quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Ágora - Pessoas pessimistas

Oi, eu queria entender porque tem vezes que somos tão pessimistas. Não sei se é normal, mas sempre acho que tudo na minha vida vai ter o pior resultado possível. Não consigo acreditar de verdade que alguma coisa vai dar certo mesmo eu me esforçando. Obrigada.
Natália 


Bom dia, Natália!

Diversas situações são possíveis para explicar o pessimismo de algumas pessoas. A primeira delas é o realismo. Algumas vezes, sabemos que as chances de algo ir mal são grandes, seja pela gravidade de uma situação, seja porque estamos lidando com algo com o que temos pouca experiência ou conhecimento, seja porque admitimos que não nos esforçamos tanto quanto poderíamos. Nesse caso, é interessante avaliar bem a situação e as nossas atitudes, para recalcular nossas metas e estratégias.

Outra possibilidade é a insegurança, ou mesmo a pouca experiência. Sabemos que para ser bom em algo, uma pessoa precisa de conhecimento e prática. Quando tentamos algo novo, já esperamos que o resultado não seja o de um especialista... Portanto é normal ficar "pessimista" ou inseguro nesse tipo de caso. Só não podemos deixar que esse medo de não dar certo nos impeça de ao menos tentar e fazer o nosso melhor. Apenas tentando saberemos se somos realmente tão ruins e o que podemos melhorar.

A terceira possibilidade é a que mais me preocuparia, Natália. É o caso da pessoa que está num grau de desesperança tão grande (e, muito provavelmente, em um estado depressivo), que já não vê caminhos na vida. Mesmo que ela seja excelente no que faz, mesmo que esteja fazendo escolhas sensatas e que a situação até seja boa e tranquila, ela acredita que algo vai acontecer e tudo vai dar errado. Isso é comum em pessoas com poucas referências de sucesso (isto é, aquele tipo de lembrança fortalecedora de momentos bons, em que superamos algum desafio ou nos saímos bem em algo), ou ainda que vivem num meio muito exigente e que, ao mesmo tempo, oferece poucos recursos. Se o caso for este último, seria muito importante buscar ajuda de um profissional, que poderá tratar um possível quadro depressivo e ainda ajudar a pessoa a dar um olhar mais realista para sua vida, percebendo os pontos positivos e tomando atitudes para mudar os negativos.

beijos,
Bia

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terça-feira, 26 de agosto de 2014

Mythos - As Erínias: consciência pesada

Na mitologia grega, as Erínias eram três irmãs encarregadas de punir os mortais que cometiam algum tipo de injustiça, em especial assassinatos. Em algumas versões, elas nasceram quando Urano (o céu) foi castrado e gotas de seu sangue caíram sobre Gaia (a terra). Em outras, menos comuns), elas eram filhas de Nix (a noite). As Erínias também eram conhecidas pelo nome de Fúrias (entre os romanos). Na Grécia, para que se evitasse dizer seu nome e com isso chamar suas presenças desagradáveis, usavam alguns eufemismos para se referir a elas, como Eumênides (as bondosas, ou benevolentes) e Semnai Theai (algo como "deusas veneradas"). Elas viviam no Tártaro, a parte mais profunda do Mundo dos Mortos (ou do inconsciente, pensando numa perspectiva mais simbólica).

"O Remorso de Orestes", 1862, obra de William-Adolphe Bouguereau.
As Erínias eram representadas de forma grotesca, com cabelos de serpentes, asas de morcego e, algumas vezes, pés de bode. Quando algum mortal fazia algo de condenável, elas deixavam o Submundo e iam atrás dele para atormentar sua consciência com sentimentos de culpa e remorso. Essas eram as três fúrias:

- Alecto (a inominável, ou a implacável): espalha pragas e maldições, atormenta pessoas que demonstram sentimentos como ira, raiva gratuita ou injusta, soberba... Ela seguia a pessoa o tempo todo e nunca a deixava ter paz, nem durante o sono.

- Megera (o rancor): Ligada à inveja, ao rancor, à cobiça e ao ciúme. Esta erínia punia com especial empenho os delitos contra o casamento, em especial a infidelidade. É a erínia mais persistente, pois passava, em alguns casos, a seguir o mortal pelo resto da vida dele, lembrando-lhe de seus atos e atormentando-lhe a consciência.

- Tisífone (o castigo): atormenta aqueles que cometeram assassinato, especialmente se foi contra alguém da família. Ela persegue o culpado até fazer com que ele fique louco.


Questões para reflexão:

1- O tema das Erínias é muito próximo de todos nós. Dificilmente alguém passará a vida sem nunca experimentar remorso ou consciência pesada após tomar alguma atitude (mesmo que apenas algo leve, como uma palavra mais dura para alguém de quem gostamos). Em quais situações você já passou por isso? O que fez para aliviar o peso na consciência?

2- A mitologia grega tem um foco muito claro na questão da justiça, do equilíbrio ou da harmonia. Assim, mesmo que algo grave como um assassinato termine impune, o culpado receberia sua punição das Erínias. No mundo de hoje, vendo o mito de forma simbólica, percebemos que muitas vezes a maior "punição" vem da nossa própria consciência, nem sempre do mundo externo. Isso é interessante, pois algumas vezes as nossas "erínias" interiores punem atitudes nossas que, no mundo externo, nem sempre seriam vistas como algo tão ruim. O popular "nossa, será que fui dura demais com Fulano? Será que fui grosseira? Será que eu o magoei?" Isso nos mostra que, muitas vezes, o nosso senso de justiça e de certo e errado pode ser diferente do das outras pessoas ou mesmo do que se tem como consenso. Quais são os seus critérios de certo ou errado? Quais os seus valores principais? O que você "não perdoa"?

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Ágora - Tatuagem e modificação corporal

Bom dia, Bia. Queria a sua opinião para uma situação na minha família. Tenho um filho de 19 anos, ele estuda design, trabalha, é um bom filho e nossa relação de família é boa. Mas outro dia ele chegou em casa dizendo que vai fazer uma tatuagem. Eu não sei o que pensar e nem o que dizer para ele. Não que eu vou brigar com ele só por isso, mas eu tenho medo que ele fique com dificuldade de arrumar um emprego no futuro ou até que pegue alguma doença quando fizer a tatuagem. Acho que é preocupação de mãe, mas gostaria de uma opinião. Obrigada. Forte abraço.
Maria Ângela - Rio de Janeiro, RJ


Olá, Maria Ângela!

Penso que essas preocupações quanto ao futuro dos filhos (mesmo quando se tem filhos já adultos) são normais, sinal de que a família tem um bom envolvimento. Mas, ao mesmo tempo, os filhos precisam fazer as próprias escolhas, sejam grandes escolhas, como no campo profissional ou um casamento, por exemplo; sejam escolhas menores, como fazer algum tipo de arte corporal. Só quando eles fazem suas escolhas e lidam com as consequências boas e ruins é que crescem e se desenvolvem.

É interessante lembrar que o ser humano sempre usou formas de modificação corporal, em diversas épocas e povos. Não é algo "moderninho dos dias de hoje". Essas modificações marcavam algum tipo de status, classe social, papel ou função desempenhada pela pessoa e, em alguns casos, tinham apenas a função estética, uma forma de se diferenciar, marcando uma mudança ou passagem na vida. Se anos atrás as tatuagens eram vistas com preconceito pela sociedade, hoje elas são bastante populares, especialmente entre os jovens, são vistas como uma forma de arte, de se diferenciar e de passar uma mensagem (mesmo que apenas para si). Os estúdios de tatuagem, hoje em dia, seguem normas de higiene e segurança bem rígidas e funcionam sob autorização da Vigilância Sanitária, que atesta que o local tem condições de prestar os serviços de maneira segura, evitando riscos. Os profissionais da área geralmente fazem cursos e passam por atualizações, eles sabem o que estão fazendo e o serviço prestado é sério e seguro. 

Quanto ao preconceito na hora de arrumar um emprego, em teoria isso não deve acontecer, pois hoje em dia há leis trabalhistas que garantem que o candidato ou o funcionário não podem ser discriminados por critérios como gênero, origem, orientação sexual, aparência (e aí, entre diversos elementos, entram as tatuagens). Claro que existem algumas áreas mais conservadoras quanto à aparência e vestimenta. Já outras (por exemplo a área artística) são mais liberais. De toda forma, é interessante escolher com cuidado a arte que gostaria de fazer e o local do corpo, para evitar arrependimentos. Vamos lembrar também que ter ou não uma tatuagem não mudará a pessoa que o seu filho é. Ele continuará sendo um rapaz responsável, esforçado, um bom filho... Se ele te contou isso, provavelmente foi por querer que você participe das escolhas que ele faz, do caminho de vida dele. E essa confiança não tem preço.

beijos,
Bia


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quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Doença e cura como busca de equilíbrio

Já conversamos em outras ocasiões sobre doenças psicossomáticas, que são aquelas dores e sintomas físicos vindo de estados emocionais que não foram "digeridos" de forma adequada. Hoje, vamos falar sobre o caminho oposto, sobre como as doenças físicas (sejam elas de origem psíquica ou não) podem repercutir na nossa mente e nas emoções.

Uma doença ou qualquer tipo de problema de saúde sempre nos mostra que algo não vai muito bem na maneira como vínhamos vivendo. Desde o exemplo mais simples da pessoa que se resfria após sair sem casaco num dia mais frio, até casos mais complexos, que envolvem o processo de somatização de forma mais simbólica e dramática. O fato é: a doença sempre mexe com a gente, especialmente em casos mais sérios. Não é fácil para o paciente, para seus familiares e amigos, quando se recebe um diagnóstico como Alzheimer, câncer, sequelas irreversíveis de acidentes, entre outros. São condições que levam a pessoa a pensar sobre vida e morte, sobre as incertezas de se estar neste mundo e mesmo sobre o que faremos com o tempo de vida que temos (tanto se o paciente somos nós quanto quando refletimos sobre os dramas e situações vividas por pessoas conhecidas).

Mas, claro que num grau muito menor, toda doença nos leva a um movimento como esse. As dores e doenças nos trazem a ideia de que não somos eternos, não somos invencíveis e que temos um tempo de vida para fazer o que quisermos - mas nunca sabemos quanto tempo temos exatamente.

O momento em que a pessoa está doente é aquela hora que ela precisa parar e prestar um pouco mais de atenção em si, especialmente em casos de doenças graves ou de doenças mais rotineiras quando muito frequentes. O que não está bem na vida? Quais atitudes, pensamentos, comportamentos ou mesmo emoções não estão mais funcionando na sua vida? Existe algo de que você gostaria ou sente que precisa deixar ir (comportamentos, situações, relacionamentos destrutivos, etc.) mas por algum motivo não consegue? Você está em primeiro lugar na sua vida ou há outras pessoas ou mesmo situações ocupando esse posto que deveria ser seu? Essas questões podem ser um bom ponto de partida para começar uma reestruturação na própria vida.

Quando conseguimos a cura, superando a doença, saímos transformados. Já não somos "aquele que adoeceu", nem somos mais "o doente". Somos "aquele que venceu". Assim, em muitos casos, a doença age como um rito de passagem que nos permite reordenar a nossa forma de viver e reconquistar o equilíbrio perdido. Especialmente no caso de diagnósticos graves, é muito importante guardar essa referência de que conseguimos atravessar uma grande crise em nossas vidas e sair dela transformados. Com a cura, o ritual de passagem se completa, e a pessoa que emerge de dentro de nós está pronta para uma nova caminhada.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Mythos: Viracocha - utopias, metas e o "não-lugar"

Hoje temos um deus da cultura Inca, um povo muito avançado e interessante que viveu na região dos Andes. Viracocha é o principal deus inca. Ou melhor, é um deus muito antigo, de povos que vieram ainda antes dos Incas (ou de povos míticos de quem os próprios incas acreditavam que eram os descendentes e herdeiros), e que acabou sendo englobado por essa cultura. 

De acordo com os mitos, Viracocha surgiu do lago Titicaca no momento de maior escuridão, trazendo a luz e tudo o que existe. Ao emergir das águas, como a "grande claridade", criou a terra e o céu, é um deus associado à criação e ordenação da realidade. Não há um lugar em que ele vive (talvez viva num "não-lugar" ou em algum tipo de contexto que vai além do espaço), mas onde quer que vá ou esteja, um pássaro de ouro sempre o acompanha. Esse pássaro têm o conhecimento de todos os tempos, passado, presente e futuro.

Ele não é um deus masculino e nem feminino, mas ao mesmo tempo é masculino e feminino. É imortal, abstrato, sem representação concreta (quando representado, é meramente para suprir a necessidade dos seres humanos de imaginá-lo, não porque tivesse uma forma ou algum tipo de materialidade). Isso chama a atenção, pois pensar uma criatura abstrata, não concreta e sem representação, compreender de fato este ser, é algo que exige uma capacidade cognitiva/psíquica bastante refinada. Os cultos a Viracocha eram reservados apenas à nobreza, talvez por exigir essa compreensão mais refinada, que as camadas mais altas poderiam adquirir mais facilmente por terem mais acesso aos estudos e informações do que as camadas populares.


Questões para reflexão:

1- O primeiro ponto que vamos explorar é a questão da criação. Tal como os deuses nos mitos, nós também criamos a nossa realidade, conforme fazemos escolhas, agimos e tomamos posições na vida. Como você cria o seu mundo? Não pense apenas que tipo de realidade você tende a escolher para si, mas também o processo de criação. Essas escolhas e posicionamentos são sempre tranquilos? Que tipo de escolha (ou de contexto) você tem mais facilidade e mais dificuldade para lidar?

2- O pássaro de ouro representa a maneira como nos libertamos quando temos as informações certas. São as informações que nos fazem livres (e aqui entra o conhecimento formal, as técnicas de diferentes tipos, mas também as informações do dia a dia, algo que aconteceu, algum plano ou intenções que temos, etc.). Para pensar: onde você consegue suas informações e como as usa de forma libertadora? Porque conhecimento e informação só libertam quando preenchem a realidade com sentido.

3- Para terminar, vamos pensar no fato de que Viracocha vivia num "não-lugar", ou num tipo de contexto que ia "além do lugar", no utópico (em grego, u - negação thopos - lugar, o não-lugar é o campo da utopia). Num certo sentido, o lugar onde queremos chegar sempre é utópico, não por ser impossível, mas porque no ponto de vista presente é um não-lugar, vai além daquilo que está presente aqui e agora. Esse tipo de "utopia" (que podemos chamar de esperanças, sonhos, metas...) nos movem, fazem com que a gente se liberte desse pontinho chamado presente e busque algo ou um modo de vida que supomos que será melhor, nossa vida ganha sentido conforme descobrimos uma direção para onde seguir.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Ágora - Família na psicoterapia de adolescentes

Oi Bia, eu sou sua fan e gosto muito de acompanhar seu blog principalmente as perguntas. Queria sugerir pra vc começar a fazer videos acho que os leitores iam gostar de te assistir e queria perguntar sobre terapia. Eu queria fazer, mas não queria que a psicóloga fale com os meus pais. Eu tenho 17 anos e meu problema é sobre dúvidas sobre o futuro e a profissão e também sobre sexualidade. Eu não tenho bem um problema, só queria me entender com essas coisas. Mas teria muita vergonha se ela contar pros meus pais. Ela teria que contar por eu ser menor de idade? Obrigada! beijinhos
Tamiris - Barueri, SP


Olá, Tamiris!

Obrigada pelo carinho e pela sugestão, vamos estudar a possibilidade de fazer alguns videos. Sobre a sua pergunta, acho importante diferenciar a forma como funciona a psicoterapia infantil e a de adultos. Com crianças, a conversa com a família precisa ser uma constante. A frequência das sessões com os responsáveis é maior de acordo com a gravidade do caso e com a idade da criança (com os mais novos, a conversa com os pais é mais frequente).

Com adolescentes a situação muda um pouco. A adolescência é uma fase em que o jovem se abre para a vida além do contexto família-escola, como um "treino" para a vida adulta em que, aos poucos, aprende a fazer suas escolhas e lidar com as consequências boas ou ruins que elas trazem. Assim, dependendo da fase da adolescência, do tipo de questão trabalhada com o jovem na psicoterapia, as sessões com os responsáveis, quando acontecem, são bem mais espaçadas. Claro, se há algum distúrbio ou quadros como depressões graves, uso de drogas ou envolvimento com criminalidade, isso será, sim, comunicado à família, pois eles que respondem pelo filho menor. 

Acho importante saber que as devolutivas com a família não envolvem contar aquilo que a criança ou adolescente disse ou fez nas sessões. É apenas um olhar técnico sobre como a situação trabalhada está se desenvolvendo. Além disso, o paciente sempre pode optar por estar presente e participar dessas conversas, mesmo no caso de crianças pequenas. 

No seu caso, Tamiris, acho pouco provável que essas sessões com a família precisem acontecer, pois pelo que você contou, a situação é mais voltada para o autoconhecimento e com a sua idade você provavelmente já é capaz de responder por si nesse sentido. Claro, se você quiser que a a sua família participe em algum momento, ela sempre será bem-vinda. A escolha estará nas suas mãos.

Beijos,
Bia


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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Rede social, segredos, vida pública e vida privada

Nas últimas semanas, algumas pessoas têm me procurado para conversar sobre questões como boatos, difamações e exposição excessiva nas redes sociais, em especial sobre uma rede que chegou ao Brasil há pouco tempo chamada Secret. Para quem não conhece, é um aplicativo/rede social anônima. Quando a pessoa baixa o aplicativo, ele se conecta aos contatos da pessoa que também usam o aplicativo, e então todos podem postar "segredos" de forma anônima, receber apoio e opiniões dos contatos (que também estão anônimos). O problema começou quando diversas pessoas passaram a difamar outras, com revelações, fotos de nudez e comentários impertinente. Chegou ao ponto de algumas pessoas se organizarem para pedir que o aplicativo saia do ar no país. 

Difamações em redes sociais já não são mais uma novidade no mundo de hoje. Acontecem com muito mais frequência do que se pensa e muitas vezes leva a consequências bem complicadas. Mas no Secret estamos assistindo a esse fenômeno de um jeito muito mais forte. Parece que os usuários realmente acreditaram na questão do anonimato. Esqueceram-se que ser anônimo no aplicativo frente aos seus amigos não significa que aquilo que elas postam não possa ser rastreado. Esqueceram-se que hoje temos delegacias especializadas em crimes virtuais (e difamação e coisas do tipo se enquadram nessa categoria). Esqueceram-se de que aquilo que elas fazem ou dizem tem consequências para muito além das curtidas e comentários dentro da rede social, espalha-se pela vida e, algumas vezes, pela vida de outras pessoas que não têm nada a ver com a história. E por último, mas não menos chocante, os usuários "esqueceram-se" que a ideia era postar os próprios segredos, não os do colega!

E daí? Temos aqui uma questão de limites bem problemática. O limite entre si mesmo e o outro, aquela ideia básica de respeito que nos diz que não temos o direito de difamar alguém. Claro que cada um pode ter sua opinião, inclusive a respeito de outras pessoas, mas ter uma opinião não dá o direito de dizê-la publicamente de forma a constranger ou difamar o outro. Não é novidade que todos temos nossos segredos e que, algumas vezes, dizê-los a alguém que não irá nos julgar (como os antigos diários, um amigo de confiança, um terapeuta...) dá um grande alívio. Também não é novidade que a maioria das pessoas sente uma certa "curiosidade" pela vida pessoal das outras. Mas esse tipo de situação de exposição em excesso nos fala de um limite muito mais sutil e que muita gente não nota: o limite para consigo mesmo, entre o que é público e o que é particular. Em outras palavras, não é só porque a pessoa fez algo que gostou muito, passou por maus bocados ou teve uma noite maravilhosa que o mundo precisa saber de certos detalhes pessoais. Isso é se respeitar.

Outro ponto que chama a atenção não é bem sobre os usuários, mas sobre o mundo. Quando as redes sociais foram criadas e se aperfeiçoaram, eu ouvia muita gente dizer que nelas é como se todos fossem celebridades. E parece que para muita gente, este é um grande atrativo (mais do que manter contato com amigos e familiares que estão distantes). No entanto, quando isso parece ter chegado ao auge, surge uma rede que apela para algo que sempre tivemos, mesmo fora do mundo virtual: o anonimato. E aí temos outra questão de limites, pensando em como as fronteiras entre vida pública e privada podem ser tênues e permeáveis.

Este parece ser um ótimo momento para que cada um pense um pouco sobre essas questões, sobre as formas como costuma se expor, sobre o que (para cada um) é público, o que você gostaria que fosse conhecido apenas por pessoas próximas e o que é apenas seu. Parece uma boa oportunidade ainda para que famílias e educadores conversem a esse respeito com suas crianças e jovens. Por que tanta gente se sente bem ao se expor em redes sociais para desconhecidos (mesmo que com a ilusão do anonimato) mas ao mesmo tempo se sente desconfortável ao se expor para pessoas próximas e queridas? Acredito que a resposta (seja ela qual for, cada um terá a sua) conta muito sobre a maneira como nos revelamos ou nos escondemos de nós mesmos.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Mythos - Aurora: clareza

Aurora é a deusa romana do amanhecer. Ela é irmã de Sol (o deus do sol) e de Luna (a deusa da lua), e todos os dias, pouco antes de seu irmão surgir, ela se renova e corre pelo céu anunciando o nascer do Sol, em sua carruagem púrpura puxada por dois cavalos. 


Aurora quase sempre é representada como uma moça jovem, bastante ágil e bonita, com longos cabelos loiros e as unhas pintadas de rosa. Boa parte dos mitos a seu respeito são histórias de amores e paixões, que nem sempre terminam tão bem, pois Aurora sempre se apaixona por homens mortais.

Certa vez, Aurora apaixonou-se por um mortal chamado Tithonus, e tornaram-se amantes. Como o relacionamento amadurecia, ela pediu a Jupiter, o líder dos deuses, que concedesse a imortalidade a ele, e assim foi feito. No entanto, esqueceu-se de pedir para mantê-lo jovem. Assim, eles continuam juntos, mas Tithonus envelhecia eternamente. Em algumas versões, eles continuam juntos. Em outras, Tithonus pediu a Júpiter para ser transformado numa cigarra, que canta sempre que vê sua amada passar pelo céu.


Questões para reflexão:

1- Aurora é aquela que traz a clareza. Nos mitos, estamos falando da claridade do dia. Mas quando pensamos os mitos como algo que nos fala sobre a vida e a psique, podemos entender a clareza num sentido simbólico, como dizemos quando uma situação está clara, quando temos consciência de algo e percebemos o todo de uma questão. Quando uma situação que parecia confusa, como se algumas peças faltassem, subitamente se torna clara, nos sentimos como que atravessados por Aurora, a realidade ganha luz e podemos caminhar pelos caminhos da nossa vida conscientes das nossas escolhas. Quais situações (ou quais áreas da sua vida) estão precisando dessa luz, dessa clareza? Descreva-a para si mesmo da melhor forma que puder. Não se assuste com as sombras em sua vida. A Aurora é assim, chega sempre na escuridão da noite, nunca no meio do dia.

2- Outro ponto que podemos pensar nesse mito é a questão da própria Aurora não ter sido o suficientemente clara ao pedir a imortalidade para seu amado. Interessante a versão do mito em que Tithonus pede para ser transformado em cigarra, nos mostra que algumas vezes é preciso saber dizer não a algumas coisas para aceitá-las em outra forma. Sempre que damos um passo, algo fica para trás. Aceitar algo novo é, ao mesmo tempo, deixar algo ir embora. Não existem ganhos sem perdas, sejam elas menores ou maiores, fáceis ou difíceis.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Ágora - Por que você não pode interpretar meu sonho?

Eu te escrevi um tempo atrás e te contei um sonho, mas você me disse que não poderia interpretar e ficou só conversando comigo. Na hora me deu muita raiva de vc, mas agora quero entender porque vc disse que não podia interpretar se vc falou que faz isso com seus pacientes, se é que tem motivo pra não querer interpretar meu sonho.
Maiara


Bom dia, Maiara!

Eu me lembro da nossa conversa, no dia imaginei que você tivesse ficado um pouco frustrada com a minha resposta. Mas a realidade é essa. O sonho é feito de símbolos. Nele, tudo é simbólico: cada elemento, pessoas, lugares, sons, palavras, perfumes e sabores, a forma como o tempo passa, as emoções e ideias que fazem despertar em nós. No entanto, como expliquei naquele dia, os símbolos não são necessariamente fixos. Assim, ao contrário do que dizem aqueles livretos encontrados em bancas de jornal, é impossível dizer que sonhar com X sempre signifique determinada coisa. Para todos entenderem, vamos pensar na palavra "maçã". Eu escrevo essa palavra e vocês, quando a leem, se lembram do som, da imagem de uma maçã, do sabor dessa fruta, de seu perfume. Até aqui, temos um símbolo fixo. Uma maçã é uma maçã, com as mesmas características, valor nutricional, etc. em qualquer época, grupo cultural, para qualquer pessoa. Mas em sonhos, uma maçã pode significar algo muito diferente para alguém que cultiva macieiras numa fazenda e para alguém que nunca tenha provado essa fruta, por exemplo, ou ainda para uma mãe cujo filho pequeno tenha se engasgado com um pedaço de maçã.

Um sonho nunca é interpretado por inteiro. Sempre há algum símbolo a mais, algum outro significado possível, algum outro detalhe. Mas isso não tem importância, pois geralmente os sonhos trazem mensagens semelhantes em linguagens diferentes. Assim, no ponto de vista psicológico, o sonho não nos fala sobre coisas aleatórias, sobre o resultado de sorteios e loterias, nem mesmo sobre um futuro predestinado e imutável. O sonho nos fala sobre nós mesmos e sobre o nosso momento de vida. Não do ponto de vista que temos quando acordados, mas do ponto de vista do nosso inconsciente. Ele declara para nós mesmos os nossos conflitos, desejos, prazeres, que nem sempre conhecemos de fato. 

Assim, eu só poderia interpretar seu sonho (ou melhor, apontar alguns significados possíveis) conhecendo a fundo você, sua história, seu momento de vida, assim como conheço meus pacientes. O que me dispus a fazer foi conversar com você sobre o sonho. Mesmo porque é assim que as interpretações (de sonhos, de sintomas ou do que for) acontecem, no diálogo, o psicólogo não é e nunca será uma autoridade que reina sobre a psique do outro. A interpretação só é válida se encontrar eco e significado em você, que é um sujeito ativo nesse processo. Por isso, não acredite em interpretações "prontas".

Para terminar, separei alguns artigos sobre sonhos que podem ajudar a entender melhor o tema:

Espero ter esclarecido e contribuído.
beijos,
Bia

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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

3 Formas de manejar crises de estresse

O estresse é como um pedido de socorro, alertando que precisamos mudar algumas coisas na maneira como vivemos, antes que os sintomas e problemas de saúde (físicos e/ou psíquicos) relacionados a ele se intensifiquem e se tornem crônicos. É como se a pessoa dissesse a si mesma "cuide de mim! Não estou conseguindo!" 

Para começar a conversa, é importante saber que o estresse nada mais é do que aquele estado de cansaço e sobrecarga emocional, causado por uma rotina muito agitada e sem tempos para respiros, problemas e conflitos com os quais nem sempre conseguimos lidar, perdas significativas, situações desagradáveis sobre as quais não temos controle... Ou até mais de um desses fatores juntos. Em geral, os quadros de estresse são acompanhados de sintomas como ansiedade, medos diversos ou insegurança, problemas com o sono e a alimentação, e mesmo alguns problemas na saúde do corpo. Algumas pessoas têm um quadro de estresse crônico, ou seja, estar estressado já é algo que acompanha essas pessoas há mais tempo. Nesses casos, é fundamental buscar ajuda profissional. Entretanto, todas as pessoas passam por momentos de estresse em alguma fase de suas vidas. Assim, hoje vamos ver algumas sugestões para lidar com esses momentos, não como algo preventivo, mas estratégias de ação para o momento em que a situação causadora está acontecendo (ou ainda está agindo sobre a nossa vida).

1- Respire com calma!
A respiração é algo que diz muito sobre nós. O ideal é que a respiração seja regular, profunda e mais lenta. Quando peço aos meus pacientes para que se concentrem em suas respirações, a maioria tende a acelerar o ritmo. Mas é bem o contrário o que precisamos! Não tenha medo de ir devagar. Respire profunda e lentamente, sentindo o ar entrar no seu corpo, o abdômen "subir", e o ar sair. Com calma, ninguém aqui está fugindo de um tsunami!

2- Quebre o estado.
Vá fazer outra coisa. Vá tomar com copo d'água, ou vá até o banheiro lavar o rosto, ou dar uma volta, saia do ambiente. A ideia não é "deixar para lá" e muito menos esquecer a situação tensa. A ideia é quebrar o estado emocional de ansiedade, medo, insegurança, raiva, etc., e assim, com a cabeça fria, poder olhar com clareza para a situação estressante e lidar com ela sem a influência de emoções que nos impeçam de pensar direito. Quando nos perdemos nesse tipo de estado emocional, nossa visão da situação é falha e deturpada.

3- Aceite que você não é o centro do mundo!
Porque ninguém é. Você é o centro do seu próprio mundo. Mas quando pensamos numa realidade mais ampla, é importante ter consciência de que cada pessoa só pode caminhar com os seus próprios pés, só pode dizer o que quer com seus próprios lábios. Então, solte o peso que não cabe a você carregar. Não adianta se estressar pelo que o chefe vai decidir, pelo que o filho resolveu fazer, pelo que o amigo tem enfrentado. Claro, podemos participar da vida dessas pessoas e dizer o que achamos, ou mesmo oferecer ajuda. Mas não podemos caminhar no lugar delas. Nao por "maldade" ou por frieza, mas porque cada pessoa so é o centro de seu próprio mundo e só pode agir nesse contexto.

Lembrando, é normal passar por momentos de estresse. Isso faz parte da vida de todos nós. Mas não é saudável fazer com que o estado de estresse se prolongue e atue o tempo inteiro sobre a nossa vida. Se for este o caso, é importante buscar ajuda de um psicólogo, bem como dar atenção a sua vida como um todo: as emoções, o corpo, a alimentação, o relacionamento com as pessoas com quem você convive, o sono, a forma como age e reage no dia a dia. Não é vergonha, nem defeito. É um sinal de que somos humanos, temos nossas limitações e pontos fracos e, algumas vezes, precisamos dividir o peso dos nossos ombros com alguém que nos ajude a continuar.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Mythos - As Musas: inspiração

As musas são deusas gregas ligadas à inspiração. Para os antigos gregos, toda forma de criatividade vinha dos deuses, fosse um poema, uma música, uma obra de arte ou um estudo científico. Essa ideia continuou mesmo após o fim da civilização grega, ainda hoje é comum ouvir que alguém teve uma ideia tão boa que foi "inspirada por deus", "por um anjo", etc.


Quando os deuses gregos venceram os titãs, assumindo o controle do mundo de forma mais justa, eles queriam que as memórias daquelas batalhas fossem sempre lembradas por todos. Então Zeus, o líder dos deuses, teve filhas com Mnemósine, a deusa das memórias. Nasceram as nove musas: Calíope, da eloquência; Clio, da história; Erato, da poesia lírica; Euterpe, da música; Melpômene, da tragédia; Polímnia, da música cerimonial/sacra; Tália, da comédia; Terpsícore, da dança; e Urania, da astronomia e astrologia. Elas vivem no Olimpo, sempre cantando e encantando com suas artes. 

Algumas vezes, as musas são associadas a Afrodite, pois ela é a deusa do amor e da beleza, incluindo a beleza expressa em uma canção, em poemas, na dança... Cabia às musas, como já comentamos, também a função de inspirar os mortais, soprando para eles as histórias dos deuses que se tornariam canções, narrativas, poemas e diversos tipos de arte.


Questões para reflexão:

1- A palavra "musa" deu origem a palavra "museu", o local onde ficam expostos e protegidos toda a arte e o conhecimento de um povo sobre determinado assunto. Se você organizasse um "museu pessoal", o que estaria nele? Lembre-se e anote os seus maiores feitos, suas maiores vitórias, as aventuras mais emocionantes... Depois, vamos aproveitar o tema e usar esses elementos (que são suas referências)para criar algo artístico, como um desenho ou pintura, uma música, uma poesia, uma dança...

2- Repare nas palavras usadas ao contar qualquer mito, história, ou mesmo algo do dia a dia. Elas sempre são simbólicas, e nos levam por caminhos curiosos. Aqui, no mito de hoje, as musas sopram informações e histórias sobre os deuses e sobre o mundo... e com esse sopro, o mortal se inspira. Repare como as ideias parecem se movimentar depressa, dançando no ar, e como tudo isso parece estar relacionado à respiração. Com frequência ouvimos as pessoas dizerem que precisam "tomar um ar" quando estão sobrecarregadas e cansadas, que precisam "respirar novos ares" quando estão entediadas numa rotina pouco estimulante, ou mesmo que se sentem "sufocadas" em situações em que nada flui. Como está sua respiração? Curta? Profunda? Depressa demais? Coincidência ou não, quando respiramos de forma profunda e regular, oxigenamos melhor o nosso cérebro, e uma área chamada tronco encefálico é ativada, mantendo a pessoa alerta e com a atenção plena, o cérebro fica preparado para trabalhar. Respirar direito, além da função corporal, tem como função simbólica a questão da inspiração e da comunicação entre o mundo e nosso mundo interno.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Ágora - Tempo de duração da psicoterapia

Oi Bia. Queria perguntar quanto tempo dura a terapia. Quantas vezes eu teria que ir? Em quantas sessões mais ou menos o paciente é liberado? Obrigado. Bjs
José Carlos - Curitiba, PR


Bom dia, José Carlos!

Essa é a dúvida de quase todos os pacientes. Quantas sessões vou ter de fazer? Infelizmente,não existe uma resposta clara para essa dúvida. Tudo depende do caso de cada pessoa, do quanto o paciente irá se envolver no processo terapêutico, como ele reagirá às técnicas e procedimentos aplicados e, como nem sempre as coisas dependem apenas de nós, dos rumos que a vida e o contexto ao nosso redor tomará durante o processo (perdas, grandes mudanças boas ou nem tanto que acontecem independente da nossa vontade, etc.). O que se costuma fazer é aplicar um bom psicodiagnóstico no início do processo terapêutico. Isso dura algumas sessões e inclui entrevistas, testes psicológicos e/ou neuropsicológicos, observação lúdica no caso de crianças, bem como outros procedimentos e atividades que sejam necessárias conforme cada tipo de caso. Com base nos resultados do psicodiagnostico é possível avaliar com mais clareza a dinâmica de personalidade do paciente e como ele tende a reagir ao quadro clínico ou problema que vem enfrentando. Isso permite ao psicólogo, além de ter um "raio X" da pessoa e da situação, estabelecer estratégias, técnicas e procedimentos a serem utilizados no caso. É importante saber que um processo de psicoterapia é diferente de um tratamento médico, em que ao iniciar o paciente já sabe quantas sessões fará, quantas doses de medicamento terá de tomar, etc. Na terapia mexemos com a psique e, ao mesmo tempo, com a forma como essa psique interage com o dia a dia da pessoa. E certas coisas não podem ser previstas, precisam se desenrolar, precisam ser vividas, sentidas e pensadas conforme acontecem.

Uma situação comum, e sobre a qual o paciente precisa ser avisado, é que nem sempre ele estará pronto para ter alta assim que o desconforto e os sintomas desaparecerem. Existem situações em que a pessoa tem plena consciência de que não está bem. Por exemplo, quadros como síndrome do pânico e outros transtornos de ansiedade, alguns quadros depressivos, entre outros. E muitas vezes, ao sair da crise e começar a retomar sua rotina normal, o paciente já pergunta se está pronto para ter alta. Não, não está. Uma coisa é sair da crise, e outra coisa é ter recursos e estar fortalecido o suficiente para não ter recaídas e novas crises. Por isso, a continuidade da terapia após o fim dos sintomas é importante, até que o psicólogo observe que a pessoa já está pronta para caminhar por si.

O psicodiagnóstico normalmente é repetido de tempos em tempos ao longo do processo terapêutico, para que se possa observar com clareza o desenvolvimento do paciente, as mudanças que já ocorreram e também para observar se surgem outros problemas ou conflitos que vêm à tona conforme a queixa inicial é trabalhada (o que é comum de acontecer, pois algumas vezes um problema mais grave encobre outros um pouco menores, mas que também causam desconforto e precisam ser vistos).

Outra situação que acontece algumas vezes é o paciente que já saiu da crise, já tem os recursos emocionais necessários  para dar conta das situações que vivencia... Mas não quer ter alta. Mas doutora, como você vai me dar alta se minha vida ainda está cheia de problemas?  Nessas horas, é importante mostrar para a pessoa que uma vida normal não é aquele final feliz de novela. Uma vida normal inclui problemas, desafios e alguns conflitos ou situações mais complicadas, e nenhum tipo de tratamento ou método muda isso. O que muda é a forma como a pessoa lida com essas situações, como maneja os conflitos e busca soluções para seus problemas. Em casos assim, é preciso mostrar para a pessoa como ela estava e como mudou (com base na fala dela, em resultados de testes, em dados de comportamento, etc.), apontar os recursos emocionais que desenvolveu e a confiança em si mesma que vem demonstrando. Além, é claro, de trabalhar o desligamento do vínculo com o psicoterapeuta, encorajando a independência.

Como deu para perceber, não é um processo tão simples, e nem sempre tão rápido quando o paciente gostaria. A psicoterapia é um processo que se insere na vida, que precisa ser vivenciado e nutrido no dia a dia para que dê bons frutos. Mas é também um processo que sempre nos faz crescer e descobrir formas e estratégias mais eficientes e tranquilas de levar a vida.

beijos,
Bia


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