quinta-feira, 19 de março de 2015

Rejeição e dor: neurociência e evolução

A rejeição é um sentimento muito frequente na vida do ser humano. Ele surge sempre que nos sentimos deixados de lado, abandonados ou não fazendo parte de um grupo do qual gostaríamos de participar. O sentimento de rejeição está na raiz de problemas como a timidez, dificuldades de relacionamento, medo de falar em público, insegurança ao compartilhar ideias ou sentimentos, entre outros.

Para a psicologia evolucionária, área da psicologia que estuda os processos psicológicos de um ponto de vista evolutivo, o sentimento de rejeição foi um ganho para a espécie humana. O homem primitivo vivia em tribos, e precisavam cooperar e confiar profundamente uns nos outros para que a tribo sobrevivesse. Assim, quando alguém fazia algo que ia contra a ética do grupo, poderia ser abandonado pelo grupo, condenado a viver sozinho. Essa era uma prática comum entre o homem primitivo e mesmo na Antiguidade, por exemplo entre os gregos, que chamavam idiotas aqueles condenados a viver fora das cidades-estado. Ser rejeitado pelo grupo, na época do homem primitivo, era quase uma sentença de morte. Havia muitos perigos. Animais selvagens, dificuldade em conseguir alimento, a própria exposição ao frio ou a condições climáticas adversas. Ninguém sobrevivia por muito tempo fora do grupo. Com isso, na intensão de preservar a vida, nosso cérebro criou redes neurais que nos levaram a temer ou evitar o sentimento de rejeição. Nesse sentido, o sentimento de rejeição foi um ganho evolutivo, embora nem sempre seja algo funcional na vida do ser humano contemporâneo.

Imagem: Kross et al.
Se sentir rejeitado dói. Um grupo de cientistas liderados pelo Dr. Ethan Kross, do departamento de psicologia da Universidade de Michigan, fizeram um estudo comparando a dor da rejeição e a dor física. Surpreendentemente, várias áreas do cérebro ativadas durante uma experiência de rejeição são as mesmas áreas do cérebro que também são ativadas em situações de dor física. Entre essas áreas, temos o tálamo, o giro do cíngulo e estruturas do sistema límbico, responsável pelas emoções e pelo nosso comportamento emocional. Para ler o estudo do Dr Kross, clique aqui. 

Isso nos permite pensar no conceito de dor emocional. Em psicologia, consideramos que uma emoção ou situação causa dor emocional evidente sempre que o paciente se refere a ela em termos de dores físicas. Isso foi uma punhalada nas minhas costas; me corta o coração ver Fulano desse jeito; essa situação é uma grande dor de cabeça; a vontade que tenho é vomitar e colocar para fora tudo isso que sinto; quando ele disse aquilo, tocou na minha ferida; quando isso acontece, pisam no meu calo, entre tantas outras expressões de linguagem que no dia a dia nem sempre damos tanta atenção.

Assim, o sentimento de rejeição e as dores emocionais não são "besteiras". Lembre-se de um momento em que se sentiu rejeitado. Provavelmente essa lembrança ainda dói, caso a situação não tenha sido curada e superada. O sentimento de rejeição, como toda dor emocional ou física, precisa ser examinado com cuidado e, quando é muito forte ou muito frequente, procurar ajuda profissional é uma boa atitude. Não são coisas "esquecidas" com facilidade e precisam de atenção para que não criem redes neurais e comportamentos de esquiva/fuga em situações da vida que poderiam ser vivenciadas de forma leve e prazerosa.

sexta-feira, 6 de março de 2015

O desejo de ser imortal

O desejo de imortalidade sempre acompanhou o ser humano. Isso se mostra de diferentes formas. Tratamentos estéticos que nos fazem parecer "sem idade". A confiança nos avanços da tecnologia médica, capaz de manter viva uma pessoa à beira da morte. As diferentes manifestações da religiosidade, que buscam nos acalmar e preparar para uma possível continuidade da existência em outro plano. A recusa que a nossa sociedade tem em abordar o tema da morte.


Nossa sociedade tem um problema com a morte. Experimente puxar o assunto num grupinho de amigos. As reações variam entre medo, repulsa ou a simples recusa em falar sobre. Saber que vamos morrer um dia - aliás, saber que podemos morrer a qualquer momento causa essas reações, pois frustra o nosso desejo de imortalidade. Como assim vamos "deixar de existir"?

Talvez o nosso erro seja justamente esse. Para que serve o espanto que o "deixar de existir" nos causa? Onde chegaremos nessa busca por evitar a morte? Talvez seja mais compensador trocar o foco. Se vamos morrer de todo jeito, ao invés de não olhar para isso, deveríamos dar uma boa olhada na nossa morte, isso sim. Quando ousamos olhar para a morte, ocorre um encontro místico com a nossa essência mais profunda. Somos lançados diretamente para a vida. Não a vida apática e cheia de ameaças de viver driblando a morte, de viver iludido pela imortalidade. Mas a vida plena de movimento, plena de realização e de momentos daqueles de levar na memória para sempre.

Quando pensamos sobre o que faz a vida da gente valer a pena, podemos ver muitas coisas. Mas essas coisas ganham novos contornos quando pensamos sobre o que faz a morte da gente valer a pena. A vida deixa de ser um aglomerado de experiências e se torna uma aventura mítica. E aí, a morte não é o fim, não é um tabu e nem é assustadora. A morte passa a ser apenas o fechamento de uma boa história, aquilo que "amarra" nossas vivências num todo que faz sentido.