesto, o deus artesão e, dizem, o deus mais feio. A deusa da beleza ter se casado com o mais feio dos deuses tem uma lógica, além de serem complementares. Ele, sendo um artista, seria o deus que melhor saberia apreciar sua beleza. Além disso, ela tem muitos amantes, entre deuses e mortais. Os mais conhecidos são Ares, o deus da guerra (não dizem que no amor e na guerra vale tudo?), e Adônis, um mortal de beleza muito superior a dos mortais em geral. Ela teve certo papel de destaque, inclusive na guerra de Troia (mas este já é outro tema). Claro, a vida amorosa de Afrodite causa certa polêmica entre os deuses. Mas ela lida muito bem com isso.

Afrodite é uma deusa generosa em seu amor. Ela mantém o foco no amor em si, sem pensar tanto na viabilidade desse amor, nos tabus e normas sociais, naquilo que julgariam adequado ou não. Ela não se importa com as consequências, desde que o amor e a paixão sejam sinceros, qualquer consequência é contornável. Para Afrodite, amor é liberdade, e a sexualidade é o próprio pulsar da vida. Nesse sentido, todo amor é lindo, todo amor é digno de ser vivido e desfrutado.


Questões para reflexão:

1- Sobre a beleza, vamos pensar além da visão de hoje em dia. Afrodite não vê a beleza como as pessoas da nossa época, como um simples conjunto de atributos físicos. A beleza é mais. Envolve aparência e estética, mas também gestos, atitudes, palavras, tom de voz, as emoções que tudo isso desperta em outra pessoa... Indo além, podemos pensar na beleza da vida, na beleza de um amor que surge, a beleza de perceber que sente algo por alguém especial e percebe a magia que é quando essa pessoa sente o mesmo pela gente, a beleza de um dia bem vivido, a beleza de viver uma vida cheia de cores e luzes. O que te faz belo? O que faz a sua vida ser bela? Depois de refletir sobre isso, crie algo artístico (desenho, pintura, poema, música, arranjo de flores, enfim, seja criativo!) mostrando a beleza que existe em você e no seu dia a dia.

2- Como você vê o amor? Qual o lugar do amor na sua vida? Como você demonstra aquilo que sente para aquela pessoa especial?

3- Vejo muita gente reclamando da falta de amor... E ao mesmo tempo, vejo bem pouca gente se abrindo de verdade para amar alguém. Muitos querem ser amados, mas poucos querem amar, se envolver, sentir tudo aquilo que o amor nos faz sentir, e que nem sempre é tão fácil. Amar é perder o controle. É como se uma parte nossa estivesse fora de nós e tivesse vida própria. Algumas vezes, isso assusta um pouco e passa certa instabilidade. Nesse momento, é preciso haver a entrega a esses sentimentos, o envolvimento com o amor que sentimos, com a pessoa. Amores não são perfeitos e nunca vêm prontos. Não existe uma pessoa perfeita, um relacionamento ideal. O que existe são pessoas que se amam, têm envolvimento e boa vontade para fazer dar certo. Você está pronto para o amor?

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Ágora - Idade biológica X idade mental

Li algum tempo atrás que existe uma idade biológica e uma idade psicológica e que em alguns momentos pode haver um descompasso entre essas duas idades; pergunto: o que pode levar uma pessoa a ter uma dissociação entre sua idade biológica e sua idade psicológica?, o fato das sociedades modernas não mais darem valor, social e familiarmente, aos ritos de passagem contribue com essa dissociação?
Antecipadamente, obrigado
Érico


Olá, Érico.

Gostei muito do tema que você sugeriu. Antes de começar a discussão, gostaria de fazer algumas definições para que todos acompanhem esta conversa. Idade biológica é o termo usado para se referir à idade do corpo. Quem nasceu em 1994 tem 20 anos como idade biológica, por exemplo. Já a idade psicológica, ou idade mental, é um conceito um pouco mais polêmico, pois envolve a questão da maturidade (intelectual, emocional e social) ou melhor, daquilo que cada um compreende como uma atitude madura.

No início, os psicólogos consideravam a idade mental de uma pessoa apenas com base nos resultados de testes de inteligência. Conhecendo o QI de alguém e sua idade biológica podemos, com base em cálculos simples, definir sua idade mental. Assim, é possível, digamos, que um garoto de 12 anos tenha a inteligência de um rapaz de 16 ou ainda tenha deficiências que o levariam a ter uma idade mental muito inferior à idade biológica, digamos como a de uma criança de 5 anos. Acontece que na prática nem sempre é assim. O garoto de 12 com uma inteligência excelente pode ter o aparato cerebral desenvolvido para compreender racionalmente conteúdos que só aprenderia anos mais tarde. Mas nem sempre tem os lados emocional e social tão bem desenvolvidos assim. E isso pode atrapalhar o uso do potencial que ele tem.

Geralmente, a nossa idade biológica, intelectual, emocional e social são equilibradas, com poucos pontos de diferença. No entanto, existem casos sérios em que apesar de ter a inteligência normal ou mesmo acima da média, os fatores emocionais ou sociais impedem que essa inteligência avance e seja bem utilizada. Alguns exemplos comuns: a criança que é inteligente mas tira notas baixas por motivos sócio-emocionais (sofre bullying na escola, ou violência doméstica, tem algum trauma mais sério, etc.). Quando as questões emocionais são tratadas com psicoterapia, a pessoa "cresce", passa a ter acesso mais livremente a todo o potencial que existe dentro dela.

Concordo com você, Érico. Penso que viver num mundo pobre de ritos de passagem seja um dos fatores que dificultam a pessoa de avançar em sua idade mental (no ponto de vista emocional e social). Os ritos de passagem (sejam no contexto religioso, como batismos e iniciações, seja no contexto laico, como formaturas, casamentos, etc.) ajudam a pessoa a compreender que deixou uma fase e está entrando em outra. Bem como ajudam aqueles com quem a pessoa convive a vê-la e interagir com ela em seu novo papel (por exemplo, deixar de ver alguém como um garoto e ver como um homem já formado, ou já casado, ou que passou pelo serviço militar, enfim, alguém com uma função social clara, com responsabilidades e com o poder de fazer suas escolhas). Muitas pessoas resistem a mudar de fase, apenas porque lhes parece mais seguro se manter num papel social já conhecido do que tentar um novo, por exemplo aqueles adultos que ainda agem com a maturidade emocional de um adolescente de 14 ou 15 anos... Também nesse tipo de caso a psicoterapia pode ajudar, pois possibilita que a pessoa perceba e use seus recursos emocionais a seu favor, vencendo a insegurança que o novo traz.

Queria lembrar que o oposto, a pessoa com idade mental muito acima da biológica, também pode ter alguns problemas. Chamamos esse tipo de situação de hipermaturidade, e é especialmente preocupante em crianças. Geralmente acontece quando a criança se sente tão negligenciada que precisou amadurecer depressa demais para cuidar de si, o que faz com que o pensamento e o comportamento ganhem certa rigidez (uma vez que, mesmo madura, a criança ainda não teve as vivências e o desenvolvimento cerebral pelos quais os mais velhos passaram, ou seja, ela sabe muito bem o que pode e o que não pode, o que machuca, o que é ou não adequado, mas não questiona e não se permite viver coisas típicas da infância, que serão importantes emocionalmente para seu crescimento). Assim, mesmo se temos uma criança muito inteligente, muito responsável e que sabe se cuidar, é importante que os adultos demonstrem que estão lá por elas e também que encorajem essa criança a fazer amigos da sua faixa etária e a ter as vivências típicas da infância, como brincadeiras e momentos despreocupados.

No caso da pessoa ter uma inteligência muito acima da média, o que acontece numa porcentagem relativamente baixa da população, é comum que se queixem de que os outros não as compreendem, que não as vêem como iguais, enfim, isso pode gerar conflitos nos relacionamentos e na interação social. Também nesse tipo de caso a psicoterapia pode ser interessante, no sentido de criar estratégias de interação social e mesmo de repensar o sentido e o papel dessas relações na vida do sujeito.

Uma situação diferente, é aquela das pessoas, geralmente mais velhas, que dizem se sentir muito mais jovens. Sem que isso tenha a ver com insegurança ou problemas intelectuais/emocionais. Elas apenas se sentem com boa disposição e vontade de viver de forma diferente do papel tradicionalmente atribuído aos idosos. Por exemplo, alguém de 65 anos que se aposentou e resolveu ir trabalhar numa área que realmente a realiza, pratica esportes, sai com os amigos, namora... e diz se sentir como uma pessoa muito mais jovem. Isso é muito positivo, pois mostra que estamos envelhecendo com mais saúde e qualidade de vida. Mostra, ainda, que nossa sociedade está superando a visão de idoso, deixando de ser alguém debilitado e "no final da vida", para ser visto como alguém que pode buscar a própria realização tanto quanto alguém mais jovem.

Termino com uma questão de Confúcio, um sábio chinês: qual seria a sua idade se você não soubesse quantos anos você tem?

Espero ter contribuído.
beijo,
Bia


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quinta-feira, 5 de junho de 2014

O poder do sorriso, as posturas corporais e os estados emocionais

Há quem diga que o sorriso é a menor distância entre duas pessoas. De fato, quando a gente vê um sorriso sincero, é bem difícil não sorrir de volta. Parece que até o dia mais cinzento fica um pouco mais colorido, a gente se sente acolhido e renovado, a alma fica leve.


Existem dois tipos de sorriso. Cada um deles tem sua origem numa área diferente do nosso cérebro. No popular, existem sorrisos sinceros e sorrisos “falsos”, como tanto se ouve dizer. O que faz de um sorriso sincero? A pessoa realmente quer sorrir, não está forçando uma situação, seja pelo motivo que for. Em termos neuropsicológicos, o sorriso sincero tem sua base em emoções que a pessoa realmente sentiu e, por isso, a origem dessa reação de sorrir está no sistema límbico, a área do nosso cérebro responsável pelas emoções e pelas reações que elas causam no nosso corpo e no nosso comportamento. Já o sorriso “falso” é algo puramente mecânico, que se origina no córtex motor, a porção do cérebro responsável por alguns dos nossos movimentos, coordenação, etc. Quando alguém força um sorriso, seja por falsidade ou apenas para ser gentil, não existe uma emoção diretamente envolvida, é apenas um comportamento motor. Visualmente, isso se traduz em algo curioso e interessante: enquanto o sorriso motor (o falso) é quase que completamente simétrico, o sorriso límbico (sincero) é ligeiramente mais puxado para a esquerda.

Sinceridades e “falsidades” à parte, sorrir traz uma série de benefícios para a saúde: diminui o risco de doenças cardíacas, aumenta o nível do HDL (o “colesterol bom”), diminui a pressão arterial, aumenta a absorção de oxigênio (isso ajuda a “limpar” o corpo), melhora a digestão e a circulação sanguínea, tonifica a pele, melhora a autoestima, diminuindo as emoções associadas a estados depressivos, como tristeza ou raiva. Para idosos, os efeitos de boas gargalhadas diárias são bem semelhantes ao de exercícios físicos, pois o corpo é oxigenado, a circulação é trabalhada e endorfina é liberada. Entre pacientes com doenças crônicas ou que passaram por cirurgias mais invasivas, observa-se que aqueles que, além do tratamento convencional, assistem vídeos de humor por 30 minutos todos os dias, os efeitos do tratamento e a qualidade de vida aumenta muito. Em alguns estudos, mesmo pacientes em coma ou sedados se beneficiam com o sorriso, quando forçado com esparadrapos.


De fato, o corpo e a mente são parte de um todo, não se dividem. Lembro-me de quando era estudante e fui a uma aula sobre depressão em que o professor fez uma experiência com a classe, pedindo a todos que ficassem em silêncio, com as costas curvadas, expressão facial neutra e olhando para baixo. Apagaram a luz, deixando a sala na penumbra e no silêncio completo. Em cerca de 10 minutos, alguns colegas choravam, e a maioria, ao fim da experiência, relatou ter sido bombardeado com lembranças ruins, pensamentos negativos quanto ao futuro e à vida ou, ao menos, terem remoído antigas mágoas. Conclusão: nossa postura corporal está muito ligada ao nosso estado emocional e se podemos “fabricar” um estado depressivo, também podemos criar um estado de tranquilidade e bem estar, por exemplo, mantendo a postura ereta, o pescoço e os ombros relaxados e um lindo sorriso nos lábios (mesmo que, no início, seja um sorriso “falso”).


Publiquei este artigo originalmente no site Frutos do Carvalho, no dia 14/04/2014.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Mythos - A torre: o inatingível

Em diversos povos do mundo todo existem mitos que envolvem a construção e destruição de torres ou obras gigantescas, na Europa, nos povos do oriente... O símbolo da torre que é construída e destruída aparece no discurso do Antigo Testamento (a torre de Babel), e mesmo no tarot, na carta chamada A Torre. Mas na África esses mitos são ainda mais comuns, especialmente em Moçambique, Angola e no Zaire. Por isso, vamos trabalhar o tema sob o ponto de vista africano.


Este é um mito contado pelo povo luba, da província de Kasai, no Zaire. No início dos tempos, os seres humanos viviam no céu, junto do deus supremo. Acontece que seres humanos podem ser bem bagunceiros e barulhentos. Falam alto, algumas vezes discutem, cantam, fazem música, e até os passos podem ser ruidosos. Certo dia, já cansado de tanto barulho, o deus supremo reuniu todos os seres humanos e os enviou para a terra. Explicou-lhes que, daquele momento em diante, eles viveriam lá, onde poderiam fazer música, cantar, discutir, enfim, viver como quisessem sem que isso atrapalhasse o deus. E por muito tempo foi assim.

Mas certo dia, um grupo de humanos pensou que a situação foi injusta. Pois apesar de viverem como gostam, quando chegaram à terra, a humanidade passou a enfrentar contratempos como fome, frio, sol forte, doenças e a morte. Um sábio adivinho disse que eles deveriam se esforçar para voltar para o céu e, assim, reconquistar a imortalidade. No entanto, as pessoas levaram o conselho do sábio ao pé da letra, juntaram muita madeira e pedras e começaram uma construção gigantesca, que levou anos e anos para terminar. Quando a torre ficou pronta, os construtores entraram no céu com alegria, fazendo música e cantando sua conquista. Então, gritaram para que as pessoas da terra os seguissem. Mas como estavam alto demais, ninguém os escutou... a não ser pelo deus supremo, que se irritou bastante com o barulho! Ele destruiu a torre, impedindo que outras pessoas subissem. No processo, derrubou os construtores/músicos, que morreram com a queda.


Questões para reflexão:

1- O simbolismo de construir algo tão alto que chega ao céu, ao mundo dos deuses ou seres fantásticos aponta a necessidade humana de buscar aquilo que já sabemos que não podemos atingir. Não uma mentira ou uma simples ilusão, mas sim uma utopia. Utopia, pensando na etimologia da palavra, é tudo aquilo que está além deste tempo e deste espaço. É tudo aquilo que sustenta as nossas esperanças, que nos dá forças para continuar com a nossa vida, até mesmo em momentos muito difíceis. Quais "inatingíveis" você busca?

2- A queda, nesse mito e em outros causada por um deus ou ser superior aos seres humanos, simboliza a interdição, os limites e leis que precisamos seguir, independentemente da nossa vontade ou dos desejos que acalentamos no coração. Algumas esperanças, muitas vezes são inatingíveis por conta de leis, crenças e tabus que a vida em sociedade nos impõe. Isso pode ir desde atos considerados criminosos (matar, roubar, etc.), atos considerados tabu (como o incesto) e mesmo crenças (tanto religiosas como não religiosas, sejam elas válidas para um grupo, comunidade ou para uma só pessoa). Quais são os obstáculos no caminho das suas esperanças e sonhos? Eles são, realmente, tão inatingíveis assim ou você que arruma desculpas?

3- Separe papel, lápis de cor, giz de cera ou o material que preferir. Crie uma representação da sua torre, da sua grande meta ou esperança. Se quiser, pode representar também como é a vida na parte de baixo e como seria lá encima.