quinta-feira, 31 de julho de 2014

Parar de fumar e os riscos do tabagismo

O artigo de hoje foi sugerido pelo Leandro, que acha que o tema poderia ajudar quem tem o vício de fumar. Por isso, o texto hoje é um pouquinho mais técnico, assim, todos podem tirar suas dúvidas sobre o tema. Mas antes de conversar sobre parar de fumar, acho importante falar sobre como a nicotina (uma das principais substâncias tóxicas liberadas quando o tabaco é queimado) atua no nosso organismo. Lembrando que a nicotina é apenas uma das mais de 4700 substâncias tóxicas liberadas pelo cigarro. Todos sabem que fumar faz mal, mas vamos ver agora o que exatamente acontece no nosso corpo, pois assim podemos perceber os sinais da abstinência e como lidar com eles, facilitando a superação do vício.
Imagem da campanha "eu quero parar", da Pfizer.

O cigarro é uma droga "calmante" ou estimulante?

A nicotina pode ter os dois efeitos no nosso corpo, estimulando ou deprimindo o nosso sistema nervoso. É classificada como um estimulante. De fato, muitos fumantes usam o cigarro nos momentos em que se sentem preguiçosas, como após o almoço ou durante uma pausa. O que acontece é que, quando inalada em níveis mais altos, a nicotina deixa de estimular e passa a atuar como droga depressora, pois bloqueia a transmissão de impulsos nervosos. Isso pode levar à morte por parada cardíaca. Inclusive, quem tem crianças pequenas, cuidado redobrado! Muitas crianças colocam o cigarro na boca e engolem tabaco, levando a complicações sérias, inclusive à morte.


A nicotina no organismo:

Quando a pessoa fuma, os pulmões absorvem nicotina, que cai na corrente sanguínea e vai para o coração e logo em seguida para o cérebro. Por ser uma rota bastante direta, o efeito do cigarro é rápido e relativamente forte. Quando a fumaça do cigarro é inalada, leva em média 15 segundos para chegar ao cérebro. A partir daí, a nicotina age sobre o organismo por mais ou menos 2 horas.

Quando chega ao cérebro, a nicotina aumenta e estimula a atividade neurológica. Estimula a área da respiração e, assim, aumenta a frequência cardíaca. Ao estimular a área chamada tronco cerebral, a nicotina deixa a pessoa mais alerta e, em fumantes iniciantes (ou em pessoas que não fumam e inalam a fumaça de cigarro), pode dar náuseas. Já quando a pessoa inala nicotina em excesso, como já dissemos, as reações neurológicas são bloqueadas, causando efeito inverso (depressor).

Algumas das principais reações do organismo:
- tremores musculares
- aumento da frequência cardíaca
- aumento da pressão sanguínea
- contração das veias da pele (mãos frias e palidez podem acontecer, devido a pouca irrigação de sangue)
- envelhecimento precoce da pele e ressecamento do cabelo
- úlcera
- osteoporose
- problemas circulatórios
- complicações na gravidez
- impotência sexual
- em mulheres, pode causar ainda menopausa precoce e dismenorréia (menstruação irregular)

O principal efeito colateral do cigarro é a morte, causada por condições de saúde decorrentes do fumo. Entre as principais causas de morte associadas ao tabaco, estão diversos tipos de câncer, enfarto, bronquite crônica, enfisema pulmonar, doenças cérebro-vasculares e cardiovasculares .


Parar de fumar e crise de abstinência:

A maioria das pessoas que tenta parar de fumar não consegue. O organismo do fumante se torna dependente da nicotina, e passa a ter sintomas com a falta da substância, tal como ocorre com outras drogas. A crise de abstinência (ou seja, os sintomas causados pela falta da nicotina) começam duas horas após o último cigarro. O auge da crise acontece por volta de 24 a 48 horas depois.

Estes são os principais sintomas, que podem se estender por poucas semanas até meses e, em alguns casos, anos:
- tensão muscular
- irritabilidade
- tensão
- dificuldade de concentração
- diminuição da pressão arterial e frequência cardíaca
- tontura
- sonolência
- náuseas
- constipação
- tremores musculares
- dores de cabeça
- insônia
- aumento de apetite, podendo levar a aumento de peso.
- desempenho motor diminuído

Os benefícios de parar de fumar são muitos e já começam imediatamente. A saúde geral da pessoa melhora, assim como diminuem as chances de desenvolver problemas como doenças cardíacas, câncer e outras já mencionadas. Ex-fumantes têm uma expectativa de vida mais alta do que as pessoas que continuam fumando. Alguns fumantes dizem que têm medo de engordar ao tentar largar o cigarro. No entanto, o ganho médio de peso (quando ocorre) é de 2,3 kg. O ganho de peso e mesmo o mal estar psicológico que pode ocorrer ainda são menos nocivos do que manter o hábito de fumar.

O tratamento para auxiliar a mudar este hábito pode incluir o uso combinado de administração de nicotina (em gomas de mascar ou adesivos sobre a pele, por exemplo) e psicoterapia. A psicoterapia inclui estabelecer estratégias para lidar com os sintomas da crise de abstinência e com oscilações de humor, assim como para executar tarefas sem o cigarro (como comer, dirigir ou participar de atividades sociais). Além disso, na psicoterapia é preciso investigar e mudar o comportamento de dependência, para que não se substitua o cigarro por outro tipo de vício.

Algumas outras estratégias que ajudam é a prática de exercícios físicos e adotar um estilo de vida saudável, o que inclui tempos e pausas para relaxar e fazer algo que goste. Além disso, pessoas que são encorajadas a deixar o cigarro por familiares e amigos costumam ter mais sucesso. No entanto, o passo mais decisivo para conseguir parar de fumar é escolher parar e estar decidido a fazer esse bem por si, e a partir disso tomar as atitudes necessárias.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Mythos - Iris: melhorando a comunicação

Íris é a deusa grega do arco-íris. Ela é casada com o vento Éolo, é filha de Electra (uma das Oceânides - as filhas do Oceano) e de Taumante (um deus ligado ao mar). É quase sempre mostrada como uma mulher jovem, com asas douradas.


Sendo a personificação do arco-íris, Íris é aquela que une o céu e a terra. Assim como em diversos outros povos, para os gregos o arco-íris é visto como uma ponte entre o mundo dos deuses e dos seres humanos. Ela tem uma ligação mais próxima com a deusa Hera, assim como com Hermes. Importante dizer, ela só leva mensagens dos deuses para a terra. Ela é uma das poucas a ter acesso a diversas partes do mundo, como o céu, a terra, o fundo do mar e até mesmo o mundo dos mortos. 
Ela viajava depressa e suave como o vento, e levava recados especialmente de Hera, a rainha dos deuses. Algumas versões dos mitos contam que a ligação com Hera ia além de mensageira, era Íris quem preparava seus banhos, conversava e dava conselhos e, algumas vezes, ainda executava as vinganças contra as amantes de Zeus. Quase sempre, no entanto, Íris aparecia trazendo paz. Para os gregos, o arco-íris é o símbolo da ligação entre os seres humanos e os deuses.


Questões para reflexão:

1- Existem muitas formas pelas quais podemos nos expressar e comunicar. Pela palavra falada ou escrita, por versos e músicas, através de desenhos, gestos, sinais, expressões faciais... Qual a que você mais se sente a vontade? Em alguns momentos, escolha outras formas de comunicação e veja como se sai. Algumas vezes, apesar de não estarmos habituados a certas formas de expressão no nosso dia a dia, acabamos descobrindo que a música, a poesia, a dança, o desenho, entre tantas outras, nos ajudam a tomar consciência dos nossos pensamentos e sentimentos mais profundos, funcionando como uma ponte entre o mundo concreto e o inconsciente (ou o "mundo dos deuses", para usar a linguagem do mito).

2- Comunicar não é apenas passar uma mensagem. É preciso pensar também na forma como o conteúdo será passado (formas de expressão, palavras escolhidas ou evitadas, tom de voz, o momento em que se fala, ritmo de fala, etc.). Isso também influencia na forma como a pessoa receberá a nossa mensagem. Perceba a forma como você se comunica e se ela é eficaz. Se não for, qual elemento você sente que precisaria mudar?

3- Passar uma mensagem, seja uma ideia, uma crítica, um elogio, a forma como nos sentimos, ou o que for, é a única forma de dividir o nosso mundo com outras pessoas. É permitir que um pouquinho de nós passe para a realidade concreta e que as outras pessoas participem um pouquinho do nosso mundo. Como tem sido esse processo para você? As participações são suficientes? São em excesso? O mundo que você apresenta quando se expressa é um reflexo fiel do seu mundo interior, é mais idealizado ou, ainda, apresentado de forma a parecer pior do que realmente é? Quando pensamos em como a gente se comunica, pensamos também em como nos damos a conhecer.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Ágora - Amor platônico

Bia, uma sugestão pro seu blog, fala sobre amor platônico. Até que ponto isso é normal. Quer dizer, isso é normal?? Uma amiga minha que pediu, mas ela tem vergonha de falar. Obrigada.
Anônima


Bom dia, anônima e amiga da anônima.

Primeiro, precisamos entender o sentido dessa expressão "amor platônico". No sentido original, o amor platônico era um sentimento de amor sem interesses românticos ou sexuais, como quando alguém se apaixona pelas ideias, pensamentos, pelos sentimentos do outro, pelo seu jeito de ser e personalidade. Platão, o filósofo grego de quem emprestaram o termo "platônico", acreditava que tudo o que existe no mundo real é uma cópia daquilo que existe no que ele chama de "mundo das ideias", um mundo com formas perfeitas e idealizadas. Assim, caímos no segundo sentido do termo "amor platônico", que penso ser o sentido que as meninas perguntaram. Um amor que só existe nas nossas ideias, não é colocado para fora. A pessoa vive esse amor pelo outro apenas dentro de si mesma, de forma idealizada. 

Sim, amor platônico acontece, é algo normal. Se a gente olhar para trás, provavelmente a maioria das pessoas já teve um amor platônico por alguém, seja no sentido que for. Indo além, antes de se concretizar e as pessoas estabelecerem algum tipo de relacionamento, todo amor é platônico, desde o momento em que já existe o interesse e ainda não nos demos conta, até o momento em que decidimos abrir nossos sentimentos para a pessoa. 

Até que ponto isso é normal, vocês gostariam de saber. Difícil dizer. Porque cada casal (mesmo que um possível casal) e cada pessoa tem suas formas próprias para lidar com aquilo que sente. Existem algumas pessoas que acham angustiante guardar sentimentos dentro de si e, assim que tomam consciência do que sentem, já dizem ou demonstram para o outro. Da mesma forma, existem pessoas que têm um pouco mais de dificuldade de demonstrar aquilo que sentem, seja por timidez, insegurança, medo de ser rejeitado ou mesmo de assumir um relacionamento. As duas posturas (e todas as infinitas formas de agir que existem entre os dois extremos) são normais. Mas, claro, se a pessoa só vive seus amores dentro de si mesma, em algum momento isso se tornará um tanto frustrante (seja por durar mais tempo, seja pelos sentimentos serem mais intensos, etc.) e a pessoa precisará ser sincera com ela mesma e decidir o que gostaria de fazer com aquilo que sente.

Uma linha de pensamento que pode ajudar, é refletir sobre os motivos que te levam a manter os sentimentos em segredo. Busque perceber se os motivos são reais ou se são apenas pautados no seu medo/insegurança/timidez. Com os motivos claros, imagine qual seria a pior situação que você poderia enfrentar ao expor seus sentimentos (e que poderia se concretizar ou não, ninguém sabe!). Então, avalie sendo muito sincera com você mesma o que te faria mais feliz. A questão não é sobre o que seria mais "tranquilo" para você, nem tudo é tranquilo, a vida nos coloca em desafios e, bem ou mal, nós os enfrentamos. Isso é, sim, sobre a sua felicidade. Não tem resposta certa ou errada, apenas o que te faz sentir bem com você mesma. 

beijos,
Bia


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terça-feira, 22 de julho de 2014

Mythos - Hine Nui Te Po: a origem da morte

O povo Maori vive na Nova Zelândia e tem alguns mitos muito interessantes. O que veremos hoje é uma tentativa de explicar a origem da morte. É curioso pensar que para muitos povos, num estágio muito antigo da humanidade, ninguém morria. Mas sempre acontece algum "acidente" que marca o ser humano como um ser para a morte e, sendo um ser que sabe que irá morrer, isso o leva a pensar bem sobre o que fará com sua vida e o tempo que tem nas mãos. 

Imagem: http://onesian.tumblr.com/page/3
Vamos ao mito. Tane é o deus mais próximo dos seres humanos, tanto que seu nome significa "homem". Ele era deus das florestas, criando árvores e permitindo que os humanos usassem a madeira para construir coisas e fazer fogo. Mas a floresta era muito solitária, Tane queria uma companheira. Ele tentava se casar com deusas, mas nenhuma o aceitava por ele ser "humano" demais, ou então ele que não as queria por criarem apenas rios e plantas, nunca filhos. Então Tane foi até a praia e, com lama e areia, criou a mulher. A escultura era linda e quando Tane lhe deu o sopro da vida, ela transformou-se numa mulher encantadora e doce. O nome dela era Hine Nau One, que significa "a donzela feita de terra".

Eles viviam felizes, e tiveram uma linda filha chamada Hine Titama, "a donzela da aurora". Ela se tornou uma linda jovem e também foi esposa de Tane, sem saber que ele era seu pai. Certo dia, Hine Titama estava numa aldeia e perguntou a uma das mulheres mais velhas quem era seu pai. Quando ouviu o nome de Tame, a jovem fugiu e escondeu-se no Submundo. Tane a procurou e ouviu seu lamento triste vindo da entrada do Mundo Inferior. No entanto, ele não podia chegar até lá, pois não tinha como entrar no Submundo. Ela lhe disse o que havia descoberto e pediu-lhe que ficasse no mundo da luz e criasse os filhos. Hine Titama ficaria no mundo das trevas, lamentando-os. O nome dela passou a ser Hine Nui Te Po, "a grande deusa da escuridão" e não mais a donzela da aurora. Desde então a morte passou a existir, pois a deusa da escuridão tem saudade de seus filhos e em algum momento os chama para si.


Questões para reflexão:

1- Como falamos no início, em muitas culturas a morte não é algo natural, que já existia, mas algo que passa a existir e a valer como regra a partir de algum tipo de acontecimento que rompe a vida normal. A morte também é isso, por mais que a gente entenda que todos nós morreremos algum dia, quando ela acontece com alguém próximo não deixa de ser um susto, algo que rompe com o dia a dia comum que vinhamos levando. É um tema que muitos acham pesado e meio triste. Mas também é um tema que, quando abraçado sem medo, nos lança para a vida. Como se alguém dissesse "olá, um dia você vai morrer! O que gostaria de fazer com esse tempo que tem em mãos?" Essa é a reflexão pela qual vamos começar. Como você vê a morte e como vê a vida? Perceba as semelhanças e diferenças na forma como olha para cada uma.

2- Ainda sobre a morte. Qual foi o seu primeiro contato com a morte? Como foi? Como você reagiu na época e como isso te marcou?

3- No mito, a origem da morte está numa verdade, numa informação que foi recebida e com a qual Hine Titama não soube lidar, pois rompeu o ritmo do seu dia a dia. Assim, a morte não é apenas a morte propriamente dita, mas também aquelas perdas e situações da vida que nos tiram da nossa posição cômoda sem nos oferecer respostas sobre o que fazer agora. Quando ela se refugia no Submundo, isso representa bem a reação que temos após a morte de alguém especial ou de qualquer tipo de perda significativa, ficamos tristes, algumas vezes com raiva, abatidos... No entanto, assim como aconteceu no mito, após vivenciar esses sentimentos, a pessoa se fortalece, torna-se outra como a donzela da aurora que se tornou a grande deusa da escuridão. Elas não são pessoas distintas, uma carrega a história da outra (em lembrança ou em potencial) e uma sempre fará parte de quem a outra é. Assim a passagem (pois se a morte é um rito de passagem, a perda de algo ou alguém também é, pois nos muda) se completa e a vida-morte/existência segue.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Ágora - Criança que volta a fazer "xixi na cama"

Olá Bia. Meu filho Éric tem 6 anos e é normal ele não tem problema. Faz mais ou menos um mês que ele voltou a fazer “xixi na cama” sendo que já tinha vários anos que não acontecia isso. O pai dele briga com ele pra ver se endireita mas parece que o menino só fica nervoso e piora. Não sei mais o que fazer já prometi até dar o vido game que ele quer se parar de fazer isso mas nada adianta. Não é que ele tem algum problema mental mas pensei se não pode ser psicológico, porque ele está assim desde que o irmão mais velho que ele era muito apegado foi morar com a minha mãe na capital por causa de um tratamento. Obrigada.
Michele – Sorocaba, SP


Olá, Michele.
Quando as crianças passam por momentos difíceis, seja um trauma, uma dificuldade na escola ou com os amiguinhos, ou mesmo quando estão com muita saudade de alguém que costumavam conviver, como o caso do seu filho, pode acontecer o que chamamos de “regressão”, isto é, a criança volta a fases do desenvolvimento que já haviam sido superadas. Algumas voltam a chorar por motivos simples ou a fazer birra, outras voltam a pedir mamadeira, colo... Alguns voltam a molhar a cama.

Brigar com o seu filho, mesmo que o problema irrite os pais, vai mesmo fazer o sentido inverso. A criança fica nervosa, ansiosa, se sente rejeitada... e o problema piora. Prometer presentes ou passeios também não é o ideal, Michele. Mesmo porque o “xixi na cama” não é algo que o pequeno possa controlar assim. Acredite, provavelmente para ele também não está sendo fácil acordar e descobrir que molhou a cama como uma criança pequena... O ideal é cuidar da causa do problema. O xixi na cama é só um jeito de demonstrar que algo não está bem, não é o problema em si. Você contou que o irmão dele está morando distante para fazer um tratamento, e isso deixa o Éric apreensivo por muitos motivos. Pela saudade e pela ausência do irmão, pelo tratamento em si, pelo medo do abandono (pois na cabecinha da criança, o irmão ter ido morar com a avó pode ser percebido como um abandono, ainda que as condições exigissem e as intenções sejam as melhores).

Agora, acho importante dizer algo de prático para ajudar vocês. Primeiro, sobre o xixi na cama em si, valem aqueles cuidados que a gente tem quando a criança está deixando as fraldas, como lembra-lo de ir ao banheiro antes de dormir, evitar líquidos em excesso durante a noite, se for o caso até mesmo acordá-lo de madrugada para ir ao banheiro. Mas só isso não basta, Michele. O Éric precisa sentir confiança para “voltar a crescer”, precisa sentir que os pais estão lá para acolhe-lo e cuidar dele sempre que preciso. Passar um tempo gostoso com os pais, sem pressão ou broncas, apenas com brincadeiras e risadas, pode ser muito benéfico. Além disso, é preciso cuidar dessa falta que o irmão tem feito. Talvez programar algumas visitas à capital de vez em quando, para que os meninos se vejam. Se não for possível, pelo menos telefonem com frequência para que conversem. Podem também escolher uma foto bonita dos dois irmãos juntos e colocar num lugar em que o Éric veja e mate um pouquinho da saudade sempre que quiser. O mais importante é ele sentir que

Beijos para vocês.

Bia


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quinta-feira, 17 de julho de 2014

Buscar a visão do todo

Nem sempre nos damos conta, mas uma das coisas mais complicadas na vida é olhar para uma situação e vê-la como um todo. Quase sempre nos atemos apenas ao nosso próprio ponto de vista, e (até certo ponto), está tudo bem com isso. Afinal, vivemos a nossa própria vida e não a dos outros, olhamos para o mundo com os nossos olhos e o ouvimos com os nossos ouvidos. Compreendemos e damos sentido ao que percebemos, vemos e ouvimos através das nossas próprias referências e valores. Portanto, quanto mais nos conhecemos, mais "parcial" será a nossa visão de uma situação.

A realidade em si não pode ser percebida. Tudo o que temos são olhares, formas de contar a situação.
Que são sempre tão (in)completos e (im)parciais como todos os outros.
Claro, quem não se conhece, quem não forma para si esse leque de referências e valores (mesmo que não tenha consciência plena deles), não terá uma visão própria. Ficará preso às interpretações do outro, seja esse outro as pessoas com quem convivemos, ou os pontos de vista da mídia ou de ideologias de qualquer tipo quando seguidas cegamente e sem questionamento. Essa condição é semelhante à de crianças pequenas, que ainda não formaram suas referências e "emprestam" a de pessoas importantes para elas como os pais e outros familiares, a professora, etc. Questionar é uma estrategia poderosa para refletir sobre o que vivenciamos ou percebemos, pois nos leva a encontrar a nossa visão dos fatos. É o que acontece na adolescência, por exemplo, quando o jovem passa a perceber que existem outras formas de olhar para a vida além da que aprendeu em casa. E no movimento da reflexão aprende que pode conservar as visões que aprendeu com a família e fazem sentido para si, além de poder mudar as que não fazem, adotar novas posturas e assim, aos poucos, formar o seu próprio leque de referências, valores e visões de mundo.

Mas mesmo depois de adultos, com toda essa nossa visão de mundo já bem estabelecida, o processo não termina. Estamos sempre repensando e reinventando essas referências, valores e visões da realidade, mesmo que a gente nem sempre perceba. Melhor dizendo, ampliamos e transformamos isso desde que a gente busque a visão do todo. Buscar a visão do todo é saber olhar para uma situação por diferentes pontos de vista, fazendo com que esses diversos olhares se cruzem e cheguem a um "acordo".

Pense numa situação que você esteja passando na sua vida. Qualquer uma. Pode ser mais fácil ou mais complicada, agradável ou ruim, tanto faz. Qual o seu jeito de entender a situação? O que você percebe, o que sente, como se posiciona? Descreva para si mesmo da forma mais clara e completa que conseguir. Depois, experimente fazer o mesmo com cada uma das pessoas envolvidas. Como você descreveria a situação, como se sentiria no lugar de cada uma? Como descreveria a mesma situação do ponto de vista de alguém neutro? Do ponto de vista de um sábio? Ou do ponto de vista de alguém que vive numa cultura completamente diferente? Este é um exercício interessante não só para compreender melhor as situações vividas, tendo uma visão do todo, mas também para exercitar o desprendimento da nossa forma de ver as coisas. É preciso estar firme nos nossos valores e referências para então saber questioná-los e se despir deles se necessário. Tudo aquilo que avança termina por voltar ao início, não tal como era, mas numa perspectiva simbólica. Para existir esse retorno, é preciso antes ir e ter a coragem de se desprender daquilo (valores, situações, etc.) que parecia tão sólido e "certo". Então algo novo surge disso e o todo se torna claro.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Mythos - o deus branco e o deus negro: lidando com a dualidade

O Leste Europeu é uma região com um folclore e mitos muito ricos. Ao contrário do restante da Europa, que foi cristianizada mais cedo, essa região começou a se cristianizar apenas no século VIII e o processo durou até o século XIII. Ou seja, cristianismo e paganismo coexistiram por mais de 500 anos, levando a uma mescla bastante peculiar.

Uma marca nos mitos eslavos, assim como no cristianismo da região ainda nos dias de hoje, é a dualidade. Dualidade (e não dualismo) significa que dois elementos que a princípio parecem opostos, se unem e, quando essa união é harmoniosa, eles formam um todo muito maior mais pleno de significado do que se fossem apenas combinados "de qualquer jeito".

Paisagem de relevo acidentado no Leste Europeu.
O deus branco e o deus negro formam juntos um dos maiores símbolos dessa dualidade na cultura do Leste Europeu. Os eslavos os chamavam de Byelun e Cernobog, e acreditavam que o deus branco representava a luz e o deus negro as trevas. Assim, o mundo seguia em seu equilíbrio a partir das ações e conflitos dos dois.

Depois do cristianismo, o deus branco e o deus negro foram associados a Deus e ao diabo. Uma história comum na região, mesmo nos dias de hoje, é a lenda de que os dois criaram o mundo juntos. Assim, Deus/o deus branco pedia ao diabo/deus negro que mergulhasse no oceano de onde tudo surgiu e trouxesse lama para que a terra pudesse ser criada. O diabo obedeceu, mas ao invés de apenas encher as mãos com o lodo do fundo do oceano, ele encheu também a boca. Deus criou a terra, tomando todo o cuidado para criá-la plana e bem lisa. Mas quando o diabo ia comentar alguma coisa, engasgou-se com a lama que conservava na boca e tossiu. Correu pela terra em desespero, tossindo muito, e conforme a lama espirrava de dentro de sua boca e caia na terra recém criada, o diabo criava involuntariamente as montanhas, morros, falésias e diversos tipos de relevo.


Questões para reflexão:

1- Os mitos eram as manifestações religiosas de povos antigos mas, ao mesmo tempo, podemos vê-los como chaves de compreensão para situações, movimentos emocionais ou mesmo conflitos que todos nós passamos em algum momento. Pensando nisso, vamos ver o deus branco e o deus negro como partes nossas. Quais lados seus vivem como eles, algumas vezes em conflito, outras vezes em parceria, mas sempre com interação constante? Entram aqui características de personalidade, sonhos/desejos, áreas da vida...

2- O que você pode fazer para tornar a relação entre esses seus dois lados mais harmoniosa? Muitas vezes não são necessários grandes planos ou atitudes tão diferentes. Em boa parte dos casos, basta saber ouvir os seus diferentes lados e respeitar as necessidades de cada um. 

3- Gostaria de lembrar que nesse tipo de conto simbólico como são os mitos (ou mesmo a vida da gente, no momento em que se torna uma narrativa, ou seja, quando contamos as nossas vivências a alguém), todo acontecimento tem seu sentido na ordem das coisas. O diabo/o deus negro, com frequência é mostrado como um lado ruim, desajeitado, das trevas... Mas isso também tem seu lugar. Ele não estragou a criação da terra com seu pequeno incidente, ele acabou por contribuir. Nem tudo é tão ruim quanto pode parecer num primeiro olhar. Tudo é questão de foco. Percebo que as pessoas quase sempre contam suas vivências felizes e positivas de forma rápida, como no mito de hoje quando contei que Deus criou a terra. E ao mesmo tempo, deixam toda a ação e aventura aparecer pelo lado ruim, ao qual dão maior destaque. Foi o diabo quem movimentou o mito criando o relevo na terra ao engasgar com lama. Do mesmo jeito, repare em quanto tempo você gasta para contar algo bom e quanto tempo você usa no seu dia falando sobre situações difíceis e incidentes. Boa parte das situações que vivemos não são boas e nem ruins, elas se tornam aquilo que costumamos fazer delas.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Ágora - Será que é hora de ver um psicólogo?

Oi tudo bom? É assim eu tenho um problema mas não sei se to pronta pra falar mas eu queria saber como eu faço para ver se eu preciso ou não ir no psicologo? É um problema meio complicado e não quero abrir pra ninguem mas fico me mordendo de preocupada e não sei se é caso pra psicólogo ou se vou chegar lá e traumatizar o coitado do psicologo ou ainda se ele vai rir da minha cara. Quero só ver se vc adivinha meu problema kkkkkkk...... mas serio me ajuda aí.
Jeane 


Bom dia, Jeane!

Um caso precisa de ajuda profissional sempre que coloca o paciente ou outras pessoas em risco (como as depressões com possibilidade de suicídio, por exemplo, casos de dependência química, violências de diversos tipos, entre outros). Psicoterapia também é recomendada quando a questão, mesmo parecendo algo leve e "sem importância", gera sofrimento excessivo para a pessoa, dificultando o andamento das atividades diárias ou mesmo causando certa sobrecarga emocional que impede a pessoa de encontrar soluções sozinha. Além disso, nem todos sabem, mas não é preciso ter um "problemão" para fazer psicoterapia. Problemas mais leves também podem ser tratados. Aliás, mesmo se não há exatamente um problema, a psicoterapia pode ajudar, pensando em prevenção e autoconhecimento. Sou da opinião que pelo menos uma vez na vida todos deveriam fazer terapia, mesmo que "apenas" para se entender melhor, é um carinho com a gente mesmo.

No seu caso, Jeane, mesmo sem saber do seu problema, parece que ele mexe com você a ponto de te deixar preocupada por não saber ao certo que rumo tomar. Se não consegue ver soluções sozinha e caminhar para elas, ajuda profissional pode ser uma boa ideia. O seu pedido de ajuda no final da mensagem já mostra que não está dando conta da questão, seja ela qual for.

Se optar por fazer terapia (porque precisando ou não, a escolha sempre será sua), não tenha medo. O psicólogo não está lá para julgar ninguém. Segue um código de ética que o proíbe de expor as informações de seus pacientes sem autorização deste ou intimação da Justiça. O código de ética (e o bom senso que em geral as pessoas têm, assim como o respeito pelo outro e pela dor do outro) impedem o psicólogo de "rir da cara" do paciente, por mais inusitada que seja a situação. E vá sem medo, você não vai traumatizar o profissional contando sua história... Ele estudou para isso, recebeu treinamento adequado e fez psicoterapia. Pode ainda, recorrer a um supervisor, outro psicólogo mais experiente que o ajude a compreender outras facetas do caso. Portanto, o psicólogo sabe bem onde está pisando e saberá lidar com a questão de forma profissional. E se não souber lidar com os aspectos emocionais do caso (afinal, todo mundo tem seus limites) ele encaminhará o caso a um colega de confiança.

Gostaria de lembrar também que o psicólogo trabalha apenas com as informações que recebe, sejam elas ditas, sejam os sintomas do paciente ou mesmo a linguagem não verbal (como a postura corporal, expressões faciais, etc.). Sendo mais clara, a ideia não é adivinhar nada! Caso não se sinta à vontade para expor a situação para seu terapeuta, a conduta seria antes trabalhar a relação terapêutica, para que exista essa confiança em se expor, e mesmo lembrar e conversar sobre esses pontos que mencionei, como o sigilo e a questão ética. O profissional está lá para fazer um trabalho sério, não para julgar as escolhas dos outros, rir e muito menos para sensacionalismo.

Boa sorte.
beijos
Bia


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quinta-feira, 10 de julho de 2014

Tédio e insatisfação: quando algo nos falta

O tédio é um sentimento muito presente na vida de algumas pessoas. Algo que me chama a atenção é que de alguns anos para cá, parece que essa queixa ficou mais frequente do que costumava ser. Seja como algo principal, quando a pessoa reclama sempre que a vida é um tédio, está vazia e sem colorido, mas também como uma queixa que surge para explicar outro sintoma ou condição: o paciente que se diz mais depressivo em momentos "de tédio", a pessoa que afirma comer demais por conta do tédio, ou mesmo culpar o tédio pelos conflitos em casa.

Em outras palavras, podemos dizer que o tédio é um sentimento de vazio. A pessoa entediada olha para sua vida e não vê um sentido, não vê o colorido da vida, algo que a motive em suas buscas, ou apenas não há uma meta a ser buscada. Essa é uma situação complicada, pois quando ocorre com muita frequência, destaca a desesperança, a falta de confiança na vida e num futuro digno e feliz.

É claro, vez ou outra todos se sentem entediados. No entanto, quando isso é muito frequente, vale a pena observar alguns pontos sobre esse sentimento. Primeiro, se existe algo que dá origem a ele. Nem sempre temos consciência, mas toda emoção tem o que chamamos de gatilho, um evento (interno - pensamentos, lembranças, sonhos, medos... - ou externo - as diversas situações que vivemos, algo que vimos ou ouvimos...) que o desencadeia. Quando tomamos consciência do gatilho, fica mais fácil gerenciar nossos sentimentos, seja ele o tédio ou outros, como medo, tristeza, raiva, etc. Além disso, é possível pensar em estratégias para lidar de forma diferente com a situação desencadeadora e assim mudar a nossa reação emocional. Neste ponto, dependendo da intensidade dos sentimentos (e de quais outros sintomas eles desencadeiam) e do tipo de gatilho, é recomendado consultar um profissional.

Lembrando que a vida não é uma daquelas festas cheias de luzes, pessoas e música alta. Pelo menos não todos os dias. Portanto, não adianta ficar frustrado porque a vida não é um grande evento todos os dias. Claro que se divertir é muito bom, mas a responsabilidade também é nossa, e junto com a responsabilidade tem as atividades mais chatinhas, mas que também são parte do nosso dia a dia. Quero dizer que uma coisa é o sentimento de vazio e o tédio que colocam a pessoa em situações que poderiam vir a ser patológicas; outra coisa bem diferente é dizer que está entediado apenas porque (como todos nós) a pessoa precisa assumir responsabilidades por si mesma.

Algumas pessoas simplesmente não encontram um só gatilho para o tédio, como se várias pequenas situações se acumulassem (o que chamamos de sobrecarga emocional) e dessem origem a uma grande reação. Nesses casos, com bastante frequência o tédio não é o sintoma em si, mas o facilitador de outros quadros (como compulsão alimentar, problemas de sono, quadros depressivos, dependências de diversos tipos...). Ou, quando encontram um gatilho, percebem que a situação que dá origem ao tédio ou à insatisfação é desproporcional à reação emocional. Independentemente do caso, esta é uma oportunidade de rever a forma como se está levando a vida. Quais pontos trazem maior insatisfação? Quais comportamentos seus reforçam o sentimento de tédio? Qual o seu escape para o tédio (atenção, existem saídas mais clássicas, como problemas de sono ou alimentares, dependência de álcool/drogas/nicotina, entregar-se à apatia, mas existem também saídas que exigem mais da nossa atenção para ligar os fatos, como queixar-se em excesso, fazer-se de vítima, implicar com outras pessoas a troco de nada...). Se pudesse mudar qualquer coisa em sua vida, o que seria? Faça perguntas a si mesmo e busque responde-las com sinceridade. E aproveite, talvez seja o momento de mudar, de buscar algo novo: novos desafios, novas metas, novos relacionamentos, novas formas de se divertir e relaxar, novas formas de ser você. 

terça-feira, 8 de julho de 2014

Mythos - Cassandra: quando não acreditam na verdade

Cassandra era a filha do rei Príamo, de Troia. Quando criança, ela e seu irmão Heleno foram ao templo de Apolo (deus que conduz o carro do sol, também ligado às profecias, pois o sol ilumina tudo e permite uma visão clara). No templo, as crianças brincaram tanto que adormeceram. Quando a ama os encontrou, serpentes lambiam seus ouvidos. Ela ficou muito assustada, mas felizmente nada de mal se passou. No entanto, é interessante saber que as serpentes eram um símbolo de Apolo, "emprestado" de Gaia (a terra, antiga dona do Oráculo de Delphos, onde serpentes auxiliavam nas profecias). Assim, as serpentes fizeram com que os ouvidos das crianças ganhassem uma sensibilidade muito grande, passaram a ouvir as vozes dos deuses!

Cassandra, obra de Evelyn de Morgan (1898).
A profetisa está no auge do desespero, no fundo se vê Troia em chamas.
Cassandra cresceu e se tornou uma linda jovem. Devido ao incidente com as serpentes, ela foi para o templo de Apolo e decidiu servi-lo como sua sacerdotisa. Ela era tão boa em sua função e tão dedicada, que o próprio Apolo se apaixonou por ela. Ele a ensinou os dons da profecia, e as previsões de Cassandra eram sempre muito certeiras. No entanto, a jovem se negou a ser amante de Apolo, o que fez com que o deus ficasse com tanta raiva que a amaldiçoou: suas previsões seriam sempre precisas e corretas, no entanto, ninguém jamais acreditaria em uma só palavra!

Com a maldição, Cassandra caiu em descrédito. Ela fazia previsões como antes, mas todos a chamavam de louca. No entanto, tudo sempre se passava exatamente como ela havia dito. Cassandra previu a Guerra de Troia e quando os gregos estavam por vencer a guerra através da estratégia com o cavalo de troia (um grande cavalo de madeira "recheado" de soldados que fora entregue como um "presente" de final de guerra), Cassandra alertou o rei para que destruísse o cavalo, alegando que aquelo seria a destruição de Troia, mas o rei a chamou de louca, alegando que um presente tão lindo jamais poderia significar destruição e catástrofes. Assim, Troia perdeu a guerra e Cassandra foi levada por Agamenon, um dos que lutavam ao lado dos gregos. Chegando em Micenas, a esposa de Agamenon, junto com o amante, mata o marido. Em algumas versões, Cassandra também é morta. Em outras versões, a profetisa foge e vai para a Cólquida, onde funda uma nova cidade junto com Zakíntio.


Questões para reflexão:

1- A psicologia e a mitologia nos trazem diálogos muito interessantes. No caso do mito de cassandra, alguns psicólogos falam sobre o complexo de Cassandra, em que a pessoa sofre por ser desacreditada em suas intuições, percepções e deduções, ainda que completamente pautadas na lógica. Geralmente são percepções e deduções que causam certa angústia e sofrimento para a pessoa e quando tentam dividir isso com alguém, são desacreditadas e se sentem ignoradas. Algo parecido já aconteceu com você? Como lidou com a situação?

2- Vamos explorar um pouco o segundo final do mito de Cassandra, em que ela escapa da morte em Troia e em Micenas, para fundar ela mesma uma cidade. Penso que esta é a saída para o drama do mito, seja na narrativa, seja quando ele se repete (de forma simbólica, é claro) na vida real. Lembro de uma frase que diz assim, "você é o único responsável pela sua felicidade". Sempre pensamos no sentido mais concreto, cada um construindo a sua felicidade e indo atrás de seus sonhos sem depender dos outros. Mas é interessante pensar de forma simbólica: apenas você pode vivenciar e sentir a sua felicidade, os outros não. Apenas você pode se alegrar com algo que vive, e isso não deveria depender daquilo que os outros pensam ou acreditam. Quando Cassandra se liberta da opinião dos outros, ela vive bem, pois "funda sua cidade", cria sua própria realidade onde sua forma de ver o mundo é válida e digna. Isso não é tanto sobre coisas e situações concretas, mas sobre sentimentos e pontos de vista a respeito da vida e daquilo que experienciamos. Como seria a sua "cidade"? Se pudesse desenhar a realidade da forma mais feliz para si, como seria essa realidade?

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Ágora - Abuso sexual dentro de casa

Ola Bia ! meu nome é (...) tenho 18 anos e gostaria de poder compartilhar minha historia com vc. A mais ou menos 7anos atras meus pais se separaram depois de 13 anos de casados, e depois de algum tempo minha mae se casou de novo com um cara. ele no começo ate que era legal. sempre tentava agradar a mim e aos meus irmaos. tenho 3 irmaos menores que eu. So que depois de um tempo ele resolveu mostrar quem era de verdade e a primeira vitima foi eu. ele aproveitou um dia que estava so eu e ele em casa e pediu pra deitar do meu lado na cama. Ate ai nao achei nada de mais pq ele sempre era meio carinhoso comigo e com meus irmaos. so que eu estava um pouco sonolenta e ele percebeu e aproveitou para passar o braço em volta de mim e foi descendo a mao ate coloca -la dentro da minha calça e tentar passar a mao na minha bunda , eu levantei na hora chorando mt. e assustada. E ele disse que havia feito sem querer. Acabei que nao contei pra minha mae. e mt menos ele ne. E as coisas foram sempre assim. ate que um dia ele me chamou no quarto dele e pediu pra mim dar um abraço nele. quando eu dei ele começou a ficar com a respiraçao ofegante e começou passar a mao nas minhas costas e eu perguntei pq ele estava respirando daquele jeito. e ele disse que nao era nada . entao eu sai do quarto. As coisas apos este dia pareciam que tinham melhorado ate que nos mudamos e eu comecei a namorar . no começo eu falei pra ele e ele disse que ia conversar com a minha mae. eles aceitaram Mas foi por pouco tempo. Depois ele fazia a cabeça da minha mae pra nao deixar eu ver meu namorado de jeito nenhum. e quando eu contava isso para as minhas amigas elas diziam que isso era por ciume de mim.

Agora estou resolvendo a situaçao. eu fugi de casa ano passado e fui morar com meu pai e ele me ajudou a fazer um boletim de ocorrencia . so que agora minha mae levou meus irmaos a delegacia e fez eles dizer que td era mentira estou apavorada. nao aguento mais ir em delegacias. minha mae quando soube da historia tinha estava brigada com ele porque ela pegou ele se masturbando com a minha. roupa ai ela ficou do meu lado e depois mudou de ideia. ai defende ele sempre e agora que o caso esta na delegacia ela esta contra. Preciso de ajuda estou com medo de falarem que ele e inocente ja que minha mae esta defendendo ele.

Pode por no blog so sem a identificação por favor... mt obrigada pela ajuda . mandei a mensagem sem esperança de resposta mas tive resposta mt obrigada msm.

um dos meus irmaos tambem veio morar comigo e os outros 2 estao com a minha mae e eles disseram na delegacia que era td mentira o que eu falei!! acho que minha mae mandou eles falarem isso.


mt obrigada bia bjsss
Anônima


Olá.

Antes de tudo eu gostaria de agradecer pela confiança em me enviar uma mensagem contando algo tão íntimo e delicado, e também pela permissão em colocar no blog. Sei bem que essa é a situação vivida por milhares de pessoas e ter esse contato com o seu depoimento pode ajudá-las a perceber o que passam e tomar atitudes como você já está tomando.

Infelizmente esse tipo de coisa acontece muito mais do que a gente pensa. Ninguém deveria ter que passar por isso! Não vejo como uma coisa normal o padrasto ou o pai ter tanto ciúme a ponto de se comportar como se vocês tivessem um relacionamento de casal, tentando abusos sexuais (o que também não é normal num relacionamento de casal!) e não deixando você ver seu namorado. Tem coisa aí! Sei que é um tema muito delicado, mas acho importante você conversar com a sua mãe, contar essa história desde o comecinho, mesmo já tendo feito isso. Com a cabeça fria e com paciência, tentando mais uma vez mostrar a ela que a culpa não é da vítima. O que ele fez foi um abuso sexual com uma menina menor de idade na época. E se fez uma vez, muito provavelmente fará de novo. Me preocupo também com seus irmãos mais novos, que pelo jeito são menores de idade, né? Importante conversar isso direitinho com a sua mãe e tomar atitudes para que o mesmo (ou coisa pior) não aconteça com eles.

Seria interessante você consultar também um advogado, que poderia te orientar nessa parte de leis e direitos. Mesmo porque se for comprovado o risco que seus irmãos estão enfrentando ao viverem com um padrasto que comete esse tipo de abuso e com uma mãe que é conivente com a situação, existe a chance de perderem a guarda dos filhos menores. 

Infelizmente é bem normal a mulher tomar o lado do companheiro nesses casos, na delegacia provavelmente vão considerar isso e investigar o caso de forma mais profunda. Se alguma coisa diferente tiver acontecido com seus irmãos (mesmo que “apenas” olhares, insinuações oi comentários inconvenientes), é importante eles dizerem. Isso ajudaria muito. O depoimento dos seus irmãos não invalida o seu. Provavelmente vão avaliar tudo com base em mais dados além dos depoimentos.

Além dos procedimentos legais, é importante também, neste tipo de situação, buscar psicoterapia. Um abuso sexual marca muito a vida da pessoa, ainda mais quando ocorre na infância ou adolescência, fases em que a pessoa ainda está se estruturando psiquicamente, pode marcar a personalidade e mesmo a forma de estabelecer relacionamentos no futuro. Vocês já estão agindo e tomando atitudes, isso é fundamental para mudar a situação. Não se calem, nunca se calem! A sua dor é a mesma de tantas outras pessoas, e mesmo que na hora pareça que tudo está perdido, a situação pode sim mudar, está nas nossas mãos fazer isso (já estão fazendo!). Qualquer problema volte a entrar em contato.

beijos,
Bia


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quinta-feira, 3 de julho de 2014

Acolhendo o peregrino

Já comentei antes que na época em que fiz meu mestrado trabalhei com peregrinos. A figura do peregrino é muito simbólica, pois não é só alguém que percorre um caminho qualquer: ele percorre um caminho sagrado e busca algo, um contato direto com o divino, que quase sempre culmina numa grande transformação.


As peregrinações quase nunca são viagens rápidas. Falo daquelas tradicionais, feitas caminhando a pé e carregando numa mochila apenas aquilo que cada um aguenta levar. Elas levam vários dias, algumas levam semanas, meses... A pessoa sai completamente daquela vida que estava acostumada: trabalho, estudos, família, amigos, o conforto do lar... para embarcar numa aventura que quase sempre é solitária, com uma só grande meta, chegar ao destino (de preferência, bem), enfrentando todo tipo de perigo, de ladrões de mochila e dores, até os perigos que moram dentro de nós mesmos. As necessidades mudam, se tornam simples e da vida bem prática, como chegar ao próximo abrigo antes que escureça, ter água limpa e comida... Os desejos, os luxos? Um banho no final do dia e, se tiver sorte, uma cama quente.

Nós temos todos os arquétipos dentro de nós. Isto é, existem dentro de nós, no inconsciente, cada “personagem” típico de cada vivência possível (mãe/pai, filho, irmão, estudante, profissional, construtor, psicólogo, pessoa em alguma situação de vulnerabilidade, a bruxa, a sábia, o doente, o mestre, a prostituta... enfim, quando digo todas as vivências, digo todas mesmo!). Existe um peregrino dentro de você. Não importa se você nunca fez uma peregrinação, ou mesmo se até agora você nem sequer havia pensado sobre peregrinações. Existe um peregrino aí dentro. E ele precisa caminhar, ele precisa ter o contato com o sagrado e transformar-se!

Mas a forma como o peregrino continuará a caminhar no começo do dia, depende da noite anterior. Como esse peregrino foi acolhido? Nas grandes rotas de peregrinação, a população que vive nos arredores convive bastante com os peregrinos. Embora hoje em dia grande parte delas contem com albergues e centros de apoio próprios para a situação, onde podem descansar num beliche, tomar banho e usar a cozinha para preparar um jantar, em trechos mais isolados ainda é comum que, em uma noite ou em outra, algum peregrino bata à porta pedindo acolhida. E, geralmente, são muito bem recebidos, pois acolher o peregrino é receber em casa um agente do sagrado, alguém corajoso e ousado o bastante para largar tudo por uns tempos e buscar o sagrado, enfrentando os perigos e hostilidades da caminhada. Muitas pessoas chegam a dividir a pouca comida que têm ou a dormir no chão para que o peregrino possa descansar bem numa cama e continuar a jornada da melhor forma possível pela manhã. O que as faz acolher tão bem alguém que nunca viram antes? A solidariedade, o gosto de saber que a chegada do peregrino ao seu destino, o encontro que ele terá com o sagrado e que irá transformá-lo, também irá transformar aqueles que o ajudaram através da convivência que tiveram, mesmo que breve.

Acolher o peregrino é a única forma de deixa-lo pronto para a caminhada e preparado para a busca. E o mesmo vale para o peregrino que existe em cada um de nós. Como você o acolhe? Permita que ele tome um banho relaxante, que se purifique de todo o pó da estrada. Permita que ele seja nutrido com um bom prato de algo quente, ou com o que quer que sustente o nosso peregrino interior, simbolicamente falando. Cuide dos ferimentos, das bolhas, das dores. Acalme os medos e inseguranças que sempre surgem nos trechos mais perigosos do caminho – na vida. Permita que ele descanse. Mas permita também que, pela manhã, ele se levante e volte à estrada. O peregrino precisa caminhar e buscar. É isso que o torna peregrino.


Publiquei este artigo originalmente no site Frutos do Carvalho, no dia 03 de fevereiro de 2014.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Mythos - Shu, Hu e a morte do Caos

Muitos dos mitos da China antiga são na verdade histórias alegóricas, isto é, histórias contadas por filósofos para explicar e discutir algum tipo de situação. Esta história foi escrita pelo filósofo taoista Zhuangzi, por volta do século IV a.C. e discute a importância de superar os momentos de caos para que o entendimento possa surgir e, com ele, algo de bom.

O sábio taoista Zhuangzi.
Shu, que era o imperador do Mar do Norte, e Hu, o imperador do Mar do Sul, encontravam-se com muita frequência no território do centro, governado por Hun Dun, o Caos. Importante dizer que o Caos sempre os recebia bem, fazendo de tudo para que os imperadores passassem o maior tempo possível em seu reino. Certo dia, Shu e Hu conversaram sobre essa atitude do Caos e pensaram que poderiam fazer algo por ele, já que sempre os recebia. Na conversa, perceberam que os dois tinham sete orifícios corporais cada um, por onde poderiam ouvir, falar, respirar... Já o Caos não tinha nenhum, ficava preso apenas em si mesmo. Resolveram, então, abrir orifícios no Caos, para que ele pudesse se comunicar. No entanto, o Caos morreu no processo. Depois da morte do Caos, o mundo conheceu a realidade de forma mais ordenada.


Questões para Reflexão:

1- O Caos não tinha orifícios corporais para se comunicar. Isso significa que o caos é surdo e mudo, não consegue ouvir e nem se expressar. Isso que o torna caótico. As pessoas não conseguem colocar aquilo que pensam e nem ouvir o outro cada um só fica preso em seu próprio pensamento, e como não se pode chegar a consensos sem a comunicação ordenada, o Caos impera. Recorde os momentos de maior caos que você já passou. Quais estratégias você usou para superar o momento?

2- Quando Shu e Hu decidiram abrir orifícios no Caos para que ele se comunicasse, o Caos morreu. A morte do Caos é algo libertador, pois trouxe no mesmo instante o nascimento da realidade ordenada. Os momentos de caos, como já dissemos, pode ser superado pela comunicação (a conversa sincera). Esse momento de morte e nascimento nos dá a oportunidade de criar uma realidade ordenada de forma confortável e funcional para nós. É fundamental lembrar sempre disso, não existe nova realidade ou mudança sem um momento de caos (mesmo que breve), da mesma forma como um momento mais caótico da vida aguarda e nos encoraja a criar a nossa nova realidade.