terça-feira, 30 de setembro de 2014

Mythos - Esculápio: a cura está dentro de si

Esculápio (na Grécia, Asclépio) é o deus da medicina e da cura na Grécia Antiga e em Roma. Apesar de não ser parte dos deuses olímpicos, ele era um dos mais populares, justamente por lidar com a questão da saúde e cura, que são fatores que até os dias de hoje levam milhares de pessoas a buscar ajuda espiritual.

Esculápio. Réplica romana (século II d.C.)
da original grega (século IV a.C.).
Esculápio era filho do deus Apolo (ligado ao movimento do sol ao longo do dia, é aquele que nunca se atrasa e para tudo busca a "justa medida", o equilíbrio - tal como na saúde, se busca o equilíbrio do paciente para que a cura aconteça). Sua mãe era uma mortal que morreu antes que ele pudesse nascer, por isso, Esculápio nasceu de cesárea, o que na antiguidade era visto como algo fora da ordem natural e que marcaria a vida daquela criança que "não nasceu", foi arrancada do ventre da mãe. Assim, órfão, Esculápio foi criado por Quíron, um centauro muito sábio que educou e instruiu diversos heróis (heróis eram chamados os filhos de deuses com mortais, na Grécia, pois seriam "super" humanos). Com Quíron, Esculápio aprendeu a usar as ervas para curar, e aprendeu ainda a cirurgia. Ele se tornou um homem inteligente e um grande médico, aperfeiçoando cada vez mais seus conhecimentos. Dizem que era um médico tão fantástico que chegou a trazer um morto de volta à vida! Acontece que isso chegou aos ouvidos de Zeus, o líder dos deuses, que se sentiu ameaçado por tamanho "poder" e fulminou Esculápio com um raio.

Após a sua morte, como a maioria dos heróis, Esculápio se tornou objeto de culto e ganhou um lugar entre os deuses, pelos avanços que trouxe às artes médicas. Diversos templos foram construídos para Esculápio em toda a Grécia (em Roma, o culto a Esculápio chegou durante uma grande epidemia), e esses locais sempre atraíam uma multidão de peregrinos e doentes que buscavam a cura para seus males do corpo ou da alma. As curas aconteciam durante o sono, pois para os gregos, o sonho era considerado um "remédio". Assim, o doente ia até o templo, levando sua klinikos (em grego, aquilo sobre o que se deita, uma peça de mobília semelhante a uma cama ou coisa assim - daí surgiu, tempos depois, a palavra clínica). Lá, os doentes passavam por purificações, meditavam, passavam por rituais e, por fim, iam dormir, para que sonhassem com sua cura (de maneira literal ou simbólica), que depois seria colocada em prática.


Questões para reflexão:

1- Esculápio é morto por Zeus quando ele traz um morto de volta à vida. O que significa, para você, esse acontecimento? Na visão grega, nos perdemos quando escapamos da "justa medida", do equilíbrio. O desequilíbrio tanto produziria sintomas (físicos e mentais) como causaria uma suposta desordem na realidade. Quais "desequilíbrios" (menores que o de Esculápio, claro!) você identifica na sua vida? O que causam e como você os contorna?

2- Os sonhos eram vistos como remédios não porque curavam em si, mas porque um lado nosso, mais "sábio" por falar de outro ponto de vista que não o da realidade concreta, traz uma visão diferente da realidade que vivemos, dos nossos conflitos, desejos, do nosso dia a dia (quem tiver um diário de sonhos pode achar interessante folheá-lo sob este ponto de vista). Isso nos mostra que a cura está (também) dentro de nós. Tanto faz se a questão é física, emocional ou mesmo algo do dia a dia. Tratamentos e atitudes são importantes. Mas a postura do paciente de desejar a cura e fazer tudo ao seu alcance por ela também é. O que você faz pela sua cura/equilíbrio? O que mais poderia fazer?

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Ágora - Mente e cérebro

Oi Bia! Nós somos estudantes de psicologia do quarto semestre e queremos saber sua opinião sobre uma coisa. Outro dia a gente estava conversando depois da aula sobre a mente e o cérebro. O cérebro é o único responsável pelas coisas que se passam na nossa mente? Alguns de nós acham que não, mas outros dizem que sim, o cérebro que comanda tudo. O que você acha? Obrigada e parabéns pelo blog! 
Caroline, Lucas e Maria Fernanda


Bom dia!

Essas conversas de depois da aula são uma parte muito interessante da formação do psicólogo, ajudam a ter clareza da própria opinião, a expressá-la e a dialogar com os colegas. Vou adorar participar disso!

O cérebro realmente é uma parte importante do nosso organismo. Se já passaram pelas aulas de neuroanatomia, vocês provavelmente se lembram que o cérebro (ou melhor, todo o encéfalo), juntamente com a medula espinhal, formam o sistema nervoso central; e que a função deste sistema é receber informações do sistema nervoso periférico (como sensações do tato, de frio e calor, fome, dores, prazeres, aquilo que percebemos com os sentidos da visão, audição, paladar, etc.). Depois de receber, essas informações são interpretadas e então o sistema nervoso central nos manda uma resposta: está frio, vista um agasalho. Você está com fome, pare isso e vá almoçar. Perguntaram-lhe as horas, olhe no seu relógio e responda com educação a essa senhora. Você reencontrou um grande amigo e estamos aqui liberando substâncias que o farão se sentir bem e alegre. Claro, esses "pensamentos" não são conscientes, acontecem muito depressa, na forma de sinapses, isto é, impulsos nervosos entre os nossos neurônios.

A mente, no meu ponto de vista, é outra coisa. Também conhecida por psique, que em grego significa alma, a mente envolve o nosso cérebro e sistema nervoso... mas também envolve o restante no nosso corpo... indo muito além dele, para a consciência e o inconsciente, para o ambiente ao nosso redor e mesmo para aquelas pessoas com quem interagimos. É o colorido, a poesia da coisa. É sentir o aroma de um prato especial e se lembrar de um momento feliz de tantos anos atrás. É ver aquela pessoa especial e se sentir bem, feliz e perceber que o coração acelerou. É voltar a algum lugar que frequentava quando criança e ser inundado pela nostalgia e bons sentimentos. É projetar sobre a personalidade de outra pessoa algo que, na realidade, é parte nossa e não do outro. Sim, tudo isso passa pelo cérebro, pelos neurotransmissores, hormônios e substâncias que nosso organismo produz. Mas não vejo como apenas isso. Não percebemos e agimos só com o cérebro, a mente não está apenas no cérebro.

Essa discussão sobre mente e cérebro é muito antiga. Já acontecia entre filósofos gregos que discutuam a divisão entre corpo e alma/psique (claro, sem essa clareza que temos hoje sobre o funcionamento cerebral/corporal); ganhou novo fôlego com o filósofo francês Descartes e sempre esteve na pauta de discussões de filósofos e, mais recentemente, dos psicólogos. Há correntes de pensamento, como o comportamentalismo mais radical, que afirmam que a mente não existe. Há outras correntes, como a psicanálise clássica, que colocam dão um grande valor à psique. 

No fundo, o que estamos discutindo aqui é algo fundamental para que o psicólogo defina sua postura e seu discurso: qual a sua visão de ser humano? O que é o ser humano? Há algum tipo de meta maior em sua existência (desenvolver-se ao máximo, satisfazer seus impulsos inconscientes, passar pelo processo de individuação, deixar uma marca no mundo ou "apenas" ser feliz, entre tantas outras possibilidades)? Cada profissional e cada sistema teórico encontrará suas respostas, e todas são válidas se forem coerentes e éticas.

Minha postura pessoal é que mente e cérebro têm o mesmo peso no direcionamento dos nossos atos, pensamentos e emoções. Para mim eles funcionam de mãos dadas, um não existe sem o outro, e um não funciona bem sem essa parceria com o outro. Sugiro que vocês, estudantes, tenham sempre este tipo de questão em mente. Elas ajudam a definir posturas, linhas teóricas com as quais tem maior afinidade e mesmo escolhas na prática da profissão.

Espero ter contribuído para a discussão.
beijos e bons estudos!
Bia


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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Recuperando o equilíbrio

O artigo desta semana surgiu com base na seguinte pergunta: quais situações te desequilibram e como você recupera o equilíbrio? Assim, vamos trabalhar hoje com dois focos. Começando pelo desequilíbrio por motivos óbvios, só podemos reencontrar ou recuperar algo depois de termos perdido isso.


O desequilíbrio:

Algumas vezes, o desequilíbrio se mostra na nossa vida na forma de sintomas, sejam eles físicos ou psicológicos. Podem surgir emoções como medo, insegurança, ansiedade, irritação por qualquer motivo. Algumas pessoas se sentem instáveis emocionalmente, o que algumas vezes se reflete no corpo como tonturas, pequenos acidentes ou hipocondria (quando a pessoa acredita que há algo de errado com ela, que deve estar doente, mesmo que esteja bem).

Mas há sinais do nosso desequilíbrio que se mostram fora de nós. Por exemplo, quando não sabemos dizer "não" e colocar nossos limites, quando nos deixamos ser agredidos em diversos sentidos sem fazer nada a respeito, quando nos sabotamos, quando entramos em situações que já percebemos com antecedência que não terminarão bem, entre tantas outras.

O primeiro passo para recuperar o equilíbrio é saber o que nos tira o equilíbrio. Geralmente encontraremos tipos de situações, que podem se mostrar em diferentes áreas da vida (no trabalho, em casa, no relacionamento afetivo, etc.). Essas situações variam para cada pessoa. Ao mesmo tempo que alguns se desequilibram com discussões mais acaloradas e brigas, outros talvez se desequilibrem quando as coisas estão "paradas" demais e se sintam um tanto estagnados. Ao mesmo tempo que alguns vêem os desafios como algo que os incentiva a ir mais longe, outros podem sentir os mesmos desafios como "sinais" de que tudo irá mal. Por isso é importante cada pessoa se conhecer e perceber o que exatamente a faz sentir desequilibrada.


Recuperando o equilíbrio:

Quando alguém tem dificuldades para caminhar, geralmente essa pessoa irá se apoiar numa bengala ou muleta. Assim é também no plano psíquico. Quando temos dificuldades que nos fazem sentir desequilibrados emocional e psicologicamente, também nos apegamos a "muletas". Algumas vezes é um relacionamento. Outras pessoas tendem a se retrair ou a deixar tudo de lado. Outras vezes a muleta é tentar chamar a atenção, somatizar um sintoma, gastar em excesso, comer em excesso, colocar-se em situações de risco... Enfim, identifique qual é a sua muleta, se for o caso. Ela é importante e tem sua função naquele momento, a muleta nos impede de cair. Mas ela não te ajuda a resolver a situação, apenas restaura certo bem estar. Depois é preciso olhar para a situação e tomar suas atitudes.

Nem sempre o desequilíbrio está nos grandes problemas. Algumas (muitas!) vezes, está naqueles pequenos contratempos... Os atrasos, congestionamentos, o estresse e a correria do dia a dia, alguma discussão menos importante, algum contratempo. Nesses casos, é interessante encontrar momentos para aquelas atividades restauradoras: uma conversa tranquila com quem a gente gosta, uma caminhada, uma leitura tranquila, fazer arte, ouvir músicas, fazer atividade física, tomar um banho bem relaxante, ou o que quer que traga de volta o nosso equilíbrio.

Em tempo: algumas vezes nada disso adianta. Algumas vezes a situação é grande demais para aguentar passar por ela sozinho. Nesses casos, quando o equilíbrio custa a voltar e acabamos mais estressados, ansiosos ou tristes do que podemos suportar, é fundamental buscar psicoterapia.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Mythos - Larunda: mãe dos mortos

O mito de hoje é de origem sabina ou etrusca, não se sabe ao certo. Os dois povos que viviam na região central da Península Itálica, e foram um dos primeiros a serem conquistados pelos romanos. Como já comentei em outras ocasiões, os romanos eram extremamente estratégicos quanto à dominação de outros povos. Ao invés de banir a cultura do povo dominado, eles a englobavam à própria. Isso não apenas tornou a cultura romana cheia de pluralidades, mas facilitou esse processo de fazer com que diferentes povos se identificassem com os ideais romanos e se sentissem parte daquele povo.

Já conversamos algum tempo atrás sobre os Lare, os espíritos dos antepassados cultuados pelos romanos. Para lembrar este mito, entre no link: Os Lare: a força dos antepassados. Hoje vamos falar sobre Larunda. Ela era uma ninfa que não conseguia guardar segredos. No contexto romano, militar e cheio de estratégias, sempre com o foco em novas conquistas, isso era uma grande traição. Certo dia, Juno, a rainha dos deuses, perguntou a Larunda se ela sabia de algum caso extraconjugal de Júpiter, seu marido e líder dos deuses. Larunda ficou num empasse... e acabou revelando os segredos de Jupiter sobre seus casos românticos. Como era esperado, Júpiter ficou possesso e ordenou que lhe cortassem a língua. Depois, chamou Mercúrio (deus da comunicação, dos caminhos, do comércio e dos ladrões) e ordenou que conduzisse Larunda para o Mundo dos Mortos. Mercúrio, assim como Hermes na mitologia grega, tem o papel de psicopompo (condutor de almas). Acontece que Mercúrio se encantou com Larunda e acabou forçando-a a se deitar com ele. Como resultado, ela teve dois filhos, os Lare. Em algumas versões, ela passa a viver numa cabana escondida na floresta, se tornando a protetora do lar (é chamada de Lara). Quando chamada de Larunda, ela vive em algum lugar subterrâneo e é a mãe dos mortos, das almas e dos antepassados. 


Questões para reflexão:

1- Larunda é o aspecto mãe-terra dos Lare. Não apenas como uma entidade, mas como uma ideia, como a noção de se pensar a terra em si como mãe e, assim, como antepassada de todos nós. Esse conceito traz o sentimento de ser parte de um todo maior. Em quais ocasiões você experimenta uma sensação semelhante? Essa percepção tem qual resultado em você (aconchego, sentimento de proteção, de assombro, ou ainda desconforto...)?

2- Larunda e Lara são aspectos diferentes da mesma entidade, assim como nós também temos os nossos diferentes lados. Olhe para si e para o seu jeito de ser e perceba as diversas faces que você tem, as diferentes personagens que se mostram em cada contexto ou tipo de situação que você vivencia. Quem são essas personagens? Como você as chamaria?

3- Larunda, a mãe dos mortos, nos traz uma reflexão interessante: na morte também existe vida! Simbolicamente, quando conheceu Mercurio e teve seus filhos, a ninfa já estava morta, pois apenas dessa forma poderia ser conduzida pelo psicopompo, sendo uma alma e não uma criatura viva. Assim, ela tem seus filhos (os espíritos dos antepassados) depois de morta. As mortes simbólicas que todos nós passamos algumas vezes na vida (as grandes perdas, os momentos de luto, uma situação muito difícil e que parece não ter saída, uma doença grave...) também trazem um potencial imenso. Essas "mortes" podem até nos lançar nas profundezas da terra. Talvez, no início, a gente se deixe levar pela desesperança, pelo medo e pela dor. Mas eventualmente percebemos que é nas profundezas da terra que a semente se nutre para crescer, florescer e dar frutos num futuro breve.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Ágora - Medo de sair sozinha

Minha filha de 12 anos tem medo de sair na rua sozinha e mesmo de sair só com as colegas da idade dela, é normal isso? Nossa cidade é pequena e tranquila, não tem essa violência das grandes cidades que mostram nas notícias. Eu vejo que os amigos dela não tem esse medo e alguns até tentam ajudar se oferecendo pra ir e voltar em grupo pra escola e outros lugares. Eu me preocupo por que vejo as crianças querendo sair e passear e ela só vai se um adulto estiver junto.
Vânia


Bom dia, Vânia!

A princípio, os medos estão aí como uma defesa. Nesse sentido, é normal a pessoa ter medo de algo novo, ou que ela não sabe muito bem como será, ou ainda de situações que ela percebe como ameaça (mesmo que na realidade não sejam tão perigosas). Não é "anormal" uma menina de 12 anos ter um certo medo de sair só, especialmente se for uma situação nova para ela, mas ao mesmo tempo, é algo que foge do comum. Em geral, na pré-adolescência e adolescência a garotada busca uma independência maior. Claro que cada um faz isso no seu tempo e a independência só faz sentido quando é conquistada, quando parte da própria pessoa e nunca quando é imposta.

É interessante saber do que exatamente sua filha tem medo, Vânia. Da violência que a mídia mostra com tanta intensidade? De se perder? De encontrar pessoas que podem ser hostis? Ou seria a própria insegurança do início da adolescência? Uma criança que já era insegura tem mais chances de ter essa insegurança destacada na adolescência, fase em que é fundamental se "treinar" para a vida adulta e que, portanto, nos exige maior confiança do que a infância. Conhecendo o que realmente faz sua filha ter medo, se pode pensar em estratégias mais eficazes para lidar com ele. Outra possibilidade é o medo ser uma forma socialmente aceita de "exigir" a presença e o olhar cuidadoso dos pais e familiares, caso a menina não se perceba tendo isso da forma como precisa.

Comecem devagar. Não precisa ir para um bairro mais afastado ou um lugar desconhecido sozinha. A independência precisa ser parte do dia a dia. Já que os colegas se ofereceram para ajudar, quem sabe se sua filha começar a ir e voltar da escola com eles, aos poucos ela perceberá que não há o que temer, e que a experiência é até bem divertida. Talvez ela queira que algum adulto a acompanhe no primeiro dia, isso também a ajudaria a não se sentir "abandonada". Outra ideia é vocês estudarem o caminho junto com ela, talvez até desenharem um mapa, que ela poderá carregar na mochila para se sentir um pouco mais segura.

Procure, gentilmente, mostrar ara sua filha que ela está crescendo, Vânia. Não adianta dar uma super independência, porque isso assusta mesmo, é preciso começar devagar, com independências com as quais o jovem saberá lidar e poderá, assim, usar a experiência como algo que lhe dá confiança. Algo como "se consigo ir para a escola sozinha, devo acertar ir até a sorveteria que fica na rua de trás". Mostre o quanto você se orgulha das pequenas conquistas da sua filha, isso lhe dará maior confiança em si mesma e a fará perceber que não se trata de um abandono, e sim de uma situação feliz: ser cada vez mais responsável por si mesma e poder, com isso, fazer suas escolhas na vida. Pode ser uma boa ideia fazer uma pequena comemoração quando ela passar a sair só, o que funcionaria como um "rito de passagem" que lhe mostre que já está mais crescida (e isso pode ser algo tão simples como preparar seu prato preferido ou fazerem juntas algo que ela goste - claro, avisando o que estão comemorando). 

Mais importante que sair sozinha ou não, é a confiança que a sua filha tem em si mesma. Dependendo de como for, pode ser mais interessante demorar um pouco mais para sair sozinha e viver isso como uma conquista do que fazer às pressas e viver essa experiência como um abandono.

beijos,
Bia


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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Mobilidade: peregrinos, imigrantes, refugiados e vagabundos

Antes da gente começar com o artigo de hoje, faço um pedido para que compreendam o assunto não apenas ao pé da letra, mas principalmente de forma simbólica. Vamos conversar sobre mobilidade e, para isso, vamos usar algumas figuras de destaque: imigrantes, peregrinos, refugiados e vagabundos. Não pense nas figuras em si apenas, mas também nessas personagens como posturas que todos nós podemos assumir na vida em determinados momentos. Quando falo em mobilidade, não quero dizer apenas ir de um lugar para outro como um peregrino (ou qualquer outra das figuras que mencionei). A mobilidade não é só física, não é apenas ir de casa para o trabalho, para a Avenida Paulista encontrar os amigos ou para uma praia agradável passar um final de semana diferente. A mobilidade também é simbólica, é mobilidade de ideias e informações, é transitar por sentimentos, por esperanças e medos, é interagir com outras pessoas. Isso tem relação com as nossas escolhas, mas também com as possibilidades que se abrem a cada uma das figuras.

O peregrino é, em tradução livre, aquele que caminha através dos campos. Ele não é alguém do lugar, está apenas de passagem. Importante destacar, ele partiu por livre escolha e logo retornará ao seu lugar de origem. A mobilidade é um recorte no tempo, um momento de sua vida em que ele parte (geralmente em busca de algum tipo de interação com o sagrado, seja o que for que ele coloque nessa posição "sagrada"), no processo ele se transforma. Quando parte, o peregrino sabe que vai voltar mas, como ouvi de um deles, nem os outros e nem ele mesmo sabem quem exatamente ele será ao retornar, não é possível saber as transformações pelas quais passará.

O imigrante parte por escolha, seja essa escolha mais livre, seja ela motivada por situações problemáticas (como a miséria, a fome, o desemprego...). Ele escolheu partir mas carregará para sempre a dor de saber que dificilmente voltará, mesmo que alimente essa esperança. Em algumas regiões, era comum tocar o sino antes de um imigrante partir, com o mesmo toque de quando alguém morria. Algumas vezes a viagem era longa e perigosa e as pessoas realmente não sabiam se sobreviveriam. Outras vezes, aquele que partia já tinha mais idade ou uma saúde mais frágil e todos imaginavam que dificilmente retornaria. Mas no fundo, todos sabiam que aquela partida era um rompimento definitivo, uma "morte" simbólica. Quando o imigrante parte, ele já vai sabendo que, para quem ficou, ele está como que "morto". Dificilmente irá retornar em definitivo. Tudo o que lhe resta é reconstruir a vida no novo lugar.

O refugiado é um pouco semelhante ao imigrante, mas com uma diferença dramática e fundamental: ele nunca escolheu partir, foi forçado a isso (quando não expulso) por situações extremas, como guerras ou perseguições. Com frequência chega ao novo lugar sem nada, nem sequer documentos pessoais ou um visto de entrada, o que dificulta ainda mais sua situação. Ele dificilmente terá a escolha de voltar, não teve a escolha de partir e além disso deixou tudo o que possuía e conhecia para trás, para nunca mais ver, para dificilmente voltar a ser. Ele está completamente à mercê dos fluxos da vida.

Já o vagabundo (no sentido de: aquele que vagueia, que anda sem rumo e sem destino) é o extremo oposto. Ele não partiu e nunca chegará. Ele não saiu de lugar nenhum e não tem um lugar para onde retornar, nem mesmo apenas como referência ou ideal (como o imigrante ou o refugiado). O vagabundo prima pela mobilidade, pelo não envolvimento com o cenário. Ele está lá, mas apenas por enquanto. No momento seguinte, já não haverá nem vestígio dele, já estará longe, sabe lá onde.

O que quero dizer com essas descrições? A ideia é pensar sobre como todos nós somos assim. Como no mundo de hoje existem apelos para que ninguém se envolva demais (em relacionamentos, com o trabalho, com as pessoas, consigo mesmo). Não somos daqui (deste espaço, deste tempo, deste contexto, desta situação, desta família, deste grupo, desta empresa, ou o que você quiser acrescentar). Estamos todos apenas de passagem. Este é o apelo do mundo de hoje. Mas, ao mesmo tempo, as mesmas pessoas que idealizam essa mobilidade toda, sentem falta daquele modo de vida mais fixo. E esse sentir falta aparece de forma bem clara nos conflitos de relacionamento (que tendem a ser frágeis e passageiros), na indecisão quanto a que caminho seguir (em qualquer contexto da vida); em sintomas sociais como o individualismo, o não se importar com os outros e com o que é público, o aumento da violência gratuita; em sintomas psicológicos como a solidão mesmo estando cercado de pessoas, a insegurança, uma vida em meio a incertezas, o que em alguns casos pode levar a quadros de ansiedade, estresse, depressão...

Para terminar, quero deixar claro que nenhum modo de vida é bom ou ruim, melhor ou pior, certo ou errado, desde que seja uma escolha da pessoa. Nenhum ser humano é menos do que outro. Nenhum ser humano é um intruso neste mundo. Merecemos estar aqui, existir não é ilegal (ou não deveria ser). Ao mesmo tempo que a mobilidade é tentadora quando nos oferece novas formas de vida, ao mesmo tempo em que esse não envolvimento dá uma certa ideia de leveza, a mobilidade exige um preço caro: a liberdade levada ao extremo pode ser a pior das prisões para quem não sabe lidar com ela.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Mythos - O mito da caverna - perceber o mundo

Hoje temos um mito que não é exatamente um mito. Explico: o mito de hoje é uma alegoria, uma história criada por Platão (filósofo grego do século V - IV a.C.) no livro A República, para mostrar como o conhecimento nos liberta de uma realidade limitada. Vamos à história.


Imagine um grupo de pessoas acorrentadas numa caverna desde o nascimento. Tudo o que elas conhecem do mundo é aquela caverna. Eles nunca saíram de lá, e passam a vida virados para o fundo da caverna. Lá existe uma fogueira que, além de aquecer e iluminar, projeta sombras de pessoas, animais, plantas e de tudo o que existe no mundo de fora. Como quase não há o que fazer por lá, eles passam os dias observando essas sombras, dando-lhes nomes, julgando e comentando seu comportamento e suas escolhas.

Tudo muda no dia em que um dos prisioneiros é autorizado a sair e explorar a caverna, assim como o mundo de fora. Ele fica muito encantado e surpreso! Tudo é tão claro e bonito lá fora! Ele se encanta com as outras pessoas, com as flores, com os animais, com o mar... E em meio a essa surpresa, ele lembra dos companheiros da caverna e decide voltar para lá. Mas quando ele conta aos prisioneiros sobre a água fresca do mar, a sensação do sol na pele, o perfume das flores e as interações com as pessoas (que em nada se pareciam com essas sombras projetadas na caverna), eles se revoltam e o ridicularizam. Quando o homem insiste, é chamado de louco e cai em descrédito. Mas ele não se abala, pois queria que seus companheiros também conhecessem a verdade e compreendessem o absurdo que era julgar a realidade através de sombras. Neste ponto, os prisioneiros ameaçam matá-lo.


Questões para reflexão:

1- Nós e a sociedade em que vivemos somos como os prisioneiros da caverna. Não vemos a realidade por completo, vemos apenas as "sombras" que são acessíveis a nós de acordo com a cultura em que vivemos, o papel que desempenhamos nas situações da vida, as informações às quais temos acesso. No entanto, sabemos (embora nem sempre as pessoas aceitem isso com tanta tranquilidade) que a realidade é muito mais ampla do que aquilo a que temos acesso. Existem realidades que não vemos (como o espaço, os átomos, as vísceras no interior do nosso corpo). Existem informações às quais não temos acesso, seja por pertencerem a áreas do conhecimento que não estudamos, seja por serem informações do dia a dia que não foram ditas a nós ou percebidas por nós (por exemplo, não sei o que se passa com pessoas que estão em outro lugar neste momento, a não ser que me contem). Como você lida com esse trânsito de informações e com essas múltiplas realidades? Você se parece mais com o "louco" ou com os prisioneiros?

2- Quais esforços você faz no seu dia a dia para se "libertar da caverna"? Procura conhecer modos de vida diferentes do seu? Novos assuntos? Novas formas de pensar e perceber o dia a dia? 

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Ágora - Confiança e relacionamentos

Bom dia Bia. Eu queria mandar uma pergunta pra Ágora. É assim eu sou homem, tenho 23 anos, minha vida é quase normal a não ser por um problema com meus relacionamentos. Eu tenho muita dificuldade porque nunca consigo confiar em ninguém. Mesmo com os meus amigos eu sempre acho que podem me fazer algo de ruim mesmo que demonstrem serem legais comigo e que nunca aconteceu nada demais. Porque sou assim? Prefiro ficar anônimo ta? Obrigado. beijos.
Anônimo


Bom dia, Anônimo!

Esse tipo de situação que você contou é cada vez mais comum hoje em dia. Vamos ver alguns lados da questão. Primeiro, hoje as pessoas são muito mais individualistas do que há algum tempo atrás. As famílias pouco convivem, e em muitos casos parecem até um grupo qualquer de pessoas que, por acaso, têm a chave da mesma casa, como ouvi por aí. Mesmo entre amigos íntimos e antigos, existe uma distância estranha. Tudo é meio burocrático, precisa ser marcado, combinado, confirmado... Até uma ligação parece que incomoda. Conversas são vistas como chateação e intromissão. Isso sem falar nas muitas pessoas que são gentis com desconhecidos na rua mas bem grosseiros com as pessoas mais próximas, aumentando ainda mais as distâncias emocionais e aquele sentimento de que sempre estaremos sozinhos no mundo. Tudo em nome do individualismo, da tal "privacidade". Veja que até a tecnologia, cada vez mais, é feita para uma só pessoa usar: os telefones da comunidade se tornaram telefones da casa, que se tornaram celulares. Só para pensar num exemplo simples.

Mas o problema é que apesar das pessoas quererem (ou pensarem que querem) toda essa "liberdade" levada ao extremo, elas não a suportam. A vida se torna chata, cinzenta, solitária e meio ameaçadora. No popular, surgem as pessoas carentes. E surge também a ideia de que todo mundo "tem que" ser extrovertido, sociável, ter mil amigos e tudo mais. Mas como ter amigos e relacionamentos sinceros e que valem a pena conviver se mal conhecemos a pessoa, e se pouco nos damos a conhecer? Fica aquela coisa meio fria e forçada. E porque conhecemos pouco, nos envolvemos pouco e o relacionamento fica ainda mais estranho. E porque tudo está estranho, não confiamos, temos dificuldade de ver essas pessoas no nosso futuro.

Se a situação for essa, Anônimo, a chave é fazer o caminho oposto. É melhor ter poucos amigos com quem convivemos e confiamos de verdade do que ter milhares de "desconhecidos simpáticos" na nossa vida. A confiança vem com o envolvimento (seja num relacionamento afetivo, nas amizades, na família). Para existir esse envolvimento, é preciso muita convivência, é preciso querer conhecer os outros e aceitá-los como são (e não da forma como queremos vê-los!), ao mesmo tempo que é preciso se dar a conhecer. Claro, com aquelas pessoas que realmente fazem diferença na vida da gente, não com qualquer "amigo" aleatório que acabamos de conhecer. Aquela pessoa simpática no metrô é apenas uma pessoa simpática. Os colegas são apenas colegas. Nem sempre o problema é medo de confiar, algumas vezes estamos apenas confundindo pessoas com quem temos uma interação gentil com amigos.

O que falamos até agora é o cenário em que vivemos hoje. Mas se a sua questão for mais da vida pessoal, se o problema é confiar, digamos, na namorada, na família, nos amigos íntimos, talvez seja o momento de pensar bem sobre como está escolhendo levar a vida. Se o problema for esse, faça um bom exame de consciência: algumas dessas pessoas já te fez mal? Se sim, foi de propósito? Resolveram a situação com uma boa conversa ou deixaram as feridas abertas? Caso essas pessoas sempre tenham sido fiéis e leais a você, então cabe pensar por quais motivos você acredita que pessoas que te amam iriam te fazer mal. Talvez, se o caso for com você apenas (e não com as outras pessoas ou com o estilo de interação de hoje em dia), possa existir aí questões ligadas à autoconfiança e autoestima, que podem ser resolvidas em psicoterapia.

beijos,
Bia


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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Quais são os seus pontos cegos?

Vamos começar o artigo da semana com uma experiência prática. Você vai precisar de um espelhinho. Sente-se e segure o espelho à sua frente, de forma que você veja os seus olhos. Muito bem. Agora procure ver, através do espelho, o ambiente onde você está. Não vale movimentar o espelho e nem o corpo, apenas olhe. Você vê o ambiente ou apenas a si mesmo? Caso veja o ambiente, você o vê por inteiro? Se precisasse vigiar suas costas desta maneira, o quanto você se sentiria protegido?

Sempre existem pontos cegos. Na nossa experiência, mas também na vida. Por mais que existam pessoas com uma boa "visão do todo", isto é, atentas a detalhes que a maioria não nota, continuam existindo pontos que não são vistos - pelo menos não por completo. Isso não acontece por falhas ou problemas, e sim pela nossa própria condição de ver a vida através do ponto em que estamos.

O risco que se corre é quando os pontos cegos, ou seja, justamente aquilo que não conseguimos ver com clareza, nos causa problemas. Porque a impressão que dá é que entramos numa espécie de "maré de azar", começam a surgir problemas e situações complicadas, com as quais não sabemos lidar e nem sequer percebemos de onde eles vieram ou por que estão na nossa vida.

Uma forma bem óbvia de contornar isso é expor a situação para alguém da nossa confiança (o terapeuta, algum familiar ou um bom amigo, talvez), que nos ajudará a olhar para a questão e verá coisas que nós mesmos não vemos, seja por estarem nos nossos pontos cegos, seja por estarmos tão envolvidos e mobilizados que "perdemos" a visão crítica do todo. 

Outra possibilidade, especialmente se a questão é mais técnica ou relativa ao trabalho é criar parcerias com colegas e outros profissionais. Talvez uma pessoa seja boa para pensar no lado estético de algo, digamos, mas deixe a desejar nas questões ligadas à precisão, por exemplo. E aí entram as boas parcerias, em que um complementa a produção do outro.

No entanto, pensando na vida pessoal, quase sempre os pontos cegos vão clareando (mas dificilmente por completo) conforme a gente toma consciência de que eles existem. Se a pessoa sabe que tende a competir com figuras de autoridade, por exemplo, ficará atenta a isso conforme vivenciar e aprender com as consequências dessa competição, que aos poucos se tornará consciente. É aquela história antiga, mas verdadeira: quando erramos, aprendemos a não cometer outra vez o erro; ganhamos experiência com as nossas conquistas, mas também com as dificuldades.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Mythos - Saci Pererê: sintomas, prevenção e acontecimentos desagradáveis

Esta semana vamos falar sobre uma das criaturas mais conhecidas do folclore brasileiro, o Saci Pererê. A origem do Saci está num mito indígena tupi-guarani. Mas o curioso é que o Saci indígena não era um menino, e sim um pássaro mágico que, por toda aldeia que passava, trazia desgraças e mal entendidos. Com a chegada de outros povos ao Brasil, em especial os africanos e portugueses, o mito ganhou contornos antropomórficos, isto é, o Saci passou a ser visto como menino, embora ainda hoje, no extremo norte do Brasil, que tem maior influência das culturas indígenas, ainda existe essa versão do pássaro.

O Saci Pererê é uma espécie de duende, um menino negro de uma perna só, que usa um gorro vermelho e está sempre com o cachimbo na boca. Ele aparece sempre durante a noite, com gritos e assobios, por onde passa faz muitas travessuras, como fazer com que viajantes e tropeiros se perdessem, fazer trança nas crinas dos cavalos, azedar o leite, impedir que o milho de pipoca estoure e bagunçar os lugares por onde passava. Nas fazendas do interior do país, sempre que algo aparecia revirado da noite para o dia, todos já sabiam que o culpado era o Saci. Até hoje, nos lugares mais afastados das cidades, é comum que as pessoas deixem fumo para o Saci nos galhos das árvores ou na janela de casa, para que ele fique contente e não cause estragos.

Algum tempo depois, outra versão surgiu, a partir do Saci menino: o Romãozinho. Também era um menino negro que aparecia durante a noite bagunçando tudo. Diz a lenda que ele era um menino desobediente que bateu em sua mãe, por isso não tem quem olhe por ele e vaga sozinho por aí, sempre aprontando.


Questões para reflexão:

1- O primeiro ponto que chama a atenção neste mito é a forma como ele se desenvolve: de mito animal (o pássaro que traz as maldições), tornou-se um mito humanizado (o Saci) para, então, ter uma história mais elaborada na forma do Romãozinho, que tem uma história de vida explicando sua situação. A vida da gente funciona assim também. Um comportamento ou sintoma começam como algo de que temos pouca consciência (como o pássaro, pois nas mitologias, seres de forma animal ou com partes de animais, em muitos casos, representam aqueles lados nossos com menos consciência, menos racionais). Então, o sintoma ou comportamento se estabelece e nós tomamos consciência dele, isto é, percebemos que ele existe e como influencia a nossa vida, como quando o pássaro se torna um menino arteiro e todos já sabem quem é o autor das travessuras... Apenas numa terceira fase é que nosso sintoma ganha um discurso, conforme contamos sua história (por exemplo, naquela consulta inicial, em que o paciente conta como foi que começou a ficar deprimido, em que momentos a ansiedade mais aparece ou conta a história do AVC de seu familiar e quais tratamentos tem feito desde então). Apenas nessa terceira fase, quando nossos sintomas ou comportamentos pouco funcionais ganham um discurso (uma história, um modo de se mostrar) é que ele pode ser verdadeiramente acolhido e cuidado. Qual a história dos seus sintomas (se não tiver um sintoma, tente fazer o exercício com algum comportamento, por exemplo, impulsividade ou dificuldade de interação, etc.)? E quais outras histórias você percebe por trás do sintoma/comportamento, mesmo que aparentemente não estejam relacionadas diretamente a ele? 

2- Outro ponto interessante é o fato da população deixar fumo para apaziguar o Saci e prevenir suas travessuras. Comportamentos preventivos (num sujeito ou num povo) mostram amadurecimento psíquico, pois existe a capacidade de ir além do aqui e agora e pensar no futuro, supondo que esse porvir nem sempre será tão lindo e tranquilo quanto a gente gostaria... Prevenir implica em buscar soluções para problemas e dificuldades que não estão presentes (por enquanto!). Você previne acontecimentos desagradáveis na sua vida? Como?

3- Romãozinho não tem quem olhe por ele desde que foi rude e se desentendeu com sua mãe. Desde então, vaga pela noite fazendo travessuras, deixando com que a população se sinta tão desprotegida quanto ele mesmo provavelmente se sente. Na vida real, você reconhece algum comportamento semelhante em si? Algumas vezes repetimos com os outros um mal que sofremos, numa tentativa de superar o acontecido conforme desempenhamos o papel inverso, como agressores que, no passado, foram vítimas de agressão, ou pessoas que foram abandonadas e posteriormente abandonam ou negam cuidados a suas crianças. Mas esse é um método nada eficaz, só agrava o estado da pessoa e faz novas vítimas. O ideal é buscar ajuda e começar a refletir sobre o que passamos, criando um discurso (como no ponto 1), para, depois, dar a esse discurso novos olhares e novos sentidos.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Ágora - Maturidade mental

Bia eu to meio ansioso de falar com vc! Olá! Eu queria entender por que meus pais são tão preocupados. Eu tenho 13 anos e gosto muito de ficar sozinho, gosto de ouvir música e ler, de desenhar, muito mais do que de ficar por aí com outros adolescentes. Meus pais me acham muito isolado e até já quiseram saber se fazem bullying comigo e não, não fazem. Meus colegas me respeitam muito e eu respeito eles, só não temos uma amizade. Na minha escola os meus colegas dizem que sou muito inteligente e as vezes acho que por me verem desse jeito eles não conseguem pensar em mim como um garoto normal de 13 anos com quem podiam ter mais amizade. A maioria dos meus poucos amigos são bem mais velhos que eu. Respeito meus colegas mas sinceramente acho as brincadeiras deles meio infantis e não me vejo vivendo como eles, parecendo que a gente nunca vai crescer. Eu queria saber se é normal isso e se meus pais tem razão de ficar preocupado. Pensei em pedir para eles me levarem no psicólogo o que vc acha? Obrigado e parabens pelo blog.
William


Bom dia, William!

Muito provavelmente, não tem nada de errado com você. A adolescência é um tempo de muitas mudanças e crescimento não apenas no corpo, mas também na mente e nas nossas emoções. E assim como o crescimento do corpo anda em ritmos diferentes (você deve ver que alguns dos seus colegas da sua idade parecem ter bem mais de 13 anos, enquanto outros ainda têm uma aparência um pouco mais infantil), também a nossa mente amadurece em ritmos diferentes. Esse ritmo de amadurecimento mental depende de diversos elementos, como a história de vida, a perspectiva e os planos para o futuro, a forma de olhar para o mundo e para si mesmo, a maneira como somos tratados pelos adultos e mesmo pelos colegas, além de elementos fisiológicos (como hormônios, algum tipo de distúrbio, nossa alimentação e estilo de vida...). Enfim, é normal em todas as fases da vida ter pessoas mais maduras e outras mais imaturas.

Estar fora da média (seja muito abaixo ou muito acima) quase sempre é algo um pouco solitário, pois aqueles que "deveriam ser" nossos iguais não nos reconhecem assim, ao mesmo tempo em que nós mesmos percebemos que aquelas pessoas com quem nos identificamos e até temos uma amizade também não são exatamente "iguais" a nós; se já saíram da adolescência, provavelmente o dia a dia e as tarefas e responsabilidades são bem diversas das de um garoto de 13 anos, por mais maduro e inteligente que seja...

William, acho importante você saber que o fato de estar tudo bem com você não significa que seus pais não vão se preocupar. É normal nossos pais quererem que os filhos cresçam saudáveis e tenham uma vida boa e feliz, plena de momentos de sucesso e de pessoas especiais. Num certo sentido, eles também têm razão. Por mais que você seja um garoto maduro e inteligente, a vida tem muitos lados. Não podemos nos dedicar a um ou dois e deixar o resto passar em branco (nem sei se é o seu caso, mas é meu papel falar também sobre isso). O que estou dizendo é que socializar também é algo importante e por mais que seja legal ter amigos de outras faixas etárias, com assuntos mais sérios, existem coisas que só acontecem aos 13 anos, coisas que não esperam e precisam ser vividas também. Amigos mais velhos são bons, todo amigo sincero é bom. Livros e músicas também podem ser ótimas companhias. Mas pode ser uma experiência interessante você se aproximar um pouco dos seus colegas. Não precisam virar melhores amigos se você não quiser. Mas invista algum tempo (quem sabe a hora do intervalo ou do almoço na escola?) trocando umas ideias com eles, isso não te fará "imaturo". Talvez você se surpreenda, talvez por detrás das brincadeiras infantis existam pessoas muito interessantes. Talvez vocês aprendam uns com os outros, eles a terem mais foco no futuro e você a ver o presente com um pouco mais de leveza. Pode parecer bobeira agora, mas daqui a alguns anos essa leveza pode fazer muita falta.

Sobre procurar um psicólogo, se você tem essa vontade acho muito válido. Sou da opinião que em algum momento da vida, em especial  nessas fases de transição como a adolescência, faz muito bem conversar com um psicólogo. A gente se entende melhor, se conhece direito e pode, assim, fazer escolhas mais acertadas para a nossa vida e lidar com elas.

Lembre-se sempre que não há nada de errado em ser diferente e gostar de atividades diferentes do que a maioria gosta, se isso nos deixa sorrir.

beijos,
Bia


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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A máscara e o espelho

Quando eu era adolescente participava de um grupo de teatro. Certa vez fizemos um exercício de expressão corporal. E em seguida, fizemos o mesmo exercício usando uma máscara sem rosto. Parece simples, mas isso realmente me marcou. O grupo logo notou como todos pareciam se soltar quando usavam a máscara durante o exercício. 

Na vida também somos um pouco assim. Temos muitas máscaras sem rosto, e podemos pintá-las com as cores e expressões que melhor encaixarem numa situação. Não falo de "falsidade", antes que me interpretem mal! Falo daqueles papéis sociais que todos cumprimos. No mundo formal/burocrático (por exemplo no mundo do trabalho) isso é fácil de ser notado. Ninguém responde a um cliente ou a algum colega de trabalho como quer. Responde-se o que precisa ser respondido, da forma como se deve. Ou seja, faz-se o que precisa ser feito. Porque é assim que anda o mundo burocrático: os papéis já são determinados e os roteiros meio que já estão escritos. São fáceis de representar, como o exercício de teatro com a máscara. Mas ao mesmo tempo, deixam pouco espaço para algo realmente autônomo e livre, quando isso é levado para outros contextos ou cenários. 

O problema começa bem aí, quando queremos carregar essas máscaras sem face para o mundo da vida, dos relacionamentos ou, se preferirem, para a nossa vida pessoal. Fica aquela coisa fria e distante. Aquela pessoa que não se envolve, nunca se dá a conhecer e que parece estar sempre do lado de fora da própria vida. Como se fosse "feio" ou errado se envolver com aquilo e aqueles que nos fazem bem. Como se não fosse adequado a pessoa se envolver com a própria vida e vivê-la ao máximo.

Aqui sai a máscara e entra o espelho. Quem é você quando se olha no espelho? Apenas um reflexo. Podemos olhar para qualquer pessoa, mas nunca para nós mesmos. No máximo vemos o nosso reflexo no espelho ou a nossa imagem numa foto, num vídeo, no olhar do outro. Uma curiosidade: pacientes com depressão profunda têm muita dificuldade de olhar para si mesmos e isso se reflete no mundo exterior quando eles passam a evitar espelhos, inclusive retirando ou cobrindo aqueles que têm em casa. Olhar para si não é tarefa fácil. Porque quando tiramos nossas máscaras, todas elas, não sabemos o que vamos encontrar ou se vamos gostar daquilo que veremos. Mais do que isso, nem sempre sabemos se vamos verdadeiramente reconhecer a nossa imagem.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Mythos - Maat: a verdade por trás do que fazemos

Na mitologia do antigo Egito, Maat é a deusa associada a diversos contextos, mas sempre remetendo à questão da verdade, justiça e ordem. Nos mitos de criação do povo egípcio, Maat é a auxiliar de Rá (alguns dizem que era filha dele, outros que era mãe), nesse contexto ela personifica e/ou representa as leis da física que formam o nosso mundo. A verdade, nessa esfera, está como algo físico, imutável e mesmo calculável.

Sessão do Livro dos Mortos escrita em papiro, retratando a pesagem do coração.
Este momento do pós-vida era registrado com frequência pelos egípcios no
Livro dos Mortos ou mesmo nas tumbas.
Maat também é considerada a rainha do mundo dos mortos (no período final da civilização egípcia). Ela fica na Sala Dupla da Verdade, onde as almas dos mortos eram julgadas, junto com Osíris. Nessas ocasiões, Maat retirava a pluma de avestruz que usava na cabeça e colocava em um dos pratos da balança. No outro prato, era colocado o coração do morto, onde os egípcios acreditavam que a alma morava. Se o coração fosse mais pesado que a pena de Maat, ou seja, se a alma do morto pesasse mais que a justiça, a verdade e a ordem, então o coração/alma era devorado pela deusa Ammit e deixava de existir (Ammit, uma das criaturas mais temidas no Antigo Egito, tinha a forma de um cão e personificava a retribuição divina por todos os males praticados pelo morto, quando em vida). Caso o coração/alma fosse puro, tendo o peso exato da pena, então o morto poderia ir para o Aaru, uma espécie de paraíso, caso passassem pela perigosa jornada que viria. 


Questões para reflexão:

1- A cena da pesagem do coração era muito simbólica, pois determinava a continuidade da existência após a morte ou o seu fim. Assim é no nosso dia a dia. Quando temos o "coração leve", ou seja, quando somos verdadeiros com a gente mesmo, fazendo escolhas que refletem os nossos verdadeiros sentimentos e desejos, tendemos a ver a vida numa perspectiva mais ampla. Temos esperança e vemos possibilidades de continuidade em nossos caminhos de vida. Pensando nisso, como está o peso no seu coração? Você tem sido verdadeiro consigo mesmo?

2- O coração puro era leve como uma pena. Mais do que isso, o coração que estava em paz era o daquelas almas que viviam em sintonia com a verdade e a justiça. Note que os egípcios não falam em bondade ou piedade, mas em justiça, sendo que suas leis religiosas e civis eram basicamente as mesmas. Transpondo isso para os dias de hoje, o coração "leve", que está em paz e pode ver a vida com esperança, é aquele que está em sintonia com as verdades/valores da própria consciência (levando em conta que, nos mitos, cada personagem e componente é uma parte de nós mesmos, também chamada arquétipo). Assim, a quais "verdades" ou valores pessoais você é fiel? Quais são os seus valores, ou as suas verdades? A que você responde e, "respondendo", pelo que se responsabiliza?