quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O sonho que não se realiza e a semente não germinada

Nada apodrece mais depressa do que sonhos mortos. Aqueles que nunca se realizaram e que no fundo a gente sabe que nunca vão se realizar... Mas que continuam lá, preenchendo o espaço e o tempo que poderiam ser usados para outros sonhos mais possíveis. Aquele sonho da adolescência que a gente nunca colocou em prática - e nem vai colocar. A vida tomou outro rumo, crescemos e de repente temos uma vida tão estruturada, tão diferente daquela época, que nos percebemos sem condições de ir atrás daquele antigo sonho. Ou apenas percebemos que não é viável. Mas as sobras dele continuam lá e não deixam a pessoa seguir em frente.



Claro que sou a favor de ir atrás dos nossos sonhos. Mas existe uma diferença clara entre sonhos que podem se tornar um projeto, que podem se tornar realidade, e aquele tipo de sonho que a gente mesmo sabe lá no fundo que não vai acontecer. Seja porque o tempo passou, porque as condições da nossa realidade mudaram por completo, porque mudamos de ideia e não queremos admitir, porque no fundo aquilo não dependia de nós, porque novas situações surgiram na vida da gente e transformaram tudo. Existe uma diferença entre abandonar um sonho e mudar de ideia. Assim como existe uma diferença entre desistir e perceber que apesar dos nossos esforços, o desejo não vai se realizar.

Sobram os retalhos de sonhos. Aquela matéria morta que nos impede de ir para frente na vida. Aqueles fantasmas que assombram nossa alma e dificultam a nossa caminhada. O que fazer? É muito difícil deixar isso para trás. Porque apesar dos entraves que os sonhos mortos provocam (sintomas físicos e psicológicos, além de emoções como insegurança, medo, incertezas, frustração e o sentimento de sermos pouco capazes de seguir com a nossa vida), ainda é mais confortável ficar preso a algo desconfortável e conhecido do que lançar-se ao desconhecido (mesmo que tenha boas chances de ser melhor do que esperamos)

Uma semente que não germina não está morta. Parece que ela está lá, esquecida na terra, incomodando... Talvez ela apodreça. E assim servirá de adubo para as outras sementes. O sonho não realizado, quando superado, pode nutrir novos sonhos. Ele não foi um fracasso. Porque nos sustentou no passado - talvez por anos e anos, talvez na fase mais complicada da nossa vida. Sempre terá seu lugar nas nossas lembranças. E agora, se bem aproveitado, sustenta nosso presente pois nos dá referências (da realidade em que vivemos, das nossas atitudes, do nosso jeito de ser e agir), nos fortalece para viver os nossos novos sonhos de forma mais efetiva, levando a gente a novos caminhos - mais possíveis e felizes.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Ágora - Narcisismo: pessoas "metidas"

Bia, qual o problema dessas pessoas que se acham? Eu me irrito muito com essas coisas porque vejo ai umas pessoas que nem são bonitas, nem inteligentes, nem fazem nada demais pra elas mesmas (e menos ainda pros outros) e se acham!!! Fico muito irritada quando vejo gente metida sem nem ter motivo kkkkkk pq quando tem motivo pra ser metido é ao contrario, ai a pessoa que faz coisas legais e até podia se achar é simples e gente boa.
Beijos e parabéns pelo blog
Mel


Bom dia, Mel!

Percebo nessas pessoas metidas, como você descreveu, dois tipos de situação. A primeira não é nada demais, a pessoa apenas tem uma boa autoestima e está focada nela mesma. E ai, quem não tem o foco em si mesmo acaba se incomodando um pouco por não conseguir ter esse tipo de atitude.

A segunda situação, que acredito ser a que você descreveu, Mel, é um pouco mais complexa. Algumas pessoas tem um grau de narcisismo muito elevado. A palavra "narcisismo" veio do mito grego de Narciso, um jovem tão belo que, ao contemplar a própria imagem num lago, apaixonou-se e morreu afogado. Todo mundo tem um certo grau de narcisismo. Graças ao nosso narcisismo temos autoestima, e também cuidamos de nós mesmos. Mas quando esse narcisismo é alto demais, a pessoa começa a ter problemas. Por exemplo, ter uma visão distorcida de si mesma e da realidade. Como se ela só tivesse pontos positivos, como se tudo no mundo e na vida dos outros existisse em função delas e mesmo uma grande dificuldade em aceitar que nem tudo é da forma que ela gostaria que fosse...

No segundo caso, é muito indicado que a pessoa procure psicoterapia, pois o menor dos problemas é ser esnobe. Quando não temos uma visão realista da vida e de nós mesmos, fica muito complicado assumir a responsabilidade pela gente mesmo e pela nossa felicidade. Além disso, a convivência com outras pessoas fica muito prejudicada, pois a pessoa excessivamente narcisista, além de não ser ela mesma (pois sequer sabe quem é, usa uma máscara), também tem dificuldade em perceber o outro como um sujeito que também tem sentimentos, necessidades, problemas e desejos. O outro é visto como um objeto. No máximo como "platéia". 

Lembrando que é normal e saudável que crianças pequenas, assim como os adolescentes tenham um grau de narcisismo um pouco acima do que os adultos têm. Cabe aos familiares e educadores dar a eles os limites necessários e dados claros da realidade (sim, tem que dividir o chocolate com o seu irmão; sim, precisa esperar sua vez e respeitar a vez do colega; não, você é bonita mas não vai se expor dessa maneira nas redes sociais porque a internet está cheia de pessoas mal intencionadas; não, você não vai a tal lugar porque o responsável por você sou eu e não acho seguro, ainda que você pense que está acima de todos os problemas).

Cada um é aquilo que quer ser, que faz sentido para si. Cada pessoa tem o seu caminho de vida, as suas escolhas e preferências. Percebo que quando a pessoa tem esses conceitos claros (emocionalmente, não apenas como ideias), não vê sentido em se colocar como alguém acima dos outros. A vida não precisa ser o tempo todo uma competição. As vezes (na maioria das vezes, aliás), cada um está apenas mergulhado na própria realidade, vivendo a própria vida e deixando os outros viverem a deles.

Beijos,
Bia


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terça-feira, 18 de novembro de 2014

Mythos - Ares: força e coragem

Nos mitos gregos, Ares é o deus da guerra. Não como Atena, que é ligada à guerra pelas estratégias que desenvolve, mas como alguém que usa a força física como principal meio de ação. Ele era representado como um guerreiro forte e corajoso, com sua armadura grega.



Quanto às interações com outros deuses, Ares é filho de Zeus e Hera, o rei e a rainha do Olimpo. É o principal amante de Afrodite, deusa do amor e da beleza, que era esposa de Hefesto, deus ferreiro e irmão de Ares.

Um ponto curioso dos mitos que cercam Ares, e ao qual vamos nos ater nas questões para reflexão, é que quando Ares nasceu, os Alóades (dois irmãos gigantes) o prenderam por treze meses num jarro. Ele só conseguiu se libertar quando Zeus enviou Hermes (o Deus da comunicação, também ligado à mediação e negociação) para ajudar.


Questões para reflexão:

1- O primeiro ponto que chama a atenção é a forma como nossa sociedade, assim como a dos antigos gregos, tende a lidar com a agressividade. Ela é desvalorizada, muitas vezes vista como algo inferior, de pessoas que "não sabem usar a razão". Como consequência, ela fica escondida no jarro... Entretanto, para os psicólogos a agressividade não é sempre ruim. Ela não está ligada apenas à violência gratuita ou a comentários grosseiros. A agressividade pode ser usada de forma positiva, como autodefesa ou para se impor num ambiente mais hostil ou competitivo. Um exemplo concreto é a alimentação. Quando comemos, picamos, cortamos, mastigamos e moemos a comida. É algo agressivo, mas sem isso não sobrevivemos. Como está a sua agressividade? Precisa ser controlada e educada, caso tenha um perfil mais explosivo? Ou ao contrário, precisa vir à tona (de forma equilibrada, claro) para que você aprenda a se impor e se fazer respeitar?

2- Ares no jarro encena claramente um rito de passagem masculino. Em diferentes povos, o rito de passagem dos meninos para a vida adulta é semelhante à situação de Ares: ficam no escuro, sujeito a diversos perigos e ameaças, precisam aprender a gerenciar riscos, suportando o medo e mesmo a dor. Enfim, precisam encontrar sua coragem. E hoje em dia, como você percebe que somos cobrados (independente do gênero ou faixa de idade) a demonstrar nossa coragem? Outro ponto: você ao longo da vida foi incentivado a demonstrar força e coragem ou, ao contrário, a ter atitudes mais delicadas? Como isso repercute na sua vida?

3- Ares só se libertou do jarro com a ajuda de Hermes. Num mito, podemos pensar as diferentes personagens como lados diferentes de uma mesma pessoa. Assim, existem situações em que, por maior que seja a força física, o poder de persuasão e negociação é o que vence. Como é esse equilíbrio no seu dia a dia?

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Escolhas: a que(m) você pertence?

Uma situação muito comum que eu percebo no dia a dia, tanto entre pacientes e mesmo em outras pessoas com quem convivo, é a forma como cada um faz suas escolhas. Encanta reparar naquilo que levam em conta, nas prioridades, medos e desejos que movem cada um e com isso ver como somos únicos e temos, cada um de nós, o nosso próprio encanto. 



O problema é que nem sempre somos tão sinceros assim ao fazer escolhas. Algumas vezes nos deixamos levar por ilusões. E acreditamos nelas tão bem que ficamos como que "cegos" para todo o resto. Passamos a nos debater num mar de conflitos, internos e externos, de informações que não fazem sentido no nosso coração. Isso pode acontecer numa tentativa de agradar outras pessoas, ou apenas por estarmos tão envolvidos em um lado da situação que não conseguimos vê-la como um todo.

Sempre que nós deixamos levar (pelas situações, pelos outros, por visões parciais da realidade), a escolha feita será menos "nossa", menos autônoma do que poderia ser. Não somos de ninguém... Mas ao mesmo tempo, também não somos de nós mesmos. 

A melhor forma de contornar isso é estando afinado com aquilo que valorizamos. Quais são os seus valores? O que é importante para você? Não existe resposta certa ou errada, cada um encontrará, ao analisar o próprio mundo interior, aqueles elementos que fazem mais sentido para si. Importante dizer que não basta conhecer esses valores. É fundamental levar a vida de forma a estar em sintonia com eles. Se, digamos, a família seja um valor para alguém e essa pessoa tiver um estilo de vida em que não possa ter uma convivência constante com a própria família, ou ainda um contexto em que a família seja com frequência desvalorizada, provavelmente o dia a dia será considerado frustrante e as escolhas que se apresentam não serão tão autônomas quanto poderiam.

Nunca pertencemos a nós mesmos por completo. Sempre haverá algo na vida e em nós mesmos que foge do nosso controle - ou no nosso poder de escolha. Seja no mundo interno (não controlamos o que sentimos, por exemplo, apenas escolhemos a forma como lidamos com essas emoções); seja no mundo externo (temos responsabilidades e obrigações na vida que não necessariamente teríamos numa condição de liberdade maior). Entretanto, a chave para uma vida coerente é ter consciência dos próprios valores e, tanto quanto possível, fazer escolhas em sintonia com eles. Nem sempre pertencemos por inteiro a nós mesmos. Mas podemos usar estratégias (como o autoconhecimento e as escolhas sinceras e coerentes com aquilo que somos) para sermos nós mesmos, sermos nossos, tanto quanto possível.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O diário de sonhos: um olhar para dentro

Desde épocas antigas os sonhos intrigam a humanidade. Muitos se interessam por saber que mensagens existem por detrás de seus símbolos, o que o sonho está querendo nos dizer. Sonhos já foram considerados mensagens de deuses, demônios e todo tipo de criatura sobrenatural. Os antigos gregos, quando estavam doentes, iam ao templo de Esculápio (filho médico de Apolo, e deus da medicina), onde participavam de rituais e depois dormiam, para que sonhassem com a cura. Os sonhos também já foram vistos apenas como atividade cerebral sem sentido que acontece enquanto dormimos, ou como algo fundamental para manter a saúde psíquica. Mas não é bem assim, ou melhor, não é apenas assim.

Sonhos são mensagens. E mensagem nenhuma envia a si mesma sozinha! É preciso que alguém as envie... Não! Não falo aqui sobre deuses ou outros seres. Falo sobre o nosso inconsciente, o nosso Eu mais profundo. Assim, os sonhos são mensagens enviadas por uma parte nossa à nossa própria consciência.

Os sonhos têm dois tipos de conteúdo: o conteúdo manifesto (as imagens, falas, sons, sensações, etc. – tudo o que está explícito) e o conteúdo latente (a mensagem decodificada). Sobre o que seriam essas mensagens? Sobre você mesmo, sobre suas escolhas e seu caminho de vida. Os sonhos são instrumentos poderosos de autoconhecimento. Quando trabalhamos com nossos sonhos, podemos descobrir muita coisa sobre nós mesmos. Em pouco tempo, percebemos que nossos sonhos trazem símbolos poderosos que retratam a nossa própria transformação – o processo pelo qual nos construímos e nos tornamos quem somos.

Para perceber melhor esse nosso desenvolvimento, é interessante criar um diário de sonhos. Antes que protestem, digo que todos nós sonhamos. Aliás, sonhamos muitas vezes todas as noites. Na fase de sono REM, que em adultos acontece em média 4 a 5 vezes por noite, os sonhos são mais vívidos e mais carregados de emoção, portanto, mais lembrados.

Dicas para lembrar dos sonhos
Uma boa dica para quem tem dificuldade de lembrar dos sonhos é dar ais atenção a este tipo de assunto. Ter uma rotina relaxante na hora de dormir (banho morno, uma xícara de chá, meditação, oração, leituras tranquilas, etc.) também ajuda muito. Esqueça os problemas e compromissos do dia, é hora de relaxar! Não vá para a cama com fome e nem com o estômago cheio, prefira algo leve, se for comer. Na hora de dormir, use roupas confortáveis, que não prendam seus movimentos, e garanta que você não passe frio e nem calor. Isso interfere na qualidade do sono e na lembrança dos sonhos. Uma dica importante: antes de adormecer, dê a si mesmo a ordem mental de que irá se lembrar dos seus sonhos. Algo simples e direto, do tipo “vou me lembrar dos meus sonhos”. Mentalize a frase várias vezes. Pode não funcionar nas primeiras tentativas, mas insista, persista. Vale a pena descobrir o que seu inconsciente tem a dizer. Ele nos traz mensagens preciosas.

De manhã...
Quando acordar, evite pular da cama. Aliás, evite se mexer demais. Os movimentos interferem na nossa mente, e podem atrapalhar a lembrança dos sonhos. Repasse o sonho na sua mente, do jeito que se lembrar, quantas vezes precisar. Depois, conte o sonho a si mesmo, em seus pensamentos. Contando, isto é, organizando o conteúdo do sonho em palavras, muitas vezes acabamos por lembrar de mais detalhes. Por fim, pegue o seu diário de sonhos e vamos começar as anotações!

Mas Bia, como é esse diário de sonhos?
É um caderno comum. Você escolhe se tiver vontade de customizar a capa, folhas com ou sem linhas (eu prefiro sem, as linhas sempre me atrapalharam!), enfim, fica para cada um decidir como prefere e como é melhor para si. O meu é um caderninho super simples, desses com folhas sem pauta e capa de cartão. O mais importante é NÃO fazer no computador/tablet. Escrever no papel nos faz usar áreas do cérebro diferentes das que usamos para digitar (como a coordenação motora mais refinada). Além disso, percebo com meus pacientes que aqueles que seguem esta orientação se envolvem mais com o projeto e têm resultados melhores. Ah, também NÃO anote naquela mesma agenda que você usa no dia a dia para registrar a reunião com o chefe, as provas da faculdade, as contas para pagar... Respeite seus sonhos (e a si mesmo), faça deste momento algo especial. Outra dica: deixe o diário no criado mundo ou em algum lugar perto da cama. Além de facilitar, vê-lo por lá na hora de se deitar nos prepara para lembrar dos nossos sonhos (lembre-se de deixar também um lápis ou caneta!)

O que anotar?
Fique à vontade para criar seu próprio jeito. Eu gosto de fazer assim:
- Data, dia da semana, fase da lua e momento do meu ciclo menstrual (óbvio, só para as mulheres, pois os símbolos dos sonhos podem mudar de acordo com a fase do nosso ciclo).
- O conteúdo manifesto (o sonho em si), mesmo que se lembre coisas vagas, como “cor de laranja, sensação de sufocamento”. Com o tempo, você lembrará mais detalhes.
- Interpretação. O que o sonho diz? O que te lembra? Quais os símbolos de maior destaque (lembre-se: tudo pode ser um símbolo!)? Que impressões, sensações ou lembranças o sonho traz? A melhor interpretação é a sua própria, lembre-se que foi você mesmo quem codificou a mensagem! Claro, saber sobre símbolos pode ajudar a pensar. O mesmo vale para a mitologia, que pode ser de grande ajuda neste campo, é comum que elementos míticos e até mitos completos apareçam nos nossos sonhos, disfarçados ou até mais claros.
- Detalhes do dia anterior. Teve grandes perdas ou grandes alegrias? O monstro do pesadelo é o mesmo do filme que viu? Algumas vezes nosso sonho usa lembranças do dia anterior (ou mais antigas!). Esteja atento a esses detalhes.


Já dizia o estudioso de mitos Joseph Campbell, “os mitos são sonhos públicos, os sonhos são mitos privados”. Olhando com cuidado a mitologia de um povo, notamos um fio condutor. Nos judeus, muitas vezes esse fio é a criação de leis e obediência-transgressão dessas leis, bem como a recompensa ou punição. Nos gregos, é a busca do equilíbrio, da “justa medida”. Nos romanos, o fio condutor quase sempre é a conquista (de terras, de outros povos, de tesouros, conquistas amorosas, etc.). E na sua mitologia pessoal, nos seus sonhos, qual é o fio condutor? Folheando o diário de sonhos, você pode descobrir isso e muitas outras coisas sobre si mesmo. Basta o olhar atento, com envolvimento e dedicação. Bons sonhos a todos!

Publiquei este artigo originalmente no site Frutos do Carvalho, no dia 16/12/2014.

domingo, 2 de novembro de 2014

Mythos - Ptah: solidez na vida

No Antigo Egito, Ptah era um deus criador em muitos sentidos. Ele modelou e deu vida a diversos outros deuses, e organizou o universo até que ficasse da maneira como nós mortais o conhecemos. Ele também é considerado um deus criador porque é o deus dos artesãos e arquitetos. Ptah é um construtor, e como tal, rege as obras feitas em pedra.

Ptah é marido da deusa Sekhmet (clique aqui para ler sobre ela). Ao contrário da esposa, mais agitada por ser uma guerreira e, em certas ocasiões, movida por acessos de fúria, Ptah é mais centrado, conhecido como "o senhor da verdade" e "aquele que escuta as orações". Mâneton, um antigo historiador e sacerdote egípcio que viveu por volta do século III a.C., considerava que Ptah pode ter sido o primeiro rei egípcio (para este povo, o faraó tinha uma ligação muito próxima com os deuses). 

Quanto a sua imagem, Ptah usa uma túnica longa e na cabeça, uma espécie de gorro, vestimentas que mostram seu grande poder e destaque (no início da civilização egípcia, apenas a nobreza usava roupas, e ainda assim, apenas os adultos. Alguns historiadores apontam que quanto maior o status social da pessoa, mais a roupa lhe cobria o corpo). Ptah geralmente é representado como um homem velho e com barba, mumificado, segurando um cetro com símbolos de vida, força e estabilidade.


Questões para reflexão:

1- Num contexto simbólico, Ptah representa a solidez. Ele é um construtor e rege as obras feitas em pedra, construções fortes e sólidas, que podem durar milênios. Pensando nas suas ações, naquilo que você realiza na sua vida (profissionalmente, no plano afetivo, familiar, social, etc.), qual o grau de "solidez"? As situações e os relacionamentos que você vivencia têm uma estrutura clara e "sólida" ou são passageiros, com pouco envolvimento, "líquidos", para usar a linguagem de Bauman?

2- Os egípcios conheciam Ptah como "o senhor da verdade e "aquele que escuta as orações", ou seja, não é um simples criador, mas alguém que responde por sua obra. E você, qual o seu grau de responsabilidade na vida? Falo sobre a responsabilidade sobre nós mesmos. O quanto você responde por si? Em quais tipos de situação é mais fácil ou mais difícil de assumir suas escolhas e decisões?

3- Ptah carrega os símbolos da vida, força e estabilidade. Você percebe alguma ligação entre esses três elementos? Por que? Por que você acha que foram associados a um deus criador?